História Dezesseis luas - Capítulo 5


Escrita por: ~

Postado
Categorias Naruto
Tags Sasusaku
Visualizações 20
Palavras 4.817
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Magia, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 5 - Capitulo 4


Fanfic / Fanfiction Dezesseis luas - Capítulo 5 - Capitulo 4

Frango frito, purê de batata com molho, vagem e pão - o prato, frio e raivoso sobre o fogão onde Kurenai tinha deixado. Normalmente ela mantinha meu jantar quente até que eu chegasse do treino, mas hoje não. Eu estava muito encrencado. Amma estava furiosa, sentada à mesa comendo balinhas de canela e rabiscando nas palavras cruzadas do New York Times . Meu pai assinava escondido a edição de domingo porque as palavras cruzadas do The Stars and Stripes tinham muitos erros de ortografia e as do Readers Digest eram pequenas demais. Não sei como ele conseguia fazer sem que Carlton Eaton percebesse, pois ele teria feito a cidade inteira saber que éramos bons demais para o The Stars and Stripes. Mas não havia nada que meu pai não fizesse por Kurenai. 
 Ela deslizou o prato na minha direção, olhando para mim sem olhar para mim. Enfiei purê de batata e frango frios na boca. Não havia nada que Kurenai odiasse mais do que comida deixada no prato. Tentei manter distância da ponta do seu lápis especial número dois, usado apenas para palavras cruzadas e mantido tão apontado que poderia ferir a ponto de sangrar. Hoje, era possível. 

Escutei o barulho ininterrupto da chuva no telhado. Não havia nenhum outro som na cozinha. Kurenai bateu o lápis na mesa. 
 - Oito letras. Confinar ou provocar dor devido a um erro cometido. 
 Ela me lançou outro olhar. Enchi a boca de purê de batata. Eu sabia o que estava a caminho. Nove horizontal. 
 - C-A-S-T-I-G-A-R. O que quer dizer punir. O que quer dizer que se não consegue chegar na escola na hora, não vai sair dessa casa. 
 Fiquei pensando sobre quem tinha ligado para informá-la de que eu chegara atrasado, ou o mais provável, quem não tinha ligado. Ela apontou o lápis apesar de ele estar ainda de ponta fina, enfiando-o no velho apontador automático na bancada. Ela ainda estava claramente "não-olhando" para mim, o que era bem pior do que me olhar nos olhos. 
 Andei até onde ela estava apontando o lápis e passei meu braço em torno dela, dando-lhe um bom aperto. 
 - Pare com isso, Kurenai. Não fique zangada. Estava chovendo forte de manhã. Você não ia querer que corrêssemos na chuva, não é?  
Ela ergueu uma sobrancelha, mas a expressão se amenizou. 
 - Bem, parece que vai continuar chovendo de agora até o dia em que você cortar esse cabelo, então é melhor você pensar em um jeito de chegar à escola antes que o sinal toque. 
 - Sim, senhora. - Apertei-a mais uma vez e voltei para meu purê frio. - Você nunca vai acreditar no que aconteceu hoje. Tem uma garota nova na nossa turma. - Não sei por que eu disse aquilo. Acho que ainda estava na minha cabeça. 
 - Acha que não sei sobre Sakura Haruno? 
 Engasguei com o pão. Sakura Haruno. O modo como Kurenai falou fez parecer que a palavra tinha uma sílaba a mais. 
 - É esse o nome dela? Sakura? 
 Kurenai empurrou um copo de achocolatado em minha direção. 
 - É e não, e não é da sua conta. Você não devia se meter com coisas das quais não sabe nada, Sasuke Uchiha. 

Kurenai sempre falava em código e nunca oferecia mais do que isso. Kurenai era a leitora de tarô mais respeitada num perímetro de 160 quilômetros de Konoha, assim como a mãe dela antes dela e a avó dela antes da mãe. Seis gerações de videntes. Konoha estava cheia de batistas tementes a Deus, metodistas e pentecostais, mas eles não conseguiam resistir à atração das cartas, da possibilidade de mudar o curso do próprio destino. Porque era isso que eles acreditavam que uma poderosa vidente podia fazer. E Kurenai era uma grande força com a qual contar. 

 Às vezes eu encontrava um dos seus amuletos caseiros na minha gaveta de meias ou pendurado sobre a porta do escritório do meu pai. Só perguntei para que eles serviam uma vez. Meu pai provocava Kurenai sempre que achava um, mas percebi que ele nunca os removia. "Melhor prevenir do que remediar." Acho que ele queria dizer se prevenir de Kurenai, que podia fazer você precisar se remediar. 
 - Ouviu mais alguma coisa sobre ela? 
 - Cuidado. Um dia você vai fazer um buraco no céu e o universo vai cair por ele. Aí todos nós estaremos com problemas.  

Meu pai entrou na cozinha de pijama. Ele se serviu de uma xícara de café e pegou uma caixa de cereal de trigo da despensa. Dava para ver os tampões amarelos ainda enfiados nas orelhas dele. O cereal significava que o dia dele estava começando. Os tampões significavam que ainda não tinha começado de verdade. 
 Me inclinei e sussurrei para Kurenai: 
 - O que você ouviu? 
 Ela pegou meu prato com força e o levou para a pia. Lavou uns ossos que pareciam de porco, o que era estranho, já que a comida tinha sido frango, e os colocou em um prato. 
 - Isso não é da sua conta. O que eu gostaria de saber é por que você está tão interessado. 
 Encolhi os ombros. 
 - Na verdade, não estou. Só curioso. 
 - Você sabe o que dizem sobre curiosidade. 
 Ela enfiou um garfo no meu pedaço de torta de creme. Depois se virou para mim, dando Aquele Olhar e saiu. Até meu pai reparou na porta da cozinha balançando depois que ela saiu e puxou um tampão do ouvido. 
 - Como foi a escola? 
 - Bem. 
 - O que você fez a Kurenai? 
 - Cheguei atrasado à escola. 
 Ele observou meu rosto. Observei o dele. 
 - Número dois? 
 Assenti. 
 - Apontado? 
 - Já estava apontado mas ela o apontou mais. - Suspirei. 
 Meu pai quase sorriu, o que era coisa rara. Senti uma onda de alívio, talvez até de ter conseguido uma façanha. 
 - Sabe quantas vezes sentei a essa mesa velha enquanto ela me ameaçava com um lápis quando eu era criança? - perguntou ele, apesar de não ser exatamente uma pergunta. A mesa, lascada e manchada com tinta, cola e caneta de todos os Uchohas que vieram antes de mim, era uma das coisas mais velhas da casa. 
 Sorri. Meu pai pegou a tigela de cereal e balançou a colher na minha direção. Kurenai tinha criado meu pai, um fato do qual eu era lembrado cada vez que pensava em ser insolente com ela quando criança. 
 - M-I-R-I-A-D-E. - Ele soletrou a palavra enquanto colocava a tigela na pia. - P-L-E-T-O-R-A. O que quer dizer maior do que você, Sasuke.  

Quando ele chegou embaixo da luz da cozinha, o meio-sorriso se reduziu a um quarto e depois sumiu. Ele parecia ainda pior que o normal. As sombras no rosto estavam mais escuras, e dava para ver os ossos embaixo da pele. O rosto estava verde de tão pálido por nunca sair de casa. Ele parecia um pouco com um cadáver vivo, já havia alguns meses. Era difícil lembrar que ele era a mesma pessoa que costumava sentar comigo por horas na beira do lago, comendo sanduíche de salada de galinha e me ensinando como jogar a linha de pesca. "Para a frente e para trás. Dez e duas. Dez e duas. Como os ponteiros do relógio." Os últimos cinco meses foram difíceis para ele. Ele amava mesmo minha mãe. Mas eu também amava. 

Meu pai pegou o café e começou a andar em direção ao escritório. Era hora de encarar os fatos. Talvez Akashi Haruno não fosse o único recluso da cidade. Eu achava que nossa cidade não era grande o bastante. Mas isso tinha sido o mais próximo de uma conversa que nós tínhamos tido em meses, e eu não queria que ele fosse embora. 
 - Como está indo o livro? - soltei. Fique e converse comigo. Era o que queria dizer. 
 Ele pareceu surpreso, mas deu de ombros. 
 - Está indo. Ainda tenho muito trabalho a fazer. - Ele não conseguia. Era o que ele queria dizer. 
-  A sobrinha de Akashi Haruno acabou de se mudar para cá. - Falei essas palavras quando ele tinha colocado os tampões de volta. Fora de sincronia, nosso modo habitual. Pensando melhor, minha sincronia com a maioria das pessoas tinha sido assim ultimamente. 
 Meu pai tirou um tampão, suspirou e tirou o outro. 
 - O quê? 
 Ele já estava andando de volta para o escritório. O cronômetro da nossa conversa estava quase zerado. 
 - Akashi Haruno, o que sabe sobre ele? 
 - O mesmo que todo mundo, acho. Ele é um recluso. Não sai de casa há anos, pelo que sei. 

 Ele empurrou a porta do escritório e passou por ela, mas não o segui. Fiquei em frente à porta.
 Nunca coloquei o pé lá. Uma vez, só uma, quando eu tinha 7 anos, meu pai me pegou lendo o livro dele antes de ter terminado de revisar. O escritório era um lugar escuro e assustador. Tinha um quadro que ele sempre mantinha coberto com um lençol sobre o esfarrapado sofá vitoriano. Eu sabia que não deveria nunca perguntar o que havia embaixo do lençol. Depois do sofá, perto da janela, ficava a escrivaninha do meu pai. Era de mogno entalhado, outra antiguidade que tinha sido herdada junto com a casa, passada de geração em geração. E livros, velhos livros de capas de couro que eram tão pesados que ficavam apoiados sobre um suporte de madeira quando estavam abertos. Aquelas eram as coisas que nos prendiam a Konoha, assim como tinham prendido meus ancestrais por mais de cem anos. 

Sobre a escrivaninha estava o manuscrito dele. Estava lá em uma caixa de papelão aberta, e eu tinha que saber o que dizia. Meu pai escrevia terror gótico, então não havia muito que ele escrevesse que fosse apropriado para um menino de 7 anos ler. Mas cada casa em Konoha era cheia de segredos, assim como o próprio sul, e minha casa não era exceção, mesmo naquela época.
 Meu pai me encontrou sentado no sofá do escritório com páginas espalhadas em volta de mim, como se uma bombinha tivesse explodido dentro da caixa. Eu não era esperto o bastante para disfarçar os vestígios que deixava, coisa que aprendi rapidamente depois daquilo. Só me lembro dele gritando comigo e de minha mãe ir atrás de mim e me encontrar chorando embaixo da velha árvore de magnólias no nosso quintal. "Algumas coisas são particulares,Sasuke. Até mesmo para adultos." 
 Eu só queria saber. Esse sempre foi o meu problema. Até mesmo agora. Queria saber por que meu pai nunca saía do escritório. Queria saber por que não podíamos deixar essa velha casa insignificante só porque um milhão de Uchihas tinham morado aqui antes de nós, principalmente agora que minha mãe não estava mais aqui. 
 Mas não essa noite. Essa noite eu só queria me lembrar dos sanduíches de salada de galinha e "dez e duas" e de uma época em que meu pai comia o cereal na cozinha, brincando comigo. Adormeci lembrando. 

Antes que o sinal tivesse tocado no dia seguinte, Sakura Haruno era o único assunto sobre o qual todo mundo falava na escola. De alguma forma, entre tempestades e apagões,Mei e Yiumy, mães de Karin e Temari, tinham conseguido botar o jantar na mesa e ligar para todo mundo na cidade para contar que a "parenta" do louco Akashi Haruno estava dirigindo por Konoha no rabecão dele, o qual elas tinham certeza que ele usava para transportar cadáveres quando ninguém estava vendo. A partir daí a história só piorou. Há duas coisas com as quais sempre podemos contar em Konoha. A primeira é que você pode ser diferente, até louco, desde que saia de casa de vez em quando para que o pessoal não pense que você é um assassino da machadinha. A segunda, se há uma história para contar, pode ter certeza que haverá alguém para contá-la. Uma garota nova na cidade foi morar na mansão mal-assombrada com o recluso da cidade, isso é uma história, provavelmente a maior em Konoha desde o acidente de minha mãe. Então não sei por que fiquei surpreso quando todos estavam falando sobre ela todos menos os caras. Eles tinham um compromisso antes. 
 - E então, o que temos, Em? – Naruto bateu a porta do armário. 
 - Contando os testes para líderes de torcida, parece que temos quatro notas 8, três notas 7 e um bando de notas 4. – Neji não se deu ao trabalho de contar as garotas do 1º ano que ele avaliou com nota abaixo de 4. 
 Bati a porta do meu armário. 
 - Isso é novidade? Não são as mesmas garotas que vemos no Dar-ee Keen todo sábado? 
Neji sorriu e deu um tapinha no meu ombro. 
 - Mas elas estão no jogo agora,Uchiha. - Ele olhou para as garotas no corredor. - E estou pronto para jogar. 

Neji falava mais do que fazia. Ano passado, quando éramos do 1º ano, só o ouvíamos falando das formandas gatas com quem ele achava que ia ficar agora. Ele era tão iludido quanto Naruto, mas não tão inofensivo. Neji tinha um traço cruel.  
 - Como colher pêssegos do arbusto. 
 - Pêssegos dão em árvores.  

Eu já estava irritado, talvez porque já tivesse encontrado os caras na seção de revistas do Pare & Roube antes da aula me sujeitando a essa mesma conversa enquanto Gaara folheava exemplares da única coisa que ele lia: revistas com garotas de biquíni deitadas sobre capôs de carros. 
Neji olhou para mim, confuso. 
 - De que você está falando?  
Nem sei por que me importava. Era uma conversa idiota, assim como era idiota que todos os caras tivessem que se encontrar antes da escola às quartas de manhã. Era uma coisa que eu passei a encarar como bater ponto. Algumas coisas eram esperadas quando se estava no time. Sentávamos juntos no refeitório. íamos às festas de Karin, convidávamos uma líder de torcida para nos acompanhar nos bailes, ficávamos de bobeira no lago Moultrie no último dia de aula. Era possível escapar de quase tudo se a gente batesse ponto. Só que para mim estava ficando cada vez mais difícil bater ponto, e eu não sabia por quê. 
 Eu ainda não tinha dado uma resposta quando a vi. 

Mesmo que não a tivesse visto, eu saberia que ela estava lá porque o corredor, que geralmente ficava cheio de gente correndo para seus armários e tentando chegar às aulas antes do segundo sinal, esvaziou em questão de segundos. Todo mundo deu um passo para trás quando ela andou pelo corredor. Como se ela fosse uma estrela do rock. 
 Ou uma leprosa. 

Mas eu só conseguia ver uma garota bonita de vestido longo cinza sob um casaco esporte branco com a palavra Munique costurada e um Ali Star surrado preto nos pés. Uma garota que usava um cordão longo prateado em volta do pescoço, com um monte de coisas penduradas: um anel de plástico de uma máquina de chicletes, um alfinete e um bando de outras coisas que eu estava longe demais para ver. Uma garota que não parecia pertencer a Konoha. Eu não conseguia tirar os olhos dela. 
 A sobrinha de Akashi Haruno. O que havia de errado comigo?  Ela prendeu os cabelos rosados atrás da orelha, o esmalte preto brilhando sob a luz fluorescente. As mãos estavam cobertas de tinta preta, como se ela tivesse escrito algo nelas. Andou pelo corredor como se nós fôssemos invisíveis. Tinha os olhos mais verdes que eu já vira, tão verdes que podiam ser considerados de uma nova cor. 
 - É, ela é gata – disse Sasóri. 
 Eu sabia em que eles estavam pensando. Por um segundo, pensaram em largar as namoradas pela chance de dar em cima dela. Por um segundo, ela foi uma possibilidade. 
 Gaara a olhou de cima a baixo e bateu a porta do armário. 
 - Se você ignorar o fato de que ela é esquisita. 

Havia alguma coisa no jeito que ele falou isso, ou mais provavelmente, na razão pela qual ele falou. Ela era esquisita porque não era de Konoha, porque não estava tentando entrar na equipe de líderes de torcida, porque não tinha olhado para ele duas vezes, ou nem mesmo uma. Em qualquer outro dia, eu o teria ignorado e ficado de boca fechada, mas hoje eu não estava com vontade de ficar calado. 
 - Então ela é automaticamente esquisita, e por quê? Porque ela não está de uniforme, cabelo louro e saia curta? 

Era fácil de ler o rosto de Gaara. Essa era uma daquelas vezes em que eu deveria ter seguido a opinião dele, e eu não estava mantendo minha parte do nosso acordo não-verbal. 
 - Porque ela é uma Haruno. 

A mensagem foi clara. Gata, mas nem pense nisso. Ela não era mais uma possibilidade. Mas isso não os impediu de olhar, e todos ainda estavam olhando. O corredor, e todo mundo nele, tinha travado o olhar nela como se ela fosse um cervo preso entre caçadores. Mas ela apenas continuou andando, o cordão balançando em torno do pescoço. 

 Minutos depois, eu estava parado na porta da minha aula de inglês. Lá estava ela. Sakura Haruno. A garota nova, que ainda seria chamada assim cinquenta anos mais tarde (isso se não fosse chamada de sobrinha do Velho Haruno), entregando uma folha cor-de-rosa de transferência para a Sra. English, que apertou os olhos para ler. 
 - Fizeram uma confusão com meu horário e eu não tinha aula de Inglês - estava dizendo ela. - Eu tinha História Americana em dois tempos, e eu já estudei História Americana na minha escola antiga. - Ela parecia frustrada, e eu tentei não sorrir. Ela nunca tinha tido aula de História Americana, não do jeito que o Sr. Lee ensina. 
 - É claro. Escolha seu lugar. 

 A Sra. English deu a ela um exemplar de O Sol é para Todos . O livro parecia nunca ter sido aberto, o que provavelmente era verdade já que fizeram um filme baseado nele. 

A garota nova olhou para a frente e me pegou observando-a. Olhei para o outro lado, mas era tarde demais. Tentei não sorrir, mas fiquei sem graça, e isso só me fez sorrir mais. Ela não pareceu perceber. 
 - Tudo bem, eu trouxe o meu. Ela pegou um exemplar do livro, de capa dura, com uma árvore entalhada na capa. Parecia bastante velho e gasto, como se ela o tivesse lido mais de uma vez. - É um dos meus livros favoritos. - Ela apenas comentou, como se não fosse estranho. Agora eu a estava encarando. 
 Senti um rolo compressor nas minhas costas e Temari me empurrou pela porta como se eu não estivesse de pé ali. Esse era o jeito dela de dizer oi e de esperar que eu a seguisse até o fundo da sala, onde nossos amigos estavam sentados. 

A garota nova sentou em um lugar vazio na primeira fila, na Terra de Ninguém, em frente à mesa da Sra. English. Movimento errado. Todo mundo sabia que não se deve sentar ali. A Sra. English tinha um olho de vidro, e a péssima audição de alguém cuja família tem o único estande de tiro da região. Quem se sentava em qualquer lugar que não fosse em frente à mesa dela não era visto, portanto não era solicitado.
 Temari pareceu contente e mudou o caminho para passar pelo lugar dela, chutando a bolsa de Sakura e fazendo com que os livros dela se espalhassem pelo corredor entre as fileiras. 
 - Ops. – Temari se abaixou e pegou um caderno espiral surrado que estava quase perdendo a capa. Ela o segurou como se fosse um rato morto. – Sakura Haruno. É esse seu nome? Pensei que fosse Haruno. 
 Sakura olhou para o alto, lentamente. 
 - Pode me dar meu caderno? 
 Temari folheou as páginas como se não tivesse ouvido. 
 - É seu diário? Você é escritora? Isso é tão legal. 
 Sakura esticou a mão. 
 - Por favor. 
 Temari fechou o caderno e o afastou dela. 
 - Posso pegar isso emprestado por um minuto? Eu adoraria ler alguma coisa que você escreveu.
 - Eu queria de volta agora. Por favor. – Sakura ficou de pé. As coisas iam ficar interessantes. A sobrinha do Velho Haruno estava prestes a se enfiar no tipo de buraco do qual ninguém conseguia sair, a memória de Temari era excelente. 
 - Primeiro você teria que saber ler. - Peguei o caderno da mão deTemari e o entreguei a Sakura.

Depois sentei na carteira ao lado da dela, bem ali na Terra de Ninguém. O Lado do Olho Bom. Temari me encarou, incrédula. Eu não sabia por que tinha feito aquilo. Estava tão chocado quanto ela. Nunca tinha sentado na frente em nenhuma aula na minha vida. O sinal tocou antes que Temari pudesse dizer alguma coisa, mas não importava; eu sabia que pagaria por aquilo mais tarde. Sakura abriu o caderno e ignorou nós dois. 
 - Podemos começar, pessoal? - A Sra. English olhou da mesa para nós. 
Temari foi para o lugar habitual no fundo da sala, longe o bastante da frente para que não tivesse que responder pergunta alguma o ano todo, longe o bastante da sobrinha do Velho Haruno. E agora, longe o bastante de mim Quando o sinal tocou, me virei para Sakura. Não sei o que eu pensava que podia dizer. Talvez estivesse esperando que ela me agradecesse. Mas ela não disse nada enquanto enfiava os livros de volta na bolsa. 
 156. Não era uma palavra que estava escrita em sua mão. 
 Era um número. 

Sakura Haruno não falou comigo de novo, nem naquele dia, nem naquela semana. Mas isso não me impediu de pensar nela e nem de vê-la em praticamente todo lugar para onde eu tentava não olhar. Não era apenas ela que estava me incomodando, para dizer a verdade. Não era a sua aparência 
 - Sakura era bonita, apesar de ela estar sempre usando as roupas erradas e aquele tênis surrado. Não eram as coisas que ela dizia na aula, normalmente coisas em que ninguém mais teria pensado, e que, se tivessem pensado, era algo que não ousariam dizer. Não era o fato dela ser diferente de todas as outras garotas da escola. Isso era óbvio. 
 Era que ela me fez perceber o quanto eu era como os outros, mesmo quando eu queria fingir que não era. 

Tinha chovido o dia todo, e eu estava sentado na aula de cerâmica, também conhecida como AG, "A garantido", já que a nota dessa aula só dependia do esforço. Eu tinha me matriculado em cerâmica na primavera porque tinha que preencher a exigência de ter aulas de artes no currículo, e estava desesperado para ficar longe da banda, que praticava fazendo muito barulho no andar de baixo sob a liderança da enlouquecida magricela e empolgada ao extremo. Karin estava sentada ao meu lado. Eu era o único homem da turma, e como era homem, não tinha ideia do que deveria fazer. 
 - Hoje se trata de experimentação. Vocês não serão avaliados por isso. Sintam a argila. Libertem a mente. E ignorem a música que vem de baixo. – A professora falava fez uma careta enquanto a banda assassinava algo que ' parecia com "Dixie".  -Busquem bem fundo. Sintam o caminho até a alma.
 Liguei o torno de oleiro e olhei para a argila enquanto ela começou a girar na minha frente. Suspirei. Isso era quase tão ruim quanto a banda, então, quando a sala foi ficando em silêncio e o barulho dos tornos de oleiro se sobrepôs à falação das fileiras de trás, a música do andar de baixo mudou. Ouvi um violino, ou talvez um daqueles violinos maiores, acho que se chama viola. Um som bonito e triste ao mesmo tempo, e era desconcertante. Havia mais talento na voz crua da música do que a professora jamais vera o prazer de conduzir. Olhei à minha volta; ninguém parecia perceber a música. O som rastejava sob a minha pele. Reconheci a melodia, e em poucos segundos minha mente conseguiu identificar a letra, tão claramente como se estivesse ouvindo meu iPod. Mas dessa vez, a letra tinha mudado. 

     Dezesseis luas, dezesseis anos 
     Som de trovão nos seus ouvidos 
     Dezesseis milhas antes que ela se aproxime  
    Dezesseis procura o que dezesseis teme... 
 

Enquanto eu olhava para a argila que girava na minha frente, a massa virou uma mancha. Quanto mais eu me concentrava, mais a sala se dissolvia ao meu redor, até que a argila pareceu estar girando a sala de aula, a mesa e minha cadeira junto. Como se tudo estivesse ligado nesse redemoinho de movimento constante, ligado ao ritmo da melodia da sala de música. A sala estava desaparecendo à minha volta. Lentamente, estiquei a mão e passei a ponta de um dedo pela argila.
 Depois um brilho, e a sala que girava se dissolveu em outra imagem... 
 Eu estava caindo. 
 Nós estávamos caindo. 
 Eu estava de volta ao sonho. Vi a mão dela. Vi minha mão agarrar a dela, meus dedos afundando em sua pele, no pulso, em uma tentativa desesperada de segurá-la. Mas ela estava escorregando; eu podia sentir, os dedos passando para minha mão. 
 - Não solte! 
 Eu queria ajudá-la, queria segurar. Mais do que jamais quis alguma coisa. E então ela escorregou pelos meus dedos... 
 -Sasuke, o que está fazendo? - A professora parecia preocupada. 
 Abri meus olhos e tentei me concentrar, me trazer de volta. Eu vinha tendo os sonhos desde que minha mãe morreu, mas essa era a primeira vez que eu tinha um durante o dia. Olhei para minha mão cinza e enlameada, coberta de argila seca. A argila no torno de oleiro trazia a marca perfeita de uma mão, como se eu tivesse acabado de achatar seja o que for que eu estivesse fazendo. Olhei mais de perto, A mão não era minha, era pequena demais. Era de uma garota. 
 Era dela. 
 Olhei embaixo das minhas unhas, onde dava para ver a argila que eu tinha raspado do pulso dela.
 -Sasuke, você podia ao menos tentar fazer alguma coisa. 
 A professora colocou a mão sobre meu ombro e dei um pulo. Do lado de fora da janela da sala de aula, ouvi o roncar de trovões. 
 Mas, professora, acho que a alma de Sasuke está se comunicando com ele. – Karin riu, se inclinando para dar uma boa olhada. - Acho que ela está dizendo pra você fazer as unhas, Sasuke.

 As garotas ao meu redor começaram a rir. Esmaguei a marca da mão ora o punho, transformando-a num monte de nada cinza. Fiquei de pé e limpei as mãos no jeans quando o sinal tocou. Peguei minha mochila e saí rápido da saia, escorregando nos meus tênis de cano alto molhados quando virei no corredor e quase tropeçando nos cadarços desamarrados ao correr elos dois lances de escada que me separavam da sala de música. Eu tinha que saber se tinha imaginado. 
 Empurrei a porta dupla da sala de música com as duas mãos. O palco tava vazio. A turma passava por mim. Eu estava indo na direção errada, caminhando contra a corrente enquanto todo mundo tentava sair. Respirei do, mas sabia que cheiro iria sentir antes mesmo que o sentisse. Cerejeira e pêssego. 

No canto do palco, a professora estava recolhendo as partituras espalhadas sobre as cadeiras dobráveis que ela usava para a lamentável orquestra da escola. Eu a chamei. 
 - Com licença, professora. Quem estava tocando aquela... aquela música?  
Ela sorriu para mim. 
 - Tivemos uma maravilhosa aquisição para nossa seção de cordas. Uma viola. Ela acabou de se mudar para a cidade... 
 Não. Não podia ser. Não ela. 
 Me virei e corri antes que ela pudesse dizer o nome. 

 Quando o sinal do oitavo tempo tocou,Naruto estava esperando por mim em frente ao vestiário. Ele passou a mão pelo cabelo espetado e esticou a camiseta desbotada do Black Sabbath. 
 - Naruto. Preciso da sua chave, cara. 
 - E o treino? 
 - Não posso ir. Tem uma coisa que preciso fazer. 
 - Cara, do que você está falando? 
 - Só preciso da sua chave. 
 Eu tinha que sair dali. Estava tendo sonhos, ouvindo música, e agora apagando no meio da aula, se é que pode se chamar assim. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas sabia que era ruim. 
 Se minha mãe ainda estivesse viva, eu provavelmente teria contado tudo para ela. Ela era assim, eu podia contar qualquer coisa. Mas ela se foi, e meu pai estava enfiado no escritório o tempo todo, e Kurenai jogaria sal no meu quarto inteiro durante um mês se eu contasse para ela. 
 Eu estava sozinho. 
 Naruto me entregou a chave. 
 - O treinador vai te matar. 
 - Eu sei. 
 - E Kurenai vai descobrir. 
 - Eu sei. 
 - E ela vai chutar sua bunda daqui até County Line. - A mão dele vacilou quando eu peguei a chave. - Não seja burro. 
 Me virei e corri. Tarde demais.


Notas Finais


bjss até a proximo


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...