História Encontrando o caminho. - Capítulo 4


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Categorias O Código Da Vinci, Salt, Xena, a Princesa Guerreira
Personagens Ares, Autolycus, Cyrene, Gabrielle, Najara, Personagens Originais, Salmoneus, Xena
Tags Ação, Aventura, Drama, Fantasia, Femme Slash, Luta, Policial, Saga, Shoujo-ai, Suspense, Universo Alternativo, Xena, Yuri
Exibições 28
Palavras 20.220
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ecchi, Fantasia, FemmeSlash, Ficção, Luta, Mistério, Policial, Romance e Novela, Saga, Shoujo-Ai, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yuri
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 4 - A Ordem do Santo Graal.


Fanfic / Fanfiction Encontrando o caminho. - Capítulo 4 - A Ordem do Santo Graal.

............. Reencontrando um amigo.

O famoso British Museum é guardador de grandes e importantes obras e artefatos que compõem a história e a cultura humana. São mais de seis milhões de peças cuidadosamente inventariadas, vindas de todos os continentes, com o objetivo de documentar a história humana pela terra. Aberto ao público desde 1759, desde então é visitado anualmente por milhões de pessoas, ansiosas por apreciarem as preciosidades históricas, preservadas no melhor estado possível.

O carro estaciona em frente ao enorme edifício já fechado para o público. As duas mulheres se dirigem ao portão gradeado, setas douradas fazem os acabamentos das grades. Zina aproxima-se da pequena porta da cabine de segurança, ao lado do grande portão.

Um homem vestido com a farda da empresa de segurança a cumprimenta: - Pois não senhora, em que posso ajudar? - Pergunta o segurança.

Zina o cumprimenta e diz: - Desejo falar com Mr. Hércules Sorbo, por favor.

- Mr. Hércules?  - Repete o segurança com cara pouco amigável.

- Sim, ele é o Curador. Está nos esperando. - Explica a mulher.

- Um instante, por favor. - O homem entra na cabine e com um telefonema confirma a informação de Zina. Ele não tira os olhos da loira que a acompanha.

Zina ligara após a chegada em Londres. Queria aproveitar sua estadia na cidade e visitar um velho amigo. O segurança zeloso as deixa entrar. Outro segurança as acompanha até a porta principal do museu, ao centro do edifício de linhas retas.  Sustentando a arcada da entrada principal, com várias figuras em relevo no frontão triangular, mais algumas colunas realçam a importância da grande entrada.

Embora já conheça o museu Gabrielle nunca deixa de se admirar com a imponente fachada. Ela tropeça nos degraus de acesso ao patamar.

- Se viéssemos em serviço secreto, seríamos apanhadas. - Diz Zina com um toque de humor.

- Se viéssemos em serviço secreto, não estaríamos entrando pela porta da frente. - Gabrielle responde prontamente.

Zina sorri com a perspicaz observação da loira. Ouvem barulho de passos e a conversa é interrompida. Um homem muito alto, bonito, rosto de traços másculos, porte atlético, cabelos castanhos muito lisos aproxima-se delas vindo do interior do grande salão.

Um largo sorriso aparece no rosto de Zina, que é correspondido na mesma intensidade pelo homem. Eles se abraçam calorosamente e se encaram por alguns segundos.

- Você está cada vez mais linda! - Diz o homem. O brilho no olhar dele não passa despercebido de Gabrielle que observa a cena com certo incômodo.

- Hurruum. - Pigarreia a loira.

Como acordando do transe o homem se dirige a Gabrielle: - E quem é essa loirinha?

- Essa é minha amiga, Gabrielle. - Responde Zina sorrindo, abraçando a pequena loira pelos ombros.

Após as apresentações todos se dirigem ainda mais para o interior do museu, sobem uma grande escadaria, rumo ao escritório.

- Não soube mais de você! Por onde tem andado? - Pergunta Hércules abraçando Zina pela cintura enquanto andam.

O olhar de Gabrielle faísca, sente o sangue esquentar seu rosto, tenta não demonstrar seu desconforto com a situação. Sentia no ar que o relacionamento deles em algum momento foi além da amizade.

- Ah... andei viajando à trabalho, como lhe disse. - Responde a morena.

Mais alguns passos e o homem anuncia: - Chegamos! - Ele abre uma porta larga que dá para uma grande sala decorada com sobriedade, todos os móveis eram estilo vitoriano. Uma grande estante tomava toda parede atrás da suntuosa poltrona. A iluminação da sala não é total. Uma cópia do quadro “O Nascimento de Vênus” de Botticelli enfeita a parede em frente à mesa com dois abajures que dão um tom soturno ao local. Todos se acomodam, mas a atenção de Gabrielle se volta para o famoso quadro. Ela o admira quase sem piscar, magnetizada pela pintura. A concentração dela chama atenção de Hércules.

- Você gosta de Botticelli? - Pergunta o homem.

- Alguma vez admirou essa pintura? - Pergunta Gabrielle ignorando a pergunta de Hércules, e com conhecimento de quem sabe do que está falando, embora não seja especialista no assunto, começa a falar sobre a pintura, o significado das posições de cada modelo, de cada objeto, de cada sombra pintada na tela.

O homem ouve admirado a cultura de Gabrielle. Ele lança um olhar interrogativo para Zina, que não esconde o orgulho de sua linda loira:

- Gabrielle cursou história da arte e arqueologia. Ela é arqueóloga e pesquisadora da universidade de Nova York.

A fisionomia de espanto de Hércules é visível. - Então você conhece Dr. Iolaus?! - Pergunta o homem.

Gabrielle abre um lindo sorriso, com aquele jeitinho todo seu de enrugar o nariz que tanto encanta Zina. - Além de trabalharmos juntos, somos grandes amigos desde a época da faculdade! - Exclama a loira.

- Que mundo pequeno não?! Iolaus é meu melhor amigo, como um irmão para mim. - A partir daí a conversa se desenrola mais descontraída por horas e horas.

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O fogo já começava atingir os bancos e a fumaça vai mergulhando o salão principal na penumbra. Três vultos encapuzados correram para a lateral do salão onde o velho os esperava retorcendo as mãos de nervoso. Ouviam-se cada vez mais próximas o som agudo das sirenes dos bombeiros. Em questão de minutos eles entrariam no salão.

Em outra porta lateral, outro vulto encapuzado está encurralado pelas chamas. Os quatro se amontoavam contra a porta assustados com as labaredas que começavam a rodeá-los. O fogo avançava mais rápido que o previsto e atingiu o homem que tentava sem sucesso abrir a outra porta lateral. Com o corpo em chamas, ele se debatia, esbarrando nos bancos, nas paredes, os gritos de dor eram aterrorizantes. Os três tentaram em vão se aproximar, mas não conseguiram. O fogo já tomava conta de algumas obras de arte; as portas cediam à pressão dos bombeiros. No mesmo instante que os três e o velho fugiam pela porta lateral, os bombeiros entravam no edifício com suas mangueiras jorrando água para todos os lados.

O que os fugitivos não viram foi que outro vulto, escondido entre as sombras, seguia atentamente cada um de seus passos. Levava na mão uma pistola com silenciador. Um disparo certeiro acaba com agonia do homem que se debatia em chamas no chão.

Quando os homens sumiram pela porta lateral e antes que os bombeiros pudessem vê-lo, ele aciona uma alavanca oculta na parede e desaparece.

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A rua estava interditada com cavaletes. Aquela hora da madrugada a Great Russell Street fervilhava de gente, os policiais tentavam conter os curiosos que queriam saber o que acontecera no museu, enquanto os bombeiros acabavam de apagar os rescaldos ainda fumegantes na ala direita, onde ficavam as relíquias religiosas.

Kevin Nolan Saiu para respirar, sua garganta ardia devido ao resto de fumaça do incêndio que aspirara. O assédio dos repórteres era irritante, mas tentando manter a calma ele pede aos jornalistas que tranquilizassem as pessoas. As investigações foram iniciadas e que estava sendo feito um levantamento para saber a extensão dos danos materiais e possíveis perdas de inestimáveis obras de arte. Mas o que ele não disse é que tinha sido encontrado um corpo carbonizado entre os destroços.

Nolan não acreditava em coincidências e o museu nos últimos cinco anos vinha sendo alvo de frequentes “acidentes”. Além de várias tentativas de roubo, esse era o terceiro incêndio. No penúltimo incêndio foram encontrados dois cadáveres carbonizados. A autópsia revelou que ambos eram homens, tinham entre 25 a 30 anos e que antes de serem carbonizados tinham sido mortos por tiros de pistola 9mm. Para completar os corpos não foram identificados. Quem atirara neles?

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Hércules está dormindo quando seu celular toca. Ele vira-se na cama e alcança o telefone na mesinha de cabeceira, sua voz soa sonolenta:

- Sim? - Ele ouve a notícia catastrófica do incêndio no museu. De um pulo senta-se na cama. - O QUÊ?  - Berra já totalmente acordado, sacudindo a cabeça como se não acreditasse no que ouvia. A conhecida voz masculina continua a relatar o incidente. - Estou indo agora mesmo! - Desliga o celular, se veste apressadamente e sai.

Atendendo ao desejo da mãe Hércules tornou-se policial. Nos últimos 15 anos convivera com os colegas de farda, perseguindo as máfias que contrabandeiam obras de arte e zelando pelo imenso patrimônio artístico e cultural da Inglaterra. Mas sentia no seu íntimo que não tinha vocação para policial. Primeiro fez a graduação, depois o doutorado em história da arte em Oxford. Após algum tempo foi transferido para o Departamento de Arte.

O Departamento de Arte era um órgão especial, subordinado à Secretaria de Cultura. Dele faziam parte policiais, arqueólogos, historiadores, especialistas em arte medieval, arte moderna, arte sacra. Ele agora juntava as duas especialidades, era policial e historiador. Durante anos dera ao departamento o melhor de si, com muito trabalho e oportunidades foi subindo na carreira até chegar ao topo, agora acumulava os cargos de Curador do museu e Diretor do Departamento de Arte, mas a responsabilidade, a carga de trabalho de quatorze ou quinze horas diárias tinha cobrado seu preço.

Serena era uma mulher linda, encantadora, com um entusiasmo tão contagiante que cativava as pessoas. Eles se conheceram na universidade. Ela estudava história grega; foi paixão à primeira vista e poucos meses após a formatura se casaram. Tinham dois filhos e era o que se costuma chamar de casal feliz.

Era professora universitária e nunca reclamou do pouco tempo que Hércules ficava em casa. Num fatídico dia de nevasca em que ela e os filhos se dirigiam ao aeroporto para buscá-lo do regresso de mais uma viagem, uma carreta transportando um grande container derrapou na estrada coberta de gelo e o pesado veículo descontrolado tombou sobre o carro. Os três passageiros tiveram morte instantânea, esmagados entre as ferragens do veículo.

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Hércules conheceu Zina muitos anos atrás durante uma viagem à Nova York, em que fora visitar Iolaus. Ele aproveitava um agradável sol de primavera no passeio matinal pelo Central Park, quando viu aquela deslumbrante mulher passar correndo praticando seu Cooper. Alta, corpo esguio, longos cabelos negros lisos, olhos de incomparável azul. Foi atração à primeira vista, que pelo visto foi correspondida pelo sorriso belo e perfeito da morena.

A aproximação aconteceu. Nos 25 dias que ficaram juntos, quem os visse nas ruas poderia dizer que eram um casal apaixonado, mas ele sentia que ela escondia alguma coisa, se esquivava de responder algumas perguntas, falava pouco sobre seu trabalho; sabia apenas que ela trabalhava em uma empresa de informática e que viajava muito, excetuando que ela tinha frequentado a academia de policia, nada mais importante sabia a seu respeito, mesmo quando estavam juntos a tensão dela era notada. Era uma mulher fascinante, estranha e misteriosa.

Hércules se distrai com o espetacular hall de entrada do aeroporto JFK, em Nova York, é feita a última chamada para embarque dos passageiros do voo para Londres. O homem olha ansiosamente o relógio, esperava encontrar Zina para despedir-se, não seria um adeus, mas sim um até breve. Aquela mulher mexera com seus sentimentos, seu coração tanto tempo adormecido voltava a sentir. Não se tratava mais apenas de atração ou sexo. Os minutos correm, não existe mais possibilidade dele esperar. Após passar pelos cada vez mais complexos procedimentos da alfândega americana, ele caminha para o portão de embarque. Vira-se ainda algumas vezes na esperança de vê-la, mas acaba se conformando com a ideia de que para ela tudo não passou de uma aventura.

No hall do aeroporto, atrás de uma viga de aço, Zina observa o homem atravessar o portão de embarque. Ele era um homem atraente, inteligente; o homem que seria o sonho de qualquer mulher, mas apesar de todos os momentos agradáveis que passaram juntos nesses dias, ela sentia em seu íntimo que ele não era sua alma gêmea.

Um encontro de almas é um encontro peculiar, este amor chega sem ter dia ou momento marcado para acontecer. Simplesmente chega e se instala, criando uma verdadeira festa de sentimentos alegres, que modificam todos os propósitos e conceitos até então firmados. Acontece que esse momento é determinado pelo destino; as almas afins se entrelaçam e buscam a forma de ficarem juntas, num processo contínuo de reaproximação até a consumação do amor.

De qualquer maneira as almas ficam marcadas e nunca conseguirão se separar. Sempre acontecerão reencontros. Almas que se encontram não se sentirão mais sozinhas, pois reconhecerão a necessidade que uma tem da outra para toda eternidade. E essa sensação de plenitude ela ainda não encontrara, mas algo inexplicávelmente forte dentro de si dizia que iria encontrá-la. Há de saber reconhecer, entender e esperar.

............. A investigação.

O Secretário de Cultura manda convocar o Diretor do Departamento de Arte para uma reunião urgente. Em pouco mais de 30 minutos o homem se apresenta no gabinete.

- Excelência, Mr. Hércules está aqui. - Anuncia a secretária.

Um homem aparentando uns 45 anos, se aproxima e lhe estende a mão, cumprimentando com firmeza: - Sou Davis Martin... Sou o Subsecretário. - O homem se apresenta fazendo uma leve reverência.

- Sou Hércules Sorbo. - Responde com o mesmo aperto de mão vigoroso.

- Por favor, me acompanhe. Sua Excelência o espera. - Diz o homem.

O homem abriu a pesada porta que dava acesso ao cômodo, um escritório luxuoso, mas com a austeridade tipicamente britânica. O Secretário conhecido por ser um homem afável, inteligente e diplomático se mostrava visivelmente alterado, pelo que acontecera.

- Sente-se Mr. Sorbo. - Ordena o Secretário e continua. - Conte-me o que aconteceu. Já sabem quem morreu?

- Ainda não Excelência. A única coisa que as investigações apontam é que o incêndio foi provocado por um curto-circuito. - Hércules responde entregando o relatório recebido da polícia.

- De novo?! - O secretário se exaspera.

O Secretário lê o relatório. O relato dos investigadores foi sucinto: Não houve roubo. Todos os valiosos tesouros do museu continuam lá, apesar de algumas obras de arte insubstituíveis terem sido atingidas pelo fogo. A pessoa que morreu no museu, apresentava a mesma “Causa mortis” que as anteriores. Todas antes de morrerem carbonizadas tinham sido assassinadas com tiro de pistola.

- Isso foge à nossa alçada. - Resmunga o Secretário. - Não faz sentido.

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Kevin era um investigador astuto e eficiente, sua fisionomia não mostrava nenhuma suavidade, sua figura era imponente, alto, moreno, cabelos e olhos negros, porte atlético, o cavanhaque acentuava ainda mais sua imagem viril. Era chefe do Departamento de Artes. Ele e Hércules eram amigos há anos, uma amizade construída através dos trabalhos de investigação quando Hércules ainda era policial. Kevin e sua equipe trabalhavam na investigação sobre o incêndio no museu e como tal tinha que se reportar a Hércules, informando-o sobre o andamentos das investigações.

Paulina faz uma ligação para o departamento, é atendida imediatamente e após um rápido cumprimento, ela diz: – Amor preciso falar com o chefe.

- Ele não está, foi bem cedo para o museu. Disse que vai ficar por lá o dia todo e pelo visto o celular dele está desligado porque eu ligo e cai na caixa postal. - Responde Mynia e continua. - E, por favor, comporte-se.

Paulina dá uma risada se divertindo com a observação de Mynia.

- O chefe está estranho. Com tanto museu em Londres, tudo tem que acontecer só no British? Essas tentativas de roubo e os vários incêndios. Tanta coisa assim deixa qualquer um chateado mesmo. Além dos corpos encontrados; é sinistro que todos eles tenham sido mortos a tiro antes de carbonizarem e nenhum deles conseguiu ser identificado. - Diz Paulina.

- Estamos investigando a empresa que está fazendo a manutenção elétrica do museu. Gregor interrogou os operários que trabalhavam na nova instalação elétrica, parece que o fogo começou por causa de um curto-circuito. - Informa Mynia.

- E ninguém viu o fogo começar? - Paulina pergunta.

- O fogo começou por volta das 3 da madrugada. - Explica Mynia.

- E o sistema anti-incêndio não funcionou? - Questiona Paulina.

- É mesmo..., estranho em nenhum dos incêndios o sistema funcionou. Você tem razão, não tinha observado esse detalhe. - Mynia responde.

- É..., e agora só temos o cadáver. Será que ele tinha cúmplices? - Pergunta Paulina.

- Não sabemos, mas é provável que sim. É impossível uma pessoa sozinha planejar e roubar um museu tão vigiado. Mesmo que fosse um roubo por encomenda, que o ladrão quisesse apenas uma determinada peça. - Diz Mynia.

Pompeu, Gregor, Mynia e Paulina trabalhavam juntos há muitos anos. Os quatro faziam parte da equipe de Kevin. Tidos como incorruptíveis, responsáveis, eficientes e especialistas cada um em sua respectiva área. Além disso, com o passar dos anos tornaram-se amigos. Havia outros colegas, é claro, mas era neles que Kevin mais confiava.

Pompeu e Gregor eram agentes da Scotland Yard. Foram mandados para fazer parte da equipe, já que Kevin vivia se queixando de falta de pessoal.

Mynia era a que estava mais tempo na equipe. Era uma mulher de estatura mediana, nem gorda nem magra, nem feia nem bonita, abundantes cabelos castanhos quase sempre desalinhados, mas era alegre, eficiente e uma expert em assuntos de informática, simpática de um entusiasmo contagiante e às vezes inconveniente. Ela e Paulina se tornaram grandes amigas, sempre saiam para se divertir em algum Pub e até passavam finais de semana juntas. No escritório procuravam disfarçar, mas Gregor, Pompeu e Kevin sabiam do sentimento que existia entre elas. Kevin lhes disse uma vez que já eram bem “grandinhas” para fazer o que quisessem desde que não deixassem os assuntos pessoais prejudicarem a equipe nem interferir no trabalho.

Paulina foi a última a se juntar à equipe. Estava no departamento a 8 anos. Era uma boa investigadora. Meticulosa, desconfiada, não perdia um detalhe, por menor que fosse. Trabalhou alguns anos na divisão de homicídios até ser transferida para o Departamento de Arte.

A verdade é que o currículo de Paulina causou uma boa impressão em Kevin. Era graduada e doutorada em história. Não era uma mulher linda, mas tinha seus encantos, uma morena esguia, cabelos negros e longos, simpática, inteligente e tinha como peculiaridade gostar de artes marciais.

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O grupo de investigadores está numa reunião em volta de uma grande mesa, com pastas, papéis, fotos e relatórios.

- Chefe, o que você tem? - Pergunta Paulina.

- Nada. - Kevin responde secamente.

- Ora chefe, eu te conheço e sei que você está irritado. - Insiste a mulher.

- Sabe, tem uma coisa que me incomoda nesses casos. - Diz Kevin enquanto espalha na mesa as pastas de arquivos dos outros casos não solucionados referentes aos incêndios no museu.

- Pois eu sei. Você está intrigado com o fato de todos os homens terem sido mortos com tiros antes de ficarem totalmente carbonizados, não é? - Pergunta Mynia se intrometendo na conversa.

Kevin ignora a observação: - Está bem, agora me contem o que descobriram.

Pompeu começa a relatar os fatos investigados. Num relato sucinto ele informa que não houve roubo. Foi feito um levantamento sobre a empresa responsável pela obra e seus donos, mas nada foi encontrado que desabonasse a empresa conhecida a mais de 57 anos no mercado ou seus donos. Os peritos apontam como causa do incêndio um curto-circuito.

Em seguida Gregor informa sobre seus interrogatórios com os operários. Entrega o relatório do legista, apontando a mesma conclusão que as anteriores: O cadáver era de um homem entre 25 a 30 anos, morto com tiro antes do corpo ser carbonizado.

- Será que tinha cúmplices? - Kevin pergunta.

- Não sabemos, mas é provável que sim. Ninguém faria um roubo num museu sozinho e alguém atirou nele. - Diz Mynia.

- Aí que está..., nada foi roubado, e se ele não estava sozinho por onde os cúmplices fugiram? - Questiona Paulina e completa. - Será que existe alguma passagem secreta? Algum túnel?

Pompeu e Gregor se entreolham. - Você anda assistindo muito filme, Paulina. - Diz Gregor com um sorriso debochado.

- É uma possibilidade... Mynia providencie mapas dos subterrâneos da cidade, quero saber a localização de cada túnel que exista em Londres. - Diz Kevin para surpresa dos dois homens.

Todos ficam em silêncio. Kevin alisa o cavanhaque. Todos sabiam que esse gesto era sintoma de preocupação, ele tinha certeza que alguma coisa escapava entre seus dedos, as coisas não se encaixavam. O silêncio persistia além do normal. O chefe parecia em transe, absorto em seus pensamentos. Os investigadores se entreolhavam impacientes.

- Não temos provas, apenas suposições sobre existência de cúmplices. Por enquanto vamos nos direcionar para outras linhas de investigações. - Kevin determina ao grupo.

Todos estão tão acostumados com a presença que nem reparam no homem que sempre quando chegam está limpando a sala. Sempre fazem um gesto para que continue com o trabalho, mesmo que se pendurem no telefone ou se ponham a discutir assuntos de trabalho. Afinal porque suspeitar de um homem de cabelos brancos com um balde e um pano de chão?

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O velho levantou o alçapão e iluminou o porão com a lanterna. Estava ansioso para se livrar daqueles homens, mas sabia que qualquer atitude precipitada poderia acabar com todos, inclusive ele, na prisão ou mortos.

O velho que trabalhava no museu contou aos três homens que Londres se tornara um lugar perigoso para eles. Cada um teria que seguir o plano de fuga, mas ainda precisavam ficar escondidos por mais alguns dias. O porão cheirava a mofo. O velho tinha trazido alimento e água para três dias e disse que só voltaria após esse período.

- Tem certeza que não tem perigo? - Pergunta o homem mais velho do grupo que aparentava uns 30 anos.

- Tenho. A polícia abandonou a investigação que tivesse mais alguém no museu além do companheiro morto. - Explica o velho e continua. - Pelas 2 da manhã eu venho buscar você. Vamos pelo túnel até o cemitério e de lá você segue sozinho. Vai ter um caminhão parado do outro lado da praça. Essa é a placa. - Diz entregando um papel. - Vai te deixar na fronteira com a Escócia.

Os outros dois eram bem mais jovens, na faixa dos 20 anos. Um era alto, cabelo preto cortado bem curto, ombros largos, musculoso. O outro também era alto, mas franzino, cabelos e olhos castanhos, mas tinha um brilho de impaciência no olhar que incomodava o velho. Ele se dirige aos dois homens: - Vocês vão ter que esperar mais dois dias. Faremos o mesmo caminho até o cemitério. O caminhão vai esperar no mesmo lugar, aqui está a placa. - Diz entregando outro papel.

O jovem de cabelos castanhos olhou o velho fixamente; ele sentiu medo, pois os olhos castanhos refletiam muito ódio por ter que esperar mais dias naquele porão úmido e fétido. O jovem de cabelo preto agarra o braço do velho com força: - Não estou gostando de ser deixado aqui. E nós vamos para onde? - Pergunta.

 - Vocês irão para França. Tenho ordens de evitar qualquer tipo de riscos, portanto sigam as instruções e não teremos problemas. Ninguém sabe desse porão, nem do túnel. No subsolo de Londres se cruzam dezenas de túneis, mas nem todos são conhecidos, este ainda não foi descoberto. Fiquem tranquilos. Boa sorte para todos. - E o velho sobe a desconjuntada escada que levava ao porão, saiu fechando cuidadosamente o alçapão.

............. Ajudando o amigo.

Zina e Gabrielle se hospedaram no Bloomsbury Hotel London, assistiam ao noticiário da madrugada. A loira aconchegada nos braços de sua amada com a cabeça pousada em seu peito, aproveitando os dias de merecido descanso e tranquilidade, quando ouvem a noticia do incêndio no British Museum. A imagem mostrava Hércules com certa dificuldade, passar pelas pessoas que se aglomeram em torno dos cavaletes de isolamento da polícia. As redes de televisão cobrem a notícia com alvoroço, cada uma querendo apresentar informações mais recentes e precisas que as outras. Mesmo com o tumulto Zina consegue identificar Kevin Nolan que não resistindo à pressão da imprensa faz um apelo aos repórteres, pedindo que tranquilizassem as pessoas e informando que as investigações foram iniciadas.

Kevin, assim como Zina tinha uma identidade desconhecida do público; era um agente secreto da Guarda, agora fazia parte da célula Londres, trabalharam juntos em algumas missões muitos anos atrás quando ele era integrante da Central. Era um homem manipulador, egoísta, nada nem ninguém era empecilho para ele alcançar seus objetivos. Ela não podia negar que ele exercera certo fascínio sobre ela no passado. Talvez o lado violento e obscuro dele encontrasse acolhida nas suas entranhas, ou quem sabe em algumas das suas vidas passadas.

As mulheres quase simultaneamente sentam na cama. Zina liga para o celular de Hércules, depois de várias chamadas a ligação é atendida, mas a interferência dificultava o entendimento.

- Desliga que eu ligo para você. - Disse Hércules.

Ele afasta-se para um local menos barulhento e numa breve conversa informa Zina do que ele tem conhecimento até o momento sobre o incêndio. Ela se despede sem maiores explicações. Sua fisionomia estava tensa, uma leve ruga aparece em sua testa. Isso era sinal mais do que evidente que a agente da Guarda estava de prontidão.

Gabrielle se exaspera. - Ah não Zina, por favor, não! Estamos aqui para descansar, viemos a passeio lembra?

Zina responde: - Eu sei, mas meu instinto me diz que isso não é apenas um acidente.

- Não acredito que você vai estragar nosso passeio. Será que você não se desliga da “Xena” um minuto sequer? - Questiona a loira irritada.

- Eu não disse que ia fazer nada..., estou só curiosa. - Diz Zina.

- Sei..., eu conheço você, duvido que não esteja tentada a ir lá. - Diz Gabrielle e continua já mostrando certa irritação na voz. - Será que é só curiosidade mesmo ou deu saudade do “amigo”?

- Quê?... O que você está insinuando? - Diz Zina surpresa.

- Não tem dúvida que ele é um homem bonitão e atraente. De repente, sei lá... - Gabrielle sente o rosto quente, sua fisionomia está tensa, seus olhos faíscam crivados na morena.

Zina a olha incrédula: - Eu não acredito no que ouvi. Você está pensando que eu quero..., que estou com saudade... Aaahhh, Gabrielle faça-me o favor! - Diz a mulher com uma careta indignada.

- É mesmo? Eu vi como vocês se olharam quando chegamos no museu... e ele cheio de “gracinhas” com você, te agarrando... - Por mais que tentasse se controlar a irritação da loira era visível.

Zina percebe o tom enciumado de Gabrielle e sorri se divertindo com a cena. - Ah Gabrielle para com isso! Que exagero, não tem razão para essa ciumeira sua bobinha.

- Quem disse que eu estou com ciúme? Só estou fazendo uma observação. - Diz a loira emburrada.

Zina dá uma risada e abraça Gabrielle com força. - Vem cá “ferinha”, deixa de ser boba... Não vou mentir, eu e Hércules tivemos um “namorinho” muitos anos atrás, mas eu não me sentia completa, sentia um inexplicável vazio, ele não era a minha metade. Até que quando nos conhecemos reconheci em você a minha alma gêmea. Aquela sensação de vazio acabou, você deu sentido a minha vida. Você é minha e eu sou sua e nada, nem ninguém vai mudar isso, meu amor.

Gabrielle escutou tudo em silêncio, emocionada, era raro ouvir Zina expor seus sentimentos de maneira tão aberta.

Gabrielle estava certa. Elas estavam ali a passeio para descansar da última aventura, não tinha porque se envolver em um assunto dessa natureza. Zina dá um profundo suspiro e volta a se deitar, puxando a loira para junto de si, novamente aconchegando-a em seu colo. O perfume dos cabelos de Gabrielle, o contato da pele macia e quente invadem os sentidos de Zina, causando um arrepio que se transforma num desejo crescente de beijar aqueles lábios quentes e macios. Suas mãos começam a acariciar o corpo de Gabrielle que responde as carícias com a mesma intensidade, entregando seus lábios com o mesmo ardor com que era beijada. As carícias se tornam mais ardentes, os beijos mais apaixonados, suas línguas se encontram e examinam as bocas profundamente. As peles arrepiadas, os suspiros e gemidos são a certeza que mais uma vez o momento de entrega de seus corpos e almas se dão de maneira completa, um encontro renovado cada vez, a cada vida, por toda eternidade.

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Com uma pontualidade britânica elas entram no restaurante onde são esperadas. Encontram os dois homens bebendo sem pressa, saboreando cada gole do dourado líquido escocês.  Eles levantam-se ao perceber a aproximação delas. Após as apresentações, Hércules e Gabrielle se surpreendem ao saber que Zina e Kevin já se conheciam. Sem entrar em detalhes Zina comenta que ela e Kevin trabalharam juntos muitos anos atrás quando ele era funcionário da AGT. Depois perderam contato quando ele se mudou para Londres. Um olhar de cumplicidade entre os dois passa despercebido dos outros.

O garçom impecavelmente vestido aproxima-se aguardando os pedidos. Pedem a especialidade da casa e vinho. Veio tudo bem rápido e eficientemente servido. Com uma leve reverência o garçom afasta-se discretamente.

A conversa inevitavelmente rumou para o caso do incêndio no museu para desespero de Gabrielle. Com tato Zina vai conseguindo informações sobre o incidente. Informações que Kevin faz questão de não esconder, falando sobre os mínimos detalhes descobertos até o momento, inclusive do corpo encontrado.

Hércules interferia tentando evitar que detalhes desconhecidos do público fossem comentados, mas propositalmente Kevin colocava Zina ciente de tudo. Gabrielle e Hércules se entreolhavam tentando encontrar um meio de desviar a atenção do outro casal do assunto, mas os esforços eram em vão.

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Em Boston, a milhares de quilômetros daquele porão, em um edifício de 90 andares de vidro e aço no centro empresarial da cidade, em uma sala com as mais avançadas medidas de segurança para garantir a privacidade, sete homens elegantemente vestidos cuja idade variava dos 50 aos 70 anos se reuniam. Eram conhecidos presidentes de importantes companhias multinacionais, banqueiros e magnatas do petróleo. Todos considerados indivíduos acima de qualquer suspeita.

Os sete homens analisavam as informações recebidas pelo homem que matara o moribundo no museu.

- E nosso homem no museu? - Pergunta um homem cinquentão de estatura média, cabelos grisalhos e inquietos olhos verdes.

- Está perturbado, mas não desperta suspeita, é visto como um bom homem, abalado com o que aconteceu. Nem o Curador nem a polícia suspeitam dele. - Responde um homem alto e ruivo, aparentando uns 55 anos.

- Ótimo, mas esse policial, o tal de Kevin está me preocupando. Ele é inteligente e tem uma boa equipe. Temos que reforçar as medidas de segurança. Temos que vigiar cada passo dele, qualquer tropeço e podem acabar encontrando alguma pista que chegue até nós. - Diz o homem mais velho conhecido como Grão-Mestre; somente em público seu verdadeiro nome era pronunciado. Era um homem alto, bonito, elegante, olhar sério, rosto anguloso como de um imperador romano.

- E os outros três? - Pergunta outro homem.

- O primeiro já está a caminho da Escócia, os outros dois seguirão para França. Sairão amanhã à noite.  

A reunião prossegue com os homens discutindo as atitudes que seriam tomadas para reforçarem a vigia sobre a equipe de investigadores. Depois de algumas horas o Grão-Mestre dá a reunião por encerrada, comunicando que o próximo encontro se dará na sua mansão. Será mantido contato para acertarem dia e horário e se despedem.

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- Mas afinal o que estamos procurando? - Pergunta Hércules.

- Não sei..., sinceramente não sei. - Kevin responde irritado.

- Você há de entender que me deve uma explicação sobre a relação entre os incêndios e os homens mortos a tiro. - Insiste Hércules.

Kevin alisa o cavanhaque enquanto encara Hércules com frieza, sem falar nada. Pois não existe nada a ser falado.

A equipe se reunia novamente: - Vamos recapitular. - Disse Kevin.  - Sentia certo desânimo, pois a investigação não avançava. O que tinha em mãos? O relatório dizia que o incêndio começou com um curto-circuito, os operários garantem que não houve descuido por parte deles e que ao saírem os fios estavam todos amarrados, o Zelador e os quatro seguranças garantem que inspecionaram o museu antes de fechar e que não tinha ninguém, o fogo começou pelas 3 da madrugada e um homem morto com um tiro na cabeça e carbonizado.

- Interroguei todos eles. - Informa Pompeu e continua. - O Zelador é um homem de 65 anos, estava em estado de choque, chorando muito. Ele mora próximo ao museu, diz que estava em casa quando a campainha tocou e um homem avisou da fumaça, chamou os bombeiros e desde então está arrasado.

- Mas temos o cadáver. Se tudo foi examinado. Como o homem entrou? - Pergunta Gregor.

- O museu é muito grande para apenas 5 pessoas inspecionarem. - Observa Mynia.

- Ou estão mentindo. - Diz Paulina.

- Ou alguém entrou depois que fecharam o museu, já que a porta lateral foi forçada. - Completou Pompeu.

- Sim, mas porque mataram o homem a tiro já que nada foi roubado? - Questiona Kevin. - Então não existia apenas ele lá dentro, isso é óbvio.

Todos se entreolham sem resposta. As investigações sempre convergiam para esse entrave.

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- Você sabe que não posso trabalhar nesse caso sem determinação superior. - Observa a agente.

- Ora vamos..., vai me dizer que não se interessou! E além do mais seria uma oportunidade de voltarmos a trabalhar juntos. - Os olhos negros de Kevin brilhavam enquanto ele acariciava o rosto de Zina. - Sinto saudades da nossa parceria.

Zina se esquiva. - Esqueça Kevin, nosso tempo já passou. Além do mais estou aqui a passeio para descansar.

O homem dá uma risada em seguida seu rosto se transforma numa máscara de raiva. - Lamento minha querida, mas acho que seu descanso acabou!

- Não se atreva a fazer nada, entendeu? - Os olhos azuis de Zina chisparam de raiva, sua fisionomia ficou tensa.

- Já fiz. Pedi que designassem você para trabalhar comigo nesse caso. - Diz o homem não escondendo o ar de malvada satisfação.

Num rompante Zina segura o homem pela gola do casaco. - SEU FILHO... - Kevin interrompe a frase. - Ora ora, que coisa feia..., uma mulher tão linda como você falando essas coisas? - Diz enquanto tenta soltar as mãos da agente de seu casaco.

Zina serra os punhos e os dentes, controlando o ódio. Mais uma vez seu descanso seria interrompido, como ela explicaria isso a Gabrielle? Já previa um sério desentendimento com a loira. Ela não podia recusar uma missão, mas seria quase impossível fazer Gabrielle entender isso.  Quando irritada aquela meiga criatura dava lugar a uma fria e irritante mulher. Ela explodiria num acesso de raiva e depois reagiria mergulhando num silêncio gélido, ignorando sua presença por dias e dias e isso a irritava imensamente.

Fuzilando Kevin com o olhar ela pergunta: - E como você vai explicar ao Hércules minha participação nas investigações?

- Não se preocupe isso é problema meu. - Responde Kevin. O homem se aproxima e tenta acariciar o rosto de Zina. Como resposta recebe um violento empurrão.

- Não se atreva a me tocar cretino! - Diz a mulher com os dentes cerrados. O olhar carregado de raiva mostra que ela estava a um passo de explodir toda fúria contida até o momento. Ele conhece aquele olhar e se afasta. Ela sai furiosa batendo a porta da sala de Kevin.

Kevin era um agente graduado da Guarda, e como tal mantinha contato direto com a diretoria da organização. Através do e-mail ele faz um relatório detalhado ao novo Diretor de operações, explicando sobre a necessidade de requisitar a agente especial para auxiliá-lo no caso, como também afastar temporariamente o Curador do museu para o bom andamento da missão.

Certos interesses trilham caminhos desconhecidos da população em geral. Quando esses interesses ultrapassam as fronteiras internacionais, muitas vezes são travadas batalhas secretas entre organizações conhecidas ou desconhecidas, onde não são medidos esforços para conseguirem seus objetivos, e assim Hércules é designando para temporariamente substituir o Curador da National Gallery. A notícia o surpreende e ao mesmo tempo o preocupa. Será que o incidente tinha repercutido negativamente junto ao Secretário? Quanto ao departamento não haveria preocupação, pois Kevin sendo um investigador graduado o substituiria sem problemas.

............. A nova missão.

O celular toca. A chamada de número desconhecido é atendida imediatamente. Ela sabe o que isso significa. As instruções são recebidas. Sua fisionomia se fecha, a tensão é sentida no ar. A loira observa a postura de sua companheira, já pressentindo o que vem por aí.

- Vai Zina, diz logo o que está te preocupando. - A pergunta direta de Gabrielle pegou a mulher de surpresa.

- É tão evidente assim? - Responde Zina.

- Você não me engana..., pode falar nada mais me surpreende. - Diz Gabrielle tentando se controlar.

Zina respira fundo, mordisca o lábio como procurando coragem para dar a notícia a Gabrielle que outra vez teriam o descanso interrompido por que tinha sido designada para uma nova missão. Ela anda nervosamente pelo quarto enquanto a loira a observa sentada na cama.

- Você quer parar, está me deixando nervosa! - Diz a loira e continua. - Deixa ver se eu adivinho... É sobre o caso do incêndio no museu, não é?

Zina para e a encara sem jeito e responde: - É sim..., quer dizer, mais ou menos... Não, você está certa, é sim. - A agente abaixa os olhos, já se preparava para a explosão raivosa de Gabrielle. Mas não ouviu nenhuma palavra, minutos se passam, o silêncio no quarto era pesado. Gabrielle se levanta e observa a rua pela janela. Calou-se porque não queria censurar Zina, que por sua vez estava com a consciência pesada.

- Você está zangada? - Perguntou Zina tentando romper aquele silêncio constrangedor.

O pesado silêncio persiste.

- Vai Gabrielle, eu te conheço e sei quando está chateada com alguma coisa. - Insiste Zina.

- Não quero começar uma discussão. - A loira responde rispidamente, sem desviar os olhos da rua.

A reação de Gabrielle a deixava angustiada, antes a loira tivesse esbravejado, gritado, xingado, jogado alguma coisa nela, mas não, ela se fechara em sua raiva e frieza. Zina detestava deixar assuntos pendentes com Gabrielle, mas ela estava num impasse total e pela primeira vez se pôs a avaliar seu modo de vida e trabalho. Zina sente o coração angustiado, a culpa a atormenta. Ter trazido Gabrielle para o modo de vida de Xena, mesmo que involuntariamente, se tornara extremamente perigoso. Ela estava habituada, fazia parte do seu trabalho, era uma agente treinada para situações de riscos extremos, perseguições implacáveis, viver sob pressão já era rotina, mas a mulher com quem vivia era despreparada para essas situações. Zina sabia que se insistisse, acabariam brigando de verdade.

Muitos minutos se passaram até que Gabrielle saiu da janela, acomodou-se na cama de costas para Zina, num claro sinal que não estava disposta a conversar sobre nada. Excetuando um seco “boa noite”, não houve mais nenhuma palavra ou carinho. Aconteceu o que ela temia. Gabrielle a ignoraria por dias.

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No bairro residencial em Boston, o jardim da mansão estava mais iluminado que de costume. Os agentes espalhados por todo perímetro da propriedade garantiam a segurança dos sete homens. O Grão-Mestre estava sentado na cabeceira de uma imensa mesa de madeira entalhada, a poltrona de encosto alto acolchoado lembrava um trono, realçando seu porte imponente.

No grande salão havia quatro janelas, mas as pesadas cortinas não deixavam entrar nem um raio de luz. Iluminado apenas pelas luminárias de parede, o ambiente assumia um ar soturno. Em cada lado da enorme mesa havia três cadeiras de encosto alto e sentados nelas seis homens elegantemente vestidos. O homem cinquentão de olhos verdes inquietos iniciou a conversa: - Foi uma boa ideia nos encontrarmos aqui. - Todos concordaram.

- O tal Kevin Nolan está se intrometendo demais. Ele agora recebeu reforço na equipe. Uma mulher. - Observou o homem de óculos.

- Temos como afastar esse pessoal do Departamento de Arte? - Pergunta outro homem.

- Temos sim. Poderíamos pressionar o Secretário dizendo que eles estão se intrometendo e que deixassem a empresa em paz. Podemos também recorrer ao Primeiro Ministro, ele não vai gostar de saber que estão perturbando uma das maiores empresas do país. - Responde o homem de sotaque francês e continua. - Mas na minha opinião, não deveríamos mexer com eles agora.

– Também poderíamos dar um sumiço em alguns deles. Não podemos facilitar que uns investigadores curiosos se intrometam além da conta. Concordam? - Diz o homem ruivo.

O Grão-Mestre cravou os olhos no homem. - Discordo. Acho que não devemos nos precipitar. Seria um erro afastar ou eliminar alguém da equipe agora, isso só irritaria o tal Kevin, confirmaria que existe mais coisa por trás do acidente. Aí é que ele e o resto da equipe não desistiriam da investigação, mesmo contrariando ordens superiores.

 - E a tal mulher que chegou para a equipe? - Pergunta outro homem que estava calado até o momento.

- Soubemos que ela e Nolan trabalharam juntos na AGT, uma empresa de informática sediada em Nova York, é analista especialista em Web. - Respondeu o homem de óculos.

- E nosso informante no departamento? - O Grão-Mestre pergunta.

- Fique tranquilo, ninguém suspeita dele. - Responde o ruivo.

- Mais alguma coisa? - Pergunta o Grão-Mestre.

- Os três homens já saíram de Londres. Estão fora do alcance do Nolan, mas acredito que existe um traidor entre nós..., só assim se explica que todas as tentativas de recuperar a relíquia tenham fracassado. - Diz o homem de óculos.

Nesse instante os olhos do Grão-Mestre pareceram soltar fagulhas de ódio. Repentinamente levantou-se, deu voltas pela sala em silêncio, com andar firme, parou em frente ao homem que acabara de falar, cerrando os punhos. Parecia que ia esmurra o rosto do homem, tamanha a fúria que agora demonstrava.

Os seis homens que acompanhavam a atitude do Grão-Mestre se espantaram. Ele volta ao seu lugar e encara cada homem da mesa; uma máscara de ódio transformava o bonito rosto do homem.

- E então? Vocês acham que existe um traidor entre nós? - O silêncio dos homens renovou a fúria do Grão-Mestre.

- Vocês não tem nada a dizer? Nada? - O Grão-Mestre se exaspera. A fúria era sentida em seu olhar. Ele continua a falar, agora seu tom de voz agredia os ouvidos. - Só vocês conheciam o plano inteiro. Só vocês sabem quem são nossos contatos. Então quem é o traidor?

Os seis homens se remexeram nas cadeiras inquietos, se entreolharam incomodados sem entender se de fato ele os estava acusando.

- Se tiver um traidor, morrerá. - Disse o Grão-Mestre esmurrando a mesa com força. A afirmação dele estremeceu os homens, cientes de que ele era capaz de aplicar tal penalidade. Recostando-se na cadeira ele apoia os cotovelos nos braços da cadeira, apoia o queixo sobre as mãos cruzadas e dá um profundo suspiro, tentando acalmar o ódio que mexe com suas entranhas.

Um dos homens pigarreou. O Grão-Mestre entendeu que ele queria falar. Sinalizando com a mão convida o homem a falar.

– Não podemos deixar que uma suspeita acabe com a confiança que temos uns nos outros. Nós estamos enfrentando pessoas inteligentes e bem preparadas, por isso nosso plano fracassou. O cálice não estava mais no museu quando nossos homens chegaram. - Conclui o homem.

- Não vou ignorar essa possibilidade. Se existir um traidor, ele será encontrado e morrerá. - Sentenciou o Grão-Mestre. - A reunião está encerada.

............ O cálice.

Um dos fatos que mais intrigava Kevin além dos cadáveres era a coincidência que todos os incêndios sempre tinham origem na ala das relíquias sacras. A peça mais importante que estava sendo exibida naquela ala era o cálice que supostamente Jesus teria utilizado na última ceia e que segundo consta a lenda teria poderes milagrosos de cura e imortalidade. Desde que essa relíquia passou a ser exibida no British Museum, o prédio já tinha sido alvo de várias tentativas de roubo e incêndios “acidentais”. Kevin não acreditava em coincidências. A Guarda foi acionada e sua melhor agente designada para essa missão.

- Kevin... - O homem virou-se assustado com a voz firme de Zina. Estava sentado a alguns metros da urna que guardava o cálice.

- Já imaginou se o que dizem sobre os poderes que esse cálice tem forem verdade? - Questiona o homem.

Zina observa a urna calada. Estava de péssimo humor. Se esforçava para manter a concentração, não podia deixar seus problemas particulares se misturarem com o trabalho.  - É impressionante não é?  - A pergunta de Kevin a traz de volta a realidade.

- Particularmente não acredito que esse artefato tenha poderes extraordinários como dizem. Não passa de uma lenda. - Zina responde secamente.

- Lenda? O teste de carbono 14 é indiscutível. O artefato já foi examinado pela NASA e mais três laboratórios diferentes e todos foram unânimes em dizer que o cálice é do século I. A probabilidade de erro é de 5%. A própria Igreja aceitou esse resultado. - Ele responde.

Ficaram em silêncio olhando a urna. O museu estava fechado para o público. Permaneceria assim por algum tempo; o cálice será levado para a caixa-forte do Bank of England. O Santo Graal era um dos tesouros mais preciosos do museu, e dadas às circunstâncias estaria mais protegido no banco.

Gregor se aproxima: - Chefe..., eu estava te procurando! Daqui a meia hora o carro-forte vai chegar para levar o cálice.

- Certo, até lá o cálice ficará custodiado pela equipe. Nós também iremos no carro-forte até o banco. - Diz Kevin apontando para Zina e ordena. - Vamos indo, o carro-forte deve estar chegando.

A agente ergueu uma sobrancelha indignada. Kevin a tratava como se fosse sua subordinada. Resolveu que não se deixaria levar pela arrogância do homem com quem agora teria que trabalhar e teria que manter uma relação “amigável” sabe Deus por mais quanto tempo. Ela só devia obediência a seus superiores na Guarda e ele perceberia isso mais cedo do que poderia imaginar.

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Gabrielle estava sentada próxima à janela olhando a chuva que escorria pela vidraça quando Zina entrou. Elas se entreolharam: - Zina, precisamos conversar. - Disse a loira rompendo o silêncio de dias.

O tom de voz da loira causou um arrepio em Zina. Ela sentiu o coração apertar com medo do rumo que aquela conversa poderia tomar.

Gabrielle senta-se na cama e encara a mulher. Zina observa um brilho diferente nos olhos verdes esmeralda, seu coração parece que vai parar, sente uma pressão sufocando sua respiração. Ela temia que cedo ou tarde isso fosse acontecer. A loira não suportou as pressões de seu modo de vida. - Pensou. - Zina sentia pela primeira vez o gosto amargo do medo. A ideia de perder Gabrielle a apavorava, mal conseguia respirar. Mordia o lábio com força, aguardando o início da conversa.

- Zina... - Gabrielle rompe o silêncio.

- Tudo bem. Eu sei o que você quer me dizer, e estou de acordo. - Zina a interrompe, um nó na garganta a sufoca.

- Você sabe? - Pergunta a loira.

- Sei sim. Para algumas coisas você é transparente. - Zina responde.

- Zina, eu gosto muito de você... - Novamente Zina a interrompe.

- Eu te amo. Só um idiota não se apaixonaria por você, mas também sei que estou exigindo demais de você... - O desespero de perder Gabrielle começa a desmoronar suas defesas. Os olhos lacrimejam, a voz começa a tremer.

Gabrielle faz um gesto interrompendo-a. - Não diga isso, por favor.

Zina continua num só fôlego como se as palavras queimassem sua boca: - Você é uma mulher maravilhosa. Tive muita sorte em ter tido você na minha vida. Me culpo a cada dia por ter te envolvido nessa situação. Sempre tive medo que você me abandonasse por isso..., mas esse dia chegou, não é? - Zina não suportou mais e as lágrimas começaram a rolar pelo rosto as palavras silenciaram sufocadas pelo desespero.

Gabrielle olhava para Zina confusa e ao mesmo tempo surpresa, ela se impressionou com as palavras da mulher e agora ouvia seus soluços. Ela se atira nos braços de Zina, as duas se abraçam com força como se quisessem fundir os corpos num só e choraram.  Com esforço Gabrielle contém o choro e acaricia o rosto de Zina enxugando as lágrimas dela, beija seus olhos e emocionada diz:

- Foi a declaração mais linda que já ouvi. Eu te amo sua tolinha, jamais pensei em te deixar, não sei de onde você tirou essa ideia.

Zina a olha surpresa controlando os soluços. - Mas..., mas eu pensei que você...

- Você nem me deixou falar o que tinha decidido. - Responde Gabrielle.

Zina dá um sorriso sem graça: - Quando vi seu olhar diferente eu pensei que... Certo me desculpe, pode falar.

- Sabe, cheguei a conclusão que a vida é uma aventura para ser explorada. Sem aventura qual é a graça? Com você às vezes a aventura extrapola, mas é aí que fica interessante. Por isso é que de hoje em diante eu quero ir com você para onde você for, nossas vidas e almas estão unidas para sempre e nada nem ninguém vai nos separar. Sinto que estou fechando um ciclo na minha vida, e você é parte integrante dele. Eu te amo e nunca vou te deixar meu amor.

Zina ouve as palavras emocionada, um sorriso de alegria aparece no belo rosto, ela segura o rosto de Gabrielle entre as mãos e a beija ternamente. O amor que sentia por aquela pequena mulher era indescritível, e agora tinha absoluta certeza que nada mais as separariam.

............. Investigando o passado.

- Então? - Um grito masculino irrompe pela sala.

Qualquer novato saltaria de susto com essas entradas inesperadas do chefe do departamento. Kevin com seu vozeirão estrondoso, que faz tremer até mesmo alguns da sua equipe; um grandalhão que, sabe-se lá como, consegue não fazer ruído ao andar. Embora esteja com atenção voltada para a tela do computador, a agente está sempre com os sentidos alerta, de modo que o sutil fechamento da porta não passa despercebido.

- Você deve estar lendo alguma coisa muito interessante..., nem percebeu que eu entrei. O que está lendo? - Pergunta Kevin se debruçando sobre a cadeira onde a agente está sentada. Ela se limita a um olhar de canto de olho e continua a ler a pesquisa pela Internet.

- A história do Santo Graal. - Zina responde friamente.

Kevin olhou-a espantado. - E encontrou alguma coisa que possa ajudar nas investigações? - Pergunta o homem com ironia.

Sem se abalar Zina responde: - Não, é só pesquisa por enquanto.

Kevin tenta desviar atenção da agente da leitura: - É uma bela história, mas será que é verdade? - Pergunta o homem com olhar fixo na agente.

- Muitos historiadores dão como certo alguns fatos que são lendas e nós achamos que são lendas alguns fatos que são história. - Responde a mulher, sem desviar os olhos da tela do computador ela continua. - Que o cálice existe desde o século I, isso não temos o que discutir, mas daí acreditar que ele foi utilizado por Jesus e se tornou milagroso por ter recolhido seu sangue... Aí a coisa muda para o mundo dos mitos.

Kevin dá uma risada: - Você sempre descrente não é?

Nesse momento, uma sonora gargalhada e passos barulhentos anunciaram a chegada de Mynia acompanhada de Paulina, Gregor e Pompeu. Todos entraram na sala rindo. Kevin tinha convocado a equipe para nova reunião. Foram relatados os procedimentos e novamente nenhum fato relevante que apontasse onde estava o fio da meada.

Paulina se interessa pela leitura de Zina e senta ao seu lado. - Em que parte da história você está? - Ela pergunta.

- Comecei agora pouco. Existem várias versões sobre o cálice, seus constantes aparecimentos e desaparecimentos durante os séculos. Uma das versões da lenda diz que a própria Maria Madalena teria ficado com a guarda do cálice e o teria levado para onde hoje se chama França onde passou o resto de sua vida. - Zina responde.

Com o conhecimento de historiadora Paulina fazia vários comentários complementando as informações da pesquisa. Mynia fez várias interrupções durante a conversa entre as duas, como se quisesse chamar atenção de Paulina.  Com as insistentes interrupções Paulina se impacienta: - Se você me deixar falar, já vai entender.

- Desculpa tem razão. Vocês duas estão aí conversando e eu fico atrapalhando. - Respondeu Mynia, fazendo uma careta.

Zina notava a impaciência e mau humor da mulher, se divertindo com a cena. Um olhar de Paulina foi suficiente para que Zina entende-se o motivo.

- Não se preocupe, entendo bem o que é isso. - Murmura a agente com um sorriso bem significativo e uma piscadela. A conversa continua animadamente sobre o Santo Graal.

- Tem um episódio muito confuso na história do Graal. - Diz Zina.

- Só um? Eu diria todos. Segundo algumas histórias, o Santo Graal teria ficado sob a tutela da Ordem do Templo, também conhecida como Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão ou Ordem dos Templários, instituição militar-religiosa criada para defender as conquistas nas Cruzadas e os peregrinos na Terra Santa. Segundo uma das versões da lenda, os Templários teriam levado o cálice para a aldeia francesa de Rennes-Le-Château. Em outra versão, o cálice teria sido levado de Constantinopla para Troyes, na França, onde ele desapareceu durante a Revolução Francesa. - Conclui Paulina.

- Os Templários o levaram? - Interrompe Mynia.

- É difícil saber. Tudo é atribuído aos Templários, como se fossem super-homens capazes de qualquer coisa. - Zina responde.

- Pois eu acho que os Templários o levaram. - Insiste Mynia.

O olhar de Paulina recriminava silenciosamente sua companheira que insistia em falar coisas sem qualquer embasamento. Entendendo o olhar de Paulina, Mynia diz: - Não me olhe assim..., você mesma levantou essa possibilidade.

As três mulheres continuaram falando um bom tempo. Mynia fantasiando sobre os Templários, Paulina dando informações e Zina ouvindo e questionando as informações. Realmente a história do cálice não era um mar de rosas: guerras, incêndios, roubos... e tudo por sua posse; por homens acreditarem que certos objetos são mágicos.

Zina não conseguia dormir, sua mente trabalhava as informações sem descanso, inexplicavelmente ela sentia que o fio da meada estava ligado ao passado; à história dos Templários era a chave para os mistérios.

Zina abriu a janela do quarto para deixar o ar frio da madrugada entrar.  Nesse instante Gabrielle se encolhe sob o cobertor. Ela olha a mulher com ternura. Por instantes seus pensamentos são desviados, ela avalia a proposta da loira de segui-la onde quer que fosse sob qualquer circunstância. Isso era perigoso demais, ela jamais se perdoaria se acontecesse algo a Gabrielle. Ela se aproxima da cama, acaricia e beija os loiros cabelos de sua companheira. Num sussurro ela diz: - Você deu sentido a minha vida..., te amo! - A loira se remexe na cama. Zina se afasta para não acordá-la e liga o notebook. A história dos Templários martelava sua cabeça. Entrou na Internet, embora não confiasse muito nas informações da rede, procurou informações sobre os Templários e encontrou uma página supostamente da própria ordem, mas como os Templários não existiam, resolveu telefonar para Marcus, dizendo o que queria.

Alguns minutos depois, ele retorna a ligação. O endereço dessa página dos Templários estava em Londres, perfeitamente registrada e legal.

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Elas conversavam sentadas no banco da praça aproveitando o morno sol de meio dia. Gabrielle se distrai jogando comida aos pombos.

- Quer dizer que a senhora está interessada nos Templários. - Diz Gabrielle.

- Para mim foi uma surpresa saber que a ordem ainda existe e que tem um site na Internet. - Após uma breve explicação Zina diz a Gabrielle o que deseja pesquisar.

- Não se iluda, os Templários como imaginamos, não existem mais. Não dê asas à imaginação pensando em cavaleiros com espadas em punho e escudos. Estamos no século XXI. - Debocha Gabrielle. - Mas deixa comigo, vou pesquisar, afinal agora nós somos parceiras não é? - A loira dá uma sonora risada.

A mulher se surpreende com a declaração. Gabrielle estaria realmente levando a sério em relação a participar dessa missão? - Era perigoso demais, ela não tinha treinamento físico nem emocional. - Pensava Xena. - Isso era um assunto que teriam que conversar seriamente.

Gabrielle marca uma entrevista com o diretor da instituição para o dia seguinte. Mal consegue dormir tamanha a ansiedade do encontro. Ela toca a campainha da casa no elegante bairro de Londres. A casa de estilo vitoriano parecia residência de algum rico lorde. Foi recebida pelo idoso mordomo, que a encaminhou para a sala onde estava um senhor que aparentava passar dos 80 anos. O homem a recebe com a tradicional formalidade inglesa.

O ancião a convida a sentar-se. Ao mesmo tempo em que ela se acomoda, o mordomo entra com uma bandeja e o serviço de chá. Durante alguns minutos, Gabrielle respondeu as perguntas do homem, que mostrava interesse pelo seu trabalho de arqueóloga, até que finalmente decidiu ir ao assunto.

- Em que posso ajudá-la jovem? - Pergunta o diretor.

- Para mim foi uma surpresa saber que a Ordem dos Templários ainda existe. Queria saber o que fazem..., a que se dedicam e se possível gostaria de lhe perguntar sobre alguns fatos históricos de que tomaram parte. - Diz a loira.

Durante vários minutos Gabrielle escuta a narrativa desde a época em que a Ordem foi criada no século XII, de sua participação nas Cruzadas, quando foi proscrita pelo papa Clemente V; no século XIV, passando por sua participação em vários eventos nos séculos XV, seguindo pelos séculos posteriores, até sua participação na Revolução Francesa, na independência da Grécia e na resistência francesa na II Guerra.

- Mas como... - Gabrielle tenta perguntar algo, mas o idoso a interrompe continuando com a narrativa.

- Durante séculos os Templários se mantiveram numa vida silenciosa, participando desses acontecimentos, mas desde 1705 a Ordem não se oculta mais. Atualmente nossa instituição se encarrega de estudar a história da Ordem do Templo desde a sua fundação até hoje, revisando como historiadores alguns acontecimentos obscuros.  Insisto que você não encontrará uma organização como a dos séculos XII ou XIII.

Após alguns minutos de silêncio, o diretor volta a falar: - Estou vendo que ficou decepcionada.

- Não, é que... - Novamente Gabrielle é interrompida pelo homem.

- Você esperava que eu fosse um cavaleiro com armadura? - Diz o homem esboçando um sorriso. - Sou apenas um professor aposentado da Universidade de Oxford, estudioso sobre o assunto.

Gabrielle sentia que por trás das palavras do idoso tinha muito mais a ser dito e resolveu continuar explorando a entrevista: - O senhor poderia me ajudar a entender um acontecimento, que pelo que sei os Templários estiveram envolvidos.

- Se for do meu conhecimento... - Diz o homem.

- Queria saber se os Templários eram guardiões do Santo Graal na época da Revolução Francesa, que é quando ele foi visto pela última vez! - Pergunta Gabrielle.

Embora o homem demonstrasse controle de suas emoções até o momento, uma remexida na poltrona não passou despercebida da loira.

- Ah o Santo Graal! Quantas polêmicas e lendas... Minha opinião como historiador é que a Ordem do Templo nada teve a ver com a guarda ou o desaparecimento da relíquia... Bem jovem, agora se me der licença, vou deixá-la na companhia do professor Barnes. Tenho que ir a uma reunião. - O homem toca uma sineta e o mordomo aparece. - James, acompanhe a jovem até a biblioteca. - e se dirigindo a loira. - O professor Barnes estará lá à sua disposição.

Eles se despedem. Ela acompanha o mordomo até a biblioteca, é cumprimentada pelo professor, um homem agradável, aparentando estar próximo dos 70 anos. Gabrielle fica impressionada com as explicações e documentos que o professor Barnes lhe dá sobre a história dos Templários.

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- Chefe, por favor, não tire os pés do chão. - Diz Gregor.

As palavras de Gregor incomodaram Kevin. - Porque você acha que estou tirando os pés do chão?

- Estou vendo que você está se deixando levar por essa mulher e pela Paulina. Acham que os incêndios têm a ver com o passado, passagens secretas, túneis misteriosos..., isso é irracional, chefe. - Desabafa Gregor.

Kevin avaliou as palavras do investigador. Tinha lógica o que ele disse, mas seu instinto lhe dizia que devia dar crédito a Zina, por mais estranha que parecesse sua linha de investigação.

- Pode ser que você tenha razão, mas não temos nada a perder. Tudo tem uma relação. - Rebate Kevin.

- Ah é? Então me explique que relação é essa! - Desafiou Gregor.

- Você me parece um bom policial para que se explique o óbvio, mas já que insiste... - Todos se viram para olhar a agente que parada na porta assistia a conversa entre os homens. Ela se aproxima da mesa com passos firmes, sem desviar o olhar de Gregor, que abaixa os olhos intimidados pela firmeza daqueles olhos azuis. Sentou-se em frente à Gregor encarando-o duramente.

- Vejam o Zelador do museu, estava lá no último incêndio e em todos os acidentes que aconteceram. Curiosamente, nunca viu nada... Seria bom você e Pompeu voltarem ao museu amanhã e dizer a ele que a investigação continua aberta e que queremos saber se ele se lembra de algum detalhe que tenha se esquecido de falar. - O tom de comando com que Zina se dirigiu aos dois investigadores, surpreendeu a todos.

Gregor e Pompeu se entreolharam e em seguida olharam para Kevin, como questionando com que autoridade aquela mulher falava daquela maneira. Kevin pego de surpresa se limitou a um sorriso sem graça.

- Mas o que é que você está pensando? - Esbravejou Gregor se dirigindo a Zina.

- Calma, calma... - pediu Kevin tentando amenizar a situação. - Seria ridículo brigarmos entre nós. - O clima ficou tenso na sala. A agente ignora o ataque do investigador, olha-o com displicência.

Zina questiona sobre o homem que sempre está na sala, mesmo durante as reuniões. O homem se sentia embaraçado com o olhar fixo da mulher.

- Ele é o faxineiro. Faz a limpeza dos escritórios há muitos anos. - Responde Kevin. Diz que estão acostumados com ele que nem reparam na sua presença.

............. Os Templários.

Em Boston brilhava um sol primaveril, algo raro naquela época o ano.

- No que está pensando? - Pergunta o homem.

O Grão-Mestre afastou os olhos dos vidros que filtravam a luz da manhã.  Observava demoradamente a cidade que formigava 90 andares abaixo. Não ouviu os passos silenciosos do homem de sotaque francês, que era seu amigo mais próximo e sucessor na hierarquia. Era o único a quem o Grão-Mestre permitia um tratamento mais pessoal.

- Nada em especial. - O Grão-Mestre dá um profundo suspiro e continua. - Vou viajar e você assumirá o comando temporariamente. Tenho que visitar nossa gente, preciso saber onde nós erramos e descobrir se existe realmente um traidor.

- Mas é perigoso, você não deveria ir. Principalmente agora que a polícia está investigando a empresa. É uma jogada demasiado óbvia você se ausentar nesse período. Pode ser uma armadilha. - Diz o homem de sotaque francês.

- Quem vai desconfiar? Eu sou presidente de uma multinacional com filiais nos Estados Unidos, Alemanha e Itália. Para todos os efeitos estaria viajando a negócios. - Responde o Grão-Mestre.

Eles se encaram em silêncio por alguns segundos. - Porque não deixamos a clandestinidade? - Arrisca o homem com sotaque.

- Ficou louco? Acha mesmo que sobreviveríamos se disséssemos quem somos? - Esbraveja o Grão-Mestre.

- Centena de vezes disse a mim mesmo que deveria ir embora, que deveríamos dizer ao mundo quem somos. Mas não fiz e não o farei e você sabe disso. Mas muitas vezes me pergunto se nossos métodos são corretos, estamos nos tornando, principalmente você, sem sentimentos, cruéis. Sem piedade de nada nem de ninguém. Duvido dessa loucura que se perpetua a séculos. - Diz o homem de sotaque francês. 

- Você se atreve a questionar as bases de nossa Ordem? Atreve-se a dizer que nossos antepassados estavam errados? Acha que é fácil cumprir os mandamentos de nossos antecessores? - Pergunta o Grão-Mestre olhando o homem nos olhos com uma chama de raiva. - Vou viajar amanhã, agora me deixe trabalhar. - O homem olhou-o com impaciência, virou-se e se dirigiu para a porta, fechando-a com força.

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- Você só pode estar louca. - Diz Mynia.

- Mynia, tenho certeza que os homens entram e saem por algum lugar que não é a porta, e o subsolo de Londres é um verdadeiro queijo suíço. Estão cheio de túneis, vocês bem sabem. - Diz Paulina.

Zina ouvia as duas mulheres em silêncio, mas pensava que Paulina tinha razão. Os homens apareciam e desapareciam sem deixar rastros. Zina estava convencida que essas operações em torno do cálice eram obra de uma organização que pretendia roubá-lo do museu. Mas que organização seria essa? Esse método de trabalho não era característico da Dragão Verde. Seus pensamentos são interrompidos pela voz estridente de Mynia.

- Nós estudamos as plantas, não tem nenhum túnel que chegue perto do museu, a não ser o do metrô. - Insiste Mynia.

Zina interfere: - Mynia, não sabemos tudo que existe no subsolo de Londres. Se escavarmos ninguém sabe o que poderemos encontrar. Algumas galerias que atravessam o subsolo da cidade até hoje não foram exploradas. Talvez uma delas chegue ao museu. Lembre-se que a cidade foi bombardeada na II Guerra Mundial e que o museu guarda preciosidades únicas que os londrinos iam querer salvar caso fossem conquistados pelo inimigo. Não duvido que alguma dessas galerias que parecem não dar em lugar nenhum, na verdade leve ao museu.

- Quer dizer que você acha que existe uma organização ou uma pessoa que quer o cálice e provoca os incêndios para criar confusão e poder roubá-lo? - Questiona Kevin. - E para que você acha que querem o Graal?

- Não sei. Pode ser um colecionador ou uma organização criminosa que depois pediria um resgate milionário para devolvê-lo. Lembre-se que o cálice é um ícone para toda comunidade cristã mundial. - Diz a agente.

- Vocês continuam insistindo nessa história de galeria subterrânea que levaria até ao museu? Não tem cabimento. - Diz Gregor olhando para Zina e Paulina, e continua. - As plantas foram inicialmente feitas pelo exército na época da II Guerra. O próprio Churchill mandou aproveitar túneis e ampliá-los em alguns ramais para abrigar a população durante os bombardeios e a partir daí foram atualizadas a cada 10 anos e em lugar nenhum se menciona a existência dessa passagem.

- Mas isso não quer dizer que não exista. - Zina insiste.

- Nem que exista. Não acredite em todas as histórias fantásticas que contam sobre subterrâneos de Londres. - Diz Mynia.

- Eu sei. Mas acreditem que nem toda história está escrita, não sabemos tudo que aconteceu no passado. - Insiste a agente.

Zina passara boa parte da manhã reexaminando as plantas. - Você está obcecada com essa ideia das galerias subterrâneas hein? - Ironiza Kevin.

- É só uma especulação, para não deixar nenhum ponto solto. - Responde a agente, olhando o homem com frieza. - Mas meu instinto me diz que devemos investigar essas galerias. Kevin se mantém calado alisando o cavanhaque.

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Kevin decidiu no último minuto que iria acompanhar Zina e Paulina na exploração dos túneis fechados ao público. Nos mapas da Londres subterrânea que a prefeitura tinha, não havia nenhum túnel que desse no museu. Mas o instinto dizia a Zina que estavam errados. Acompanhados de quatro homens do Corpo de Bombeiros, começaram a percorrer os túneis.

Zina estava de mau humor. Passara boa parte do dia nas galerias subterrâneas. Existia outra Londres no subsolo. Era uma cidade onde a história e a fantasia se cruzavam a cada passo. Sempre que ela e Paulina insistiam em seguir por um túnel em mau estado ou se propunham a derrubar alguma parede para ver se por trás dela haveria algum túnel desconhecido, o comandante da equipe de bombeiros era irredutível quando se tratava de segurança. Dizia que tinha ordens de guiá-los pelos túneis e não de por em risco nenhuma vida entrando em galerias com escoras precárias e nem abririam buracos nas paredes.

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Os sete homens eram depositários de um segredo que marcavam suas vidas como marcaram a de seus pais e antepassados. Todos carregavam o peso de suas linhagens de descenderem de grandes homens, recebendo honrarias e sacrificando sua natureza humana durante séculos. Todos fizeram votos de castidade e obediência, não frequentavam festas de famosos e apesar de bilionários, não faziam alarde do dinheiro ou do poder que possuíam.  Por séculos a Ordem do Templo mantivera o segredo do Santo Graal.

Caía a tarde quando o Grão-Mestre chamou os seis homens da Ordem para uma reunião na mansão. Chovia demasiado. Os homens esperavam no salão, acomodados em confortáveis sofás de couro, conversavam animadamente. A porta se abre e o Grão-Mestre entra, os homens o cumprimentam um por um.

O Grão-Mestre informa aos demais sobre o andamento das investigações e a preocupação se mostrou no rosto dos homens.

- Tenho notícias do nosso homem do museu. - Informa o homem de óculos. Todos os olhares se voltam para ele. - Está doente, profundamente deprimido, com mania de perseguição. Garante que está sendo vigiado, que no museu ninguém confia nele e que os policiais permanecem investigando para pegá-lo. Deveríamos tirá-lo de lá.

- Não podemos, agora seria loucura! - Diz o homem ruivo. - A policia está nos nossos calcanhares, não podemos correr nenhum risco.

- Senhor estamos preocupados. - Diz o homem de sotaque francês. - Os investigadores suspeitam que o que vem acontecendo no museu não é acidente. O Nolan insiste que alguém quer roubar o cálice. Continuam interrogando os operários. Eles estão percorrendo as galerias subterrâneas tentando encontrar uma passagem para o museu. Temos que tomar uma providência, eles estão chegando perto demais.

- Chegou a hora de agir - disse o homem de óculos. - É hora de pressionar nossos “amigos” para frearem esse Kevin e seu grupo.

- Talvez devêssemos esperar os próximos passos deles antes de agir. - Pondera o ruivo.

- Discordo, eles não são bobos, são experientes. Seria perigoso deixar as investigações avançarem. - Insiste o homem de óculos.

Um silêncio pesado se instalou entre os sete homens que se examinavam disfarçadamente. - O que o senhor quer fazer? - A pergunta direta foi feita pelo homem de inquietos olhos verdes ao Grão-Mestre.

- O que deve ser feito. Seremos mais radicais. Acontecerão “acidentes” com alguns investigadores. - Responde o Grão-Mestre.

- Não deveríamos nos precipitar. - Insiste o homem ruivo.

- Não fizemos nada até agora, por isso eles chegaram tão longe em suas especulações e investigações. Quero o consentimento de vocês. Mas a palavra final é minha. - Afirma o Grão-Mestre.

Os homens começaram a se mostrar desconfortáveis com a situação. A tensão era cada vez maior. - Decidam, não temos mais tempo. - Pressiona o Grão-Mestre.

- Que seja feito! - Responderam todos.

O Grão-Mestre comunica a todos que vai viajar e que a Ordem e a operação ficarão sob o comando do homem de sotaque francês e dá a reunião por encerrada.

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O professor Barnes olhou Gabrielle desanimado. Fazia dois dias que ela estava remexendo nos arquivos. Era esperta, mas sabia pouco sobre as Cruzadas e o conturbado mundo dos Séculos XII, XIII e XIV. Mas o desconhecimento profundo sobre esse período da história era inversamente proporcional a sua intuição. Procurava sem cansaço e sempre encontrava o dado para sua pesquisa.

Ele tinha sido cuidadoso, procurando evitar que ela tivesse acesso a fatos que podiam ser perigosos para o conhecimento do público. Gabrielle fazia perguntas procurando encontrar algum fato que pudesse ajudar Zina.

Ele ajeitou os óculos e se pôs a explicar o que se passara com os Templários nesse período. A loira o ouvia com atenção. Ao final da narração ela faz uma pergunta direta que deixa o professor embaraçado.

- Mas me diga que tesouro é esse que os Templários se referem? Era algo de muito valor, não? - Gabrielle concluiu.

- Que interessante! E que tesouro seria esse que você acha que eles guardavam? - Pergunta o homem desconversando.

- Uma coisa concreta, um objeto de muitíssimo valor para a Ordem do Templo e de certo para toda comunidade cristã, como o Santo Graal, por exemplo. - Responde Gabrielle como uma “alfinetada”.

O homem tenta manter o controle, mas uma risada nervosa e o tom de voz áspero denuncia que Gabrielle tocou num ponto frágil. - Isso é a coisa mais absurda que já ouvi. - Diz o homem.

O olhar sério da loira, deixa o professor desconcertado. - O senhor poderia me mostrar os registros da última vez que o Graal desapareceu? - A loira pergunta e continua. - Gostaria de ver amanhã, pois agora já está tarde, tenho que voltar para o hotel para arrumar as malas. Depois de amanhã estarei voltando para Nova York. - Blefa a loira.

- Ah, vai embora? - Pergunta o homem sem esconder seu alívio.

- Vou sim, e pelo visto o senhor ficou bem contente com minha partida. - Diz a loira.

O homem ficou desconcertado com a observação: - Por favor, me desculpe... não foi isso que... - Gabrielle o interrompe.

- Tudo bem, não se preocupe. Sei que estou chateando o senhor e atrapalhando o seu trabalho, mas como vocês se dizem os verdadeiros herdeiros da Ordem do Templo, nenhum lugar melhor para se conseguir informações confiáveis para escrever meu livro.

- Vou tentar conseguir os documentos para amanhã. Se conseguir lhe telefono. - Afirma o homem envergonhado.

Gabrielle se despede e sai da mansão. Estava cansada, passara o dia inteiro lendo sobre os últimos meses da Ordem do Templo. Para alguns fatos havia relatos detalhados, para outros se limitavam a dados frios, datas e relatos anônimos. Agora era organizar sua pesquisa e esperar que algo servisse para ajudar Zina na investigação.

Foi direto para o hotel, pois tinha a impressão que estava sendo seguida. Dizia a si mesma que era idiotice, que ninguém ia segui-la. Uma coisa martelava em sua cabeça. Por que sempre que ela perguntava se os Templários tinham ficado com o Graal, o professor se irritava e pedia que se concentrasse nos fatos. Dizia não existir nenhum documento, nenhuma fonte que confirmasse essa teoria absurda e que atribuíam aos Templários todo tipo de mistérios. Assim o professor Barnes e aquela instituição aparentemente dedicada ao estudo da Ordem do Templo não admitiam a possibilidade dos Templários serem guardiões do cálice sagrado. E ainda o professor garantia que tal relíquia lhe era indiferente, que entendia a superstição das pessoas, mas que não estava interessado nela. Como historiador só lhe interessava os fatos incontestáveis, comprovados por várias fontes.

Entrou no quarto, Zina não estava. Pediu um sanduíche e um copo de leite quente. Queria se enfiar na cama, pois a noite estava muito fria. Com as informações que colhera durante o dia borbulhando em sua cabeça ela adormece. Dorme um sono agitado. Era como se uma força estranha a arrastasse aos cenários cruéis do passado. Ela estava contemplando todo horror da dor. Viu vários Templários queimando nas fogueiras. Ela estava lá na primeira fileira vendo-os arder no fogo, sentia o calor das fogueiras, ouvia os gritos lacerantes e sentiu o olhar implacável de Grão-Mestre mandando-a partir.

- Parte, não procures mais o Santo Graal, ou a ira de Deus se abaterá sobre ti.

Ela acorda de um pulo suada, aterrorizada. O Grão-Mestre não queria que ela continuasse investigando. Se continuasse morreria. Ela levanta-se, pega uma garrafa de água mineral e bebe em grandes goles, como para se acalmar. Foi um pesadelo tão real, como se ela estivesse realmente lá.

Não conseguiu mais dormir, foi então que percebeu que Zina ainda não chegara, olha o relógio, já passam das 2 da madrugada. Resolve ligar para Zina. A ligação cai na caixa postal. Ela insiste, no quinto toque a ligação é atendida.

A agente percebe o medo na voz de Gabrielle. Pergunta se está tudo bem. A loira tenta se acalmar, mas o falar agitado de Gabrielle denuncia que ela está apavorada com alguma coisa.

- Calma Gabrielle, já estou indo. Estou saindo agora do departamento. - Zina desliga o celular e se encaminha apressadamente para o hotel.

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O homem de sotaque francês convoca uma reunião, na ausência do Grão-Mestre. Os outros homens da comunidade chegariam de diferentes lugares, pois tinham que atender as exigências que seus altos cargos exigiam como empresários de importantíssimas multinacionais. Nessa reunião se decidiria as atitudes que seriam tomadas com os investigadores do Departamento de Arte.

Ninguém sabia dizer onde o Grão-Mestre estava, mas certamente acompanharia cada movimento dele e dos outros membros.

A polícia continuava rondando o museu, a empresa, o Zelador, os operários e os túneis. Sinal que o Departamento de Arte sabia mais do que eles admitiam. Todos os alarmes se acenderam. O Grão-Mestre nomeou um sucessor caso ele caísse. A ele caberia continuar a luta para reaver o cálice. O homem de sotaque francês sentia em suas entranhas contraídas que eles cairiam.

Os homens se acomodaram em volta da grande mesa. O ruivo lhes contou as últimas novidades. O velho do museu continuava sendo vigiado e se queixava daquela mulher que sempre o olhava de um jeito estranho. Ela era cordial com ele, mas havia algo em seus olhos que o avisava para ter cuidado com ela. Um olhar frio, analítico e intimidador. Era assim que o velho sentia.

Todos eram membros leais da Ordem. A missão que tinham pela frente era necessária, pois do contrário a Ordem seria descoberta. Era preciso montar um plano para no momento certo dar fim as investigações antes que fosse tarde demais. Contariam com alguns membros infiltrados na polícia que não deveriam correr riscos de serem descobertos, no entanto, se algum deles tivesse oportunidade de matar algum investigador, deveria fazê-lo sem hesitar.

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- O que vamos fazer? - Pergunta Pompeu.

- Você não ouviu o chefe? Nós agora estamos subordinados aquela vagabunda. - Responde Gregor.

- Incrível... A mulher aparece do nada, não sabemos quem é, e de repente está mandando em todo departamento... Até no chefe. Ela deve ter as “costas quentes”. Só pode ser. - Diz Pompeu.

- Não sei o que dizer, mas do jeito que o chefe olha para ela, tenho certeza que ele está completando a investigação na cama. - Diz Gregor soltando uma risada maliciosa. - E verdade seja dita, ela é muito gostosa, um pedaço de morena.

Pompeu responde com outra risada e completa: - É..., o cara está se dando bem. Mas vamos trabalhar. Vamos ver o Zelador.

A campainha toca. O velho abriu a porta e se surpreendeu ao deparar com os dois investigadores. Imediatamente começou a tremer.

- Olhe, continuamos investigando o incêndio no museu. Gostaríamos que o senhor tentasse se lembrar de algum detalhe, alguma coisa que tenha chamado sua atenção. - Diz Gregor.

Com a voz trêmula ele responde: - Eu já estou velho e sofri muito desde o acidente. Tenho medo que por causa da idade pensem que já não sirvo como Zelador e me demitam justamente por que não tive atenção quando fiz a vistoria pelo museu. Vocês não podem me deixar em paz? Já contei tudo o que lembro.

Os homens o olham sem saber se era um bom ator ou se era mesmo inocente como parecia. - Bem, mas voltemos ao dia do incêndio. - Insiste Gregor.

- Eu já disse tudo que me lembro. Se tivesse lembrado mais alguma coisa teria procurado vocês. - Afirma o velho com voz chorosa.

Gregor fez um sinal para Pompeu. Se despediram e saíram. - O que você achou? - Pergunta Gregor.

- Não sei, parece que ele está abalado mesmo. Mas é como a morena falou, é muito estranho ele trabalhar no museu e em nenhum dos incêndios ver nada. - Responde Pompeu.

............. O dossiê.

Zina entra no quarto e encontra Gabrielle encolhida na cama. Ela corre e a abraça, sente o pequeno corpo trêmulo e frio. No instante em que a loira sente o abraço de Zina a sensação de proteção de aconchego, faz desaparecer o medo que nem mesmo ela sabe explicar de quê.

- O que aconteceu? - Pergunta Zina preocupada enquanto acaricia seus macios cabelos loiros.

Gabrielle fica em silêncio aninhada no colo de Zina. Depois começa a falar sobre o pesadelo que tivera e do quanto pareceu real. Zina a ouvia com atenção. A experiência que Gabrielle afirma ter passado, poderia ser uma regressão de alguma vida passada, mas isso era um assunto que não deveria ser tocado no momento. Quem sabe mais adiante poderiam se aprofundar no assunto como já fizeram antes. Quando Gabrielle tomou consciência que sua alma e de Zina estavam destinadas a se reencontrarem por toda eternidade.

Depois de algum tempo, Gabrielle já mais calma, relata o que descobriu sobre os Templários e o Graal, mas que sinceramente não via em que essas informações poderiam ajudar nas investigações, mas em fim fizera o que Zina pedira. Agora era com ela analisar e investigar.

Zina se surpreendeu com a quantidade de informações que Gabrielle tinha conseguido. - Como conseguiu tudo isso em tão pouco tempo? - Diz Zina curiosa olhando a quantidade de papéis sobre a mesa.

A loira dá um sorriso e responde: - Segredo profissional.

- O que você andou aprontando? - Diz a agente olhando Gabrielle com seriedade.

- Nada demais sua tolinha, eu apenas disse que estava escrevendo um livro, uma história documentada sobre os Templários, distante de interpretações mágicas, lendárias e misteriosas. Queria fatos e não especulações e aí foi fácil. - Explica a loira e continua. - Por que está tão interessada no Graal?

- Por que é um objeto polêmico e que além disso, parece atrair mortes, incêndios, roubos de museu e etc. - Responde a agente.

- Observe isso, que interessante. - Diz Gabrielle mostrando um papel assinalado. - As grandes famílias dos tempos dos Templários tiveram descendentes e chegaram até nossos dias.

- Mas eles não eram celibatários? - Questiona Zina.

 - As grandes famílias se sucederam em vários ramos e muitos membros preservaram o juramento e as tradições dos Templários e os descendentes dessas famílias vivem atualmente em Paris, na Escócia e aqui mesmo em Londres. - Explica Gabrielle.

Zina dá um pulo da cadeira e abraça Gabrielle, prende o pequeno rosto entre as mãos e o enche de beijos, agradecendo a ajuda. A loira fica surpresa com a euforia da companheira.

- É ISSO! AGORA AS COISAS ESTÃO SE ENCAIXANDO! - Diz a agente radiante.

- Como assim? - Pergunta Gabrielle confusa.

- Veja, a última notícia que se tinha do cálice foi que durante a Revolução Francesa ele tinha desaparecido não é? - Sem dar chance da loira responder, ela continua. - Então significa que até esse período o cálice estava em poder dos Templários. Como naquela época as pilhagens eram constantes, em algum momento o cálice foi encontrado e roubado deles, sendo novamente encontrado no povoado de Lirey, no centro norte da França. A partir daí as viagens do Graal foram acompanhadas até ele vir parar no museu.

- Então talvez essas tentativas de roubos e os incêndios... - Gabrielle é interrompida.

- Isso..., talvez eles estejam querendo reaver o cálice. - Completa Zina.  

-  Mas e os homens mortos, onde eles se encaixam nisso? - A loira questiona.

- Lembre-se que a Ordem dos Templários sempre foi uma comunidade secreta e com certeza pretende continuar a ser. Eles devem ter membros que se certificam que caso o plano não dê certo, se encarregam que não tenham delatores. - Responde a agente.

- Mas por onde eles entram e saem do museu? - Gabrielle pergunta.

- Isso é o que tenho que descobrir. - Afirma Zina. - Meu palpite são os túneis.

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- Andei investigando mais a fundo o dono e a empresa que está trabalhando no museu. A empresa tem parcerias com uma série de outras companhias espalhadas pelo mundo. É uma sociedade anônima, mas consegui saber que um dos acionistas é um homem importante, com participação em empresas de produtos químicos, siderúrgicas, petrolíferas, bancos, em fim um verdadeiro tubarão das finanças. - Diz Paulina.

- Também não precisa ficar paranoica. Não tem nada demais esse homem ter ações em várias empresas. Tem muita gente como ele. - Diz Pompeu.

- Não estou paranoica. Estou apenas apresentando os dados. - Responde a investigadora com irritação.

- E o que isso tem a ver com os Templários? - Questiona Gregor.

- Esse assunto sobre os Templários sempre me fascinou. Há cinco anos venho estudando tudo que se refere a eles. - Explica Paulina - Cheguei a algumas conclusões: Além de todas as organizações que se dizem herdeiras da Ordem do Templo, existe uma outra formada por homens muito discretos, importantes, encravada no coração da alta sociedade. Não sei quem são, mas acho que os herdeiros dos verdadeiros Templários, fazem parte dessa organização.

- Lá vamos nós de novo! - Murmura Gregor.

Zina lança um olhar intimidador para o homem que se cala imediatamente. Paulina esboça um sorriso e continua com a explicação. - Descobri outra coisa curiosa: todos os presidentes das companhias que fazem parte do conglomerado da empresa são homens solitários, riquíssimos bem relacionados e com uma ideia fixa: impedir que estranhos entrem nesse círculo. Acho que existe um grupo Templário bem estruturado, silencioso e seus integrantes ocupam posições eminentes acima de qualquer suspeita.

- Menos fantasia, por favor. Vocês estão fazendo uma novela desse caso. Essa história do cálice, de Templários já virou obsessão. - Reclama Gregor.

Kevin se remexe na cadeira e encara Zina, como se esperasse uma reação, mas ela ouve tudo calada. Kevin sabe que ela está analisando cada palavra dita na sala.

Paulina continua: - Eu acredito que existem dois mundos: o que vemos e onde vivemos e outro clandestino, do qual nada sabemos que é onde vivem diversas organizações, econômicas, esotéricas ou lá o que sejam que movem os fios dos acontecimentos conforme suas conveniências. - Kevin lança um rápido olhar para Zina, que entende o significado. Paulina não sabe o quão perto ela está da realidade que envolve os dois agentes secretos e sua organização. - E nesse submundo é que está o novo Templo, a nova Ordem dos Templários. - Paulina conclui.

- Mesmo que você esteja certa, isso não esclarece a relação dos Templários tem com o Graal atualmente. - Afirma Pompeu.

Naquele momento, o silêncio se fez sentir na sala. Gregor e Pompeu tratavam a investigação de Paulina com ironia. Os ânimos entre Paulina e Gregor foram se exaltando. Kevin percebe que as coisas estavam fugindo ao controle e chama atenção rispidamente dos dois subalternos. Como a reunião não progrediria devido ao clima pesado dos exaltados, encerra a reunião; que todos fossem para casa esfriar a cabeça e queria todos bem cedo no gabinete no dia seguinte.

Zina, Paulina e Mynia caminham em silêncio pelo corredor em direção à saída do departamento.

- Paulina você não vai entregar o documento para ela? - Pergunta Mynia, quebrando o silêncio.

A agente olha para as duas mulheres. Paulina examina o corredor e entrega discretamente um dossiê a Zina.

- Esse é um resumo do meu trabalho durante os últimos cinco anos. Aí está os nomes daqueles que acredito serem os novos Templários. As “coincidências” das mortes de todos que investigaram e se aproximaram muito deles. Estou confiando em você, mas não mostre isso a ninguém, não confie em ninguém. “Eles” tem ouvidos em toda parte, na polícia, no parlamento, no judiciário... em toda parte.

- E por que está confiando em mim? - Questiona a agente.

- Pense o que quiser, mas eu e Mynia confiamos em você. Nossa linha de investigação está coincidindo em muitos pontos. - Responde Paulina e completa: - Se esses papéis caírem em mãos erradas, todos nós correremos risco de vida.

............. O assassino.

O ar do Pub era pesado, a fumaça das dezenas de cigarros, cigarrilhas e charutos pairava no ar criando uma atmosfera quase irrespirável. O barulho das vozes dos frequentadores, a maioria deles bêbados, era muito acima do normal. Todos estavam eufóricos comemorando a conquista de mais um título no futebol. Não era um local que ele frequentaria, mas tinha certeza que ali se mantinha a salvo de olhares curiosos.

O homem tinha marcado às 7 horas, ainda faltavam 30 minutos, mas preferiu chegar antes. Na verdade fazia mais de 1 hora que ele andava pelas redondezas, tentando descobrir se estava sendo seguido. Os 30 minutos se passaram e nenhum sinal do homem. Os minutos se seguem, ele vai ficando nervoso com a demora, alguma coisa estava errada. Seus sentidos se alertaram. Era melhor sair dali. O choque do ar gélido da noite batendo em seu rosto o faz encolher-se com frio, ele fecha o casaco até o pescoço e enfia as mãos nos bolsos do agasalho. Poucas pessoas caminham pelas ruas de Edimburgo aquela hora, o vento frio é cortante.

Num luxuoso carro negro de vidros escuros, estacionado próximo ao Pub, um homem elegantemente vestido observa o outro caminhar pela calçada com passos rápidos, certificando-se que ele não está sendo seguido. Ninguém sabia que ele estava na Escócia, nem mesmo seu sucessor que tinha ordens expressas para coordenar a operação contra os investigadores do Departamento de Arte, mas ele por sua vez montaria uma operação paralela. O homem que estava seguindo era um assassino. Um profissional que trabalhava sob as ordens dos cavaleiros da Ordem que sempre era encarregado de manter a clandestinidade da Ordem do Templo, assassinando os membros que fracassassem nas missões. Um homem que trabalhava sozinho e que nunca falhava.

O carro o segue vagarosamente até que fica paralelo ao homem, abaixando o vidro o homem diz:

- Procuro um homem para uma sagrada missão. - A voz forte do Grão-Mestre o assusta. Nunca tinha tido contato direto com ele, sempre as ordens foram transmitidas por terceiros. O matador entra no carro. O Grão-Mestre faz sinal que o motorista siga passeando pelas ruas da cidade sem destino certo.

- Quero que elimine uma pessoa. - Diz o Grão-Mestre. Sua figura imponente provoca respeito até mesmo num homem sem respeito pela vida humana, que faz da sua frieza uma profissão.

- É o que faço de melhor senhor. Trouxe a foto? - Diz o homem.

O Grão-Mestre passa a foto do alvo. Durante alguns minutos o assassino examina a foto. Uma linda mulher de cabelos negros, rosto de traços fortes e olhos azuis. Ele se surpreende, pois nunca tinham mandado matar uma mulher, se assim estavam querendo é porque ela representava um grande perigo para Ordem e seus membros. Mas ele não discutia ordens, apenas as executava. Ela estava com os dias contados.

Durante vários minutos o matador recebeu as informações necessárias, saiu do carro e sumiu nas sombras da cidade.

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Os investigadores não entendiam porque as investigações não avançavam. Havia o cadáver de um homem que não pôde ser identificado, mas ninguém parecia estar muito preocupado com isso. Toda equipe se reunia mais uma vez; Zina e Paulina convenceram Kevin a ativar seus contatos para autorizar continuarem sua linha de investigação pelos túneis.

Apesar dos resmungos, o chefe do Departamento de Arte fez o pedido diretamente ao Secretário que perguntou se ele estava louco para pensar que ia deixá-lo se intrometer em uma área que não tinham competência para avaliar em termos de segurança, colocando em risco várias vidas. Isso repercutiria negativamente em sua vida política caso acontecesse algum acidente. Mas por fim Kevin o convencera de que era necessário, pelo menos ficaria definitivamente descartada a hipótese da existência de uma passagem desconhecida para o museu.

Quando Kevin contou, Paulina sorriu satisfeita: - Chefe, você é ótimo, sei o que deve ter te custado.

- E é melhor vocês não darem nenhum fora, ou o Primeiro Ministro vai nos mandar tirar pó dos arquivos. - Responde o chefe.

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- Ficou claro? - Perguntou Kevin.

- Sim chefe. - Mynia, Gregor, Pompeu e Paulina responderam quase juntos. Zina limitou a balançar a cabeça afirmativamente. Kevin montara um esquema junto ao comando do Corpo de Bombeiros para explorarem minuciosamente os túneis do subterrâneo de Londres. O comandante não teria mais como impedir, uma vez que agora a ordem vinha de seu superior.

Mynia não sabia por que, mas estava nervosa e sentia que Paulina também não estava tranqüila, já Kevin, Gregor e Pompeu ao contrário. A atitude dos três mostrava que eram policiais e que para eles aquela era mais uma operação. Todos exceto o chefe estranhavam a frieza que Zina demonstrava. Será que ela tinha noção do risco que correriam explorando aqueles túneis abandonados, mal escorados e sem iluminação? E o que uma especialista em Web estava fazendo naquela equipe? Uma pergunta que o chefe nunca deu explicação.

- Kevin. - Todos olharam na direção da mulher sentada na cabeceira da mesa oposta a ele. - Tenho motivos concretos para acreditar que nossas respostas estão naqueles túneis. - A segurança com que ela afirmava isso deixou Gregor sem argumentos para confrontá-la e sabia que não estava mais contando com o apoio do chefe nem de alguns colegas do grupo.

Zina explica a todos sobre as análises das pesquisas que fizera, sem citar Gabrielle e o dossiê de Paulina, e a conclusão era: Há um excesso de coincidências nos fatos entre os incêndios, os mortos, os Templários e o cálice.

- Quanta besteira! - Esbraveja Gregor. - Quanto tempo ainda vamos aturar essas explicações irracionais? - O olhar do homem faiscava de raiva.

Repentinamente Zina se levanta e se dirige para onde Gregor está sentado. Ele tenta se levantar, mas um violento tapa o fez sentar aos tropeços na cadeira. Com os olhos azuis chispando fogo, Zina apoiou as duas mãos nos braços da cadeira e encarou seriamente o investigador.

- Estou farta das suas reclamações, da sua idiotice. Você não tem o direito de desqualificar tudo que não coincida com o que você pensa.

O homem se descontrola. - VAGAB... - Foi interrompido por outro forte tapa que calou sua fala. Toda equipe que até o momento se limitava assistir o confronto ficou em alvoroço, tentando acalmar os dois lados. Gregor tenta reagir, mas é dominado por Pompeu e Mynia; volta a sentar-se limpando o sangue do pequeno corte no lábio. Encara Zina com um olhar de puro ódio.

- CALMA, PAREM COM ISSO! - Interveio Kevin fazendo valer sua autoridade. - TRATEM DE SE ACALMAR AGORA MESMO!

Zina volta a sentar-se como se nada tivesse acontecido, sem desviar os olhos de Gregor.

- Por mais absurda que possa parecer essa teoria, não podemos desprezar nenhuma possibilidade. - Afirma Kevin com tom de voz irritado.

Zina e Gregor se encaram como se a qualquer momento fossem se atracar numa luta corporal. A tensão entre ambos era evidente. Um silêncio tenso reina na sala.

- Eu acho é que estamos diante de uma organização criminosa, uma quadrilha de ladrões com conexão em vários países, isso sim. - A observação de Pompeu quebrou parcialmente a tensão da equipe.

- Pelo menos a investigação nos leva a um ponto comum. Nenhum de nós acredita que os incêndios foram por acaso. Só não sabemos é por quê. - Completa Mynia.

Gregor era um bom investigador, mas se descontrolava com facilidade. Embora fosse um ex-agente da Scotland Yard, não era páreo para um agente da Guarda do nível de Zina. Não era à toa que era enquadrada no nível selecionado de agentes que tinham total aproveitamento nas missões que participavam. Era uma mulher que tinha o respeito dos amigos e impunha terror aos inimigos.

O assunto da reunião é retomado e Zina continua a expor suas análises, sempre mantendo os sentidos em alerta esperando qualquer reação de Gregor. Mas o homem se limita cruzar as mãos sobre a mesa, fisionomia fechada, remoendo seu ódio, alheio ao assunto que o grupo passa a analisar e discutir.

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Longe dali, em Boston, era noite e chovia, já passava da meia-noite, os sete homens se reuniam novamente no prédio de 90 andares.

- Está tudo pronto, mas estou preocupado com a situação. O tal Kevin não está poupando homens nem meios. Não vamos nos expor demais se começarmos a matar os investigadores? - Perguntou o homem de sotaque francês.

- Eu também acho que a eliminação de alguns deles levantará mais suspeitas. - Acrescentou o homem ruivo.

- Estou muito mais preocupado com a Paulina e a tal de Zina. As conclusões que ambas estão chegando se aproximam perigosamente de nós. Temos que detê-las. - Diz o homem de inquietos olhos verdes.

Um silêncio se instalou na sala. Todos se entreolharam. - Vamos fazer o que tem que ser feito e não vamos esperar nem mais um minuto. Sinto muito. - Disse o Grão-Mestre. - O contato com nosso homem já foi feito, o trabalho já foi encomendado.

- Não deveríamos nos precipitar. Não podemos esperar mais um pouco? - Pergunta o homem ruivo.

- Não, não podemos, a menos que queiramos por tudo a perder. Seria loucura continuar correndo riscos. - Responde o Grão-Mestre. Todos se calaram. Sabiam que no fundo ele tinha razão.

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Nenhum dos policiais reparou no homem manco aparentando 40 anos, que andava calmamente examinando as vitrines, mas ele os viu. O assassino tinha olhos de águia. Estava irritado, o Grão-Mestre não lhe disse que teria tantos homens da polícia envolvidos. Tinha que tomar cuidado, estava correndo um perigo inesperado. Além disso, tanta companhia o impedia de fazer seu trabalho como previa.

Por três dias seguiu os passos de Zina. Montava vigia próximo ao hotel e na entrada do departamento. Observou que a mulher sempre após o almoço saía do hotel acompanhada de uma loira de beleza angelical. Caminhavam até a Trafalgar Square, a praça mais visitada e conhecida de Londres. A praça é ornamentada com duas fontes, enormes pedestais de granito com estátuas de heróis ingleses que tombaram em memoráveis batalhas e tem quatro saídas principais.

Sentavam por algum tempo em qualquer banco, enquanto conversavam e a loira jogava alimento para os pombos. Depois retornavam para o hotel, se despediam e a mulher voltava para o departamento. Não podia atirar nela, seria loucura. Se as coisas continuassem assim teria que mudar a tática, não estava disposto a arriscar a pele. Sua maior qualidade, além de assassinar era a prudência. Nunca deu um passo em falso.

Zina sentia-se vigiada, seu instinto avisava que não era seguro se expor e nem Gabrielle daquela forma, por mais que a loira insistisse em que pelo menos algumas horas deveriam aproveitar um pouco o ar londrino. Com ar displicente ela observava a paisagem ao redor, analisando o local e as pessoas que andavam pela praça. Sua atenção se voltou para o homem que já a vinha seguindo por três dias. Não era da polícia, seu jeito de andar e sempre que “distraidamente” ela olhava em sua direção ele de repente desaparecia.

No terceiro dia Zina muda o itinerário de retorno ao hotel. Das quatro saídas da praça ela escolhe o caminho norte, que dá para a National Gallery. Após deixar Gabrielle no hotel, no percurso a agente para em frente algumas lojas, o homem a segue à distância se misturando aos pedestres; agora ela tem certeza absoluta que está sendo seguida. Ela vira-se e segue na direção do homem. Seus olhares se cruzam. O homem cravou os olhos na mulher durante alguns segundos e depois apertou o passo em direção oposta. Zina acelera o passo, põem a mão em concha sobre o ouvido:

- Estou seguindo um “pássaro”. - Informa a alguém do departamento.

O homem está tenso, tinha sido descoberto, mas como isso era possível? - pensava - Ele sempre foi cauteloso nos seus trabalhos. A agente se aproxima o suficiente para seus corpos se esbarrarem. O homem vira-se rapidamente; ela tem tempo apenas de se desviar do golpe fatal da faca, que mesmo com a rapidez dos seus reflexos atinge seu braço, provocando um corte profundo. Com a mesma rapidez ela o fere no lado direito com sua própria faca.

As pessoas próximas que presenciaram a cena pensaram se tratar de assalto e começaram a correr e a gritar ao seu redor e o homem fez o mesmo, pôs-se a correr, a sua deficiência de manco era apenas um disfarce. As pessoas abriam caminho assustadas com o homem.

Paulina e Mynia vêem um grupo de pessoas correndo em frente ao café onde estavam. As pessoas gritavam dizendo que um ladrão estava à solta. Viram um homem que também corria e parecia ferido. Aproximaram-se das pessoas perguntado o que estava acontecendo, mas ninguém dava uma explicação coerente, apenas repetiam que tinha um ladrão. Paulina vai para rua, é quando vê Zina ferida, chama por Mynia e correm para socorrê-la.

Paulina se dispõe a perseguir o homem, mas é impedida pela agente.

- Nosso “pássaro” está voando. - Zina se comunica aos outros dois investigadores que misturados as pessoas se fingiam assustados como os demais, corriam atrás do homem.

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- O QUE ACONTECEU? - Berrou Gabrielle quando viu Zina chegar com o braço enfaixado.

- Ossos do ofício. Não se preocupe, estou bem. - Responde a agente diante do olhar apavorado de Gabrielle.

Devido à insistência da loira, Zina conta o que aconteceu desde que a deixara no hotel e que já suspeitava do sujeito que a feriu.

- Se tentaram me matar é porque estamos muito perto de descobrir esses mistérios. Agora já achamos o fio da meada. - Diz fazendo uma careta de dor.

Gabrielle sabia que não adiantaria de nada esbravejar, pois iriam se desentender. Ela entendia que esse era o modo de vida de sua companheira, vivia sobressaltada com a ideia que um dia Zina poderia não retornar de uma missão, mas a loira sufocava essa angústia no peito, o jeito era se conformar. Ainda teria muito que se adaptar se queria segui-la nas suas aventuras.

A loira se recosta na cama e aconchega Zina em seu colo, beija carinhosamente seus cabelos, rosto e lábios. Zina se sente bem com o calor do corpo de Gabrielle. Ainda não se acostumara à sensação de ser protegida, mas sabia que poderia sempre contar com os braços e o aconchego de sua loira amada. E finalmente relaxando adormece com Gabrielle zelando pelo seu sono.

............. Encontrando o ninho.

Kevin acompanha o episódio pelo transmissor, ouviu a gritaria, o chamado por Mynia. - PAULINA! O QUE ESTÁ ACONTECENDO? - Kevin perguntava nervoso.

- Zina está ferida, não sabemos quem foi, mas já pedimos socorro. - Responde Paulina pelo transmissor.

- Estou indo para aí. Onde vocês estão? - Pergunta Kevin.

- Calma chefe, ela está bem. - Responde Paulina.

- E vocês deixaram o homem escapar? Que merda! - Esbraveja Kevin.

Nesse instante Zina pega o transmissor: - Kevin pare de gritar. Eu estou bem. O “pássaro” está ferido, agora é só segui-lo que ele vai nos levar ao ninho. - Diz a agente com voz firme.

O assassino respirava com dificuldade. De início sentiu a carne queimar, mas agora a dor lhe parecia insuportável. O pior é que ia deixando um rastro de sangue. O Grão-Mestre não lhe contara toda verdade, e sem a verdade não podia fazer seu trabalho, pois não sabia o que estava enfrentando. Parou na entrada de um prédio para se recompor. Achava que tinha conseguido despistar qualquer pessoa que o estivesse seguindo. Sua única chance agora era chegar ao cemitério, mas estava longe e devia esperar a noite. Mas onde? Onde?

O homem encontrou uma porta que dava para um cubículo onde juntavam o lixo do prédio. Sentou no chão atrás dos diversos sacos de lixo tentando não desmaiar. Estava perdendo muito sangue. Tirou as meias improvisando uma gaze tentando estancar o sangramento. Estava exausto, não Sabia quanto tempo poderia ficar escondido ali, talvez até o dia seguinte quando fossem retirar o lixo. Sentiu a cabeça rodar e desmaiou.

Pompeu estava exausto. Tinha certeza que aquela noite o homem não sairia dali. Fez a troca da vigia com Gregor por volta de meia-noite. O homem estava ferido e apenas um policial seria suficiente para segui-lo se ele decidisse sair para a rua.

O dia amanhecia. O homem ouviu um barulho e se assustou. Acabara de voltar a si. O ferimento doía demais, mas o sangue estancara formando uma crosta na camisa suja. Tentou ficar de pé, nesse instante a porta do cubículo se abre. Uma mulher de meia idade com um saco de lixo na mão o viu e deu um grito. Com um esforço sobre-humano o homem a agarrou e tampou sua boca, empurrou a mulher contra parede, notou que ela tremia e teve medo que ela voltasse a gritar. Com a faca pressionando a garganta da mulher, ele sussurra:

- Faça o que eu mandar e não lhe acontecerá nada. Se gritar ou tentar fugir, eu vou matá-la entendeu? ... Você tem carro?

A mulher apavorada assentiu com a cabeça, lentamente o assassino tirou a mão de sua boca.

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Zina e Paulina renderam Gregor na vigia, se afastaram do ponto onde Gregor estava, o homem já as conhecia seria fácil identificá-las à distância.

A mulher levou o assassino até seu carro e abriu a porta. Ele empurrou-a para dentro e sentou ao volante. Mal podia respirar, mas deu partida e entrou no trânsito caótico daquela hora da manhã. Um suor frio escorria pelo seu rosto, ele se esforçava para ficar atento ao trânsito.

As duas mulheres os seguiam a uma distância segura. O assassino precisava se livrar da mulher, sabia que não podia deixá-la viva, pois ela avisaria a polícia. Para o carro a 300 metros do cemitério e sem qualquer piedade com uma facada certeira perfura o coração da mulher que mal estremece.

Sentia uma fraqueza enorme, perdera muito sangue. Desceu do carro e com grande dificuldade endireitou o corpo. Temia voltar a desmaiar antes de entrar no cemitério. Apoiou-se no muro e continuou andando. A dor era insuportável. A ferida voltou a sangrar. Num esforço extremo ele chega ao portão, passa pelo vigia e se dirige para o mausoléu 177.

Zina avista a figura cambaleante do homem, descem do carro e correm a tempo de vê-lo se esgueirando entre os túmulos. Ele para junto a um mausoléu com um grande anjo de mármore empunhando uma espada guardando sua entrada. Observam o homem pegar a chave escondida debaixo de um vaso de flores. O portão de ferro rangeu ao ser aberto, ele entrou e acionou uma alavanca atrás do ataúde que abria o acesso a uma escada que entrava num túnel e que levaria até o museu.

Respirava com dificuldade. A falta de ar e o ar pesado do subterrâneo lhe provocavam tonteira e náuseas, mas sabia que a sua única chance seria procurar ajuda do Zelador do museu e se manter escondido por algum tempo. A luz do isqueiro não era suficiente para iluminar a passagem, mas era só o que tinha. Seu maior medo era ficar no escuro e perder o rumo.

Zina e Paulina entraram minutos depois. - O “pássaro” entrou no ninho. - Zina sussurra com a mão sobre o ouvido.

- Onde vocês estão? - Pergunta Kevin.

- Cemitério, jazigo 177, vamos deixar a passagem aberta. - Responde a gente.

- Estamos indo. - Responde Kevin.

Acionaram a alavanca e em poucos segundos estavam nas profundezas do cemitério seguindo o homem ferido.

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O Grão-Mestre estava furioso, a operação estava fugindo ao seu controle. Pela primeira vez seu assassino fracassara. Isso significava que aquela mulher não era uma simples analista especialista em Web como souberam. Ordenou que o velho Zelador se mantivesse de prontidão, pois talvez o homem o procurasse e que o mantivesse seguro até poderem tirá-lo de Londres.

O Zelador visitava o subterrâneo aguardando a presença do homem, conforme o Grão-Mestre ordenara. O velho caminhava nervoso pela galeria quando ouviu passos. O assassino só teve tempo de ver o velho, depois tudo escureceu e ele desmaiou.

O velho se ajoelhou ao lado do ferido: - Meu Deus! Tem um ferimento perto do pulmão.

O velho tentava tirar a camisa ensanguentada do corpo do homem, quando as duas mulheres irromperam no túnel com revólveres apontados para ele.

- PARADO! NÃO SE MOVA! ESTÁ PRESO! - Gritou Paulina.

O velho se levanta lentamente e de repente um tiro vindo das sombras atinge o ombro da investigadora. Outro disparo quase atinge Zina. Aproveitando a confusão o velho corre para as sombras com agilidade nada comum para um homem de 65 anos. Ele conhecia aquela passagem como a palma de sua mão. A escuridão para ele não era problema.

A sonora risada do velho ecoa pelo túnel. - IDIOTAS, NÓS NUNCA ESTAMOS SOZINHOS!

A vibração dos disparos provocou queda de areia do teto da galeria.

- Como você está? - Zina pergunta. - Ajudando Paulina a se sentar encostada na parede.

- Estou bem, pode deixar. Vai atrás dele, corre! - Responde a investigadora com uma careta de dor. - Daqui a pouco o chefe e os outros vão chegar. VAI!

Zina entra na escuridão da galeria. Apurando os sentidos ela ouve o chiado da areia caindo as suas costas e os passos apressados de duas pessoas à sua frente. De repente ouvia apenas o som da areia caindo e pequenas pedras. As pessoas pararam. Instintivamente ela se joga no chão ao mesmo tempo em que vários disparos eram dados em sua direção. De repente começou a chover areia e pedras. Ela continua se guiando pelo som das passadas, que recomeçaram agora bem mais apressadas. As pedras começaram a cair com mais força e uma delas, mais pesada, atingiu seu ombro. Ouvia a voz de Kevin gritando seu nome. A escuridão envolvia tudo, não sabia onde estava, o estrondo do desabamento a impedia de ouvir os passos à sua frente. Já não ouvia mais a voz de Kevin. Tenta se comunicar com alguém pelo transmissor, mas não tem resposta. Pensou em Gabrielle, a imagem da loira vinha a sua mente com nitidez quase palpável. Aquele jeitinho todo seu de enrugar o nariz quando sorria, seus olhos verdes, sua pele branca e macia... Ela pressiona um determinado ponto junto ao ombro e a dor para em segundos, mas o sangue escorria pelo ferimento.

- Todos nós vamos morrer Gabrielle, mas eu prometo que meu dia não será hoje. - Diz em voz alta e segue em frente apalpando as paredes.

- Estamos perdidos, não vamos conseguir sair daqui! - ecoa uma voz masculina.

- Não diga isso! Não diga isso! - Responde o velho.

O homem mais jovem apalpando as paredes percorreu o lugar onde estavam presos. O desabamento provocou-lhe um ataque de pânico.

 - VAMOS MORRER NA ESCURIDÃO! EU NÃO QUERO MORRER AQUI, ENTERRADO VIVO! - Berrava o homem descontrolado.

Zina se guiava pelos berros. A galeria onde ela estava era ligada a outra que foi parcialmente bloqueada com o desabamento. O ar empoeirado sufocava. Ela ouvia os berros do homem e a voz do velho tentando controlar o outro.

- CALE-SE, VOCÊ É UM SOLDADO TEMPLÁRIO, CONTROLE-SE! - Berrava o velho.

Então ela estava certa os Templários existem, mas quem eram eles? Isso ainda era um mistério. Ela se lembra de Gabrielle, da primeira vez que a viu. - O celular! - Lembrou-se do aparelho no bolso do casaco, quem sabe o potente transmissor do telefone fosse capaz de levar sua voz para além daquelas paredes do subterrâneo. Bastava apertar uma tecla e o numero da última ligação seria automaticamente discado. O telefone continuou mudo.

Ela sente que está bem próxima dos dois homens até que sente uma entrada bloqueada por onde os dois túneis se comunicavam e começa a berrar chamando atenção dos homens do outro lado da parede.

- ESTAMOS AQUI! - Grita o homem mais novo.

- Pare com esse histerismo seu idiota! - Esbraveja o velho.

O homem ignora o velho e continua gritando. As vozes estão alteradas e de repente dois disparos; silêncio e após alguns segundos novos barulhos de desabamento. Novo silêncio. O grito desesperado pedindo socorro se fazia ouvir do outro lado da parede. O homem jovem estava em total estado de pânico. Zina tenta acalmá-lo dizendo que o socorro já estava chegando e que sairiam logo dali. Apesar do risco de novo desabamento, ela vai removendo vagarosamente pequenas pedras entre as duas galerias. Zina enxugou o suor do rosto, estava muito abafado, mas ainda tinham ar para respirar. Por quanto tempo, ela não sabia dizer.

O som do choro do homem foi ficando mais nítido até que pôde ouvi-lo por um buraco menor que um punho. O homem ao ouvir a voz pelo buraco tenta desesperadamente remover mais pedras tentando aumentar a passagem, a areia começa a cair novamente. Zina grita que ele pare ou ficariam soterrados de vez. O homem totalmente descontrolado não lhe dá ouvidos.

- PARE OU VOU METER UMA BALA NA SUA CABEÇA! - Ela grita. - SE VAMOS MORRER, VOCÊ VAI PRIMEIRO, PODE TER CERTEZA! - O homem recomeçou a chorar.

Estava ferida, sua cabeça doía, a tensão era tamanha que parecia que seu corpo iria explodir. Procurava manter o autocontrole a todo custo. Ouviu a voz de Gabrielle chamando seu nome. Sentiu que a tênue linha entre a realidade e a insanidade tinha se partido. Sentia-se fraca, tonta, perdera bastante sangue, o ar faltava. Novamente a voz de sua amada ecoava em seus ouvidos, mas dessa vez era um chamado aflito, desesperado. Concluiu que estava delirando. Será que é assim que acontece? Lembrou-se de uma frase dita por Gabrielle: “A maioria das pessoas pensam na morte como o fim, quando na verdade a morte pode ser o começo. A vida é eterna, não tem começo e não tem fim. Os entes queridos que encontramos em nossa jornada retornarão várias e várias vezes. Nós nunca morremos, porque na verdade estamos sempre nascendo.”

Zina dá um profundo suspiro, uma voz chama por ela. Ainda tem tempo de pensar: Então é assim que se morre! - e depois com tristeza: Pena que não pude me despedir de Gabrielle! Espero que ela fique bem... - Com um fio de voz ela diz: - Me perdoe meu amor, por tudo que fiz você passar. - Então no momento seguinte não há mais voz, nem nada. Tudo escureceu.

............. Voltando à vida.

- ZINA!... ZINA! - Gabrielle gritava desesperada. Fazia alguns segundos que a ligação tinha caído. Na certa a bateria do celular de Zina tinha acabado. Ela ouvira tudo, os gritos de alguém pedindo socorro, os gritos de Zina temendo ser soterrada, os gritos de ameaça. Não vacilou um instante e correu disparada na direção da rua e para o departamento. Encontrou com Mynia que chorava descontroladamente com o transmissor na mão. Sacudiu-a para tirá-la do ataque histérico.

- Mynia, por favor! O que está acontecendo? - Esbraveja Gabrielle.

Com dificuldade Mynia contou a loira tudo que tinha acontecido. Elas correm para rua. Não havia um único carro do departamento disponível. O barulho das sirenes das ambulâncias e bombeiros era ensurdecedor. O Departamento de Arte estava em polvorosa, os homens corriam para salvar os que estavam presos pelo desmoronamento da galeria no cemitério.

Esbarram com Pompeu no corredor indo para o local do acidente. Chegam a tempo de verem o assassino ferido e Paulina serem colocados na ambulância. Mynia segue com Paulina para o hospital.

Gabrielle fica desesperada quando vê Zina inconsciente na maca. O sangue secara, mas o ferimento era profundo, além da fratura. Gabrielle segue com ela na ambulância. Os paramédicos prestavam socorro, mas Zina não reagia. O pânico de ver a vida de sua amada se esvaindo, o sentimento de impotência doía na alma. Em prantos ela segura e beija a mão da companheira:

- Eu sei que pode me ouvir. Onde você estiver eu sei que sempre me disse para ser forte. Não pode me deixar, não agora, não pode me deixar. Eu sei que não é a sua hora, eu sinto no meu coração. Eu sinto um vazio que nunca senti antes e isso me assusta. Lute, lute para voltar! Eu preciso de você.

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Zina acorda mais uma vez. Os três dias se passaram lentamente. Ainda sob forte efeito dos sedativos, os poucos momentos em que passava acordada eram como um borrão de consciência. Agora ela se sentia melhor. O raio de sol que entra pela janela parece convidá-la a ficar de pé e sentir seu calor. Ela vira a cabeça e depara com o lindo sorriso de Gabrielle.

- Bom dia, dorminhoca! - Exceto por poucos instantes, a loira não saía de perto da cama, acompanhava o trabalho dos enfermeiros e assumira o apoio da recuperação de Zina.

A agente tenta se levantar, mas o ombro dói, o corpo dói e ela não sentia ânimo para nada. A tonteira a faz se deitar novamente. Cansada pelo esforço, Zina pede que Gabrielle conte o que aconteceu.

A loira segura sua mão e começa a contar que com o desabamento da galeria uma das entradas nos túneis, fechadas por paredes tinha cedido, abrindo uma passagem; a equipe de resgate a encontrou e ao homem quase mortos. Ela tinha perdido muito sangue, passara por uma cirurgia, por isso estava fraca e cansada; que ela e Paulina estavam certas sobre os Templários, o homem que também foi resgatado era um dos seguranças do museu e confessara tudo sobre a Ordem e o plano para se reapossarem do Graal; sobre o túnel que levava ao museu e os incêndios; que Paulina estava bem e o estado do assassino ainda inspirava cuidados, mas tinha confessado ser o autor das mortes no museu e sobre os mandantes das execuções.

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Kevin Nolan estava na sala do Primeiro Ministro acompanhado do Secretário de Cultura. Entregou um minucioso relatório do caso do Santo Graal contando tudo, inclusive a confissão do “inocente” faxineiro que era o informante da Ordem dentro da polícia e do matador profissional que delatou os nomes dos sete mestres da Ordem do Templo.

As autoridades lhe disseram que a história era inacreditável. Não podiam acusar de associação ilícita homens cujas empresas e finanças eram imprescindíveis para o desenvolvimento da nação. Não podiam acusá-los de nada, porque não tinham feito nada, mesmo que toda história contida naquele dossiê fosse verdadeira. Eles não conspiraram contra o país, não tinham ligações com máfias, não tinham feito nada de errado, e quanto a serem Templários... Bem, se de fato eram, isso não constituía nenhum crime. O caso estava encerrado, mas a opinião pública não podia ser informada. Era segredo de Estado.

Kevin os encara com uma expressão de indignação e desprezo. Ele sabia que deixara os dois políticos inquietos. Kevin se despede, sabendo que a denúncia da existência de uma organização secreta formada por homens poderosos que se acham acima de tudo e de todos, não daria em nada, ninguém iria investigá-los, iriam continuar nas sombras mexendo os fios do poder.

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- E a senhora, o que vai fazer agora? - Kevin pergunta, sentado próximo à cabeceira da cama de Zina. Olharam-se longamente, sem dizer nada. Kevin mantinha as mãos da mulher entre as suas.

- Quer mesmo saber? Eu vou voltar para casa... e para o meu amor! - Ela responde e dá um olhar significativo para Gabrielle, que sorri.

Ele olha surpreso para Gabrielle, em seguida para Zina, percebendo que se tornou uma figura desnecessária no quarto.

- Bem, então nos despedimos aqui. Obrigado pela ajuda. - Se debruça sobre Zina, beijando-lhe o rosto e murmura: - Nós faríamos uma boa parceria.

- Eu já tenho uma parceira. - Zina responde.

Ele se encaminha para a saída e volta-se para fechar a porta. Pela fresta ele vê Gabrielle acariciando o rosto de Zina. A loira aproxima os lábios dos de Zina e murmura: - Prometa que nunca vai me deixar sozinha de novo!

- Nunca meu amor, nunca vou te deixar! - Responde a morena.

Kevin desce os degraus da saída do hospital sem olhar para trás, entra no carro e por alguns segundos fica parado olhando a rua, os carros e as pessoas que transitam sem se dar conta que existe um mundo paralelo, sombrio e misterioso pronto para interferir nas nossas vidas. Ele parte se dirigindo para a National Gallery, vai convidar um velho amigo para um drink e conversar sobre... mulheres e futebol.


Notas Finais


Atenção: Esta fict também se encontra publicada no Nyah e a autora é Alba Diniz, portanto não se trata de plágio, eu sou a própria.


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