História Desejos Secretos - Capítulo 22


Escrita por: ~

Postado
Categorias Eliane Giardini
Personagens Personagens Originais
Tags Eliane Giardini, Werner Schunemann
Visualizações 95
Palavras 6.813
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Policial, Romance e Novela, Suspense

Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Essa história está chegando em sua reta final!

Capítulo 22 - Eu Sabia Desde o Princípio


Fanfic / Fanfiction Desejos Secretos - Capítulo 22 - Eu Sabia Desde o Princípio

Narrado por Igor

– Paty? – um suor gélido brotou pelos poros de minha pele e pronunciei seu nome de forma inaudível. Senti meus músculos travarem por completo, uma agonia ferrenha invadiu minhas entranhas e sei também que está por todo o ambiente. Ou oxigênio entra muito rarefeito em meus pulmões ou o mesmo está cheio de mais, impedindo-me de expelir o que é tóxico. Nesse exato momento, apenas ouvi o barulho do celular chocando-se secamente contra o mármore italiano do chão. Susana me encarou com as pupilas dilatadas e sem reação alguma. 

– Susana, é a minha filha! – ditei a informação absurda e surreal, porém minhas pernas não se deslocam sequer um centímetro para canto nenhum. Vi a mulher tomar consciência do que eu acabei de dizer, levantar da cama e procurar com urgência o telefone que caiu e rolou para debaixo da cama. Ela se esgueirou estendendo o braço e conseguiu capturar o aparelho. 

– Alô? – perguntou aflita, passou a mão livre pelos cachos castanhos de seus cabelos e respirou fundo. – Quem está falando? – se exaltou e sua voz saiu num tom ameaçador. De repente, ela silenciou e passou a respirar descompassadamente. Eu ainda estou paralisado, estático e sem forças para reagir. – Por favor, diga alguma coisa. Quem​ está aí? – questionou desesperada e visualizei sua face atormentada pela ligação. Tanto quanto eu, ela está perplexa. Meus batimentos cardíacos parecem perfurar meu peito e um clima horrível paira no ar. 

– Desligaram – disse apreensiva e voltou seu olhar para mim. Eu nada pude dizer, apenas lembrei-me de minha garotinha e da forma brutal com que foi assassinada. Durante todo esse tempo após sua morte, cada segundo do meu dia foi rememorar os momentos bons com ela. Sua risada meiga e terna ainda ecoa perfeita por meus ouvidos. Eu ainda não sei como estou suportando tamanha perda, não fosse por Elinór, eu já teria atentado contra minha própria vida. Não havia sentido nenhum sem elas e só estou vivo porque a tenho ao meu lado. 

– Igor fala comigo! – segurou meu queixo e o balançou, trazendo-me de volta à realidade. Quando saí do transe hipnótico, soltei o ar preso em meus pulmões. 

– Era a voz dela, era a minha garotinha – expressei-me eufórico e saí a passos largos pela casa em direção à sala. 

– Igor me ouve! – ela veio atrás de mim e me puxou pela camisa. – Liga para o seu pai e também para Vivian. Quero todos aqui agora! – categorizei seriamente e ela segurou-me pelos braços. – Fica calmo! – pediu e me soltei dela. – Como posso ficar calmo? Era a voz da Patrícia, ela precisa da minha ajuda – esbravejei e comecei a dar passadas pela sala sem rumo algum. 

 – Igor vem comigo, senta aqui – ela tenta me acalmar, mas estou aéreo e pensando onde minha menina pode estar. 

– Eu vou pegar a chave do carro – nem ao menos me aproximei do sofá e voltei correndo em direção ao quarto. 

– O papai já está indo filha – falei sem me dar conta de que foi apenas um telefonema a altas horas da noite. 

– Igor para! – ouvi sua voz de comando soar alta em meus ouvidos e girei meu corpo para encará-la. O chamado dela foi como retirar meu corpo do efeito anestésico, pisquei várias vezes ao voltar à consciência. Ela pegou o celular nas mãos e checou os​ registros – Número desconhecido, Igor – a olhei com uma sensação estranha querendo emergir de dentro de mim. 

– Pode ter sido um trote, muitas pessoas se aproveitam da desgraça do outro – neguei com a cabeça. 

– Era a minha filha, eu tenho certeza – falei esperançoso, segurei firme em seus braços e mergulhei em seus olhos verdes. 

– Igor, parecia ser uma ligação de beira de estrada. Havia risadas no fundo e o barulho de carros estava alto – explicou e a adrenalina, que ainda está rasante em minhas veias, causou-me choques por todo o corpo. É como se as palavras delas se esvaíssem no ar. – Era ela – reafirmei com tom de voz mais grave do que pretendia e ela assentiu. – Tudo bem, mas fica calmo – foi me empurrando de leve e sentei na cama. Um nó está preso em minha garganta, ouso dizer, que depois da morte de minha filhinha, este aperto doloroso estava aqui dentro, no estado latente, mas agora está regurgitando desesperadamente para sair. Susana se posicionou em pé entre minhas pernas e abracei sua cintura. 

– Acredita em mim, Susana – ergui a cabeça e a encarei suplicante. 

– Eu não estou ficando louco – ditei firme e ela concordou. 

– Eu sei que não, Igor – afagou as maçãs de meu rosto. – Ela está viva! – embarguei as palavras.

Narrado por Elinór

O abracei forte, tentei digerir tudo o que acabou de acontecer. Em minha carreira já presenciei supostos telefonemas para famílias que perderam seus entes queridos, todos querendo apenas brincar ou arrancar dinheiro de parentes desesperados que, por mais inacreditável que seja, sentem um fio de esperança. Beijei o topo de sua cabeça quando ele soluçou. 

– Ela está viva, não é? – indagou apertando-me contra ele. 

– Igor – o chamei sem saber o que dizer. Busco palavras de conforto, mas não as encontro. – Se você tivesse ouvido a vozinha dela – deitei minha cabeça sobre a sua e deixei que ele chorasse em meus braços. 

– Isso dói demais – entrecortou as palavras, meu coração padece junto ao dele e não sei o que fazer para amenizar seu sofrimento. Suas lágrimas mancham minha camisola de seda e dentro de mim, eu penso como seria maravilhoso se tudo isso fosse real e a menina estivesse viva. Porém, sou realista demais e apenas mantenho meu instinto de detetive. 

– O que eu ainda estou fazendo aqui? – caiu em si e me afastou de seu corpo. 

– Eu vou procurar minha filha, ela não está enterrada naquele cemitério – saiu em direção ao closet e colocou a primeira roupa que encontrou. Eu tento de todas as formas conter essa louca vontade de Igor procurar pelo desconhecido, mas em seu rosto vejo a determinação e o destemor de um pai. Enquanto não consigo convencê-lo, peguei meu celular e disquei rapidamente para Vivian. O número chamou​ duas vezes e logo atendeu. 

– Vivian, vem para a casa do Igor agora – soltei as palavras sem respirar. 

O que houve? – perguntou preocupada. – Um telefonema, Vivian. Igor acha que a filha está viva – revelei. – O que? – rebateu incrédula. – Vivian depois eu explico. Vem pra cá e trás Soniér com você – falei sem paciência e ela apenas disse um OK sem titubear. Desliguei o telefone e vi Igor calçando os sapatos. 

– Igor, eles já estão vindo – me aproximei e ele me olhou desatento. 

– Você ouviu o que eu acabei de dizer? – ele estava sentado na cama e ergueu-se num impulso só. – Estou saindo – disse efusivo e passou as mãos pelos cabelos, depois coçou a nuca como se quisesse lembrar-se de alguma coisa. – Igor, pelo amor de Deus, espera! – pedi aflita, contudo ele não me ouve de jeito nenhum. 

– Eu só volto com a minha filha – falou sem rodeios. Não aguento vê-lo assim, percebendo sua sanidade escapar por entre os dedos, dei um tapa com um pouco de intensidade em sua face e ele me encarou estupefato com a mão sobre o local. Empurrei seu corpo robusto contra a cama e ele caiu sentado. 

– Você não vai sair coisa nenhuma – anunciei séria. – A ajuda já está chegando e você mal sabe de onde veio essa ligação. Pode ter sido de qualquer lugar – segurei seu rosto e nos olhamos fixamente. 

– Não pode vagar por aí sozinho, sem destino algum, sem saber para onde ir – sem deixar de me fitar, apenas vi suas lágrimas caírem por sua face sem expressões. Elas deslizam fáceis e o doutor as deixa rolar sem receio ou vergonha. Limpei seu rosto com meus polegares e suspirei. 

– Eu tive tanta esperança – falou baixinho e triste. – Agora eu já não te sei se é minha filha que está naquele caixão – completou e senti um arrepio esquisito inundar minha espinha, provocando-me calafrios angustiantes pelo corpo. 

– Eu sei que já te pedi isso uma vez... – pausei a frase e pensei se realmente deveria dizer. – Porém eu falhei antes, mas não quero falhar novamente – ele me encarou atônito.

– Confia em mim, deixa eu te ajudar a superar – implorei e beijei sua fronte. 

– Deixa? – repeti serena. – Você não falhou comigo, não fala essas coisas – acariciou minhas costas e tomou fôlego por causa do choro. – Se eu deixei essa impressão, me desculpa – sorri contida e o abracei mais forte. – Eu amo tanto você, não quero que ninguém brinque com o que aconteceu – selei meus lábios ao dele, e senti o sabor das lágrimas que caíam. 

– Eu sinto que eu vou enlouquecer Susana – confessou choroso. 

– Quando você não está aqui eu me sinto tão sozinho, eu penso o tempo inteiro na minha filha e imagino coisas horríveis – seus olhos azuis estão demasiadamente vermelhos, flamejam pela dor que liberam. 

– Eu não vou te deixar mais, não quero ficar adiando nada na minha vida – expressei-me e ele se levantou da cama, envolveu-me em seus braços e suspirou. 

– O que isso quer dizer? – encostou sua testa na minha. 

– Eu não posso mais ficar fugindo e te ver só em dias alternados – afaguei seus braços e subi minhas mãos até sua barba que está centímetros maior que de costume. 

– Eu te quero todos os dias – esfreguei meus lábios nos dele. – Chega de coisas horríveis, eu vou cuidar você – Igor encarou-me incrédulo e simplesmente se atirou contra meu corpo, apertando-me de um jeito nunca antes feito. Senti que ele descarrega as tensões, os medos e inseguranças pelas quais tem passado nos últimos tempos. 

– Você não tem ideia do quanto essa noticia é boa – declarou e invadiu meus lábios numa atitude inesperada. 

– Obrigado – agradeceu erguendo meu corpo do chão e rodopiando pelo quarto. Fez isso umas três vezes e sorri agarrada a ele. 

– Sou eu quem devia ser forte, quem devia cuidar – passou os dedos por minha face. 

– Estou sendo fraco – neguei. 

– Não está, é muito forte por sinal – lembrei. – Vamos ser o amparo um do outro, ok? – assentiu e aliviei as duvidas do meu coração. Literalmente, estou me entregando de maneira mais profunda. Na realidade, não sei como lidar com isso, mas as incertezas não podem me puxar para o fundo do poço. 

– Vamos sim – respondeu sorrindo. Parecia que o assunto do telefonema havia chegado ao fim e por longos segundos esquecemos completamente do ocorrido, entretanto fomos interrompidos pelo barulho do meu celular. Olhei para a tela e constatei que era a Vivian. Atendi. – Libera o portão, já estamos aqui – pediu séria. – Espera um minuto – desliguei o telefone. 

– O meu pai está aqui, não vai gostar nada de me ver na sua casa – esfreguei as mãos e falei nervosa. – Você está comigo – gesticulou espalmando a mão direita em seu peito. – Ele vai ter que passar por cima de mim se ousar dizer qualquer coisa que te ofenda – assustei-me com seu tom de voz. 

– Não quero brigas, por favor – clamei e fui em direção ao closet, peguei uma calça jeans e uma blusa fina, porém de manga longa para vestir. Voltei para o quarto e o vi encostado na lateral da porta de forma pensativa – Abre o portão para eles enquanto eu troco de roupa – fez sinal positivo. 

– Está na hora de enfrentar o seu pai – desencostou da porta. – É a hora de ser uma mulher livre pra viver sua vida – ditou enfatizando. – Vai Igor! – apontei para a porta e ele caminhou em direção às escadas. Vi quando ele desceu pela mesma e um gosto amargo subiu por minha garganta. Terminei de me arrumar e por longos minutos encarei meu reflexo no espelho. Já sou uma mulher madura e necessito perder o medo que tenho de meu pai. Encorajei-me e andei até o corredor, antes de chegar ao topo da escada. Visualizei a imagem de meu pai e Dimitri escoltados por dois seguranças fortes, entrando na sala e logo em seguida, Vivian e Rony também preencheram o local com sua presença. Meu pai está dizendo alguma coisa para Igor, que balança a cabeça em sinal positivo. Ele apontou para o sofá e todos se acomodaram, exceto os dois homens de preto que ficaram em pé, num canto da parede perto da porta. Coragem! Repito para mim mesma a cada segundo que passa. Comecei a descer os primeiros degraus e assim que atingi o patamar do primeiro piso, Soniér fuzilou-me com seu olhar furioso e levantou-se do sofá imediatamente. Encarou doutor Igor e depois lançou mais uma vez o olhar para mim.

Narrado por Igor

Soniér mudou as feições e olhou para mim de um jeito desconfiado, segui seu olhar quando ele mirou algo à sua frente e vi que ele encarou a própria filha. 

– Eu achei que tivesse sido bem claro quanto às minhas ordens, Elinór – andou lentamente pela sala ao reparar que a ela está aqui. A doutora permanece calada e parece encolher-se como uma garotinha medrosa. Deu alguns passos com receio e parou um pouco distante de seu pai. Desviou o olhar e inclinou a cabeça – Olhe para mim quando eu estiver falando com você – ditou ríspido e um clima de tensão pairou no ar. 

– E é para me responder – colocou-se diante dela, enquanto os demais, acomodados no sofá, observam a cena. Percebo as atenções todas voltadas para Elinór. Onde está aquela mulher destemida e ousada que conheci? Intransigente e até mesmo arrogante em certos aspectos. 

– Tola – disse erguendo seu queixo e ela o encarou. – Está me envergonhando – falou com extremo desdém. 

– Não fale assim, pai – pediu baixinho com pouca força na voz. – Eu lhe dei um comando e não cumpristes com a tua palavra – ele está irredutível.

– Pare – reiterou o pedido, falhando as palavras. – O que falta te falta, minha filha? Sempre desfrutou do mais puro luxo e requinte. Estudou nos colégios mais caros, rebelou-se como toda jovem e ainda por cima pode ter o mundo aos seus pés – gesticulou ao explicar. – É esse tipo de vida que quer? – indagou cruzando os braços e olhou o ambiente à sua volta. 

– Sujeitando-se às sobras de outra mulher e ainda por cima ganhando de presente todas essas desgraças – comentou indignado. – Está dando murros em ponta de faca como tua mãe – ela cerrou os olhos e em seguida os abriu. 

– Por favor, pare – seus pedidos de clemência estão me matando por dentro. Por que ela não reage? Por que tanto medo deste homem? – Fraca e ingênua – completou com um risinho intolerante de canto de boca. 

– É a minha única herdeira, não me faça ter arrependimentos disso. Saia imediatamente daqui e vá o mais depressa possível para Lisboa – os olhos dela se dilataram e meu sangue ferveu. 

– Não estou pedindo, estou mandando – foi rude e cheguei ao meu limite, andei em direção a eles e não hesitei em me contrapor à decisão. – Ela não vai a lugar nenhum – falei grave e rouco, com certa dureza em meu timbre vocálico. Coloquei-me entre eles, protegendo-a e o encarei sem medo. 

– Mais decência para falar com sua filha na minha frente – apontei visivelmente irritado. 

– Abaixe o dedo, doutor – retrucou. 

– Olha como fala comigo – advertiu austero. – Não! Olha como você fala comigo. Quem pensa que é para entrar na minha casa e ofendê-la dessa maneira? Não me importo se você é o pai, poderia ser o presidente – ela toca os meus ombros, tentando evitar a discussão, mas não olhei para trás. 

– Eu amo a sua filha e não vou permitir que fale assim com ela – todos na sala ficaram atônitos com a revelação. 

– Que história é essa de amor? – questionou desacreditado. 

– Ela está comigo e nunca mais vai precisar se sujeitar a você – ele riu ironicamente de minha fala e dei passos em sua direção. – Você é a minha maior decepção, Elinór – disse com face de desencanto e ouvi o choro baixinho dela atrás de mim. – Cala essa boca! – ordenei efusivamente. – Fala comigo, de homem para homem. Não seja um covarde – cheguei tão perto dele que pude sentir seu hálito exalante de charuto cubano. Soniér calou-se e apenas me olhou de soslaio, deu dois passos para trás e passou a mão direita em suas mechas platinadas. 

– Maldita hora em que a chamei para este caso – disse ao mirar o rosto da filha. Ela ainda derrama lágrimas pelo constrangimento. – Olhe só para você, vulnerável e precisando de defesa. Não foi assim que eu lhe criei. Está manchando o sobrenome dos Altman – não me contive e o segurei pelo colarinho com força. 

– Eu mandei calar essa boca – ele nada fez para apartar-se de mim, pois logo seus seguranças correram em nossa direção, porém foram impedidos por ela. 

– Fiquem onde estão! – deu o comando e se interpôs entre nós, fazendo com que o pai pudesse respirar direito. 

– Parem com isso vocês dois, por favor! Não estamos aqui para isso – pediu séria e limpou o rosto, cujas lágrimas o haviam lavado. Colocou os braços para trás e segurou os meus.

– Eu realmente tinha que ver esta cena, você é muito diferente da filha que eu criei. – falou desiludido. 

– Sua avó tinha razão quando dizia que há sangue ruim correndo em suas veias – a essa altura eu já não estou ponderando mais nada, somente a raiva me domina. 

– Acha que ele vai te assumir pelo resto de sua vida? É um mero passatempo para que ele possa afogar as mágoas. E vejo que é tão burra quanto a sua mãe – foi cruel e cerrei os punhos pela ira. 

– Agindo como uma cadelinha atrás de qualquer homem só para satisfazer sua carne – imediatamente minha fúria tornou-se força para que eu me desviasse dela e o acertasse com um soco na face direita. Ele caiu no sofá e o ergui novamente pelo colarinho. 

– Eu só não acabo com você porque infelizmente o pior castigo que posso dar a ela é ver o pai morto – o apertei ainda mais, porém senti meus braços serem agarrados pelos seguranças e logo me afastaram dele. 

– Os últimos resquícios do amor que eu tinha por você acabaram hoje, Soniér – eles me soltaram e ela me abraçou chorosa, afundando o rosto em meu peito. 

– Não vê? Eu só não quero que cometa os mesmos erros que sua mãe – o pai falou analisando o polegar que havia passado no canto dos lábios onde o feri. Ao ouvir o que ele disse, ela apossou-se de uma audácia feroz e franziu​ o cenho para rebater a injúria. 

– Fecha essa boca imunda para falar da minha mãe – desvencilhou-se de mim e apontou severamente para o mais velho. 

– Seu hipócrita – “cuspiu” as palavras. 

– Logo você que a destruiu, querido pai – ironizou a última parte. 

– Quer mesmo dar lição de moral? – questionou com repúdio. 

– Quantas cadelinhas você pegou e depois jogou fora como fez com ela? – aproximou-se ainda mais do detetive. 

– Hein? – insistiu, enquanto o mesmo parece ter caído na real do que disse, pois esboça uma face de arrependimento. 

– Eu cresci numa prisão, um verdadeiro inferno! – gritou e todos na sala parecem não acreditam na cena que presenciam tão pouco alguém ousam interromper. Estão pasmos e tampam a boca para não emitir qualquer som.

 – Me perdoa filha, na vida eu só tentei fazer o melhor. Ser um bom pai – suplicou visivelmente abatido pela ofensa lançada contra a filha e, que certamente, nunca vai poder voltar atrás. Nunca mais.

– É claro que você tentou ser um bom pai, me ensinou a ser arrogante, esnobe e acima de tudo, aprendi a achar que eu era superior a todos os outros – sinto que Susana está prestes a explodir, pois seu rosto intensamente rubro já denota a iminente perda de tolerância. – Você me controlou a vida inteira, destruiu todos os meus relacionamentos – eu apenas observo sua libertação gloriosa. – Eu fui apenas um robô na sua mão, aceitando fielmente todas as suas decisões, me mudando de cidade em cidade e de país em país só porque você queria – olhou para o alto e retomou o fôlego. 

– Agora chega! Eu definitivamente cansei desse jogo – cheguei perto dela ao ver que mesmo esbravejando ela começa a chorar.

– De hoje em diante eu não trabalho mais para você. Acabou! – ele está sem reação alguma. – Eu vou ser livre, eu amo o Igor – pronunciou em alto e bom tom. 

– E você jamais vai estragar isso – completou categórica. – Pode ficar com seu apartamento, com o carro, com tudo o que mandou preparar para a minha chegada ao Brasil – decretou séria e buscando autocontrole emocional, contudo é difícil conter as lágrimas que guardou por tanto tempo. – Houve um tempo em minha vida em que eu te idolatrava, me sentia a filha de um deus. Era uma honra atuar na sua equipe – disparou em meio ao ressentimento. 

– Mas a única coisa que nos une a gora é a paternidade, o nosso sangue. Esse veneno doentio. Porque fora isso pode esquecer que eu existo – Vivian a tocou pelo braço e tentou convencê-la a se acalmar. 

– Minha mãe te amou e o que foi que você fez? A fez sonhar alto, acreditar e, por fim a abandonou numa sarjeta à própria sorte – Vivian colocou-se diante dela e o homem ficou atônito perante todos. 

– Vem comigo – pediu à Susana. 

– Você é frio, Soniér. Insensível. Para mim, sempre foi mais um estranho do que um pai – com muito custo, a mesma a acompanhou até a escada e subiram. Um silêncio mortal desceu sobre esta casa e assim ficou até que o ancião resolver quebrá-lo. Ele ergueu a cabeça que estava pendida depois de ouvir os desabafos da filha e tirou um charuto de dentro de uma caixinha escondida no bolso de seu paletó. O objeto passeou entre seus dedos e ele o levou até a altura de suas narinas, inspirando o cheiro da ponta.

– Tudo o que ela disse é verdade, doutor Igor. Fui e ainda sou um péssimo pai – confessou com voz de amargura. 

– Eu a feri de morte agora e para isso não há perdão – prosseguiu. – Sei que nunca mais terei seu afeto. Mas uma coisa eu digo – aproximou-se perigosamente de mim e me encarou – Eu sempre quis proteger minha filha de canalhas como eu. Eu não queria essa vida para Elinór – alisou os cabelos. 

– Se causar a ela o menor dos sofrimentos amorosos eu juro que te mato sem dó e nem piedade. Prefiro ver minha filha viúva que sofrer por amor como a idiota da mãe dela – ameaçou.

– E eu sempre sei de tudo. Tenho olhos em todo lugar doutor Sarmento – o olhei em silêncio. – Eu sei muito bem honrar uma mulher, mantenho a minha palavra – ditei confiante de meus sentimentos por ela. 

– Eu não sou como você – ele sorriu sem mostrar os dentes, de canto de boca. 

– Vocês são muito diferentes, uma hora ou outra vai perceber. Ela não nasceu para ficar presa a alguém, gosta de liberdade – disse para me desanimar. 

– Eu não vou abandoná-la porque é diferente de mim, eu a amo pelo que ela é. Não julgue os relacionamentos alheios por todos os seus fracassos como homem – antes que eu pudesse continuar a frase fomos interrompidos por Rony. 

– É melhor essa discussão acabar aqui – ordenou sisudo. – Já perdemos tempo demais e viemos única e exclusivamente para sabermos da tal ligação – interveio mais uma vez. – Que os problemas familiares fiquem bem longe daqui. Ouviram? – o clima entre nós pesou de um jeito insuportável, contudo vou ter que tragar a presença de Soniér nesta casa. Afastei-me dele e andei e direção a Rony. – É um número desconhecido, eu tenho certeza que era a voz da minha filha – afirmei com confiança. 

– Doutor Igor, nós vamos averiguar isso, mas de antemão que lhe colocar à par de duas situações – senti um desânimo quando ele falou. – A primeira é a de que trotes são situações freqüentes em famílias que perderam seus entes queridos. É comum, infelizmente. Reacende uma vã esperança que se alimentada, pode gerar transtornos, depressão e inclusive o suicídio – tremi por dentro. – A segunda é a de que todos os exames que foram realizados com as amostras de sangue apontaram que era a sua filha – engoli seco a verdade. 

– Vou pessoalmente cuidar dessa ligação junto aos federais, enquanto Soniér faz buscas minuciosas em todos os registros das companhias aéreas, em todos os demais necrotérios da cidade e em cada minúsculo beco do Rio de Janeiro. Enfim, vamos repetir tudo o que já foi feito – Dimitri, que está sentado ao lado de Vivian reforçou a ideia. 

– Exatamente, além disso, podemos fazer a exumação do corpo e reavaliar os exames depois dessas averiguações – ouvi atentamente os passos da investigação. 

– Obrigado! – agradeci. – Mas que fique claro doutor Igor, a probabilidade de sua filha não ser a menina naquele caixão e de estar vida é quase zero – respirei fundo para suportar o soco no estômago. 

– Não vamos lhe dar falsas esperanças e tão pouco poderá falar disso com mais alguém – assenti. – A Eduarda pode saber? Apesar de tudo ela é a mãe – expliquei mesmo detestando a ideia de falar o mínimo possível com ela. – Não, não pode! O senhor sabe de nossas suspeitas, não há uma prova sequer contra ela, mas creio que por enquanto, esse assunto fique somente entre nós para não causar alarde. O senhor é rico e poderia muito bem ser alvo de tablóides sensacionalistas – concordei com a decisão. Em seguida Rony dirigiu-se até a delegacia e iniciou sua investigação. Outra parte da equipe foi destinada à minha antiga casa onde tudo aconteceu para mais uma análise do local. Só restou Vivian, Soniér e eu na casa de praia. Susana ficou no quarto durante um bom tempo e em seguida saiu com Vivian em direção ao jardim, não olhou para o pai que enquanto este dá as coordenadas para Dimitri através de celular, pois o mesmo está a caminho da outra residência, mexe em seu notebook contactando os demais agentes espalhados pela cidade. Uma nova caçada está começando, o alvo é incerto e o frio que se iniciou na espinha, agora se espalha por todo o meu corpo, provocando sensações aterrorizantes em mim. A dor de perder um filho é a destruição de um pai, porém saber que há chances mínimas de sua filha estar viva e sem saber onde ou com quem é ainda pior.

Narrado por Elinór

Estou estava acaba por dentro e jamais esperei por tamanha ofensa vinda de meu próprio pai. Não tardou muito para ir embora ao auge da madrugada depois de resolver algumas coisas com Igor. A tensão entre os dois exalava para todos os cantos da casa, e eu podia inspirar o cheiro da raiva que emanava deles. Entretanto essas diferenças foram deixadas de lado pelo profissionalismo e pela causa da Patrícia. Após a ida de Soniér, Vivian fez o mesmo e esperei no quarto por Igor. Ele trocou de roupa e se acomodou ao meu lado na cama. Permanecemos em silêncio por um bom tempo, até que ele resolveu me puxar para um abraço. 

– Eu não queria que tudo tivesse acontecido daquela maneira – falou e deitei minha cabeça em seu peito, fazendo carinho em seu braço direito. 

– Nem eu, Igor... Nem eu – fechei os olhos apenas recordando as palavras proferidas á mim. – Eu não sou aquilo que ele falou você não é um passatempo pra mim – ergueu minha cabeça e o fitei. 

– Não precisa dizer isso, eu sei bem quem você é e acredito no que sente por mim – ao ouvir beijou minha fronte, depois a ponta do meu nariz e em seguida sua boca percorreu o caminho de meus lábios. Ele me beija arduamente para curar as feridas que meu pai abriu e me sinto protegida como nunca fui. – Você é mulher da minha vida, Susana e não é nada daquilo que ele disse – meu rosto está entre suas mãos e ele o beija em cada canto. – Eu me orgulho de quem você é, foi por essa mulher que me apaixonei – sorri emocionada e subi em seu colo, envolvi meus braços em sua nuca e encostei minha testa na dele. 

– É por sua causa que passei a acreditar no amor – declarei e selamos nossos lábios mais uma vez. Aconcheguei meu corpo no seu e permaneci ali, quietinha, sentindo seus afagos deslizarem por minhas costas, sua respiração ditou o balanço do meu corpo e com todos esses cuidados adormeci em seu colo.

No dia seguinte, acordei mais cedo que de costume, é meu último dia no Santo Ângelo, entregarei tudo ao novo neurocirurgião e me despedirei da equipe que me acompanhou nesse curto espaço de tempo que fiquei no hospital. Levantei, tomei uma ducha relaxante e me arrumei rapidamente. Fui em direção á cozinha e esbarrei com Igor no meio do caminho, ele vinha ao meu encontro. 

– Eu estava indo te acordar – me abraçou e levantou-me do chão. 

– Fui mais rápida – rimos juntos. – Hoje é seu último dia, não é? – beijou minha bochecha e sussurrou contra a minha pele. 

– É melhor que seja assim, quero me desligar um pouco de tudo isso – me abraçou de lado e caminhamos até a mesa do café. 

– Preciso pensar um pouco no que quero fazer daqui para frente – me apertou contra ele. – Se dependesse de mim, você ficaria aqui e não nos desgrudaríamos nem por um segundo – sorri com as palavras, mas alarguei ainda mais o sorriso quando vi a mesa posta e repleta coisas gostosas que Igor preparou para mim. – Você não existe, sabia? – dei vários selinhos e massageei seus ombros. – Eu já estou mal acostumada, Igor – ele gargalhou. – Isso é um apenas um pequeno detalhe, há muitas coisas que quero fazer por você – seus dedos passearam delineando minha face esquerda e inclinei a cabeça lateralmente para apreciar sua delicadeza. Puxou a cadeira e me ajudou a sentar, depois se sentou à cabeceira da mesa e serviu-me o café. 

– Pega esse – entregou-me um potinho com geléia de morango. – E o outro é de que? – perguntei apontando para o que está ao lado dele. – É de uva, você não gosta – olhei para ele e nem percebi que eu estava com o lábio inferior preso entre os dentes. 

– Aqui estão suas torradas integrais e as frutas cortadinhas que você gosta – colocou um prato de porcelana repleto de frutas à minha frente e me deliciei com uma pequena porção delas. 

– Eu nunca disse que não gosto de geléia de uva – comentei ao passar a geléia de morango em minhas torradas. 

– Não precisa, eu percebo – tomou um gole do suco de laranja em seu copo. 

– Você sempre separa esse potinho bem longe de você e sei que também odeia a de damasco. Evita leite e só bebe café sem açúcar. Toma só a metade do seu suco preferido – apontou para a segunda jarra sobre a mesa, é de manga. 

– Parte as fruta em pequenos cubinhos, junta mais de um pedaço em uma única garfada e saboreia sorrindo – fiquei em silêncio e sem saber o que dizer. 

– Percebeu tudo isso? – questionei encabulada. – E muito mais – entrelaçou sua mão na minha que está por cima da mesa. 

– O que foi acordado entre vocês ontem? – ele respirou fundo quando perguntei. – Eles vão mandar notícias, só me resta esperar – beijei sua mão e ele fez o mesmo com a minha. – Eu estou sempre aqui – ele balançou em sinal positivo. Enquanto nos deliciamos com o café da manhã falamos sobre o meu último dia de trabalho e como foi essa experiência desde que cheguei. 

– Igor – o chamei. 

– Hum – balbuciou. 

– Vem comigo até o apartamento hoje – pediu despejando no café algumas gotas de adoçante. – Por um momento eu achei que você tivesse decidido a morar aqui – falou triste sem me olhar. 

– Ei – segurei seu queixo com a ponta dos dedos. – Eu preciso de ajuda para trazer minhas coisas para cá – sussurrei as palavras e num impulso rápido ele levantou da cadeira, dando-me um baita susto. 

– O que foi? – questionei sem entender sua reação. 

– Aquilo que me disse no quarto é verdade? Está falando sério mesmo? – perguntou espantado. – Estou, mas se não me quiser mais... – fiz drama e o vi sorrir para mim de uma maneira espetacular, me puxou da cadeira e me abraçou, encurralando meu corpo contra a mesa. – Estou tão feliz... É a melhor notícia depois de muito tempo – apertei seus braços e subi até sua face, emaranhando os dedos da mão esquerda em seus cabelos. – Eu quero muito que isso dê certo, assim como você quer – delineei seus lábios com meu polegar. 

– Eu quero aprender a viver com alguém, a ter uma família, alguém que me espere com carinho quando eu chegar em casa – ele pressiona seus lábios contra os meus e aperta minha cintura, afundando seus dedos em minha pele por debaixo da blusa. 

– Eu só quero isso se for com você – anunciei e meus lábios foram tomados com volúpia e uma dose extrema de paixão. Nossas bocas de chocam com intensidade e busco a língua dele por cada canto de sua boca. Ele geme gostoso contra meus lábios e em seus braços tenho a certeza de que nada em minha vida fazia sentido até conhecê-lo. 

– Você precisa me soltar desse jeito não vamos terminar o café e vou chegar atrasada para a despedida – rimos entre o beijo – A que horas te encontro lá? – perguntou. – Antes do almoço, arrumamos as minhas malas e depois podemos sair para almoçar. O que acha? – contei a Ideia. 

– Perfeito! – respondeu e me encarou sensual. – Sabe o que eu mais gosto em você? – indagou ajeitando a barra de minha blusa. – O que? – quis saber. 

– Esse mistério no seu olhar, cada vez que me olha é como se eu tivesse que descobrir um enigma – o olhei semicerrando os olhos. Cheguei com minha boca bem perto de seu ouvido e assoprei fazendo com que se arrepiasse. – Tente me desvendar, doutor Igor... Garanto que não vai tão simples – mordisquei o lóbulo de sua orelha e seu corpo deu um leve espasmo. Seu riso baixinho e rouco tira toda a minha sanidade. 

– Não pense que sou transparente, Madame – apertou minha bochecha com uma das mãos e minha boca formou um pequeno bico que ele fez questão de sugar. 

– Posso lhe surpreender com uma charada ainda maior – sorri lascivamente para ele, passei a língua por meus lábios carnudos e ele pressionou seu membro duro contra minhas pernas. 

– Me surpreenda – pedi lambendo seus lábios. – Me mostre o seu lado mais secreto e quente – apertei seu sexo e ele grunhiu. 

– Não brinque com fogo, doutora – advertiu sexy. 

– A vida é um jogo de xadrez, meu caro – pausei a fala e deixei um chupão forte em seu pescoço, marcando o meu território. Mostrando ao mundo que ele é só meu.

– Aahh – gemeu louco. 

– Enquanto você vacila, eu dou o xeque-mate – beijei a ponta do meu indicador e repousei o mesmo sobre a sua boca. Olhei as horas em meu relógio de pulso e constatei meu atraso, não da mais tempo de terminar o café. Peguei minha bolsa e segui até a porta de entrada da casa, volvi meu corpo altivamente e amassei os cachos de meus cabelos do lado direito, deixando-os mais soltos. – Quanto ao fogo, meu amor, eu adoro me queimar – o vi fechar os olhos com um pouco de força e apertar o membro por cima da calça, experimentando o frisson de nossos joguinhos sexuais. Andei a passos largos até meu carro, abri a porta e entrei. Minutos depois já estava a caminho do hospital. Assim que cheguei ao Santo Ângelo fui direto ao encontro do neurocirurgião, doutor Ademar Figueiredo. Entreguei-lhe a chave de minha sala e passei a senha do computador. Depois disso, vendo que doutor Edgar estava em cirurgia, entrei em sua sala, em surdina, e capturei o ponto sob a mesa. Da mesma forma que entrei e não fui vista, saí sem que ninguém percebesse. Caminhei lentamente pelos corredores do hospital relembrando meu primeiro dia. Algumas enfermeiras passavam por mim desejando boa sorte, outras diziam não estar se acostumando ao novo médico. Foi então que se passou a primeira parte da manhã. Os residentes que me acompanharam desde o início fizeram uma pequena festa de despedida. Numa sala vazia, prepararam uma decoração graciosa, havia bolo, vários doces e muitos colegas que fiz aqui vieram se despedir. 

– Pensei que não ia aparecer – abracei doutor Henrique quando este apareceu trazendo um enorme buquê, já era o quarto do dia que eu havia ganhado. – Como eu não poderia me despedir de você, é como uma filha para mim – sorri com suas palavras. 

– Eu devo muito a você – beijei sua bochecha e nos sentamos em umas poltronas no canto da sala, enquanto os demais presentes aproveitavam para se distrair e experimentar das delicias sobre a mesa farta. – Seu pai me ligou durante o plantão, disse o que aconteceu ontem na casa do Igor – mexi na pulseira com vários golfinhos em volta e olhei para ele. 

– É... Depois de toda a tensão pelo telefonema nós ainda discutimos feio – falei baixo para que só ele pudesse ouvir. 

– Soniér está arrependido, mas não mudou de ideia sobre o Igor e ainda acha que ele não é homem para você – falou visualizando uma mensagem em seu pager. 

– Ninguém é suficiente na visão dele – rebati e senti meu celular vibrar. Visualizei o número, mas como não conhecia recusei a chamada. – Sabe que eu conheço o doutor Igor desde que foi meu residente, não é? – assenti. – Ele foi um homem de fases, já foi mulherengo e depois tranquilo – gesticulou. 

– Foi instável e agora é um homem totalmente diferente, eu fico feliz por ter encontrado o Igor que ele é hoje – disse contente e concordei. 

– Ele mudou radicalmente a minha vida, mas sei que estamos nos adaptando um ao outro, é bem difícil deixar meus instintos de lado – meu celular vibrou mais uma vez e de novo recusei. – De uma coisa Soniér tem razão, mesmo estando sob as rédeas dele, viajando o tempo inteiro, eu podia ter o que eu quisesse e vivi sem lei alguma quando estava longe. Resolvia os casos e me divertia até não poder mais – contei-lhe sobre minhas aventuras recentes e ficamos ali durantes alguns segundos a esquecer do tempo. 

– Eu desejo toda a sorte do mundo para vocês, minha querida – agradeci os bons augúrios. – Obrigada! – meu celular tocou novamente e me deixou irritada. 

– Desculpe eu vou ter que atender – pedi licença e saí um pouco da sala. – Alô! – esperei pela resposta. – Alô! – repeti ao perceber que ninguém dizia uma palavra sequer. 

Podemos conversar com mais calma? – finalmente ouvi a voz inconveniente de Fernando. 

– É melhor sumir da minha vida ou te denunciarei por me importunar – ditei com raiva. 

Eu não vou fazer nada, calma, só quero trocar duas palavras com você – disse magoado. 

– Some da minha vida eu já tenho alguém. Para de me perseguir ou vou tomar medidas mais drásticas – ameacei e não permiti que ele prosseguisse com a conversa. Desliguei e tentei me acalmar. Entrei na sala e comecei a me despedir definitivamente de todos. Abracei algumas pessoas e juntos tiramos uma foto para o mural de recordações. Até esse exato momento já estava na segunda parte da manhã. Fiquei mais um tempo no hospital auxiliando doutor Ademar com algumas burocracias no centro cirúrgico, passei no setor de internação e conversei com cada um de meus pacientes e expliquei a eles que o novo médico acompanharia os pós-operatórios. Perdi um pouco a noção da hora e quando dei por mim eram quase onze e meia. Peguei minhas coisas, me direcionei ao elevador e desci até o estacionamento. A porta se abriu e visualizei meu carro há alguns metros de distância, os quais andei com pressa pelo atraso. Toquei na maçaneta do veículo e fui surpreendida com uma mão em meu ombro. 

– Fernando! – assustei-me severamente. 

– Ficou louco? Quer que eu chame o segurança? – apontei e ele ficou quieto, abaixou a cabeça e a ergueu lentamente até seus olhos encontrarem os meus. 

– Eu disse que queria conversa, só que na verdade não sou eu quem quer te ver – o olhei sem entender. 

– Do que está falando? – indaguei impaciente. 

– Vou te levar comigo – sorriu sádico e não tive tempo de reagir, pois uma forte pancada com algum objeto acertou em cheio minha nuca e perdi a consciência no mesmo instante.

Tentei abrir os olhos, mas resmunguei de dor pela agressão. Minha visão está um pouco turva e sinto que meus pés e mãos então imobilizados. Relembro vagamente de Fernando e mais nada. Tento falar, porém é impossível devido o grande pedaço de fita adesiva em minha boca. Minha cabeça está zonza e as coisas ao meu redor giram como se eu estivesse embriagada. Quando consegui enxergar com nitidez, encarei incrédula a imagem à minha frente. A pessoa se aproximou de mim e deu forte tapa em meu rosto, fazendo o mesmo inclinar-se para o lado. 

– Acha que eu sou idiota? – perguntou e virei o rosto sentindo o mesmo queimar. 

– Sei quem você é desde o princípio – todos os músculos de meu corpo tremem. 

– Não foi difícil tirar a Patrícia do meu caminho, aquela criança insuportável – Eduarda falou naturalmente, sem remorso. 

– Vai ser um grande prazer matar você também – gelei de cima a baixo.


Notas Finais


Obrigada por ler até aqui 😍
Espero que tenha gostado 😘


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