História Desventuras de Um Soldado Sem Nome - Capítulo 5


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Categorias Originais
Tags Dragão, Fenrir, Lobo, Mitologia, Psicológico, Soldado, Suspense
Exibições 2
Palavras 1.605
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Fantasia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Suspense

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


O primeiro arco desta história se aproxima do fim... O prisioneiro e aquele que o guarda conversam, e o passado se revela mais uma vez.

Capítulo 5 - O Monstro de Ván


 Era uma bela noite e Beatrice escancarou a janela da sala, que tinha vista para a vila e suas pacatas ruas. A bela e próspera vila de Ván deve toda a sua humilde exuberância ao rio homônimo que a batiza: O grande Rio Ván. E naquela noite em especial, as águas do Ván estavam especialmente límpidas e transparentes, reluzindo a luz da lua cheia de uma forma quase cegante.
 O olhar de Beatrice se perdia entre a lua e seu reflexo no rio. Ela sorria, embora sentisse uma profunda dor em seu coração. Uma dor chamada saudade.
 "Fenris há de chegar ainda esta noite!" - Pensava ela, com animação - "Que os deuses guiem-no em segurança de volta à minha porta. Não me restam mais afazeres, já preparei o jantar e arrumei a cama."
 "A cama" - Repetiu ela em seus pensamentos, apoiada na soleira da janela com o rosto repousado numa das mãos, os olhos brilhando em resposta à luz do luar. Seu sorriso se alargou e seus olhos se fecharam involuntariamente enquanto ela revivia suas memórias noturnas com Fenris. Ela se perguntava se ele chegaria em breve e a veria ali na janela, mostrando a ela seu sorriso repleto de saudade e desejo. Ou talvez demorasse demais e ela pegasse no sono... Ele cumprimentaria os sentinelas da noite que com certeza entenderiam o motivo dele pular a janela da casa de sua dama já adormecida e cansada de esperá-lo.
 De repente, um grito cortou o silêncio da noite, e até as águas do Ván que pareciam estar em pura calmaria responderam com súbitas ondas. O eco do berro se misturou ao som das águas batendo violentamente nas pedras da encosta do rio.
 Beatrice, que já quase cochilava, abriu os olhos de sobressalto e vasculhou depressa as ruas que sua vista alcançava. Lá, do outro lado da praça, próximo a uma esquina, estava um homem no chão. Sangue cercava-o por todos os lados, como um grotesco lago que cerca uma ilha. O coração de Beatrice deu um pulo, mas logo reconheceu o velho Týr. Ela mal teve tempo de sentir o estranho misto de pesar e alívio que se apoderou dela ("Pobre bom homem era Týr! Mas que susto horrível, poderia ter sido Fenris atacado a caminho de casa.") pois logo percebeu que os sentinelas se acumulavam ali, mas não se aproximavam. Apenas erguiam suas lanças e escudos, e gritavam palavras de ódio e medo. As sombras se moveram e a luz branca da lua cheia revelou a figura erguida sobre o cadáver: Um grande lobo com garras grandes e afiadas, caminhando nas patas dianteiras.
 Ela pôde sentir o medo subir dos dedos de seus pés até os últimos fios de seus cabelos. Que criatura vil e assustadora! Fechou depressa as janelas e se escondeu sob a mesa. Os gritos e uivos não cessaram até o amanhecer, e mesmo depois que tudo ficou calmo, Beatrice demorou horas para reunir a coragem necessária para se levantar. Os primeiros raios de sol lutavam para se enfurnar por entre os buracos da janela de madeira, mas a jovem preferiu abrir a porta: Ao menos teria para onde correr.
 Mas não correu. Apenas ergueu a mão à boca e esbugalhou os olhos diante da cena que encontrara do lado de fora: Ván estava toda tingida de vermelho. O grande Rio também mudava de cor ao atravessar a cidade, mas por mais sangue que ele lavasse, não era o suficiente para purificar o local. Antes que percebesse, Beatrice já estava de joelhos no chão, chorando sem dizer palavra, as mãos ainda tapando a boca. A vila de Ván não mais o é.
 Uma mão tocou-a no ombro, e o susto era a gota d'água que faltava para desmaiá-la.
 Quando acordou, estava em sua cama. Um pano úmido sobre sua testa e uma bacia ao seu lado. Ergueu-se devagar, desejando que tudo tivesse sido um pesadelo, e que Fenris estivesse ali. Que ele tivesse chegado e ela estivesse já na cama, com o velho senhor Týr a seu lado, tratando-a após encontrá-la desmaiada e febrosa sob a janela aberta, onde pegara no sono.
 E Fenris de fato estava lá. Ela caminhou até a sala e não conteve seu largo sorriso ao vê-lo sentado tomando um copo de chá:
 _Meu amado!
 _Beatrice, minha querida, estás de pé? - Ele se virou e ela pôde ver que ele segurava um pano com unguento, cobrindo o flanco esquerdo.
 _Fenris! - Exclamou ela preocupada.
 _Estou bem, foi só um arranhão. Um grande lobo me surpreendeu enquanto eu entrava na cidade.
 Beatrice teve que se segurar para não cair ao chão novamente. Então fora tudo verdade.
 _Ele corria para as grandes colinas e eu estava na estrada, em seu caminho. Bateu-me como quem espanta a uma mosca e seguiu viagem. Grande foi meu choque ao ver a chacina que aqui se deu, ainda não creio que aquele monstro sozinho tenha dizimado tantos soldados. Fiquei desolado ao pensar que havia te perdido, mas graças aos deuses encontrei-a a salvo. Mal pude crer em meus olhos quando vi tua beleza ainda intacta!
 Ela o abraçou e ambos choraram. Sobreviventes solitários, sem mais amigos ou família. Perderam sua terra natal, como haveriam de ter para onde ir ou voltar? Só lhes restava pegar o que pudessem e partir na manhã seguinte, pois naquela noite precisavam descansar.
 Mas quando o sol começou a se por no horizonte, e a lua cheia reergueu-se onipotente nos céus, o uivo penetrante e ensurdecedor do grande lobo invadiu a cidade fantasma, e a noite que deveria descansá-los apenas os amedrontou. Trancaram e barricaram todas as janelas e portas, esfregaram alho por todo o chão da casa para esconder seus cheiros e se deitaram debaixo da cama. A noite já avançava e Fenris continha seus urros de dor o melhor que podia.
 _Meu amor, por favor resista! Não saberei o que fazer sem ti! - Bradou ela, abraçando-o. Soltou-o então e se afastou, levantando-se e se aproximando da saída:
 _Não posso crer. És tu o lobo, Fenris, meu amado? Por isso apenas nós sobrevivemos?
 Erguendo-se também, ele olhou-a, confuso, a dor da ferida não permitindo que pensasse com clareza.
 _O que estás dizendo, amada minha?
 Beatrice apontou para as mãos de seu cônjuge, e ele com horror percebeu suas próprias garras.
 _Não! Meu amor, eu não seria capaz! Quando cheguei, a cidade já estava...
 _Está tudo bem, meu querido. Tu jamais machucaria-me, verdade?
 _Eu juro!
 E ela se aproximou, mas Fenris avançou sobre ela. Com um grito, Beatrice se desvencilhou e correu para a porta, mas o grande armário que haviam colocado para impedir o lobo de entrar se encontrava ali, e ela não tinha força para retirá-lo sozinha.
 _Espere! Fenris!
 O som do rasgar da carne ecoou pelas paredes da casa. O grito e o choro de Beatrice fizeram a vez de reinar nos ares agora sombrios e agourentos de Ván. Ao amanhecer, o chorar que ainda escapava pela madeira das janelas e da porta da casa de Beatrice era o de Fenris. Desolado e coberto pelo sangue de sua prometida, nada conseguia fazer além de observar as mãos assassinas que a condenaram. Não podia crer que pertenciam a ele.
 Com força que não possuía antes, jogou para trás com uma única mão o pesado armário e quebrou a porta com um chute. O sol queimou sua pele mais do que o normal, mas ele não se importou. Não haveria jamais um inferno que queimaria mais do que a dor que sentia dentro de si naquele momento. Ergueu os olhos para a lua que ainda se fazia fracamente visível ante o nascer do sol, e seus olhos brilharam vermelhos como o sangue que o vestia e o rodeava, queimando em fúria. Abriu a boca para amaldiçoar o astro, mas tudo que conseguiu proferir foi um longo e bestial uivo de admiração. Como um cachorro que apanha do dono mas ainda lambe seus dedos. Incapaz de extravasar seu ódio, colocou-se a correr em direção ao horizonte, para além das grandes colinas, e pararia apenas quando seus pés já não aguentassem mais um passo, e a dor e o cansaço fossem suficientes para acalmar a raiva.
 A primeira coisa que pensou, enquanto iniciava sua jornada infindável, foi que precisava trocar seu nome. Ou toda vez que alguém o pronunciasse, incluindo ele próprio, toda a dor daquelas memórias voltariam a ele. Mas também não queria que sua culpa fosse mascarada por outro nome, merecia e devia ser conhecido e odiado como o monstro de Ván:
 "Uma mudança simples é o suficiente. Não posso ouvir meu nome sem me lembrar da voz de Beatrice clamando por ele em prantos como suas últimas palavras... Mas posso ouvi-lo se soar apenas um pouco diferente. Uma mudança que não tire seu peso e reconhecimento.
 A partir de hoje, chamarei a mim mesmo de Fenrir."

 Foi esta a história que contei hoje a meu prisioneiro. Uma história que eu mesmo vivi, mas apenas em sonho. Os olhos dele não se moveram enquanto ouvia, e eu procurava os costumeiros sinais de raiva e vontade assassina. Esperava até que eles se agravassem.
 Mas ele apenas me observou sem se mover ou dizer palavra. Como se já soubesse que eu tinha sonhado aquilo e que eu ia contar a ele neste mesmo dia. Imitei-o e não disse mais nada. Não perguntei se o passado dele de fato se assemelhava a este sonho, nem o que ele sentia ao recordar de tudo aquilo.
 No fundo eu, que vivi aquele sonho e vi os olhos do oráculo no passado, já sabia a resposta para estas perguntas.



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