História Doce Vingança - Capítulo 8


Escrita por: ~

Postado
Categorias Harry Potter
Personagens Alvo Dumbledore, Draco Malfoy, Harry Potter, Lucius Malfoy, Narcissa Black Malfoy, Sirius Black
Tags Drarry
Exibições 104
Palavras 5.078
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Estupro, Gravidez Masculina (MPreg), Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Então... Mais um capítulo novinho para vocês!!!

Capítulo 8 - Capítulo 07


Draco fizera 18 anos. Estava no tranqüilo consultório, em tons pastéis, do Dr. Newt Scamander, uma das maiores autoridades em distúrbios de comportamento no país. Era seu aniversário, mas ele não sentia qualquer alegria, qualquer ânimo. Além da janela, estendia-se um vasto gramado cruzado por caminhos de lajotas, pelos quais pessoas andavam ou eram empurradas em cadeiras de rodas por serventes e enfermeiras de uniforme branco. Havia uma cerejeira em flor e uma sebe ornamental de azaleias. Ele podia ver abelhas pairando sobre as flores, e depois se afastando, cheias de néctar. O sol refletia-se na água da banheira de passarinho, feita de mármore, mas os tordos e pardais que faziam ninho no bosque de carvalhos próximo não se sentiam tentados hoje.

Através da janela, além do gramado e das árvores, ele podia avistar as sombras das Montanhas Catskills, ao norte. Ofereciam uma vista de abertura, de liberdade. Draco especulou se a sensação seria a mesma quando a janela fosse gradeada.

- Oh, mamãe ... - Ele encostou a testa no vidro por um momento, deixando os olhos se fecharem e os ombros arriarem. - Como chegamos a esse ponto?

Ele se empertigou no instante em que ouviu a porta se abrir. O Dr. Scamander entrou para deparar com um jovem calmo, um pouco magro, usando um tailleur azul-claro; com os cabelos presos no alto da cabeça, para aumentar a altura e a impressão de maturidade.

- Príncipe Draco... - Ele atravessou a sala, apertando a mão estendida. - Perdoe-me por deixá-lo esperando.

- Não foi muito tempo. - Para Draco, cinco minutos naquele lugar já era demais. - Queria me falar antes de eu levar mamãe para casa.

- Isso mesmo. Sente-se, por favor.

Ele indicou uma das bergeres que faziam com que o consultório parecesse uma sala de estar aconchegante. Havia uma mesinha redonda ao lado, antiga, toda esculpida, com uma caixa de lenços de papel em cima. Draco lembrou que usara os lenços de papel em sua primeira visita, dois anos antes. Agora, cruzou as mãos no colo e ofereceu um pequeno sorriso ao Dr. Scamander. Com o rosto de queixo comprido e olhos castanhos empapuçados, ele o fazia pensar num cachorro enorme e triste.

- Deseja um café ou um chá?

- Nada, obrigada. Quero que saiba o quanto me sinto agradecido por tudo o que fez por minha mãe... E por mim. - Quando o médico fez menção de descartar o assunto, como se não tivesse importância, ele ergue a mão. - Falo sério. Ela se sente bem em sua presença, e isso significa muito para mim. Também sei que fez mais do que devia para evitar que a imprensa tomasse conhecimento dos detalhes de sua doença.

- Todos os meus pacientes têm direito à privacidade. - O Dr. Scamander sentou-se, escolhendo a poltrona ao lado de Draco, em vez de ir para trás de sua mesa. - Meu caro, sei o quanto sua mãe significa para você e o quanto se preocupa com seu bem-estar. Eu gostaria que reconsiderasse a decisão de levá-la para casa.

Draco preparou-se para um golpe. Embora os olhos não se alterassem, os dedos se contraíram em seu colo.

- Está querendo dizer que ela teve uma recaída?

- Não, não foi isso. O progresso de Narcisa é satisfatório. A medicação e o tratamento fizeram muito para estabilizar sua condição. - Ele fez uma pausa, deixando escapar um longo suspiro – Não quero encher a conversa com termos, técnicos. Já ouviu todos antes. Também não quero subestimar a doença ou o prognóstico.

- Eu compreendo. - Draco resistiu ao impulso de se levantar e de andar de um lado para outro. - Dr. Scamander, sei qual é o problema de minha mãe. Sei também por que acontece e o que é preciso fazer para ajudá-la.

- Meu caro, a depressão obsessiva é uma doença muito difícil e angustiante... Para o paciente e para a família do paciente. Você já sabe muito bem, a essa altura, que as depressões e a hiperatividade podem ter inícios abruptos e recuperações repentinas. A reação de Narcisa, ao longo dos dois últimos meses, tem sido boa. Mas são apenas dois meses.

- Desta vez - lembrou Draco. - Nos últimos dois anos ela tem passado nesta clínica tanto tempo quanto em casa. Não havia nada que eu pudesse fazer até agora para mudar isso. Mas fiz 18 anos hoje, doutor. Para a lei, agora sou adulto. Posso assumir a responsabilidade por minha mãe, e é o que tenciono fazer.

- Ambos sabemos que você assumiu a responsabilidade por sua mãe há muito tempo. Admiro-o por isso mais do que posso dizer.

- Não há nada para admirar. - Desta vez Draco levantou-se. Precisava ver o sol, as montanhas. A liberdade. - Ela é minha mãe. Nada ou ninguém significa mais para mim. Ninguém sabe tanto quanto o senhor sobre a vida dela e a minha. No meu lugar, Dr. Scamander, poderia fazer menos?

Ele a estudou quando Draco virou-se para fitá-lo. Ele tinha os olhos muito claros, muito adultos, muito determinados.

- Eu esperaria que não. Você ainda é muito jovem, Príncipe Draco. E sua mãe pode precisar de cuidado constante e intensivo pelo resto de sua vida.

- Ela terá. Contratei uma enfermeira da lista de candidatas que me forneceu. Arrumei meus horários para que mamãe nunca fique sozinha. Nosso apartamento é num bairro sossegado, perto da residência do maior amigo, além de primo de mamãe.

- Amor e amizade, com toda certeza, desempenharão um papel importante na saúde emocional e mental de sua mãe.

Draco sorriu.

- Essa é a parte fácil.

- Ela terá de ser trazida até aqui para a terapia todas as semanas, pelo menos por enquanto.

- Darei um jeito.

- Não posso insistir que deixe Narcisa conosco por mais um ou dois meses. Mas tenho de recomendar com veemência, para seu próprio bem, tanto quanto por ela.

- Não é possível. - Porque respeitava o médico, Draco queria que ele compreendesse. - Prometi a ela. Quando a trouxe desta vez, jurei que a levaria de volta para casa na primavera.

- Não preciso lembrá-lo que Narcisa estava comatosa quando chegou. Não vai se lembrar dessa promessa.

- Mas eu me lembro. - Draco tornou a se adiantar, estendendo a mão. - Obrigada por tudo que fez e por tudo que tenho certeza que continuará a fazer. Levarei mamãe para casa agora.

O Dr. Scamander sabia que desperdiçava seu tempo em insistir. Segurou a mão de Draco um pouco mais.

- Telefone, mesmo que precise apenas conversar.

- Farei isso. - Draco teve medo de chorar de novo, como acontecera na primeira vez em que o encontrara. - Pode estar certo de que cuidarei muito bem dela.

- Mas quem vai cuidar de você? - especulou o médico, enquanto saíam para o corredor.

Ele foi andando a seu lado em silêncio. Era muito fácil lembrar outras visitas, outras caminhadas pelos largos corredores. Nem sempre fora tranquilo. Às vezes, houvera choro. Ou pior, muito pior, risadas. Na primeira vez em que fora hospitalizada, a mãe parecia uma boneca quebrada, os olhos arregalados e fixos, o corpo inerte. Draco tinha 16 anos, mas conseguira alugar um quarto num hotel a 30 quilômetros de distância, para poder visitar a mãe todos os dias. Três semanas haviam transcorrido antes que a mãe pronunciasse qualquer palavra.

Pânico. Draco sentiu uma pequena bolha de pânico percorrer seu corpo. Era o mesmo tipo de pânico que experimentara na primeira vez. Tinha certeza de que Narcisa morreria na cama estreita e branca, para pacientes de cuidados crônicos, cercada por estranhos. E, depois, Narcisa falara. Apenas uma palavra. Draco. Daquele momento em diante, a vida dos dois entrara em uma nova fase. Draco fizera tudo o que podia para que Narcisa recebesse o melhor tratamento. Tudo mesmo, inclusive escrever para Lucius e suplicar ajuda. Quando o pai recusara, ele encontrara outro jeito. Respirou fundo, ao virarem uma esquina no corredor. E continuava a encontrar outro jeito.

No Instituto Scamander, os pacientes não violentos tinham quartos espaçosos, mobiliados com a mesma elegância de uma suíte num hotel cinco estrelas. A segurança era discreta, ao contrário da ala leste, com suas grades de ferro, cadeados e vidro reforçado, onde Narcisa passara duas semanas angustiantes, no ano anterior. Draco encontrou-a agora sentada junto à janela de seu quarto, os cabelos loiros lavados e penteados para trás. Usava um vestido brilhante com uma borboleta de ouro presa na gola.

- Olá, mamãe.

Narcisa virou a cabeça rapidamente. O rosto, que controlara com todo cuidado, para o caso de uma enfermeira olhar, animou-se no mesmo instante. Ela conseguiu, com a habilidade de atriz que ainda lhe restava, esconder o desespero que sentia, enquanto se levantava e abria os braços.

-Dray!

- Você está maravilhosa.

Draco apertou-a com força, aspirando o perfume que a mãe usava. Por um momento, teve vontade de se aconchegar nos braços da mãe, ser criança de novo. Mas recuou, com um sorriso, para disfarçar a cuidadosa avaliação do rosto da mãe.

- Relaxada - murmurou ela, com algum alívio. - Eu me sinto muito bem, ainda mais agora que você está aqui. Já arrumei minhas coisas. - Era difícil evitar que o nervosismo transparecesse em sua voz. - Vamos para casa, não é?

- Claro que vamos. - Era a decisão certa, pensou Draco, enquanto acariciava o rosto da mãe. Tinha de ser. - Quer falar com alguém antes de partirmos?

- Não. Já me despedi de todo mundo.

Narcisa estendeu a mão. Queria sair dali, o mais depressa possível. Mas sabia que uma boa atriz fazia com que sua saída fosse em grande estilo, tanto quanto na entrada.

- Foi muita gentileza sua ter vindo, Dr. Scamander. Quero lhe agradecer por tudo.

- Cuide-se bem, e esse será todo o agradecimento de que preciso. - Ele pegou a mão de Narcisa entre as suas. - Você é uma mulher muito especial, Narcisa. E tem um filho muito especial. Eu a verei na próxima semana.

- Na próxima semana?

Narcisa contraiu o braço que envolvia o filho.

- Virá para a terapia - explicou Draco, tranquilizador. - Como paciente externa.

- Mas viverei em casa, com você.

- Isso mesmo. Eu a trarei de carro para as sessões. Poderá conversar com o Dr. Scamander sobre qualquer coisa que quiser.

- Está bem. - Ela relaxou o suficiente para sorrir. - Estamos prontos para ir embora?

- Só vou pegar sua mala. - Draco pegou a mala pequena. Depois, porque sabia que Narcisa precisava, tornou a segurar sua mão.

- Obrigada de novo, doutor - disse ele, enquanto saíam pelo corredor.

- Está um lindo dia. Foi maravilhoso ver todas as árvores cobertas de botões no caminho... Sem falar das flores.

Saíram para o sol. Uma fragrância delicada pairava no ar.

- Cada vez que venho de carro até aqui, fico pensando como deve ser agradável ter uma casa no campo. Obrigada, Hagrid. - O agradecimento foi para o motorista, que pegou a mala.  Draco entrou com a mãe no banco traseiro da limusine. - Mas depois voltou para Nova York, e não sei como as pessoas podem viver em qualquer outro lugar.

- Você é feliz lá.

Narcisa engoliu em seco quando a limusine partiu, afastando-se do instituto. Fuga. Estavam escapando de novo.

- Sempre gostei de Nova York, desde a primeira vez. Lembra-se daquela primeira tarde, quando você, Sirius e eu passeamos pelo centro? Achei que era o lugar mais fabuloso do mundo.

- Sirius estará esperando?

Sirius estava com as passagens. Iria encontrá-los no aeroporto.

- Ele disse que só vai aparecer mais tarde hoje. Está prestes a estrear uma nova peça.

Narcisa piscou, enquanto focalizava o rosto de Draco. Seu bebê estava crescido. E apenas seguiam para casa, em vez de fugirem de Lucius. Ninguém jamais magoaria Draco de novo.

- Fico contente que você tenha ficado com ele por algum tempo... Enquanto eu não estava bem. - Narcisa olhou pela janela. Draco tinha razão. Estava mesmo um lindo dia. Talvez o dia mais lindo que ela já vira.

- Mas estou melhor agora. - Ela deu um beijo rápido e risonho no filho. - Na verdade, nunca me senti melhor em toda minha vida. Mal posso esperar para voltar ao trabalho.

-Mamãe...

Ela sentia a adrenalina subir como as borbulhas de champanhe, rápidas e espumantes.

- Não comece a me dizer que preciso descansar. Já descansei o suficiente. Só preciso de um bom roteiro. - Narcisa cruzou as mãos, convencida de que havia um à espera. - É tempo de eu voltar a tomar conta do meu filho. Assim que se espalhar a notícia de que estou disponível, as ofertas vão começar a aparecer. Não se preocupe.

Narcisa parecia incapaz de conter o fluxo de palavras otimistas sobre os papéis que a aguardavam, os produtores que a convidariam para almoçar, as viagens que Draco e ela fariam juntos. Draco pouco falou. Conhecia aquele excitamento. O planejamento totalmente irrealista era tão sintomático da doença da mãe quanto as depressões profundas. Mas depois de testemunhar o sofrimento de Narcisa, era impossível sequer tentar destruir suas ilusões.

- Detestei pensar em você morando aqui sozinho - disse Narcisa, quando entraram no apartamento.

- Quase não tenho ficado sozinho. - Depois de largar a mala, Draco tirou o casaco de seu tailler. - Sirius passa mais tempo aqui do que em sua própria casa. Leva muito a sério o fato de você tê-lo escolhido para meu guardião.

A preocupação ressurgiu nos olhos de Narcisa. Sem o casaco, Draco parecia de novo uma criança. Vulnerável.

- Eu sabia que ele agiria assim. Contava com isso. Mas não temos mais com que nos preocupar. Sirius pode voltar a ser apenas minha amiga.

- Ah, mamãe... - Draco abraçou-a, balançando um pouco. - É tão bom ter você em casa!

- Meu bebê... - Narcisa pegou o rosto do filho entre as mãos, dando um passo para trás. - Só que você não é mais um bebê. Faz 18 anos hoje. Não esqueci. Ainda não pude arrumar um presente, mas...

- Já ganhei o presente, e adorei. Gostaria de vê-lo?

Satisfeita com o riso nos olhos de Draco, Narcisa disse jovial:

- Oh, querido, espero que seja de bom gosto!

-O melhor!

Ele levou Narcisa para a sala. Havia um retrato em cima da lareira. Narcisa tinha 22 anos quando fora tirada a foto em que o pintor se baseara. Estava no auge de sua beleza, com um rosto que fazia os homens estremecerem, olhos que os faziam acreditar. Era uma deusa usando as jóias de uma rainha. Em seu pescoço, O Sol e a Lua faiscavam. Fogo e gelo.

- Oh, Dray...

- Foi Dino Thomas quem pintou. É o melhor. Um pouco excêntrico e, sem dúvida, um tanto dramático, mas um mestre. Não queria entregar o quadro depois que ficou pronto.

- Obrigada.

- É meu presente - lembrou Draco, jovial. - A única coisa que eu mais queria era ter o original.

- O colar... - Narcisa passou a mão pelo pescoço, desceu-a para os seios. - Ainda me lembro da sensação de usá-lo, a noção de seu peso. Tinha magia, Dray.

- Ainda lhe pertence. - Draco olhou para o retrato e lembrou. De tudo. - Um dia você o terá de volta. Um dia ... - Narcisa sorriu, apreciando o momento.

- Farei melhor desta vez. Prometo. Sem bebida, sem pílulas, sem cometer os erros do passado.

- Era isso que eu queria ouvir.

Ele foi atender o telefone.

- Alô? Está bem. Pode mandar subir.

Draco desligou o telefone e fitou a mãe, ainda sorrindo.

- É a enfermeira. Já expliquei que o Dr. Scamander recomendou que mantivéssemos uma enfermeira, pelo menos temporariamente.

- Sei...

Narcisa virou as costas para o retrato e sentou-se.

- Por favor, mamãe, não fique assim.

- Não ficar como? - Narcisa deixou os ombros penderem. - Não quero que ela use um daqueles horríveis uniformes brancos.

- Falarei com ela.

- E não quero que fique me olhando enquanto durmo.

- Ninguém vai vigiá-la durante o sono, mamãe.

- Seria a mesma coisa que voltar ao sanatório.

- Não, não seria. - Draco estendeu a mão, mas Narcisa esquivou-se.

- Este é um passo para a frente, não para trás. A enfermeira é muito simpática, e acho que você gostará dela. Por favor, não... não resista ao tratamento.

-Tentarei.

E ela bem que tentou. Durante os dois anos seguintes, Narcisa lutou contra uma doença que parecia a todo instante dominá-la. Queria ser fone e saudável, mas era mais fácil, muito mais fácil, fechar os olhos e resvalar para a maneira como as coisas haviam sido ou, melhor, para a ilusão da maneira como as coisas poderiam ter sido. Quando renunciava ao controle, ela imaginava que se encontrava entre trabalhos, um filme sendo editado, um novo roteiro sendo avaliado. Podia flutuar por dias na euforia da realidade que criava em sua mente.

 Gostava de pensar em Draco como um jovem socialite feliz, sem a menor preocupação no mundo, passando pela vida com a riqueza e prestígio com que nascera. Até que de repente o mundo virava pelo avesso, agitava-se irrequieto por um terreno intermediário, deixando-a atolada numa depressão tão profunda, tão desesperada, que perdia a noção dos dias. Imaginava-se de volta no harém, com os mesmos cheiros, uma claridade mínima, as horas intermináveis de calor e frustração. Acuada, ouvia Draco chamar, suplicar, mas não conseguia encontrar energia para responder. Vezes sem conta lutava para voltar; e, em cada ocasião, era mais difícil, mais doloroso.

- Feliz Natal!

Sirius entrou, com um casaco de lince russo nos ombros, os braços cheios de caixas, embrulhadas com papel prateado. Draco levantou-se de um pulo para pegar as caixas. Olhou para o casaco com uma mistura de inveja e divertimento.

- Papai Noel chegou mais cedo este ano?

- É apenas um presentinho para mim por uma temporada de oito meses de sucesso em Windows. - Ele tocou na gola antes de tirar o casaco e largá-lo em cima de uma cadeira. - Cissa, você está maravilhosa.

Era uma mentira, mas gentil. Ainda assim, Sirius achou que a prima parecia melhor do que em qualquer outra ocasião das últimas semanas. A palidez era menos acentuada. Draco contratara uma cabeleireira para pintar e arrumar os cabelos de Narcisa naquela tarde. Pareciam quase tão cheios e lustrosos quanto no passado.

- É doce de sua parte ter vindo. Sei que deve ter sido convidado para uma dúzia de festas.

- Variando das detestáveis às chatas. - Com um suspiro, Sirius arriou no sofá. Esticou as pernas ainda firmes e bem torneadas. – Sabe muito bem que não há ninguém com quem eu prefira passar o Natal em vez de você e Dray.

- Nem mesmo com Kingsley Shacklebolt? - indagou Narcisa, conseguindo exibir um sorriso.

- Isso já é notícia antiga, querida. - Também sorrindo, ele esticou os braços por cima do encosto do sofá. - Cheguei à conclusão de que Kingsley era sério demais.

Sirius sentiu Draco às suas costas e ergueu a mão.

- Você se superou com a árvore este ano.

- Queria uma coisa especial.

Draco pegou a mão estendida. Sirius sentiu a vibração dos nervos.

- E deu certo. - Sirius examinou o pinheiro. Em cada galho havia ornamentos pintados à mão diferentes. Elfos dançavam nos galhos, renas voavam, anjos cintilavam. - São os ornamentos que você havia encomendado para a campanha das crianças que são vítimas de maus tratos?

- Isso mesmo. Acho que ficaram muito bons.

- E parece que você mesmo comprou todos.

- Nem todos. - Draco, rindo, foi endireitar um ornamento que tinha o formato de uma lágrima. - Mas o projeto superou os objetivos. O sucesso foi tão grande que estou pensando em transformá-lo num evento anual.

Satisfeito, ele virou-se. Atrás, as luzes da árvore piscavam. - Que tal um eggnog?

Draco sabia que Sirius gostava muito do drinque típico do Natal.

- Leu meus pensamentos, meu querido. – Sirius tirou os sapatos. - Será que o Sr. Dobby ainda tem aqueles biscoitos especiais das festas?

- Ele preparou uma fornada esta manhã.

- Pode trazê-los também. - Sirius passou a mão pela barriga. - Renovei minha matrícula na academia.

- Volto num instante.

Draco lançou um olhar preocupado para a mãe antes de deixar a sala, apressado.

- Draco espera por neve. - Narcisa olhou pela janela, deixado que as lâmpadas coloridas que Draco pendurara na moldura ofuscassem sua visão. - Lembra-se daquele primeiro Natal, antes de nossa partida para Hollywood? Jamais esquecerei a expressão de Draco quando acendemos a árvore.

-Nem eu.

- Há muito tempo eu dei para ele uma dessas pequenas bolas de vidro que criam uma nevasca quando são sacudidas. Gostaria de saber o que aconteceu com o presente. - Distraída, Narcisa esfregou as têmporas, preocupada e com dor-de-cabeça. Parecia tê-las constantemente. – Seria ótimo se Draco saísse esta noite, na companhia de jovens.

- O Natal é melhor quando se passa com a família.

- Tem razão. - Narcisa sacudiu os cabelos, determinada a ser alegre. - Ele anda muito ocupado com as obras de caridade e as festas. E também passa horas no computador. Não tenho a menor ideia do que ele faz, mas isso o deixa feliz.

- Agora, seria ótimo se pudéssemos juntar nossas cabeças e promover seu casamento com um homem maravilhoso e de uma beleza fantástica.

Com uma risada, Narcisa abriu os braços.

- Seria sensacional, não é mesmo? Não demoraria muito para termos netos.

- Fale por você. - Sirius alteou uma sobrancelha, enquanto batia com o dorso da mão sob o queixo. - Sou jovem demais para me tornar avô.

- A alegria do Natal? - Draco voltou à sala, com uma bandeja grande. - Do que vocês dois estão soltando risadinhas?

- Risadinha é pouco distinto - ressaltou Sirius. - Sua mãe e eu estamos partilhando um riso sofisticado. Oh, Deus, esses biscoitos são Snickerdoodles?

- Apenas o biscoito certo para o paladar sofisticado.

Draco ofereceu o biscoito, depois serviu o eggnog, temperado penas com noz-moscada.

- A outro Natal com minhas duas pessoas prediletas.

- E a dezenas de outros - acrescentou Sirius, enquanto tomava um gole.

Dezenas de outros. As palavras ressoaram na mente de Narcisa, zombeteiras. Ela forçou um sorriso e levou o copo aos lábios. Como podia celebrar o pensamento de anos, quando cada dia era um tormento para viver? Mas Draco não devia saber. Narcisa deslocou os olhos e percebeu que o filho a observava, com um princípio de preocupação no rosto. Conseguiu exibir seu sorriso mais exuberante, embora a mão tremesse um pouco quando largou o copo.

- Devemos ouvir alguma música.

Narcisa entrelaçou os dedos trêmulos. Mesmo quando Draco levantou para ligar o som, ela não relaxou. Tinha a sensação de que centenas de olhos a observavam, esperando que cometesse qualquer erro. Se tomasse um drinque, apenas um, então o latejamento na cabeça cessaria e poderia pensar com clareza.

- Cissa?

- O que é?

Ela teve um sobressalto, apavorada. Sirius lera seus pensamentos. Sirius sempre via demais, queria demais. Por que todos queriam tanto?

- Perguntei o que achava dos planos de Draco para a festa de caridade no Réveillon. - Preocupada, Sirius inclinou-se para apertar a mão da amiga. - Não acha que é maravilhosa a reputação que Dray está adquirindo como organizador?

-É sim.

Silent Night ... Não era Silent Night que estava tocando no rádio? Narcisa lembrou que ensinara a canção a Draco há muito tempo, nos aposentos quentes e silenciosos em Hogwarts. Era um segredo entre os dois. Tinham muitos segredos. E continuavam a ter segredos agora. Tudo é calmo, tudo é alegre... Ela tinha de se manter calma, porque todos a observavam.

- Tenho certeza de que será um sucesso sensacional.

Sirius olhou para Draco, os dois trocando uma mensagem

- Estou contando com isso.

Num hábito antigo, ele sentou-se junto de Narcisa e pegou sua mão. Num dia bom, esse pequeno contato era tudo de que a mãe precisava.

- Esperamos levantar cerca de 200 mil dólares para os desabrigados. Mas tenho me preocupado com a ideia de que um baile de gala, com um jantar, champanhe e trufas não é o mais apropriado para ajudar os desabrigados de Nova York.

- Qualquer coisa que levante dinheiro para uma boa causa é apropriada - argumentou Sirius.

Draco lançou um sorriso rápido para Sirius, sem qualquer humor, antes de olhar para Narcisa.

- Acredito nisso. E acredito com toda a sinceridade. Quando o fim é bastante importante, mais do que justificam os meios.

- Estou cansada. - Se a voz parecia petulante, Narcisa não se importava. Queria escapar dos olhos vigilantes, das expectativas não mencionadas. - Acho que vou me deitar.

- Subirei com você.

- Não precisa.

A reação de Narcisa foi de irritação, que se desvaneceu no instante seguinte, quando viu o rosto do filho.

- Fique aqui com Sirius e apreciem a árvore de Natal. - Ela abraçou Draco, apertando-o com força. - Até amanhã, querido. Vamos levantar cedo e abrir os presentes, como fazíamos quando você era pequeno.

- Está bem. - Draco virou o rosto para um beijo, tentando ignorar o fato de que o corpo outrora vigoroso de Narcisa parecia agora muito frágil.

- Eu amo você, mamãe.

- Feliz Natal, Six.

- Feliz Natal, Cissa. - Sirius roçou os lábios pelas faces de Narcisa. Depois, num súbito impulso, abraçou-a. - Durma bem.

Narcisa encaminhou-se para a escada. Parou, antes de subir, e olhou para trás. Draco estava por baixo do retrato, o retrato de Narcisa Black no auge da beleza e juventude, sob o poder e a glória de O Sol e a Lua.

Com um último sorriso, Narcisa virou-se e subiu os degraus.

- Que tal mais um eggnog?

Sirius pegou a mão de Draco antes que alcançasse a tigela de ponche.

- Sente-se, meu bem. Não precisa ser forte para mim.

Era angustiante observar. Camada por camada, grau a grau, o controle de Draco desmoronou. A princípio foi apenas um tremor nos lábios, uma turvação dos olhos. A força desmanchou-se em desespero, até que ele se sentou, baixou o rosto para as mãos e chorou.

Sem dizer nada, Sirius sentou-se a seu lado. A criança não chorava o suficiente, refletiu ele. Havia ocasiões em que as lágrimas ajudavam mais do que palavras de estímulo ou braços confortadores.

- Não sei por que estou fazendo isso.

- Porque é melhor do que gritar. - Não havia uma única gota de bebida alcoólica na casa, nem mesmo um pouco de conhaque medicinal. - Vou fazer um chá.

Draco esfregou os olhos.

- Não precisa. Estou bem. - Ele recostou-se, fazendo um esforço deliberado para relaxar. Ensinara-se a aliviar a tensão dos braços e pernas, da mente, do coração. Era uma questão de sobrevivência. - Acho que não estou me sentindo muito festivo.

- Gostaria de conversar com um amigo?

Com os olhos fechados, Draco pegou a mão de Sirius.

- O que faríamos sem você?

- Não tenho sido de muita ajuda ultimamente. Nos últimos meses, a peça absorveu a maior parte do meu tempo e energia. Mas estou aqui agora.

- É muito difícil observar. - Draco manteve a cabeça baixa. As lágrimas haviam sido uma indulgência que ele não compreendera que precisava. Mas era bom sentir-se vazio. - Conheço os sinais. Ela está vagueando de novo. Bem que tenta. Quase que é pior saber o quanto ela se esforça. Há semanas que vem lutando contra a depressão... e está perdendo a batalha.

- Cissa ainda procura o Dr. Scamander?

- Ele quer hospitalizá-la de novo. - Impaciente, Draco levantou-se. Não queria mais saber de auto compaixão. - Concordamos em esperar até o início do ano, porque as festas sempre foram muito importantes para mamãe. Mas, desta vez...

A voz definhou. Draco olhou para o retrato, antes de acrescentar:

- Vou levá-la depois de amanhã.

- Sinto muito, Dray.

- Mamãe tem falado sobre ele. - Havia tensão na voz de Draco, o que fez Sirius compreender que ele se referia ao pai. - Por duas vezes, na semana passada, encontrei-a chorando. Por ele. A enfermeira do dia me contou que mamãe perguntou quando ele viria. Queria arrumar os cabelos para ficar bonita para ele.

Sirius reprimiu uma imprecação.

- Ela está confusa.

Com uma risada, Draco olhou para trás.

- Confusa? Isso mesmo, ela está confusa. Há anos que vem tomando drogas para evitar que as emoções caiam muito fundo ou se projetem alto demais. Já foi amarrada e alimentada por tubos. Passou por estágios em que não podia sequer se vestir, enquanto em outros momentos era capaz de dançar pelo teto. Por quê? Por que ela está confusa, Sirius? Por causa dele. Tudo por causa dele. E juro que um dia ele ainda irá pagar pelo que fez com mamãe.

O ódio frio nos olhos de Draco deixou Sirius preocupado.

- Sei como ela se sente. - Como Draco sacudisse a cabeça, Sirius insistiu: - Claro que sei. Também a amo, e me angustia pensar no quanto ela sofreu. Mas concentrar-se em Lucius, em algum tipo de vingança, não é bom para você. E não vai ajudá-la.

- Quando o fim é muito importante, mais do que justificam os meios - repetiu Draco.

- Você me preocupa quando fala assim. - Embora detestasse tomar o partido de Lucius, Sirius achou que era o mais acertado no momento. – Sei que ele causou a maior parte dos problemas de Cissa, mas compensou um pouco nos últimos anos, cuidando para que houvesse dinheiro suficiente para seu tratamento e subsistência.

Em silêncio, Draco virou-se para o retrato. Ainda não era o momento de contar a Sirius que tudo aquilo era mentira. Sua mentira. Nunca houvera qualquer centavo de Lucius. Mais cedo ou mais tarde teria de dizer, mas, por enquanto, não tinha certeza se Sirius seria capaz de aceitar a verdade sobre a proveniência do dinheiro.

- Há apenas um pagamento que ele pode fazer para me deixar satisfeito. - Draco cruzou os braços, para se proteger de um súbito calafrio. - Prometi a ela que um dia teria seu colar de volta. Quando eu tiver O Sol e a Lua, quando ele souber o quanto o detesto, aí eu posso considerar que estamos quites.


Notas Finais


É, nosso Dray está crescendo!!!
O que vocês acharam?


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