História Dreamshifters - Capítulo 3


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ação, Colegial, Drama, Ecchi, Escolar, Futuro, Original, Romance, Shoujo, Shounen, Sonho
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Palavras 5.327
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Ecchi, Escolar, Fantasia, Ficção, Ficção Científica, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Shounen, Violência
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Bom dia! Outro capítulo feito! Espero que gostem!

Capítulo 3 - Os pesadelos vindouros


Eu acordei de repente na calada da noite, gritando e me debatendo violentamente na cama. A dor que eu sentia no meu ventre era insuportável, de enlouquecer qualquer homem, por mais forte ou resistente que fosse. Malik acordou assustado e desesperado com meus urros:

- EDGARD?! O QUE HOUVE?!

Eu não ouvia o que ele dizia e nem nada ao meu redor. Eu enxergava nada além de trevas à minha frente, mesmo com meus olhos bem abertos. Na minha cabeça ainda ecoavam os dizeres e reprisavam minhas lembranças fragmentadas daquele misterioso homem do meu sonho.

- RESPONDE EDGARD! ME FALA O QUE ACONTECEU! ME FALA!

- NÃO! NÃO! EU MORRI! EU MORRI! EU ACABEI DE MORRER!

- DO QUE INFERNOS ESTÁ DIZENDO! VOCÊ ESTÁ AQUI NA MINHA FRENTE!

- ALGUÉM ME AJUDA! EU NÃO SEI O QUE ESTÁ ACONTECENDO! SÓ SINTO A DOR!

- QUE DOR EDGARD?! ONDE?!

- MEU VENTRE FOI RASGADO! ALGUÉM FAÇA ELA PARAR! A DOR!  POR FAVOR! QUALQUER UM! EU NÃO CONSIGO ME LIVRAR DELA!

O prédio inteiro havia acordado, assustados com o barulho e preocupados sobre saber o que acontecia. Uma aglomeração se formava na porta de nosso quarto.

- O QUE ACONTECEU?! - Perguntou Ji.

- EU NÃO SEI! ELE ESTÁ BERRANDO SEM PARAR SOBRE DOR!

- TIRE A ROUPA DELE! TIRA A ROUPA DELE!

Eles retiraram meu pijama e me deixaram com roupas de baixo na cama, mas para a surpresa deles, não havia nada de cortes.

- EDGARD! OLHA PARA MIM! ONDE ESTÁ DOENDO?! NO VENTRE?! - Exclamou Ji.

Eu nada respondi, pois a dor me consumia e me dominava, submetido e indefeso a seus grilhões do sofrimento.

- EDGARD!!! ACORDA!!! SE CONCENTRE!!! - Malik me dava tapas fortes no rosto, numa tentativa de me fazer acordar.

As imagens e os dizeres cessavam e se despedaçavam em milhares de partes na minha mente, para dar lugar às minhas lembranças com Malik em nossos dias escolares. Uma luz forte ao final de um horizonte me machucava aos olhos, e quando cheguei até ela, eu finalmente acordei daquele inferno. Eu ofegava e transpirava muito, olhando ao meu redor os rostos pasmos presenciando minha aparente loucura. Após, imediatamente olhei meu ventre, e a dor havia sumido de repentino.

- Edgard!!! Está tudo bem!!! O que houve?!!! - Perguntou Ji.

- Seppuku...

Hein?! Seppuku?! Do quê está falando?

- Por favor, eu não quero mais encontrar ele... eu não quero...

- Ele quem Edgard?! Quem?! - Perguntava Malik.

- Eu não sei... eu não sei... eu não me lembro bem... - Me encolhi.

- O QUÊ ESTÁ ACONTECENDO AQUI?! - Exclamou senhorita Magenta após chegar no prédio de supetão.

- Inspetora-chefe! Nós estávamos acudindo o Edgard! - Disse Ji.

- Me deem licença! ESPAÇO! - Exclamou ela para todos se afastarem.

- Senhorita Magenta... - Disse quase rouco.

- Garoto! O quê aconteceu?! Me diga!

- Eu não sei... eu sonhei com um homem desconhecido... e ele me fez suicidar cortando o ventre no ritual de seppuku...

- Um sonho?!

- Mas doía senhorita Magenta! Doía demais... eu juro! Juro por tudo nesse mundo que era algo real! Uma dor real! Se você fosse uma humana, não aguentaria aquilo... NINGUÉM no mundo suportaria... você não imagina como é...

Sua expressão séria havia mudado para uma expressão preocupada. Eu jamais havia visto uma reação daquela por sua parte.

- O QUÊ VOCÊS ESTÚPIDOS ESTÃO FAZENDO?! CHAMEM OS PARAMÉDICOS!!! - Gritou para todos os alunos, que curiosos e preocupados observavam da porta.

- Sim senhorita! - Ji, o mais rápido da escola, saiu correndo feito um louco.

Foram questão de segundos para eles aparecerem e me colocarem numa maca, para ser transportado às pressas na ambulância para a enfermaria da escola. Mesmo sendo relativamente distante, o dormitório das meninas também havia ouvido meus gritos. Eu conseguia enxergar a maioria delas me olhando entrar na ambulância, e dentre elas, até mesmo Clara. Ela ficava tão linda preocupada... aquela cena de sua reação era realmente inusitada... valia ouro de tão inusitada...

Na enfermaria, uma bateria de exames foram realizados... mas nada constatava no meu relatório. A enfermeira me informou enquanto continuava deitado na maca:

- Você passará agora por um psicólogo.

- Um psicólogo?! - Me espantei.

- Não há nada no seu corpo. Marcas, cicatrizes, hematomas, doenças... simplesmente nada! O exame de ressonância eletromagnética também não apontou qualquer tipo de anomalia ou patologia, apenas intensa atividade cerebral, talvez devido ao pesadelo que teve.

Eu me mostrei apreensivo. Ela me tocou na mão e me consolou:

- Vai ficar tudo bem. Acredite! Creio que não passará de um mero e grande susto. Relaxe, está bem? - Sorriu ela, outra coisa inesperada. - Vista-se com esse pijama antes de encontrá-lo.

Fui levado por ela e os paramédicos para o consultório do psicólogo do colégio. Eu realmente não sabia que havia um para nos atender. Achei que a enfermeira seria a única profissional da saúde do local, mas percebo agora que estou errado.

O consultório era magnífico e esplendoroso. Ao entrar, o salão principal exibia uma gigante parede de vidro com vista para os luminosos arranha-céus da cidade ao fundo, além das inúmeras plantas exóticas penduradas pelos cantos, os livros físicos nas prateleiras e os móveis rústicos e antigos, ambos sendo verdadeiros itens de sinônimo de raridade nos dias de hoje.

- Bom dia... ou melhor... boa madrugada, senhor Edgard. Meu nome é James, e é um prazer em vê-lo!  - Disse o psicólogo de pele escura, cabelos e barba branca.

- Puxa... é a primeira vez que estou diante de um psicólogo.

Ele riu brevemente. - E espero que seja a única, pois vejo que é um jovem saudável, sem motivos para estar aqui... - Folheava ele o relatório da bateria de exames enquanto caminhava para sua mesa próxima ao leito. - Deite aqui, Edgard. - Apontou ele para o mesmo.

Caminhei até o leito e me deitei olhando para o teto de vidro. As estrelas, a via láctea e todos os elementos visíveis através do mesmo eram meras projeções, pois com a luminosidade das cidades, nada era possível enxergar, nem mesmo nenhuma delas além do tristonho breu do céu.

- Sinta-se confortável, como se fosse em casa.

- O senhor não é um androide, é?

- Para minha sorte não. A substituição está sendo feita aos poucos para esse cargo, pois eles são capazes de diagnosticar sem erros e precisamente os sintomas do paciente. Com sorte, pelo bom profissional que ainda sou, por hora não fui substituído. Mas e você? O que o acomete? Seus exames mostram nada mais que uma pessoa normal e sem problemas.

- Eu experimentei algo muito estranho e horrível, doutor.

- Hmm...?

- Não sei se conseguirá imaginar ou acreditar... mas esse não era um mero sonho doutor...

- Um sonho?

- Sim. Mas foi, de longe, mais do que apenas isso... embora eu não me lembre de muita coisa, eu posso lhe dizer com certeza que era tão real e vívido que eu era capaz de sentir tudo à minha volta. Eu sentia o toque dos objetos que encostava, sentia cheiros e gostos que experimentava, e sentia emoções que floresciam dentro de mim por uma garota que não era exatamente o que eu esperava que fosse...

- Continue. Estou ouvindo.

- Bom... me lembro vagamente de passear com ela, quando de repente tudo parou, exceto eu e um homem que eu jamais havia visto na vida e que apareceu diante de mim num shopping. Ele me disse inúmeras coisas... eu não me recordo bem do que era exatamente...

James permanecia atento ao meu relato, com cada palavra e detalhe que dizia.

- E então, de repente, uma lâmina japonesa, uma wakizashi surgiu em sua mão. Naquele momento, percebi que ele queria me matar, e por isso, corri o mais rápido o possível para longe dele, mas de nada adiantou. Os corredores não pareciam ter fim, e eventualmente percebi que por mais que eu tentava correr, eu estava vagarosamente voltando até ele. Quando isso aconteceu, percebi que eu havia cortado meu próprio ventre num ritual de seppuku, e aos poucos, morri no sonho. Mas a dor parecia transcender a realidade, e aquilo passou a doer em mim na vida real, como se eu tivesse realmente cortado meu ventre para me matar. Naquele momento, eu não ouvia e nem enxergava nada, por mais que sentisse que meus olhos abertos estavam. Quando meus amigos me ajudaram, consegui recobrar minha consciência de volta à realidade, e de repente, a dor havia sumido. Aquilo foi real mais que qualquer coisa, eu juro! Juro por qualquer coisa! Foi horrível... doía tanto... que parecia que eu realmente ia morrer...

- Primariamente, em um sonho, pessoas não surgem do além de sua imaginação. Em outras palavras, aquele homem que você relatou em sua experiência deve existir, e você já deve tê-lo visto em algum lugar. Só gostaria de deixar claro isso...

Eu arregalei os olhos de surpresa. Poderia ser? Aquele homem, existir na vida real?!

- Em segundo, o que você experimentou provavelmente foi um sonho lúcido.

- Sonho lúcido?!

- Um sonho lúcido é quando alguém tem consciência de que está sonhando, e por isso, consegue controlá-lo à sua vontade. Por ter sido algo ruim, acho que podemos categorizar como um pesadelo, não um sonho.

- Mas e os meus sentidos? Eu sentia tudo naquele sonho!

- O cérebro humano é dinâmico. Assim, ele pode não ter diferenciado aquilo da vida real. Os sonhos lúcidos costumam ser mais reais e vívidos que os sonhos convencionais. Minha hipótese é essa.

- Mas e a dor? Como explicar isso?

- Chamamos isso de "Dor do membro fantasma". É uma síndrome fascinante, que ocorre quando o paciente relata sentir dor num membro ou órgão mesmo depois de já removido ou amputado. No seu caso, estendo como se seu cérebro tivesse entendido aquele realismo encontrado no sonho até mesmo quando você se cortou, enviando sinapses através de suas terminações nervosas nesta região, ocasionando na dor. O fato de você não ter enxergado ou ouvido nada pode ter sido um sintoma de sua histeria após ter acordado, creio eu. No mais, eu diria que é algo que raramente voltará a acontecer.

- S-será mesmo?

- Dentre todos os meus anos nesse ramo vital, essa é a primeira vez que vejo um caso assim acontecer. Nem mesmo em livros existem relatos de algo assim. Por isso, sugiro que se acalme e que descanse bastante pelo resto da noite.

- C-certo...

- Pode dormir no meu quarto se quiser. Eu vou ter de falar com a enfermeira e o diretor sobre seu caso. Mas fique tranquilo. - Acenou. - Seu diagnóstico está feito. Descanse no quarto à esquerda de você.

- O-obrigado, senhor James.

- Não há de quê garoto! Descanse! Eu pedirei para que alguém venha aqui para cuidar de você enquanto descansa. - Saiu tranquilamente pela porta.

Eu fiquei sentando, observando a paisagem urbana lá fora enquanto pensava. Se não era imaginação da minha cabeça aquele homem, então quem era? Não saímos do colégio para passear e não há ninguém aqui com aquela aparência... a menos que ele tenha aparentado diferente no meu sonho para o que ele realmente é na realidade... eu não sei... por mais que ele tenha formulado toda aquela hipótese, ainda não me sinto seguro. Tenho medo de que possa acontecer de novo...

Fui caminhando com receio até o quarto de James. Sua cama era enorme, de casal mais precisamente. Era bem macia e confortável, constatei assim que deitei. E eventualmente cai no sono com o passar do tempo. Para minha sorte, dessa vez, não havia sonhado com nada.

- Let's gettiiiiing uuuuuup!!! - Para minha surpresa, era Rosa, me acordando amavelmente de manhã.

- Você?! - Assim que abri a boca para falar, ela tratou de colocar uma colher cheia de mingau de aveia nela.

- Mastigue e engula com cuidado! - Sorriu ela, como sempre.

- Mas por quê? - Disse após engolir.

- Está com sorte! Tratei de fazer um petit-déjèuner bem especial para você, diferenciado dos outros alunos! - Pegou outra colher de mingau.

- Eu não preciso que me tratem na boca! - Recusei a colherada.

- Não precisava mesmo. Mas como você estava malade, então resolvi ajudá-lo da melhor forma o possível! Além do mais, deveria me agradecer pela minha hospitalidade! Quer comer por si mesmo então?

- Sim... ´é embaraçoso ser tratado na boca como um bebê. Eu até entenderia se fosse algo mais grave, como paralisia ou algo debilitante desse gênero... mas eu estou bem Rosa, é sério.

- Haiii! Mas se quiser os quitutes que te preparei, eles estarão aqui nesta bandeja. - Apontou para ela, sobre o criado-mudo. - Well... À plus tard! Messiê Edgard! - Ela se retirava graciosamente.

A bandeja estava repleta de comida, uma verdadeira fartura! Eu não acharia tão ruim ficar doente às vezes para receber esse tipo de tratamento...

- Bom dia Edgard. Está melhor? - Falou uma voz forte.

- Diretor Carmim! - Tratei de engolir rapidamente o pedaço de bolo que estava na boca. - Estou bem sim! E o senhor, como vai?

- Vou indo bem. Só vim aqui para te ver. James e a enfermeira Violeta me disseram que você está bem, e que sua saúde está normal. Por isso, você poderia ir para as aulas sem problemas ou preocupação alguma. Hoje você tem prova, se lembra? Prova de geografia, lembra?

- Mas é claro! Eu não gosto de faltar, você sabe disso.

- Sim, é claro. Como eu disse, só passei para te ver e para avisar que você pode ir para as aulas hoje. Pode terminar de manger, não se preocupe. Até mais. - Acenou ele antes de se retirar.

- Eu acho melhor comer e voltar para o dormitório pegar meu uniforme. Está ficando tarde, quase na hora das aulas...

Depois de comer, fui de volta ao dormitório. No caminho, fui parado por várias pessoas, perguntando o que havia acontecido, e eu as respondia normalmente e com calma, como se nada tivesse acontecido. Lá, Malik me aguardava sentado na cama.

- E então? Está melhor? Eu já tratei do seu Freud... embora ele tenha me bicado algumas vezes...

- Estou bem sim. Não houve nada, e não há nada de errado comigo. Deve ter sido histeria minha por causa do pesadelo. - Terminava de vestir o uniforme. - Vamos para a aula. Já está na hora.

- Ok. - Ele se levantou prontamente.

No caminho, Malik estava quieto, estranho. Eu lhe perguntei o motivo:

- Aconteceu alguma coisa?

- Estou meio preocupado contigo...

Permaneço em silêncio, pensativo.

- E se acontecer de novo?

- Eu não sei... eu acho que não voltará a acontecer novamente.

- Tomara... - Andava cabisbaixo.

Logo chegamos à sala. Os alunos me olhavam com intensa curiosidade, e as conversas se formavam da mesma maneira:

- Rapaz! O quê foi que você bebeu?! Deve ter virado uma garrafa de vodca goela abaixo! - Exclamou Camila.

- Ei Edgard! Está melhor? - Perguntou Heloísa.

- O que foi que aconteceu, Edgard?

- E como foi?! - Perguntavam incessantemente todos os outros.

- Classe! Classe! Ordem! Deixem o rapaz respirar. - Pediu o professor.

- Mas é que...

- Sem mais. Ele passou por um susto e já está tudo bem. Não quero atrasar a prova, por isso, baixem-na e façam cada um em seus tablets. Lembrando que a internet foi desativada para evitar troca de mensagens e pesquisas na web, e também...

Eu notei que na sala não estava Clara por algum motivo. Me preocupei, pois ela nunca faltava à uma aula sequer, ainda mais com uma prova para se fazer. Durante o intervalo, enquanto almoçávamos, eu fiquei atento para encontrá-la, e por isso, estava deixando a comida de lado.

- Ei, não vai comer não?!

- Vou! Claro que vou!

- Então o que está procurando?

- A Clara. Ela não estava na sala, e perdeu a prova. Será que foi por minha causa?

- Coma primeiro e depois você vai atrás dela, ora!

- Quer saber? Eu não estou com fome mesmo. - Me levantei. - Aqui, à vontade! - Sai com pressa.

- Ei! Não! Volta aqui! Eu não quero comer isso tudo sozinho... não quero engordar...

Corri pelo colégio inteiro à sua procura, mas nenhum sinal dela em qualquer lugar que fosse.

E o dia passou normalmente, exceto se não fossem as inúmeras e incessantes perguntas à meu respeito, e que naquela altura, já causavam certo desconforto e o sumiço de Clara. À caminho de algum lugar para comer, eu olhava para o pôr-do-sol, ainda pensando nela, preocupado.

- Cara... eu tirei sete e meio... acho que não está tão ruim assim... o que você acha?

- É... não está ruim...

- Ainda bem que o resultado sai na hora... eu fiz tão rápido... e você? Como foi? Você demorou tanto que precisou ir com o professor até a diretoria terminar a prova...

Agarrei meu tablet e mostrei o resultado a ele.

- HEIN?! UM DEZ?! - Mostrou-se espantado.

- Eu demorei por que decorei o texto da apostila com facilidade. Na questão dissertativa, escrevi praticamente tudo o que a apostila dizia. Não foi cola, você sabe muito bem que não faço isso.

- Está bom, está bom, eu acredito. Eu não duvidei em nenhum momento de você e sua inteligência.

- Que bom. Bem, essa é a minha deixa. - Guardei meu tablet na mochila.

- O que vai fazer?

- Vou procurar a Clara.

- Hein?!

- Isso já se tornou preocupante. Não apareceu até agora, e até a Heloísa está procurando por ela, mas eu já sei onde ela está. - Sai correndo.

- Ei! Não demore muito, hein? Já vai escurecer... - Avisou Malik.

Dessa vez passei no mirante, no extremo sudoeste do complexo, e lá estava ela, observando a imensa e inacabável fileira de prédios e suas várias ruas e esquinas dentre suas entranhas, através dos altos muros gradeados.

- Clara! - Exclamei para ela, de costa para mim.

Ela não se mexeu, nem reagiu.

- Eu sei que você é um androide! Não precisa mais se esconder.

Apenas silêncio emanava através dela, além do vento a soprar.

- Me responda Clara! Pare de se esconder!

- Ela guardou seu tablet ainda em punho em sua mochila. Passados alguns segundos, ela suspirou.

- Como descobriu isso? - Girou seu tronco em trezentos e sessenta graus, logo depois suas pernas, exibindo uma expressão furiosa.

- VOCÊ É MESMO UMA ANDROIDE!!! - Me assustei.

- Quem te contou? Apenas os empregados sabiam e eles NUNCA iam contar o meu segredo. Está na programação deles. - Ela se aproximava à passos rápidos e ameaçadores.

- Sua voz era mais fofa no meu sonho... mas na vida real ela é bem mais madura e assustadora... - Me afastava com receio.

- Não desvie do assunto. Não fuja de mim! Como você descobriu?! - Exclamou ela.

- Eu... - Antes de dar mais um passo para trás, ela avançou até mim com velocidade, me agarrou pelo pulso, sendo puxado até um banco e me fazendo sentar no mesmo.

- Me responda as perguntas Edgard! - Ela parou à minha frente com os braços cruzados, de maneira imponente.

- Ninguém contou! Eu juro! Descobri por mim mesmo! E eu só tive certeza agora mesmo!

- Impossível! Alguém me dedurou com certeza!

- Ninguém me disse nada! Eu descobri num sonho que tive com você!

Sua pose tornou-se menos ameaçadora, e sua expressão confusa.

- Um sonho...

- Pode até não acreditar... mas sonhei contigo ontem, e você me disse que era um androide.

Ela calou-se ao sentar do meu lado.

- Por que correu daquele jeito ontem da biblioteca? Sem ao menos se despedir? Eu falei algo que não devia?

- Não é nada disso... é complicado...

- Vamos lá. Não deve ser difícil se abrir para mim...

- É justamente essa a questão! - Exclamou, parecendo sofrer.

- Como assim?!

- Tudo é difícil para mim! Interagir com os outros ao meu redor... como eu vou conseguir fazer isso, se eu não sinto nada? Eu não sou CAPAZ de sentir nada!

- Clara...

- Eu não sinto raiva ou tristeza quando alguém se chateia comigo. Não sinto alegria nos momentos felizes... eu... não sinto amor por ninguém... nem mesmo por você! Por mais que eu queira! Você já me disse que me ama, mas como posso eu retribuir isso, sabendo que sou incapaz de tal?!

- Mas e as suas expressões Clara?! Elas são reais!

- Elas não passam de algoritmos de programação Edgard! Não percebeu ainda?! Você conhece muito bem os androides e sabe como funcionam. Então por que você não acredita em mim?! É por ser justamente minha pessoa o motivo de estar recusando a verdade?!  - Exclamou ela, demonstrando cada uma delas.

Me espantei após ela ter dito tal. Eu não queria dizer, mas no fundo, ainda não acreditava, ou talvez não aceitasse que fosse uma máquina.

- As expressões são meros movimentos da pele artificial e dos nanobits pelos quais sou composta para passar a impressão de emoção. Sempre que sorrio, me mostro irritada, triste... qualquer coisa, não passa de pura programação! Até meu tom de voz muda em dada situação!

Permaneci quieto, com pena dela.

- Você não aceita que eu seja uma máquina...?

- Não! Não é isso! É que eu apenas... estou em choque... - Virei para o lado, indeciso e confuso... não sabendo como reagir ou falar.

- Você disse que me amava, e eu fugi por conta disso... por não aceitar que eu seja uma máquina, incapaz de sentir o mínimo de sentimentos que alguém normal conseguiria fazer... nós não deveríamos merecer essa finalidade... a de imitar seres humanos...

- Não diga isso Clara! Vocês não são meras ferramentas!

- Diz isso porque se apaixonou por mim! Uma coisa que não pode sentir afeto por nada! Algo oco... desprovido dessas capacidades...

Lágrimas desciam de seus olhos e sua voz tremulava entre choramingas e soluços.

- Veja só esse exemplo! Os algoritmos estão me forçando a reagir com tristeza, mas meu corpo... EU não sei o que é tristeza! Consigo reconhecê-la de outros seres a partir de meus sensores e base de dados apenas...

Eu ainda não sabia como consolá-la... talvez eu fosse incapaz de compreendê-la.

- Como pode alguém amar algo que não sente nada?!

Resolvi tomar as rédeas da situação:

- Eu posso! Eu sou capaz!  - Me levantei à frente dela.

- Você amaria algo cujo qual não poderia lhe retribuir de forma verdadeira?! Com falsidade?! Usando uma máscara por baixo?!

Logo após um curto silêncio, respondi de repente:

- Sim.

Os ventos sopraram neste instante através de nós.

- É mentira! Todos vocês que disseram amar nós máquinas foram movidos apenas pelo egoísmo e o desejo profundo de luxuria! Para nos usarem para suprir seus desejos profanos! Meu "pai" não a amava! Fui fabricada a partir de puro interesse! E o mesmo acontecerá comigo!

E lhe segurei a mão.

- O que digo é verdade! Eu realmente a amo pelo que é! Não importa se você é uma máquina ou não! Para mim você é uma pessoa da mesma forma que alguém de carne e osso! Por que não acredita em mim?! É por se tratar justamente de minha pessoa?

O vento havia se transformado em um zéfiro a balouçar de leve nossos cabelos e roupas. Ela me olhava com olhar espantado e confuso.

- Você não está mentindo... seus olhos demonstram convicção... mas eu... me preocupo... se é que eu posso me atrever a dizer isso... comigo e você, nessa nossa conturbada relação. Você disse que me amava, e eu também disse a você...

Eu me assustei. Até agora há pouco eu não havia sequer dito a ela que a amava.

- Quando?! Quando isso aconteceu?! Me diga o que você sabe!

- Foi em um barco. Eu me lembro muito bem daquelas cenas... nós dissemos um ao outro que amávamos, depois nos beijamos... eu também me declarei para você num shopping...

- Eu não lembro os detalhes desse último... mas ambos eram sonhos Clara! E vocês não...

- Eu sei! E é isso que me faz pensativa também! Eu não sei o que está acontecendo comigo ultimamente... - Ela puxou minha mão até seu rosto.

- Tenha calma... Nós descobriremos o que é... - A abracei.

Mais tarde, já à noite, eu olhava para o parque, todo iluminado pelas árvores fluorescentes das mais diversas cores, num verdadeiro arco-íris.

É muito bonito à noite, não acha? A ideia de substituir os postes por essas árvores foi simplesmente genial, não acha? - Perguntou Malik após entrar no quarto.

- É sim...

- Você sumiu à tarde. O que aconteceu exatamente? - Ele se deitou na cama.

- Eu estava procurando pela Clara. Quando eu finalmente a achei, fiquei conversando com ela por um bom tempo. - Também me deitei.

- Interessante... - Bocejou. - Bom, vou indo dormir. Me avise se acontecer qualquer coisa...

- Igualmente. - Respondi antes de fechar os olhos.

Eu estava com receio de acontecer tudo aquilo novamente. Fiquei, no fundo, torcendo para que tudo não voltasse à me atormentar como passe hoje de manhã...

...mas aconteceu mesmo assim.

Dessa vez o mundo era diferente, e tudo parecia estar destruído. Os prédios e casas estavam em ruínas, os carros jaziam abandonados, as ruas esburacadas, tomadas pelo mato alto e as lojas e estabelecimentos fechados. Tudo em meio a uma imensidão vazia, silenciosa e sombria, como se não havia aparente sinal de vida por ali.

- Onde eu estou? Que lugar é esse? - Minhas roupas pareciam trapos de tão rasgadas e sujas que se encontravam.

Mesmo estando em um aparente apocalipse, me pus a andar pelo cenário horripilante. Entrei em algumas lojas, e não havia sequer sinal de comida ou utensílios úteis, exceto se não uma espingarda.

- Por que isso estaria aqui? - Me perguntei.

- Para se proteger deles.

Ao ser respondido, me virei rapidamente para a porta de vidro quebrada, de onde vinha a voz, mas fui atingido ao rosto por uma forte lanterna.

- Quem é você? Largue essa arma. Preciso me certificar de que não é um zumbi. - Disse Malik, vestido com farda militar e me apontando uma metralhadora com expressão séria.

- Ei, ei! Sou eu! Edgard! Estamos num sonho? Num sonho seu? Você sempre gostou da ideia de apocalipses zumbi...

- Cidadão, pare! Levante seus braços e dê uma volta para que eu me certifique de que está tudo bem.

- Malik! Isso é um sonho! Eu tive algo assim ontem! Eu te contei, não? Você se lembra? - Comecei à me aproximar dele.

- FIQUE ONDE ESTÁ! - Ele me apontou mais violentamente a arma.

- Ei! Calma lá! Está bem... - Joguei a arma ao chão e dei uma volta com os braços ao alto, como havia me pedido. - Satisfeito?

- Você não foi mordido... pode pegar sua arma de volta. Vai precisar dela.

- Malik! Isso é um sonho! Estou me lembrando de tudo! Aquele shopping... aquele homem... o Shimano... - Me aproximei dele.

- Eu não faço ideia do que esteja falando. Nós não nos conhecemos.

- É claro que você me conhece! Somos alunos do Colégio Mali e...

Ele me empurrou contra a parede, me dizendo com um tom de voz ameaçador.

- Se insistir nessa história... eu terei de considerá-lo insano, e incapaz de ser salvo pela humanidade! - Exclamou antes de me soltar.

- Está bem... não direi mais nada sobre isso...

- Estamos em território recentemente descoberto... ainda estamos explorando as redondezas, por isso, fique perto de mim, mas em silêncio. - Ele se armou novamente e caminhava com extremo cuidado.

- Quantos há deles aqui? - Perguntei.

- Vários. Deve haver muitos e muitos deles. Também deve haver muitas armadilhas nos aguardando...

- Armadilhas?

- Alarmes de qualquer espécie. Foi sorte sua não ter disparado qualquer um deles. De onde é que você vem?

- Eu... não sei...

- Como assim não sabe? Há algumas colônias na região. Você deve ser de algumas delas!

- Eu não conheço lugar algum daqui. Estamos em que ano?

- Impossível! Você não deveria estar vivo até hoje com tanta desinformação e desorientação!

- Eu estou te dizendo! Estamos num sonho! Isso não é exatamente real!

- Eu estou me irritando com essa sua alegação! Me diga logo, quem é você!

- Já disse! Sou Edgard! E você é o Malik! Eu tenho certeza disso apenas!

De repente, todos os alarmes de carros e lojas soaram, ecoando através das ruínas da cidade.

- O QUE ACONTECEU?

- CORRE! - Gritou Malik, saindo em disparada.

Não demorou questões de segundos para eles aparecerem em grandes bandos após detectarem nossa presença. Corremos até uma fábrica, onde escalamos até o telhado.

- BLOQUEIE OUTRAS ESCADAS! EU CUIDO DESSAS! - Gritou Malik.

- CERTO!

Ele atirava com tamanha destreza e precisão. Todas as balas acertavam suas cabeças, sem errar sequer uma. Eu tentava meu melhor ao interceptar as outras duas escadas. Eventualmente, os zumbis restantes fugiram, deixando nós dois sozinhos no telhado.

- Eles morrem mesmo com um tiro na cabeça!

- Morrem mais facilmente nesse ponto. Devemos fugir agora mesmo enquanto há tempo. Eles provavelmente voltarão com mais.

- MAIS?!

- Sim. É por isso que devemos sair daqui agora.

- O Host e o Shifter parecem funcionar perfeitamente até mesmo no segundo nível, como era o esperado desde o primeiro experimento de nível um...

Eu virei para a fonte da voz, e me deparei com Shimano parado no mesmo telhado que nós.

- SHIMANO! PARE COM ISSO! - Gritei.

- Quem é ele? - Perguntou Malik.

O tempo não havia parado como antes no meu sonho anterior.

- Você lembrou meu suposto nome? Isso é curioso... deveria ter esquecido... ou será que voltando à outra experiência o faz lembrar dos eventos passados...?

- PARE DE INVADIR OS SONHOS DOS OUTROS! AGORA! - Apontei a ele minha espingarda.

- Infelizmente, isso é algo que apenas eu posso decidir, e ainda preciso fazer mais testes. Este, por exemplo, servirá como base para saber se o Host e o Shifter podem ser controlados da mesma forma no segundo nível da Dreamshifter...

- NÃO ME OBRIGUE A ATIRAR EM VOCÊ!

- Este universo está sob meu controle, já lhe disse. Eu testarei primeiro o seu amigo. - Apontou para Malik, e ao fazê-lo, vários zumbis surgiram do além para lhe devorar.

- ATIRE NELES EDGARD! ATIRA! - Gritava ele enquanto lutava com ferocidade contra os mesmos. Ele urrava e gritava de dor ao ter a carne rasgada e arrancada do corpo pelas unhas e dentes dos mortos, em completo desespero.

- DESGRAÇADOS! - Eu atirei em todos eles, matando-os. Mas parecia tarde demais, pois Malik já se encontrava ao chão, moribundo e com o rosto carcomido e partes dos membros faltando.

O universo parecia se desmanchar, como se fosse um grande quebra-cabeça.

- Novamente, quando o Host morre, o universo se desmancha também... não é variável...

- SE ELE MORRE... ENTÃO VOCÊ TAMBÉM PODE!!!

Atirei com minha espingarda bem em sua cabeça. Um buraco fora formado com a potência do tiro...

...mas ele não cambaleou, nem se mexeu ou gritou de dor.

- As pessoas têm uma tendência indubitável em lutar contra uma ameaça quando não se encontram inermes...

A bala, toda ensanguentada após ter sido cravado em sua cabeça, agora era puxada de seu crânio com uma força invisível, como se fosse telepatia. Ao ser completamente removida, o ferimento se fechou.

- NÃO! NÃO PODE SER! EU NÃO...

- Volte para a escuridão novamente, Edgard.

E a bala fora enviada de volta à mim. Após isso, apenas a escuridão enxergava, novamente...

...

...

...


Notas Finais


Let's geting up - Vamos levantando \ Well - Bem\Bom, em inglês.
Petit-déjeuner - Café da manhã. \ Malade - Doente \ À plus tard - Até mais tarde \ Messiê - Senhor \ Manger - Comer, em francês.
Hai - Sim, em japonês.


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