História Em Crise - Capítulo 9


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Ficção, Ficçaoadolescente, Original, Romance
Exibições 28
Palavras 7.761
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Ficção, Hentai, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Self Inserction, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Cês sabem como, às vezes, acontece da autora dizer tipo "Desculpa pelo capítulo pequeno"? Então, aqui vai acontecer o contrário: peço desculpas pelo capítulo grande demais e.e E desculpem qualquer erro. Pela quantidade de palavras ficou ainda mais difícil controlar aqueles deslizes (e eu me odeio um pouco por fazer um cap tão grande).

Capítulo 9 - Maravilhoso e horrível


"Combater e morrer, é pela morte derrotar a morte, mas temer e morrer, é fazer-lhe homenagem com um sopro servil."


• • •

Tenha um bichinho de estimação. 

Era a primeira vez em semanas que eu voltava a dar atenção para a minha lista — aquela, que Dr. Kennedy tinha feito para mim, uma série de ações ao quais eu deveria seguir a fim de me livrar da tendência de solidão. Elas não eram, é claro, apenas atividades, mas também uma boa quantidade de instruções de coisas que eu não deveria fazer. Tipo...

Evite ficar de ressaca.

Eita.

O último item ainda me incomodava:

Encontre uma pessoa de confiança e a deixe ver quem você realmente é.

Quero dizer, sinceramente, que tosco.

Eu tinha arrumado um emprego, aumentado minha lista de atividades extracurriculares (apesar de estar tirando pouquíssimo proveito da aula de carpintaria até então), e estava escrevendo no meu diário (tipo, mais ou menos).

A parte fácil da lista eu já tinha cumprindo, e para achar outro item que eu pudesse cumprir foi um sacrifício. Eu não conseguia ser sentimental e melancólica sem me sentir como se estivesse em uma novela mexicana, então coisas do tipo "Converse com seus pais sobre o seu passado" e "Perdoe aqueles que lhe machucaram" eu nem considerava por muito tempo. Minha mãe era maravilhosa, mas eu ainda sentia que meu pai não conseguia olhar para mim por muito tempo a anos, e se era por desconforto ou culpa, nunca pude discernir.

A picada no meu antebraço me trouxe de volta para a realidade. Franzi o nariz para o cheiro de flores. Quem conseguia cultivar flores naquele calor?

Eu estava simplesmente parada em frente a casa mais peculiar da rua, como uma visita indesejada estranha, segurando nos braços um filhote de gato que claramente tinha dono — e era totalmente rabugento, julgando pelos arranhões que ele estava deixando no meu braço, mesmo que eu totalmente tivesse salvado a vida dele.

Se não fosse por mim, ele teria virado uma mancha preta no meio do asfalto, por consequência da indiferença de um motorista. Quando o gatinho não fez nenhum movimento para sair do meio da rua, e o motorista não deu nenhum sinal de que iria desviar ou desacelerar, eu pensei por meio segundo antes de me jogar na frente do carro. O que soa bem mais aventureiro do que realmente foi — o cara teve pouco mais de dois metros para parar. Ele resmungou para mim, enquanto eu me agachava para por o animal nos braços, mas eu também resmungaria se estivesse no lugar dele.

No primeiro ano após eu voltar do México, quando meus pais e parentes estavam tentando arranjar um meio para que toda aquela merda não me seguisse para o resto da vida, eu ganhei um cachorro.

Foi tipo "Ah, ela precisa de uma distração. Aqui, Em, olha um cachorrinho!". E não posso dizer que eu não gostei. Era um filhote vira-lata e eu o nomeei Han Solo.

Han Solo era divertido e adorável — viveu quase dois meses antes de ser repentinamente atropelado por um idiota de moto, e foi, tipo, na frente da minha casa.

RIP Han Solo.

Na época, eu chorei tanto que quase passei mal, ao mesmo tempo em que já estava passando.

O gatinho em meus braços naquele momento não chegava aos pés de Han Solo, se me permite dizer. Ele era sem graça e — repito — completamente rabugento. Só barriga, daquele jeito que os filhotinhos ficam quando então na época de serem amamentados pelas mães.

Observei as plantas e flores tão altas que chegavam na altura da porta da frente. As paredes da casa eram feitas com tijolos de barro, mas de uma forma peculiar quase arcaica, sem reboco. Era meio que charmosa, como a casa de uma fada, com todo aquele verde das plantas que era meio ressaltado pelo sol da tarde.

Lembrando a mim mesma que minha pele estava queimando sob o sol de duas horas da tarde, e que seria melhor sair dali o mais rápido possível, eu bati na porta.

Uma senhora abriu meio minuto depois, os cabelos brancos presos em um coque comportadíssimo no alto da sua cabeça, tão bem arrumado que eu quase me senti incomodada o suficiente para tentar arrumar meus próprios fios.

Limpando a garganta, falei:

— Acho que esse gato é seu. — estendendo a bola de pelos pretos. Eu passava por aquela rua por todos os anos em que estudei na SR XXI, portanto praticamente já tinha decorado tudo sobre ela. Suas casas tinham uma distância de mais ou menos cinco metros entre si (diferente da minha rua, onde as casas em desconfortavelmente próximas) e por isso você podia ver uma moderna construção com portas e janelas envidraçadas um instante, e poucos metros depois ver uma casinha charmosa com um jardim cheio.

A senhora franziu o cenho em direção ao animal ainda em minhas mãos, não parecendo nem um pouco ansiosa para tê-lo de volta. A mulher, provavelmente, fora bonita em sua juventude, apesar das marcas de expressão e rugas desfocassem os traços fortes de seu rosto, eles ainda estavam lá. Mas ela não parecia nem um pouco preocupada em esconder os sinais da idade, e eu admirei isso.

— Filhotes vivem fugindo nessa época. — tocando o queixo, ela me avaliou, e eu me senti de repente nervosa sob sua inspeção. Com as roupas pretas que ela usava, gola alta e unhas longas, parecia quase uma bruxa (uma bruxa bem legal, mas ainda uma bruxa).

Observando meus cabelos, rosto e roupas, ela baixou o olhar para o gato, depois de volta para mim — repetindo o ato um par de vezes antes de exclamar, por fim:

— Você deveria ficar com ele. — eu estava balançando a cabeça antes mesmo que ela terminasse a frase.

— Eu não preciso de um gato.

— Tem certeza? — rebateu, arqueando uma sobrancelha. O ato fez com que o sol batesse na argola que ela tinha furada na pele ali, um piercing de ouro tão límpido que eu não tinha notado ate então — Você parece com alguém que precisa de um amigo.

— Pode até ser. Mas você sabe o que dizem... — trouxe o animal de volta para o meu colo, os braços cansados de segurá-lo estendido — Se você precisa de um amigo, adote um cachorro.

Em resposta, ela fez o que eu menos esperava. Revirou os olhos. Quero dizer, de verdade. E, diga-se de passagem, ela meio que ficava bonita e jovial quando fazia isso — mais do eu provavelmente ficava quando fazia isso.

— Isso é um estereótipo. Veja Ártemis... — por um instante eu pensei que ela estava realmente falando da deusa grega, mas então, como se apenas estivesse esperando para ser chamada, uma gata adulta apareceu no canto da porta. Ronronando charmosamente por um instante antes de sentar ao lado da dona — Ela é minha melhor amiga.

Olhei para o animal em meus braços, que continuava com as unhas cravadas na pele do meu antebraço, assustado.

— Não sei se eu quero que meu melhor amigo seja um gato preto.

— Mas gatos pretos são os melhores! — exclamou a senhora, enquanto eu começava a me perguntar por que ela parecia tão disposta a se livrar do filhote — Edgar Allan Poe tem até um conto sobre eles.

Encarei-a, com o que eu achava ser minha melhor versão de olhar irritado.

— Eu não sou ignorante, dona. Sei que esse conto é bem sombrio. — em resposta, ela sorriu abertamente. E de repente não havia rugas, marcas de expressões ou nariz grande demais que estragasse sua aparência. Ela era apenas uma mulher sagaz.

— Mais um motivo para ficar com ele! Gatos são tão legais que os autores vivem criando histórias sobre eles. Já leu o do Neil Gaiman?

— Ah, por favor, eu só queria devolver seu gato. Não ganhar um. Aliás, porque você está tão disposta a se livrar dele, se gosta tanto de gatos?

Com um suspiro, ela explicou: — Aparentemente a probabilidade se Ártemis ficar grávida toda vez que entra no cio é de 5 em 4. — Ártemis, ainda parada no canto da porta, respondeu com um miado indignado — Já é a terceira ninhada só esse ano. E, geralmente, eu consigo arranjar alguém para adotar cada um dos filhotinhos. Mas esse vem se mostrado mais difícil.

— Por que você simplesmente não a castra? — Ártemis miou de novo, parecendo tão indignada com a ideia que eu até recuei um pouco, principalmente depois de lembrar do conto de Edgar Allan Poe.

— Acredite em mim, eu estou providenciando isso. — levantei o gato na altura do rosto, inspecionando-o com mais atenção, enquanto ele tentava arrancar meu nariz.

— Não gosto muito de gatos. — conclui — Eles são ariscos, irritados e desconfiados de tudo.

— Minha filha... — comentou a senhora, rindo — Você é uma adolescente. Praticamente se autodescreveu.

Acabei sorrindo, pensando que arisca, irritada e desconfiada me descreviam completamente.

Acariciando o pelo do animal, tentei me acostumar com a ideia de ter um gato, pensando em como aquilo era conveniente com a minha lista — e lembrando em todos os artigos sobre depressão que eu li onde diziam que animais ajudavam no tratamento.

— É um menino? — perguntei, após constatar que nunca conseguiria diferenciar uma coisa da outra.

A senhora se apoiou no batente da porta, com um meio sorriso divertido, que não pude dizer se sua diversão era pela minha escolha de palavras ou por outra coisa.

— Um garoto, claro. — quando eu informei que estava convencida a ficar com ele, a senhora falou — Fico feliz com isso, menina. Gatos sofrem com muitos tipos de estereótipos. Mas eles são bem legais, depois que você os conhece. Boa sorte com o seu.

A senhora, que eu descobri se chamar Ravena — totalmente nome de bruxa, avá — até mesmo me deu um coleira para o gatinho, com um pingente em forma de moeda onde eu poderia gravar o endereço da minha casa. Foi quase como um jeito de oficializar a adoção. Depois eu fiz com que o gatinho se despedisse da mãe (o que foi uma visão meio triste).

Aparentemente eu tinha um gato.

Quando voltei para o meu caminho usual, puxei o celular do bolso da minha calça e mandei uma mensagem para Eureka.

E: Posso levar um filhote de gato para sua casa essa tarde? É temporário, só até a hora de eu voltar para casa. Acabei de adotá-lo.

Eu tinha ficado um pouco mais de tempo após o horário de aula, cumprindo meu dever no jornal da escola, e não estava considerando a ideia de passar em casa. Aliás, eu precisava de tempo para convencer minha mãe de que aquela não tinha sido uma péssima ideia.

Eureka respondeu dois minutos depois.

EK: Claro. Só tome cuidado para as meninas não matarem ele com apertões.

Seria trágico.

E um instante depois:

EK: Você estaria disposta a nos acompanhar na ida ao supermercado hoje? As meninas se divertem tanto nas compras mensais que meio que consideram isso um evento familiar sagrado. Nós podemos até comprar ração para o seu gato novo.

— Viu? Você já vai ganhar ração hoje. Sua vida vai ser boa graças a mim. — o gato não deu nenhum sinal de que iria responder, é claro.

Menos de dois minutos e eu já estava conversando com ele, como uma louca. Que bom.

Encontrei Ford debaixo de seu carro, na garagem da sua casa, distraído no que quer que ele estivesse fazendo. Bati na cobertura do motor, a fim de chamar sua atenção. Quando o ouvi bater a cabeça na parte inferior do veículo, pelo susto, entendi que não tinha sido uma boa ideia.

Eu estava rindo silenciosamente enquanto ele xingava, e ao observar minha diversão, disse:

— Você, Em, é a pior pessoa desse mundo. — enquanto acariciava a pele da testa debaixo do cabelo longo, deixando uma mancha do que parecia graxa.

— Desculpe. — ele se encostou-se à lateral do carro, sentado no chão. A porta da garagem aberta fazia com que o sol da tarde desse um brilho maior para seus olhos, apesar destes estarem quase completamente escondidos pelos fios de cabelo longo demais. Pela primeira vez, sua camisa branca tinha mangas curtas, as cores das tatuagens ganhando uma ênfase peculiar por causa da fina camada de suor que cobria a pele, cintilando.

Estava tão absorta na minha inspeção que nem consegui entender o que ele dizia.

Assenti, esperando que não fosse uma pergunta — mas não tive essa sorte. Ford riu.

— Eu perguntei o que é isso nos seus braços.

— Ah. — olhei para o filhotinho, que agora estava meio que aceitando estar nos meus braços — Eu adotei ele. Eu estava pensando se... — acariciei o pescoço do bichinho, enquanto uma vontade de espirrar me dominava — Não há uma caixa de papelão por aqui, ou algo assim, onde ele possa dormir até que eu leve de fato para minha casa?

— Claro. Procure ali no fundo. Acho que você pode encontrar um cobertor velho também. — a caixa que encontrei nos fundos da garagem era alta o suficiente para que o gato não fugisse dela. E, com o pequeno cantinho fofo que eu fiz, ele acabou se enrolando em uma bola para cochilar.

Observei aquela garagem, que era mais ou menos do tamanho do meu quarto — e meu quarto não era pequeno.

Havia, na parede dos fundos, um monte de ferramentas de trabalho mecânico, que estavam supreendentemente organizadas.

Tinha espaço de sobre para quatro veículos, apesar de haver somente dois no momento, Ford fuçava em um carro velho do lado, e no canto inferior esquerdo, estava o que eu lembrava ser o carro que ele dirigia quando levou Eliza e eu para a minha casa.

A festa de sábado tinha acontecido há apenas dois dias, mas tantas coisas mais ocorreram nesse meio tempo, que pareciam meses.

Tanta coisa que eu nem sabia como iriam proceder dali em diante, e nem queria pensar muito sobre isso.

— Seu carro é legal. — comentei, observando a pintura e vidros escuros.

— Obrigado, eu acho. Eureka me deu de presente de aniversário. — fazendo um gesto em direção a ele, eu disse:

— Falta isso aqui para você soar como um garoto mimado. — balancei a cabeça, olhando para o modelo de carro obviamente caro — Um automóvel aos 18 anos. Quanto privilégio.

Ford não pareceu ofendido.

— Passei quase cinco anos me esquivando de seus presentes absurdamente caros. Acho que ela nunca sofreu com falta de dinheiro ou algo assim, mas não posso culpá-la por isso, afinal. — levantando, ele jogou a ferramenta que estava usando de lado e começou a se aproximar, enquanto limpava as mãos em um pedaço de pano — Então ela usou de chantagem emocional para que eu aceitasse isso. — Ford bateu no vidro da frente do carro. Foi quase carinhoso — Dizendo que tudo era só prova de que eu não gostava dela, etc, etc. Você sabe, Mabel teve que puxar o drama de alguém. Mas Eureka grávida é triplamente mais dramática.

— Eu não estou ouvindo você reclamar. — apoiei minhas costas no carro, enquanto Ford continha um sorriso, não negando minha afirmação.

— Tudo isso me faz, é claro... — continuou, apoiando o quadril a poucos centímetros de onde eu estava — O motorista particular de qualquer pessoa que precise nessa casa.

Quando ele sustentou meu olhar, percebi que não tinha nada para dizer, então encarei meus sapatos escuros, como se fossem a coisa mais interessante do mundo.

Inicialmente, eu pensei que Ford era um daqueles adolescentes estranhos que chamam seus pais pelo primeiro nome. Mas então percebi que, na verdade, ele não chamava Eureka de mãe. E não parecia ter problema nenhum em se referir ao pai pelo título.

Eu estava pensando sobre isso, quando Ford voltou a falar.

— Por que está tão quieta hoje? — dei de ombros, ainda sem olhá-lo.

Estava cansada. Na aula de matemática naquele dia, eu tinha dormido (o que não era, em si, totalmente surpreendente), mas dormir não era a palavra certa. Eu praticamente tinha desmaiado, apesar de não estar realmente cansada.

Era efeito colateral dos remédios. Quanto mais eu dormia, mais eu tinha vontade de dormir. E tinha que lutar contra a sensação de que não faria diferença nenhuma se eu decidisse não aparecer mais na escola ou em lugar nenhum.

Efeito colateral.

Eu amava e odiava essa expressão. Ela explicava e se encaixava em muita coisa, ao mesmo tempo em que era muito banal, estereotipada.

Um escritor famoso não escreveu uma vez que tudo era um efeito colateral?

— Em. Olhe pra mim. — pisquei, meio perdida, um instante depois fazendo o que ele pediu. Ford correu os olhos pelo meu rosto. Analisando. Buscando. As íris estavam azuis, principalmente por ele estar contra a luz e pelo contraste com a sua camisa branca. Tudo isso fazia um bom trabalho em me distrair, mas me forcei a concentrar quando ele disse — Você está bem? — quando eu não respondi, continuou: — Você sabe que... — Ford coçou a nuca, de repente parecendo desconfortável.

Não podia culpa-lo. Ele não parecia desconfortável meio segundo antes, e se tinha sido eu com minha estranheza que tinha o deixado assim, só me restava sentir angústia, apesar de viver dizendo para mim mesma que seria melhor se ele apenas desistisse — enquanto também tentava me convencer a levar as coisas menos a sério.

Eu odiava essa parte. A parte do: eu não sei o que acontece a seguir. Eu queria saber o que aconteceria a seguir. Se existisse um roteiro para seguir sobre qualquer tipo de relacionamento, eu adoraria. E se eu soava como uma maníaca por controle, que seja. Não tinha criado tantas barreiras, minha mente não tinha criado tantas barreiras em meus sentimentos por nada.

Foi apenas um beijo.

Mas parte de mim não acreditava naquilo. E provavelmente era a parte mais sincera. Eu não podia dizer por Ford, mas eu não tinha beijado ninguém dentro de quase três anos. E não era só sobre o beijo, era sobre a forma como ele tinha me afetado — tantas respostas e sensações que eu não queria processar naquele momento.

— Você sabe que não está devendo nada, não é? — eu pisquei, voltando a olhá-lo, impressionada com sua capacidade de escolher a coisa certa para dizer na hora certa — Eu não estou esperando que agora você submeta alguma coisa a mim. — não precisava de muitas palavras para deixar claro sobre o que ele estava falando — Então, por favor, não fique quieta por achar que eu quero que você tome uma grande decisão agora ou algo assim. Principalmente porque eu meio que gosto de ouvir você tagarelando. Ou resmungando.

Acabei sorrindo, sem saber como eu deveria responder aquilo.

— Você tem que se esforçar um pouco para não ser tão legal. Senão eu posso acabar gostando de você.

Um sorriso preguiçoso começou a se formar no rosto de Ford em resposta — lento, perverso, perigoso — e eu não iria me opor se ele me puxasse contra si. Mas, é claro, houve uma interrupção.

Pelo barulho e estardalhaço que trazia consigo, era Mabel.

Ela empurrou Ford para longe de mim, que não mostrou resistência ao se afastar, e ficou na minha frente, a alegria e animação toda contida no corpinho pequeno.

— Mamãe disse que você tem um gato! — indiquei a caixa de papelão na bancada no fim da garagem.

O gatinho acordou de seu cochilo, encarando Mabel com os olhos amarelos. Um instante depois, ela estava o puxando para os braços, com tanta indiferença e descuidado que eu tive de interferir.

— Ele é apenas um filhotinho, Mabel. — tirei o animal das mãos da criança — É um ser vivo. Precisa tomar cuidado com ele.

Se colocando nas pontas dos pés para que pudesse visualizar o filhote enquanto este estava nos meus braços, ela sussurrou.

— Desculpe. Mamãe nunca me deixou ter um gato. — comentou, enquanto coçava o nariz, para um segundo depois espirrar.

— A minha também não. — pontuei a frase com um espirro, meu próprio nariz coçando.

— Ah, por que será? — zombou Ford, sorrindo, e nós duas lhe lançamos um olhar irritado.

— Qual vai ser o nome dele? — perguntou Mabel, os dedinhos acariciando os pelos pretos. Fiz um suspense por dois segundos antes de dizer:

— Harrison Ford. — Ford imediatamente parou de sorrir.

— Isso não é engraçado. — fiz minha maior cara de inocência.

— Supostamente deveria ser?

Mabel, por sua vez, reagiu exatamente do jeito que se esperava dela. Pondo as mãos nas bochechas, ela exclamou:

— Que nome mais maravilhoso e perfeito! Acho que Cassie vai gostar mais ainda! — ela correu para a porta que dava para a cozinha, por onde tinha entrado, aparentemente para chamar a irmã mais nova. Meio segundo depois, ela voltou, parecendo ter esquecido alguma coisa — Ah, Ford. Mamãe mandou lhe dizer para se arrumar porque você irá nos levar ao supermercado.

Me lançando um olhar, ele replicou: — Como eu disse, antes: motorista particular.

• • • •

Encarei o grupo de sachês bem distribuídos, diferentes sabores de ração pra gato.

Peixe e fígado ou frango com vegetais?

Era esse tipo de decisão importante que eu teria de tomar agora que era mãe de um gato?

— Como você encontrou Harrison Ford? — de costas para ele, eu sorri, pensando que Ford tinha se acostumado com o nome antes mesmo de qualquer pessoa.

— Uma senhora na quadra seguinte a da escola me deu.

— Você adotou um gato de uma mulher desconhecida?

— Na verdade... — estendi a mão, optando por (atenção mundo) frango com vegetais — Eu meio que fui intimada a adotá-lo.

Quando Ford não respondeu, virei minha cabeça para olhá-lo. Apoiado casualmente numa prateleira, seu rosto então livre de manchas de graxa, Ford estava me olhando com um pequeno sorriso, como se pudesse saber exatamente o que eu estava pensando.

— Pare de olhar pra mim.

— Não estou olhando pra você. Estou olhando para... — levantando o olhar sutilmente, Ford encarou o local exatamente acima da minha cabeça — A liquidação de enfeites para festas.

Joguei o sachê de comida suculenta para gato na cesta que ele carregava, enquanto uma garota passava por nós, parando para encarar Ford. Ela pausou por um segundo, antes de voltar a realidade e continuar com sua caminhada — e Ford fingia que não via. Quando passou por mim, a garota estava segurando um sorriso, e sussurrou:

— Nossa. — ao que eu respondi com um assentimento.

— Eu sei. — Ford ainda tentava conter um sorriso, mas estava falhando miseravelmente. Estreitei os olhos para ele: — Esse tipo de coisa não faz bem para o seu ego, não é?

— Nem um pouco.

Mais tarde, eu presenciei a cena mais desconfortável do planeta que só pode acontecer em supermercados (pelo menos, se você estiver com crianças).

Mabel e Cassie pareciam se divertir imensamente — empurrando carrinhos, escorregando no chão polido, e seguindo pessoas desconhecidas — mas, se quer um conselho: não leve crianças para fazer compras.

Elas resmungam para ganhar coisas desnecessárias, e passam o tempo todo comentando alto demais sobre os desconhecidos. Eureka era um poço de paciência, mas eu não era. Felizmente, ela não esperava que eu fosse ou que contivesse uma das meninas em suas birras. Ford só parecia imensamente entediado, na maioria do tempo, e toda vez que Eureka me via com o rosto irritado, ela sorria e murmurava alguma coisa sobre ser mãe.

No corredor de produtos de higiene, nos encontramos uma mulher que — depois de olhar para Mabel, Cassie, Ford, eu e Eureka grávida — perguntou para Eureka, incrédula:

— Você é louca? — mesmo se ela estivesse pensando erroneamente que eu fazia parte da família, tinha que concorda que, de um jeito ou de outro, era um grupo bem agitado. Mas, mesmo assim, eu ficaria irritada se fosse Eureka. Eu fiquei irritada com o comentário indelicado. 

Eureka apenas sorriu amavelmente, acariciando a barriga enquanto respondia:

— Não. Só muito fértil. — assim que a mulher se afastou, Mabel sussurrou:

— Nossa, que deselegante. — e eu tive de concordar.

Ah, mas esse não foi o acontecimento mais embaraçoso.

Este aconteceu quando estávamos perto de ir embora, e Mabel parou em frente a uma exibição de envelopes coloridos e brilhante, que chamaria a atenção de qualquer um, e, pelas ilustrações de frutas e guloseimas, passava facilmente a ideia de ser algo que na verdade não era.

Ford estava rindo antes mesmo das palavras saírem dos lábios da criança:

— Eu quero esse doce. — os olhinhos castanhos brilhando dava mais ênfase as palavras.

Engoli em seco, observando Eureka, junto de Cassie, na fila para atendimento preferencial — que ainda parecia terrivelmente lenta.

— Uh, isso não é um doce, Mabel. — expliquei, tentando puxá-la para longe — Ford, pare de rir. Vamos, pequena.

Então ela fez a pergunta de um milhão de dólares:

— Então o que é? — abri a boca para responder, então voltei a fechar, enquanto Ford se abaixava para pegar Mabel nos braços, contendo a risada.

Ele fez um ótimo trabalho em distraí-la, enquanto eu pensava que alguém devia entrar com um processo contra fabricantes de camisinhas que fazem embalagens atraentes demais.

• • •

Harrison Ford quer me matar!

Toda vez que eu entrava em casa, ele saia do seu esconderijo — que, até onde eu sabia, podia ser debaixo da terra, no inferno — e atacava minha canela.

Naquela noite, tomei um susto tão grande que machuquei meu dedo mindinho no pé da estante da sala.

O pior é que ninguém acreditava em mim quando eu dizia que o bicho era endemoniado e queria minha morte. Então eu tinha que carregar o conhecimento sozinha.

Estava deitada no chão, Harrison Ford já tinha dado seu bote, e eu olhava para ele enquanto perguntava pra Deus o porquê de tanta dor.

Harrison Ford se enrolou em uma bola e ronronou do lado do meu ouvido, dizendo que não me odiava tanto assim, que ele só era meio louco mesmo.

Agora, falando por experiência própria, eu duvidava muito que ter um gato ajudava na sanidade mental, considerando que a partir do momento que adotei um, eu estava falando com um animal e imaginando suas respostas.

Ouvi Galadriel chegando do seu encontro daquela noite, Harrison Ford nem ameaçou levantar, provando mais uma vez minhas suspeitas de que ele só me atacava.

Galadriel trancou a porta, olhando para mim no chão com uma careta irritada.

— Você está ridícula. — comentou, mas não havia nem um pingo de provocação saudável. Soou só... Cruel.

Hesitei antes de responder, acariciando o pelo escuro do meu gato enquanto avaliava minha irmã mais nova. Não era a primeira vez naquela semana que eu notava o humor estranho de Galadriel, mas não consegui pensar em nada que o causasse.

— Qual o problema? — perguntei, por fim — Você brigou com seu namorado ou algo assim?

Me ignorando quase completamente, ela se encaminhou para o corredor.

— Cuide da sua vida, Emily.

— Wow! — eu sentei, espantando o gato perto de mim — Você está agindo como uma grande vadia ácida. Eu só estou preocupada com você.

Galadriel estreitou os olhos castanhos para mim, irritada sem nenhum motivo aparente.

— Acho que você tem suas próprias merdas para se preocupar. Não tem, Em? — se ela queria me deixar chocada, conseguiu.

Abri a boca para replicar, para logo em seguida notar que não sabia o que dizer.

Ouvi seus passos se afastando, seguido do barulho da porta de seu quarto sendo fechada com força.

Olhei para Harrison Ford, estupefata:

— Dá pra acreditar nas pessoas? — ele miou em resposta, concordando e dizendo que não, realmente não dava para acreditar.

• • •

Eu não via Ford há uma semana.

Sete dias.

Tão pouco, mas, estranhamente, era o máximo de tempo que eu tinha passado sem vê-lo desde que eu o conheci de verdade.

Esse foi tempo o suficiente para notar que eu esperava encontrar ele.

Tipo, quando eu esbarrava em alguém nos corredores da escola — o que meio que acontecia bastante, somando minha distração com a quantidade absurda de alunos — eu esperava esbarrar em Ford, como numa daquelas cenas clichês de filmes adolescentes.

E, às vezes, eu achava que o via no meio da escola, mas então percebia que não podia ser. Um alguém loiro demais, moreno demais, baixo demais.

Não fazia parte do meu trabalho conversar com Ford, então eu tentava me focar em Mabel e Cassie — mesmo que às vezes tivesse a impressão que ele estava no cômodo ao lado, tão perto.

Ele também não apareceu nas aulas de carpintaria, o que deu lugar a preocupação. E se eu estava progredindo 10% no meu projeto da aula com ajuda de Ford, sem ele meu resultado foi -15% (se é que isso existe).

Quando eu perguntei a Hilário sobre Ford, da forma mais sutil que consegui, a resposta que obtive foi:

— Ele é um garoto ocupado, Em.

Ocupado. Certo.

Eu entendia de ocupação. Eu era extremamente ocupada, ora bolas.

No quinto dia, conversando com Eliza, que tinha acabado de sair da aula da qual eu sabia que ela fazia com Ford, eu estava me coçando para perguntar sobre ele.

Notando minha apenas meia concentração na conversa, ela questionou, risonha:

— Você quer me perguntar alguma coisa?

Me fiz de desentendida.

— Eu? Não, nada. — e também fingi que não corei com sua risada alta.

Esqueça sobre os sete dias.

Foram dez.

Eu estava mexendo no meu armário, no décimo dia, quando Ford decidiu dar as caras. Grande parte dos alunos tinha decidido parar de usar seus armários, por alguns serem longe demais de certas salas de aula, não havendo assim muita vantagem em usá-los. Mas eu permanecia usufruindo o meu, principalmente porque ainda via algo de charmoso sobre eles (pode-se dizer que alguns clichês adolescentes estão impregnados no meu ser).

— Oi, você vem sempre aqui? — se fosse qualquer outro momento, eu teria pulado de susto ou levantado o olhar o mais rápido possível. Mas era fim de aula, os corredores estavam quase totalmente vazios e eu pude ouvir seus passos se aproximando.

Meu coração fez aquela coisa estranha e boba de parar por um instante antes de voltar a bater com rapidez e força renovada.

Eu podia sentir seu corpo próximo, o ombro apoiado casualmente no armário ao lado, mas só respondi quando voltei a fechar o armário.

Ou, pelo menos, esse era o plano. Porque quando realmente encarei Ford, fiquei sem saber o que dizer, pois havia algumas coisas que precisam ser processadas sobre ele.

Primeiro, ele tinha cortado o cabelo.

Nada muito radical, só necessário. Alguns cachos ainda caiam sobre seus olhos, mesmo que as laterais estivessem mais curtas.

Segundo, a habitual manga longa de sua blusa estava arregaçada, no braço direito, até a altura do cotovelo. Uma parte da pele do antebraço coberta por uma gaze, um curativo retangular.

E, bem, havia sua roupa.

Ele estava vestido de... Eu realmente não conseguia discernir o que era aquilo logo de início.

— O que você esta vestindo? — formulei a pergunta.

— Oh, isso. — Ford olhou para o seu corpo, como se tivesse esquecido totalmente da peculiaridade da sua roupa — Eu sou um bicho preguiça, acho.

Puxando o capuz do que eu só podia chamar de moletom, ele trouxe o tecido que caiu um pouco acima dos olhos, o desenho de olhos e focinho inconfundíveis de um bicho preguiça. Comecei a rir.

— Mas que... Por quê? — sorrindo, ele tirou o capuz do rosto.

— Nós estamos vendendo doces. Você sabe, em um desses projetos estranhos de fim de ano, para arrecadar dinheiro para as festas de formatura. Eliza está em um deles.

Imediatamente lembrei de Eliza mencionando algo sobre uma barraco do beijo.

— E por que você precisa se vestir com um pijama de preguiça para vender doces? — se eu estava lembrando direito, nenhum outro terceiro ano tinha feito algo parecido.

— Bem... — ele acariciou o queixo enquanto respondia — É comprovado que as pessoas ficam mais propensas e a comprar coisas quando seu vendedor é bonito ou fofo. Então, eu pensei: por que não juntar os dois... — fez um gesto em direção ao próprio corpo — E conseguir uma exorbitante quantidade de vendas?

Voltei a rir, balançando a cabeça pelo absurdo que aquilo soava.

— Hey, não ria de mim! Eu sou um empreendedor. — Ford lambeu os lábios, tentando conter o próprio sorriso — Além disso, era me vestir de preguiça ou dançar Xanadu.

Parei de rir, colocando minha maior cara de indignação, que não era totalmente falsa:

— Como assim você não vai dançar Xanadu? — foi a vez de Ford achar graça.

— Não achei que você fosse ansiar por isso.

Estendi a mão, tocando a gaze em seu antebraço.

— Você se feriu? — ele baixou a cabeça, levantando levemente o braço.

— Ah, não. Isso é meio que... Uma nova tatuagem.

— Meio que? — levantei uma sobrancelha.

— É. — Ford coçou a nuca antes de completar — Ela é mais simples do que a maioria.

— Posso ver? — ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas desistiu no meio do caminho, respondendo com um dar de ombros.

Tirei o adesivo com cuidado, receosa que pudesse machucá-lo. Eu não podia me ajudar sendo tão curiosa, mas não tendo eu coragem o suficiente para ter minha própria tatuagem, era uma grande admiradora de desenhos na pele dos outros. Principalmente na de Ford.

A tatuagem nova era, de fato, bem mais simples que toda a arte que havia sido desenhada no resto do seu corpo. Uma única frase escrita em letras simples:

A morte parece menos terrível quando se está cansado.

Eu não sei qual reação deveria ter, ou qual Ford esperava que eu tivesse. A frase em si, afinal, era meio obscura. Mórbida, até. Principalmente considerando que aquilo era uma tatuagem e duraria pro resto da vida.

Seja lá o que Ford esperava que eu dissesse, ele pareceu surpreso quando eu exclamei:

— Isso é Simone de Beauvoir! — sua expressão foi de tensa para surpresa e, por fim, ele relaxou e sorriu.

— É isso mesmo.

— Isso é muito legal. — tracei a escrita com os meus dedos, sem realmente tocar a pele — Você tem tantas tatuagens com tão pouca idade. Eliza iria morrer de inveja se soubesse.

— Eu também não pensei que você gostaria de caras com tatuagens.

— Não gostava. — respondi, com sinceridade, largando sua mão e deixando que ele interpretasse a frase como quisesse.

Colocando as mãos nos bolsos, Ford voltou a se apoiar nos armários fechados, sorrindo minimamente, como quem estava flertando, e me mostrando um vestígio de suas covinhas.

— Venha para minha casa comigo. — o tom era de paquera e, antes que pudesse me controlar, eu corei, apenas para um instante depois entender a frase por completa.

— Eu estou indo para sua casa agora. — resmunguei, e Ford abriu um sorriso completo.

— Exatamente. — quando eu soquei seu ombro, ele se defendeu: — Eu estou lhe oferecendo uma carona, Em.

Dei de ombros, pensando em todo o caminho extra que eu fazia a pé toda tarde quente para chegar à casa dos Kennedy.

Quando eu já estava sentada no banco do passageiro, Ford informou que precisava buscar algo no prédio e que voltava em um instante.

Fiquei imóvel. Estava no carro de Ford (se liga no trocadilho não intencional), no espaço de Ford. Não demoraria muito até que eu começasse a fuçar em tudo a minha volta, e eu esperava que ele estivesse ciente disso quando me deixou sozinha com seu carro.

Me inclinei para olhar a lista de músicas, impressionada cada vez que meu dedo tocava a tela e mais títulos de músicas clássicas e jazz apareciam.

Quando começou aparecer obras de Nat King Cole, meu queixo caiu.

Não era exatamente o que eu esperava de Ford.

Puxando a aba de configurações no canto superior da tela, o nome da playlist pulou em meus olhos:

Lyra M.

Tirei minha mão do aparelho como se tivesse levado um choque, sentindo que estava vendo algo mais íntimo do que me era permitido.

Até Ford voltar, eu fiquei quieta.

Ele pôs algo no porta-malas, em seguida ocupando seu lugar como motorista. E enquanto ligava o carro, eu confessei:

— Eu vi sua playlist. — como quem confessa que fez algo horrível.

Ford parou e virou para mim, não exatamente irritado ou impressionado, com um sorriso curto.

— Descobriu algo de interessante?

Engoli em seco, encarando as minhas mãos: — Além do fato de você gostar mais de jazz do que eu poderia imaginar?

Se inclinando, ele mexeu nas configurações do aparelho, o nome da playlist aparecendo novamente: — Relaxe, Em. Essas eram as músicas preferidas da minha mãe. Lyra. Esse era o nome dela.

O uso do tempo verbal no passado me alarmou, mas Ford continuou com seu trabalho de dirigir. Apertei meus olhos, fechados, de repente me sentindo estúpida por não ter notado antes.

— Sabe... — começou, tirando facilmente o carro do estacionamento quase vazio — As pessoas dizem que sua família e seu passado não influenciam em quem você é hoje, mas eu discordo. Por exemplo, se ao conhecer uma pessoa, eu imediatamente não informá-la que minha mãe morreu, haverá, eventualmente, um momento constrangedor de explicação — exatamente como esse agora. — ele pausou, trocando a marcha do carro com força — Ás vezes, parece que esse é um detalhe grande demais sobre mim. Se você é adulto ou idoso, as pessoas não se surpreendem se você perdeu um dos pais, ou os dois. Agora, se você é jovem, sempre há uma grande coisa sobre isso. Sempre há um monte de sinto muito ou por que você não me contou antes? Parece que eu tenho que me apresentar com um: "Oi, meu nome é Ford, e minha mãe está morta." E... — ele se interrompeu, parando o carro por um instante, como se nem mesmo soubesse que estava falando, o rosto levemente corado — Desculpe, Em. Eu estou falando demais.

Me inclinei, louca para trocá-lo, mas sem certeza de que seria uma boa escolha.

— Não! Eu... Eu... — gaguejei, limpando a garganta logo em seguida — Eu meio que... Gostaria de saber mais sobre você. — Ford inclinou a cabeça, e eu desviei o olhar para minhas mãos juntas — E se você quiser falar sobre isso, eu meio que... Estou disposta a ouvir.

Ford sorriu um pouco, os olhos fixos no caminho.

— Fez cinco anos, semana passada. — ele pegou o caminho mais agitado, com carros e semáforos. Fazendo as contas, cheguei a conclusão.

Treze anos.

Ele tinha treze anos.

— Você nunca acha que o câncer vai atingir você ou uma pessoa próxima a você. Até que ele atinge. São bilhões de pessoas no mundo todo, mas alguém precisa ser atingido. — nós paramos em um sinal vermelho — Todos nós somos culpados de hierarquizar o sofrimento: presumimos que ter tempo para nos despedirmos de alguém que irá morrer é melhor do que perder alguém repentinamente. Mas não é. Eu nunca falei isso em voz alta, mas eis a verdade: eu não me despedi da minha mãe. — Ford olhou para mim por um instante antes de colocar o carro para andar de novo — Eu não sou de falar muito sobre isso. E acho que exatamente por isso ninguém espera que eu faça. Mas, depois da última semana, eu queria falar sobre ela. E acho que você foi a única pessoa que parou para ouvir.

Minha unha do indicador já estava toda ruída, e justo quando eu pensava que ele ia falar mais, não falou.

Olhei para a janela, os carros passando, pessoas seguindo suas vidas, alheias a qualquer coisa que estava acontecendo.

— Gostaria de saber o que você está pensando agora. — falou, depois de um tempo.

— Estou tentando criar uma linha do tempo. — me virei para ele, pensando — Tem você, então tem... — eu quase disse Dr. Kennedy, mas parei a tempo — Tem o seu irmão mais velho. E seu pai, casado com Eureka. E Mabel e Cassie. Como tudo isso se encaixa?

— Bem... — Ford molhou os lábios — Se você quer mesmo saber, se prepare para ouvir. A história é longa. — me arrumei no assento, ficando mais confortável — Meu pais foram casados por... Não sei quanto tempo. Nem importa muito. Os dois se gostavam bastante, acho. Meu irmão e eu nascemos, e eu era uma criança quando eles decidiram se divorciar. Foi uma decisão unânime, sabe? Não demorou muito para minha mãe mostrar que, na verdade, ela tinha decidido que homens não eram exatamente sua praia. Ou, pelo menos, não eram só a sua praia. 

Meu queixo caiu, sem saber se tinha entendido certo, e fiquei mais impressionada do que provavelmente deveria. Ford sorriu para mim reação.

— É. Bem, a nova namorada dela era uma mulher legal. E não demorou muito para que meu pai começasse a namorar também.

— Com Eureka. — completei.

— Sim. — ele pisou no freio, parando por um instante antes de continuar — Não tenho motivos para reclamar de meu pai. Não é como se minha mãe algum momento tenha precisado muito dele.

Ford tocou a gaze que cobria sua nova tatuagem, o olhar distante:

— Stan já vivia na sua própria casa, e acho que por isso as pessoas acham que eu sofri mais do que ele. Mas não é como naquelas histórias, em que um filho tem que cuidar da mãe doente. E, se fosse, a situação continuava não sendo sobre mim, mas sobre ela. Além disso, eu sempre tive uma família incrível. E acho que ela, de uma forma inesperada, apenas cresceu com a separação de meus pais. Arianna sempre cuidou muito de mim, exatamente como uma segunda mãe. Meu pai sempre se esforçou o máximo para cumprir seu papel. E Stan sempre foi silencioso, mas a situação dele nunca foi melhor ou pior do que a minha. Então tinha Eureka e Mabel. Acho que Eureka já estava grávida de Cassie na época, mas ela nunca pediu atenção. E se tornou tão amiga da minha mãe, que era louco pensar que uma era a ex e outra a mulher atual de meu pai. — sorri, pensando naquilo.

— E Mabel?

— Ah. — os olhos de Ford brilharam, como quando você lembra algo bom — Ela apenas olhou pra mim por um minuto, e no instante seguinte decidiu que eu serviria bem como irmão mais velho. O mesmo com Stan.

— Exatamente o que se esperava de Mabel. — Ford assentiu, sorrindo.

— Então nós éramos um grande grupo cuidando de uma grande mulher. Apesar de que, no fim, não havia muito que pudesse ser feito. Ela estava doente, e iria morrer. Não havia quantidade de amor no mundo que pudesse mudar isso.

Não aguentando, entrelacei os dedos de sua mão nos meus. Pela primeira vez, tive vontade de contar tudo para ele.

Mas eu sabia que seria injusto. Aquele momento não era sobre mim.

Iria soar como se estivéssemos comparando tragédias.

Além disso, dizer "Minha tia e meu primo morreram em um incêndio." não contava a historia toda. Havia mais envolvido, partes da história que eu não estava disposta a contar para Ford.

Ford e eu éramos pessoas diferentes.

Incêndio e câncer não são a mesma coisa.

Tias e primos não são mães.

Ao mesmo tempo que aquilo era sobre morte, era mais do que isso. Era sobre culpa.

Uma doença pode pegar alguém inocente. O incêndio, por sua vez, foi minha culpa.

Ugh, que complicado.

— Sua tatuagem... — apontei para a gaze em seu braço — Tem alguma coisa a ver com isso?

— Acho que sim. — Ford olhou para o local, tirando o curativo. A pele estava levemente vermelha — Ela citou isso uma vez antes de morrer. Era uma grande fã de Shakespeare, e não foi ele que disse algo uma vez sobre lutar contra a morte?

— Combater e morrer, é pela morte derrotar a morte? — ofereci.

— Exatamente. Ela acreditava nisso. Ou tentou, pelo menos. Mas acho que, quando se está doente, chega um momento que você apenas cansa. Então ela teve de decidir se queria a possibilidade de viver mais alguns meses presa em um hospital, ou se queria viver poucas semanas em casa.

Perdi o fôlego apenas com a perspectiva da escolha.

— Então nós estávamos todos lá. Uma família meio estranha reunida. De alguma forma, nós estávamos felizes. Mas minha mãe ainda estava morrendo. E eu só conseguia me perguntar como as coisas podiam ser maravilhosas e horríveis ao mesmo tempo.

Eu pensei sobre aqueles ideais. Enfrentar e combater a morte é vencê-la. Mas e quando você apenas está cansado de viver? Era muito oposto, mas não significava necessariamente que um deles estava errado.

Ford me olhou, as íris claras absorvendo meu rosto um instante antes dele se inclinar e roçar os lábios nos meus. Mas se afastou rápido demais, dizendo:

— Você sabe que minha casa não é tão longe e que nós chegamos aqui a mais ou menos dez minutos, não é? — pisquei várias vezes, olhando o local fora do carro. Pela janela eu podia ver que, de fato, ali estava a casa do Kennedy.

Ford chamou minha atenção de novo:

— Obrigado por ouvir tudo isso. — ele até parecia levemente envergonhado.

— Disponha. Obrigada pela carona.

— Disponha. Eu sou o motorista particular, lembra?

Eu estava com um pé para fora do carro, quando percebi que havia algo para ser dito, e voltei a olhá-lo.

— Eu gosto da sua mãe. — decidi, e Ford abriu outro sorriso.

— Ela gostava muito de ler. De dançar. E de tatuagens. Era uma mulher muito intensa, analisando agora. — havia, é claro, um tom nostálgico mais presente em seu olhar do que em sua voz — Acho que ela ia gostar de você também.

Sorri para aquilo, me perguntando se era possível sentir falta de alguém que nem sequer tinha conhecido.


Notas Finais


Como sempre, mores. MUITO OBRIGADA pelos comentários. E ME DESCULPEM POR NÃO RESPONDER (to gritando mesmo). A falta de tempo tá hard, mas não desistam de mim, por favor <3 Espero que tenham gostado no capítulo.
Por último, peço que puxem papo comigo na ask: ask.fm/intmacy (dá pra mandar perguntas e coisinhas em anônimo lá). Pode até cobrar cap novo que eu deixo. Ah, alias, outro dia eu postei lá um spoiler bem adiantado de Em Crise, então pra quem tiver interesse, é só dá uma procuradinha... É isso, tô correndo contra o tempo. Tia adora vcs <3


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