História Dejaria Todo - Capítulo 16


Escrita por: ~

Postado
Categorias MasterChef Brasil
Tags Farosella, Fogasella
Exibições 129
Palavras 3.821
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Hentai, Musical (Songfic), Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Bora ler

Capítulo 16 - Dezesseis


Fanfic / Fanfiction Dejaria Todo - Capítulo 16 - Dezesseis

Quando Paola tomou a menina Luna em seus braços de volta para adentrar em casa, sentiu-se por um momento realizada. Confundindo sua própria mente, que aquela poderia ser sua filha. Mas logo voltara a si, colocando-a sobre a cadeirinha confortável que havia ao lado de sua cama.

– Ela parece à vontade com você – Henrique disse aproximando-se – Logo teremos os nossos

– Está me dizendo que quer ser pai? – O fitou arqueando as sobrancelhas

– Claro, porque não? Você ficaria ainda mais linda gravida, de gêmeos, ou até mesmo trigêmeos.

Carosella riu descordando com a cabeça.

– Ah claro, porque não quadrigêmeos? Você não se importa de acordar de madrugada com o choro de quatro bebezinhos.

– Eu não disse que ia acordar, eu tenho sono pesado e além disso, a mãe sempre tem o jeito para lidar com choros na madrugada, os pais são meio que inseguros sobre isso... – Disse enquanto retirava a camisa branca, lhe roubando um selinho

– Eu não estou ouvindo isso – Revirou os olhos, brincando com as pequenas mãos do bebê – Ela não chorou até agora, isso é normal?

– Claro que é, ela está à vontade, isso é bom.

– O que faremos com os restaurantes? – Ela questionou

– Diego está cuidando do Sal’s, eu posso administrar o Arturito quando você estiver com Luna

– Seria uma ótima conciliação – A morena caminhou até ele, alisando seu peitoral descoberto – Ainda não estou acreditando em tudo isso

– Logo tudo isso acabará – Ele a envolveu pela cintura – Você não confia em mim? – Ela assentiu – Então acredite Paola

Em silencio, já rogava que Ana se recuperasse o mais rápido o possível, para que fosse “devolvida” para onde Paola dizia que era o seu lugar, convivendo consigo, e agora com a razão maior. Profundamente, previa a hora que iria dizer adeus, suplicando para que o que mais temia não acontecesse, entregando-se a fraqueza humana, falhando nos braços de Henrique.

Sua visão tornava-se turva e sentia-se nauseada, seu psicológico lhe perturbava agora fisicamente. Paola poderia dizer que estava sozinha, pois sua desolação lhe colocava assim, as palavras falharam e não conseguia se pronunciar, porque Ana não estava ali. Suas pernas agora sem forças suficientes para mantê-la de pé, e agora ele, fortemente lhe segurando de pé.

– Paola por favor – Murmurou agoniado – Fique de pé caramba

Ele mostrava-se frio, incapaz de sentir. Carosella já o via assim, pensava em Henrique agora, como alguém que não a entendia, porque ele permanecia estático diante de tudo aquilo, situação que era de imensidão, a impiedosa “ficha” havia caído para si, e para ele não. Irritada, fechou o cenho, convicta de que ele não se importava o suficiente.

– Eu não tenho forças e você não compreende – Afirmou impaciente

Saíra dos braços dele, e deitou-se ao lado da criança, aconchegando-a em seu braço. Apoiou-se em um dos cotovelos sobre a cama, e acariciava cuidadosamente o pequeno rosto. Fitou com insatisfação o rosto incrédulo de Henrique Fogaça e desviou seu olhar em seguida.

– Eu já não te entendo, você muda seu humor de uma hora para a outra – Ele disse baixo

– Você não faz diferente, não tem paciência. Não estou nessa sozinha.

– Eu não disse que você faria isso sozinha, eu jamais disse isso Paola – Respondera firme – Pelo contrário, mas você me deixa perdido.

– Você não sente o que eu sinto?

– Paola, Ana também é minha amiga, Luna também é minha afilhada...por favor não

– Às vezes me parece desprovido de sentir, como se fosse alguém sem alma.

– Você não sabe o que está dizendo

– Fale baixo por favor – Ela disse o interrompendo

– Eu não estou falando alto – Fogaça se aproximou, sentando-se de costas para ela na beira da cama – Não demonstro minha dor, mas isso não quer dizer que eu não sinto. Tudo aconteceu repentinamente, temos uma imensa responsabilidade em mãos, e talvez uma criança órfã de pai e mãe. Enfrentar isso para mim não é problema – Acariciava suas próprias mãos – Seria se eu não tivesse você, mas teria que ser você, que é o que é, e não há palavras para lhe explicar, mas eu não irei sair do seu lado, estamos apenas começando.

Ondas quebram, Paola se despedaçou. Mostrar suas lagrimas era o começo de sua imensa dor, começo que exigia o mesmo sentimento para compreender. Ele tinha esse poder, e o colocou em pratica. Provou com firmeza, com algumas palavras bem escolhidas. Paola tentava engolir o choro, suspirava procurando ar, pressentindo que perderia a sã consciência. Mas ele estava ali, bem do seu lado, não seria possível. Luna, em seu papel de recém-nascida manifestou-se segurando com sua pequena mão direita no dedo indicador de Paola, desesperando-se em choro.

– Ela deve estar com fome – Ele disse – Vou preparar a mamadeira

Ela assentiu e o seguiu com os olhos até onde a vista alcançava.

– Você quer a sua mamãe não é bebê – Ela disse fitando a criança, tentando distrai-la com o bicho de pelúcia – Pega o elefantinho que a madrinha deu – Vira que a criança rejeitou – Não? Não né. Eu prometo que logo ela vai estar aqui, você não vai crescer sozinha, nunca. Quer ouvir uma música? É que eu não sei como lidar com bebezinhos assim como você, por favor não chora mais...

Era como se Luna não escutasse o que ela dizia, em sua cabeça ela deveria entender, sabia que era impossível, mas não deixava de desejar. Caminhou com a menina até a vitrola de madeira escura e com dificuldade, colocou o disco, deliciando-se com o barulho da agulha sobre o objeto, notando o choro aos poucos apartado da criança. Acariciava a pequenas costas e até mesmo sorria com a perfeita calmaria da afilhada.

– Gosta de Beatles? – Sussurrou – Ah sim você gosta, dá para ver. Olha a sua carinha rindo. Está bem não dá para ver sua carinha porque ela ainda é de joelho, mas eu sei que você gosta. – A morena já se encontrava balançando-se junto a melodia, para um lado e para o outro – Na na na nananá Hey jude

Henrique, em seu papel de “homem” deixou-se vencer pela linda cena, sua noiva com os cabelos presos em um rabo de cavalo alto, mas com alguns fios caídos sobre a nuca, agarrados pela sua afilhada que repousava a cabeça sobre a curva do pescoço, em paz, tranquila.

– Podemos apelida-la de Jude, se você quiser – Murmurou apoiado sobre a porta

– Jude não era uma menina, e sim um menino. Luna é uma menina, não é amor? – Carosella se aproximou, depositando um selinho na boca dele – Dá para ela, você sabe como segurar um bebê não sabe meu amor tatuado?

Fogaça riu como se fosse a piada do ano. Mas de fato, não sabia. Jamais teve experiências com crianças, e não era preciso dizer que tal brilho em seus olhos deixava claro que queria tornar-se pai.

– Está brincando comigo? É claro que eu sei! Quando eu tinha onze anos cuidava dos bebes das vizinhas lá na casa da minha vó, fazia até essas papinhas que vende em supermercado hoje em dia, eu fazia, SOZINHO. – Estendera seus braços, deixando a mamadeira em cima da cômoda ao seu lado.

Paola o fitou desdém. Duvidava, mas como diz o ditado, “pagaria para ver”, o auxiliando se preciso. Indicou com o dedo para que ele se sentasse sobre a cama, e se aproximou lhe entregando a criança. Sentiu-se até mesmo emocionada, vendo que ela quase cabia perfeitamente em apenas uma das mãos dele. Lhe entregou o objeto e observou a falta de experiência de Henrique, sentando-se ao seu lado, lhe auxiliando como sabia, porque também não tinha experiência.

– Olha como você sabe – Disse irônica

– Isso aqui, é anos de experiências. A Luna é quietinha, os piá la da rua era foda, rebelde.

– Uhum sei agora poupe os palavrões na frente dela, por favor querido.

– Prometo que na sua frente não vou falar mais pequena

Quando vira que a menina havia adormecido, cuidadosamente Fogaça a levou para o quarto que haviam preparado, decorado, com adornos, bichos de pelúcia, mosquiteiro, e todo o tradicional enxoval apropriado. Encarou por inteiros trinta segundos a criança e retornou para Paola, evitando ao máximo para não se emocionar. Algo de seu ser, que pensava ser fraqueza.

Ela, distraída com os lençóis desarrumados sobre a cama, não vira adentrar. Naquele momento ele pensou na saudade que estava em tê-la de modo que a poucos dias tivera. Um vento fresco da tarde mostrava que a noite estava se aproximando, e com ela a carência do corpo quente dela, que se fazia aumentar com o passar dos minutos. Alternou o disco não tão “romântico” para o favorito de Carosella, caminhando até ela em passos largos, segurando forte em sua cintura e colou em seu corpo, encaixando-se perfeitamente.

Carosella sorriu brevemente ao senti-lo

– Fogaça...agora temos uma criança pra cuidar

– Eu não disse que não tínhamos – Disse acariciando seus seios – Mas eu tenho saudades de você argentina...

Ela se virou para ele, notando a malicia carente em seus olhos.

– Me desculpe. Mas esses dias tem sido difíceis. Eu também tenho saudades... – Repousou suas mãos sobre o pescoço dele – Muita

– Muita?

– Sí

– Então porque não mata a suas saudades? – Sussurrou para ela, mordendo seu lóbulo em seguida – Eu estou bem aqui.

Charmosa, o fitou ambígua, fazendo dele seu tabuleiro para que jogasse livremente.

– Eu já estou matando minhas saudades – O empurrou sobre a cama – E você?

Ele alisou as coxas da morena sobre seu colo, e sorriu travesso, e então, descobriram-se mais uma vez em prazeres inimagináveis.

(...)

Quando às três e meia da manhã Paola fora despertada pelo choro da menina, disse a si mesma que aquilo uma hora ou outra iria acontecer, então engoliu o sono interrompido com a sua falta de paciência e abraçou a si mesma, caminhando até a janela fechando-a para que o vento gelado não lhe desse um resfriado, muito menos ao grande homem estirado sobre a cama.

A criança praticamente berrava, impaciente. Ansiava por colo, e ela, no momento, tinha obrigação de oferece-lo. Descalça, sentindo o chão extremamente frio, arrepiou-se. Caminhou com os olhos semiabertos até o quarto próximo ao seu, e ela estava ela, balançando os pequeninos braços no ar, como se quisesse chamar a atenção de alguém.

– Está bem Luna, o que há? – Cuidadosa, aninhou em seus braços o bebe de onze dias – Está com fome? – Ela indagou, sem sucesso obviamente. – Sono como a tia Paola? Acho que não...

Sentou-se sobre a poltrona de couro branco, reclinando-a para que ficasse confortável. Sem considerar acender luz alguma.

– Quer me contar porque você... – Bocejou – Está chorando, pequena? Vamos preparar algo pra você, eu sei, eu sei, você tinha que tomar o leite materno, mas logo o terá. Eu prometo. A sua mãe é uma mulher muito forte sabia...

A menina ainda chorava, desesperadamente. Colocou a garrafa no micro-ondas e caminhava de um lado para o outro, lhe acariciando nas costas.

– Primeiro alguém retornou para a vida dela, e fez você, que é a parte boa. – Acariciou uma das mãos da pequena – Depois partiu, e você finalmente chegou. Só que a sua mamãe não estava muito bem, um dia você vai entender. Mas o doutor Samir, diz que ela é sim forte, ele parece se importar com ela. O que você – Mais uma vez bocejou, escutando o barulho de que o leite já estava pronto. Caminhou até o local e experimentou a temperatura, quase que em uma manobra “radical” com o corpo inclinado – Acha dele?

Aos poucos, ela fora se acalmando. Fazendo com que Carosella percebesse que precisava de que alguém “falasse” consigo. Surpreendeu-se ao vê-la terminar tudo, e agora sorria ao vê-la quieta, e até mesmo, sorrindo levemente.

– Ele é um doutor bonito, não é? Quem sabe ele e sua mãe, não sei...venham a namorar um dia? – A morena riu, só de imaginar.

Luna, por sua vez, voltara a chorar descontrolada.

– O que foi bebê? Já está com ciúmes? – Fechou os olhos ao escuta-la praticamente gritar – Não? Fica calma, vamos tentar dormir... shh...

– O que foi Paola? – Fogaça perguntou coçando os olhos ao vê-la quase que desesperada com a criança no colo – O que ela tem?

Ela bufou irritada.

– Eu não sei mais o que fazer, já dei mamadeira, conversei com ela, mas ela não para de chorar! – Exclamou

– É normal, bebês novinhos choram bastante – Se aproximou, pegando-a em seu colo – O que foi bebê? Não quer dormir? O tio Fogaça e a tia Paola querem, o que acha de deitar com a gente?

– Henrique, o que está dizendo?

– Ela quer, vamos deitar – Ele afirmou

– Você está maluco? Vamos machuca-la!

– Não vamos dormir, ela vai. Ela pode estar se sentindo deslocada, ou até mesmo sozinha.

Carosella assentiu e entrelaçou seu braço ao do tatuado, penteando com as mãos os poucos fios loiros que Vasconcelos possuía, agora calma nos braços de Fogaça.

– Você tem mesmo jeito com crianças, e eu duvidei. – Paola disse quase que em um sussurro

– Eu não tenho, nunca cuidei de criança – Ele se sentou sobre a cama, dê vagarosamente deitando-se, deixando a criança mais segura e confortável possível – Só me lembro da minha avó, lidando com os pirralhos dos meus primos...

Ela estava no meio de Paola e Henrique, que a fitavam esperançosos por seu sono, impedida de se virar pelo edredom.

– Viu? Ela quer que a gente fique perto – Ele disse o baixo possível

Carosella sorriu ao olha-lo, o admirando. Inclinou-se e lhe dera um breve selinho, o fazendo rir. O bebê – que estava no meio dos dois – agarrou o colar com um pingente de bailarina que Paola levava consigo sempre. Presente de Ana, que lhe pertencera nos tempos “antigos”

– O colar bebê? – Ela disse – Ele vai ser seu, um dia.

Fogaça emocionou-se internamente, notando a tamanha conexão mãe-filha, mesmo que fosse mera coincidência. Apoiou-se em um dos cotovelos e acariciava a barriga da criança, no intuito de faze-la adormecer. Paola estava deitava sobre os travesseiros de frente para ele, hora fitando-o, e hora sorrindo com o sucesso do sono recuperado de Luna. Deixou-se vencer também pelo sono, e algumas horas depois despertava naturalmente, não encontrando Henrique sobre a cama.

Caminhou até o banheiro realizando a higiene pessoal-matinal. O tempo todo observando de longe a menina com os braços na altura da cabeça, em perfeita calma. Deixou os cachos livres e investiu em uma roupa leve, calca de modelo “flair” e uma clara camisa de cetim, de acordo com o clima. Dera um breve banho na menina e o adequado café da manhã, já pensando em vesti-la com vestidinhos e meias brancas com sapatinhos modelo boneca. Ainda muito pequena, Paola a vestira com um macacão amarelo de frio, luvas e até mesmo touca.

– Não está tão frio assim – Fogaça murmurou atrás de si, lhe dando um beijo no pescoço.

– Está o suficiente para um bebe de uma semana, onde estava?

– No escritório, como está o café da manhã?

– Ainda não comi, algo errado que eu deva saber? Me parece tenso...

– Impressão sua, amor. Não há nada de errado, e espero que tome o café, temos um dia cheio.

Para Paola, algo incomodava Henrique. Não fazia ideia do que fosse, mas já tivera tal sensação. Algo que envolvesse o esfriamento de tudo aquilo que estava sendo seu relacionamento, as reponsabilidades recentes assumidas. Ela já não enxergava como deveria, desconfiava de todas as possibilidades possíveis.

– Tem certeza? – Insistiu, colocando a criança na cadeirinha

– Paola Florencia Fogaça, está desconfiada, não é?

– Esqueceu do Carosella, e sim, você me dá motivos.

– Eu estava pensando em comprar uma casa, mas era para ser surpresa. No campo, de preferência. Mas como você é um tanto impaciente, não pude fazê-la.

Henrique lhe tirara as palavras. De imediato, lembrou-se da sua infância no campo, e já se permitia pensar em cavalgar ao lado dele, mesmo que fosse difícil de se imaginar.

– Para o futuro que está um tanto próximo, era Jacquin, e eu também lhe expliquei tudo que aconteceu. Ele estará no Sal’s hoje, comandando a cozinha.

Carosella assentiu e sorriu lindamente. Lhe dera um beijo fogoso, despertando a paixão. Mas logo lhe tirou daquilo, afastando-se de seus braços.

E então, Paola Carosella e Henrique Fogaça praticavam tal rotina. Por dias, e até mesmo três semanas praticavam, acordando inúmeras vezes e indo até o quartinho, alternando de vez, revezando. Ela já se via esgotada, estressada por não dormir há dias, pensando no coma que Ana se encontrava, acreditando que aquilo poderia se estender por meses, anos.

Aquilo lhe assustava demasiado, e o mesmo para Henrique, que se responsabilizava pelos restaurantes, que andavam “a todo pano”. No silencio da noite, pedia para que alguém lhe ouvisse e acatasse seu pedido, que era o de que devolvesse Ana Paula, o mais breve possível, saudável como fora.

(...)

Hospital Sírio Libanês

Enquanto ao médico responsável por Ana Paula, o doutor Samir Haddid, encontrava-se mais uma vez, incrédulo e um tanto impressionado.

Ana não reagia aos estímulos propostos pela medicina, e isso já começava a lhe tirar esperanças, em seu papel de profissional, jamais poderia dizer isso aos familiares, mas isso não enganava a sua consciência, que estava em um estado habitual, em peso, agonia, martírio toda vez que adentrava no quarto em que ela estava e a via de olhos fechados, com a mínima atividade cerebral, incapaz de abrir seus olhos, há exatos quatro meses. Em sua rotina, visita-la em seu horário livre era quase que religiosamente, persistia em vê-la. Poderia admitir que possuía carinho pela paciente, e até mesmo pela sua respectiva filha, que apesar de prematura, desenvolvia-se surpreendentemente, sorrindo lindamente, como sempre.

Paola e Henrique insistiam em traze-la para ver, mesmo que seu discernimento estivesse em construção. Quando ao voltar seus lindos olhos castanhos dor de mel a Ana, lembrou-se de Luna, com os mesmos traços, de origem indecifráveis a ele, um tanto diferente, possuía cabelos loiros e olhos esverdeados.

– Eu realmente desejo que um dia você se levante dessa cama, senhorita Vasconcelos. – Murmurou segurando em uma das mãos delicadas dela – Você é tão jovem, me tira o sono toda vez que eu me deito na minha cama e me lembro do seu rosto, incapaz de se expressar, mesmo que incrivelmente lindo. – Respirou profundamente – O que eu estou dizendo... – Afundou seu rosto em suas mãos – Você não pode me compreender...

– Doutor Haddid? – Uma enfermeira disse ao abrir a porta

– Sim? – Posicionou as mãos de Ana sobre o abdômen

– O diretor está lhe chamando, é importante.

Ele assentiu e a observou pela última vez, fechando a porta atrás de si sem hesitar, como queria. Avaliava o prontuário dela mais uma vez, procurando alguma resposta que a tirasse do coma, mas a medicina que exercia não era exata. Isso não significaria que aceitaria, se via como um ser “questionador”, deixando a fé ultrapassar sua profissão, mas procurando resultado imediato, que agora, se fazia necessidade.

– Marco? Gostaria de me ver? – Disse após adentrar no local – Algo errado?

– Talvez – O velho não tão velho disse, virando-se para ele, ainda na cadeira. Apoiando seu indicador sobre as marcas de expressão de sua testa. – Você precisa sair de férias Haddid. Voltar pra síria, sei lá.

– Eu compreendo senhor, e na verdade, eu sou da Turquia. – Sorriu sem mostrar os dentes, abotoando o jaleco após se sentar como ele “ordenou” – Eu acho que devo fazer plantões, há casos que necessitam de uma atenção redobrada, por assim dizer.

– Como o caso da senhorita Padrão?

– Eu quis dizer em muitos casos, senhor. O dela incluído.

– Sim. Compreendo Haddid. – O respondera irônico, desacreditando com força nas palavras do jovem doutor. – Bem, não vejo problema em dar uma atenção a mais aos pacientes, mas está no contrato Haddid, você precisa tirar férias.

Samir bufou insatisfeito. Há exato dois anos adiava suas férias, por motivos que envolviam sua fé na medicina, e um ser maior, contradizendo sua natureza turca.

– E então Haddid? O que me diz? – O velho retirou da gaveta alguns papeis que Samir deveria assinar – Se não assinar, nos colocará em problemas com os responsáveis do assunto.

Haddid refletia. Não queria deixar seus pacientes – especialmente Ana Paula Padrão – sobre os cuidados de outro médico, era jovem, apenas quarenta e dois anos – que diria não ser tão jovem assim – pois em tal instituição, era novo. Possuía sua clínica particular, grande, mas ainda em andamento na metrópole que era São Paulo. Mas não hesitou, seguiria seu contrato. Haddid era neurologista e também, cardiologista, completamente apaixonado pela profissão exercida – com profissionalismo – há exatos dez anos. Assinou o maldito contrato, fazendo Marco Antônio Antunes sorrir satisfeito. Apertou a mão que fora estendida e deixou o local.

Um tanto desolado, caminhou pensativo até a sala de reuniões que estava vazia, passando seu indicador sobre o lábio inferior, apoiado no cotovelo direito sobre a mesa. Pensando em como o responsável por Ana, lhe trataria. Qualquer erro, mínimo que fosse, poderia lhe tirar a vida, e isso já o assustava. E ao menos tinha resposta para tal sentimento, deixando-o sem paz alguma. Quando Paola Carosella lhe disse que estaria tudo bem ao transferir Ana Paula para sua clínica particular, considerava-se tranquilo. E então, dia após dia, procurava soluções na medicina que revertesse de imediato o estado atual dela, sem correr o menor risco de sequelas.

A verdade é que Samir Kahn Haddid, não podia evitar de se apaixonar cada dia mais por Ana Paula Padrão. Em realidade ainda não perceptível para si, deixava seu sono escapar como poeira no vento, temendo que algo acontecesse.

Através da janela de vidro fitava Ana com tal brilho no olhar, que sua emoção mista em vê-la já se tornava habitual.

– Doutor? – Beatriz, sua sócia e também medica lhe chamou, despertando de seus devaneios

– Doutora Beatriz, boa noite.

– Não pretende ir para casa? As enfermeiras estão prontas para o turno da noite... – Indagou próxima a ele

Sem tirar os olhos de Ana, a respondera

– Estou de plantão hoje, se esqueceu? Está na minha vez.

– Certo, boa noite então. Até mais ver doutor Haddid.

– Até doutora Martin.

04:29 AM

Enquanto bebericava o café em sua sala pessoal, lia concentrado o livro que seu pai, também doutor certa vez lhe dera. Lhe disse que a maioria das respostas estariam nele, menos as que envolviam milagres. “Estas procuramos na nossa fé inabalável em um ser onipotente” – Lembrava em sua mente com a voz de seu pai, Farid.

Escutara batidas repetidamente na porta, assustando-se.

– Está aberta – Respondera um tanto aflito

– Doutor Haddid, a paciente Vasconcelos, seus batimentos estão subindo.

Não lhe dissera nada, caminhou com pressa até o quarto e respirou aliviado, eles estavam equilibrando-se sozinhos, mesmo que lentamente. Não temera, pois tratava-se da consciência viva de Ana, fazendo-se presente por meio de talvez, memorias.

Olhou em seu relógio e marcavam cinco horas em ponto, caminhou impaciente de um lado para o outro por inteira meia hora. Quando o monitor lhe mostrou, os batimentos se alteraram, minimamente, não o assustando. Mas algo peculiar lhe surpreendera.

Ana abrira pela metade seus olhos, com imenso esforço, deixando incontáveis lagrimas escorrerem pelo seu rosto, que agora tornava-se expressivo, perceptível através das poucas – e únicas – luzes do monitor.

– Ana?!


Notas Finais


Estamos entrando na reta final galera, mas tem muito mais por vir. Me digam o que estão achando 💜


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...