História Don't Go - Capítulo 11


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens Baekhyun, Chanyeol, D.O, Kai, Lu Han, Personagens Originais, Sehun, Xiumin
Tags Chanbaek Baekyeol
Visualizações 255
Palavras 8.080
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Famí­lia, Lemon, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Bem, eu achei que iria atualizar na sexta mas acabou não dando certo (por motivos óbvios, cof8kcof) então vim hoje com a cara e muita preguiça neste final de domingo. Quem ai tá animadxs para segunda? Ninguém? nem eu, rs.

Sem mais delongas... bom capítulo e aproveitem bastante esses 8k tanto quanto eu gostei de escrever.

PS: Amanda disse que esse capítulo tá meio triste... então preparem os lenços (?) não sei, não achei ele triste q.

Até as notas finais! yey

Capítulo 11 - 10. navegando em mares desconhecidos


"Por causa do peso acima da sua cabeça seu rosto é sombrio, dê água a sua murcha flor do sorriso. Em vez de chorar, mostre seu sorriso caloroso; não esconda-o por trás dessas cortinas, mostre seus dentes porque há uma luz dentro de você. Na escuridão, sorria."

( Winner – Smile Again)

 

 

 

 

 

 

 

 

Na madrugada eu tive um sonho, no entanto, não sei se realmente pertence a mim. No cenário, eu corria o mais rápido que meus pés poderiam me levar, pisando em chão de terra batida e com inúmeros cortes que manchavam toda a minha pele.

 

Meus pulmões pareciam queimar enquanto meus ossos pareciam quebrar ao meio. Era tudo tão escuro, tão claustrofóbico e havia aquela sensação de peso no meu peito, a mesma que fazia meu coração acelerar ao ponto de doer.

 

Não havia paz ou alívio. Tentava despertar mas era quase impossível, algo intenso parecia me puxar para toda aquela escuridão. Quase como se algo esperasse que eu ficasse apenas para ver o desfecho.

 

Então veio a paz, veio a calmaria que ansiava seguido de um choro baixinho e infantil ao meu lado, uma voz quebradiça e preocupada.

 

Baek? — EunJi me chamava ao longe. — Pai?

 

E juro que me esforcei para acordar, para sair daquele pesadelo enlouquecedor... e as mãos frias em meu rosto foram o estopim para eu despertasse sobressaltado na cama, suando bem mais do que alguns minutos na academia, com a cabeça tão pesada ao ponto de achar que iria explodir a qualquer momento.

 

— EunJi? — Pergunto ainda tentando me situar no ambiente, sentindo minha garganta arranhar por falta de lubrificação. — Você está chorando?

 

— Não! — Ela balança a cabeça rapidamente e tenta esconder as poucas lágrimas que agora cessaram. — Garotas grandes não choram.

 

— Não, meu bem, isso é uma mentira. Todo mundo chora. — Digo sorrindo, ou ao menos penso que é isso ao sentir meus lábios se alargando. — Sabe de um segredo? Apenas pessoas fortes conseguem chorar.

 

A cabeça dela pende para um lado e seus lábios formam um meio sorriso acompanhando de um furinho na bochecha esquerda, então me dou conta de como ela parece com ChanYeol a cada dia; os olhos expressivos, o sorriso fácil e o bom humor, por isso me pergunto se não existe qualquer semelhança entre ela e Sandara, talvez a personalidade ou os cabelos, a cor dos olhos ou apenas uma característica que lembre a mãe.  

 

— Por quê a tia Hyennie foi embora? — Ela pergunta mudando de assunto.

 

Estamos deitados frente a frente, sendo iluminados apenas pelo pequeno abajur ao lado da cama deixando todo o ambiente com uma luz amarela. Os olhinhos dela estão na expectativa por uma resposta.

 

— A tia tem a casa dela e precisava voltar. — Respondo, meus olhos começam a pesar um pouco e acabo soltando um bocejo. — Você queria algo com ela?

 

— Só pensei que ela iria dormir aqui. — Diz dando de ombros e sorrindo. — Baek, está com sono?

 

Não. — Nego com a cabeça, mas meus olhos insistem em fechar. — Quer conversar um pouco? Como está indo na escola?

 

EunJi está com as duas mãos embaixo da bochecha, formando um bico fofo, as sobrancelhas estão juntas e parece que a qualquer momento irá sair fumaça de sua cabeça de tanto pensar. É nesse momento em que me sinto o cara mais sortudo do mundo, as pessoas geralmente me dizem que sou um cara de sorte por poder pagar um apartamento legal, ter um bom emprego e uma namorada bonita. Mas, eu nunca realmente tive sorte na minha vida ou um lar para chamar de meu. Sim claro, eu tenho uma casa, mas não um lar.

 

No entanto, é nesses momentos que lembro o que me faz realmente feliz e pleno. É todo o mau humor de KyungSoo que faz minhas inseguranças desaparecerem, é a risada gostosa de Kim Jongin ao implicar com o companheiro, existem também os abraços que mamãe sempre me dá quando passo um tempo fora, os beijos que troco com HyeRan e acima de tudo, é ter EunJi repousando tranquilamente ao meu lado.  

 

Dizem que só sabemos o que é amor de verdade quando nos tornamos pais, eu acredito fielmente.

 

— Baek? — Ela me chama depois de minutos em silêncio, pelo tom baixo e manhoso posso ter certeza que boa coisa não iria vir. — A minha mãe não me ama?

 

E todo sono que antes insistia em me fazer fechar os olhos desaparece como em um passe de mágica, dando lugar a um nervosismo deselegante e cheio de medos. Engulo em seco o que parece ser um mar inteiro de saliva, sinto meu coração apertar de uma forma diferente dessa vez imaginando como deve ser confuso e ao mesmo tempo frustrante para uma criança ter tudo e nada. O que minha filha queria era algo simples, sem precisar de bons brinquedos e a boa escola que agora frequenta, tudo o que EunJi mais ansiava, e precisava, era uma mãe. Uma mulher que estivesse sempre perto, dando calor e atenção que apenas uma mãe poderia dar.

 

— Eu tenho certeza que ela te ama mais que tudo na vida, meu anjo. — Respondo de forma tranquila, aninhando-a em meu peito como quando era apenas um bebê — Mas sabe, filha? As vezes nem tudo o que desejamos podemos ter. Eu tenho certeza absoluta que o maior desejo da sua mãe é poder te encontrar, te encher de beijos e muito, muito amor, no entanto, não é possível agora.

 

— Então porque ela não me quis? — Ela me pergunta um pouco irritada. — Por que ela não pode vir agora?

 

— Quem te disse isso, amor? Que a mamãe não te quis... foi seu pai? — Pergunto com um fio de voz temendo a resposta.

 

— Algumas meninas maiores... — Falou incerta. — Elas disseram que eu era um estorvo para minha mãe e por isso ela tinha me largado no lixo.

 

— Anjo, como você pode acreditar em mentiras assim? Essas meninas não sabem nem o que estorvo quer dizer. — Respondo um pouco aliviado, mas com a certeza de que ChanYeol deveria ir até a escola tomar providências em relação a esse tipo de comentário. — A sua mãe não te largou no lixo, esqueceu? Ela me deixou cuidando de você enquanto não poderia fazer isso ela mesmo.

 

Eu também não sei o que isso quer dizer... — Ela forma um biquinho em minha direção. — Você sabe o nome da minha mãe?

 

Penso por alguns segundos, quer dizer, dessa vez realmente penso em tudo. Se era certo me meter tanto assim na relação daqueles dois, o que poderíamos esperar e o principal, como EunJi iria reagir se algum dia chegasse a conhecer sua mãe , ela de verdade e não um disfarce.

 

Pode ser culpa da empatia ou diabos seja lá como chamem isso, acredito que Sandara sinta falta da filha ou então não teria sentido ter se arriscado tanto no dia do parque. Dava pra ver em seus olhos a felicidade e o orgulho a cada instante em que olhava para a pequena Park.  

 

Céus! É tudo tão complicado.

 

— Você nunca perguntou isso ao seu pai ChanYeol? — Pergunto delicadamente, o qual recebi uma negativa. — Por quê?

 

— Papai fica triste se eu pergunto por ela.  

 

Claro, às vezes Park ChanYeol consegue ser ainda mais sentimental que uma criança que acaba de perder o doce preferido.

 

— Seu pai é um sentimental! — Digo sorrindo de lado e remexendo em seu cabelo. — Filha, você quer conhecer sua mãe?

 

EunJi encolhe em meu peito, algumas vezes negando com a cabeça e outros apenas afirmando. Conseguia entender toda confusão que se mantinha em seus pensamentos, algumas vezes era uma situação insustentável até mesmo para adultos, então imagine para uma criança. Era injusto esperar que ela conseguisse digerir tudo o que estamos sempre empurrando para que ela sempre aceite e nem ao menos informamos o tipo de mudança que irá passar novamente.

 

Seria essa uma nova maneira de torturar uma criança? Pois se for, quero que acabe agora.

 

— E se ela não me amar?

 

— Isso é impossível, meu anjo. Você é a garotinha mais linda e amada de todo mundo, okay? — Beijo o topo de sua cabeça. — Não esqueça disso, seus dois pais te ama mais que tudo, seus tios e tia, também tem seu vovô e suas vovós.

 

— Mas ela é minha mãe, Baek! — Fala como se fosse óbvio seu ponto de vista. — E se eu não for uma boa filha e ela me deixar de novo?

 

— Você terá sempre a mim, EunJi, e ao seu pai ChanYeol também. Não é a mesma coisa, mas não vamos deixar que nada de ruim aconteça.

 

— Baek? Eu amo você. — Ela abraça minha cintura. — E amo meu pai Channie também.

 

— Eu amo você, Eunnie.

 

 

 

***

 

 

O dia havia começado com Ji HyeRan batendo na porta do meu apartamento com um café da manhã dos deuses escondido em três sacolas de super mercado em mãos. No dia anterior não chegamos a conversar realmente sobre a aparição de ChanYeol, o que não era muito necessário já que não foi uma visita muito longa quando ele até mesmo se recusou a comer pizza.

 

Mas rolava aquele clima estranho, sabe? De quando os dois estavam no mesmo ambiente, aquele clima pesado e uma áurea roxa tomando todo o ar e tornando impossível respirar normalmente.

 

Eu me sentia totalmente impotente e culpado ao ter que lidar com HyeRan sempre escondendo seus ciúmes, o que deixava tudo desconcertante ao lembrar das inúmeras brincadeiras que ela fazia no começo ao lado de KyungSoo, quase como se... quase como se realmente pudessem acontecer. Mas não era possível.  

 

Ela seguiu até a cozinha com um sorriso logo após de selar meus lábios rapidamente, sendo seguida por uma EunJi sonolenta ainda de pijamas prometendo que iria ajudar a preparar o café. A essa altura, já tinha tomado banho e andava no meio da casa com os pés descalços e roupas leves, sentado na banqueta que ficava no balcão da cozinha levei meu tempo apenas em ver como ela ensinava minha filha a como cozinhar ovos e fazer torradas deliciosas.

 

— Tudo bem? —  Ela me pergunta sorrindo enquanto ajuda EunJi a terminar de misturar a massa de panquecas.

 

— Tudo ótimo. — Respondo sorrindo, descansando o queixo na mão. — Foi uma noite movimentada.

 

— Movimentada? — Sua sobrancelha é arqueada. — O que aconteceu?.

 

— Um pesadelo, apenas. — Dou de ombros.

 

Era o limiar para algo realmente grande, conseguia sentir isso em cada veia do meu corpo, pulsando forte e queimando um pouco da calmaria que tinha.

 

— Podemos ir ao parque mais tarde? — EunJi pergunta com o rosto todo sujo de farinha. — Alimentar os pássaros!

 

— É uma boa ideia.

 

Concordo com a cabeça, bem ciente de que não poderia recusar.

 

 

***

 

 

Com a agitação de EunJi acabamos não fazendo o almoço e apenas seguindo ao  parque para almoçar lá mesmo e aproveitar a tarde.  

 

Com a aproximação do inverno as plantas iam perdendo seu verde vivo e dando lugar a cores que representavam o outono, com todos aqueles tons intensos e vibrantes pendurado em cada árvore e até mesmo nas peças de roupas que acompanhavam as tendências da estação.

 

Era 15:30h e HyeRan estava sentada ao meu lado no banco observando uma EunJi que brincava na grama ao lado com algumas bonecas, sua cabeça fazia peso em meu ombro enquanto descansava, a respiração dela batia quente em minha pele fazendo cócegas.

 

— Isso tudo é muito surreal. —  A Ji sussurra depois de algum tempo com alegria contida na voz. —Nós dois, a EunJi, esse dia. Eu sinto como se fôssemos uma família.

 

— E somos! — Respondo abraçando-a de lado. — Não de um jeito tradicional, mas somos sim.

 

Garotinho sonhador. — Seus olhos me encaram enquanto ela responde baixinho. — Sabemos como a banda toca aqui, Baek.

 

— Não somos passageiros.

 

— Somos exatamente isso, BaekHyun. Passageiros da própria vida, da própria vontade... — Ela enumera voltando a deitar a cabeça em meu ombro. — Um dia, você irá me dá razão. Apenas me prometa que será sincero quando chegar a hora. Ninguém controla o próprio destino, mas temos uma pequena noção do que pode acontecer, e eu sou uma telespectadora enquanto você é o protagonista, vejo detalhes que ninguém mais consegue notar.

 

— Você está insinuando o Park? — Pergunto desviando minha atenção para o topo da árvore.

 

— Estou insinuando tudo. — Ela responde simplista. — Embora eu morra de ciúmes do Park e me arrependa mortalmente de todas as brincadeirinhas que fiz junto de KyungSoo em relação aos dois. Simplesmente não posso negar essa atmosfera que nos envolve, sabe? Eu acredito em algo superior e tudo o que aconteceu ou vai acontecer tem um motivo e não me cabe questionar.

 

O foda de tudo era que a minha mente gritava traidor a cada palavra proferida por ela. Não por simplesmente querer negar tudo o que estava sendo dito, mas sim, por não saber como negar quando na realidade fazia todo sentido.

 

Eu não poderia negar que me sentia estranho e muito menos esconder por tanto tempo o tropeço que foi quando me deixei levar por Park ChanYeol e o seu "beijo" no carro. No entanto, à medida que era confuso para ela, não era mais fácil para mim.

 

— Eu não quero ser passageiro, HyeRan. — Digo, agora olhando para EunJi. — Eu quero ser uma constante.

 

— Você pode ser minha constante.

 

Não, eu não posso.  

 

E uma hora tudo iria voltar em dobro para castigar todos os meus pecados atuais.

 

— Baek? Meu pai não ligou? — EunJi me surpreende. — Ele disse que ia ligar assim que chegasse lá.

 

Ela está com os braços cruzados na frente do peito, em cada mão uma boneca, com um bico enorme na boca enquanto me encara impaciente. Seus jeans estão sujos de areia e a blusa manchada do sorvete que tomou mais cedo, as duas tranças que fiz mais cedo estão bem soltas e quase se desfazendo.

 

— O que aconteceu com você? — Pergunto surpreso. — Parece que foi engolida pelo deus da terra.

 

— Eu tava' brincando. — Responde o óbvio. — Meu pai ligou, Baek?

 

— Não, amor, seu pai não ligou.

 

Ela chuta a terra levantando poeira para o próprio rosto, terminando de sujar os tênis agora encardidos. A sua frustração é bem visível com a enorme ruga que surge entre suas sobrancelhas e os olhos vermelhos e brilhosos por causa das lágrimas contidas.

 

— Ele não vai voltar? — Sua voz é quebradiça mas ela não se permite chorar. — É isso, não é? Meu pai ChanYeol não vai voltar.

 

— É claro que seu pai vai voltar, Eunnie. — Quem responde é HyeRan tomando as rédeas da situação diante da minha falta de reação. — O telefone dele não deve funcionar lá e por isso não foi possível ele ligar ainda.

 

— Você acha, tia?

 

— Sim! Que tal fazermos assim... — Ela se levanta batendo na calça jeans para tirar a poeira e em seguida erguer uma mão na direção de EunJi. — Vamos ali comprar outro sorvete e um cachorro quente, enquanto isso o Baekkie tenta ligar para o seu papai.

 

A pequena Park segura suas mãos ainda incerta, mas a segue de bom grado quando me ver concordar minimamente com a cabeça. Suspiro pesadamente quando vejo as duas em uma distância considerável e pego o aparelho esquecido no bolso até então. Minha garganta fecha ao notar uma mensagem de texto ChanYeol no visor, seguida de três ligações perdidas de Yoora.

 

Meus dedos voam no ecrã, primeiramente para abrir a mensagem de texto do gigante.

 

De: O pai da EunJi. [13:03h]

 

Eu sinto que não pertenço a lugar algum, a minha vida toda parece ser feita de passos dados em círculos. Eu... Eu achei que tinha encontrado o meu caminho, mas, é apenas de fraqueza que meu corpo é feito.  Você me entende? Você não poderia me julgar, não é mesmo? BaekHyun, se eu colocar um fim nisso a paz finalmente vai acontecer? Eu disse a mim mesmo que não iria te meter nisso, mas é tão difícil quando tu é um dos primeiros pensamentos que tenho. O carinha acabou de colocar moondust para tocar e isso é tão fodido da parte dele... Eu vou... Eu vou enterrar meu amor, BaekHyun.

 

 

Deus! ChanYeol não fazia sentido algum nessa mensagem de texto, a sua confusão acabou me atingindo de uma maneira que me fez engolir a saliva várias vezes e apertar o peito na tentativa de fazer meu coração parar de acelerar tanto, de doer tanto...

 

Era aquele gostinho de tristeza desconhecida.

 

Movido pela raiva momentânea, acabei clicando no contato do pequeno bastardo e esperando até quase o último toque para ser atendido.

 

Eu não sei viver o estrago que o tempo faz¹... — ChanYeol fala assim que atende, o tom arrastado e quase embolado. — Você pode vim por mim? Me salvar do mundo?

 

— ChanYeol?

 

Olá, Esteban! — Ele gargalha do outro lado da linha. — Ops, você é o Baek!

 

Certeza número um: Park ChanYeol estava muito bêbado

 

Certeza número dois: a tristeza é uma merda.

 

— Cara, onde você está? — Pergunto baixo. — ChanYeol, o que aconteceu?

 

O mundo aconteceu, baixinho. Ele aconteceu quebrando meu coração, deixando-o em pedacinhos novamente. — Ele funga. — Os pedacinhos que passei anos para encontrar, sendo uma bagunça na maioria das vezes.

 

— ChanYeol, eu não tô' te entendendo.

 

BaekHyun... Você pode me encontrar?  

 

Deus, por que essas coisas só aconteciam comigo?

 

No outro ponto do parque HyeRan voltava com uma EunJi totalmente satisfeita comendo um grande sorvete de arco íris. E é por ela que tomo a decisão, talvez, mais idiota da minha vida.

 

— Onde você está? — Pergunto derrotado.

 

Eu estou em todos os lugares... — ChanYeol ri alto da própria piada. — Estou no barzinho perto de... Espera..  — Uma pausa e logo ao fundo escuto-o dizer “ei amigo, você sabe onde estou?” e logo um homem responde com o endereço. — Me encontrei!

 

Pelo que o carinha do bar diz, o idiota do Park está em um bar perto do centro da cidade. O que calculando de cabeça, seria uns quarenta minutos, ou seja, muito mais tempo para ChanYeol terminar de encher sua cara e entrar em coma alcoólico

 

Sabe um barzinho perto da estação de trem perto do centro da cidade que fica perto daquela loja de artigos para música...  — Ele volta a falar sem fazer sentido algum. — Então, você vai entrar nele e vai me encontrar sentado nos bancos do balcão, conversando com um cara muito simpático e bonito... — A voz dele agora é sussurrada e risonha. — Eu quero ir pra casa com ele, droga Baek, ele é muito gostoso e quente.

 

Revirei os olhos com a gargalhada muito alta que ele soltou, rindo ao ponto de engasgar.

 

— ChanYeol... — Suspiro pesadamente. — Apenas fique longe do rapaz e não beba mais nada. Por favor.

 

Se eu não chegar perto desse rapaz do bar, você promete me beijar mais tarde? Eu quero sentir meu coração acelerar como naquele dia do carro. — Ele faz uma pausa e ri baixinho. — Você acreditou quando eu disse que não tinha sentido nada.

 

— Park ChanYeol...

 

Me encontre, BaekHyun. Me encontre e eu te conto todos os meus segredos.

 

E a ligação fica muda, assim como eu fico quando as garotas estão voltando para ficar ao meu lado e perguntar o que aconteceu. Querendo ou não, tive que encontrar minha voz e explicar ao menos por partes o que estava acontecendo para HyeRan.

 

 

***

 

 

Depois de debater e tentar enfiar juízo na cabeça da Ji, acabei convencendo-a de voltar para minha casa com EunJi e esperar as notícias.  

 

O que eu não esperava de jeito nenhum era um Park ChanYeol muito sorridente e flertando descaradamente com o barman assim que entrei no bar. Ele nem mesmo tentava disfarçar suas mãos alisando o braço do homem enquanto mantinha aquele sorriso irritantemente enorme e estupidamente bêbado.  Acabei indo, com passos pesados demais, até onde o idiota estava.  

 

— Ah, céus! — Resmungo ao chegar perto o suficiente para escutar o final da cantada que ChanYeol  jogava para o rapaz. — Ei, Park.

 

Ele vira para onde estou, com os olhos vidrados e um pequeno sorriso de lado. Seu rosto está muito abatido, as olheiras roxas compõem todo esse visual acabado que o rodeia. Mesmo olhando-o fixamente durante tantos segundos, esse homem que estava a minha frente não parecia Park ChanYeol... não aquele que sempre tinha uma resposta afiada na ponta da língua ou apenas uma piada tosca para me fazer rir sem querer.

 

Esse homem que estava a minha frente parecia extremamente fragilizado e triste, com um sorriso quebrado nos lábios  e uma felicidade tão inalcançável, o brilho sem chegar aos olhos.

 

Definitivamente, esse não era o Park ChanYeol que aprendi aturar.

 

— Olá, Byun. — Responde com os olhos baixos, a língua molhando os lábios que pareciam ressecados. — Você veio. Você veio por mim.

 

— É o que parece. — Digo me aproximando mais, tentando contar o tanto de copos vazios que tinha a sua frente mas desistindo ao perder as contas duas vezes. — Vamos para casa, sim?

 

Uau, eu achei que você iria me levar para jantar primeiro, sabe? Um encontro, mas já que você gosta das coisas rápidas, não vejo motivos para recusar. — Ele tenta levantar da cadeira sem tropeçar nos próprios pés mas é humanamente impossível para o estado em que se encontra, então eu me aproximo mais em uma tentativa de apoiar seus metros de corpo em meus ombros. — Desculpa, Teddy, essa noite eu vou com o BaekHyun.

 

— Você não pagou a conta, Michael. — O carinha do outro lado do balcão falou antes que eu conseguisse sair arrastando o Park para fora. — E você sabe as regras.

 

— Ah, certo!

 

ChanYeol tenta pegar sua carteira no bolso de trás da calça, mas ele mais parece um cachorrinho perseguindo o próprio rabo. Acabo segurando em seus braços, fazendo-o parar, e enfiando uma de minhas mãos dentro do bolso para puxar a carteira para fora. Por sorte o maluco mantém algumas notas de won além dos cartões de crédito.

 

— Até mais, Michael. — Teddy se despede do bêbado que praticamente está caindo em cima de mim.

 

ChanYeol resmunga alguma coisa de volta, porém não dou oportunidade para que se estenda mais do que isso. Ando o mais rápido que consigo carregando o ser quase inconsciente, precisávamos dar o fora desse lugar o quanto antes e ainda existia o inconveniente de ter que esperar algum táxi aparecer, pois estava fora de cogitação fazer Yoora se deslocar até um lugar como esse e ter que lidar com um irmão mais novo nesse estado.

 

Por sorte ou ironia do destino, a vida resolveu não ser uma vadia dessa vez e com menos de dez minutos de espera um táxi apareceu. Não quero nem mesmo falar da dificuldade que foi enfiar dois metros fora de si dentro de um pequeno espaço, pedindo a Deus e qualquer entidade superior que fizesse seu estômago ficar no lugar ao menos até chegar na casa de seus pais.

 

Cada minuto no banco traseiro daquele carro, era um pecado a menos que o senhor pagava quando tinha que escutar toda aquela cantoria do Park ou as vezes em que ele tentava chegar um pouco mais perto do meu rosto. Era no mínimo irritante, ter que ficar aguentando todo aquele papo sem sentido e emotivo ou as músicas tristes que ele insistia em cantar — e até mesmo berrar para fora da janela.

 

— ChanYeol, se comporta! — Disse pela enésima vez puxando-o para dentro, fechando sua janela e checando se a trava de segurança estava no mesmo lugar ainda. — Você já é um adulto, deixa de dramas e finja que é alguém responsável até chegar na sua casa e dar de cara com seus pais.

 

— Ser adulto é uma boosstaa. — Sua cabeça tomba em meu ombro, os olhos bem fechados.

 

Suspirei fundo, contando até trinta e tentando manter meu coração batendo em um ritmo que não me levasse ao óbito. O que estava sendo uma tarefa e tanto levando em consideração a burrada na qual fui me meter.

 

O alívio ao ver o portão da casa dos Park foi imediato, precisava apenas deixar ChanYeol em casa e voltar para a segurança do meu lar, aproveitaria o restante da noite com HyeRan e EunJi comendo pizza.

 

Depois de pagar o senhor, com o restante de dinheiro que tinha na carteira do outro, acabei entrando na casa com a chave que me foi dada. ChanYeol cambaleava um pouco a minha frente, seus pés pareciam não ter controle de como e onde iriam pisar, as vezes ele gargalhava baixinho como se contasse uma piada para si mesmo. Eu vinha logo atrás, tendo que segurar em sua cintura algumas vezes para que ele não caísse no chão e rasgasse seu rostinho bonito — coisa que eu mesmo queria fazer por todo trabalho e vergonha que me fez passar desde o bar até finalmente chegar em sua casa.

 

Ele caminhava como um modelo bêbado, cantarolando uma canção que parecia ser em espanhol enquanto rodava as chaves de casa no dedo indicador. Se não fosse tão trágico, talvez eu estivesse rindo. Acontece que  nesse amontoado de bagunça que o mais velho fazia, eu conseguia sentir sua tristeza a metros de distância. Algumas pessoas tem essa capacidade... de deixar tristeza quando parte e a julgar pela forma que o Park parecia um animal ferido e transtornado, algo de ruim deveria ter acontecido ao tal Esteban. Bem, ao menos foi essa conclusão que cheguei juntando o tanto de vezes em que ele me chamou por esse nome ou quantas vezes o mencionou.  

 

E sinceramente, cada vez em que Esteban era mencionado uma face diferente de Park ChanYeol aparecia. Era como se ele tomasse várias personalidades para si e as libertasse em cada nova situação que lhe colocasse no limite.

 

ChanYeol estava fragmentado.

 

Yoora já nos esperava na porta, como se seu radar de irmã mais velha estivesse ligado e ela teve a sorte de interceptar a bosta ambulante que o irmão mais novo estava antes que os pais conseguissem encontrar o filho queridinho caindo para todos os lados.

 

Que merda é essa, ChanYeol? — Ela esperneou na entrada. — Essa é a merda de visão que pensei em não encontrar nunca mais.

 

— O que você quer que eu faça, noona? — Ele responde embolado, se apoiando agora em meus ombros e olhando fundo nos olhos da irmã. — Ele se foi, como você acha que poderia lidar com isso? Eu não sou forte, eu não sou o cara forte que você acreditou e eu sinto tanto... tanto por isso.

 

Os dois se encaram silenciosamente até que Yoora noona resolve me ajudar a colocar o irmão para dentro. O engraçado da noona é que ela sempre acaba se desculpando por algo que não é sua culpa ou que está fora de seu alcance impedir que aconteça. E acabo pensando se é assim que KyungSoo se sentia na maioria das vezes quando ele tinha que me defender dos carinhas metidos a valentões na escola e até mesmo na faculdade, porque mesmo não precisando da sua ajuda era muito cômodo ter alguém por mim.

 

— BaekHyun? — Ela chama quando chegamos ao pé da escada. — Sinto muito por isso, acho que nem mesmo ChanYeol tinha a intenção de te envolver tanto nessa confusão toda e deu que foi você quem acabou o encontrando e trazendo para casa. Oh droga, algum dia estaremos quites com você?

 

— O cartão que eu roubei da carteira dele mais cedo deve quitar o débito dos dois últimos encontros que ele arruinou. — Digo dando de ombros. — No mais... não se preocupe! Vou cobrar quando tiver a oportunidade de encontrá-lo sóbrio.

 

— Vamos esperar que ele não tenha uma recaída. — Yoora suspira cansada. — Você pode levá-lo até seu quarto? Preciso acalmar meus pais antes que eles o veja nesse estado tão... tão merda.

 

Confirmo com a cabeça mesmo resignado, era um pedido que não poderia negar jamais. Então eu comecei a subir as escadas com um ChanYeol tentando imitar um filhote de macaco tentando deixar todo o peso de seu corpo para que eu carregasse.

 

— Baek? — Ela me chama novamente e não posso deixar de notar a forma carinhosa em que ela diz meu apelido, um sorriso involuntário invade meu rosto. — Desculpa por qualquer coisa que ele vá falar... — Suas mãos fazem um gesto estranho. — ChanYeol normalmente não tem filtro quando bebe.

 

— Noona, ele não tem filtro nunca.

 

— Some isso a liberdade que o álcool te dá momentaneamente e depois calcule a ressaca moral do dia seguinte.

 

Acabo rindo da sua sentença, o que faz ChanYeol resmungar perto do meu ouvido algo totalmente ininteligível e regado a bebidas desconhecidas por meu paladar que é limitado a cervejas, soju e algumas vezes vinhos.  

 

A despeito de sua falta de equilíbrio ou qualquer vínculo sólido com a realidade, o Park colaborou enquanto subíamos a escada e me guiou muito bem na grande extensão que era o corredor do segundo andar, me levando diretamente para uma porta mais afastada e de madeira, o que me causou um pouco de contratempo para abri-la já que ele praticamente queria se fundir ao meu corpo.

 

Qual foi a minha surpresa ao entrar naquele ambiente quase imaculado e não encontrar um livro fora da estante ou qualquer poeira voando como nos filmes de faroeste? Nenhuma para ser sincero. Park ChanYeol tinha aquele jeito de moço certinho que não admitia uma ponta de folha amassada sequer, e isso era comprovado com toda aquela atmosfera limpa e livros arrumados — provavelmente em ordem alfabética — nas devidas estantes ao lado da mesa do notebook. Poxa vida, havia até mesmo um violão descansando em um suporte perto da cama de casal, que era exageradamente enorme.  

 

— Eu não sabia que você tocava violão, ChanYeol. — Digo quebrando o silêncio, jogando seu corpo inerte no colchão e logo esticando meus braços para relaxar os músculos.  — Seu quarto nem parece que dorme alguém.

 

— Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim, BaekHyun. — Ele responde embolado com um braço nos olhos enquanto tenta tirar os sapatos com os pés. — Coisas que fariam você querer fugir de medo e levar EunJi consigo.

 

— Isso deve ser porque você toca violão muito mal, não é mesmo? — Respondo ficando de cócoras na sua frente e tirando o sapato que ele usa. — Olha só, existem até mesmo bonecas e ursos... que gosto peculiar o seu.

 

Aponto para uma poltrona marrom que existe em frente à televisão, nela tem o que parece ser uma família inteira de bonecas e ursos disputando espaço. Para ser bem sucinto, o quarto de ChanYeol era praticamente minha sala, cozinha e quarto juntos. Okay, talvez exista um pouco de exagero aqui, no entanto, realmente era um ambiente muito grande e que só passava um pouco mais de calma quando olhávamos para as fotografias espalhadas nas paredes escuras e mesas.

 

— Eu posso tocar sua música preferida se escutar apenas uma vez. — Ele responde malcriado ainda sem tirar o braço dos olhos. — E meu gosto é tão peculiar, que prefiro ficar enroscado com as curvas rudes de um homem a ter as coxas delicadas e roliças de uma mulher em meus quadris. Uma barba raspando em meu pescoço é mais excitante do que beijos delicados. Oh não! Isso saiu muito misógino?

 

— Só estou chocado em como você não tem filtro quando está bêbado. — Respondo sincero. — Eu não sei, ChanYeol, cada um tem sua preferência. Não é mesmo?

 

— Eu gosto de um cara rude no meio das minhas pernas.  

 

— Droga, cara! Não precisa me contar coisas assim, sério mesmo, estou bem sem saber.

 

— O seu medo é de gostar, BaekHyun. — Dessa vez ele se senta e me encara enquanto tira o casaco pesado fora. — Lá no fundo, você tem medo de querer também e eu te entendo... isso assusta! Assusta pra caramba sentir atração por outros caras, desejar um corpo que não tem curvas e as vezes a gente passa tanto tempo se questionando o que tem de errado nisso que não percebemos o muro que construímos ao redor, então vamos vivendo um dia de merda de cada vez, desejando que isso passe e tendo que escutar silenciosamente as pessoas dando o inferno para aqueles que estão errados.

 

Observo com atenção suas mãos que agora trabalhavam em tirar a camisa de botão e logo conseguindo, deixando-o apenas com uma camiseta e a calça; o que dura apenas segundos já que os dedos agora desciam para a braguilha e as descia lentamente, quase como se estivesse me desafiando a impedir que isso acontecesse.

 

— Você vai tirar a roupa na minha frente? — Pergunto retoricamente. — O álcool levou todo seu bom senso.

 

Por quêee? — Ele responde arrastado como um menino birrento. — Tudo o que eu tenho, você também tem.  

 

Jura? Você realmente está me dizendo isso, ChanYeol?  

 

Com toda a certeza do mundo era um monte de merda ter que ficar em uma situação como essa mas era inevitável ter que encarar a nudez de Park ChanYeol quando ele nem mesmo conseguia se manter em pé sem precisar se apoiar em algo ou alguém. Então, somente por essa noite iria engolir todo o meu orgulho — ferido — e iria ajudar um senhor.

 

Me aproximo na intenção de ajudar a retirar a camiseta e o jogar o mais rápido possível para o chuveiro e deixar um monte de água gelada cair em sua cabeça até que seu corpo se transformasse em um picolé de quase dois  metros de altura. Porém quando chego perto o suficiente vejo uma imagem que me faz congelar no chão e retroceder alguns centímetros.

 

Dói... — Ele diz segurando o tecido da camiseta entre os dedos e fungando, seus olhos estão vermelhos e dessa vez não é por causa da bebida. — Dói tanto e eu só quero que passe logo, por que não passa?

 

— Calma. Vai ficar tudo bem. — Respondo voltando a caminhar até ficar na sua frente e ajudar a tirar a camiseta.  — Não se preocupe, essa dor vai diminuir.

 

— Ela não vai passar? — Me pergunta com um bico choroso nos lábios que aumenta apenas com a minha negativa. — Nunca?

 

— Nunca. Ela nunca vai embora, a gente apenas aprende a lidar com o vazio e a tristeza que fica.

 

Por mais idiota e egoísta que seja nessa situação, eu me sentia a pessoa mais adulta e corajosa andando na face da terra nesse momento. Primeiro que agora eu estava mais alto que ChanYeol, não que eu tenha raiva da minha altura ou qualquer trauma com ela, era apenas divertido olhar de cima toda aquele seu exagero de altura. Na maioria das vezes é um pé no saco ter que olhar para o alto quando tinha que me dirigir a ele, mesmo que nunca o Park tenha sido rude ou tenha falado um tom mais alto do que o necessário — o que deveria ser bem assustador não somente pelo exagero que seus quase dois metros representava, era apenas um combo de altura mais voz assustadora —, era apenas aquele receio e frio na barriga imaginar como seria se algum dia ele se irritasse e usasse as mãos como um martelo para acertar a minha cabeça.

 

Sim, foi bem satisfatório ter os papéis invertidos ao menos uma vez. Apesar de não ser essa a minha preocupação na noite e sim o quão não era tão incômodo ter seu corpo tão próximo ao meu ou sentir suas mãos segurando minhas pernas enquanto sua cabeça tombava para frente e descansava na minha barriga. Parecia que tudo estava okay e isso só significava o quanto estava ficando bêbado em apenas respirar esse.

 

Incômodo mesmo era sentir essa necessidade desenfreada em tocar naquele emaranhado de cabelos castanhos e dizer que tudo iria ficar bem ou em como minhas mãos pareciam ter vida própria ao ir até suas costas e acariciar as tantas cicatrizes que haviam ali acompanhadas de um desenho escuro adornando boa parte da lateral de seu corpo. A minha língua coçava com a curiosidade de saber mais sobre ela e seu significado, no entanto, dado as circunstâncias não teria uma resposta muito coerente essa noite.

 

Apesar de toda e qualquer expectativa — ou a falta dela — que eu tinha sobre o restante da noite, a única delas era não presenciar o Park chorar. Foi como um balde de água fria, porque momentaneamente eu me senti sem reação alguma enquanto ele soluçava nos meus braços e molhava minha blusa. Não precisava de perguntas para ter uma resposta do que estava acontecendo, era apenas a dor dele sendo expressada com outros tipos de palavras. Eram ações que gritavam muito mais do que qualquer xingamento ou discurso que ele poderia fazer essa noite.

 

E apenas por uma fração de segundos, eu compartilhei de sua dor desconhecida. Deixei que meus pedaços fossem ao chão juntamente com os seus, pedacinhos do seu coração que talvez nunca mais ninguém conseguisse encontrar. O choro sofrido que Park ChanYeol tinha era tão meu também que a única coisa que fiz foi dar-lhe um abraço desajeitado numa tentativa de mostrar que de alguma forma sobrevivemos.

 

— Vamos lá. — Minha voz sai rouca naquele silêncio sufocante. — Você precisa tomar um banho e tentar ficar sóbrio.

 

— Eu não quero a sobriedade. — Responde com um bico infantil nos lábios e o rosto banhado em água salgada. — Quero apenas dormir e esquecer qualquer coisa que me lembre ao idiota apaixonado que fui no passado.

 

Surpresa! Surpresa!  — Respondo igualmente em um tom infantil. — Não podemos esquecer o passado, o que te resta é moldar esse futuro que tem em suas mãos ao lado da pessoa mais importante da sua vida.

 

— E quem é essa pessoa?

 

— EunJi, a sua filha.

 

E foi como se a realidade batesse em sua cabeça sem piedade alguma, não há mais perguntas ou reclamações, há apenas o seu choro silencioso.

 

Vamos.

 

O puxo pela mão que não impõe relutância alguma ao se deixar ser levado até o banheiro, ChanYeol era quase uma criança que tentava manter um comportamento para ganhar uma recompensa depois.

 

Já dentro do banheiro ele mesmo toma a iniciativa de tirar o jeans que vestia e a peça íntima, ficando nu na minha frente sem vergonha alguma. Ao menos a parte constrangedora de ter que o despir me foi poupada, a parte ruim disso é que precisava ficar ali para certificar que nenhuma tragédia iria acontecer, ou seja, deveria tomar conta de um adulto com quase dois metros de altura totalmente fora de si e ainda por cima nu.  

 

A vida não era uma vadia?

 

ChanYeol continua em seu mundinho particular me dando as costas e a visão de um traseiro muito branco enquanto caminha até o box simples com aqueles chuveiros que despeja jatos de água quente até mesmo do chão se for possível.  

 

— No modo frio, por favor. — Digo rindo de lado e me encostando no mármore da pia.

 

Não fode, BaekHyun.

 

O som da água e logo depois um chiado da parte dele é a única coisa que preenche o silêncio que se fazia, dava para escutar as reclamações de como a água estava gelada. Olhei de relance para onde ChanYeol estava e constatei seu corpo encostado no vidro do box, o rosto sendo banhado enquanto sua alma era lavada de toda tristeza.

 

— Você acredita em inferno? — Ele pergunta do nada tendo a voz abafada pela água. — Você... acredita que tudo o que fazemos tem um preço?

 

— Bem... — Suspiro ponderando todas as certezas que tinha até hoje e em como elas viraram pó em segundos.  — Eu acredito em justiça, sabe? Que tudo o que fazemos pode ser cobrado aqui mesmo.

 

— E no inferno? Você acredita?

 

— Eu não sei, ChanYeol, ultimamente eu não tenho certeza de mais nada. — Confesso tomando mais fôlego. Busco uma toalha no pequeno armário que fica ao lado da pia e vou até a porta do box estendendo o pano felpudo e preto na direção dele. — Vem ou vai acabar resfriado.

 

— Me assusta imaginar o lugar para onde o Esteban foi. — Ele responde desligando o chuveiro e pegando a toalha em mãos para ser enrolada na cintura. — Apesar de tudo, o inferno é um lugar muito triste para ir. O engraçado é que algumas pessoas já disseram que esse era meu lugar.

 

— Pessoas são idiotas, ChanYeol. Elas não sabem respeitar algo que não as agrada.

 

— E se realmente esse for meu lugar?

 

Nesses poucos meses me sentir envelhecer bem mais que a minha idade. Estava tão cansado física, emocional e psicologicamente. Tantas dúvidas e sonhos me perseguindo quando fechava os olhos, tantos desejos emaranhados em um só que fazia questão de confundir todo o meu bom senso.

 

E então surgia ChanYeol — fodendo ainda mais todas as certezas que solidifiquei durante anos — me fazendo perguntas onde colocava a prova toda minha fé.

 

— Você deve ter algo bom, não é mesmo?

 

— Será?

 

— Você é o pai da EunJi, alguma dúvida nisso?

 

— Eu sou um maldito bastardo fodido, BaekHyun. Tem partes minha que fariam você correr. — Ele sorri triste, caminhando com cuidado para fora do box. — Tudo de bom que minha filha tem é graças a mãe dela.

 

O silêncio perdura por minutos naquela briga silenciosa de assuntos pesados, os olhos vermelhos dele acompanham meus movimentos e é bem visível como o álcool ainda faz efeito no seu sangue. O ChanYeol sóbrio nunca falaria coisas assim.

 

Dou as costas porque toda essa situação é demais, Park ChanYeol é demais na minha vida, sua presença, sua história ou qualquer coisa que o envolva.

 

— Ele é um idiota, ChanYeol. — Digo por fim. — Não sei o que aconteceu, mas ele realmente é um idiota por fazer um cara legal beber ao ponto de dar em cima do barman Teddy. Não é apenas Sandara que deu coisas boas para sua... nossa filha, você não consegue enxergar o bom homem que é?

 

Ele ri um pouco.

 

— Ele era um idiota mesmo, BaekHyun. Um idiota que sempre tinha as piores piadas para me fazer rir, as piores explicações , as piores drogas... Esteban sempre foi meus extremos, me dando o melhor e o pior que alguém poderia oferecer. — ChanYeol parecia imerso em um passado conturbado. — Seus toques eram como cortar e curar, faz sentido? Ao mesmo tempo em que suas mãos me partiam, elas também me curavam. Ah cara, eu amava tanto nosso apartamento. Amava nas noites frias quando o corpo grande dele cobria o meu, amava quando ele me fodia. Era uma foda, sabe? Mesmo quando era calmo e delicado, ainda continuava sendo uma foda. Acho que ele nunca me amou o suficiente para fazer amor. Dizem que em um relacionamento um sempre ama mais que o outro, eu sempre fui o que amei sem limites e agora ele está morto, enterrado na própria merda que ele procurou para si.

 

— Você não pode deixar que isso te impeça de ser feliz, Park. Esse cara não merecia... Ele não merecia o seu amor.

 

— Nosso amor era um fruto estragado, como todos os outros. — Então ele me olha com aquela cara confusa, as sobrancelhas franzidas e olhos vermelhos. — Você não pode ser meu? Por que você não pode pertencer a mim, BaekHyunnie? Sua bondade... — Ele suspira pesadamente. — Esqueça isso que falei, provavelmente eu apenas foderia sua vida.  

 

— ChanYeol, eu sou uma pessoa. — Respondo. — Pessoas não pertencem a ninguém, somos livres.

 

Estamos tão próximos, tão malditamente próximos que consigo sentir sua respiração quase tocar meu rosto, consigo sentir o calor do meu corpo indo até ele e em como sua pele parece estar fria por causa do banho recente. E eu engulo em seco, por que por mais errado que isso possa ser no momento, meu corpo não consegue se distanciar desse ímã que Park ChanYeol parece ter em si, essa coisa maluca que me puxa para perto somente para me deixar sem ar e sem saber como reagir. Como uma cobra ardilosa que desafia seu encantador a lhe controlar com o som de sua canção mas sem nunca esquecer o bote que anseia dar a qualquer momento, o Park se aproxima mantendo seu olhar no meu, tentando me ler e desvendar o que acontece.

 

E nossas mentes estão tão nubladas, tão bagunçadas que nem mesmo nos damos conta de quando nossos corpos se chocam contra a parede e a única barreira que nos resta é o bom senso. Eu não tenho a desculpa da bebida para usar no dia seguinte e isso não me impede de continuar nesse joguinho doentio de caça e caçador.

 

Eu sinto o cheiro do álcool ainda impregnado em seu corpo, sinto a curiosidade e a vontade fervendo em minhas veias. Nessa altura do campeonato eu sequer poderia negar essa atração idiota que começava a sentir em relação a ChanYeol.

 

Essa estúpida e maldita atração que me faz um traidor.

 

— Eu posso te fazer querer ficar. — Sua voz é um sussurro, um maldito sussurro. — Ou você pode fugir quando ainda dá tempo.

 

Meus músculos sequer tentam sair do lugar, nossos olhos estão absortos demais, bebendo as dúvidas que são recíprocas.

 

Quando a boca dele toca a minha, existe um grande nada e ao mesmo tempo um grande furacão tomando desde os meus pés até a minha cabeça culpada. Nossos olhos se mantém aberto e diferente da outra vez, não é apenas um selar, os lábios dele começam a se movimentar sob os meus e por mais que eu queira acompanhar o ritmo, me privo de aprofundar aquele toque.

 

Não era justo.

 

As mãos dele vão até o meu rosto, acariciando com carinho minha pele e até mesmo meu cabelo.

 

Droga, eu sei que essa noite estou sendo apenas um substituto para seu vazio. O pior é que dói.

 

Chan? Baek? —  A voz de Yoora nos assusta.

 

ChanYeol pula para longe me olhando com aquela cara de culpado enquanto eu apenas saio daquele ambiente o mais rápido que meus pés permitem, o mais rápida que minha culpa deixa.  

 

— Baek, aconteceu alguma coisa? — Yoora pergunta tentando me interceptar na porta do quarto. — Você está pálido.

 

— Eu estou bem, noona. Sério... — Digo quase sem fôlego. — Agora preciso ir, de verdade.

 

 

 

 

***

 

Jongin sempre me disse que as melhores histórias começavam com um "era uma vez, há muito tempo atrás...", aquelas que sempre estavam repetindo as mesmas palavras e com um enredo péssimo de ser desenvolvido, no entanto, o moreno sempre confessou – ao menos para mim – que um se um dia fosse para colocar em palavras todo o amor que sentia por meu irmão, com toda certeza, sua história iria começar com um era uma vez.

 

Então...

 

Era uma vez um cara que fodeu toda a sua vida por ser imbecil demais e não saber controlar sua emoções.

 

Não era a merda de um clichê, não era ao menos engraçado; depois de me distanciar o suficiente da tempestade de que era Park ChanYeol, tudo o que ficou intacto foi a vergonha e a culpa. O que seria de uma tempestade sem uma bagunça, não é mesmo? Uma bagunça que teria que arrumar sozinho.

 

Ainda que eu buscasse novas formas de me expressar, e até mesmo mudar o começo banal de cada novo dia, era simplesmente impossível não ficar preso na mesmice. Ou ao menos foi assim que imaginei que seria o restante da minha vida, preso nessa monotonia, em um ciclo vicioso, e provavelmente seria assim se ele não tivesse aparecido e bagunçando toda a minha vida, deixando meus dias​ de ponta cabeça.

 

O peso da culpa aumenta ao encarar HyeRan sentada no meu sofá assistindo algum dorama com tanta atenção que ao menos nota a  minha presença. Com essa vantagem de não ser notado vou caminhando vagarosamente até sentar ao seu lado e a observar de lado.

 

Tão sério... — Ela sussurra quando me nota. — Tudo bem?

 

— Na verdade não e duvido muito que vá ficar. Eu sinto que estou enlouquecendo aos poucos. – Confesso.

 

— Quer conversar?

 

E lá estava eu, novamente analisando minhas opções como se a minha vida se tratasse de um jogo. Ela pediu sinceridade, não foi? Então porque não poderia ser verdadeiro ao menos uma vez nesse relacionamento. Porque eu sabia que iria acabar com qualquer confiança que ela tivesse.

 

Tinha algo que me encantava quando olhava nos olhos de HyeRan, algo inocente e ao mesmo tempo que guardava milhares de segredos. A maneira em que nossos lábios encaixavam, céus! era realmente bom, no entanto nunca parecia ser o bastante para me levar ao tão falado plano.

 

— Eu deixei que ChanYeol me beijasse. — Confesso em um suspiro. — Duas vezes.

 

 

Ela suspira pesadamente e encara suas mãos. Eu sei que a feri mais do que qualquer outro cara que já passou por sua vida, tenho total certeza que isso está abalando toda nossa confiança e juro que faria qualquer coisa para mudar a atual situação. Mas o que está feito… está feito.


 

— Eu não estou realmente surpresa. — HyeRan me encara o que parece ser um século. — Mas isso não quer dizer que dói menos ou que tudo vai ficar bem, BaekHyun.

 


Notas Finais


¹ é uma referência a música do Esteban Tavares, Janeiro. ( https://www.youtube.com/watch?v=VtkpwRTAe2k )
Aliás, teremos algumas músicas do Esteban na nossa playlist. ~sim, eu me inspirei no Tavares para fazer o ex do chan, rs~

Ufa! que capítulo enorme, rsrsrsrsrs. Spirit pq sempre buga minha formatação? grrrrr

então,o que estão achando? tô bem ansiosa pelo desenrolar da fic rsrsrsrsr;

link da música do capítulo:https://www.youtube.com/watch?v=JQ5VsS1Ll6o&index=24&list=PLyRjpzTaxNlTOQ2B4pLJ84yEZCAPuVW-4
link da playlist no yt: https://www.youtube.com/playlist?list=PLyRjpzTaxNlTOQ2B4pLJ84yEZCAPuVW-4
trailer da fic: https://www.youtube.com/watch?v=7tye3-JRsWg&index=20&list=PLyRjpzTaxNlTOQ2B4pLJ84yEZCAPuVW-4

id twitter: @ fleurstoksoo
vamos lá bater um papinho.

E antes de ir embora, queria falar algo importante.... VOCÊS JÁ CONHECERAM O KOKOBOP MÁFIA? NÃO? ENTÃO CORREEE.

Esse projeto é ideia da @ barbitaemint (a mais cobra), já escutaram aquele ditado de "mente vazia oficina para o diabo?" pois é! exatamente nosso caso aqui, rs.

A ideia base é transformar nosso ven... energia ~risos~e transformar em fanfics, resumidamente, nós como amantes de flops... (até pq somos todos flops, rs) vamos dar destaque para esses couples tão excluídos da vida. ~risos~

O primeiro a ser escolhido foi BaekSoo (meus amores <3)

vou deixar o link do jornal aqui e para quem sentir o interesse tá indo dar uma olhadinha <3

https://spiritfanfics.com/jornais/o-que-diabos-e-kkbmafia-9866120


Acho que não estou esquecendo de nada.... hmmmm.... aah sim, desculpem a demora em atualizar e queria avisar que talvez essa semana não tenha atualização ;;;;;;;;; resolvi dar as caras na faculdade e segunda retorna as aulas e final de semana como vai ser dia dos pais... já sabem né? então só na outra semana.

Mandem energia positiva para que eu consica terminar os próximos capítulos essa semana e ainda e consiga entregar tudo nos prazos.

Bye gente, beijos e até a próxima.

não esqueçam de dizer o que estão achando <3


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