História Drunk in Love - Capítulo 7


Escrita por: ~

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Categorias Demi Lovato, Selena Gomez
Personagens Demi Lovato, Selena Gomez
Tags Demi, Demi Lovato, Lesbian, Lesbian For Demi, Lesbian For Selena, Selena, Selena Gomez, Semi
Exibições 328
Palavras 9.237
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, FemmeSlash, Festa, Ficção, Hentai, Mistério, Musical (Songfic), Poesias, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência, Yuri
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Oi. <3

Capítulo 7 - Errando


                                                                Capítulo 5 - Errando

                                                                        Selena Gomez



 

   O dia poderia ser bom e bonito.

   Eu havia acordado no horário.

   Sem atrasos, sem estresse, sem nervosismo, sem desespero.

   Cedo.

   Cinco minutos e eu estava de pé.

   Meu lençol não me atrapalhou. Meus dedos ficaram bem longe da mobília. Meu banho havia sido rápido, mas não apressado.

    Estava na cozinha quando ouvi Dallas gritar do banheiro: "Compre meu diafragma! O dinheiro está em cima da mesa!"

    O que diabos era diafragma?

    Peguei o dinheiro sobre a mesa, calculando o tempo que demoraria no mercado e no ônibus. Chegando á maravilhosa conclusão de que seria impossível me atrasar naquele dia.

    Estava tudo dando certo.

    Eu tive certeza.

    Uma certeza que permaneceu desde o momento em que eu peguei o primeiro e o segundo ônibus, chegando ao estacionamento do supermercado. Permaneceu enquanto eu atravessava os portões calmamente, enquanto passava pelas prateleiras, enquanto passava pela mulher vermelha, enquanto a mulher vermelha me parava me cutucado sem parar no braço...

    - Perdão? - perguntei, constrangida.

    - Eu trabalho aqui. - apontou para si mesma, orgulhosa. - E irei atendê-la.

    Aahh...tá.

    Tossi baixinho, reparando no quanto seu cabelo era forçadamente vermelho, num tom semelhante ao de uma peruca - coisa que eu não duvidava que fosse. Sua maquiagem preta havia sido aplicada mais em baixo que em cima, lhe deixando semelhante a um urso panda.

    Muito elegante.

    Tinha um sorriso pequeno. De quem achava que sabia de mais.

    - Obrigada. - sorri, sem graça. Voltando a olhar a prateleira.

    Diafragma, diafragma, diafrag...

    Aonde eu acharia um negócio desse? O que deveria ser?

    Diafragma...nem parecia nome de gente.

    Parecia nome de um daqueles alimentos sem glúten.

    Eu devia procurar na área dos alimentos dietéticos.

    Isso, faça isso.

    Caminhei sozinha até a área, mas senti que estava sendo seguida pela panda vermelha.

     Isso para mim não era problema.

     O grande problema pra mim havia sido quando passei entre as duas prateleiras e vi uma criatura tentando enfiar o peixe na garrafa de água.

     A velha maluca.

     - Senhora...não faz isso senhora. - a atendente resolveu se mostrar útil.

     Ainda não gosto de você...

     Mas mandou bem.

     Expulsa a velha, expulsa a velha, expulsa a velh...

     - O que disse?

     Eu disse aquilo em voz alta?

   - Nada. - tossi.

   Se mantenha calada, sua biruta.

   Desculpa.

   - Ele está morto! - apontou para o peixe, arregalando os olhos azuis.

   Ai, Deus.

   Andei, me afastando daquelas duas figuras peculiares.

   Não queria ser vista naquele meio.

   A moça esfregou as têmporas antes de se virar pra mim.

   - O QUE QUERIA MESMO? - gritou, para que eu a ouvisse naquela distância.

   Queria fingir não ouvir e sair, mas a minha educação plastificada não permitia.

   - QUERO UM DIAFRAGMA. - gritei de volta.

   Podia parecer estranho, mas as pessoas pareciam estar todas olhando para mim depois daquela frase. Talvez por eu ter gritado do nada. 

    É, deve ser isso.

    Vi uma moça me olhar feio, puxando sua filha pelo braço.

    Olhei para a minha própria roupa, não vendo nada de errado.

    A velha maldita apontou e riu.

    Aqueles dedinhos infernais.

    Joguei minha bolsa em sua direção para que parasse. Os olhares sobre mim piorando na intensidade.

    Abaixei a cabeça.

    Ninguém viu.

    Não aconteceu.

    A moça ficou fazendo movimentos com as mãos e com os braços, tentando me dizer algo.

    - Borboleta? - perguntei e ela fez mais rápido - Lagarta?

    A moça bateu a mão na testa com força.

    - Mosca?

    Por quê estávamos brincando de mímica mesmo?

    Fez um sinal pra que eu calasse a boca e eu quis mandar que ela mesma calasse, mas notei que ela estava muda a muito tempo.

   Ouvi uma risada e olhando ao redor, notei que tinha mais gente olhando.

   Inclusive um cara que tinha a cabeça semelhante a um cotonete.

   Perdi a paciência.

   - O QUE É? - disse, talvez alto demais.

   Olhou para cima, respirando fundo. Desistindo de mim.

   Quando pareceu ter uma ideia genial.

    Me jogou uma embalagem com algo, que estava dentro de sua bolsa.

    Peguei.

    Parecia uma anel gigante com algo de plástico ou látex no meio.

    Mas que porra é essa?

     Abri a embalagem.

     Um murmurinho bem do meu lado. 

     Qual era o problema daquelas pessoas?

     Mas que negócio mais inútil. Aonde eu guardaria aquilo?

     Dallas está ficando maluca.

     - Aonde vou enfiar isso daqui? - perguntei.

    Uma mulher gritou, rindo.

    Olhei feio.

    Parecia que tinha levado uma facada.

    Coloquei no olho, tentando descobrir sua função.

    O girei, olhando.

    - Você é burra! - o cara abaixou a cabeça rindo.

    - E você tem cabeça de cotonete.

    Parou de rir, olhando sério pra mim.

    A moça vermelha se fez ouvir mais uma vez.

    - Isso é comprado num gineco...

    - Pra quê serve isso?! - atropelei sua resposta.

    A moça bateu na própria testa e eu me perguntei se estava fazendo algo de errado ou se havia uma mosca para matar ali.

    A moça estava apontando pra baixo o tempo inteiro e eu não estava entendendo nada.

    Pare de ser idiota! Quis gritar pra ela. 

    Mas não o fiz. Apenas a olhando confusa.

    - ENFIA NO MEIO DA SUA VAGINA! - perdeu a paciência de vez.

   Parei. Arregalando meus olhos para ela.

   Foi quando enfim entendi o que ela estava tentando me dizer.

   Por isso apontava para baixo. Estava apontando para lá.

   Ai, caramba.

   Selena, eu vou te bater!

   Eu estava completamente vermelha. Mais do que a mulher.

   Carma, só pode.

   Olhei ao meu redor. Todo mundo me olhando.

   Todo mundo.

   Todos.

   Você me paga, Dallas.

   Filha da puta.

   Vai ter volta.

   Observei minhas mãos e senti a ausência da minha bolsa.

   Forcei a memória e lembrei que havia a jogado discretamente no meu pequeno momento de confusão interna. Uma idiotice, pensando no fato de que aquela bolsa tinha tudo da minha vida e sem ela estava tudo acabado.

   Mas é claro a vendedora deve ter pegad...

   Espera.

   Não há vendedores em mercados.

   As pessoas compram o que querem e pagam, simples. Ninguém te atende separadamente.

   Nunca.

   Ninguém nunca atende separadamente.

   E se isso ocorresse, não seria cedido a mim essa exclusividade.

   Meu coração já batia em meus ouvidos.

   Quem poderia ser?

   Minha garganta parecia ter sido fechada.

   Por quê?!

   Um cabelo forçadamente ruivo.

   Uma peruca.

    A ansiedade parecia querer sair do meu corpo através de tremidas na minha perna.

    Os olhos pretos embaixo. Como um panda. 

    Justamente para torná-la irreconhecível.

   Vi minha visão ficar turva, quando olhei logo a minha frente.

   Ninguém.

   Engoli em seco, me sentindo o ser mais patético do mundo.

   As pessoas não prestavam mais atenção em mim. Não estava nem aí.

   Típicos cidadãos de Joutech Blue.

   O clima leve de antes havia se tornado o mais pesado possível.

   Olhei para trás assustada, meu coração explodindo em batidas dentro do peito, vendo a mulher já saindo com minha bolsa, que continha todos os meus documentos.

 

 

 

 

 

 

 

   - Selena, precisamos ir! - Pam puxou meu braço na direção oposta e tudo o que eu consegui fazer foi seguir - Estamos atrasadas!

   - O quê? Pra quê?

   - Reunião. - já estávamos nos aproximando do corredor.

   O que não impediu a minha ansiedade de me corroer.

   Minha vontade de cair dura e morrer voltou.

   - Reunião? Que reunião? - estávamos a um passo da porta - Por que ninguém me avisou da reunião?

   - Ah, ah! - balançou o dedo pra mim, didática - Te enviei trocentas mensagens em seu buenny, defeito seu não visualizá-las.

   Ah...o buenny.

   O tal aparelho que eu tinha que olhar a cada hora ou minha vida estava destruída.

   Tentei me explicar, mas não tive tempo de dizer nada, pois Pam já havia adentrado a porta, me trazendo junto.

   Todos os olhares sobre mim.

   Todos.

   Tudo o que eu queria evitar.

    Estava acontecendo de novo.

    Justamente o que eu mais temia depois da "troca de olhares" que havia acontecido ontem, antes de eu me jogar no chão e correr fingindo que não estava observando minha chefe escondida.

   Pam respirou fundo, como as pessoas responsáveis faziam, pedindo licença, sendo consentida imediatamente pela mulher ruiva e de expressão séria á sua frente.

   Caminhei atrás seguindo os passos de Pam.

   - Você não. - intensa.

   Parei.

   Era, era...

   Era...comigo?

   Perdendo o ar.

   Virei o rosto o mais devagar possível.

    - S-s-sim? - balancei a cabeça internamente, me perguntando que droga havia falado.

    - Não pensei que além de inteligência limitada tivesse problemas auditivos, senhorita.

    Recuei.

    O quê?

    Estava mesmo falando comigo?

    Era sobre ontem? Ai meu Deus!

    Por Lilly.

    Ela iria gritar o que aconteceu ontem na frente de todos?

    Abri a boca e tentei falar. Talvez tivesse passado tempo demais tremendo e pronunciando palavras incompreensíveis, pois logo ouvi alguém pigarrear próximo a mim e a voz de Pam se fazer ouvir.

   - Ahn...senhorita. Acho que ela não sabe exatamente o que a senhorita queria...

   - O que eu queria? - levantou uma sobrancelha pra ela, os lábios entre os dentes - Queria que ás duas da manhã, quando lhe avisei pelo buenny, que ela tivesse saído de casa e comparecido á reunião que estava acontecendo. Queria que tivesse passado na xerox e trazido todos os documentos necessários, juntamente com meu café quente. Queria que tivesse o mínimo de responsabilidade.

   Duas da manhã.

   Ela havia me avisado algo pelo buenny ás duas e esperava que eu fosse imediatamente.

   Eu não compareci á reunião.

   A reunião deve ter sido adiada para agora, como está acontecendo.

   Senti minha perna fraquejar, senti que poderia cair a qualquer momento.

   Não sabia pelo o que me desesperar primeiro.

   Não havia jeito. Não dava pra dizer nada.

   Queria chorar.

   Pam abriu a boca para ditar alguma defesa para mim, mas ela não deixou que continuasse com um só olhar.

   - Não defenda-a. É tão irresponsável quanto ela.

   Pam arregalou os olhos e lhe olhou como se fosse a pior coisa que havia ouvido em toda a sua vida.

   Eu não conseguia pensar.

   Me sentia ofendida.

   Humilhada.

   E principalmente exausta.

   O dia não seria bom, mais uma vez, pra variar.

   Eu havia acordado no horário.

   Sem atrasos, sem estresse, sem nervosismo, sem desespero.

   Mas mesmo assim ela encontrara razões para brigar comigo.

   Ainda estava de pé quando a porta fora aberta num estrondo, levando a atenção de todos para aquele ponto - ou pessoa - em específico.

   Eu ainda não havia olhado, estava presa em algum universo paralelo, como fazia o tempo todo.

   Quando notei o peso do clima, ergui o olhar, engolindo em seco imediatamente.

    Olhos verdes.

    Era o símbolo do caos, da desordem.

    Senti uma luz chegar á minha memória como algo celestial.

    Eu sabia quem era.

    Eu já havia visto.

    Era a mesma pessoa que estava presente no momento constrangedor de embriaguez de Dallas.

    Assim como estava presente na cafeteria. Naquele momento assustador.

    Era ela.

    Ela.

    Exatamente ela que fez Dallas chorar, achando ser sua amiga.

    Demi também lhe observava.

    Ela não gostava do que via. Não gostava dela.

    Eu via em seu olhar.

    Enquanto isso, a nova pessoa do ambiente havia sentado rudemente sobre uma cadeira distante de todos, próxima a um computador, ignorando a presença de todos, num ato rebelde, quase criminoso - levanto em conta as rígidas regras da empresa.

   Esperei que fosse demitida.

   Esperei que a senhorita Lovato parasse em sua frente e lhe ensinasse que não era daquela forma que se portava ali.

   Esperei que aumentasse seu tom de voz e lhe humilhasse na frente de todos.

   Que falasse com ela exatamente como falou comigo.

   Mas ela apenas suspirou e disse:

   - Vamos encerar por aqui.

 

 

 

                                               ****************************

 

 

 

 

    Elas estavam naquela a quase dez minutos.

    Um jogo duro.

    Sem perdedores.

    Frio.

    Ninguém havia notado.

    Ninguém que não fosse a pessoa mais desatenta e atrapalhada daquele lugar.

    Eu havia visto.

    A senhorita Lovato estava parada próxima a recepção. Os braços apoiados ao balcão e seus olhos fulminantes focados na coluna próxima á saída. E com as costas apoiadas contra a coluna e os braços cruzados, estava nada mais e nada menos que a moça de olhos verdes.

    Elas se encaravam firme.

    Como numa competição.

    Uma competição da qual só ganharia quem enchesse a outra de medo e pânico o suficiente para que desviasse o olhar. O que não aconteceu.

    Voltei minha atenção para a moça de olhos verdes.

    Como era possível alguém conseguir se manter firme daquela forma sendo encarada por nada mais e nada menos que a senhorita Lovato?

    Como ela conseguia?

    Quem era ela?

    Pigarreei, olhando para o meu computador com um folder incompleto á minha frente. Me lembrava do que havia acabado de acontecer na sala de conferências e me perguntava o que diabos estava acontecendo.

    Eu sabia que estava pensando demais sobre aquilo e que se não perguntasse logo a alguém iria acabar enlouquecendo.

    Ao mesmo passo que sabia que se perguntasse a alguém, achariam que eu estava ficando louca.

    Mas entre as duas alternativas, eu preferi ignorar o que os outros pensavam, afinal.

    Minha curiosidade decidiu por mim, na verdade.

    E a vítima foi Pam, que estava localizada ao meu lado, em meio aquelas mesas próximas á recepção.

    - Não sei, concentre-se no seu folder. - foi o que a vagabunda respondeu.

    - Mas eu queria sab...

    - Não importa, concentre-se no folder.

    - Mas o...

    - Selena. - ameaçadora - Folder.

    Arregalei os olhos pra ela.

    - Não vou deixar que trabalhe. - puxei os documentos que estava assinando de suas mãos.

    - Selena - cerrou os olhos pra mim - Devolva isso agora!

    Cruzei os braços, os olhos fechados e um  "lá-lá-lá"  repetitivo sendo cantarolado por minha boca.

    - Não brinque com isso! - reclamou, tentando tomá-los de minhas mãos enquanto eu fazia uma dancinha, me requebrando de olhos fechados com o papel.

    - Quantos anos tem? - rosnou, impaciente.

    Brincadeiras infantis eram o ponto fraco da maioria das pessoas com QI alto como o de Pam.

    - Quantos você quiser. - mostrei a língua.

    - Certo. Você venceu. Ha-ha-ha, conseguiu me irritar. Ok, agora me devolva o me...

    - An, an. - levantei meu dedo didático pra ela também - Antes quero saber sobr...

    - Tá, tá. - puxou os documentos de minhas mãos, como se fossem seu bem mais precioso - O que exatamente quer saber?

    - O que você souber. - dei de ombros, também não fazendo ideia do que queria.

   Só sabia que havia um transtorno obsessivo compulsivo que não deixaria que eu dormisse essa noite sem saber.

    Respirou fundo, voltando a escrever enquanto falava. Eu também havia voltado para o meu folder, mas não sem antes dar uma olhada na recepção, da qual já estava vazia, assim como a coluna próxima á saída.

    Chequei mesmo, me deixa.

    - Foi algo no passado. Ninguém sabe ao certo. Algo imperdoável aconteceu.

    -  Imperdoável?

    - Isso. - respondeu - Mas, como eu disse, ninguém sabe ao certo. Foi um grande problema que nenhum funcionário ficou sabendo. As duas eram amigas, uma daquelas amizades de anos de companheirismo e segredos guardados. Quando do nada, não se falavam mais, não interagiam, se odiavam. Skye sumiu da empresa por um tempo também.

   Skye.

   Então esse era o seu nome?

   Skye?

   - Não se sabe porque voltou e vejamos, porque foi aceita de volta, afinal. - estava falando rápido, como fazia quando estava muito centrada em seu serviço - Retinir tem "r" no final. - disse e eu voltei a prestar atenção no que estava digitando. A linha vermelha logo abaixo da maioria das palavras, indicando que eu, em minha falta de atenção, estava escrevendo tudo errado.

   - Ah, desculpe. - me apressei para arrumar.

   - Não diga "desculpe" quando deve dizer "obrigada". - piscou para mim, inteligente. E eu parei para observar o além e tentar absolver aquele conselho.

   Pam tinha os melhores conselhos. sempre.

   Sempre sabia o que dizer. E não dizia com maldade.

   Estava sempre ali para me dizer algo bom, que me ajudaria na vida, que me protegeria. Sempre queria o meu bem.

   E havia sido por isso que o que disse logo a seguir, me fez tremer com tanta intensidade e parar tudo o que estava fazendo:

   - Fique longe da senhorita Lovato. Por favor. - respirou fundo, enquanto eu prendia o ar - Eu sei o que está pensando, mas....eu só quero evitar que... - balançou a cabeça - Não quero que tenha um fim semelhante ao de...

   Meus ouvidos estavam apontados em sua direção, mas eu estava paralisada.

   Queria ouvir como sua frase terminaria.

    Precisava ouvir.

    Nem me mexia.

    Mas ela pareceu achar não ser uma boa ideia o fazê-lo. Por isso não terminou.

    Por isso se levantou e foi para algum lugar, mesmo sendo a pessoa mais compromissada naquela empresa e que jamais tirava tempo de descanso em horário de expediente.

   A situação era tensa.

   E eu me concentrei no computador á minha frente com milhões de coisas passando rapidamente por minha cabeça.

   Senti um aperto no peito.

   Minha bolsa.

   A falta que ele fazia.

   Eu digitei freneticamente por uns cinco minutos, mesmo sabendo que teria que apagar tudo de novo. Já que aquele trabalho exigia perfeccionismo.

   Senti Pam se sentando ao meu lado novamente.

   - Eu queria saber como termina a frase, Pam. - liberei minha voz devagar, em meio a um suspiro trêmulo - Sei que é errado me enfiar na vida da minha chefe dessa forma, mas... - me virei devagar para ela, parando imediatamente.

   Os cabelos esvoaçantes.

   O vermelho vivo gritante.

   O sorriso provocador e debochado.

   O batom vermelho.

   Ninguém menos que Chloe Coelho.

   Parei, esperando que ela dissesse algo e ignorasse toda aquela frase.

   - Anda se enfiando na vida de sua chefe, Gomez? - ainda estava rindo, enquanto eu me mantinha totalmente sem graça e desconcertada - E o que mais faz? Ela tem conhecimento disso?

   Passei as mãos pelos meus cabelos.

    Nunca seria capaz de soar rude ou grossa.

    Então o que escapou por minha boca foi mais como um sussurro incompreensível:

    - O que quer?

    Estava rindo novamente. Bem na minha cara.

    Enquanto eu me paralisava frente á sua reação.

    - Não precisa assumir essa pose defensiva, Selena. - tocou meu braço, falsa - Logo estará fora mesmo, não é? - seu tom havia sido forçadamente meigo.

    Engoli em seco.

    Não gostava daquilo.

    - Não pensa que uma pessoa sem talento algum chegará a algum lugar aqui, pensa?

    Engoli em seco mais uma vez.

    Não conseguia acreditar no que estava acontecendo.

    Nem no que estava ouvindo.

    E nem em como estava me atingindo.

    Se levantou, cautelosa.

    Eu desejei que alguém surgisse ali, do além e me defendesse. Que Dallas atravessasse os portões e puxasse aqueles cabelos, lhe arrastando pelo chão. Já que nunca conseguia o fazê-lo.

    - E-eu...n-n-não entend...

    - Nunca entende. Esse é o seu problema. - apontou o dedo para o próprio cabelo, apoiando os dois braços sobre a mesa - Não pensa.

    - O que quer? - repeti a pergunta a garganta apertando, o nervosismo chegando, a visão embaçando.

   Estava prestes a chorar.

   E me odiei por isso.

   Queria ser forte.

   Mas era fraca.

   Todos os dias dizia a mim mesma que seria mais forte, que enfrentaria todos os meus problemas, que passaria a me amar...

   Mas no fim, era isso.

   Eu era isso.

   Era sempre assim.

   Ela tinha razão, no fim das contas.

   - Sabe por que ela te contratou, meu bem? - se abaixou, a boca chegando ao nível de minha orelha, seu tom de voz diminuindo gradativamente - Por pena. Por que ela sabia que não tem onde cair morta. Todos sabem da desgraça de sua família por aqui.

   Eu havia ouvido sua risada cruel.

   Havia sentido-a se andar e se afastar, ainda sentada na cadeira.

   Seu ataque não havia durado nem cinco minutos.

   Mas eu sentia que não esqueceria daquilo por nem um segundo do meu dia.

 

 

 

                                                            ***********************

 

 

 

 

    Havia uma bacia de bolo bem na minha mão.

    Eu queria comê-lo todo de uma vez, em uma só mordida.

    Mas não era meu.

    O maldito não me pertencia.

    Senti aquele buenny de satanás vibrando pela quarta vez desde que eu havia arriscado subir aquelas escadas.

    Não sabia se ela estava com raiva de mim.

    Ou se submetia esse tipo de constrangimento á todos ali.

    O caso era que ela havia decidido que além de obedecer suas ordens super fáceis, eu obedeceria todas as pessoas de qualquer cargo acima do meu. Inclusive Chloe Coelho, o que era humilhante.

    O buenny vibrou mais uma vez.

    Eu iria ficar louca.

    Iria vestir uma roupa branca e sair correndo pela empresa com os braços pra cima.

    Era o que eu queria.

    Eu teria que entrar no depósito para entregar o bolo. Aquele ambiente estranho que haviam me falado algumas vezes.

    Eu não queria entregar o bolo.

    Queria comê-lo.

     Mas não vai, sua ridícula. 

     Mas me parecia tão tentador...

    Aquieta criatura infernal!

    Ok. Eu tenho razão.

    Não vou fazer isso.

    Não vou fazer, não vou fazer, não vou faze...

    - ABRAM A PORTA! - gritei. educada.

    Ninguém.

    Chutei devagarzinho com o pé.

    Nada.

    Cutuquei a porta com o braço, ainda segurando o bolo. 

    Como uma minhoca se coçando.

    Nadinha.

    Empurrei com a perna.

    Menos.

    Ah...foda-se.

    Eu empurrei a porta.

    Com o bolo.

    E o corpo foi junto.

    Como uma gigante bola de demolição.

     E a porta dessa vez se abriu na maior facilidade, como se tivesse sido programada a vida toda pra isso pra isso.

     A ingrata.

     Me ergui do chão, minhas pernas doendo pela trigésima queda que já havia tido nas últimas trinta e duas horas. A porta se fechando atrás de mim.

     Tudo estava escuro. Completamente.

     Não era uma reunião, como haviam me avisado.

     Não tinham vinte pessoas, como haviam me avisado.

     Não era um lugar cheio de tecnologias e livros, como haviam me avisado.

     Só havia uma alternativa.

     Aquele não era o depósito.

     Bati a mão na testa querendo me socar.

     Minha mão estava cheia de bolo.

     O bolo sujou toda a minha cara.

     Selena, você é retardada.

     Joguei aquela caixa no chão, com todo o ódio possível.

     Mas o que se passou a seguir, destruiu todas as minhas estruturas.

     Eu não estava sozinha ali.

     Uma cadeira em um canto iluminado. Um computador. Dedos que digitavam algo freneticamente. A concentração evidente.

    A moça de olhos verdes.

    A calma havia abandonado o meu corpo.

    Sentia tudo tremer e encolher.

    Minha boca seca.

    Me virei, desnorteada, para a porta.

    Girei a maçaneta ainda tentando descobrir como me livrar daquela situação.

    Falhei.

    Agora meus olhos estavam arregalados como duas bolas de sinuca.

    Eu estava trancada.

    Quem diabos havia feito aquilo? Eu estava sozinha com ela?

    Me virei, em completo desespero silencioso.

    Mas foi o que eu vi no fundo da sala que me matou.

    A senhorita Lovato tinha a atenção completamente voltada para o livro á sua frente, na pequena mesa redonda em que se encontrava sozinha. Era tudo o que lhe iluminava.

    O meu fim.

    Me engasguei.

    Coloquei as mãos na boca para conter, com força, que aquela tosse fosse ouvida por qualquer pessoa no ambiente.

    Minha mão cheia de bolo.

    Qual o seu problema, imbecil?

    Me virei para aquela porta ridícula pela segunda vez. Dessa vez com o dobro de medo e tremedeira.

    Girei a maçaneta várias vezes.

    Eu estava em perigo.

    Olhei meu buenny com agilidade, tensa, reparando na mensagem que havia recebido enquanto subia as escadas.

    "SOCORRO! Um boy maravilhoso no terceiro andar, vamos???" 

    Brian.

    O inútil.

    Filho da puta.

    Te odeio.

    Observei a cena atrás de mim.

    As duas.

    Sozinhas.

    Naquele escuro.

    Sem dizer uma só palavra.

    Nunca havia me enfiado em ambiente mais tenso que aquele.

    O clima era semelhante ao de um enterro.

    A moça de olhos verdes imprimia algo cautelosamente no computador.

    A senhorita Lovato havia desviado o olhar por meio segundo de seu livro, descruzou as pernas lentamente, o espaço entre as suas coxas sedutoramente atraindo minha atenção.

    Minha vontade era fechar os olhos e gozar.

    Ambas se olharam por aquele meio segundo.

    Pensei que diriam algo.

    Esperei que dissessem algo.

    Mas eu vi desprezo, ódio e indiferença. Muito de longe.

    Elas se odiavam.

    Voltei minha atenção para o buenny.

     "Brian...me salva." parei pra observar o local, logo voltando a digitar "Eu to bem presa."

      Por que se odiavam? Como era possível?

      Como a senhorita Lovato poderia manter uma funcionária, da qual odiava, na empresa?

       Ela era uma funcionária?

       Imediatamente me lembrei do olhar que as duas trocaram enquanto eu estava ao lado de Dallas e Sam, aquele dia.

   Observei de longe o papel que estava sendo imprimido pela Olhos Verdes.

    Mantinha uma expressão imparcial enquanto as folhas brancas refletiam em seus olhos.

   Era completamente branco e toda a informação era escrita por grandes letras pretas. Era estranho algum tipo de aviso estar sendo imprimido, quando há uma tecnologia de aviso como o buenny na empresa.

   Pareciam querer dar um tom especial para aquilo.

   Como se fosse algo que jamais deveria ser ignorado ou esquecido.

   Observei o papel em sua mão com atenção, forçando a vista, apenas para reparar que havia uma pilha com papéis semelhantes um pouco á minha frente.

    Me aproximei cautelosamente para ler.

    Não era um aviso.

    Era uma informação.

    Elas anunciariam uma promoção ainda hoje.

    Uma promoção que serviria para qualquer funcionário, de qualquer cargo, para subir. Ganhar um melhor salário e subir de cargo.

    A grande chance.

    A minha chance.

    Não me leve a mal.

    Eu estava tremendo. Estava com medo. Me sentia em perigo.

    Mas quando se está endividada até o pescoço, algo assim é capaz de causar um calorzinho no peito sim.

    No meu caso, eu estava em chamas.

    Mal podia esperar pra contar para Dallas que talvez nós conseguiríamos sair daquela situação. Mesmo que ela tenha escolhido não dividir aquele problema comigo.

    Eu precisava impressionar.

    E espiando as duas escondida eu não conseguiria nada além de uma demissão.

    Eu precisava sair.

    Agora.

    Vamos!

    Observei os meus arredores. Estava na maior escuridão.

    Senti que devia fugir.

    Mas não sabia como.

    Eu sentia o clima esfriando.

    O fato de duas pessoas - incrivelmente sedutoras - estarem no mesmo ambiente há mais de trinta minutos, sem dizerem nada e se encarando com ódio e repulsa me deixava em pânico.

    A moça de olhos verdes tinha um colar no pescoço. Pequenas fitas que eram capazes de atrair toda a atenção para aquela área tão alva. O colar contrastava perfeitamente com o tom claro de seus olhos e com a jaqueta de couro de usava. Não era a melhor combinação para se usar com uma saia social preta e a camisa branca, justa e de mangas compridas que usava. Mas aquilo lhe dava um ar de desordem e sedução que eram quase hipnotizantes. Era quase como se houvesse uma aura sexual e do do mais puro rock n' roll lhe rodeando.

    Sentava numa pose que esbanjava rebeldia, originalidade e causava arrepios e admiração. Eu podia perfeitamente admirar e desejar seguir aquele peculiar e diferente estilo de vida baseado em roupas pretas e ignorar regras e imposições.

    Me lembrei da reunião e de como Demi reagiu aquela desobediência.

    Eu não conseguia engolir o fato de ela não ter feito nada.

    Não conseguia.

   Ao mesmo tempo em que não tinha a mínima noção de quem seja aquela nova pessoa de olhos verdes. Apenas sabia que ela me intrigava.

   E causava raiva na senhorita Lovato.

   Raiva que por alguma razão não era exposta em público.

   A senhorita Lovato tinha as pernas cruzadas novamente.

   O sexo e a dominação pareciam estar presentes em seu modo de sentar, levantar, observar, pôr a caneta entre os lábios e até respirar.

   Tudo nela emanava sexo.

   Diferente da moça de olhos verdes, que apenas transmitia uma aura.

   Seu olhar era intenso e certeiro. Ia diretamente aonde constrangia e eu tinha a leve desconfiança de que fazia aquilo de propósito: não é possível que alguém consiga olhar e captar justos os pontos que são capazes de deixar até a mais obscena das pessoas corada e quente. Seus dedos roçavam na madeira dura da mesa, eu só podia imaginá-los se enfiando entre as coxas de alguém, chegando á vagina, tão certos, movimentos tão profundos, tão intensos.

   Sentia-me tremer só de observá-la.

   Sentia toda a sua intensidade, mesmo naquela distância.

   Devolvi a folha da promoção ao seu lugar, decidida a ir até a porta ou me esconder de vez.

   Só não esperava sentir uma estrutura firme e dura logo abaixo da mesma.

   Tirei as folhas, uma por uma, vendo que havia algo logo abaixo.

   As folhas com o anúncio da promoção.

   Não estavam ali por acaso.

   Estavam ali para esconder algo.

   Um livro, mais especificamente.

   Passei meus olhos rapidamente por cada detalhe.

   Senti minha garganta secar quase que de imediato.

   Era o livro preto que a senhorita Lovato sempre carregava.

   Sentia a força e a coragem abandonando o meu corpo.

    Eu não devia fazer isso.

    Eu devia correr.

    Eu devia entrar em pânico e sair dali.

    Mas meu corpo não me obedecia.

    É a sua única chance de saber o que, exatamente, tem aí.

    Era tão...tentador.

    Troquei os pés enquanto decidia o que fazer.

    Mas a primeira página já estava entre meus dedos e eu me vi lendo a dedicatória.

    O nervosismo subia por toda a extensão da minha pele.

    Eu sentia um frio na barriga incontrolável.

    As palavras passavam por meus olhos, me fazendo quase despencar no chão.

    "Me pegaram. E pegaram ela também.

    E...ela era só uma criança.

   Tão cruel como não devia ser. Eu sinto que eu vou morrer.

   Você precisa me encontrar! Minha localização está entre as palavras do livro. Atenção!

   É a minha última esperança, amor."

   Amor.

   Amor?

   Amor.

   Amor!

   As palavras se misturavam em minha cabeça.

   Amor.

   Eu nunca me esqueceria.

   Não me esqueceria daquele momento.

   Minha respiração alta.

   O coração pulsando.

   Quem diabos iria chamá-la ass...?

    Meus olhos se arregalaram mais uma vez.

    Eu iria desmaiar.

    Ai, Deus. Como eu ia.

    Iria passar mal.

    Iria agora.

    Amor. É claro!

    Era a ex de Demi que haviam me falado.

    A que sumiu sem nenhuma explicação.

    Minha mão se enfiou entre os meus cabelos.

    Sem explicação? Ela havia sido levada!

    Levada.

    Por pessoas cruéis.

    E havia uma criança.

    Senti minhas vistas embaçarem.

    Lembrei das palavras de Pam. 

    Eu sei o que está pensando, mas....eu só quero evitar que... 

    As palavras que ela não conseguiu completar.

    Algo doeu profundamente dentro de mim.

    Algo me incomodou.

    Um aperto. 

    Não quero que tenha um fim semelhante ao de...

    Eu sabia o fim daquela frase.

    Sabia perfeitamente.

    Infelizmente eu sabia.

    Estavam em perigo.

    Sozinhas.

    Em perigo.

    Assim como eu estava agora...

    Meu Deus!

    Sentia meu corpo todo tremer e quase convulsionar.

    Concentrei todas as minhas forças na tarefa de segurar aquele livro, mesmo com meu corpo todo tremendo e formigando.

   Mas minha mão estava coberta pelo bolo...

   E o livro pesado escorregou por minhas mãos.

   O baque do contato do livro com o chão foi imediato.

   Assim como o olhar da senhorita Lovato e da Olhos Verdes, diretamente na minha direção.

   Voltei a olhar para o livro, sentindo o meu mundo completamente paralisado e embaçado.

    Era como se tudo estivesse em câmera lenta e algo tapasse meus ouvidos, pois eu não ouvia nada que não fosse os meus pensamentos desesperados gritando e entrando em pane.

    Eu só ficava tremendo.

    Sentia meu coração bem na minha mão.

    Ergui o olhar.

    Demi vinha em minha direção.

    Droga, droga, droga.

    Caralho, caralho, caralho.

    Ela iria gritar comigo.

    Iria perguntar porque diabos eu tinha me escondido ali por tanto tempo.

    Iria ver o livro próximo aos meus pés e iria paralisar.

    Iria me perguntar o que eu li. E como li.

    Eu estava fodida.

    Como nunca estive na vida.

    E não da forma boa.

    Eu esperava tanta coisa.

    Mas com certeza não esperava que ela passasse o olhar pelo livro e minhas mãos, como se já soubesse de tudo. Que me olhasse como se tivesse sentido minha presença desde o primeiro segundo em que eu adentrei o ambiente. Como se estivesse o tempo inteiro jogando comigo.

    Não esperava que passasse a língua pelos lábios e se aproximasse do meu corpo devagar, por trás, chegando a minha orelha enquanto eu só sabia tremer.

    - Senhorita Sirene. Da próxima vez que comer o bolo das pessoas escondida, ao menos lembre de limpar a prova do crime.

    Abaixei a cabeça, sentindo minha boca toda coberta por glacê branco.

    Desejei afundar minha cara no chão. 

    Ou no bolo.

    Eu havia paralisado enquanto refletia sobre muitas coisas.

    Dentre elas, eu questionava a minha incrível, irrefutável e profunda capacidade de ser trouxa.

 

 

 

 

                                                   *******************************

 

 

   A sala nem estava trancada, no fim das contas.

   Havia uma coisa presa entre a maçaneta, o que dificultava infinitamente de abrir estando com a mão cheia de bolo.

   E não era uma simples coisa.

   Era um anel.

   Eu havia visto o anel brilhando. 

   Era luminoso e bonito.

   Não o observei por muito tempo, sabia que não era certo pegá-lo pra mim.

   Mas peguei.

   Estava no meu dedo agora.

   Faziam quase duas horas desde que tudo havia acontecido.

   E eu ainda tremia da mesma forma.

   Ainda me perguntava o que havia acontecido ali.

   Ainda via os olhos verdes sempre que encarava qualquer parede e me perdia em pensamentos.

   Ainda sentia aquela boca na minha orelha novamente.

   Lembrava da palavra "amor" e sentia algo semelhante a uma bofetada afetando diretamente o meu coração.

   Queria chorar.

   Queria ir pra casa.

   Queria ficar sozinha, em qualquer cômodo, só pra chorar escondida.

   Iria soluçar, sem ser ouvida.

   Lembrei da promoção.

   Já havia bebido água três vezes.

   Já havia visitado a cafeteria oito.

   Contei e recontei meus passos em todas elas.

   Nada me acalmou.

   Nada ao menos me afastou daquele peso que era precisar impressionar alguém.

   Certo que eu sempre tive que fazer isso.

   Mas agora era...diferente.

   Eu tinha que impressionar pra valer. Precisava daquela vaga.

   Bebi aquele cappuccino que já estava no fim em um só gole, voltando a digitar freneticamente.

   O buenny vibrou.

   "Para de graça."

    Havia me assustado com a mensagem, olhando ao redor, notando que não havia ninguém próximo com qualquer aparelho em mãos.

    "Brian???"

    A resposta veio logo.

    "Olha ela."

     Inspirei.

     Era.

     "Aonde você está?" eu disse.

    "Eu estou em todos os lugares, querida."

    Levantei a cabeça, tentando disfarçar e fingir que estava trabalhando. Já era a vigésima vez que eu apagava todo aquele trabalho que custei tanto a escrever. Me desafiar a fazer aquele folder era sem dúvidas, a pior coisa que já tinham me proposto na vida. Ainda mais sendo proposto por ela, naquele fatídico dia.

    Agora mais do que nunca tudo nele tinha que sair perfeito.

    Mantive o foco, me esforçando pra que ficasse perfeito.

    Focada.

    Um murmurinho aqui.

    Focada.

    Um suspiro ali.

    Focada!

    Alguém tossiu.

    - Eles estão falando dela! - dei um salto digno de uma campeã olímpica, tremendo na cadeira. Me virando pra - mentalmente - xingar até a quinta geração da Pam.

   - O que disse? - perguntei, recuperando do susto.

   - Dela. Eles estão falando dela.

   Ela quem?

   Virei o rosto na direção que Pam olhava.

    Ah....

    Meu Deus.

    Deus.

    Alguns deles estavam de pé.

    Alguns ou muitos.

    Dependendo do seu ponto de vista.

    Estavam conversando.

    Imediatamente associei quem se tratava a ela. Porque ninguém falava em códigos se não fosse sobre ela.

    Estavam conversando, mas eu não queria ouvir.

    Não suportava mais.

    Todos a endeusavam ali.

    "Preciso saber o porque de todo esse exagero." 

    Não sabia até quando iria aguentar.

    Estava confusa.

    Trabalhando em pânico.

    Doía.

    A resposta veio logo.

    "Ela é simplesmente maravilhosa."

     Revirei os olhos.

     "É sério."

     Sua resposta me fez saber que ele estava em algum lugar, me vendo, naquele momento.

     "Brian, eles pararam o serviço. Pra falar dela."

     "Eu sei. Eu também parei!"

     Bati a mão na testa.

     "Com mais força você quebra sua mão."

     Cale a boca, seu ridículo.

     "Ok, o que eu perdi?"

     "A alguns anos atrás, a namorada dela..."

     "A ex que todos falam?"

     "Ela." digitou "Ela mesma."

     "O que tem?"

     "Ela disse que Demi tinha um talento especial para o Dirty Talking quando queria. Que tinha uma voz do sexo especial que era capaz de fazer qualquer uma estremecer completamente e esquecer o próprio nome. Que fazia isso em lugares inapropriados, que constrangia."

    "Isso não é razão para endeusar ninguém!"

     "Selena, cale a boca."

    Os murmurinhos aumentavam, estavam falando quase todos ao mesmo tempo. Ouvi algo sobre "maravilhosa" e "inacreditável". Mas ignorei.

    Não queria mais associar as duas palavras e nem formar uma frase com elas.

    Foquei no meu computador, digitando nervosa.

    Era difícil manter a atenção.

    O foco.

    Estava pensando no que faria com aquela droga daquele folder. Parecia impossível.

    Apaguei a terceira linha pelo que parecia ser a trigésima vez e enfim os murmurinhos pararam.

    Pam também havia calado a boca.

    Graças a Lilly.

    Levantei a cabeça para ver uma moça da diretoria dando uma bronca digna de mãe em todos aqueles incheridos.

    Mas não foi isso que eu vi.

    Nunca era o que eu esperava, não é?

    Eu a vi.

    Passou entre todas aquelas pessoas sem o minimo interesse.

    Usava uma blusa azul marinho que contrastava perfeitamente com sua pele clara. Tinha mangas compridas ao mesmo tempo que era justa ao corpo e decotada.

    Seus seios.

    Expostos logo acima.

    Grandes e apertados contra aquela blusa.

    Apetitosos.

    Eu me prenderia aos seus seios, mas meus olhos desceram por sua saia, que fez algo entre as minhas coxas esquentar.

    Era justa.

    Justa como não devia ser.

    Justa como não tinha o direito de ser.

    Justa de um jeito que me afetava o suficiente para querer chamá-la de injusta.

    Destacava aquelas coxas torneadas de uma forma que me fazia apertar os lábios.

    Comprimia seu bumbum de um jeito que me fazia suspirar.

    Nunca havia visto alguém tão intensamente sedutora daquela forma.

    Agora eu entendia.

    Agora as palavras "maravilhosa" e "inacreditável" faziam sentido pra mim.

    Agora eu conseguia formar muitas frases com aquelas palavras.

    Todo aquele endeusamento...tinha uma razão afinal.

     A droga daquela mulher era irresistível.

     Estava indo em direção ao elevador, enquanto um silêncio isolante dominava o lugar.

     - É sempre assim, eu nunca consegui entender. - Pam dizia.

    Nunca conseguiu entender?

    Me virei para Pam, sem dizer nada e ela continuou.

    - As garotas estão com inveja de você.

    Devo ter engasgado.

    Ou começado a tossir.

    Mas agora estava rindo.

    O quê?

    - Ei, pare de rir! Qual o seu problema?

    - Inveja!? - apontei para meu próprio peito, como se fosse a coisa mais inaceitável do mundo. Meus olhos ainda observavam o ser encantador que adentrava o elevador - De mim!?

    - De você. - Pam cruzou os braços, querendo total atenção enquanto era ouvida.

    Desculpe, Pam. Não vai ser dessa vez.

    - Não é crível.

    Pam inspirou daquele jeito que sempre fazia quando sua mente brilhante estava unindo todas as provas possíveis de convencimento em uma só resposta.

   Inspirou mais uma vez.

   - Você sabia que há algumas funcionárias que escrevem o nome dela nas anotações? Que tem sua foto como papel de parede no computador de casa ou do celular? Que muitos a adoram aqui?

   Agora ela tinha minha atenção.

   - Quê?

   - Viu! - riu, com ar sabichão - Parece que não sabe de tudo, engraçadinha.

   - Pam! O que disse?

   - Exatamente o que ouviu.

   - Não é crível... - era tudo o que escapava da minha boca, enquanto minha mente me martelava com milhões de pensamentos.

   Dessa vez, Pam arregalou seus grandes olhos azuis enquanto colocava o cabelo para trás da orelha.

   - Sua vaga, Selena. A vaga que você conseguiu. A vaga que está ocupando. É uma das vagas mais cobiçadas da empresa, sabe? Mesmo com as outras tendo um salário superior, é algo como estar perto. É a vaga em que se passa mais tempo com ela.

    Milhões de pensamentos dominavam minha mente naquele momento.

    Mas eu sabia perfeitamente o que mais estava mexendo comigo.

    Eu lembrava.

    As pessoas me olhando com maldade e reprovação.

    Senti um incômodo subir meu estômago.

    Chloe me tratando mal.

    Minha garganta apertou.

    As pessoas falando mal de mim na sala do café.

    Passei as mãos pelos cabelos, incomodada.

    Tudo fazendo sentido.

    Tudo.

    O sarcasmo.

    A forma dura como me tratavam.

    Como eu nunca pensei por esse lado?

    - Chloe está?

    Eu precisava saber.

    Meu Deus. 

   Como eu precisava saber.

    - Como?

    - Com inveja. Chloe está com inveja?

    - Ah, não. Chloe é diferente. Tem personalidade, aquela garota. Faz essas coisas pelo simples prazer de ser rebelde e ir contra as regras. Uma lenda. Uma das poucas funcionárias que passou mais do que alguns anos aqui. Se a conhecesse mais iria até gostar dela.

    Duvido muito.

    De qualquer forma, não havia razão para ter inveja de mim.

    Ela não chegava perto de mim, assim como não se aproximava deles.

    Ela era grossa e fria comigo, assim como era com eles.

    Ela nem sabia o meu nome, sorri dolorido, assim como não sabia o deles.

    O dia não seria bom.

    Nem bonito.

 

 

 

                                                           *********************

 

 

 

    O saco com as pipocas foi a primeira coisa que caiu.

    Seguida das balas e todos os papéis possíveis.

    Ao menos o copo com refrigerante havia sobrevivido nas mãos daquele indivíduo.

    Se abaixou para catar os papéis no movimento despejou, sem querer, todo o líquido em cima dos documentos.

    Ok. Sem mais pensamentos positivos.

    Ainda me mantinha com minha bandeja cheia de café quente, observando tudo a alguma distância, impassível. Precisaria entregá-los na sala ao lado e o homem a minha frente iria entregar lá em cima.

    O cara era uma mula.

    Existem três coisas que você deve saber. 1) Dessa vez eu não tinha culpa de exatamente nada do que estava acontecendo ao pobre homem 2) Eu não sofreria nenhum problema já que não estava envolvida com aquela bagunça e 3) eu acho o último álbum dos beatles o melhor álbum de todos os tempos.

   Okay, o último foi desnecessário.

   Até porque todo mundo sabe que é verdade.

   Expirei profundamente, me preparando para dar o primeiro passo e passar por aquela bagunça, indo até o meu destino final. Seria a última coisa que teria que fazer e estava liberada.

   Mas não dei o passo.

   E me agradeci por isso.

   Do outro lado estava uma outra pessoa.

   Eu me lembrava da pessoa.

   Mas o que chocava não era exatamente a pessoa.

   Era o olhar.

   Congelante, invasivo e cinza.

    O olhar que eu havia visto em meu primeiro dia.

    Os olhos cinza que fizeram minha espinha gelar. A expressão séria da pessoa que parecia ter saído de um filme de terror psicológico. Eu me lembrava das roupas pretas e do olhar assassino. Me lembrava da frieza e de como me fez arrepiar.

    Se naquele dia, aquela distância, já havia sido capaz de fazer meu corpo ser tomado pelo medo. Agora, a apenas uns sete passos, eu me sentia no chão.

    Dei alguns passos para trás, me encostando na parede e segurando a bandeja com força.

    Ela não olhava para mim. Olhava para o homem.

    Não se movia ou fazia algo ameaçador.

     Apenas olhava. O que fazia todas as cenas de suspense que já assisti na vida passar diretamente por minha cabeça.

    Eu vi o moço engolir em seco três vezes.

    Ela não precisou se aproximar, estava apenas observando.

    Nunca dizia nada.

    O olhar firme.

    Era como se não tivesse nenhuma pretensão, mas ao mesmo tempo, tivesse todas as do mundo.

    Passou a tentar arrumar tudo rapidamente, com aquele olhar congelante sobre si.

    Olhou para cima.

    A dureza não mudou.

    Parou o que estava fazendo imediatamente, se perguntando o que estava fazendo de errado, o que estava incomodando aquela peculiar pessoa. Vi algo preso entre o braço da pessoa de olhos cinza. Algo que eu não sabia ao certo, não sem meu grau de miopia me permitisse. 

    E ele não permitiria, já que eu havia esquecido meu par de lentes em casa.

   - Toma, é isso o que você quer? - ergueu o copo em sua direção - Me perdoe se eu fiz algo errado, por favor.

    Eu me sentia quase que em um filme de terror.

    Como se esse fosse o momento que antecedia o grande vilão de erguer uma faca e assassinar a vítima.

    Não sabia como, mas aquela pessoa transmitia algo quase criminoso no olhar. Como se fosse capaz de matar e fizesse isso com frequência.

    Meus olhos pararam naquele objeto escondido entre seu braço. E se fosse uma arma?

    Eu sentia medo.

    Eu queria sair dali.

    Finalmente se moveu.

    Estava a tanto tempo parada que seu pequeno movimento de sentar-se no sofá fez com que o homem e eu sobressaltássemos assustados.

    Meu coração estava acelerado.

    Minha coluna latejando.

    Continuou com aquele olhar cruel que dizia todas as coisas negativas possíveis enquanto o homem tentava concertar qualquer coisas que estivesse sendo causadora daquilo. O olhar único e exclusivamente focado nele.

    Eu sentia todas as sensações de pânico possíveis.

    O moço engoliu em seco, se levantando. Desistindo.

     Saiu da sala, de cabeça baixa.

     Eu estava de boca aberta.

     E...

     Agora?

     Ela levantou o braço por fim e eu pude ver o que estava ali atrás o tempo todo.

     Tudo se passou muito devagar depois disso.

     Eu senti o meu coração.

     O arrepio.

     A tentativa de um suspiro preso.

     Um grito preso no fundo da minha garganta.

     Um de cada vez.

     E depois todos ao mesmo tempo.

     Eu vi o mundo parar.

     Desejei nunca poder sentir emoção alguma na vida. Como nunca desejei antes.

     Eu nunca iria me esquecer daquilo.

     Nem de quando ela jogou a coisa rudemente para longe de seu colo.

     A minha bolsa.

     A que a ruiva estranha no mercado havia levado.

     A que tinha meus documentos.

     A que tinha tudo de importante.

     A que tinha a minha vida.

     O que fazia com ela?

     O olhar caiu imediatamente sobre mim e eu quase derrubei a bandeja com todos os cafés no chão.

     Eu não respirava mais.

     Me olhou como se soubesse da minha presença ali desde o começo.

     Me senti engasgar e agarrei a bandeja com toda a minha vida.

     - Não acho que deva passar o fim de seu expediente escondida nessa parede, senhorita Malena.

     Olhei para o lado e meu coração parou.

     Puta que pariu.

     Sentia que meus joelhos não iam aguentar mais nada depois daquilo.

     A senhorita Lovato tinha os braços cruzados, enquanto me observava com severidade.

     Ah, que maravilha rever vocês...

     Seus olhos passaram por todo o ambiente, parando diretamente na bagunça logo no chão.

     Não, não, não....

     - Não fui eu! - fraquejei, quando seu olhar se direcionou a mim novamente. Quantos anos você tem? Está parecendo uma criança, idiota! - Eu não...quer dizer...

    - Não lhe perguntei nada, senhorita. - disse ela rispidamente - E não me importa quem tenha sido. Você irá limpar.

    - M-mas...os cafés... - parei ao ver o olhar que ela me direcionava. Engoli em seco colocando os cafés sobre a mesinha ao meu lado.

    Passar por duas pessoas nunca havia sido tão difícil em toda a minha vida.

    E, para piorar tudo, ela havia escolhido justamente o sofá lateral para se sentar. O que significava eu presa entre o olhar cinza e o castanho.

    E não fazia ideia de qual eu temia mais.

    Me abaixei, completamente em pânico.

    Minhas pernas estavam tremendo.

    Eu odiava aquela sensação.

    A senhorita Lovato estava andando pela sala. Seu corpo chegando a janela, ela observando as pessoas.

    Sua silhueta fazendo uma sombra sedutoramente, contra a luz.

    Era quase irreal.

    Meu desejo naquele momento era estar na boca dela.

    Contraída contra a parede, sentindo sua língua. 

    Até derreter.

    A outra pessoa do ambiente ainda se mantinha calada.

    - Sei que gosta de observar as pessoas. - disse, sem arrodeios. - Deveria experimentar observar por onde anda.

    Reconheci o assunto da qual estava tocando quase que imediatamente.

    Observei seu corpo mudar de posição mais uma vez, vi suas pernas cruzarem lentamente, seu bumbum apoiado contra a mesa. Minha boca se abriu.

     O tom de voz caindo de volume. Ficando mais sério, mais rouco.

    Abri meus olhos com o corpo tremendo.

    Ela não podia fazer isso.

    Eu estava completamente encolhida no chão. Não tinha coragem de olhar para nenhum direção.

    Não diga isso.

    Os dedos passaram devagar pelos cabelos.

    Usava a droga de um par de saltos agulha que estava roubando a minha atenção por completo. 

    Pelo tom de sua voz eu poderia imaginar o quão quente era.

    Não sabia se toda aquela sedução era proposital ou completamente acidental.

    Mas estava acontecendo.

    Mais uma vez.

    E pior...

    Estava fazendo a voz do sexo comigo. 

    - Gosta de se esconder, também. - dizia sem nenhuma piedade - E de fugir dos problemas. 

    Senti o anel preso entre o meu dedo.

    Engoli em seco, sabendo que deveria escondê-lo.

    Ele sim não poderia ser visto.

    Senti minha bolsa ao meu lado, no chão. Peguei-a discretamente e estava prestes a guardar o anel ali, quando...

   - Está guardando toda essa sujeira aí dentro? 

   Ergui o olhar completamente assustada. O olhar da senhorita Lovato em minha direção.

   O cinza também.

   Notei que estava ofegando sozinha.

    Eu não conseguiria responder.

    Não havia voz.

    Devo ter puxado o anel de volta. Mas agora me concentrava na tarefa de catar toda aquela pipoca.

    Sentia que estava causando irritação em minha chefe mais uma vez.

    Tudo o que eu não precisava na minha vida nesse momento.

     Havia olhado para cima por apenas um meio segundo, antes de ouvir o som de seus sapatos dominarem o ambiente mais uma vez.

    A porra daqueles saltos agulha.

    Não me deixavam pensar.

    Ela caminhava pela sala, em seus passos perfeitos, Naquela voz quente, baixa e rouca. E tudo o que eu conseguia imaginá-la de lingerie's de renda e aquele salto. Ás vezes imaginava seu corpo completamente nu e de saltos, ambos os pensamentos estavam destruindo a minha sanidade e concentração.

    Tirou os cabelos da linha de seu pescoço, o deixando livre.

     Era como se estivesse nua naquele momento.

     Engoli em seco, sentindo meu útero arder.

    Enquanto catava cada pedaço de pipoca e sujava minha roupa, eu disfarçadamente observava o anel, tentando decidir como me livraria dele.

     Sentia cada pelo do meu corpo se arrepiar ao som de sua voz.

    - Espero que a essa altura já tenha feito o folder, senhorita. - seu tom era o mais irresistível do mundo.

    Eu estava molhada.

    E estava tremendo.

    Naquele momento só conseguia me imaginar sendo apertada contra aquela mesa mais uma vez. Molhada. Nua. Apertando os olhos.

     Queria sentir seus lábios no meu lóbulo, sussurrando qualquer coisa.

    Juntamente com seus dedos escorregando pela curva do meu bumbum.

    O fato de ter se inclinado perigosamente para frente observando, enquanto seus seios ficavam mais visíveis, não me ajudou em nada.

    Suspirou, lentamente abrindo os lábios.

    É gostosa.

    A desgraçada.

    Fold...folde...folder.

    Ah. O folder.

    A coisa que estava ocupando toda a minha semana e eu não havia terminado nem a primeira parte.

    Fiz que sim com a cabeça, mentindo.

    Não queria admitir aquela derrota.

    Estava a quase três minutos observando o maldito anel.  

    Me sentia sozinha mais uma vez.

    - Ótimo. Pois vai fazer mais coisas. - seu tom rude já lhe era característico. 

    Pela primeira vez eu não me focava totalmente em sua voz.

    Outra coisa havia roubado completamente a minha atenção.

    Por mais ou menos, uns cinco minutos.

    E havia passado todo esse tempo paralisada e incapaz de ter reação alguma.

    Quer dizer...reação eu até tinha.

    Eu tremia.

   Sentia medo.

   Respirava demais.

   Sentia o coração pipocar dentro do peito.

   Perdia as forças.

   Sentia-me cair aos poucos.

   Sua língua passeou devagar por sua boca.

   - Quero todo um projeto. Algo como um gráfico, uma maquete. - seu corpo se virou mais uma vez - Entregue junto com o folder.

    O olhar pousou sobre mim por mais tempo.

    Subiu lentamente e terminou com um leve suspiro rouco.

    Um som foi capaz de me molhar completamente.

     Era como se quisesse transar.

     E tivesse que ser agora.

    Mas eu não estava ouvindo.

    Encarei o anel bem na minha mão.

    Meus pensamentos eram sobre eles, as histórias que ouvia sobre eles no passado. Sobre como são exterminados na cidade, como são pragas cruéis da humanidade, sobre as lendas.

Sentia meu corpo estremecer e murchar.

   Gradativamente.

   Sentia que não aguentaria por muito tempo.

    - Senhorita Marlene? - sua sobrancelha estava erguida.

    Não era qualquer anel e aquele anel era impossível de ser encontrado por ser uma alusão a aquela maldita sociedade secreta que só existia em histórias de terror da cidade.

    Bem até agora.

   Drunkers.

   Eles existem.

   E pior...um deles trabalha aqui.

   - Já chega.

   Todo o meu corpo estremeceu ao som daquela voz.

    Seu tom havia voltado ao mais baixo, ao mais rouco.

    Sombrio.

     Umedeceu o lábio inferior.

     A voz do sexo saiu de forma completamente natural.

     Eu estava pingando.

     Tomei uma lufada de ar.

    - S-s-s-senhorita Lovato? - inspirei - M-m-me perdoe, pelo amor de...

    Era como se seus dedos tivessem tocado delicadamente em algum botão que automaticamente ativou uma cachoeira em minha vagina.

    Era como eu me sentia.

    Eu estava excitada.

    Eu não sabia como.

    Mas era como se eu tivesse perdido a minha capacidade de discernimento.

    E "não" fosse uma palavra que não existiria no meu vocabulário, quando se tratasse dela.

    - Sinceramente pensei que desse para falar de outra forma com você, mas é impossível. O seu nível é outro. - seguiu com a ofensa.

    Mas tudo o que se passava pela minha cabeça era um grande alerta para que eu me livrasse daquela droga imediatamente.

    E foi o que fiz.

    Joguei o anel para bem longe.

    Mas ele acertou algo atrás de mim.

    Eu tive certeza que estava morta no momento em que me virei e notei que havia acertado a moça dos olhos cinza. O anel havia voado como um inseto maldito, acertado seu olhar assassino e voltado para o chão.

    Eu nem respirava.

    A sensação de que meu pescoço seria quebrado a qualquer momento.

    Tremi com o fato dela ter visto o anel.

    Por aquele olhar criminoso ter focado no objeto em minha mão por algum tempo.

    Meu corpo estava em choque.

    Eu me sentia formigar completamente.

    Abaixei minha cabeça imediatamente, o catando e o guardando na bolsa, que estava cheia de porcaria.

    - Quero ver o que está guardando aí.

    Olhei para o lado, completamente eufórica.

    Por incrível que pareça, havia me esquecido da outra pessoa no ambiente.

    A pessoa que não podia ver nada daquilo.

   Senti meu corpo todo tremer. 

   Minha voz estava falhando e eu estava gaguejando de novo. Engoli em seco em meio ás palavras umas quatro vezes.

    - N-n-não é nada! - gaguejei - Érr...

    - Não quero saber - me encarou firme - Vamos, me entregue isso. - ordenou.

    Minha mão estava presa na bolsa. 

    Eu não queria tirá-la de lá.

    Sabia que se ela visse o anel de Drunk in Love tudo estava acabado.

    Eu tinha certeza.

    Mas eu fechei os meus olhos e entreguei.

    Ela foi caminhando logo a frente, pela sala.

    Meu mundo estava em câmera lenta mais uma vez.

    Qualquer suspiro ou coisa diferente seria o suficiente para que toda a minha atenção fosse focada.

    Puxei minha mão da bolsa, encarando minha mão com os olhos marejados.

    Foi quando um estranho objeto envolvendo meu dedo me assustou.

    O anel.

    O que o anel estava fazendo na minha mão mais uma vez?

    Senti meus olhos arregalarem ao notar que havia entregado o diafragma á minha chefe.

 


Notas Finais


Twitter: @iemmyfx


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