História Entre Dois Mundos - Capítulo 27


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Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Ficção Científica, Lemon, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Slash, Suspense, Violência, Yaoi, Yuri
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 27 - CAPÍTULO 27: FIQUE



Um mensageiro, vindo do castelo trazendo um recado do rei convocando as presenças do filho e Laurence na sala do trono, chegou ao acampamento bem cedo. Todos já estavam de pé sob os gritos de comando de Simeon e Benjamin, pois por entre as colinas uma fila negra, como formigas saindo de um formigueiro, vinha de forma lenta em direção ao campo que sediara uma batalha dois dias antes.

Os dois vestindo malha e portando armas, Laurence com a adaga dentro da bota e uma espada pendendo na sua cintura como Benjamin que também levava um arco Huno e sua aljava às costas, seguiram o homem até a cidade, num silêncio que era quebrado apenas pelos golpes dos cascos dos cavalos na terra. Para a alegria do Herven Zeus estava entre um dos sobreviventes.

Quando adentrou a sala do trono com Laurence em seu encalço, Benjamin logo foi abraçado por Erin, que sussurrou em seu ouvido:

- Se a criança esquecida for capturada os filhos de Herven sucumbirão diante da ambição das trevas.

- O que disse meu pai? - O príncipe perguntou sem entender o que as palavras do pai significavam.

- Esses são os versos finais da história de Sebastian e Helena, meu filho, - Se virou para o brasão dependurado atrás do trono - creio que chegou o momento de revelá-lo a você, por isso Laurence está aqui.

Erin voltou a olhar para os dois jovens que estavam ombro a ombro prestando atenção em suas palavras, mas com expressão confusa nos rostos.

- Perdoe-me majestade, porém o porquê da minha presença em um momento entre pai e filho? - Ele não entendia porque o rei solicitara sua presença se transmitiria ao filho um legado de sua família e reino.

- Porque, Laurence, você é a criança esquecida. - Falou simplesmente. Seus olhos cheios de preocupação e pesar.

- Como assim pai?

- Ele não se lembra da própria história e as sombras perseguem-no - Essas palavras fizeram o garoto se sentir envergonhado e mais confuso ainda, e Benjamin tomar a mão próxima da sua como conforto.

- Ele se lembrou de quem é, é filho de Ernest e Ângela. - Revelou um pouco histérico, sem saber se Laurence queria que aquilo fosse revelado para mais alguém além dele ou seus pais. - Deve ser um engano, tem que ser.

- Infelizmente não é. Naquela audiência quando ele disse que estava fugindo das sombras eu tive certeza que ele tem relação com a história. - Erin voltou sua atenção para Laurence - Creio que meu filho te contou sobre Sebastian e Helena, devido à proximidade de vocês.

- Sim contou-me. - Respondeu ignorando a expressão de nojo esboçada no rosto do rei ao ver as mãos deles unidas.

- Sendo assim como eu ia dizendo, eu não quero correr o risco de por meu povo e minhas terras em mais perigo, deixando você exposto em um campo de batalha. Eu fui negligente ao permitir até mesmo que você colocasse os pés naquele acampamento.

O homem que parecia ter envelhecido alguns anos desde a última vez que se viram, olhou no fundo dos olhos de Laurence e continuou:

- Por isso você vai ficar aqui no castelo, sob minha proteção.

- Eu não vou... - Foi interrompido antes mesmo de terminar de dizer que não ficaria sentado coçando a bunda enquanto poderia estar fazendo algo.

- Você vai sim. - Sentenciou com a voz grossa e alta - Não discuta comigo, se não quiser ficar por bem eu posso muito bem providenciar sua estadia nas masmorras do castelo.


- Pois que seja. - Desafiou.


- Pois que seja. Guar...


- Não meu pai, isso não será necessário, - Benjamin interrompeu o rei ao lembrar-se da visão de seu amado assustado e quase destruído naquela sela. Não, aquilo de novo não. - vou levá-lo aos meus aposentos.


Laurence não queria ouvir mais nada. Sua vida decidida como se ele fosse uma peça de tabuleiro. Deu as costas para os Herven, os jogadores, e saiu do cômodo. Sou um peão que está mais protegido que o rei, pensou de maneira amarga, enquanto chegava ao pátio, pisando duro, um peão tão cercado que não pode se mexer.


Mas o que ele não percebeu foi o fato de ele ser o rei.


*****


Os dois discutiam, seus passos eram rápidos e firmes enquanto atravessavam o jardim onde, a árvore de Helena, antes bela e viva, observava-os apática e doentia:


-Benjamin não me peça para ficar de braços cruzados enquanto homens inocentes morrem para me proteger crendo que protegem sua casa. - Laurence parou e virou de costas encarando o príncipe que também parou, ele tinha seguido o garoto quando esse saiu desembestado da sala.


- E do que vai adiantar você ir para o campo de batalha? Você não entende, eles te querem.- Gritou já sem vontade de manter o tom de voz baixo.


- É claro que entendo é a mim que aquelas malditas sombras perseguem. - Respondeu no mesmo tom.


- Não, a sua insistência não vai proteger ninguém. Se você for pego todo o sangue derramado será em vão, se você for levado nós cairemos. Eu cairei. - Completou num fio de voz.


- Benjamin eu não me sentiria bem sabendo que sou um covarde, que ao invés de proteger a terra que me acolheu, a família que me abraçou e aliviar a dor dos animais que cuidei durante meses eu estou escondido embaixo da capa de vosso pai, enquanto o próprio filho dele corre riscos na linha de frente. - Gesticulava de forma enraivecida. - Ou quem sabe seria melhor que eu morresse. Assim pelo menos toda essa matança teria fim.


-Jamais repita isso. - A raiva da possibilidade que o Menson acabara de levantar fez Benjamin erguer sua mão, mas pará-la, trêmula, a poucos centímetros do rosto, no qual quase desferiu um tapa.- Você não estará sendo um covarde Laurence, é uma coisa necessária, sua proteção é o mais importante agora. - Aproximou para tocar o rosto dele.- Proteja nossa terra, sua família se protegendo.


Mesmo com o pequeno protesto de Laurence ele uniu suas testas.


- Se o que te incomoda tanto é não agir, cuide da minha irmã, da nossa casa, enquanto eu não estiver por perto seja o guarda dela. Não vá para aquele inferno, não facilite o trabalho daqueles demônios. Fique aqui por mim, por favor. Seja mais um motivo para eu volta. - Pediu olhando no fundo daqueles olhos que tanto amava.


- Cuidarei de Valerie pra você, mas prometa que vai voltar e com meus pais.


- Eu prometo. - Selou o que disse dando um beijo no Menson, seu pequeno. Aquele beijo era cheio de dor e saudade, tinha um estranho gosto amargo, como se a promessa feita não tivesse fundamento. E os toques cálidos e cândidos tentavam tirar o frio que o medo produzia.


- Que lindo! Vejam quem é o mais novo bichinho de estimação do príncipe de Herven? - Uma voz fria e árida disse sarcástica em algum ponto próximo dos dois amantes, o que os fez interromperem o beijo e olhar assustados da direção da sombra de uma das colunas do pátio.


Um homem muito magro trajando roupas negras e pomposas saia da escuridão, com passos e olhos ferinos, batendo palma como ao fim de um espetáculo.


-Felix? - O terror na voz de Laurence era evidente.


- Ah eu ainda tinha esperanças que você fosse o meu... mas deixa para lá agora eu quero outra coisa do bichinho...ops cavalheiro Hagen. - Comentou com deboche ao ver que Benjamin se posicionou de forma protetora, empunhando sua espada, na frente de Laurence.


Laurence se assustou quando escutou aquele nome, como aquele demônio poderia saber de seus sonhos, não tinha como, tinha? Aquele era o sobrenome do outro Laurence e ele não tinha dito isso para ninguém.


- Mas vejo que se lembrou de mim.


- Como?


- Quê? Ah, como eu sei de seus "sonhos". - Iniciou quando viu a expressão de espanto no rosto do garoto, Benjamin ainda em sua postura defensiva, aguardando qualquer ataque. - Porque não são sonhos, eles são uma porta para outros tempos, e eu quero esse poder para mim, para enfim escapar dessa prisão que é essa Era medíocre, e marchar com meu exército de sombras pela Terra em tempos mais interessantes. Quero sentir o gosto de sangue misturado a lágrimas, fazer a humanidade suplicar por piedade para no fim decidir se a concedo.


Cobiça e desejo borbulhavam nos olhos de Felix, enquanto ele falava movendo as mãos ossudas diante os lábios desproporcionalmente carnudos como se comesse algo extremamente saboroso.


- E o que Laurence tem a ver com seus desejos imundos e sádicos?


- Caro Benjamin eu achava que era mais esperto, tanto é reverenciada a sabedoria do príncipe de Herven, sendo assim vou lhe explicar. O seu amado é a preciosa chave dessa porta, ou você acha que eu o procuro há tanto tempo por nada? - O príncipe se lembrou de quando seu pequeno disse estar fugindo das sombras, na audiência com seu pai, e do resto da profecia que era uma novidade para ele.


- Mas você não vai levá-lo. - Sentenciou.


- Ai meu caro, e quem vai me impedir, você? - Riu. Fingindo tirar lágrima dos olhos. - Creio que não. Tudo isso é maior do que você pensa. Sabe aquele exército que vem marchando em direção ao resto do seu e a guerra que os reinos vizinhos travam há tanto tempo? - Preguntou recebendo olhares irônicos dos dois rapazes. - Então, são só uma distração e um espetáculo, nessa ordem, para que eu me divirta, enquanto estou sentado no trono de Ilínea. Sim, o seu trono bichinho.


- Pare de me chamar de bichinho. - Laurence rosnou, empunhando sem perceber o presente que Benjamin lhe dera, ela parecia ter sido feita para ele, encaixava perfeitamente em sua mão.


- Por que então você correu o risco de ficar sem sua preciosa chave, - Benjamin sentiu repulsa ao repetir as palavras de Félix, mas tinha que saber. - quando mandou suas tropas marcharem contra nós, seus espiões não lhe disseram que Laurence estava lutando?


- Você mandou prender meu último espião. Marcus. - Fez uma cara acusatória. - Ele me disse que o bich... Laurence estava sobre a proteção de seu pai e de enrosco com você, então achei que não iriam deixá-lo lutar. Por isso estou aqui: aproveitando a distração. Não se preocupe Laurence, em breve você estará em casa.


- Eu não vou a lugar nenhum com você seu bastardo. - Sentenciou, tremendo de ódio enquanto apertava o punho da arma até os nós dos seus dedos ficarem brancos.


- Igual à vadia da sua mãe. - Rosnou com uma expressão nitidamente enraivecida, mas que logo se desfez em um sorriso triunfante ao encontrar algo mais para ferir o garoto. - Me lembrei, você provavelmente não se lembra deles.


- Vá à merda, Félix. - Sua resposta fez a criatura rir mais ainda. - Mas para o bichinho ver que eu não sou de todo o mal vou contar um pouco sobre eles antes de irmos. - Respirou fundo e começou. - Seu pai, rei Ernest era um idiota que acreditou na amizade de um demônio, não era um homem nobre. - Riu debochadamente enquanto narrava um passado tão distante de Laurence exceto pelas lembranças que se espreitaram pela sua mente na noite anterior, da biblioteca e de sua mãe.


"Na verdade era uma escória humana, menos com a esposa e o filho. Os seus súditos vibraram quando viram seu corpo chegar de uma batalha, carregado pelos soldados remanescentes e sua morte foi anunciada junto com a nomeação de um regente para o trono de Ilínea. Adivinhe quem? - Apontou para si de maneira teatral. - Sua mãe, mulher magnífica e astuta, pena que tive que matar aquela Puta logo depois dela ter arquitetado e proporcionado sua fuga."


- Você... você matou a minha mãe? - A pergunta saiu num rosnado.


- E seu pai também, ele nem viu de onde veio aquela lança, só a sombra que a seguia. E sua mãe, Ângela, como suplicou por piedade, porém não para ela e sim para você "não machuque meu menino deixe-o ir, ele não se lembrará de nada não vai te prejudicar". - Fez uma imitação tosca de voz feminina, como forma de ilustrar seu relato. - Bruxa maldita, não entendia que eu precisava de você para efetuar meus propósitos, minha chave, achava que eu te mantinha vivo só para calar os rumores de que eu era um usurpador.


O corpo de Laurence tremia de ódio daquela criatura asquerosa, do modo tão natural como ele falava de ter matado a família da qual ele não se lembrava. Mas isso não importava mais, na verdade aquele sentimento que fervia dentro do garoto era pela sua nova família, os que tinha encontrado, seus queridos pais, a pequena Valerie, Tobias, e seu coração, Benjamin que estava ao seu lado acariciando seu ombro com a mão livre da espada tentando acalmá-lo e a si mesmo.


- Você não vai machucar mais ninguém que eu amo. - Era uma promessa que ele fazia a si mesmo.


- Não? Doce ilusão querido. Eu vou destruir todos que você ama e você vai me ajudar com isso. - Falava rodeando os jovens como uma serpente pronta para dar o bote. - Você duvida?


Laurence só viu um vulto passar em direção a Benjamin e só percebeu que seu corpo se movera quando já estava diante do príncipe recebendo em seu peito a lança que mataria seu amado, mas conseguiu sorrir apesar da dor ao ver sua adaga atravessando o coração de Felix.


A expressão assustada dele aos poucos foi desfazendo em um pó negro que se juntava ao sangue de Laurence que pingava umedecendo a terra.


- Viemos do pó e ao pó retornaremos...


Seus olhos se fecharam aos poucos e seu corpo tombou nos braços de Benjamin que ao compreender o que aconteceu gritou pelo seu nome. As últimas coisas que escutou foi o brado distante dos que sobreviveram, não sabia como, e o pranto do Herven que pedia incessantemente que ele continuasse acordado e que não deixasse-o:


- Não me deixe, porque eu te amo. Fique. - Soou distante, tão longe. Ele queria dizer eu não vou, porque te amo, mas já tinha ido.


*****


O Hagen acordou sobressaltado, tinha dificuldade em respirar e lágrimas frias e salgadas demais cortavam seu rosto desfigurado pela dor dele. Apesar do silêncio em seu quarto, ele escutava os gritos e pranto de Benjamin.


Seus membros estavam frios, e ele puxou suas colchas de forma mecânica se enrolando nelas e sentando de um jeito encolhido, a cabeça entre os joelhos.


Desde que tivera o primeiro sonho com o garoto igual a si, ele quis que aquilo parasse, que seu sono voltasse a ser somente seu. Entretanto a cada sonho uma ligação entre ele e Laurence se formava, quase tornando-os um, ao ponto dele quase perder a noção de qual era sua realidade. Sendo assim ele não queria que aquilo terminasse daquele jeito, com Laurence morto nos braços de Benjamin.


Agora ele sabia que aquele mundo não era real, porém essa constatação não diminuía a dor de sentir a morte do outro, de sentir o êxtase dele em ter salvado os filhos de Herven e ao mesmo tempo a frustração em saber que causaria dor aos seus pais, que causava dor em Benjamin ao não conseguir ficar.


Os sentimentos do Menson se juntaram aos seus e às lembranças do corpo frio de Oliver naquele caixão, e ele chorou silenciosamente no escuro do seu quarto até não aguentar mais.




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