História Eleanor and Park ☆ Johnlock Version - Capítulo 24


Escrita por: ~

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Categorias Sherlock
Personagens Dr. John Watson, Eurus Holmes, Irene Adler, Jim Moriarty, Mary Morstan, Molly Hooper, Mycroft Holmes, Personagens Originais, Sally Donovan, Sherlock Holmes
Tags Johnlock
Visualizações 37
Palavras 3.119
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fluffy, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 24 - Capítulo vinte e quatro


JOHN

Na quinta à noite, depois do jantar, a avó de Sherlock veio arrumar o cabelo, e a mãe dele desapareceu na garagem. O pai trabalhava com o encanamento abaixo da pia, trocando a caixa de gordura. Sherlock tentava contar a John sobre uma fita nova que comprara. Elvis Costello. Não conseguia parar de falar.

– Tem umas músicas de que você vai gostar, mais lentas. Mas o resto é bem animado.

– Tipo punk? – John entortou o nariz.

John aturava alguma coisa de Dead Milkmen, mas odiava a música punk que Sherlock ouvia.

– Parece que estão gritando comigo – ele dizia quando ele tentava colocar um pouco de punk nas fitas. – Pare de gritar comigo, Glenn Danzig!

– Esse é o Henry Rollins.

– Todos parecem o mesmo quando estão gritando comigo.

Naquela época, Sherlock andava muito interessado em New Wave. Pós-punk, ele chamava. Ele ouvia bandas tanto quanto John lia livros.

– Não – ele disse –, Elvis Costello é mais musical. Mais gentil. Vou gravar uma fita pra você.

– Ou pode colocar para eu ouvir.

Sherlock inclinou a cabeça.

– Isso implicaria você entrar no meu quarto.

– Tá bem – John disse, não muito casualmente.

– “Tá bem”? – ele perguntou. – Meses de “nãos”, e agora “tá bem”?

– Tá bem – disse John. – Você vive dizendo que sua mãe não se importa.

– Minha mãe não se importa.

– Então?

Sherlock levantou-se num átimo, sorrindo, e o puxou. Pararam na cozinha.

– Vamos ouvir música no meu quarto.

– Tá bom – disse o pai, debaixo da pia. – Só não engravide ninguém.

Isso teria sido constrangedor, mas não era muito provável de acontecer.

John não conseguia parar de pensar nele passando boa parte do tempo ali, deitado. (Eram apenas 90° de diferença, mas imaginá-lo desse jeito o tirava do sério.) Além disso, ele trocava de roupa naquele lugar.

Não havia onde se sentar além da cama, o que John nem cogitava fazer. Então, sentaram-se entre a cama e o aparelho de som, lugar em que só havia espaço para sentar de pernas cruzadas.

Assim que se sentaram, Sherlock começou a avançar a fita do Elvis Costello. Ele tinha pilhas e pilhas de fitas, e John pegou algumas para ver.

– Ah... – Sherlock disse, sentido.

– O quê?

– Estão em ordem alfabética.

– Ah, tá. Eu sei o alfabeto.

– Ah, tá – ele parecia envergonhado. – Foi mal. Sempre que o Mike vem aqui, ele bagunça tudo.

– Mike? Da aula de Inglês?

– U-hum. Aqui, esta é a música que eu queria que você ouvisse. Escute.

– Ele vem aqui?

– É, às vezes – Sherlock aumentou o volume.

– Mas agora só eu venho...

– O que pra mim tá ótimo, porque eu gosto muito mais de você.

– Mas você não sente falta dos seus outros amigos?

– Ele não é meu amigo. Você não tá escutando.

– Nem você.

Ele parou a fita, como se não quisesse perder a música, deixando-a como pano de fundo.

– Desculpa – ele disse. – A gente tá falando sobre eu sentir falta do Mike? Eu almoço com ele quase todo dia.

– E ele não liga de você passar o resto do tempo comigo? Nenhum dos seus amigos liga?

Sherlock passou a mão pelo cabelo.

– John, eu não tenho amigos.. Não sei, não sinto falta deles; nunca senti falta de ninguém além de você.

– Mas não sente minha falta agora. Estamos juntos o tempo todo.

– Tá brincando? Sinto falta de você constantemente.

Ainda que Sherlock tivesse lavado o rosto assim que chegara em casa, o preto em torno dos seus olhos não saíra completamente. E isso tornava todas as suas atitudes um pouco mais dramáticas.

– Isso é loucura – ele  disse. Sherlock começou a rir.

– Eu sei...

John sorriu para ele. Ele pegou a mão dele. Parecia novidade.

John quis contar-lhe sobre Harry e Ben e sobre seus dias estarem contados, mas ele não compreenderia, e o que John esperava que ele fizesse?

Sherlock apertou o play.

– Como se chama essa música? – ele perguntou.

– Alison.

SHERLOCK

Sherlock colocou Elvis Costello para ele ouvir. E Joe Jackson, e Jonathan Richman e os Modern Lovers.

John o cutucou, dizendo que eram todos bonitos e melódicos, e “e do mesmo filão de Hall & Oates”, e ele ameaçou expulsá-lo do quarto.

Quando a mãe veio vê-los, estavam sentados com centenas de fitas ao redor, e, assim que ela saiu, Sherlock inclinou-se para a frente e beijou John. Parecia o melhor momento para não serem pegos.

John estava um pouco longe demais, então ele colocou a mão nas costas dele e o puxou para perto. Tentou agir como se o movimento fosse algo que fazia o tempo todo, como se tocá-lo num local novo não fosse como descobrir a Passagem do Noroeste.

John chegou mais perto. Colocou as mãos no chão entre os dois e inclinou-se para ele, o que foi tão encorajador que ele pousou a outra mão na cintura dele. E então foi demais para ficar no quase-mas-não-abraçando-de-verdade. Sherlock foi mais à frente, ficou de joelhos e a puxou com força.

Meia dúzia de fitas crepitaram sob o peso dos dois. John caiu de costas, e Sherlock caiu em cima.

– Desculpa – John disse. – Ai, gente... Olha o que a gente fez com Meat is murder.

Sherlock sentou-se e olhou para as fitas. Queria varrê-las do caminho.

– São mais as caixas, acho – ele disse. – Não se preocupe. – Começou a pegar os plásticos quebrados.

– Os Smiths e seus pedacinhos... – ele falou. – Até quebramos em ordem alfabética. – Ele tentou sorrir, mas John não o fitava. – Acho melhor eu ir – ele disse. – Acho que são quase oito também.

– Ah. Tá bom, eu te levo.

John se levantou, e ele o seguiu. Foram para fora e desceram a entrada, e, quando chegaram à casa dos avós dele, John não parou.

JOHN

Harry estava perfumada feito uma vendedora Avon, e arrumada como uma prostituta da Babilônia. Sem dúvida que seriam todos pegos. Pense num castelo de cartas em ruínas. Ca. Ram. Ba.

E John não conseguia formular uma estratégia porque tudo que lhe vinha à mente eram as mãos de Sherlock em sua cintura e em suas costas e em sua barriga, sendo que tudo isso devia causar nele uma sensação completamente nova. Todos na família de Sherlock eram magros o bastante para atuar num comercial do cereal Special K. Menos Mycroft, o viciado em bolos.

John só poderia participar do comercial naquela cena em que a pessoa belisca o pneuzinho e olha para a câmera como se o mundo fosse acabar.

Na verdade, teria de emagrecer um pouco para participar da cena. Dava para beliscar uma porção de banha – ou duas, ou três – em qualquer ponto no corpo dele. Devia dar para beliscar um pneuzinho até na testa.

Ficar de mãos dadas era OK. As dele não eram um embaraço total. E beijar parecia seguro porque lábios carnudos são uma coisa boa, e porque Sherlock geralmente fechava os olhos.

Mas não havia local seguro no torso de John. Não havia local entre o pescoço e os joelhos dele com estrutura discernível.

Assim que Sherlock o tocou nas costas, ela comprimiu a barriga e inclinou-se para a frente. O que gerou todo o efeito colateral. E a fez sentir-se como se fosse o Godzilla. (Mas até o Godzilla não era gordo. Era só gigantesco.)

A parte mais enlouquecedora era John querer que Sherlock o  tocasse de novo. Queria que ele o tocasse constantemente. Até se isso o fizesse entender que ele era parecido demais com uma morsa para ser seu namorado... De tão bom que era. Ele sentia-se como um vampiro que provou sangue humano e não quer saber de outra coisa. Uma morsa que provou sangue humano.

***

Sherlock queria que John passasse a conferir os livros, principalmente depois da Educação Física.

– Porque, se for a Molly – dava para perceber que ele ainda não acreditava nessa hipótese –, você precisa contar pra alguém.

– Pra quem?

Estavam sentados no quarto dele, encostados na cama, tentando fingir que Sherlock não envolvia os ombros dele com o braço pela primeira vez desde que ele esmagara suas fitas. Só encostado, na verdade, não abraçado.

– Podia contar pra Sra. Dunne – ele disse. – Ela gosta de você.

– Tá, então eu conto pra Sra. Dunne, e mostro qualquer coisa nojenta que Molly tenha escrito nos meus livros, provavelmente alguma coisa sobre chupar, porque Molly só pensa em chupar, e então a Sra. Dunne vai perguntar: “Como sabe que foi Molly quem escreveu?”. Vai ser tão cética quanto você, mas sem a parte romântica complicada...

– Não tem parte romântica complicada.

– Você a beijou? – John não queria ter perguntado. Em voz alta. Foi quase como se ele tivesse perguntado apenas mentalmente tantas vezes que a pergunta lhe escapara.

– A Sra. Dunne? Não. Mas já a abracei várias vezes.

– Você entendeu... Você a beijou?

Ele tinha certeza de que sim. Tinha certeza de que fizeram outras coisas também. Molly era tão pequena; Sherlock devia conseguir envolvê-la com os braços e apertar uma mão na outra atrás da cintura dela.

– Não quero falar sobre isso – ele disse.

– Porque você beijou.

– Não importa.

– Importa sim. Foi seu primeiro beijo?

– Foi – disse ele –, e esse é um dos motivos pelos quais não importa. Foi tipo só pra aprender.

– E quais são os outros motivos?

– Era a Molly, eu tinha doze anos, e ainda mais, eu sou gay.

– Mas você nunca vai se esquecer. Foi seu primeiro beijo.

– Vou me lembrar que não importa.

John queria mudar de assunto; as vozes mais dignas de confiança em sua mente gritavam para que mudasse de assunto.

– Mas... – ele continuou –, como você pôde beijá-la?

– Eu tinha doze anos.

– Mas ela é horrível.

– Ela tinha doze também.

– Mas... Como pôde beijá-la e depois me beijar?

– Eu nem sabia que você existia.

O braço de Sherlock, subitamente, fez contato, contato total, com as costas de John. Ele se aproximou dele, e ele se aprumou, instintivamente, tentando afinar a silhueta.

Park envolveu-o com o outro braço.

– Me escute. Não faz diferença.

– Faz sim – John sussurrou. Com os dois braços em torno dele, não havia muito espaço separando-os. – Porque você foi a primeira pessoa que eu beijei. E isso importa.

Ele encostou a testa na dele. John não sabia onde pôr seus olhos e suas mãos.

– Nada antes conta – ele disse. – E nem consigo imaginar um depois.

John balançou a cabeça.

– Pare – ele disse.

– O quê?

– Nem fale de depois.

– Eu quis dizer que... Eu quero ser a última pessoa que vai te beijar... Sei que soa mal, como uma ameaça de morte ou algo assim. Quero dizer que você é o único. Não quero mais nada.

– Pare – ele disse. Não queria que ele falasse desse jeito. John desejara embarcar no assunto, mas nem tanto.

– John...

– Não quero pensar em depois – disse ele.

– Por isso estou dizendo que talvez nem tenha depois.

– Claro que vai ter. – John colocou as mãos no peito dele, caso quisesse afastá-lo. – Assim... Gente, claro que vai ter. A gente não vai se casar, Sherlock.

– Não agora.

– Pare... – John tentou entortar os olhos, mas sentiu dor.

– Não estou te pedindo em casamento – ele disse. – Só dizendo... que te amo. E nem posso me imaginar não amando mais...

John começou a chorar. O que tornou mais difícil argumentar.

– Mas você só tem doze anos.

– Tenho dezesseis... – disse ele. – Bono tinha quinze quando conheceu a esposa, e o Robert Smith tinha catorze...

– Romeu, doce Romeu...

– Não é assim, John, e você sabe. – Os braços dele o apertaram com força. O tom de brincadeira abandonou sua voz. – Não há motivo pra pensar que vamos deixar de amar um ao outro. E todo motivo pra pensar que não vamos.

Eu nunca disse que te amo, pensou John.

E, mesmo depois que ele o beijou, ele manteve as mãos no peito dele.

* * *

Bom. Enfim, Sherlock queria que ele começasse a checar as capas dos livros. Principalmente depois da aula de Educação Física. Então, John ficava esperando até que quase todo mundo tivesse trocado de roupa e saído do vestiário, e depois examinava os livros cuidadosamente, procurando algo suspeito.

Era tudo muito minucioso.

Hannibal e Will costumavam esperá-lo. O que acabava atrasando-as para o almoço às vezes, mas permitia que se trocassem com certa privacidade, algo em que deveriam ter pensado meses antes.

Não parecia haver nada pervertido escrito nos livros de John naquele dia. Na verdade, Molly o ignorara durante a aula toda. Mesmo os  capangas dela, pareciam cansados de mexer com John.

– Já foram – constatou Will. – Todo mundo já foi. Estão todos na cantina, comendo os meus Macho Nachos. Anda logo.

– Podem ir – disse John. – Peguem lugar na fila. Ainda tenho que trocar de roupa.

– Beleza – retrucou o amigo –, mas pare de olhar pra esses livros. Você acabou de falar que não tem nada aí. Venha, Hannibal.

John começou a empilhar os livros. Ele abriu o armário.

Estava vazio.

Hum.

Tentou o armário de cima. Nada. E nada embaixo. Não...

John recomeçou, abrindo todos os armários da parede, depois checou sua mochila, passou em seguida para a parede oposta, tentando não entrar em pânico. Talvez só tivessem mudado as roupas dele de lugar. Ah. Engraçado. Ótima piada, Molly.

– O que você está fazendo? – perguntou a Sra. Burt.

– Procurando as minhas roupas.

– Você devia usar o mesmo armário toda vez, assim fica fácil de se lembrar.

– Não, alguém... Acho que alguém pegou.

– Essas diabinhas – suspirou a Sra. Burt, como se não pudesse imaginar aborrecimento maior.

A professora começou a abrir armário do outro lado do cômodo. John  checou a lata de lixo e os chuveiros. Depois, a Sra. Burt a chamou do banheiro.

– Achei!

John foi até o banheiro. O chão estava molhado, e a Sra. Burt em pé, em frente a um vaso sanitário.

– Vou pegar um saco – suspirou a professora, passando por John.

O garoto olhou dentro do vaso. Ainda que soubesse o que veria, a sensação, quando confirmou foi como um tapa na cara. As calças novas e a camisa de caubói, misturadas numa pilha negra dentro do vaso, e os sapatos enfiados sob a tábua. Alguém dera a descarga, um pouco de água ainda derramava pelo topo. John observou a água correr.

– Tome – disse a Sra. Burt, entregando-lhe uma sacola amarela. – Pesque as roupas.

– Não quero – disse John, afastando-se. Não dava mais para usá-las, de qualquer maneira. Todos saberiam que eram as roupas saídas da privada.

– Bom, não pode deixá-las aí – disse a professora. – Pesque-as. – John encarou suas roupas. – Rápido – insistiu a mulher. John enfiou a mão dentro da privada e sentiu lágrimas escorrendo pela face. A Sra. Burt segurou o saco aberto. – Você precisa parar de deixar esses meninos te pegarem, sabe? – disse ela. – Você os encoraja.

É, obrigado, pensou John, espremendo as calças e a camisa amarrotada. Ele queria limpar os olhos, mas as mãos estavam molhadas.

A Sra. Burt entregou-lhe a sacola.

– Venha – disse. – Vou te escrever um bilhete.

– Pra quê?

– Pra levar pro seu orientador.

John respirou fundo.

– Não posso andar pelo corredor deste jeito – disse ele, com a voz entrecortada.

– Que quer que eu faça, John? – Tratava-se, obviamente, de uma pergunta retórica. A Sra. Burt nem o olhava. John a acompanhou até a sala da treinadora e esperou pelo bilhete.

Depois o pegou o bilhete e disparou para o corredor. Assim que chegou lá, as lágrimas brotaram de vez. Não dava para andar ao redor da escola daquele jeito – de uniforme. Na frente dos meninos... E de todo mundo. Na frente da Molly. Gente, ela devia estar vendendo ingressos para quem quisesse ver o show. John não conseguiria. Não naquelas roupas.

Não era só o uniforme que era feio. (Lembre-se, poliéster. Peça única. Faixas vermelhas e brancas, mais um zíper branco comprido.)

Era extremamente apertado.

Era uma verdadeira monstruosidade naquele uniforme. Um desastre.

As pessoas já estavam aparecendo para a aula de Educação Física seguinte. A sacola pingava.

Sem pensar muito bem, John fez a curva errada no corredor e foi em direção à porta que dava para o campo de futebol. Agiu como se fosse normal andar lá fora no meio do dia, como se estivesse empenhada em alguma missão do tipo choro/pouca-roupa/sacola-pingando.

A porta se fechou, e John recostou-se nela, entregando-se. Só por um minuto. Meu Deus. Meu Deus.

Havia um latão de lixo do lado de fora da porta, e ele se levantou e meteu a sacola ali dentro. Limpou as lágrimas com a manga do uniforme. Certo, disse a si mesmo, respirando fundo, recomponha-se. Não deixe que te atinjam. Aquelas calças que estavam no lixo eram novinhas. E os sapatos favoritos. Da Vans. Ele foi até o latão e balançou a cabeça, enfiando a mão para pegar a sacola. Vá pro inferno, Molly. Vá pro inferno pra sempre.

Respirou fundo mais uma vez. Tudo bem, disse a si mesmo, você consegue.

Não havia salas de aula naquele canto da escola, então, pelo menos, não havia ninguém para ver. John pôs-se a andar. Caminhou grudada no prédio e, quando virou à direita, passou por baixo da fileira de janelas. Pensou em ir direto para casa, o que talvez fosse pior. Definitivamente, seria mais demorado.

Se conseguisse chegar à porta de entrada, as salas dos orientadores ficavam logo ali. A Sra. Dunne poderia ajudá-lo. Não diria para ela não chorar.

O segurança da entrada agiu como se John não fosse o primeiro garoto de uniforme de ginástica a passar por ali. Ele checou o bilhete e fez sinal para que seguisse.

Quase lá, pensou John. Não corra, queixo erguido, só mais algumas portas...

Ele devia ter imaginado que Sherlock sairia de alguma delas.

Desde o primeiro dia em que se viam, John sempre o via em locais inesperados. Era como se suas vidas fossem linhas que se entrecruzavam, como se gravitassem em torno um do outro. Geralmente, esse serendipismo lhe parecia a maior dádiva do universo.

Sherlock saiu de uma porta no lado oposto do corredor e parou assim que o viu. Ele tentou desviar o olhar, mas não o fez a tempo. O rosto de Sherlock ficou vermelho feito tomate. Encarou-o. John puxou os shorts para baixo e cambaleou adiante, correndo pelos últimos metros que o separavam das salas dos orientadores.

* * *

– Você não precisa mais voltar pra lá – disse a mãe depois que John lhe contou a história toda. (Quase a história toda.)

John pensou por um momento sobre o que faria se não voltasse mais para a escola. Ficaria em casa o dia todo? E o que mais?

– Tudo bem – disse ele. A Sra. Dunne levara Eleanor até em casa no próprio carro, e prometera trazer um cadeado para pôr no armário do garoto.

A mãe virou a sacola dentro da banheira e começou a enxaguar as roupas, entortando o nariz, mesmo que elas não cheirassem assim tão mal.

– Esses meninos são tão ruins... – disse. – Você tem sorte de ter uma amiga em quem confia. – John deve ter feito cara de confusão. – Molly – explicou a mãe. – Você tem sorte de ter a Molly.

John fez que sim.

Ele ficou em casa naquela noite. Ainda que fosse sexta-feira, e a família de Sherlock sempre assistisse a filmes e comesse pipoca às sextas-feiras.

Ele não poderia sequer encarar Sherlock. Tudo o que veria dali por diante seria aquela expressão dele, no corredor. E ele se sentia como se ainda estivesse lá, de uniforme.



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