História Depois de Você ☆ Johnlock Version - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias Sherlock
Personagens Dr. John Watson, Irene Adler, Molly Hooper, Mrs. Hudson, Mycroft Holmes, Personagens Originais, Rosamund Mary Watson, Sally Donovan, Sherlock Holmes
Tags Johnlock, Sherlock
Visualizações 13
Palavras 3.406
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 3 - Terceiro pulo


Ao olhar para trás, percebo que fiquei um pouco atordoado nos primeiros nove meses após a morte de Victor. Fui direto para Paris e simplesmente não voltei para casa, eufórico com a liberdade, com os desejos que Victor despertara em mim. Arranjei um emprego num dos bares preferidos dos imigrantes, onde ninguém se incomodava com meu francês horrível, que no final acabou melhorando. Aluguei um quartinho num sótão, no décimo sexto arrondissement, em cima de um restaurante de comida do Oriente Médio, e ficava acordado na cama ouvindo o barulho dos beberrões notívagos e as entregas matinais. Todo dia eu tinha a impressão de estar levando a vida de outra pessoa.

Naqueles primeiros meses, parecia que eu estava em carne viva: eu sentia tudo com mais intensidade. Acordava rindo ou chorando, enxergava todas as coisas como se um filtro tivesse sido removido. Experimentava comidas novas, andava por ruas desconhecidas, falava com as pessoas numa língua que não era a minha. De vez em quando eu me sentia assombrado por Victor, como se estivesse vendo tudo pelos olhos dele, como se escutasse a voz dele no meu ouvido.

E, então, o que acha disso, Holmes?

Eu disse que você ia adorar. Coma! Prove! Vá em frente!

Eu estava perdido sem nossa rotina. Minhas mãos demoraram semanas para não se sentir inúteis sem o contato diário com o corpo dele: a camisa macia que eu abotoava, as mãos quentes e imóveis que eu lavava com delicadeza, o cabelo sedoso que eu ainda conseguia sentir entre meus dedos. A voz dele e a risada abrupta conquistada a duras penas faziam falta, assim como o toque dos seus lábios nos meus dedos, o jeito que suas pálpebras baixavam quando ele estava quase pegando no sono. Minha mãe, ainda horrorizada com a minha participação naquilo, me dissera que, embora me amasse, não era capaz de conciliar esse Sherlock com o filho que ela criara. Assim, tendo perdido minha família e o homem que eu amava, todos os vínculos que eu possuía com quem eu era foram cortados. Tinha a sensação de que eu simplesmente saíra voando, sem amarras, para algum universo desconhecido.

Então encenei uma vida nova. Fiz amizades casuais com outros turistas, sempre mantendo certa distância: jovens estudantes ingleses em anos sabáticos, americanos refazendo os passos de heróis literários, convencidos de que nunca voltariam ao Meio-Oeste, jovens banqueiros ricos, gente visitando a cidade inteira em um único dia, um conjunto de pessoas sempre diferente que chegava e ia embora, como fugitivos de outras vidas. Eu sorria, conversava e trabalhava, e dizia a mim mesmo que estava fazendo o que ele queria. E, pelo menos nisso, tinha que haver algum consolo.

O inverno passou e a primavera foi linda. Mas de repente acordei certa manhã e percebi que tinha me desapaixonado por Paris. Ou pelo menos não me sentia parisiense o bastante para continuar ali. As histórias dos imigrantes começaram a soar enfadonhamente parecidas, os parisienses, a parecer antipáticos, e no  mmínimo eu notava várias vezes por dia, de inúmeras maneiras, que nunca me integraria completamente. A cidade, fascinante como era, passava a impressão de ser um glamoroso terno de alta-costura que eu comprara às pressas, mas que, no final das contas, não caía bem em mim. Pedi demissão e fui viajar pela Europa.

Nunca passei dois meses me sentindo tão inadequado. Eu ficava quase o tempo todo sozinho. Odiava não saber onde ia dormir a cada noite, estava sempre ansiosa com os horários dos trens e com a moeda corrente, além de ter dificuldade para fazer amigos por não confiar em ninguém que eu conhecia. E o que eu podia dizer sobre mim mesmo, afinal? Quando as pessoas me perguntavam, eu só mencionava os detalhes mais superficiais.

Não podia compartilhar nada que era importante ou interessante a meu respeito. Sem ter alguém com quem conversar, toda paisagem que eu via —fosse a Fontana di Trevi ou um canal em Amsterdã — parecia apenas mais um lugar para riscar da lista. Passei a última semana numa praia na Grécia que me lembrou demais de outra que eu tinha visitado com Victor pouco tempo antes. Por fim, após passar uma semana sentado na areia dando fora em homens bronzeados — sendo que todos pareciam se chamar Dmitri — e tentando me convencer de que estava realmente me divertindo, desisti e voltei para Paris. Foi a primeira vez que me dei conta de que não tinha outro lugar para ir.

Por duas semanas dormi no sofá de uma garota que trabalhava comigo no bar, enquanto tentava decidir o que fazer em seguida. Depois de recordar uma conversa que tivera com Victor sobre carreira, escrevi para várias faculdades me candidatando para os cursos de Física, mas, como eu não tinha experiência profissional, fui educadamente recusado. A vaga que eu originalmente conseguira após a morte de Victor havia sido cedida para outra pessoa, porque eu não consegui trancar a matrícula. O coordenador disse que eu poderia me candidatar de novo no ano seguinte, mas pelo seu tom deu para notar que ele sabia que eu não faria isso.

Fiz uma pesquisa em sites de emprego e percebi que, apesar de tudo pelo que passei, eu ainda não tinha qualificação para nenhum trabalho que poderia me interessar. E depois, por acaso, justo quando eu estava me perguntando o que fazer em seguida, Michael Lawler, advogado de Victor, me ligou e sugeriu que estava na hora de fazer alguma coisa com o dinheiro que ele deixara. Era a desculpa de que eu precisava para me mudar. Lawler me ajudou a negociar o preço assustadoramente alto de um apartamento de dois quartos próximo ao centro de Londres, que comprei sobretudo porque me lembrei da vez em que Victor citou o bar de vinhos na esquina, e isso me fazia sentir um pouco mais perto dele. Usei a pequena quantia que sobrou para mobiliá-lo. Seis semanas depois, voltei para a Inglaterra, arranjei um emprego no Shamrock and Clover, dormi com um homem chamado Phil, que eu nunca mais vi, e esperei me sentir como se eu realmente tivesse começado a viver.

Nove meses se passaram e eu continuava esperando.

* * *

Não saí muito durante a primeira semana que passei na casa dos meus pais.

Eu estava com dor, me cansava com facilidade, então era fácil ficar deitado na cama e cochilar, derrubado por analgésicos fortíssimos, além de dizer a mim mesmo que deixar meu corpo se recuperar era a única coisa que importava. De alguma forma estranha, ter voltado para a pequena casa da nossa família funcionou para mim: foi o primeiro lugar onde consegui dormir mais de quatro horas seguidas desde que eu fora embora. Tudo lá era suficientemente pequeno, portanto eu sempre conseguia encontrar uma parede para me escorar. Minha mãe me alimentava, meu avô me fazia companhia (Mycroft tinha voltado para a faculdade e levara Thom) e eu via bastante televisão durante o dia, espantado com os comerciais sem fim de empresas de crédito e cadeiras elevatórias, além das preocupações com subcelebridades, que após mais de um ano fora, eu era incapaz de reconhecer. Era como estar num pequeno casulo, onde com certeza havia um elefante descomunal agachado no canto.

Não tocávamos em nenhum assunto que pudesse perturbar esse delicado equilíbrio. Eu via uma notícia qualquer sobre celebridades nos programas diurnos da televisão e depois, durante o jantar, comentava:

— Bem, e aquela Shayna West, hein?

E, com gratidão, mamãe e papai discutiam o tópico, afirmando que ela era uma vagabunda, tinha um cabelo bonito ou que não podia ser melhor do que era. Assistíamos a Pechinchas No Seu Sótão (“Sempre me pergunto quanto aquela jardineira vitoriana da sua mãe custaria… Que velharia feia”) e Casas Ideais No Campo (“Eu não daria banho num cachorro naquele banheiro”). Eu não pensava em nada além da hora de cada refeição, além dos desafios básicos de me vestir, escovar os dentes e completar quaisquer pequenas tarefas que minha mãe me passasse (“Sabe, querido, enquanto eu estiver na rua, você poderia separar sua roupa suja, porque aí eu lavo com as minhas roupas coloridas”).

No entanto, feito uma maré que sobe lentamente, o mundo externo insistia em se intrometer. Eu ouvia os vizinhos fazendo perguntas à minha mãe quando ela ia pendurar roupa no varal. Então quer dizer que o seu Sherlock está em casa? E minha mãe dava uma resposta atipicamente seca: Está. Eu evitava os cômodos da casa que davam para o castelo. Mas sabia que estava lá, que tinha gente morando lá, respirando vínculos com Victor. Às vezes eu me perguntava o que havia acontecido com essas pessoas. Quando eu estava em Paris, me encaminharam uma carta que a Sra. Trevor enviou para me agradecer formalmente por tudo o que eu havia feito pelo filho dela. “Tenho consciência de que você fez tudo o que pôde.” Mas foi só isso.

Depois de ser a minha vida, aquela família virou um vestígio fantasmagórico de uma época de que eu não me permitiria lembrar. Mas enquanto nossa rua passava várias horas à sombra do castelo, eu sentia a presença dos Trevor como uma reprimenda.

Já fazia duas semanas que eu estava em casa quando me dei conta de que minha mãe e meu pai não iam mais aos encontros sociais.

— Hoje não é terça-feira? — perguntei na terceira semana, quando estávamos sentados à mesa de jantar. — Vocês já não deviam ter ido?

Os dois se entreolharam.

— Ah, não. Estamos bem aqui — respondeu meu pai, mastigando um pedaço da costela de porco.

— Estou bem sozinho, de verdade — falei. — Já me sinto muito melhor. E fico feliz vendo televisão.

No fundo, eu queria poder ficar sentado, sem ninguém me olhando, só eu na sala. Eles não tinham me deixado sozinho por mais de meia hora desde que eu voltara para casa.

— Sério. Saiam e divirtam-se. Não se preocupem comigo.

— Nós… nós não vamos mais a esses encontros — disse minha mãe, fatiando uma batata.

— As pessoas… Elas falam muito. Sobre o que aconteceu. — Meu pai deu de ombros. — No final das contas foi mais fácil simplesmente ficar fora disso.

O silêncio que se seguiu durou seis minutos inteiros.

E havia outros lembretes mais concretos da vida que eu deixara para trás.

Lembretes que usavam calças de corrida coladas e com propriedades especiais de absorção.

Apenas na quarta manhã que Moriarty passou fazendo cooper diante da nossa casa eu percebi que aquilo poderia ser mais do que só coincidência.

Ouvi a voz dele no primeiro dia e, sonolento, fui mancando até a janela e espiei através da persiana. Lá estava ele, alongando os músculos da coxa enquanto conversava com uma loura de rabo de cavalo. Ela usava uma roupa de lycra azul que combinava com a dele, tão justa que dava até para ver o que tinha comido no café da manhã. Os dois pareciam atletas olímpicos, só faltava o trenó de bobsled.

Afastei-me da janela para eles não me verem caso erguessem a cabeça, e um minuto depois haviam sumido de novo, correndo pela rua, as costas eretas, as pernas se movendo para a frente e para trás, como dois cavalos de charrete turquesa e reluzente.

Dois dias depois, eu estava me arrumando quando os ouvi. Moriarty falava alto sobre aumentar o consumo de carboidratos, e dessa vez a garota olhou desconfiada para a minha casa, como se estivesse se perguntando por que eles haviam parado duas vezes exatamente no mesmo lugar.

No terceiro dia, eu estava na sala com meu avô quando eles apareceram.

— A gente devia treinar sprints — dizia Moriarty com a voz elevada. — Veja, você vai até o terceiro poste, volta e eu cronometro seu tempo. Intervalos de dois minutos. Vá!

Meu avô revirou os olhos significativamente.

— Ele tem feito isso o tempo todo desde que voltei?

Os olhos de vovô reviraram quase até ir parar na parte de trás da cabeça.

Através das cortinas de renda fiquei observando Moriarty ali de pé, com os olhos fixos no cronômetro, seu melhor lado virado para a minha janela.

Vestia um casaco preto de fleece com zíper e uma bermuda de lycra combinando. Como ele estava parado logo do outro lado da cortina, consegui encará-lo, espantada com o fato de que aquela havia sido uma pessoa que, durante tanto tempo, eu tivera certeza de amar.

— Continue! — gritou ele, erguendo os olhos do cronômetro. Feito um cão de caça obediente, a garota tocou o poste ao lado dele e voltou a correr como um raio. — Quarenta e dois segundos e trinta e oito décimos —elogiou ele, quando ela voltou, ofegante. — Acho que você pode diminuir cinco décimos de segundo desse tempo.

— Isso é para você — disse minha mãe, entrando na sala com duas canecas.

— Achei mesmo que fosse.

— A mãe dele me perguntou no supermercado se você tinha voltado e eu respondi que sim. Não me olhe desse jeito. Eu não ia conseguir mentir para a mulher. — Ela apontou com a cabeça para a janela. — Aquela ali operou os seios. Eles são o assunto do momento em Stortfold. Parece que dá para apoiar duas xícaras de chá nos peitos dela. — Minha mãe foi para o meu lado. — Sabia que os dois estão noivos?

Esperei sentir uma pontada, mas foi tão suave que poderia ser apenas ar.

— Eles parecem… feitos um para o outro.

Ela ficou ali parada por mais um instante, observando-o.

— Ele não é má pessoa, Sherlock. Você simplesmente… mudou.

Ela me entregou uma caneca e se afastou.

* * *

Na manhã em que ele parou para fazer flexões na calçada em frente à nossa casa, finalmente abri a porta e saí. Eu me apoiei na varanda, com os braços cruzados no tórax, e fiquei observando-o até ele erguer os olhos.

— Eu não ficaria muito tempo aí parado. O cachorro do vizinho adora essa parte da calçada.

— Sherlly! — exclamou Moriarty, como se eu fosse a última pessoa que ele esperasse ver parado diante da minha própria casa, a qual ele visitara diversas vezes por semana durante os sete anos que passamos juntos.

—Bem… estou surpreso de ver você de volta. Pensei que tivesse ido conquistar este vasto mundo!

A noiva dele, que estava fazendo flexões ao seu lado, ergueu os olhos e depois voltou a fixá-los na calçada. Talvez fosse minha imaginação, mas seus glúteos pareceram se contrair ainda mais. Para cima e para baixo, ela se movia furiosamente. Para cima e para baixo. Cheguei inclusive a me preocupar um pouco com o bem-estar dos seus peitos novos.

Ele ficou de pé num pulo.

— Esta é Caroline, minha noiva. — Moriarty mantinha o olhar fixo em mim, talvez aguardando alguma reação. — Estamos treinando para o próximo Ironman. Já participamos de dois juntos.

— Que… romântico — falei.

— Bem, Caroline e eu achamos que é bom fazer coisas juntos — disse ele.

— Estou vendo — comentei. — E a lycra turquesa dos dois!

— Ah, sim. É a cor da equipe.

Houve um breve silêncio e depois dei um pequeno soco no ar.

— Vai, time!

Caroline se levantou e começou a alongar os músculos da coxa, flexionando a perna para trás feito uma cegonha. Ela assentiu para mim, a cortesia mais razoável que poderia se permitir.

— Você emagreceu — disse ele.

— Pois é. Uma dieta de soro faz isso com a gente.

— Fiquei sabendo que você sofreu um… acidente. — Ele inclinou a cabeça para o lado, de um jeito solidário.

— As notícias correm depressa.

— Enfim. Fico feliz que esteja bem.— Ele fungou e olhou para a rua. — Esse ano que passou deve ter sido difícil para você, sabe. Por ter feito aquilo e tudo o mais.

E pronto. Tentei controlar minha respiração. Caroline estava determinada a não olhar para mim, alongando a musculatura da coxa. Por fim, falei:

— Aliás… parabéns pelo casamento.

Ele analisou a futura esposa com orgulho, concentrando-se em admirar sua perna sarada.

— Bem, é como dizem… Quando é para ser é para ser.

Ele me deu um falso sorriso de pedido de desculpas. E foi isso que acabou comigo.

— É claro. E imagino que tenha bastante dinheiro guardado para bancar o casamento, pois não é barato, não é mesmo? — Os dois me encararam.

—E quanto foi que lhe pagaram para vender minha história para os jornais, Mori? Quantos mil? Mycroft não conseguiu descobrir o valor exato. Mesmo assim, a morte de Victor deve ter rendido a compra de um bocado de uniformes de lycra combinando, não é?

O jeito como Caroline virou o rosto para ele me fez perceber que Moriarty ainda não tivera a chance de lhe contar essa parte da história.

Ele fixou o olhar em mim e depois dois pontos rubros surgiram em seu rosto.

— Não tive nada a ver com isso.

— Claro que não. Enfim, foi um prazer ver você, Mori. Boa sorte com o casamento, Caroline! Tenho certeza de que você será a… noiva mais sarada por aqui.

Eu me virei e voltei devagar para casa. Fechei a porta, me encostando nela, com o coração acelerado, até ter certeza de que eles finalmente tinham prosseguido com a corrida.

— Babaca — disse vovô quando entrei mancando na sala. E depois, olhando com desdém para a janela, repetiu: — Babaca. — Então riu.

Olhei para ele. E de forma totalmente inesperada, me dei conta de que tinha começado a rir pela primeira vez desde que eu conseguia lembrar.

* * *

— Já decidiu o que vai fazer quando estiver melhor?

Eu estava deitada na cama. Mycroft ligou da faculdade, enquanto esperava Thomas sair da escolinha de futebol. Fiquei encarando o teto, onde meu sobrinho havia colado uma galáxia de adesivos fluorescentes que aparentemente ninguém conseguia remover sem arrancar metade do teto junto.

— Na verdade, não.

— Você tem que fazer alguma coisa. Não pode ficar sentado aí por toda a eternidade.

— Não vou ficar sentado aqui. Além do mais, meu quadril continua doendo. O fisioterapeuta disse que é melhor ficar deitado.

— Mamãe e papai estão se perguntando o que você vai fazer. Não tem emprego nenhum em Stortfold.

— Sei disso.

— Mas você está sem rumo. Não parece se interessar por nada.

— Mycroft, acabei de cair de um prédio. Estou me recuperando.

— E antes disso você estava viajando pelo mundo. E depois foi trabalhar num bar porque não sabia o que queria fazer. Uma hora vai ter que botar a cabeça no lugar. Se não vai voltar a estudar, precisa descobrir o que fazer da vida. É só o que eu acho. Enfim, se vai ficar em Stortfold, precisa colocar aquele apartamento para alugar. Mamãe e papai não podem sustentar você para sempre.

— E quem está dizendo isso é o homem que passou os últimos oito anos sendo sustentado pelo Banco Mamãe e Papai.

— Estou estudando em tempo integral. É diferente. Enfim, dei uma olhada nos seus extratos bancários enquanto você estava no hospital e, depois de pagar todas as suas contas, vi que você ainda tem mil e quinhentas libras, incluindo o auxílio-doença. Aliás, o que foram aquelas ligações internacionais? Custaram uma fortuna.

— Não é da sua conta.

— Então, listei os corretores da área que trabalham com aluguel. E depois pensei que talvez pudéssemos dar mais uma olhada em inscrições para faculdade. Alguém pode ter abandonado aquele curso que você queria.

— Mycroft. Você está me cansando.

— Não adianta ficar à toa. Vai se sentir melhor quando tiver algum foco.

Por mais irritante que fosse, havia algo tranquilizador na bronca que meu irmão estava me dando. Ninguém mais se atrevia a fazer isso. Era como se meus pais ainda acreditassem que havia alguma coisa muito errada comigo e que eu precisava ser tratado com luvas de pelica. Minha mãe deixava minha roupa dobradinha na beirada da cama, preparava três refeições por dia para mim e, quando eu a flagrava me olhando, ela dava um meio sorriso amarelo que abrangia tudo o que não queríamos dizer uma para outra. Meu pai me levava para as sessões de fisioterapia, se sentava ao meu lado no sofá para assistir à televisão e nem sequer implicava comigo. Mycroft era o único que me tratava do mesmo jeito de sempre.

— Sabe o que vou dizer, não é? Virei-me de lado, estremecendo.

— Sei. E não faça isso.

— Bem, você sabe o que Victor diria. Vocês tinham um acordo. Não pode voltar atrás.

— Tudo bem. Acabou, Mycroft. Essa conversa está encerrada.

— Ótimo. Thom está saindo do vestiário. Vejo você na sexta! — disse ele, como se estivéssemos falando sobre música, as próximas férias ou sobre a novela.

Fiquei ali encarando o teto. Vocês tinham um acordo. Sim. E olhe só no que deu.


Notas Finais


Suponho que vocês não estejam entendendo certas coisas, juro que logo irá clarear.


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