História Disable - Capítulo 10


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Anjos, Arcanjo, Caçadores, Cadillac, Café, Céu, Demônio, Fantasma, Hunter, Inferno, Lobisomem, Suicida, Supernatural
Exibições 15
Palavras 3.903
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Policial, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Pois é, demorei. Me desculpem. Bom, sobre esse capítulo, é um flashback (como o próprio título já diz) sobre a vida da Kristen e do Richard antes deles virarem caçadores. Achei legal eu contar, pra vocês não ficarem com dúvida sobre eles ahauah, esse flashback vai ter cinco partes no máximo, bastante coisa, mas prometo que não vai ficar enjoativo. "Mas como assim a vida da Kristen e do Richard se ele não apareceu na história?", sobre isso, vou mencioná-lo no próximo capítulo. E talvez demore, me perdoem eu sou meio bipolar quando se trata de criatividade.

PS: Na imagem, Vivian Parks.

Capítulo 10 - Flashback - I


Fanfic / Fanfiction Disable - Capítulo 10 - Flashback - I

 Kissimmee, Flórida, 2005.


Era fim de tarde, num domingo, quando a família Forchammer chegou de mudança para a casa nova em Kissimmee. Os vizinhos, muito bem receptivos, saíram de suas casas para conhecer os novos inquilinos. A família havia chego numa caminhonete preta, com os vidros escuros, não se via nada.


– Você fique aí, não saia. – Disse Bárbara, olhando para trás, ainda com o cinto afivelado.


Bárbara era alta, tinha os olhos azuis e os cabelos longos e negros, e moça valorizava os cabelos, como se fossem símbolo de sua santidade. Apenas de olhar para ela, dava para notar sua superioridade e o orgulho exagerado. Paul, seu marido, um homem pouco maior que Bárbara, cabelos grisalhos castanhos e os olhos cor de mel. No banco de trás, estava Kristen, a filha única do casal. A menina tinha 13 anos de idade, cabelos uma altura abaixo de sua cintura, castanho escuro. Seus olhos chamavam atenção, eram um de cada cor. Azul e castanho. Como se tivesse herdado um de cada pai.


– Entendi. – Disse a garota, de cabeça baixa. Bárbara olhou para Paul, que estava dirigindo, e desafivelou o cinto para sair do carro, Paul fez o mesmo. Os vizinhos não podiam saber que o casal tinha uma filha de modo algum.


Esse era o motivo pelo qual eles se mudaram. Kristen era uma menina diferente das outras, não apenas pelo seu jeito, mas por algo que ela fazia. Bárbara e Paul perceberam isso quando ela tinha 8 anos de idade, num incidente o qual quase foram assaltados, e não foram graças a Kristen, que apenas pediu para que os ladrões fossem embora. E eles foram, com os rostos sem expressão, como se estivessem sendo manipulados. Estranho, por que eles obedeceram? Bárbara foi mais a fundo, e então descobriu que eles foram realmente manipulados por uma criança. Não havia explicação lógica para aquilo. Bárbara e Paul eram pastores, conservadores e extremistas quanto a religião. Então tiraram suas próprias conclusões, de que a filha era anormal, “Cria do Diabo”, como Bárbara costumava dizer.

Após terem certeza de que a garota podia mesmo manipular as pessoas, o casal de pastores decidiu mantê-la longe de tudo e de todos. Tiraram Kristen da escola, e a mantiveram presa o tempo todo, ela não podia sair de casa em nenhuma hipótese, seus estudos eram feitos em casa, e toda noite, ela era obrigada a rezar o pai nosso, pedindo perdão por nascer “pecadora”. As regras rigorosas foram impostas por Bárbara, que tinha um fanatismo religioso rigoroso. Paul não tinha coragem de questionar.

Antigamente, eles viviam na Geórgia, mas como Kristen foi afastada de tudo durante quase um ano, o povo da cidade onde eles moravam começou a desconfiar, do nada o casal tirou a filha da escola sem motivo, e ninguém mais via a menina sair de casa para brincar como costumava. As desculpas de que Kristen estava visitando parentes distantes já não era tão válida. Então, o casal se mudou para Oregon, onde ficaram por três anos e meio, ainda com as regras de Bárbara impostas a Kristen. O problema foi que, mais uma vez, os vizinhos desconfiaram que tinha mais alguém além do casal morando ali, não importava o quanto eles tentavam esconder, alguém sempre desconfiava. Se mudaram de novo. Dessa vez, para Kissimmee, na Flórida, na esperança de fazer de tudo para que não soubessem dessa vez.


Bárbara e Paul saíram do carro sorridentes, e como pessoas normais, cumprimentaram os vizinhos gentilmente, causando uma ótima primeira impressão. Kristen olhava pelo vidro do carro seus pais conversando com aquelas pessoas tão agradavelmente, toda aquela simpatia, e se perguntava porquê com ela era diferente. Faltavam poucos meses para completar cinco anos desde que Kristen estava “aprisionada”, e conforme foi crescendo, sua revolta também crescia, e ela pensava cada vez mais em fugir, mas as palavras de Bárbara ecoavam em sua cabeça toda vez que ela cogitava isso. “Ninguém vai ficar perto de você!”, “Você é a filha do diabo!”, “Não sei como pude dar a luz à um monstro!”. Kristen sentia medo das pessoas rejeitarem ela, sentia medo de interagir com as pessoas. Paul, quando podia, dava atenção a filha, fazia-lhe companhia, agia como um pai, mas não durava muito, Bárbara não permitia. O pai de Kristen nunca foi a favor de mantê-la presa, mas achava que seria a melhor opção para que a filha não sofresse nas mãos do mundo.


– Vocês tem filhos?! – Enquanto os vizinhos conversavam com o casal, uma moça acabou fazendo uma pergunta que fez Paul ficar apreensivo, mas Bárbara não se abalou.


– Não temos filhos. – Disse ela, mantendo o sorriso no rosto. Paul não era capaz de tanta frieza, então ele apenas disfarçava.


– Meu amor, vou guardar o carro na garagem. Foi um prazer conhecê-los. – Disse Paul, tocando o ombro de Bárbara, que assentiu, e voltou a atenção para as duas mães de família que os recebia.


Paul andava até a caminhonete, dando passos rápidos, por algum motivo. Entrou no carro, e suspirou, Kristen o olhou confusa. Toda aquela coisa de ter que ficar quieta a todo momento, não poder sair, não receber visitas, tinha se tornado normal para ela, e seu pai não queria isso.


– Algum problema, pai? – Perguntou ela, com as mãos entre as pernas, vestindo uma blusa de lã azul marinho, que alcançava as palmas de suas mãos. Paul ligou o carro.


– Não, tudo bem. E você? Está tudo bem? – Perguntou ele, dando a ré para entrar na garagem, o controle remoto que abria o portão já estava com ele. Kristen olhou novamente pela janela.


– Está. – Disse ela, Paul sorriu. Ele continuou seguindo até entrar por inteiro na garagem, e então fechou o portão com o controle, sendo assim, ninguém podia ver mais nada ali. – Eu posso descer?


 – Claro. – O pastor saiu do carro animado, e abriu a porta para que Kristen saísse também, ela se surpreendeu com a gentileza.


– Nossa, que cavalheiro, pai. – Disse ela, sorrindo. Olhou em volta, a garagem era toda pintada de branco, com alguns armários para guardar ferramentas, e algumas teias de aranha também.


– Pois é, seu aniversário está chegando. Acho que não é cedo demais para começar com as gentilezas. – Brincou Paul. O aniversário de 14 anos de Kristen seria daqui à uma semana. Ela tirou o casaco sem muito cuidado, e o segurou de forma desajeitada acima do ombro.


Kristen sempre foi meio desleixada com as coisas, gostava de se vestir com roupas confortáveis, sem se importar se era adequado ou não, o que deixava sua mãe irritada, pois de acordo com ela, uma dama deveria executar tudo delicadamente, e se vestir como uma moça comportada, o que com certeza não se encaixava no perfil de Kristen. Ela tinha uma personalidade forte, em parte, herdou isso de Bárbara.

Ambos entraram na casa pela porta da garagem, a casa estava quase que completamente mobiliada. Kristen deu uma rápida olhada em tudo, e se manteve longe das janelas, para evitar que a vissem.


– Então? O que achou? – Perguntou Paul, ainda sorridente. A menina ergueu uma sobrancelha, e cruzou os braços.


– Razoável. – Brincou. – Onde fica o meu quarto?


– Eu acho que é por aqui. – O pastor foi andando até o corredor, onde tinha uma porta aberta, Kristen o seguiu, olhou e pensou: Esse deve ser meu quarto.


– É aqui? – Perguntou, entrando no quarto. Paul olhou para baixo meio sem jeito, e se aproximou dela.


– Não, querida. É lá embaixo. – Disse ele. Kristen desviou a atenção do quarto muito bem decorado, e olhou para seu pai. Paul se sentiu mal naquele momento.


– Tudo bem, vamos lá ver. – Disse ela, disfarçando. Eles continuaram andando pelo corredor, até chegar a uma escada que dava ao porão.


Ambos conseguiram visitar a casa todo antes que Bárbara entrasse, pois não seria agradável se ela estivesse junto, e os dois concordavam com isso. O porão, que no caso seria o quarto de Kristen, era grande, e tinha apenas uma janela, coberta com uma lona preta. Também tinha um banheiro ao lado, com tudo já pronto. Os móveis ainda não estavam lá, Paul explicou que no dia seguinte seriam entregues. As paredes já estavam pintadas, e o chão limpo. Kristen deduziu que provavelmente seu pai teria pedido para que reformasse o porão antes deles se mudarem, e isso a deixou um pouco mais contente. Enquanto eles conversavam no porão, ouviram a porta bater, Bárbara havia chego.


– Paul? Onde está? – Perguntou ela, o barulho de seu salto batendo no chão podia ser ouvido. Paul foi até a porta do “quarto” de Kristen, para que Bárbara o ouvisse.


– Aqui embaixo, querida. – Disse ele, Kristen ajeitou o cabelo para que não houvesse nenhuma crítica de sua mãe, mas não tinha como evitar. Bárbara desceu as escadas, e olhou em volta do porão.


– Vai ficar bom depois de mobiliado. É suficiente pra você, Kristen? – Perguntou Bárbara, com um sorriso estranho nos lábios, que intimidava a garota. Kristen baixou a cabeça.


– Sim senhora. – Respondeu, Paul sempre tentava desfazer o clima ruim que Bárbara causava apenas com sua presença.


– Também acho, vai ficar bem legal. – Disse ele, Kristen sorriu de canto, ainda de cabeça baixa. Bárbara continuava olhando em volta, como se estivesse imaginando tudo no lugar.


– Bom, Paul, temos muitas malas para desfazer. – Disse ela, direcionando-se à escada.


– Ah, mãe. – Bárbara não gostava quando Kristen a chamava de mãe. Ela se virou para a filha, sem disfarçar o incômodo. – Eu posso ajudar se quiser.


– Não. Eles podem te ver. Fique aqui, seu pai vai trazer o colchão inflável aqui pra baixo, hoje você dorme nele. Amanhã o pessoal vem montar os móveis. – Disse Bárbara. Kristen assentiu, e então Bárbara continuou subindo as escadas, Paul sorriu para a filha, e subiu logo atrás da esposa.


Kristen esperou seus pais subirem completamente, e suspirou, colocando as mãos no rosto. Tentou ver o lado positivo, olhando por tudo mais uma vez. Ela andou um pouco no cômodo, e depois foi até o banheiro. Era pequeno, ao lado da banheira, havia um espelho que refletia seu corpo todo, ela se encarou por alguns segundos no espelho e pensou: Por quanto tempo teria que ficar presa? Escondida, negada, inaceita. Se deitou na banheira, olhando para o teto, suas pernas eram muito compridas para caber na banheira, então ela colocou os pés na parede, com as pernas semi-flexionadas. Eles tinham ficado muito tempo na estrada, Kristen estava cansada, e acabou pegando no sono ali mesmo. Paul voltou alguns minutos depois com as malas dela, o colchão inflável, e as cobertas, pois estava frio. Ele a chamou mas ela não respondeu, decidiu verificar se ela estava no banheiro, e então viu a filha dormindo despreocupada na banheira. Ele voltou ao cômodo anterior, e colocou as malas no chão, após isso, organizou o colchão, junto as cobertas e o travesseiro de uma forma confortável. Paul foi até o banheiro, e carregou a filha até o colchão, com cuidado para não acordá-la, após feito, saiu do “quarto” para deixá-la descansar.

Kristen acordou apenas no dia seguinte, e por alguns segundos não se lembrava onde estava, até recuperar sua sanidade. Ela se espreguiçou, olhando para suas malas que seu Paul havia trazido na noite passada. Levantou-se, ainda sonolenta, embora tivesse dormido bastante, tipo, mais de dez horas. Antes que pudesse fazer algo, ouviu o barulho do salto de sua mãe descendo as escadas, e passou a mão no cabelo todo despenteado, tentando ajeita-lo. Bárbara abriu a porta.


– Bom dia. – Disse Kristen, passando a mão no rosto. Bárbara a fitou de cima a baixo, notando que ela havia acabado de acordar.


– Se arrume, e suba para tomar seu café. Os rapazes vem montar os móveis daqui à meia hora, se apresse. – Disse Bárbara, que vestia um vestido para baixo do joelho, cinza, e um bolero cor de rosa. – E coloque essas malas num lugar onde não vejam.


– Claro, já estou subindo. – Respondeu Kristen, de prontidão. Bárbara a fitou mais uma vez antes de sair.


Kristen fez tudo rapidamente, penteou os cabelos, escovou os dentes, trocou de roupa, colocou suas malas e roupas de cama todas no banheiro, e após feito, trancou a porta. Subiu as escadas pro corredor que levava até a sala, e viu sua mãe falando no telefone, provavelmente com os montadores, Bárbara, ao notar a presença de Kristen, fechou a cortina, para que ela pudesse passar sem ser vista. A menina passou pela sala apreensiva, e chegou até a cozinha, Paul não estava lá, provavelmente estaria no trabalho, pensou Kristen.

Os montadores chegaram a tarde, e colocaram os móveis no porão, tiveram alguns questionamentos, mas Bárbara deu conta. Estava tudo pronto, eles ficaram a tarde toda trabalhando, enquanto isso, Kristen ficou na sala de jantar com a porta fechada, esperando eles terminarem. Ela olhava pela janela as crianças brincando na casa ao lado, tinha uma garotinha pequena de uns 8 anos, e um garotinho mais ou menos na mesma faixa etária, e também, uma garota que parecia ser mais velha que as outras crianças. Enquanto ela continuava a observar atenta, eles estavam jogando vôlei, e acidentalmente, a bola acabou caindo no quintal de Kristen, bem perto da janela onde ela estava. Imediatamente, ela se abaixou para que as crianças não a vissem.


– Eu pego! – Uma voz se aproximava, era uma voz doce, Kristen ouvia os passos rápidos chegando, e seu coração estava disparado. Estava desesperada, pensando que alguém tinha visto ela ali. Os passos ficaram cada vez mais devagar.


Havia uma porta de vidro ao lado da janela da sala de jantar, Kristen olhou de canto, e viu que a bola estava ali, e também notou que a garota ainda estava procurando pela bola, então resolveu ajudar. Esticou o braço para perto da porta, e a abriu discretamente, saindo de dentro da sala ainda abaixada. Kristen empurrou a bola com um pouco de dificuldade para que a garota visse onde estava. A menina rapidamente virou-se ao perceber algo se movimentando perto dela, e se aproximou para ver o que era.


– Oi! – Disse ela, olhando para Kristen abaixada tentando entrar de novo sem chamar atenção. As duas se encararam.


Kristen parou de se mover imediatamente, com os olhos fixos no chão, sem saber o que fazer. A garota persistia, chegando ainda mais perto dela.


– … Tá tudo bem aí? – Perguntou ela, se abaixando perto da outra, Kristen se afastou rapidamente, sem olhar para a garota. – Quem é você?


– Ninguém. Você não me viu aqui. – A menina assustada entrou novamente dentro de casa, sem esperar uma resposta.


– Espera! Você não quer brincar com a gente? – Ela insistia ainda mais. Kristen não sabia como agir, e sabia o que ia acontecer caso sua mãe soubesse que alguém a viu.


Kristen se abaixou perto da janela, colocando o rosto entre os joelhos, esperando que a garota loira dos olhos mel fosse embora. Passaram alguns longos segundos, e ela desistiu. A menina continuava na mesma posição embaixo da janela, sem sequer se mexer. Seus pensamentos estavam à mil, ela queria ter ido, mas não podia, pois estava presa ali dentro.

Mais tarde, os montadores haviam terminado o trabalho, Bárbara abriu a porta da sala de jantar, e entrou.


– Kristen? – Perguntou ela, olhando em volta.


– Estou aqui. – Respondeu a menina, baixinho. Bárbara andou até ela, Kristen continuava na mesma posição.


– Levante. Seu quarto está pronto. – Disse Bárbara, num tom antipático. Kristen se levantou, parecia deprimida, Bárbara sequer notou.


Ambas foram andando até o porão, Bárbara ia na frente, e a filha atrás, olhando para baixo pensativa. Quando chegaram, Bárbara ficou olhando para Kristen, esperando alguma reação, mas ela apenas olhou todo o quarto sem interesse. Não importava a decoração, ou os móveis, ela estava diante de sua mais nova prisão, e não tinha como gostar disso. A menina se esforçou para esboçar um sorriso.


– Eu gostei. Obrigada mãe. – Disse ela, andando até sua cama. O quarto havia sido mobiliado com móveis todos brancos, talvez para deixar mais “agradável”. Não funcionou.


– Sei. – Debochou Bárbara. Ela foi em direção as escadas, ainda olhando para Kristen. – Suas malas ainda não foram desfeitas. Arrume tudo, antes de ir para igreja eu venho ver, e é melhor que esteja organizado, você me entendeu?


– Sim, mãe. – Disse Kristen, Bárbara levantou a cabeça, e fechou a porta, trancando-a por fora. Ouvia-se apenas os passos dela pelos degraus.


Kristen deu uma segunda olhada pelo quarto, não era tão ruim, mas causava um desconforto. Ela pegou suas malas no banheiro, e começou a desfazê-las em cima da cama, com cuidado. Colocou as roupas na cômoda, e os livros na estante, tudo organizadamente para agradar Bárbara. Enquanto terminava, ouviu a porta da frente abrir, deduziu que provavelmente seu pai havia chegado.

Não demorou muito para os dois irem para igreja, Bárbara deixou o jantar de Kristen no quarto, não queria arriscar que a vissem jantando com eles na mesa. Assim que saíram, a garota ficou sozinha. A noite estava num clima agradável nem quente, nem frio. Kristen queria sair dali nem que fosse por alguns minutos, ela adorava a noite, a lua, o céu escuro, as estrelas, tudo.Se levantou do sofá onde estava sentada, e foi andando até a porta, para ver se estava trancada, estava. Ela olhou em volta, e a única saída dali era a pequena e única janela do “quarto”. Analisou bem, verificando se tinha jeito de passar por ali, parecia bem estreito, mas ela queria tentar. Vestiu um casaco, e sem hesitar, foi até a janela. Primeiro colocou as pernas para fora, depois, com dificuldade, empurrou o restante de corpo. A janela dava direto no gramado atrás da casa, então não houve queda.

Ela suspirou, aliviada por ter saído dali. Kristen não costumava fugir assim, mas realmente, ela precisava sair, respirar ar puro. A casa da garota que havia derrubado a bola sem seu quintal era ao lado, separada apenas por uma cerca branca, e as luzes estavam acesas. Sentou-se, encostada na parede da casa, olhando para o céu repleto de estrelas, e a lua estava tão bonita quanto. Ela sorria apenas por estar fora dali, os momentos os quais ela tinha contato com o mundo fora do quarto, eram os únicos que faziam ela ter esperanças.


– Você de novo. – A garota de mais cedo, ela estava ali, com os braços atrás das costas, olhando para Kristen. A mesma levou um susto ao notar que ela estava ali novamente.


– O que está fazendo aqui? Vá embora. – Disse Kristen, virando o rosto. A garota persistiu, se aproximando bobamente.


– Você mora aqui? É filha dos pastores? – Perguntou ela, parecia curiosa. Kristen estava começando a se arrepender de ter saído do quarto.


– Quem é você? – Perguntou, a encarando. A garota que antes sorria, se afastou lentamente, parecia assustada com a forma a qual Kristen a olhava. Foi então que ela percebeu que se tratava apenas de uma pessoa que não fazia ideia do seu defeito. Não havia problema em falar com ela. – Desculpe, eu não quis assustar você.


– Meu nome é Vivian. E o seu? – Perguntou a garota, voltando a sorrir. Ela conversava com Kristen normalmente, e isso a fazia sentir uma pessoa comum, como todas as outras, e não o monstro que Bárbara dizia que era.


– Kristen. – Respondeu, sorrindo. Há anos ela não tinha contato com alguém que não fosse seus pais, era até empolgante.


– Você mora aqui? – Ela se sentou ao lado de Kristen, Vivian era uma menina baixa, os cabelos loiros lisos, pouco abaixo dos ombros, seus olhos eram cor de mel.


– Por que quer tanto saber? – Perguntou Kristen, de pernas cruzadas. Vivian revirou os olhos, e riu.


– Porque sim. Você apareceu do nada. – Disse Vivian, fitando Kristen curiosa, seus olhos chamavam sua atenção.


– Eu moro aqui, mas ninguém pode saber. Prometa que não vai contar. – Disse ela, por algum motivo, Kristen confiou em Vivian.


– Por que ninguém pode saber? – Perguntou Vivian, pelo que parecia, ela gostava de fazer perguntas.


– Você podia maneirar nas perguntas né? – Disse Kristen, Vivian colocou o cabelo para trás, e assentiu.


– Tá bem, eu prometo. Sabe, eu nunca tinha visto ninguém com os olhos diferentes assim como os seus. – Acrescentou Vivian, olhando para os olhos de Kristen.


– Isso é um problema? – Perguntou Kristen, séria. A garota riu, surpresa com a reação estranha de Kristen.


– Claro que não. Eu gostei deles. – Disse Vivian, entrelaçando os dedos. Kristen olhava para aquela menina tão bonita, seu rosto tão delicado, e sentia algo estranho que nunca havia sentido antes. Houve um silêncio por alguns minutos entre as duas.


– Ah.. Quantos anos você tem? – Perguntou Kristen, Vivian desviou a atenção do céu estrelado novamente para ela.


– Treze. E você? – Perguntou a garota, empolgada. Kristen ergueu as sobrancelhas, e sorriu.


– Eu também. – Respondeu. Vivian também ficou um tanto surpresa.


– Eu pensei que fosse mais velha, você é bem alta. – Disse Vivian.


– Sério? – Kristen achava que todas as crianças com a sua idade tinham a mesma altura que ela, mas na verdade sua altura era elevada pelo seu tamanho.


– Sério, veja só. – Vivian se levantou, e estendeu a mão para Kristen se levantar também, ela hesitou alguns segundos. – Vem!


Kristen segurou sua mão, e se levantou, ainda era estranho estar com alguém assim depois de tanto tempo. Vivian a encostou na parede, e olhou pela grama, procurando algo.


– O que está fazendo? – Perguntou ela, Vivian se abaixou, e pegou uma pedra meio pontuda que encontrou no chão.


– Procurando alguma coisa para marcar nossa altura, duur. – Disse ela, extrovertida. Kristen não entendeu muito bem, mas não questionou. Vivian ergueu os pés, e com dificuldade, marcou a altura de Kristen na parede com a pedra. – Viu, assim. Agora é minha vez.


– Ah.. – Vivian entregou a pedra a Kristen, e se encostou na parede. Kristen marcou uma linha acima de sua cabeça assim como ela tinha feito, e ambas se afastaram para ver a diferença de altura, era quase de um palmo. – Uau, você é pequena.


– Você que é alta. – Ela riu. – Eu tenho que voltar, minha mãe acha que eu estou colocando o lixo para fora.


– Tudo bem. – Disse Kristen, mesmo querendo que a garota continuasse ali lhe fazendo companhia.


– Você vai estudar em qual escola? Talvez seja na mesma que eu, assim a gente se vê de novo. – Perguntou Vivian, seus olhos brilhavam. Ela adorava fazer amizades, e algo dizia para ela que devia persistir em Kristen.


– Ah.. E-Eu estudo em casa. – Respondeu ela, envergonhada pelo fato de não ir a escola.


– Sério? Legal! Bom, então você pode brincar comigo e com os meus irmãos amanhã, o que acha? – Vivian estava sempre sorrindo, como se nada a abalasse. Kristen achava isso incrível, e queria ter a mesma confiança que ela tinha.


– Eu posso tentar… – Disse Kristen, era provável que ela não poderia sair, mas não queria desapontar a menina que fez o convite com tanto entusiasmo.


– Está bem, até amanhã, Kristen. – Disse Vivian, Kristen acenou enquanto ela dava passos rápidos até sua casa, seu vestido era verde claro, e balançava conforme ela se movia, aquela garota havia despertado sentimentos nela que ela não acreditava existir.


Após Vivian ir embora, Kristen se sentou e observou o céu por mais alguns minutos, pensando sobre como foi bom ter saído de lá e ter conhecido alguém. Ela queria manter isso, sair mais, conhecer pessoas, mas ainda tinha medo de não aceitarem o que ela é, e o maior problema era Bárbara, que plantava ideias na cabeça de Kristen que eram difíceis de tirar. Mesmo assim, uma parte dela queria se arriscar, queria fugir, queria viver.


Notas Finais


Eu espero de coração que vocês tenham gostado pelo menos um pouquinho <3 E também espero que tenham curtido a ideia de fazer um flashback contando a vida deles no passado, acho que vai ser bem esclarecedor. Obrigado por ler o/


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