História Demeros Finre - Capítulo 3


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Categorias Originais
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Palavras 2.479
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, Misticismo, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Mutilação, Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Peço sinceras desculpas pelo extenso período em que não postei.
Tive sérios problemas com este capítulo, cheguei a reescrevê-lo cinco vezes antes de me dar por satisfeito com a coerência do enredo da história. É ele que dá o pontapé inicial para o desenrolar do mistério, então, ao alterá-lo, fui obrigado a rearranjar ideias presentes nos capítulos seguintes que estão semiprontos.
Espero recompensá-los pelo transtorno.

Capítulo 3 - Notebook


Fanfic / Fanfiction Demeros Finre - Capítulo 3 - Notebook

A manhã do dia seguinte parecia ter demorado mais que o normal a chegar, ainda assim ergueu-se luminosa e quente, infiltrando-se pela cortina da janela do quarto de Gabriel, tocando o mesmo com todo o seu calor, subindo desde seus pés até seu rosto, acordando o garoto com a claridade. Seus olhos piscaram sonolentos, sentia-se um tanto confuso e mais cansado que o normal, mas a principio não soube o porquê, até que, ao sentar-se na cama apoiado nas duas mãos, sentiu um dor aguda na esquerda. A noite passada então veio à sua mente como um furacão: o encontro dos dois; a surpresa quando descobriu que havia sido apenas um sonho; a dor da ferida em sua carne; o desespero por não entender bem o que havia acontecido; o medo do que aquilo realmente poderia significar; a tentativa frustrada de fazer um curativo na própria mão e por fim a exaustão mental que o levou a um sono praticamente impossível de resistir. As cenas não paravam de surgir em sua mente e por um momento ele quis que tudo aquilo tivesse sido mesmo um pesadelo.

Ergueu-se do colchão, desta vez tomando cuidado com o machucado, abriu a porta do quarto e foi até o banheiro, precisava de um banho pra relaxar. Retirou as roupas com calma, e desenfaixou a ferida, a marca ainda vertia um pouco de sangue, fazendo com que brilhasse vermelho escuro em alguns pontos e a pele em volta tinha um tom levemente arroxeado. Agoniado com imagem da sua própria mão e com a dor que viria a seguir, Gabriel fechou os olhos fortemente ao colocá-la embaixo da água corrente. Teve vontade de gritar num primeiro momento, mas manteve-se calado, deixando apenas as lágrimas rolarem em silêncio, enquanto aos poucos ia levando o resto do corpo para baixo da água quente.

Durante todo o banho ficou tentando pensar em tudo o que acontecera de uma maneira mais clara, porém, quanto mais usava a racionalidade mais via a si mesmo como um garoto maluco que surtara de uma hora para outra, que agora estava machucando a si mesmo quando pegava no sono. E apesar disso fazer muito mais sentido, seu instinto lhe dizia que nada daquilo fora imaginação ou criação da sua mente, que realmente havia acontecido, e que tinha muito mais ali, coisas que ele precisava descobrir. Terminou de lavar-se com uma ligeira sensação de que estava enlouquecendo e dando desculpas esfarrapadas para justificar sua sanidade mental, ainda sim resolveu que não iria contar nada para ninguém, nem procurar por ajuda, somente se as coisas ficassem realmente perigosas.

Após vestir-se, Gabriel foi até o quarto da mãe, pegando o kit de primeiros socorros de dentro do guarda-roupa e tirando dele um pequeno vidro de álcool, um pouco de algodão, algumas gazes e um rolinho de micro-poro. Havia sido ensinado pela sua mãe a fazer curativos desde pequeno, mas nunca fizera um em si mesmo, muito menos usando apenas uma das mãos. Por ser destro, conseguiu terminá-lo até que razoavelmente, ainda assim foram longos minutos de estresse. Ao devolver o kit, retirou do mesmo lugar uma caixinha de medicamentos, lá havia alguns antibióticos e antiinflamatórios que precisaria tomar durante uns dias se quisesse continuar com as duas mãos.

Não se surpreendeu ao ver diversas mensagens de Zion e Rebecca no seu telefone, além de uma ligação perdida de sua mãe. Avisou aos amigos que não iria à faculdade naquele dia, usou como desculpa o trabalho que estava atrasado e acumulado na sua escrivaninha. Para a matriarca não disse nada além de que acordara atrasado, preferindo não dizer mais nada para que ela não se preocupasse. Sua mãe era uma mulher forte e batalhadora, mas muito ocupada, ela já tinha diversos problemas para lidar no dia a dia, e Gabriel não queria ser mais um deles. Desligou o telefone após aquela ultima ligação, desceu as escadas e foi até a cozinha, onde esquentou a água numa panela e fez um miojo, comeu a iguaria sentado no sofá enquanto assistia desenhos animados na TV.

Mais ou menos uma hora depois, retornou ao quarto, abrindo a porta cautelosamente, como se estivesse entrando num campo minado. Temia encontrar seu fantasma preferido sentado na sua cama lendo um gibi, mas tudo o que achou foram manchas de seu próprio sangue no lençol e uma pilha de revistas teen na escrivaninha. Sentou-se novamente naquela cadeira, preparando-se novamente para retomar o trabalho, mas por alguns minutos ficou apenas olhando o seu reflexo no espelho no guarda-roupa, esperando que alguém fosse sair dali. Novamente nada aconteceu, e Gabriel começou a se sentir um pouco paranóico com tudo aquilo.

 

Dois dias decorreram-se sem que Gabriel saísse de casa, passara a maior parte do tempo em seu quarto fazendo trabalhos acadêmicos, lendo livros, ouvindo música ou apenas dormindo. Não sentia vontade nenhuma de ir de à faculdade, de ver seus colegas, de lidar com o mundo real. Dissera aos seus amigos que estava resfriado, já que o projeto que deveria ser entregue nesta sexta-feira já estava pronto desde terça à noite. À sua mãe não dissera nada demais, apenas que o curativo na mão era devido a um acidente no recorte de revistas. Para todo mundo estava tudo bem, menos para o loiro, que se via dando cada vez mais desculpas para se manter ali, preso naquele quarto, esperando-o voltar.

Por mais que não quisesse admitir, a verdade era essa, ele queria ver o garoto novamente, queria confrontá-lo, entendê-lo. Temia deixar aquela casa por um minuto que fosse e perdê-lo, ao mesmo tempo em que a idéia de encontrá-lo na rua estava fora de cogitação, agir como louco no seu próprio lar e em lugares públicos eram coisas extremamente diferentes. Lembrava-se muito bem da sensação ruim de pessoas cochichando a sua volta depois daquele acidente com o seu almoço no refeitório, e a sensação não era nada agradável. Não queria arriscar passar por mais daqueles momentos, entretanto não poderia manter-se trancado a vida toda. Ainda assim, insistiria em mais alguns dias preso ali dentro, se não tivesse de entregar o bendito trabalho.

Gabriel estava mentalmente exausto e um tanto obcecado com o tal garoto misterioso, porém não iria jogar sua vida acadêmica no lixo por causa disso. Manteria as suas notas o máximo que pudesse, e não se importaria em deixar de ir durante alguns dias, já que quase não havia faltas no seu currículo escolar. Colocaria apenas a mãe e a faculdade acima de tudo aquilo enquanto não se desse por satisfeito em, pelo menos, tentar descobrir o porquê e o como estas coisas aconteciam consigo.

Foi fixando esses pensamentos em mente que o loiro tomou coragem para sair de casa na manhã nublada. Parecia que o dia havia se conservado com o mesmo humor que ele, um tanto frio e cinza, como as roupas que Gabriel usava. Ele somente despertara de verdade dentro do ônibus, já chegando perto do ponto em que descia, e percebera que sol também demorara a sair. "Estamos em sintonia", pensou enquanto caminhava até o portão, podendo ver os amigos lhe esperando do lado de fora animados, contentes em vê-lo. Sentira falta dos mesmos, é claro, no entanto seu humor estava tão obscuro que se manteve quieto o tempo todo. Durante o trajeto até a aula de fotojornalismo eles conversaram intermitentemente, contando sobre o que acontecera no período em que faltara, as provas marcadas, os seminários dados e as fofocas que corriam pelos corredores.

Assim que o professor entrou em sala, Gabriel respirou fundo e sentiu que poderia relaxar por alguns momentos. Estava começando a se sentir incomodado num ambiente com tantas pessoas, o barulho o irritava e as luzes artificiais do prédio o deixam com dor de cabeça. Era como se no instante em que pisara os pés ali, automaticamente uma gripe fortíssima o assolara. Sentia-se levemente zonzo e sonolento. Fora o primeiro a entregar o trabalho, apenas para poder sentar-se novamente e fazer com que a sensação de estar sendo chacoalhado parasse. No decorrer das aulas, o loiro quis levantar-se e ir embora dali, entretanto, tinha medo de que a tontura o fizesse cair no meio do caminho, fazendo-o chamar mais atenção para si do que queria. Um alívio tomou conta de si quando os alunos começaram a sair para almoçar, e depois de um pouco de insistência por parte dos seus amigos para que comesse algo com eles, Gabriel finalmente foi deixado sozinho no sossego da sala vazia.

Estava quieto, com a cabeça deitada nos braços cruzados sobre a mesa, ele estava infinitamente melhor, a maioria dos sintomas haviam passado menos a sonolência que o fizera agradecer mentalmente quem desligara a luz. Uma faixa de claridade vinda do corredor entrava por uma pequena janelinha retangular na porta, o que não deixava o lugar totalmente às escuras. Sentado no canto oposto perto do fundo da sala, era praticamente impossível vê-lo do lado de fora, o que diminuía as chances de alguma pessoa passar por ali e resolver importuná-lo.

De olhos fechados, Gabriel relaxara ao máximo, chegando ao ponto de quase pegar no sono, se não fosse um ruído acordá-lo algum tempo depois. Passaria despercebido se fosse a qualquer outro momento, mas ali, naquela hora em que o único barulho era o som baixo de cochichos, que vinham da sala dos professores daquele andar, um tanto distante de onde estava. Permaneceu de olhos fechados, enquanto a porta da sala abria-se, aumentando um pouco da claridade vinda de luzes externas, fechando-se lentamente logo em seguida, dando lugar às batidas ritmadas de passos se aproximando.

“Algum aluno deve ter esquecido algo na sala” pensa o loiro, e resolve fingir que dormia de verdade, já que não queria ver ou falar com ninguém naquele instante. Conservou-se daquela forma o máximo que pode, mas conforme os passos aproximavam-se de si, Gabriel começou a sentir-se inquieto, e principalmente, curioso. A vontade de elevar o rosto e ver quem estava ali consigo estava presente, e seu subconsciente gritava por isso, mas uma sensação desconfortável o mantinha inerte naquela posição.

As passadas silenciaram-se assim que o individuo achegou-se a mesa dele, tão perto que era possível escutar sua respiração e sentir um pouco do calor de seu corpo. Nitidamente, como se observasse a cena de fora, Gabriel percebeu que o outro se inclinara em sua direção, em momento nenhum se encostando a ele. Em seguida ouviu o baque surdo de algo não muito pesado sendo colocado em sua mesa, ao lado de seu rosto. E como se saísse aos poucos de uma maldição de contos de fadas, todo o cansaço físico e mental que o assolara desde que havia chego à faculdade naquela manhã foi abandonando seu corpo conforme o desconhecido afastava-se de si.

Livre de algo que se assemelhava a um estado de letargia, ergueu-se o mais rápido que pode, encontrando a sala vazia e porta entreaberta. Intrigado, ele vai até a mesma, abrindo-a para verificar o corredor de ponta a ponta. Sem sinal de mais alguém por lá, Gabriel entra novamente na sala e fecha a porta, mas ao invés de retornar ao seu assento, ele encosta ligeiramente na parede, observando o corredor através da pequena janela retangular instalada ali, tentando não denunciar-se, já que suspeitava que quem quer que fosse que estivera ali, tomaria o cuidado de não ser pego em flagrante por ele.

Alguns segundos se passaram até que visse sair de uma das salas próximas a sua uma figura que lhe era muito familiar. De camiseta branca sobreposta a uma camisa de flanela, jeans claros desgastados nos joelhos e uma cabeleira alaranjada completamente bagunçada, Vince olha para os dois lados do corredor, conferindo se estava realmente sozinho, ele segue silenciosamente até a escadaria na lateral do prédio, com uma postura um tanto desconfiada e um andar cauteloso. "O que Vince estaria fazendo ali?" pensa Gabriel antes de voltar para a sua carteira, onde uma surpresa estranha o aguardava.

 

Antes que pudesse realmente dar conta de toda a situação, os elevadores se abriram e as diversas vozes preencheram o vazio do silencio que até então se instalara naquele local. Era como se naquele dia todos na faculdade resolvessem retornar do almoço ao mesmo tempo, espalhando-se para novamente aglomerar-se dentro das salas e entre elas. Toda aquela algazarra distraiu Gabriel por alguns instantes, fazendo-o retornar sua atenção ao pequeno mistério agora em suas mãos, apenas após o começo da aula seguinte.

Assim que o professor começou seu monólogo do dia, o loiro desligou-se completamente do mundo a sua volta e ficou a observar o motivo de tudo aquilo que se passara durante o intervalo, um caderno de anotações velho, ligeiramente grosso, revestido de couro marrom bem desgastado. À primeira vista, o objeto lembrou-o filmes de aventura, como aqueles de caça ao tesouro ou a terras desconhecidas, mas num segundo olhar, pensou em séries antigas de detetives, e se imaginou o próprio Sherlock Holmes, e não conteve uma risada baixa.

Passou um bom tempo apenas contemplando-o, com certo receio em tocá-lo, como se não devesse mexer em algo que não era seu. Aos poucos essa sensação foi passando, junto com o entendimento de que aquele caderno estava ali porque alguém queria que ele visse o que havia dentro. Segurou-o entre os dedos, curioso. Checou primeiramente a parte externa e interna das capas, procurando inutilmente encontrar nome, assinatura, dedicatória ou qualquer sinal que o levasse a descobrir a identidade do dono do objeto. Em seguida, folheou-o sem se prender ao conteúdo ali presente, percebendo claramente que o mesmo havia sido escrito à mão.

Surpreso, Gabriel examinou mais uma vez, com mais calma, encontrando apenas na última das folhas não pautadas um recorte que parecia ter sido retirado de um livro de história ou de uma enciclopédia. Nele havia a foto de uma pintura muito antiga junto de um texto que descrevia um temível imperador que tomara grande parte do território do que hoje seria o leste asiático, num período antes de Cristo. Seu nome era Mei Yu, escrito com os caracteres tradicionais de beleza e chuva, sem realmente terem juntos um significado especifico, já os ocidentais, dizia ali, costumavam chamá-lo de Markus.

Ao terminar de ler o trecho, pegou-se imaginando o que teria contido naquele objeto para que fizesse necessário o uso daquela informação. Ia voltar à primeira página e iniciar a leitura do início, quando percebeu que havia algo de familiar na pintura. Aproximou o caderno do rosto e piscou algumas vezes, um tanto atônito, procurando entender o que via bem diante de seus olhos. Um choque percorreu toda sua espinha, deixando-o completamente arrepiado, sentindo como se um nó crescesse em sua garganta e uma avalanche congelasse seu cérebro. “Não é possível...” pensou Gabriel antes de encarar novamente a figura do rapaz de pele clara e cabelos tão escuros. O homem ali representado era extremamente parecido com o garoto que perseguia os seus sonhos.


Notas Finais


Espero que quem leu tenha gostado.
Tentarei postar o próximo capítulo em duas semanas.
Para os que gostam de ouvir música enquanto lê, recomendo a playlist Melancholia do Spotify.
Obrigado por ler até aqui.


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