História Denso Como Sangue - Capítulo 26


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Drama, Ethan Farlane, Kenny Lee, Red Larissa, Reformatório
Visualizações 8
Palavras 1.570
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Festa, Mistério, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Suspense, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 26 - O Diagnóstico


31 de Agosto, eu sinto falta do meu irmão aqui...

A única coisa que diferenciavam meus dias aqui eram as minhas anotações no diário que carregava comigo, e também o humor inconstante de meu nada agradável colega de quarto. Ícarus oscilava entre dois pontos básicos e bastante distintos de humor: a euforia, que chegava a ser irritante porque ele não calava a boca em hipótese alguma; e a depressão, em que ele se isolava de todos os outros pacientes e ficava deitado na cama, me ignorando e ficando irritantemente calado. Hoje era um dos dias calados. Eu não havia conseguido dormir direito, tinha a sensação estranha de estar sendo observado e isso me incomodou de certa forma, foi então que eu parei de anotar meu dia e olhei para um desenho no canto da página: eu havia esboçado uma caricatura de Ethan no dia anterior, sentia saudades do meu irmão, eu fui um pouco infantil com ele da última vez que nos vimos.

_Sinto falta do Ethan. - digo, pensando alto, mas Ícarus resmungou de volta - Eu não queria ter brigado com ele antes de vir pra cá, eu sinto que o peso na consciência vai ser demais pra carregar, sabe? Eu queria que ele entendesse que eu me senti traído quando ele concordou em me internar aqui, eu não sou maluco. - continuo enquanto Ícarus parecia estar me ouvindo - Desculpa, eu sei que você não gosta desse termo aqui, nem todos aqui são simplesmente malucos.

_Disse alguma coisa? - resmungou Ícarus, coçando os olhos sonolentos - Eu não ouvi nada antes de malucos. - disse e voltou a olhar para a parede.

_Não, não disse nada. - respondo emburrado, olhando fixamente para frente com o queixo apoiado à mão - Vou dar uma volta no corredor, deveria fazer o mesmo.

Novamente o silêncio mórbido tomou conta do quarto, suspirei pesado, irritado com a indiferença de Ícarus, não o culpo, mas também não o perdôo. Vou até o lado do pátio, onde o gramado cobria boa parte do lugar, Jesse estava sozinho, fazendo um origami se mexer com os dedos, olhava para o papel com os mesmos olhos que eu olhava para os meus desenhos, supus que era ele quem fazia aquelas garcinhas de papel colorido.

_Posso sentar com você? Ícarus não tá de bom humor hoje, sabe como é, ele tá num daqueles dias. - peço e ele sorriu amigável, chegando para o lado.

_Claro, fica a vontade. - respondeu e voltou a se concentrar no seu origami.

_Gostei do seu bichinho, você quem fez? - digo me sentando ao seu lado.

_É a única coisa que deixam a gente fazer aqui, sabe? Pintar, desenhar, música, origamis... - ele deu um sorriso fraco, parecia estar triste, ou simplesmente não queria aceitar que estava preso aqui - Arte é a única terapia que eu gosto de fazer aqui.

_Também sente falta do lado de fora? - pergunto e ele acena com a cabeça, abraço minhas canelas e ele me olha interessado - Sinto falta do meu irmão.

_Vocês são muito próximos? - perguntou ele soltando o origami no chão e pegando outra folha colorida.

_Somos muito próximos, mas só o conheço há alguns meses. - Jess me olhou intrigado e me apressei em explicar - É que somos filhos de mães diferentes.

_Ah, claro, isso explica tudo. - disse dobrando o papel avermelhado em dois triângulos - E por que parece triste? Vocês brigaram?

_Na verdade, sim, nós tivemos um problema com a minha internação, eu não queria estar aqui. - digo colocando a cabeça entre os joelhos.

_Você não precisa culpar seu irmão, eu também não gosto daqui, mas ele deve ter tido seus motivos. - disse segurando meu ombro.

_Eu tentei me matar, várias vezes, ele não sabia o que fazer e tinha medo que eu fizesse isso de novo. - Jesse retirou a mão de meu ombro e colocou sobre a boca - Desculpa se isso te assusta.

_Não, eu é quem peço desculpas, eu não sabia que você tinha um problema tão sério. - disse formando uma garça vermelha - Toma, pode ficar com essa, considere um presente pra você. - disse me estendendo a ave.

_Obrigado, Jesse, vou guardar ela comigo. - digo colocando ela em meu bolso - Mudando de assunto, o Ícarus me assusta, parece que ele não tem sentimentos quando tá nesses dias.

_E alguma vez ele já teve? - perguntou ele soltando um riso dolorido.

_Você e ele se magoaram muito, não é? - ele apenas deu de ombros - Acho que ele ainda não aceita que você tenha fugido daquele jeito, sabe, acho que ele ainda gosta de você.

Jesse deu uma risada fraca e olhou para mim com uma expressão curiosa e irônica.

_Ele não gosta de ninguém além da irmã, Kenneth, você ainda não conhece o Ícarus por completo.

_Acho que ele não é mais o mesmo Ícarus que você conheceu. - digo me apoiando para trás, sinto uma sombra se formar sobre minha cabeça e abro os olhos assustado, dando de cara com a Doutora Sarah - Olá, Doutora.

_Pode me chamar só de Sarah, Kenny. - disse segurando a prancheta e olhando na direção de Jesse - Jesse, vou precisar do Kenny por um tempo, se importa? - perguntou e ele retribuiu o sorriso discreto que Sarah o dirigia.

_Sim, eu já estava de saída mesmo. Boa sorte, Kenneth. - disse levantando e batendo de leve em meu ombro.

"Boa sorte"? Isso não é bom.

_Kenny, preciso fazer uma avaliação em você, pra atualizar o seu diagnóstico, não se preocupe, não vai ter nenhum exame invasivo ou coisa do tipo, vão ser só algumas perguntas sobre você, é rotina, fazemos isso quando eu recebo um paciente novo. - explicou ela e me levantei, a seguindo enquanto ela virava as páginas e andava até a sua sala.

_Tudo bem. - digo torcendo de leve a barra das minhas mangas.

[...]

_Pode se sentar como você se achar mais confortável, isso pode demorar um pouco. - disse estendendo a mão na direção do sofá confortável na frente de uma poltrona de couro azul escuro.

_Tudo bem, obrigado. - digo me sentando da mesma forma que eu estava no pátio antes. Sarah ligou um gravador na mesa de centro e pegou uma xícara, enchendo com chá.

Diferente do resto do prédio, o consultório da Doutora era amplo e parecia em perfeito estado, as paredes eram de um tom de azul acinzentado que me lembrou do meu antigo quarto em St. Patrick, no canto da sala, havia uma mesa de trabalho de madeira branca e uma cadeira de escritório da mesma cor que a poltrona, em cima da mesa, um computador e um jarro com chá verde.

_Pode dizer seu nome e idade, por favor? Pra registro. - disse começando.

_Kenneth Winston Lee, 16 anos. - disse torcendo a barra da camiseta branca que usava.

_Bom, Kenny, aqui no seu registro médico diz que você foi a um psicólogo pela primeira vez aos doze anos, por causa de um episódio violento na sua escola antiga, pode me explicar melhor? - perguntou e pisquei algumas vezes, assimilando a pergunta.

_Eu tinha... eu sofria com bullying na escola, e só ficou pior conforme o caso de atentado, eu não lembro de muita coisa do psicólogo. - disse apertando o tecido entre os dedos.

_Existem lacunas no seu diagnóstico, aqui consta que você teve um pré diagnóstico de ansiedade e princípio de depressão, mas o seu registro é de três ou quatro anos atrás, desde então você tem tomado os mesmos remédios. - disse segurando o meu prontuário médico - O que eu não consigo entender é como um psicólogo não percebeu que um adolescente de treze anos tinha tendências suicidas. - continuou e me encarou por tensos segundos, sentia que aquele era o momento em que eu precisava falar alguma coisa.

_Eu não contei isso... não contei isso ao psicólogo, ninguém sabia que eu me mutilava até entrar no ensino médio. - explico e ela arqueia as sobrancelhas.

_Quando isso começou? - perguntou Sarah, pegando uma caneta do seu cabelo.

_Tudo? - ela concordou com a cabeça - Quando meu pai biológico abandonou minha mãe, antes de eu nascer.

_Pode me contar essa história? - pediu anotando alguma coisa.

_Meu pai abandonou minha mãe quando eu ainda não tinha nascido. Alguns anos depois ele apareceu na minha casa porque meu irmão tinha fugido dele e foi procurar por ela e por mim, ele me empurrou contra uma parede e eu não lembro de muita coisa, era muito pequeno, não entendi o que tinha acontecido, mas cresci odiando ele. - digo embolando o tecido nos meus dedos - Então eu sofri bullying durante muitos anos de escola, mas eu não disse nada, minha mãe não merecia ouvir, foi então que comecei a pensar que a vida dela seria mais fácil se eu não estivesse com ela, e foi então que as mutilações começaram... - Sarah ergueu a mão.

_Que idade você tinha? - perguntou e mordi o lábio.

_Da primeira vez, dez anos, da segunda em diante, doze. - respondo envergonhado.

_Você se sente abandonado por sua família?

Aquela pergunta acabou caindo como uma bomba no meu colo.

_Sim.

Silêncio...

_Kenneth, eu sinto muito dizer isso, mas você tem Transtorno Borderline. - disse segurando meu ombro.

A bomba acabou de explodir.



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