História Depois que fui embora - Capítulo 10


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Categorias Originais
Tags Afonso, Brasil, Casal, Clara, Drama, Família, Fotografia, França, Nova York, Romance, Viajar
Exibições 4
Palavras 1.865
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 10 - 9


[...]

O homem parado em nossa frente, na sala de estar do apartamento da família Fontes, não tinha a aparência muito diferente da deles, tinha um sorriso calmo nos lábios, com seu cabelo grisalho, ele segurava as malas velhas e surradas nas mãos. Usava uma calça velha e uma jaqueta arranhada. O olhar de Afonso parecia agitado.
- Fernando?
A voz de dona Célia falhou enquanto se dirigia ao homem grisalho. Pai de Afonso. Senhor Sebastião suspirou enquanto passava a mão na testa.
- Oi mãe.
O homem respondeu sem se preocupar com os olhares tortos que se direcionavam a ele, vindos de seu pai e de seu filho. Dona Célia se levantou para abraçá-lo. O homem deixou as malas no chão e abraçou a mãe. Afonso e Sebastião continuavam calados. Dona Célia, passando a mão entorno da cintura do filho, o trouxe para perto de nós.
- Olá Afonso.
Fernando falou ao filho. Afonso ao meu lado, deixou a xícara de café sobre a mesinha de centro e se levantou para cumprimentá-lo.
- Oi pai.
Falou sem muito ânimo, apenas apertando a mão de Fernando, mantendo uma certa distância, como se tivesse medo de se aproximar.
- E quem é essa?
Fernando sorriu para mim. Afonso me olhou rapidamente e voltou para o pai.
- É minha namorada, Clara.
Levantei-me estendendo a mão para o homem grisalho.
- Prazer em conhecê-lo.
Sorri de leve tentando parecer educada e simpática, era o máximo que poderia fazer naquela situação.
- O prazer é todo meu, senhorita.
Fernando beijou minha mão lentamente. Forcei um sorrisinho me sentindo um tanto incomodada com aquela cena. Afonso ao meu lado revirava os olhos. Voltei a me sentar e Afonso fez o mesmo ao meu lado, enquanto apoiava o rosto em uma das mãos, por sua vez, com o cotovelo apoiado no braço do sofá.
- Oi Sebastião.
Fernando cumprimentou o pai que não quis se levantar do sofá, apenas cruzou suas pernas.
- Olá filho.
A sala ficou em silêncio mais uma vez, até que a mediadora de todas as situações, a experiente e inteligentíssima dona Célia, decidiu voltar a sua pergunta habitual de "boas-vindas".
- Quer um café, querido?
Fernando sentou-se no sofá ao lado de Sebastião.
- Aceito, mãe. Seu café é o melhor.
Afonso revirava os olhos mais uma vez, parecia já conhecer cada ato de seu pai. Dona Célia saiu para a cozinha, e o silêncio se instalou.
- E então... - Fernando começou. - desde quando meu filho está namorando e eu não estou sabendo?
Olhei para Afonso em silêncio.
- Faz alguns meses. - Ele respondeu. - Você já tinha sumido.
Afonso respondeu com um tom de ironia em sua voz. 
Afonso nunca me falara muito da história de sua relação com seu pai, eu apenas sabia, que era uma relação complicada. Dona Célia e Sr. Sebastião haviam sido seus pais, de certa forma, e ele os tinha como mais que avós, e era isso que importava para Afonso.
Fernando franziu os lábios sentindo-se desconfortável com a insinuação do filho. Trocou a posição na qual estava sentado, dobrando dessa vez a perna direita sobre o joelho esquerdo, e apoiou o rosto na outra mão. Continuei em silêncio.
- Onde estava dessa vez?
Sebastião, com sua voz profunda e firme, falou sem olhar diretamente para o filho, sentado ao seu lado. Estava nervoso, apesar de não deixar transparecer tal sentimento em seu rosto. 
- Em uma aldeia. Estava filmando um documentário.
Fernando respondeu enquanto Dona Célia se aproximava com a xícara de café. Ela entregou para o filho e se aproximou de mim.
- Querida, posso te mostrar alguns trabalhos que editei para Sebastião, gostaria de ver?
A senhora sabia que eu estaria, logo mais, em um fogo cruzado de três gerações de homens da mesma família que acumulavam, cada um, suas mágoas para com os outros.
Levantei-me rapidamente, sem nem ao menos olhar para Afonso e sorri acompanhando a senhora, que era até um tanto mais alto que eu. Dona Célia tinha os cabelos pintados de um castanho avermelhado, curtos, era elegante, com roupas simples que pareciam confortáveis, mas mesmo assim, não deixava de lado sua elegância. Subimos a escada para o andar de cima, passamos por um corredor, e chegamos na sala que parecia uma biblioteca com uma galeria de fotografia, incríveis quadros de fotografias preto e branco, obras, é claro, de Sebastião. Eu parei no meio do local, enquanto olhava em volta encantada. Dona Célia se aproximou de uma parte da estante e pareceu procurar um livro enquanto passava a mão sobre as lombadas daqueles enfileirados e milimetricamente organizados, livros.
- Achei melhor te tirar de lá antes que a coisa piore e passemos uma má impressão para você.
Ela comentou rindo pelo nariz enquanto ainda procurava o livro.
- Ah, sem problemas.
Não sabia muito o que responder frente àquela situação. Apenas abracei meu braço e respondi sem jeito. Ela encontrou o livro que tanto procurava.
- Venha.
Me chamou para perto dela, enquanto enconstava-se na parede ao lado da única janela que iluminava o cômodo pequeno mas aconchegante. Dona Célia abriu o livro e o folheou até certa página com uma fotografia em cores. Eu havia entendido afinal, aquilo não era um livro de fotografias profissionais de Sebastião Fontes, mas um livro de fotografias da família Fontes e seus agregados. Eu sorri ao perceber três crianças ao lado dos avós. Olhei atenta, Célia percebeu minha curiosidade.
- Eu tive dois filhos, sabe? Marcos e Fernando, que você acabou de conhecer. Marcos hoje é médico, tem dois filhos. Esse aqui - ela apontou para um menininho que ao lado de outro de mesma altura, parecia empurrá-lo. - Erick, que tem a mesma idade que Afonso, e esse - apontou dessa vez para o garotinho que estava do outro lado, segurando na mão da avó. - Pedro, quatro anos mais novo. 
- Então esse é o Afonso?
Perguntei apontando para o garoto ao lado do outro que o empurrava. Dona Célia riu.
- Sim. 
Sorri sem saber exatamente o porquê.
- Esse é o Marcos.
Ela apontou agora para o homem sorridente, alto e um tanto acima do peso que abraçava uma mulher de cabelos ruivos, com certeza, sua esposa. Aparentava ser o filho mais velho.
- Aqui está Fernando.
Mostrou-me o filho que agora chegara de viagem e discutia com seu pai e seu filho, ao mesmo tempo.
- E esses dois, sou eu e Sebastião, como pode ver.
Concordei ainda sorrindo. Dona Célia suspirou.
- Sabe...quando éramos jovens, eu e Sebastião, nos mudamos para cá, para Paris, eu havia ganhado uma bolsa de estudos na faculdade de Arquitetura, a Ecole d'Architecture de Paris-La-Seine. Um professor meu havia me indicado para cá, e me aceitaram. Sebastião, trabalhava em um bom banco brasileiro, então pediu transferência, conseguiu o trabalho aqui e viemos, seguros de ter uma boa vida. Até que... - Ela suspirou novamente, soltou o álbum completamente em minhas mãos, para que eu virasse a página caso quisesse, e não mais ela. - até que Sebastião decidiu se tornar fotógrafo. Ele cuidava de negócios país afora e para isso precisava viajar bastante, então comprou uma máquina fotográfica, e começou a fotografar suas viagens. Então, se encantou pela fotografia e não quis mais abandoná-la. Marcos havia nascido em meio à essas viagens dele. Ele pegou férias para acompanhar-me um pouco nessa coisa de sermos país de primeira viagem. E nessas férias, ele se decidiu, abandonaria o emprego e seria fotógrafo. Eu sabia que ele estava arriscando tudo. Ele era ótimo como bancário, tinha um futuro maravilhoso pela frente, era bom naquilo que fazia e todos acreditavam nele como economista. Ele ganhava bem, tínhamos uma vida confortável em uma casa com jardim aqui mesmo em Paris. Com seu salário de bancário e investidor, poderíamos cuidar muito bem de nosso filho que tinha apenas um mês. Mas eu sabia também que ele não queria aquilo. Eu sabia que Sebastião se obrigava a trabalhar naquilo apenas para ser alguém que tinha faculdade de sua família, alguém que pudesse ajudar os país e dar uma vida cômoda para mim e seu filho. Mas ele não gostava daquilo. Meus projetos de arquitetura haviam parado um pouco por conta do nascimento de , um nascimento inesperado, mas que me alegrava todas as manhãs. E então, eu sabia que em meio a toda aquela dúvida de Sebastião, se ele ficava ou não no trabalho, ou se tornava fotógrafo ou garantia o futuro como economista, eu sabia que ele precisava seguir o coração dele. Então entramos em um consenso, e eu lhe disse: "vá em frente".
Meus olhos a admiravam em cada palavra, em cada frase, em cada ponto final. Eu sorria e sentia vontade de chorar ao mesmo tempo por história tão bonita. Dona Célia pausou sua fala por alguns instantes. Ela suspirou mais uma vez. Olhou para a janela e continuou.
- E ele foi. Foi se tornar fotógrafo. Primeiro, ele não sabia o que iria fotografar, então passou por todas as revistas possíveis vendendo qualquer tipo de foto. Ele vendia, o que queriam comprar. Foi até fotógrafo esportivo. Foi difícil o começo, o dinheiro estava começando a acabar, tínhamos muitos gastos com Marcos que completava um ano, e então Sebastião conseguiu um trabalho em uma revista que pouco tempo depois, o efetivou. Ele começou a fazer matérias esportivas. Ganhava bem. Fazia o que lhe pediam. Até que, cometeu um erro e esqueceu do filme na câmera em um torneio de golfe extremamente importante. Foi despedido e voltamos a estaca zero. Eu não conseguia voltar a trabalhar, fazia pequenos projetos, mas já não dava dinheiro como antes. Estava tudo difícil, não conseguíamos nem voltar para o Brasil porque não tínhamos dinheiro. Não tínhamos a quem pedir ajuda, teríamos que nos virar. Nos mudamos para um apartamento mais barato, de dois cômodos. Então, ele conseguiu mais um trabalho, matérias jornalísticas dessa vez, e ao acompanhar um triste atentado a um dos homens mais importantes do mundo, em uma reunião da ONU que acontecia aqui em Paris, Sebastião teve o nome levado para o mundo, todos queriam comprar suas fotos. E então, ele fez marca. Conseguia emprego onde quisesse. Viemos morar aqui. Trabalhou em uma das mais importantes agências de fotografia do mundo. Mas veio novamente meu desespero. Sebastião viajava como louco para fazer seu fotojornalismo. Ficava dias, semanas e chegou a ficar meses, sem mandar notícias. Fernando nasceu, oito anos após Marcos. E eu, teria que me virar, com duas crianças, ser mãe e ao mesmo tempo responder o porquê de seu pai não estar aqui durante semanas. - Ela suspirou triste. - Ai querida, era difícil. 
- Marcos então cresceu e soube que não queria, de forma alguma, seguir os passos do pai. Já Fernando, foi ao contrário. Seguiu exatamente o que o pai fez. Agora, Sebastião briga com ele por algo que ele também fazia. A diferença, é que Sebastião nunca deixou os filhos de lado, ele sempre foi fiel à mim e à sua família. Fernando, infelizmente, deixou Afonso logo após a mãe dele também tê-lo abandonado. Nós o criamos. É daí que vem tamanha mágoa.



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