História Depois que fui embora - Capítulo 9


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Afonso, Brasil, Casal, Clara, Drama, Família, Fotografia, França, Nova York, Romance, Viajar
Exibições 7
Palavras 2.785
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 9 - 8


[...]

Estava balançando minhas pernas nervosamente no local onde planejaríamos o casamento.

- Eu já te disse que não precisava de tudo isso.

Resmunguei para Afonso o encarando. Ele encolheu os ombros.

- Eu também não queria tudo isso.

Ele falou baixo para que a mulher que nos atendia e sua mãe, mais a frente, não nos ouvisse. Elas estavam ocupadas discutindo sobre os convites mais elegantes para termos como opção.

- Então por que estamos fazendo isso?

Me curvei em sua direção, virando a cabeça para trás para disfarçar, como se eu olhasse para algo atrás, mas na realidade, sussurrava em seu ouvido.

- Culpa da senhora Delon.

Ele respondeu com ironia. Os pais “desaparecidos” que voltaram a reaparecer de Afonso. Desde que sua mãe voltara para sua vida, um ano atrás, tudo têm se tornado um transtorno para nosso relacionamento, que por mais que tentássemos fugir, parecia que estávamos sendo vigiados. Senhora Delon, parecia querer fazer com nosso relacionamento, o que não pôde fazer pelo dela, fazer ele dar certo e ser feliz para sempre, como um conto de fadas. Suspirei. A atendente e Madeleine Delon voltaram para perto de nós.

- Esses são lindos!

Madeleine exclamou juntando as mãos em frente ao corpo enquanto olhava para os convites que a atendente havia espalhado para nós. A porta principal do pequeno e aconchegante escritório, se abriu mostrando Elizabeth Delon, uma das tias de Afonso, mais uma mulher fina e elegante. De acordo com tudo o que eu já havia ouvido de Madeleine, Elizabeth era a única irmã com quem ela não havia brigado durante sua juventude. Elizabeth era mais velha, tinha os cabelos castanho e enrolava uma echarpe no pescoço. Antes que a porta se fechasse completamente, alguém interrompeu seu movimento lento, Fernando entrou pela porta. Com uma camisa xadrez amarrotada, botas e o cabelo grisalho um tanto molhado, ele passava as mãos nos braços, tentando secar a roupa. Todos, aqueles chamados para este momento, para dar opiniões em nosso casamento, pareciam chegar em cima da hora marcada, ainda faltavam Célia e Sebastião. O silêncio se impôs ao nosso redor. Afonso abaixou a cabeça coçando os olhos. Estendi minha mão para a sua que estava sobre seu colo, ele apertou minha mão na sua e suspirou. Nós sabíamos o que iria acontecer. O de sempre, desde que a família Delon entrou em nossa vida.

Todos olhavam para Fernando, Elizabeth e Madeleine o encaravam com olhares tortos, enquanto o homem, parecendo estar ali por má vontade, caminhou, passando por nós e dando um tapinha no ombro de Afonso, sorrindo de leve para mim enquanto apertava meu ombro delicadamente, e depois caminhando até o sofá atrás de nós, para jogar-se nele e cruzar a perna esquerda e apoia-la sobre o joelho direito. Madeleine ainda encarava Fernando que agarrou uma revista ao seu lado e pareceu se entreter com os vestidos de noiva. Senti vontade de rir, mas o momento não pedia por isso. Olhei para os convites, Afonso olhava para a porta, como quem quisesse, em um pulo, alcança-la para sair e não voltar mais.

- Hum, eu gostei desse.

Resmunguei tocando em um dos exemplos de convites. Afonso me olhou rápido com as sobrancelhas franzidas. Inclinei minha cabeça e lhe lancei um olhar que fez com que rapidamente, Afonso entendesse o que eu queria lhe dizer: “vamos acabar com isso logo e sair daqui”. Eu queria dizer, mas não poderia em voz alta. Afonso concordou de leve com a cabeça.

- Eu também.

Ele limpou a garganta. Madeleine finalmente abaixou o olhar para nós.

- Qual, querido?

Ela perguntou com calma, parecendo uma mulher carinhosa, amorosa, e com certeza, arrependida.

- Esse.

Afonso resmungou entre dentes, sem olhá-la. Madeleine olhou para mim, seus olhos tristes e baixos. Apertei meus lábios tentando formar um sorriso consolador para ela, que foi retribuído com um leve aceno de cabeça.

- Mas e esse?

Ela apontou para outro dos cartões. Madeleine tentava falar inglês bagunçado comigo, misturando o francês, mas algo que eu conseguia entender. Afonso bufou ao meu lado. Lhe cutuquei de leve, como se o repreendesse.

- Esse também é bonito.

Respondi calmamente. Hoje eu estava em um dia bom. Estava calma o bastante para aguentar as loucuras de Madeleine. Mas eu não queria resolver tudo de meu casamento sem minha mãe, que me ligava todos os dias e perguntava sobre tudo que estava acontecendo. Por enquanto eram só os convites, então estaria tudo bem escolher ela, mas logo depois viria o vestido e todas aquelas coisas que durante toda a minha juventude, eu jurei que não teria. E nem sei se quero ter. Minha ideia de adolescente de casar no cartório, pra mim ainda estava de pé, parecia simples e amável o bastante. Sem vestidos de noiva, sem frescuras, sem gente te parabenizando, sem sapatos desconfortáveis, sem um padre incansável, seria necessário um jeans e um all star, uma assinatura e dois padrinhos, tudo perfeito e fim. Estamos casados. Se é que precisaríamos estar casados. Mas Afonso insistiu tanto, e ele não desiste, desde que o conheci, nunca o vi desistir de algo. Mas pela primeira vez, eu o via decepcionado com o casamento que ele queria. E não era sua culpa, e nem minha, era o que faziam ao nosso redor. Na verdade, era nossa culpa sim, não abríamos a boca para contestar. Idiotas. Pensei comigo mesma. Calma. Eu só precisava de calma para continuar sentada e quieta, respondendo apenas quando me dirigissem a palavra, naquela sala de carpete rosa com cores delicadas nas paredes, que tinha o ar tão abafado e tão congestionado por trocas de olhares fulminantes que se direcionavam de Madeleine para Fernando, que nos sufocava um pouco mais a cada minuto. Afonso ainda segurava minha mão, estava irritado, puxou o celular do bolso e desatento a tudo que sua mãe dizia, se preocupava mais com as mensagens. A porta se abriu novamente, fazia meia hora em que estávamos lá, alguns segundos que Fernando havia chego. Agora víamos dona Célia e Sebastião, que guardava as chaves do carro no bolso do casaco. Afonso levantou o olhar rapidamente, pareceu sentir-se salvo, tanto quanto eu, quando vimos os dois entrando pela porta. Dona Célia sorriu para mim dando uma piscadela, após olhar em volta e, com toda certeza, ter percebido, com seu sexto sentido das avós, que algo sufocante para nós, estava acontecendo ali.

- Boa noite.

Ela exclamou caminhando até nosso lado e apoiando suas mãos em nossos ombros, uma mão no ombro de Afonso e outra mão, no meu ombro. Sua calma natural já parecia percorrer meu corpo e ir ao meu coração, dando-me mais tranquilidade.

Era noite já, eu havia viajado de Nova York para Paris algumas horas antes, depois de trabalhar a manhã e parte da tarde, inteira organizando os arquivos do MoMA. Afonso estava cansado, havia acabado de sair do escritório e ainda resolvia mais trabalhos pelo celular. Definitivamente, nenhum de nós estava com vontade de discutir sobre o casamento.

- Esse que vocês gostaram?

Célia perguntou vendo o convite de cor creme, retangular, pequeno, com um filete rosa claro e reto em volta de cada borda. Mais nada havia nele, era limpo e simples, e era disso que eu gostava. Concordei com a cabeça. Afonso ainda atento ao celular.

- Também gostei. Voto por esse. - Célia comentou. - Não é Tião?

Ela perguntou ao marido que até então nos assistia a certa distância.

- Sim.

Sebastião respondeu com o ânimo como o do neto. Madeleine concordou, mas não totalmente.

- Então vamos deixar esses dois como opção.

E ela separou, aquele que ela gostou e aquele que nós gostamos. Ri pelo nariz, Célia me acompanhou enquanto dava leves tapinhas em meu ombro como se me acalmasse.

- Agora podemos provar os bolos?

Madeleine perguntou à atendente. Afonso soltou minha mão, segurou o celular na mão e se levantou abruptamente. Todos o observaram enquanto ele caminhava em direção a porta.

- Onde você vai, filho?

Madeleine perguntou dando alguns passos para seguí-lo.

- Atender o telefone.

Ele resmungou sem olhar ou sem parar.

- Mas seu telefone não está tocando.

Ela falou de volta apontando para o celular na mão de Afonso, enquanto ele parava e apertava o celular na mão.

- Então vou ligar para alguém.

Falou irritado. Segurou na maçaneta da porta. Ele não iria ligar ou atender alguém, ele só queria sair dali. Inclinei minha cabeça para trás para encarar Célia.

- Mas...mas vamos provar os bolos.

Madeleine gaguejou na tentativa de fazê-lo ficar. Afonso virou-se para ela, tinha o maxilar travado e os olhos mais azuis que o normal.

- Ah que bolos vocês vão provar? Os do meu casamento? Você também vai provar o terno para mim ou o vestido de noiva para a Clara? Estou cansado disso. Eu não queria estar aqui hoje. A Clara não queria estar aqui hoje, e só estou porque ela me fez vir para não magoar você, Madeleine. - Afonso apontou para mim enquanto gesticulava e finalmente, cuspia algumas das poucas palavras que guardara para sua mãe. - Eu estou cansado, e vou para casa. Se vocês quiserem ficar ai, provando bolos, escolhendo convites e fazendo mais o diabo a quatro, fiquem à vontade. Eu vou embora.

Abriu a porta deixando o vento invadir a pequena sala.

- Filho...

Ela sussurrou dando mais um passo a frente. Afonso bateu a porta. A sala tremeu. Fechei os olhos. Mordi o lábio inferior. Tudo estava em um completo silêncio. Abri os olhos e vi Sebastião com as sobrancelhas levantadas encarando Célia, os dois conversavam apenas pelo olhar. Madeleine entrou em uma crise de choro, sendo consolada pela irmã Elizabeth. Fernando havia deixado a revista de lado e se levantava para ir atrás do filho. Fiz o mesmo que ele e puxei minha jaqueta de cima do sofá e o impedi de continuar.

- Acho melhor o senhor ficar aqui.

Falei com paciência para o homem, que eu tinha certeza que Afonso explodiria caso o visse em sua frente. Fernando me olhou por uma última vez, pareceu querer continuar seu caminho atrás de Afonso, mas desistiu e apenas balançou a cabeça em concordância. Vesti minha jaqueta e olhei para Célia que concordou, apertou os lábios enrugados em um sorriso. Puxei a porta deixando o ar frio entrar mais uma vez no local. As ruas estavam escuras sendo iluminadas apenas pelos postes amarelados e encantadores, que eu tanto amava naquele lugar. Olhei para os dois lados. Para onde ele teria ido? Caminhei para direita e procurei em meio as pessoas, algo que me fizesse perceber que era ele ali. Mas uma luz amarelada saía de um pequeno pub de esquina, eu já percorria um quarteirão em sua busca. Olhei pela vitrine grande e quadrada. Lá estava ele, de costas, em um banco de bar, apoiado com os braços no balcão. Empurrei a porta sendo atingida por sons de risadas, urros e conversas que tinham que brigar entre si para serem ouvidas. Desviei-me de um grupo de jovens que carregava outro, bêbado demais para poder ficar em pé por si só.

- Se for fugir, da próxima vez vá para mais longe, ok?

Falei alto puxando o banco ao lado dele, que com uma garrafa de cerveja entre as mãos, levantou o olhar para mim. Não sorriu, apenas continuou me observando sentar, e depois continuou com os olhos fixos em mim. Levantei as sobrancelhas, como se lhe desse a chance de começar a falar o que tanto queria. E então ele começou.

- Por que aceita isso?

Praticamente gritou, para que eu pudesse ouvi-lo, quando uma risada estridente rompeu o bar vindo do outro lado.

- Aceito o que?

Perguntei aproximando o rosto do dele, para conseguir conversar.

- Madeleine no seu ouvido. Por que aceitou vir provar essas merdas de bolos hoje?

Encolhi os ombros, apoiei minhas mãos em cima do balcão e entrelacei meus dedos.

- Não sei Afonso.

Respondi.

- Tem que saber. Não pode deixá-la dizer o que você deve fazer no seu casamento.

Ele falou alto em meu ouvido. Fiquei quieta, eu sabia que não fazia aquilo por mim.

- Ela quer se aproximar de você.

Ele riu pelo nariz, sarcástico. Deu um gole na cerveja, entornando a garrafa.

- Foda-se.

Respondeu voltando com a garrafa sobre o balcão. Revirei os olhos. E ele continuou.

- Meu pai...- ele se corrigiu, como se dirigir a seu pai e sua mãe, como pai e mãe, fosse quebrar as regras de sua mágoa. - Fernando, então...aquele não presta pra nada, não é? Nem pra negar algo. Nem para fazer algum barulho para mostrar sua presença. Inútil.

- Ele queria vir ver como você estava.

Olhei para ele que bufou mais uma vez, e deu outro gole na bebida, acabando ela de vez. Assobiou levantando a mão para o garçom atrás do balcão, que concordou, pegou outra cerveja, abriu a garrafa e lhe deu. Senti o cheiro de álcool vir do homem que acabara de se sentar ao meu lado.

- Para que? Nunca quis saber como eu estava, e agora, de repente, quer saber?

Afonso falou olhando para frente enquanto mexia na garrafa. O homem ao meu lado, agarrou-se a uma mulher, sua pele encostou na minha, conforme sua regata deixava seu braços de fora, sua pele suada com mais cheiro de álcool me incomodava. Fechei os olhos tentando ir para a outra ponta do banco, para perto de Afonso.

- Vamos embora daqui?

Perguntei tocando seu braço em cima do balcão. Afonso deu mais um gole.

- Sabe qual o problema deles? Sabe qual? - Continuava falando, desatento ao que eu havia acabado de dizer. - Achar que podem consertar tudo agora. Agora. Idiotas!

Ele bateu a mão fechada no balcão. Seus olhos começavam a marejar. O homem ao meu lado me empurrava.

- Afonso, vamos embora daqui.

Pedi mais uma vez.

- Passaram vinte anos longe de mim. Um viajando e voltando apenas com alguns presentinhos, como se aquilo bastasse e como se fosse o melhor pai do mundo. Eu tinha vergonha de falar que ele era meu pai. E a outra, eu nem sabia se estava viva ou morta, e preferia continuar não sabendo!

Dei uma cotovelada no homem que estava quase caindo em cima de mim, preocupado o bastante com a mulher em seu colo. O homem parou de se agarrar com a mulher e olhou para mim com um olhar fulminante.

- O que acha que está fazendo, garota?

Gritou ele em um francês cuspido que eu pouco entendia. Afonso finalmente levantou o olhar, o tirou da cerveja e notou o homem que me encarava. O homem se levantou. Afonso me puxou pelo braço para trás dele.

- Calma ae, cara.

Respondeu ele esticando a mão em direção ao homem, que urrou, como um ogro, mais algumas coisas que eu não entendia mais. Alguns do bar olhavam para nós agora. Afonso respondeu algo que dizia no final:

- ...tudo bem, nós vamos embora.

Enquanto tirava da carteira algumas notas e colocava em cima do balcão, pagando por sua bebida. Vi o homem apertando os punhos e se aproximando. Grande e gordo perto de Afonso que tinha a sua altura, mas era metade de sua largura. Essa não era hora de rir, mas meus pensamentos fizeram um sorriso surgir em meus lábios. E então ouvi o homem urrar:

- Está rindo do que?

Antes que algo mais pudesse acontecer, vi, com um flash, o punho fechado de Afonso, acertar queixo do homem, o fazendo pender a cabeça para trás e perder o equilíbrio. No mesmo minuto, sem que eu pudesse assistir mais a cena da mulher, que se agarrava com ele minutos atrás, tentar segurar o gordo, Afonso puxou minha mão. Corremos para os fundos do bar, desviando as pessoas que nos assistiam. Afonso empurrou a outra porta e, ainda me arrastando pela mão, corremos pela calçada úmida por conta da chuva de uma hora atrás. Viramos a esquina e Afonso observou um táxi vindo. Assobiou e abanou a mão, enquanto ainda me segurava pela outra. O táxi parou e acelerou logo depois de Afonso dizer o endereço. O carro virou a esquina de volta de onde havíamos fugido. Na porta do bar, o gordo saía com um nariz sangrento enquanto várias pessoas o cercavam. Ele olhava para os dois lados, com toda a certeza, procurando por Afonso que observava a janela atento. Afonso virou o rosto me encarando com os olhos arregalados. E então uma explosão de risos surgiu entre nós. E depois meu choro nervoso, fazendo com que Afonso me abraçasse e acariciasse meu cabelo pedindo para que eu parasse de chorar.



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