História Kyman: Destinos entreleçados - Capítulo 4


Escrita por: ~

Postado
Categorias South Park
Personagens Eric Cartman, Kyle Broflovski
Tags Bdsm, Cartman, Kyle, Kyman, South Park
Exibições 195
Palavras 4.973
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Lemon, Romance e Novela, Suspense, Yaoi
Avisos: Álcool, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Desculpem a demora! Mais este capítulo está bem grande, valendo por dois! :)

***

Capítulo 4 - Bêbado


 

Eu definitivamente não devia ter feito o que fiz. Não devia ter bebido tudo aquilo, tão rápido, tão… tanta bebida.

Assim que eu matei as bebidas, teve toda uma hype de “Kyle matou 5 shots de tequila de uma vez só, uhuu!” e foi até legal, para ser sincero, algumas pessoas que eu nem vejo direito pelos corredores do colégio deram tapinhas nas minhas costas, mas durou pouco. Me jogo em um sofá livre e Cartman se senta bem ao meu lado.

É quando acontece a magia. Eu estou com a guarda baixa demais para me importar e ele parece descontraído o suficiente. Ele faz uma piada com relação a cara dos outros enquanto estávamos apostando e não sei se alguém percebe, mas acabo soltando algumas risadinhas. A forma como ele fala é divertida e minha reação só o estimula ele a continuar contando.

Ele fala sobre eu ter conseguido beber as shots e pela primeira vez conversa comigo como um ser humano normal, é até engraçado quando não faz comentários anti-semitas. Não imagino o quanto deve ser estranho para os que nos conhecem ver 'o judeu e o nazista da região’ se dando bem, mas estou bêbado demais para ligar.

- Vou dar uma olhada na mesa de salgados. - Ele diz se levantando e sumindo em direção a cozinha.

Comer algo não soa como uma má ideia. Porém, ao me levantar a bebida em meu estômago revira, minha cabeça gira e sinto o quarto inteiro rodar. Apenas perco o equilíbrio e fico completamente tonto por um instante.Me apoio no sofá por um momento, esperando a tontura passar e também acabo bocejando, mas não estou nada afim de dormir.

Não sei exatamente como, mas chego na cozinha. Minha memória está deletando algumas coisas, ou apenas não estou prestando atenção o suficiente. Acho que Kenny fala alguma coisa para mim, mas não entendo o que, então finjo que não foi comigo. Stan deve estar com Wendy mesmo, não vejo porque não posso ficar na companhia de Cartman e fingir que somos normais.

Ele está em frente à uma mesa com variedades de salgadinhos, algumas vasilhas de batatinhas, amendoins e sanduíches bem pequenos com palitos em cima.

- O que tem de bom aí? - Pergunto cambaleante com uma intimidade que não existe, ficando um tanto perto demais.

Ele ergue a sobrancelha para mim e percebo um sorriso se formando no canto de seu rosto, acabo sorrindo também.

- Bem, tem esses pequenos sanduíches de bacon. Estão uma delícia. - Ele mostra um deles.

Minha barriga ronca. Eu devia ter jantado algo antes de sair de casa, mas não esperava ficar todo aquele tempo na festa, muito menos beber alguma coisa. Comer parece uma boa ideia. Eu rio um pouco, mesmo sem saber exatamente o porquê aquilo é engraçado.

Me aproximo ainda mais, quase jogando meu corpo contra o dele e pego o sanduíche de suas mãos dele com a boca, fazendo questão de pegar seus dedos com os lábios, lambendo o picante molho barbecue. Na minha cabeça estou sendo sensual enquanto como o sanduíche, nem ligo se estou pagando mico.

Como é pequeno, como em uma abocanhada, estão até gostosos, tem uns potes de molho em volta que eu percebo depois. Pego mais um da mesa e passo no pote de molho barbecue, por que aquela combinação de sabores até que ficou bem boa e eu estava pensando em lamber meus lábios sensualmente.

- Cara, o que você está fazendo? - A voz de Stan vem de trás de mim. Ele fica indo e vindo do nada.

Comendo mini sanduíches. Com molho. Eles são pequenos demais, o que é uma droga por que estou com fome. - Falo de boca cheia.

- Cara, são sanduíches de bacon!

- E?

Seus olhos me fitam em reprovação e raiva, sinto que estou prestes a levar uma bronca, oh-oh.

- É carne de porco!

Engulo o que tem na minha boca e fico um instante em suspensão. Cartman finge um bocejo para a minha conversa com Stan e passa o braço pelo ombro do meu melhor amigo que o encara com mais raiva, fuzilando-o com os olhos.

- Calma lá, seu hippie. Não tem problema do judeu comer só um pouquinho de bacon.

Stan tira o braço de Cartman agressivamente.

- É proibido na cultura judaica, seu babaca.

Ele tem toda razão, é bem proibido. Minha mãe já quase subiu as paredes quando eu era pequeno e não quis comer carne kosher. Se ela descobrisse que eu comi carne de porco ia soltar as macacas para cima de mim, mas a solução para isso é bem simples: não vou contar nada sobre hoje para ela.

- Deixa de ser um saco. - Cartman cruza os braços.

- Respeite o que é permitido e proibido para os outros! - Stan retruca.

- Eu gosto de fazer algumas coisas proibidas as vezes. - Eu falo.

Ambos me encaram de forma estranha e ao mesmo tempo. Acabo corando com essa atenção repentina. Estou falando um pouco sem filtro, sem pensar. Cartman sorri curioso.

- Sério? Tipo o que? - Ele pergunta.

Stan segura meu braço e me tira da cozinha, me levando para bem longe de Cartman. Eu sigo sem contestar, ele me larga num canto da sala e fala mais baixo comigo.

- Cara, acho melhor você ir para casa.

Talvez ele esteja certo, mas não estou com a menor vontade de fazer isso. Estou me divertindo até, o que é bem raro nesse tipo de ambiente.

- Não quero. - Respondo cruzando os braços de uma forma infantil.

- Cara, você está bêbado.

- Cara, todos estão! - Falo elevando um pouco a voz e mostrando às pessoas em volta.

Tem um garoto bêbado no sofá e uma garota vomitando num vaso de plantas, enquanto outros idiotas praticamente imitam macacos jogando ping pong de cerveja.

- Mas eles estão acostumados com esse tipo de ambiente, Kyle. Além do mais eles não são você. Você devia ir para casa, tomar um banho, recuperar a sobriedade, antes que acabe fazendo alguma coisa para se constranger ou se machucar.

Parece que minha ficha cai de repente. Eu me sinto muito bem em ter um amigo como Stan que só quer me proteger e me ajudar. Ele sabe que estou bêbado e não quer que ninguém tire proveito, como isso não é fofo?

O abraço e ele passa a mão por minhas costas, me consolando. Mas eu não o solto, na verdade abraço ainda mais forte.

- Ah, Stan! Você é tão fofo, estando preocupado comigo, eu nem pensei que poderia te preocupar.

- Tá tudo bem cara… - Ele fica tenso é claramente desconfortável com todo o meu sentimentalismo de bêbado.

Falo enrolado e quase chorando, sem ligar se pareço patético.

- Você é um amigo muito legal, meu melhor amigo! Eu amo você!

Ele me dá tapinhas nas costas e recolhe o corpo, eu estou falando um pouco alto, mas nada que supere a música ambiente ( que está repetindo pela quinta vez) e nem as conversas paralelas dos outros. Mas Stan está constrangido e fica olhando para os lados com uma certa frequência.

- Tá bem, cara. Para com isso, vai pra casa.

- Tá, eu vou. - Falo, mas continuo abraçado.

Ele segura meus ombros e me afasta dele. Me aproximo para me despedir com um beijo na bochecha ( jamais faria algo assim sóbrio, mas constemos, eu não estava nada sóbrio) e acabo por acertar os lábios dele.

Eu não consigo conter uma risada e sigo para a saída da festa, Stan já tinha me trazido para perto da porta, então é só sair enquanto ignoro uma Wendy furiosa vindo na direção do meu melhor amigo. Ops.

Penso em explicar que foi só o calor do momento, mas acabo por sair da social mesmo. Fico com aquela desculpa no fundo da cabeça, falo com ele amanhã. Se eu lembrar disso.

Quando saio da festa sinto os ventos gelados da rua direto no meu rosto, o que é bom em contraste com o abafado daquela festa, mas ainda estou bastante tonto, apoio minha mão na parte da frente da casa, sinto a bebida subir meu estômago e respiro calmo e pausadamente, estou enjoado. Pego meu celular para ver as horas, mas ele está sem bateria, maravilha.

Consigo não vomitar, o que é ótimo. Parando para pensar um pouco eu beijei o meu melhor amigo. Não que isso tenha significado qualquer coisa, ele é como um irmão para mim e não nutro esse tipo de interesse por ele, nossa, essa deve ter sido a coisa mais estúpida que fiz na noite. Além do bacon.

Ah, e das bebidas. Droga, eu devia era voltar para casa mesmo, antes de fazer qualquer besteira. Maldita aposta. Sigo em passos cambaleantes para casa, meu estômago não está nada bem, mas espero aguentar até chegar em casa, não quero ficar vomitando por aí.

- Até mais, idiotas!

Ouço passos pesados vindo logo atrás de mim.

- Ei, Kyle! Não acredito que já está indo embora, a festa estava começando a ficar boa. - Cartman se aproxima de mim e passa o pesado braço por meus ombros, estou meio fraco e essa breve sacudida não me faz nada bem, levanto a cabeça, sinto que se abaixar o rosto de novo vomito.

- Você está saindo também? - Falo, para não pensar no meu estômago.

- É, aquela festa estava um porre. Além do mais, você deu uns amassos no Stan e eu ainda não tive a chance de tirar uma da sua cara por isso.

Claro. Lá vem.

- Você tinha que ver a cara dele quando você o beijou, ele estava completamente petrificado, meio pasmo, acho que ele simplesmente não contava com isso, mas o melhor de tudo foi a cara da Wendy. Cara, você tinha que ver, a vadia estava fumegando, quase que dava para ver a espuma na boca dela de raiva.

- Cara, justificável. Eu beijei o namorado dela! - defendo Wendy.

- Parabéns cara, arruinou o relacionamento do seu melhor amigo.

- Não é como se ele precisasse da minha ajuda para arruinar nada. Eles devem brigar mais do que transam. - Estou mesmo sem filtro.

- Oh-hoho. Nada como uma honestidade de bêbado, não é mesmo.

Ele sacode o braço no meu pescoço. Quando ele vai rir de Wendy, a pessoa que depois de mim ele mais gosta de falar mal, ele acaba me sacudindo. Sinto a bebida subir quente  por minha garganta e não tenho autocontrole o suficiente para impedi-la de sair.

O gosto ácido sai pela minha boca me deixa nauseado, vomitar nunca é legal, se as tequilas não eram boas quando entraram, quando saem são ainda piores. Me sinto fraco e enjoado, mas sou tomado por uma rápida tensão quando percebo onde vomitei, ou melhor em quem.

- Você não fez isso. Você tem problema?!

Cartman me empurra, eu acabei por sujar toda sua jaqueta de couro preta. Eu estou sem força no corpo e ainda um pouco tonto, então caio na calçada facilmente.

- Vou quebrar essa sua cara! - Ele ameaça.

- Ah, nem vem, isso é culpa sua! Você que me fez encher o cu de bebida!

Ele está com toda a postura clássica de raiva, pronto para retrucar qualquer coisa que eu fale e jogar na minha cara, poderia ser uma briga como outra qualquer nossa, mas ele recua quando faço uma coisa bem atípica: Meus olhos marejam. na real não é nem pela dor da queda, mesmo que tenha ferido um pouco minha mão, mas por que estou me sentindo um imbecil. Em apenas uma noite me fiz de completo idiota. Fiquei bêbado, estou claramente passando muito mal, dei em cima do meu melhor amigo, comi carne de porco, me fiz de imbecil na frente de todo mundo e ainda vomitei no cara com quem estive flertando a noite toda.

Estou me sentindo um lixo e estou fedendo a tequila vomitada e bacon.

- Vai pra casa. - Diz Cartman virando o rosto, evitando ver minha cena patética.

- Eu não posso ir pra casa! - Eu grito em desespero, falhando em segurar uma das lágrimas do meu rosto. - Minha mãe vai me matar!

Limpo meu queixo sujo na manga branca da roupa e recolho meus joelhos no chão meio sujo de neve, está molhando minhas roupas, mas não ligo muito, estou mal.

Eu não devia ter me metido nessa aposta idiota, mesmo que eu queira culpá-lo por me desafiar, foi eu quem errou em aceitar. Droga, eu devia ter ido embora assim que bebi as shots e não esperado chegar nesse nível. Quer dizer, se Stan não tivesse me mandado embora eu teria o que? Vomitado no meio da casa e dado o vexame da minha vida? Droga, Kyle se ponha no lugar!

Estou esquisito, me sinto um lixo, estou fedido e ainda enjoado. Limpo meu rosto suado na outra manga, meu cheiro está me dando mais vontade de vomitar.

- E você pretende ficar aí no chão, no meio da neve até ficar sóbrio? - Ele pergunta.

- Sim! - Respondo ainda gritando e me encolho ainda mais, sinto a neve molhar até minha cueca, nem ligo. Está frio, não ligo.  - Me deixa!

Ergo meu rosto e percebo que ele não está mais lá, faz sentido, estou me sentindo muito mal, sendo patético, quem ia querer ficar perto de mim neste estado? Então me surpreendo. sinto ser puxado pela gola das minhas camisas.

- Levanta, traste. Você vem pra minha casa.

Olho-o sem entender ao certo o que disse,, mas fico de pé. Ele não está me olhando diretamente, pode ser que esteja com pena do meu estado lamentável, se bem que Cartman não tem coração, ele deve mesmo é estar puto comigo, afinal eu vomitei em sua jaqueta.

- Vem de uma vez. - Ele ordena seguindo na frente e eu vou logo atrás. - Mas se você der com a língua de que eu te ajudei, eu arranco ela fora.

Ele me encara de forma intimidante até que eu concorde com a cabeça, então continua seguindo. Acho essa atitude sexy. Haha, eu estou muito fodido.

Se bem que não entendo ao certo o que deu nele para me ajudar, somos a definição de inimigos, ele devia estar comemorando e fazendo chacotas com o meu estado! Ele tinha total vantagem sobre mim, estou, estava em meu pior estado. Me sinto bem em ser ajudado, mas minha guarda permanece alta, ele ainda é o Eric Cartman.

****

A caminhada me ajuda a estabilizar o estômago, depois de ter despejado tudo na jaqueta do Eric, começo a me sentir até um pouco melhor. Meus olhos ardem um pouco por conta do choro e minha boca está seca e com um gosto nojento, mas fazer o que? Podia ser pior, eu poderia estar indo para casa.

A caminhada é silenciosa, ele abre a porta da frente da casa, as luzes estão todas apagadas.

- Sua mãe está aí? - Quebro o silêncio.

- Ela está em uma viagem de negócios. - Ele responde trancando a porta e guardando as chaves em uma caixinha ao lado da porta.

Não questiono, a casa está bem mais quente e confortável do que o chão da rua e não faço questão de ser testemunhado por mais pessoas estando assim. Eu já estive nessa casa quando era menor, as coisas mudaram um pouco... Estante diferente, televisão maior, faz alguns anos que não venho nesse lugar.

Como estou coberto em vômito judeu eu vou tomar banho primeiro. Depois, você pode ir se quiser. Nesse meio tempo tente não vomitar em nada e se manter em pé. Quer saber? Por que não faz um café? Tem uma cafeteira no balcão da cozinha, acho que você consegue fazer ela funcionar.

Ele sobe as escadas, estou ainda um pouco zonzo e fraco por ter passado mal mais cedo, então apenas sigo em direção a cozinha e ligo a cafeteira sem questionar nada. Coloco o pó de café e a água e espero alguns minutos.

O importante é não pensar no Eric tomando banho no andar de cima. Falhei. Só de imaginar a jaqueta escorregando por seus ombros, ele tirando a camisa e bagunçando os curtos cabelos castanhos, isso me faz sorrir para o nada. Cartman podia ser uma criança gorda e desagradável, mas ele nunca foi nada feio. A mãe dele não seduziu metade da cidade apenas com lábia, ele herdou os melhores traços.

Sinto algo se esfregando em minha perna, interrompendo meus pensamentos de um moreno no banho no andar acima de mim e logo me deparo com a gatinha de Cartman. Ela já está bem velha, pançuda e com os pelos grisalhos. Me sirvo de uma caneca de café e faço um carinho nela enquanto a bebida esfria, não quero queimar a língua nem nada.

- Tire seus dedos imundos da minha Gata. – Cartman entra na cozinha. A frase dele tem uma ambiguidade maravilhosa, afinal se não me engano o nome da gata é Senhorita Gata.

Pego a caneca de café para conseguir ficar sóbrio logo, a última coisa que preciso é falar mais besteira ou dar outro show de  drama. Ele pega uma lata de comida de gato na geladeira e chuta o pote da gata para chamar atenção dela, depois que ela está comendo ele se volta para mim.

Ele está com uma calça de pijama azul escura e uma blusa sem mangas preta, gosto de seus ombros largos. Bebo a caneca inteira, café puro, está forte não é meu favorito, mas tudo melhor que o gosto que eu tinha antes na boca.

- Você está ensopado. – Ele comenta de minhas roupas, e tem razão. Quando me sentei na rua ela estava ainda coberta por uma fina camada de neve, isso molhou grande parte da minha jeans e a ponta da minha blusa.

Ele me estende uma toalha lilás dobrada.

- Pode deixar suas roupas secando por aí até amanhã, essa é sua toalha. Tem uma camisa minha no banheiro, eu sei que deve ficar bem larga em você, mas é culpa sua por ser tão magrelo. Além do mais isso é melhor do que ter você exibindo seus ossos por aí.

Não sou magrelo. Posso não ter um corpo muito atlético, mas faço basquete desde os meus 9 anos de idade e só não participo do time da escola por conta da minha altura. Ou falta dela. Penso em discutir sobre isso, mas minhas roupas estão geladas e estou cansado e começando a tremer. Também não quero pegar um resfriado, então apenas aceito a toalha e subo para o banheiro.

- Ah, tem escovas de dentes extras debaixo da pia do banheiro, na primeira gaveta. – Ele grita de baixo da escada, pouco antes de eu entrar no banheiro do corredor.

Penso em agradecer, mas ele já não está lá embaixo, deve ter ido para a cozinha. É estranho ter Cartman sendo legal comigo de alguma forma, isso não é normal, mas novamente, nada nesta noite foi muito normal.

Conheço o corredor, ao menos o suficiente para saber qual é o banheiro logo de cara, entro e lá tem a camisa que ele disse que eu poderia pegar emprestado, pendurada na maçaneta da porta. Nem paro para me olhar no espelho, sei que é comum que sempre nos espiemos em um espelho quando os vemos, mas sei que estou péssimo e não quero ficar com lembranças da minha cara vomitada.

Tiro minhas roupas molhadas e as deixo no chão do banheiro, meu corpo está gelado por conta do frio, preciso mesmo de um banho quente. Hesito um pouco antes de entrar no chuveiro, mas não é como se pudesse sair um jato de gás venenoso, ele tomou banho antes de mim. Entro debaixo da ducha forte de água quente e sinto um conforto que arrepia meu corpo, nada como um banho confortável para tirar o frio.

Deixar a água bagunçar meus cabelos já faz com que eu me sinta melhor, ainda tem o gosto ruim na boca, esqueci de pegar a escova de dentes. Passo sabão pelo meu corpo e um pensamento estranho me vem a mente: essa é a mesma barra de sabonete que Cartman usou no corpo dele. Sacudo esses pensamentos para fora da minha cabeça e termino meu banho, antes que me venham pensamentos pervertidos, não estou em casa.

Me lavo e me seco bem. Fico sempre com um certo nojinho quando volto de sociais, pode ser por conta do cheiro de cigarro que impregna facilmente no corpo, ou apenas por frescura. Por fim, me abaixo e pego uma escova de dentes novas (ele não estava brincando, tem um monte delas, novinhas!) e acabo com aquele gosto nojento na minha boca que foi mascarado pelo café. Escovo os dentes e a língua duas vezes, não quero nem lembrar daquele gosto. Estremeço.

Depois visto a camiseta do Cartman, ele estava certo em dizer que ela seria grande para mim, as mangas verdes claramente são maiores, e estão bem largas chegando no meu cotovelo e me cobrem na parte de baixo até um palmo da minha perna. Na verdade, me sinto confortável com uma roupa larga.

Me olho no espelho finalmente, meu cabelo está todo bagunçado, então o penteio com os dedos, ainda não acredito que ele foi tão gentil em me deixar passar a noite aqui, tenho certeza de que isso não pode ser uma simples ação humanitária, mas não consigo prever o que ele pensa.

Estou vestindo a camisa do Cartman.

Puxo a gola do tecido verde escuro até meu nariz e inalo o odor. Tem o cheiro dele, um cheiro doce que já aprendi a reconhecer muito bem, uma mistura de massa de biscoito e desodorante masculino. Me sinto patético por estar fazendo isso, mas não consigo evitar, sinto o calor se formam no meu rosto, estou tão… vulnerável.

Sacudo esses pensamentos da minha cabeça novamente antes de sair do banheiro com meu bolo de roupas nojentas e seguir para o outro lado do corredor. Não sei onde ele poderia estar, então bato na porta do quarto. Estou muito confortável e isso me deixa constrangido!

Cartman abre a porta.

- O que eu faço com isso? - Mostro o bolo ensopado de roupas.

- Deixa em cima do aquecedor. - Ele aponta para dentro do quarto.

Entro um pouco tenso, por que raios estou tão nervoso? Eu estava relaxado dois segundos atrás! Ele está com uma caneca de café nas mãos e fecha a porta do quarto, empurrando a gata com o pé, deixando-a do lado de fora, depois se senta na cadeira de rodinhas do computador.

Deixo minhas roupas em cima do aquecedor bem estendidas, para secar mais rápido. Percebo um cabo de carregador livre no canto do quarto.

- Posso? - Aponto para meu celular é para o carregador.

- À vontade. - Ele responde.

Conector meu celular, está totalmente zerado, devia ter deixado ele abastecer antes de sair, mas tudo foi um pouco às pressas quanto a essa festa. Ainda bem que avisei aos meus pais que dormiria no Stan, senão já tinham ligado para a polícia.

- Como que tem tantas escovas de dentes sobressalentes no banheiro? - Puxo um assunto.

- Minha mãe deixa de reserva para quando vem alguns de seus amigos.

Me arrependo de imediato de ter feito a pergunta. Esqueço que a mãe dele é conhecida como a vadia da cidade, frequentemente se encontra com outros homens. Eu não queria trazer esse tipo de assunto.

- Eh… sabe, eu queria mesmo era agradecer por sua ajuda.

Ele se reclina na cadeira do computador e engole rapidamente o café que estava tomando.

- Não me venha com agradecimentos, Kyle. Não é assim que funciona. - ele diz, descansando a caneca na mesa ao lado do computador.

Reviro os olhos.

- Então o que devo dizer? - Cruzo meus braços.

- Digamos que você me deve uma. - ele vira a cadeira dramaticamente, cruzando as pernas.

Não sei exatamente o que responder, não é como se eu quisesse jogar uma carta branca assim, principalmente para ele, mas ao mesmo tempo estou debaixo do teto dele, ele tem sido mais que razoável a noite toda, então aceno em concordância.

- Logo depois que concordo, falo sem pensar.

- E o que posso fazer para deixar de dever?

Me arrependo de perguntar, apenas por que pareço ter feito a pergunta que ele mais queria ouvir, vejo um sorriso se formando em seu rosto, um sorriso característico que tem quando sabe exatamente o que fazer para me ofender, ou vencer. Uma expressão de 'cheque mate’, meio irônica. Balanço os dedos inquietamente.

- Sabe, essa noite eu te fiz vários favores. Eu te ajudei quando estava vomitando, te tirei do chão da rua quando estava bêbado, estou te acobertando... - Ele lista as coisas nos dedos, falando devagar. - Quer dizer, eu deixei você usar meu chuveiro, minha escova, beber meu café e usar minha tomada, o que possivelmente você pode ter para pagar isso, hm, Kyle?

- Ah, cospe de uma vez. O que você quer? - cruzo os braços.

- Isso depende Kyle. Não vejo muito o que você tenha que seja de meu interesse. Algo que você possa saber ou ter que eu precise. Hm, talvez haja algo que você possa fazer por mim...

Não tenho paciência para toda essa encenaçãozinha, ele sempre faz isso quando está prestes a fazer algo na escola que pode me comprometer, já deu. Quero que ele fale de uma vez e possamos acabar com isso e seguir cada um seu caminho.

Ele me olha de cima a baixo se arrumando na cadeira, vejo o sorriso de gato de cheshire se formando em seu rosto novamente.

- Você ainda é virgem, Kyle? - ele pergunta de forma casual.

Claro que fico completamente sem reação diante de uma pergunta assim tão direta. Sim, eu ainda sou, nunca tive qualquer experiência, afinal, com quem eu teria, nessa pequena e infeliz cidadezinha? Sinto o sangue se formar em meu rosto, eu nunca conversei sobre isso com ninguém, nem stan, nem meus pais, então acabo ficando um pouco constrangido

- Por quê? - Falo de forma agressiva.

- Responda a minha pergunta, é uma questão simples de sim ou não, Kahl. - odeio quando ele erra meu nome assim de propósito.

Reviro meus olhos, ele está fazendo aquilo de novo. Aquilo onde acha que domina a conversa e que está sob vantagem, pior que sinto que estou fazendo minha expressão de raiva e nossa como ele adora quando fico com raiva.

- Sim. - Respondo cruzando meus braços novamente.

- Então, acho que encontramos o que eu quero. Me dê sua virgindade.

- Oi? - pergunto confuso, acho que não ouvi direito, a minha o que?

- Me dê sua virgindade, tirar seu cabaço.

Por mais que isso seja como nas minhas pervertidas fantasias do fundo da minha cabeça adolescente hormonalmente perturbada e esse tipo de conversa esteja me deixando minimamente excitado, eu sei pelo olhar dele que está apenas brincando. Está tentando me assustar ou me fazer dar um chilique. Hm, dois podem jogar esse jogo.

- Okay. - Respondo da forma mais simples possível, dando de ombros.

Vejo a expressão de Cartman mudar de total controle para levemente confuso, essa pequena queda do sorriso enche minhas entranhas com a sensação de vitória. Parece que a mesa virou, não é mesmo?

- O que? - Ele pergunta.

- Se é isso que você quer, tudo bem, é seu. - Respondo sendo agora eu quem está com o sorriso vitorioso e o controle.

- Você está bêbado. - Ele diz como desculpa.

- Não estou não, e mesmo que estivesse, não vai me dizer que teria medo, ou melhor, pena de se aproveitar de mim. Isso não combina nada com você.

Falo me aproximando dele em passos lentos. Ele observa eu me aproximar devagar, passo a passo em sua direção e fica um pouco tenso, atento aos meus movimentos imprevisíveis.

- Não quer?  - Ronrono, colocando as mãos em seus joelhos. - É uma questão simples de sim ou não, Cartman.

Provoco, devolvendo o discurso dele. Posso me arrepender muito disso depois, mas ao mesmo tempo, tudo hoje foi tão improvável e eu nunca estive tanto no controle da situação com relação a Cartman, não posso negar que estou gostando.

Ele não responde, então tomo a ação de prosseguir, até porque já cheguei até aqui com as insinuações, seria uma droga deixar a timidez tomar conta e ter que  voltar para estaca zero do Kyle puritano.

Deslizo as mãos em seus joelhos aproximando ainda mais o corpo, eu estava achando a falta de luz no quarto um pouco incômoda antes, mas agora cabe perfeitamente, pois mascara o rubro do meu rosto. Não sei que tipo de expressões eu faço quando me aproximo dessa forma, apenas sinto o calor subir enquanto luto para não relutar.

Aproximo meu rosto do dele, mordiscando o lóbulo de sua orelha - isso deveria ser bom ou sexy, mas não tenho certeza, pois nunca tive feito em mim. Na verdade, minha experiência geral é bem próxima do zero, mas agora foda-se.

- Por que você faria algo assim comigo?

Ele finalmente pergunta, os olhos castanhos fixos em mim; deve estar conferindo que estou mesmo sóbrio. Sua pergunta é incrivelmente razoável dado nosso histórico de inimigos quase jurados e deveríamos nos odiar.

E eu tenho uma resposta igualmente razoável, sou adolescente e tenho alguns fetiches que poucos garotos nessa cidade podem compreender, mas opto pela versão mais curta:

- Por que eu acho que seria incrível. - Dou um meio sorriso para ele mostrando que estou confiante de minha proposta.


Notas Finais


8)


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