História Diante da Noite - Capítulo 1


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LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Fantasia, Poesias, Romance e Novela
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Divirtam-se

Capítulo 1 - Capítulo 1


Os meus olhos procuravam a imensidão do mundo através do vidro da janela. A visão era magnífica. Refletida nos meus olhos estava a lua vermelha como se fosse Marte. As estrelas cintilavam ao seu lado acompanhando a sua palete de cores: o azul-escuro que cobria o céu como uma nuvem cinzenta num dia de tempestade e o branco resplandecente das estrelas que brilhavam tão forte como se fossem a própria lua.

A vista era estonteante sem dúvida alguma. Porém por alguma razão o meu corpo estava irrequieto: movia os dedos ao som do sossego, os meus pés batiam na madeira fazendo-a chiar de dor. Devagar percorria o parapeito da janela limpando-lhe o pó; observando à medida, o meu dedo ficar mais escuro a cada passagem. Estivera nisso por horas até algo cair sobre a superfície mal limpa. Lágrimas escorriam nesse momento pelo meu rosto, contornando-o e caindo para o meu colo, batendo também na quina do parapeito. Limpei-as, mas não paravam de escorrer. Senti uma enorme tristeza a inundar o meu corpo.

Sucumbi à melancolia sem razão. Por horas contínuas chorei e chorei como se tivesse perdido alguém. Memórias passadas acusaram atormentar a minha mente nesse espaço de tempo: a dor, a agonia que acompanhou a minha voz rouca de já tanto gritar. Os meus músculos aqueciam latejando por todo o corpo esbatido de vermelho escuro. Sangue seco na minha face limpo pelas minhas próprias lágrimas. O meu corpo tremia devido à fresca brisa vinda pelas pequenas fissuras de madeira. A pequena janela acima de mim também estava aberta deixando entrar os mosquitos para me fazerem companhia. “ Chiu… ele vem ai…”

Encontrei-me com as mãos no rosto a tremer, com a respiração ofegante assim que o filme a preto e branco acabou de passar pela minha mente. Com a visão turva olhei de novo para o céu e as suas cores quentes reconfortaram-me.

As ruas estavam iluminadas e a minha sombra surgia de vez enquanto, oscilando sempre que eu passava por um candeeiro com defeito. Os prédios já tinham as luzes apagadas, afinal eram duas da manhã e também não havia ninguém à vista apesar de ser uma quente noite de Verão.

Caminhei sobre a calçada em sintonia com a silêncio fantasma que se fazia ouvir na cidade até chegar ao rio. Debrucei-me a olhar para a água misturada ao fogo que incendiava o céu noturno; e lá permaneci mais próximo à imagem reconfortante do infinito espaço visitado por umas quantas estrelas naquela noite: trinta ou sessenta.

As calmas ondas do rio chamavam-me para ir nadar com elas, podia ouvir o seu som flutuante a entrar-me no ouvido. Cativante era a melodia hipnotizante cujo desejo por um pouco mais da sua beleza suscitava em mim. Despi-me rapidamente, deixando o meu corpo exposto aos olhos da noite e fui ao encontro da sereia que para mim cantava; tão bela era ela com os seus cabelos ruivos.

A água movia-se de forma dinâmica quando a penetrava com as pernas, rapidamente vencendo a luta cobrindo-me com o seu véu. A sereia nadava à minha volta sem parar de cantar, mesmo debaixo de água a sua voz ecoava nos meus ouvidos. Como era poderoso o seu cântico doce. Mergulhei para me aproximar dela e abri os olhos, era tão vasto o oceano assim como céu. Uma precisa imagem do ar refletida no mar, presenciava eu agora acompanhado pela voz que ao ouvido me sussurrou o seu nome “Al”

“Al” tentei dizer, mas água entrou-me pela garganta, deixando-me em pânico carente por ar que só recebi ao nadar para a superfície. Cuspi o líquido e inspirei com toda a força que tinha. Mantive as pernas e braços em movimento para puder continuar a flutuar. Al estava de novo a nadar à minha volta, Sorria-lhe com os olhos recebendo do mesmo modo uma resposta. Sorri. Fechei os olhos por um segundo e quando abri silêncio tinha-se feito, a voz de Al desaparecera, ela estava agora calada encostada a mim a apontar para o céu com as suas mãos delicadas. As estrelas brilhavam, e por momentos pareceu-me ver uma a cair. Uma estrela candente.

 Procurei-a e tentei seguir o seu rasto com os olhos mas o mar começou a ficar agitado, ondas empurravam-me para trás e para os lados. Desorientado virei-me em direção à pedra da calçada e comecei em nadar para terra, o que era difícil tendo em conta a raiva pela qual o rio tinha sido tomado. Al não se encontrava mais comigo, desparecera por completo. A meio do caminho senti algo a puxar-me as pernas para baixo, a sua força era imensa. A minha visão começava a ficar ofuscada; já mal conseguia manter os olhos abertos. Algas agarravam os pés criando um nó à volta dos meus tornozelos. Inspirei o mais que pude antes de ser forçado a mergulhar. Aquilo que antes parecia uma aurora boreal de tons quentes e frios; tornava-se agora a imagem de um vulcão em erupção.

Uns minutos depois, quase ser ar consegui livrar-me das algas porém a superfície, tal como as profundezas do mar tinha mudado. Frenético, o rio envolvia-me no interior. A sua rapidez era admirável. Um lençol de água foi surgindo para cima a meu redor escurecendo-me a visão. Nadei o mais rápido que pude e com as forças que me restavam no corpo cansado tentei forjar a minha saída. Nenhum esforço valia a pena. Era impossível, cada embatida drenava-me mais e mais energia até me encontrar no centro a ser engolido pelo véu de água.

Luzes brilhantes cintilavam à sua volta formando a espécie de um tornado, seriam estrelas a cair ou o vento tímido a flutuar por nós? As perguntas apareciam e a minha mente incapaz de encontrar uma resposta ia desvaecendo. Os olhos começaram a fechar. O meu corpo entregou-se à cama que lhe tinham dado movendo-se com o flutuar do lençol para trás ou para a frente. Tinha perdido os meus sentidos assim como a minha capacidade de orientação.

Depois da tempestade vem a calmaria e foi o que aconteceu ou pelo menos o que consegui ver através de relances da paisagem, que espreitavam nos olhos entreabertos. Estava deitado na pedra da calçada, de olhos cansados em direção ao céu e em frente do rio envergonhado como se tivesse a sentir-se mal, uma espécie de empatia ou constrangimento pelas suas ações. O vento era agora calmo como as ondas que procuravam a paz no conforto umas das outras. O céu era cintilante. Ao menos nem tudo tinha mudado. Foi nesse momento que, desta vez, de certeza, eu vi uma estrela candente antes de me entregar ao sonho. “Al”

O vento murmurou-me como se eu fosse a vela de um barco a trespassar as brancas nuvens, perdido neste mundo à espera de encontrar terra por detrás do denso nevoeiro. Caminhei sob o ar que se punha a meus pés, olhei à volta procurando localizar-me e atravessei a camada de neblina que ameaçava cegar-me.

Soldados foram os meus olhos, que venceram a batalha contra o nebuloso céu, tomando o um mundo etéreo como seu. Um mundo onde fluidos de energia tomavam forma; pelos quais fui rodeado assim que nesta terra pus pé. A sua força abrasadora atingiu-me, deixando o meu corpo a implorar, o meu cabelo entregue às suas mãos flutuantes, que procuravam na minha pele nua o significado de sensibilidade. Corei de vergonha por estar despido à sua mercê.

O ar criava o caminho, transportando-me consigo para o completo desconhecido. Porém à medida que a paisagem se revelava, mais e mais eu a assemelhava à imagem dos meus sonhos. A histórias a que eu dei vida... Histórias carregadas de emoção capazes de confundir o real, cujo eu me apercebia agora que era algo sem escapatória.

 O meu corpo foi largado no convés de um barco, que no meio da ilha se encontrava cravado na pedra areosa em descensão. Sons cheiros até sabores chegavam a mim por todos os lados, obrigando-me a rodar a cabeça; a inspirar e a salivar aceitando a confusão. Foi então em forma de resposta, que do nada ouvi a voz de alguém a chamar de longe. “James” gritavam nos meus ouvidos à distância. Volteei à procura do som ou do seu cantante.

 Olhei para cima e vi o céu dourado que se punha sobre mim, nuvens cor de prata, choravam brilhantes e afiadas gotas de cristal. Sangue começou a jorrar pelo meu braço.

No pó de cristal acumulado em cima dos meus pés descalços, podia ver o meu rosto. Levei as mãos suadas à face, os meus dentes tremiam em sintonia com o corpo. Por entre os meus dedos fiz passar vários fios de cabelo que se tornavam brancos, os meus lábios viam-se roxos e estavam secos ao toque, os meus olhos estavam pretos, as minhas pestanas e sobrancelhas da cor da minha raiz: brancas.

Gritei e gritei deixando o meu corpo cair no chão, o frio eriçava os meus pelos, ou seria o medo, o nojo ou a mistura de emoções que se apoderou de mim quando refletido no espelho vi algo tão pálido como o próprio gelo. De braços ao peito a abraçar os joelhos tentei-me aquecer cabisbaixo olhando para o meu corpo mudado, limpo de cor como uma tela pronta a ser pintada. Estava nu…tão vulnerável que até o pincel com os mais finos cabelos me faria arrepiar.

A neve límpida que caia tornava-me irreconhecível. Poderia fingir ser o seu líquido branco e refletor que ninguém iria reparar em mim ali deitado e coberto pelo manto gelado, cujo meu corpo tanto negava. Procurava calor e conforto em vez de dor e frio. As minhas feridas abertas pela chuva de cristais, secavam devido ao gelo a que me entreguei na totalidade passado um tempo. Era agora, parte do glaciar. O pico de gelo no seu topo, preso sem puder sair daquela prisão de vidro que me aterrorizava com a minha própria imagem.

“James.” E o vermelho tomou conta do céu, o vento carregou consigo as cores do pôr-do-sol, descongelando tudo a seu caminho, lutando com a brisa gelada e deixando a sua vitória em fumo baço dispersado no ar. Lava entregou-se à água e desse romance impossível surgiu o granito quente e feroz como o amor de seus progenitores cujo fogo ardente guardado nas suas saliências secou, por fim pelo líquido do glaciar onde eu era mantido. O meu corpo caiu como a última gota de orvalho da manhã. “James”

O granito foi-se partindo por baixo dos meus pés, apesar de rocha era frágil, tornando-se em pó, logo de seguida parte do remoinho que circulava atrás, limpando qualquer sinal da minha vinda a este mundo e o próprio.

O som ficava cada vez mais forte. Assim que caminhava próximo dele, a minha temperatura corporal ia aumentando. Gostas de suor escorriam pela extensão do meu corpo, limpando-me a visibilidade, enquanto outras caiam no quente chão virando nada ou um forte nevoeiro.

Cegado pela bruma, pisquei os olhos a tentar focar a minha visão em frente, mas em uma fração de segundo era como se tivesse sido transportado para um outro lado. Vazio, sem nada, mas quente e confortável. “James “ ouviu-se novamente, porém o som estava perto, muito perto. Virei-me para a esquerda e para a direita, e foi ai que senti algo a queimar-me o ombro. Gritei de dor. Como reflexo levei a mão ao ombro para tentar acalmar a sensação. Virei-me para trás.

Uma pessoa sorria. Alguém belo como a sua voz. De cabelos ruivos como o fogo que preenchera todo o céu há pouco. 

“James.” Aproximou-se com a mão tentando chegar-se a mim. Recusei. A cada passo que ele dava em frente eu dava um para trás até que lágrimas me vieram ao rosto, um vento quente começou a circular a meu redor, deixando queimaduras nos meus braços; mãos; costas e pernas. A dor era insuportável, tinha vontade de gritar, mas mordi o lábio para o evitar. Fiquei imóvel com os olhos lacrimejados, observando o rapaz a ir a meu encontro.

“James.” Pôs-se à minha frente e sorriu de forma calorosa, estendeu os braços e envolveu o seu corpo no meu. Algo que me fez largar a voz à muito contida expressando nada mais a não ser dor. O seu corpo agarrado ao meu deixou-me numa agonia escaldante. A minha pele tomava cor. As minhas lágrimas evaporavam juntando-se ao fumo da minha derme escaldada.

Tentei-me afastar, empurrar; lutar no entanto o meu corpo era incapaz de sucumbir às minhas vontades, em vez disso eu sofria por ele. Berrando até que a minha garganta ardeu e as minhas cordas vocais ficaram mudas.  

Silêncio cantou o meu corpo cansado, descaindo para o chão. O rapaz acompanhou todos os meus movimentos, e sentou-se de joelhos há minha frente, sorrindo-me. Olhei-o com algo de desprezo porém era incapaz de não me sentir tocado com a sua inocente expressão, tão confortante e preocupada, como mostrava o seu sorriso, os seus olhos chorões e as suas bochechas rosadas. “ Desculpa James.”

“Quem és?” Levei a mão ao seu rosto não resistindo limpar-lhe as lágrimas, que encontravam descanso no leito do meu dedo. Chegou-se para mim, abraçou-me uma vez mais, gesto que respondi com um fraco gemido. “ Al.”

Abri os olhos em surpresa, não desfazendo o abraço. Al….Al era ele. Parti do desconhecido tomado pela dor e abracei-o com força. Nesse momento os nossos corpos nus tocaram-se como se fossem apenas um só.

“Quem és tu?” Interrompi o abraço e limpei as lágrimas com as mãos tornando a minha visão clara, finalmente, capaz de ver o quão belo era o ser à minha frente.” O que és tu?”

 “ Eu sou tudo aquilo que quiseres que eu seja, James.“ Esboçou um sorriso no seu rosto. Como alguém poderia parecer tão inocente.

 “Mas…” Levantei-me confuso próximo a ele, que a distância diminua aproximando-se de mim. Os nossos rostos tocaram-se, baixei a cabeça como reflexo da vergonha, e nos meus ouvidos ouvi um sussurro daquilo que se assemelhava a um riso. Sorri cabisbaixo, que situação ridícula.

“ James, não fiques envergonhado.” Ele soprou-me o cabelo, riu uma vez mais e pôs os seus dedos entre os meus.” Vamos, eu explico-te tudo”

Andamos ambos pelo ar. De mãos dadas ele guiava o caminho.

“Olha para cima.” Apontou o dedo para as nuvens douradas que mostravam belas transparências. “ São memórias, as tuas memórias.”

Deixei cair a sua mão. Levantei a minha e coloquei-a tapar o céu. Eram belas, mas o seu conceito era abstrato e confuso. Lembranças.

“Tudo o que aqui está é teu. Tudo o aqui é representado és tu e tudo o que eu sou tu és. Passou a sua mão pelo meu rosto, desmascarando a confusão que eu tentava esconder. Envolveu-me de novo num abraço tocando na minha testa com a sua. O seu sorriso era visível uma vez mais. “ Irás entender, não te preocupes James, deixa-me mostrar quem tu és.”

Caminhámos por horas e horas, passando por várias rotas. Al foi-me explicando tudo aos poucos e eu inquirindo cada vez mais curioso. Espelhos que mostravam os nossos reflexos parecidos um ao outro. Dunas onde nos abrigamos da avalanche que provoquei quando caí. Ou também a gruta de gelo para onde deslizamos pelas montanhas de pedra. Sua superfície era quente ao toque, a sua água igual.

“James, está bem?” Pôs os braço à minha volta, apertando-me para si.

À nossa frente estava, o contrário do que antes tínhamos visto. A escuridão que nos acompanhou durante o tempo da nossa viajem, que sofreu com os nossos sorrisos, as nossas gargalhadas, que nos lembrou das mais belas formas quando dela nos aproximávamos, fora engolida por uma luz fluorescente

Uma estranha sensação apalpou as minhas pernas, subindo-as como um arrepio. Do degradé de brancos e pretos pintado à minha frente, surgiam do branco luminoso estranhas criaturas, de olhos níveos a tintilar como um sino de uma igreja; que algo anunciava. Algo tão presente na minha vida, algo tão conhecido em mim e por mim.

O meu corpo tremia com cada badalada do sino. “ Faz isto parar! Faz isto parar Al!”

Gemia silabas de palavras, que se confundiam com o som do seu cantar, Al estava comigo, mas por alguma razão o seu calor era como metal a fundir-se na forja, que se se transformava em algo.

“James tem calma. Não tenhas medo, está tudo bem e tudo ficará bem. Eu estou aqui contigo. “ Acariciou o meu cabelo, forçando o seu corpo no meu.

Apesar dos seus esforços, o meu corpo estava frio, rangia os dentes pelas emoções que me tomavam, pelo sopro fluente de cada criatura. Rendi à gravidade dos meus medos e deixei-me cair no chão. Al agarrou-me tornando mais leve a queda, batalhou com o meu corpo que desejava ser a pena voadora na brisa fresca que circulava. Igual àquela noite…

Gritei, berrei e gemi o mais alto que pude esvaziando os meus pulmões de ar e em sequência tudo em que a minha voz tocou se começou a partir. O mundo etéreo que tantos sorrisos me garantiu, desmoronava-se ao som do pânico. Um quadro de cores trépidas era pintado e eu estava no centro: o dourado das nuvens sentiu-se negro enchendo-se de estática; relampejando a sua raiva contra as folhas verdes que se transformavam em pó, viajando partícula a partícula para a silhueta de vidro que o tempo contava a cada grão.

“ James abre os olhos!” Al estava comigo, a sua voz parecia chorar o que os seus olhos já não conseguiam derramar.

Abri os olhos, mas diferente do que esperava Al não estava a meu lado. Visões daqueles tempos tomavam forma de grandes holofotes que seguiam a minha sombra. Um a um expunham-me à luz daquilo que tanto tentei esquecer: as cicatrizes nas minhas costas, que me falavam de tempo em tempo; as marcas acastanhas e vermelhas nos meus braços e tornozelos, que ameaçavam cessar a circulação do meu sangue; os meus ossos que se roçavam à pele tentando rasga-la, e a mãos as quais eu não conseguia mexer de tão congeladas que estavam.

Barulhos de serras aproximavam-se de mim furando-me os ouvidos como as suas mãos arranhavam a minha garganta. Mordi-o e recebi uma chapada em troca, sei que deixou marca, ainda sentia o calor. A força das suas mãos enquanto ele me prendia as minhas e as pernas ao seu desejo. O seu sorriso visitou-me a mente, sabia que ele estava a sorrir, apenas o pensamento do seu sorriso podre a crescer ao me ver assim vulnerável fez o meu corpo todo tremer. Encolhi-me, tentei-me contorcer em concha, mas os meus membros estavam presos e os seus dedos seguiam-lhe o contorno, das pernas até cima, passando pelos meus lábios ensanguentados.

“James!” Silabava em euforia entre gargalhadas e gemidos.

Gritei fechando os olhos para não ver o que viria a acontecer e quando os abri, em choro estava Al aconchegado a mim, acariciando-me suavemente o cabelo, enrolando uns fio entre os dedos, sussurrando o meu nome ao mesmo tempo. “Sh… sossega James, lembra-te que tu és quem escolhe o que ver.”

Agarrei-me ao seu corpo encostando a minha cabeça a seu peito, o seu coração batia em sintonia com o meu. O sangue que pulsava no seu corpo fazia com que fosse quente, acolhedor assim como o seu sorriso. Levantei a cabeça e olhei-o nos olhos cor de âmbar, que belo como os seus rubros fios de cabelo cobertos pelo pó de cristal do alvorecer do mundo.

 Em montes o pó ia caindo, sob nós, tornando-se o chão que pisávamos seguindo pelas linhas de rocha partida, juntando-se à areia, virando líquido e de seguida um espelho, e outro até por fim estarmos ambos protegidos pela nossa própria imagem, refletida nos incontáveis vidros.

O cabelo vermelho de Al brilhava forte contrastando com o branco do qual eu era dono. E fogo viajava por dentro do espelho ao movimento ondulante do seu cabelo, transformando-se numa lavareda. Os nossos corpos eram chama aos meus olhos e daqueles que viam. O meu corpo ficava cada vez mais quente, as minhas bochechas rosaram e o frio queimou-se a brincar com o fogo.

Embora eu estivesse em cima da fogueira no espelho o corpo de Al começava a perder a cor, o seu corpo juntava tons de azul e vermelho, os seus lábios à sombra dos meus, que tomavam agora a sua cor natural carmesim, encenavam o roxo da morte.

“Al que se passa contigo?” Afastei-me dele um pouco, os nossos corpos ainda se tocavam e no meio deles surgia vapor.

“ Nada James” Sorria enquanto encostava a sua mão à minha testa “ Finalmente estás quente. Finalmente.”

Era verdade que eu estava quente, quase a arder por sinal, mas Al não. Al estava frio como uma tempestade de inverno.

 Vapor foi dissimulando-se pelos céus de vidro criando assim uma bela nuvem branca” Al que se passa?” Os meus olhos procuravam um resposta nos seus com urgência, mas nada. Al limitou-se a esboçar um sorriso dos seus, à medida que eramos cobertos pela escuridão. “Fecha os olhos James.”

Obedeci-lhe. Fechei os olhos e senti na minha pele os seus dedos a dançarem nos meus braços, seguindo para o meu rosto a sua respiração, arrepiei-me e procurei-o com as minhas mãos. “ Continua de olhos fechados James… não os abras” Tocou-me nos lábios, passou a mão a minha testa, agarrou-me na nuca, deitou-me no que me parecia ser o seu colo. A sua respiração fria, incomodava-me os olhos no entanto também me obrigava a mantê-los fechados. “ Lembra-te James eu sou tu, tu és eu. Tu serás o que quiseres e eu serei o mesmo só para ti”

A noite caiu e o sol nasceu na orbita do meu olhar. Sentia-me tonto, a minha cabeça latejava. Ouvi vozes mas pareciam estar longe, muito longe, Reconhecia o som de um choro, um som mecânico como se fosse um “beep”. Abri, por fim os olhos e paredes brancas contaram-me aos ouvidos onde eu estava. Agarrada à minha mão direita estava uma pessoa cabisbaixa murmurando alguma coisa. À minha esquerda, a origem do som mecânico continuava a fazer barulho. Máquinas sondavam e conduziam um líquido para o meu corpo, através de agulhas.

Movi-me um pouco, e nesse momento um rosto cansado, com olheiras por baixo dos olhos, de quem não dormiu ou passou noites em branco a chorar, encarou-me. A sua cara não me era estranha, algum dos seus traços diziam algo na minha mente meio inconsciente. Além de marcas da idade e a sua pele escurecida, o seu longo cabelo negro como o céu noturno e os seus olhos de esmeralda traziam a lembrança de alguém.

A senhora sorriu. “ James, estás acordado.” Chamou o médico e lançou-se para um abraço.

Saltei assustado, mas em segundos fechei o abraço e descansei a cabeça no seu ombro. Mãe.

Ela chorava baba e ranho sujando-me o vestido branco do hospital. Tomei plena consciência de mim mesmo e por entre afetos o meu corpo retomou ao passado. Àquele infortúnio dia… no dia em que… Vermelho pintou a tempestade e os meus pensamentos voaram de novo para o real.

“James estás bem?” Separou-se e olhou para mim, limpou-me as lágrimas, afagou o meu cabelo e sorriu. 

“Acho que sim mãe só estou com calor”

 Gargalhou ao levar a sua mão à minha testa.

Na viagem para casa foi como se nada se passasse. Os meus pensamentos eram amantes da paisagem e juntos fugiam enquanto o sol se punha. Na praia corriam ambos à velocidade de um carro, caindo no mar. E as árvores verdes brincavam umas com as outras, roçando-se com as suas folhas procurando partilhar os segredos que o vento lhes contou.

Deitei-me na cama assim que chegamos; tinha sido deixado ao descanso. Cerrei os olhos pouco a pouco na mesma sincronia que os meus pensamentos surgiam. O barulho ofuscado pela chuva escorria na minha cabeça. De olhos fechados por completo, imaginei ajustar a frequência, estava no mundo entre os sonhos e a realidade, na porta entre o céu e o inferno.

Escondi-me no conforto dos meus cobertores e encolhi-me. Ouvi o som de fogo a queimar madeira, senti o cheiro a queimado. As paredes estavam chamuscadas, pintadas de negro. Agarrei-me à almofada e suspirei todo o ar que tinha contido. Apertei e ouvi a voz de alguém a cantar. A voz era hipnotizante. Deixei-me cair na cama de lado e fiquei olhar para a chama que dançava na parede. O seu movimento ondeante em sintonia com o talhar da madeira, calma como o toque que eu sentia percorrer e levantar os meus pelos. Perdido em pensamentos com a chama no olhar soprei ”Al.” E o fogo transformou-se numa bola que o quarto percorreu balanceando para cima e para baixo, até se extinguir ao contacto com o meu peito.

O meu corpo estava quente e o quarto iluminado pela sombra que se encandeava abaixo de mim. Senti algo a tocar-me na mão; virei-me e lá estava ele. Al com o seu cabelo ruivo a repousar no meu ombro. Os seus olhos cor de âmbar que me encaravam sorrindo honestamente. Encostei a minha cabeça à dele, os nossos corpos caíram na cama um ao lado do outro encostado e nesse momento ambos sorrimos ao olhar para os nossos corpos iguais. 


Notas Finais


Espero que tenham gostado!


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