História Entre palavras, fotografias e cafés - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias Camila Cabello, Fifth Harmony
Personagens Ally Brooke, Camila Cabello, Dinah Jane Hansen, Lauren Jauregui, Normani Hamilton, Personagens Originais
Tags Camren, Fifth Harmony, Romance Lésbico
Visualizações 3
Palavras 4.944
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 2 - Prólogo: parte II


Fanfic / Fanfiction Entre palavras, fotografias e cafés - Capítulo 2 - Prólogo: parte II

Ação e reação, como objetos a expressividade e a repercussão desta.

O ato de fazer-se ouvido, de reconhecer aquilo que se é e, então, compor e delinear as notas musicais cotidianas [em conluio com o ritmo que pulsa no íntimo de seu ser] trata-se da expressividade. No entanto, o compasso utilizado, cada pequeno acorde escolhido, deixa a sua marca na sinfonia dos seres, criando-se um arranjo (des) harmônico: uma composição que, quando atrelada à vida, trata-se de uma adaptável preparação para o espetáculo maior, do qual se é o músico principal.

Sendo assim, a repercussão seria o som da individualidade impactando e modificando a partitura do plano maior (que, para alguns, trata-se de algo previamente composto e, para outros, trata-se de improvisações conforme o decorrer da música); Repercussão caracteriza-se pelo ato da pulsão emitida por todos os indivíduos expressivos sair do âmbito pessoal e conduzir os desritmados na busca de sua própria frequência, encontrando e reverberando sua própria onda.

Lauren remexeu-se desconfortável em seu assento. Havia um insistente latejar na lateral de sua cabeça, devido à exaustão causada pelo longo voo. Seus ouvidos começavam a dar sinais de incômodo, uma leve fisgada em seus tímpanos pela absurda pressão exercida sobre eles. Massageou suavemente suas têmporas com a ponta de seus dedos e, logo, se deixou cair mole no estofado sob seu corpo.

Sua mente estava dominada pelo tédio; sua amiga dormia profundamente ao seu lado, sendo assim, não possuía ninguém para distraí-la. Em busca de entretenimento, puxou sua câmera fotográfica da bolsa de colo que repousava segura em suas pernas e perdeu-se observando as fotos que tirara com tanto afinco na aventura a que se submetera.

Passara os últimos três meses desbravando territórios africanos em busca de aspirar os ares culturais e humanos do belíssimo continente. Registrou momentos únicos e a experiência com seus povos retumbava em seu encantado coração: havia uma riqueza inigualável em um cenário de extrema miséria.

“Elas ficaram ótimas.” A garota na poltrona ao lado se pronunciou ao despertar, sua cabeça repousando no ombro da outra para que pudesse visualizar mais claramente a pequena tela do aparelho. “Você tem um olhar único”. Elogiou sincera, estava, de fato, impressionada com as fotos informais da outra (as de seu trabalho seriam reveladas ao chegar à América).

“Vamos dizer que minha parceira contribuiu bastante.” Sorriu agradecida empurrando a amiga de forma suave e brincalhona. Lucy a havia acompanhado por toda sua jornada e participara ativamente de sua produção artística, tanto como assistente de cenário e instrumental, quanto como protagonista e modelo de seus conceituais ensaios.

“Não há como negar.” Disse convencida; seus olhos fechando-se satisfeitos por um instante assim que Lauren passou um de seus braços por sobre os seus ombros. A loira franziu o cenho ao senti-la soltar o ar de maneira estranha; seu incômodo tornando-se evidente para a amiga. “O que houve, Laur?”

“Eu percebi agora que acabou. Essa viagem foi um imenso sonho, voltar para a realidade soa péssimo”. Murmurou em um tom melancólico. Transcendera-se naquele período como ser humano, passara a ver o mundo com novos olhos, absorvera das energias ao seu redor com tanta intensidade que se sentira parte daquele cenário. No entanto, voltando ao seu ambiente cotidiano, teria que se fechar em sua bolha protetora novamente, a fim de se afastar da negatividade e de todas as adversidades rotineiras que advinham de Miami.

“Talvez, então, você devesse mudar sua realidade. Você sabe que não é uma opção tão absurda. Se não te agrada algo, tente mudar isso.” Aconselhou sorrindo-lhe compreensiva. Lucy entendia seus temores, seus receios. A de olhos verdes era demasiadamente empática e todo sentimento externo amplificava-se quando em seu peito. Suas energias eram carregadas com o contato interpessoal, era a energia humana que a guiava. No entanto, havia um ponto negativo: sua mente era demasiado visionária para um ambiente tão tóxico e superficial.

“Não é tão fácil. Como poderia eu obrigar alguém a mudar?” questionou apoiando a parte posterior de sua cabeça no encosto do confortável assento. Seus olhos cerraram-se cansados. “Eu estaria impondo a eles aquilo em que eu acredito. Seria prepotente demais dizer que o meu modo de vida é que eles têm que seguir”.

“Você sempre pode fazê-los entender o seu ponto de vista. Não é sobre aceitar, é sobre tolerância.” A loira brincou com os dedos da outra em um carinho consolador, mas Lauren somente riu desdenhosa, afinal, não é como se ela jamais tivesse pensado sobre aquilo.  Entendia o que a amiga tentava dizer, mas duvidava que funcionasse na prática.

“Acredite, eu já tentei. Tento a todo o momento.” Retirou seu braço do corpo da garota, a fim de virar-se para ela. Seus olhos se encontraram e, por meio deles, a morena tentou passar toda sua frustração. Lucy sentiu-se estremecer ao notar o tom quebrado que o verde possuía: opaco pelo medo, desfocado pelas lágrimas.

“Não desista deles, pelo menos. É a única coisa que pode fazer, assim como deixa-los ir caso nada funcione.” Lucy disse calmamente, sua respiração tocou a face da maior assim que suas faces se alinharam. Seus dedos acariciaram o topo da cabeça da garota tentando passar a segurança necessária para que seus temores a dessem trégua. Lauren suspirou e baixou o rosto.

“Temo que eles desistam de mim” sua voz saiu recheada de melancolia. Seu coração estava em desespero: não suportaria ver o olhar decepcionado de sua mãe novamente, não suportaria ver o brilho de desgosto que dominaram as íris maternas desde o primeiro momento até o último em que a encontrara em sua última estada em Miami.

“Isso não vai acontecer.” A loira assegurou com toda a certeza que guardava dentro de si. Já havia se passado quase um ano inteiro, a mulher devia ter superado, afinal, a filha dela continuava a mesma. Somente um pouco mais autêntica, talvez.

“Você não pode ter certeza disso. Ela pode ter feito a cabeça deles contra mim.” Sua fala trêmula denunciou toda a agonia que guardava; as lágrimas já despontavam e molhavam sua face corada. Lucy sentiu seu coração encolher impotente perante o sofrimento da garota, mas com um cuidado inesgotável, passou seu polegar para limpar as gotas que insistiam em cair.

“Michael não deixaria. Tanto você quanto eu sabemos que ele é super protetor. Ele jamais deixaria alguém pensar mal de sua garotinha.” Disse convicta, conhecia a família há muito tempo e, por mais problemáticos que às vezes fosse, sempre arranjavam um jeito de se reconstruírem.

“Espero que esteja certa.” Deixou-se ser confortada; um último suspiro deixando seus lábios antes de se apoiar no ombro da garota e fechar os olhos sentindo a exaustão física e mental a dominar conduzindo-a para a inconsciência. Escondeu-se em seu pescoço e aproveitou a segurança daquele contato amigo.

“Você sabe que eu sempre estou.” Brincou com a amiga, observando-a desistir de permanecer acordada. Seus dedos acariciaram as madeixas negras de seu cabelo, velando-a em seu sono. Lucy engoliu em seco ao perceber que, de fato, ela não possuía a mínima segurança na reação da mãe de sua amiga.

Ela simplesmente esperava estar certa.

[...]

Michael andava ao lado de sua filha a passos ansiosos: desejava mais que tudo encontrar a outra garota. Fitou a cabeleira negra e os firmes traços de seu rosto; lembrou-se de quando eram castanhas as madeixas e de quando sua face somente ostentava a mais doce das expressões. O homem lamentava que tivesse perdido tão rápido o ar inocente e lidaria para sempre com a culpa de ter sido um dos responsáveis por ter apagado parte de sua fé.

Encarou com atenção a interação entre as garotas; elas conversavam cúmplices enquanto os procuravam em meio à multidão. Sorriu ao ver o fulgor de felicidade que dominava sua filha mais velha; parecia uma nova mulher, mais plena e amadurecida. Sentiu um orgulho imensurável dominar seu peito e aproximou-se rapidamente de onde estavam mal contendo sua emoção.

“Veja se não é a minha fotógrafa favorita”. Falou afetuosamente; o choro preso em sua garganta quando as íris verdes da mais nova encontraram-se com as suas depois de tanto tempo. Havia surpresa, receio e, sobretudo, amor. Sorriu triste ao ver o lampejo de comoção quando ele abriu seus braços para recebê-la.

“Papa!” Lauren exclamou jogando-se no abraço firme e amoroso de seu pai, o homem que através dos anos a havia segurado em meio à maré de tamanhas incertezas com inesgotável carinho e compreensão. Sentiu-se plena em meio ao seu aperto; uma onda de amparo transbordando de seu peito.

“Achei que havia se esquecido de seu velho.” Murmurou o homem contendo as lágrimas que ameaçavam despontar de seus claros olhos; suas mãos segurando o rosto da garota à sua frente de maneira delicada e seu polegar acariciando a sua bochecha antes de aplicar um tênue beijo em sua testa.

“Jamais.” Disse em meio a uma respiração afobada, um sorriso genuíno em sua face corada. Não havia palavras o suficiente para explicar o quanto sentira falta do mais velho. Não havia palavras o suficiente para explicar o quanto a aquecia ver tanto orgulho refletido em suas íris. Não havia palavras o suficiente para explicar o quanto era grata por tê-lo.

“Ei, Papa, é essa perdera aqui que estávamos esperando?” ouviu Taylor falar em tom de brincadeira, assim que surgiu de trás de seu pai; seus braços abrindo-se para a morena que já tinha os olhos marejados ao revê-los. Havia uma absurda saudade transbordando de seu coração, tamanho o amor que nutria por eles. “Eu senti sua falta, loser.” Disse a mais nova tentando brincar, quase se entregando às lágrimas também.

“Eu também senti sua falta, Taytay. Muito.” Murmurou contra o pescoço da garota que já superara sua altura. Não pôde conter o aperto que sentiu ao perceber o quanto do crescimento da mais nova ela perdera em meio a seus estudos e viagens, então, deixou-se abraçar ainda mais forte dominada pela emoção.

Viu um flash ser disparado em sua direção, então, virou-se para encarar uma Lucy Vives segurando sua câmera em riste, um sorriso satisfeito nos lábios bem delineados. A garota abaixou o objeto assim que fora pega e deu de ombros como se não houvesse como se conter.

“Desculpa, eu precisava registrar isso.” Disse em tom de falso lamento, seus olhos brilhando com tamanha ternura estampada na foto que tirara e em sua frente na relação das irmãs: era invejável o amor e confiança que nutriam uma pela outra. Sentiu-se aliviada ao ver que a amiga teria o apoio de, pelo menos, parte de sua família.

“Vou deixar isso passar só porque está confortável demais aqui.” Reclamou Lauren aconchegando-se ainda mais no quente abraço da mais nova. A garota riu ao ver a expressão manhosa que dominara seu rosto; ela era extremamente apegada à sua família e vê-la ali, desfrutando de tamanha realização, enchia seu peito de alegria.

“Não entendo como alguém que adora tirar fotos, odeia tanto ser registrada.” A loira revirou os olhos em uma expressão tediosa, sua feição abrindo-se ao fitar o homem à sua frente que a observava de forma terna. “Papa J, é ótimo ver o senhor.” Exclamou animada, tinha-o como um segundo pai, afinal, sempre fora acolhedor e gentil para com ela.

“Senhor está no céu, já disse para me chamar de Mike.” Falou sorridente, seu rosto iluminando-se ao ver a garota, que era uma das melhores amizades da filha em sua opinião, mesmo que sua esposa não concordasse com aquilo. “Espero que tenha cuidado da minha garotinha”. Piscara um de seus olhos de maneira brincalhona recebendo uma reclamação de Lauren que afirmou já não ser mais criança.

“Eu aposto que ela cuidou.” Taylor pronunciou-se maliciosa; um grito de dor cruzando seus lábios assim que sua irmã mais velha a beliscou sem piedade. “Ai, sua bruta.” Exclamou dramática; seus braços desfazendo o aperto ao redor da garota para esfregarem o lado que fora agredido.

“Tudo bem, Mike.” Disse sorridente para o homem ignorando o comentário da garota; suas bochechas corando, no entanto. “Senti sua falta também, pirralha.” Brincou se aproximando dela, seu braço passando por cima dos ombros da mais nova, uma de suas mãos esfregando-se em seus cabelos anteriormente arrumados.

“Cadê o Chris?” questionou Lauren contendo uma risada ao ver Taylor debater-se em meio ao ataque da outra garota. Seus olhos procuraram seu irmão no meio em ansiedade, uma imensa saudade do garoto apossando-se dela. Fitou seus parentes e engoliu em seco, pode vê-los ficarem tensos e se entreolharem: um sinal óbvio de que algo não estava certo.

“Bem... ele está em casa. Ele achou melhor conversar com nossa mãe para, você sabe... evitar imprevistos.” Sua irmã caçula respondeu-a cautelosamente; seus dedos acariciando o cabelo dela ao ver o sorriso triste, mas conformado, que seus lábios esboçavam.

“Querida, eu quero pedir que seja paciente com ela.” Seu pai aconselhou-a terno, uma lástima profunda apossando-se dele ao notar o espectro magoado que brilhou nas íris verdes à sua frente. Gostaria que as coisas fossem diferentes, mas, infelizmente, elas não eram.

“Tudo bem.” Murmurou conformada; um suspiro melancólico cruzando sua boca. Virou-se para a loira, cutucando-a para chamar sua atenção. “Você vem?” perguntou com um traço de insegurança. Não desejava ficar sozinha naquele momento, precisava da amiga para mantê-la sã quando a pressão da realidade despencasse em cima de seus ombros.

“Para sua casa?” questionou confusa; sua cabeça ladeando para a direita em dúvida. A morena simplesmente acenou em concordância, fazendo a loira respirar fundo. “Tem certeza? Acho que traria problemas demais.” Lucy lembrava-se da última vez que estivera na casa dos Jauregui’s e lembrava-se também de como a experiência havia acabado.

“Eu quero você lá, Lucy.” Disse com uma súplica velada, seus olhos implorando para a amiga que suspirou exasperada. Por favor. Moveu seus lábios sem emitir um mínimo ruído para que só ela vesse. Ela mordeu a parte interna de sua bochecha em nervosismo e mexeu-se agitada.

“Não tem problema, querida. Você é sempre bem-vinda em nossa casa.” Afirmou Mike sorrindo-lhe acolhedor para mostrar que não havia problema assim que a loira olhou-o em busca de permissão. Em seu íntimo, o homem receava a reação de sua esposa, mas ele havia prometido a si mesmo zelar, em primeiro lugar, pelo bem-estar de sua filha.

Ele só temia o quão mal aquilo poderia acabar.

[...]

Assim que o carro parou em frente à casa da família, uma súbita náusea dominou os sentidos de Lauren fazendo-a se mexer inquieta. Tentou disfarçar todo seu incômodo, mas Lucy há muito já estava atenta às reações da amiga. Segurou sua mão direita e levou-a até sua boca em um beijo confortador.

“Nós não precisamos fazer isso se você não quiser.” Falou com cautela, fitando atentamente a amiga a seu lado. Seus dedos batucaram nervosos o estofado para, logo, bagunçarem sua franja. A morena deixou-se sorrir pelo zelo da garota, mas seu coração estava demasiado assustado para mantê-lo por muito tempo.

“Eu preciso. Não posso simplesmente fugir de minha família.” Lauren disse sem muita convicção. Seus olhos estavam fixos na casa, seu corpo retesado no banco. Respirou fundo colocando uma mão sobre a maçaneta do veículo.

“Você tem certeza?” questionou calmamente. Lucy podia ver a respiração entrecortada da amiga que olhava para a porta com agonia.

“Tenho.” Não, ela não tinha, porém, se fosse para acabar tudo, que fosse naquele momento. Um sopro de coragem a contagiou e decidiu enfrentar, por fim, seus temores.

“Lauren.” Chamou quando a garota fez menção de sair do veículo. “Aconteça o que acontecer, saiba que nada do que ela disser te define. Você continuará sendo a mulher independente, a fotógrafa talentosa e a incrível amiga que você é. Não a deixe fazê-la pensar o contrário.”

“Obrigada.” estava absurdamente agradecida pela imensa serenidade com a qual sempre lidava com ela. “Eu não sei o que eu faria sem você.” Disse com toda a sinceridade que continha em seu peito; Lucy era a melhor amiga que podia pedir, diria que eram irmãs, mas talvez nem essa nomenclatura pudesse definir sua tamanha conexão.

“Bom, sua vida seria com certeza mais deprimente.” Tirou sarro, rindo da careta incrédula que Lauren esboçou em sua face. A amiga mostrou o seu dedo do meio para ela, que devolveu com um mostrar de língua: tudo isso em questão de segundos.

“Lucy!” a loira deu de ombros como se dissesse ‘estou mentindo, por acaso?’ e abriu a porta. “Vamos logo.” Exclamou ela revirando seus olhos em impaciência pelo comportamento prepotente de sua amiga. Com passos não muito seguros, se aproximou da frente da residência.

Assim que entrou na casa, seus olhos foram preenchidos pelos detalhes que a acompanharam durante todo seu crescimento. Sentada num dos sofás da sala, estava a mulher que a carregara nos braços com infinito amor. Ela a observou por um momento e Lauren sentiu o ar ser arrancado de seus pulmões. Sua mãe ofereceu-lhe um sorriso receptivo, no entanto, a morena podia notar a secura deste.

Clara puxou a filha para um abraço saudosista. A garota surpreendeu-se e ficou tensa antes de finalmente corresponder. Era um abraço cauteloso, um tanto quanto desajeitado, mas era o máximo que trocavam de afeto em dois anos, então, ela não se permitiu reclamar.

“Olhe só para você” a mulher exclamou satisfeita; seus olhos queimando a garota à sua frente em um curioso fitar. Lauren pode sentir seu pulso acelerar assim que sua atenção voltou-se à companheira. Encarou-a impassível, sua sobrancelha direita arqueando-se levemente.

“Mãe, creio que se lembre da Lucy.” Disse em meio a uma tomada de fôlego. Tentou disfarçar seu nervosismo com a situação e, logo, sua mão direita guiou-se à base das costas da amiga empurrando-a sutilmente para frente a fim de fazê-la cumprimentar sua mãe, que acompanhou seu movimento de modo atento.

“Claro.” Afirmou de maneira simples. O sorriso em seu rosto vacilando por um momento. A mais velha discretamente respirou fundo e, em um suave gesto, aproximou-se aplicando dois educados beijos: um em cada lado da corada face da outra.

A loira reprimiu uma expressão zombatória, cumprimentando-a com a mesma suavidade. A de olhos verdes, por sua vez, poderia estar chocada com o comportamento da matriarca e, de certa forma, ela estava. Contudo, algo brilhava nas íris da mais velha, algo que transcendia a educação.

“A senhora está divina. Qual o truque para aparentar tão bem mesmo depois de três filhos?” Lucy questionou de maneira cortês e levemente brincalhona, um curvar de lábios agradecidos sendo direcionado a ela como resposta. Lauren se conteve para não soltar um suspiro de alívio ao vê-las se tratando com cortesia, mesmo que houvesse certo distanciamento.

“Eu diria dinheiro, minha querida.” Comentou em resposta, sua firme voz ondulando em uma sutil risada. “Faz tempo que não nos vemos, você está linda. Ambas vocês estão. Acho que eu sou quem deva perguntar o segredo.” Devolveu o elogio, seus olhos cravados nas garotas à sua frente de maneira avaliatória, ainda que cultivasse uma expressão divertida.

“Devo culpar a juventude.” Devolveu de maneira serena, sua linguagem corporal demonstrando toda sua inabalável tranquilidade. No entanto, assim como Lauren, a amiga podia ver os traços quase imperceptíveis de desconforto que eram velados pela máscara de polidez que ostentava.

“Meu Deus, nem passando todos esses meses na África você conseguiu ganhar um bronzeado?” a interação entre as mulheres foi interrompida assim que um quarto indivíduo adentrara a sala de modo barulhento. Seu cabelo estava mais longo, a barba já com um comprimento considerável. Ele estava diferente, mas Lauren jamais confundiria seu sorriso favorito com qualquer um outro.

“Pararam de vender lâminas de barbear na América enquanto eu estive fora?” zombou do irmão, todavia, seus olhos já marejavam pela saudade que sentia. Abraçou-o com intensidade, surpreendida ao constatar os músculos que agora possuía. Lauren lembrava-se quando ele era somente um pirralho esquelético e não um homem encorpado.

“Como é ótimo ver o amor entre irmãos.” Lucy gozou dos dois assim que Chris tentou beijar a bochecha da irmã que se esquivou fingindo estar enojada. Ele se sobressaltou  ao ouvir a voz da loira, uma rápida troca de olhares ocorrendo entre os irmãos.

“Eu não sabia que você viria.” O garoto exclamou surpreso, seu olhar caindo rapidamente sobre a mãe e, então, voltando à loira. “Achei que houvesse vendido sua casa em Miami.” Comentou enquanto a cumprimentava com um carinhoso abraço. Lauren divertia-se ao perceber o quão querida Lucy era pelos seus familiares.

“Na verdade, eu vendi. Não fazia sentido tê-la sendo que eu mal estaria na cidade.” Explicou com um leve dar de ombros, mas segurou um xingamento ao ver as íris da matriarca fitarem-na com uma curiosidade mordaz.

“E onde você está morando, querida?” Clara perguntou calmamente; sua voz saiu cautelosa, mas sua mente estava movimentada. Encarou a loira em desafio e Lucy sentiu-se esmorecer. Ambas sabiam que a resposta para aquela pergunta seria mais polêmica do que, de fato, deveria ser.

“Uh, eu...” começou incerta, parando assim que ponderou se seria o certo a se fazer. Olhou para a amiga em busca de ajuda e Lauren encheu-se de coragem antes de contar os verdadeiros fatos. Não havia a mínima coerência em esconder a verdade, já que não havia

“Ela está morando comigo.” Disse normalmente, seus ombros balançando como se a informação não fosse, de fato, importante. “Aliás, tem problema se nós ficarmos aqui hoje à noite? Amanhã nosso dia será cheio, então, talvez pudéssemos passar um tempo em família e tudo mais.” Tentou desconversar ao ver a face de sua mãe endurecer ao ouví-la.

“Deveria saber que, se você realmente quisesse ficar com sua família, não a teria trazido.” Proferiu entredentes, buscando um último apoio para não sucumbir à animália e perder sua compostura e consciência novamente.

Seu coração apertou-se ao ouvir a rispidez que cruzara sua boca. Todos pareceram demasiado chocados com a resposta e, logo, um silêncio sepulcral recaiu sobre o ambiente. O olhar materno cravou-se com fúria nos verdes da mais nova, assim como fizera anos atrás.

“Papa mandou perguntar se já pode colocar a carne na grelha.” Taylor exclamou logo que entrara no cômodo, parando confusa quando notara a atmosfera pesada que preenchia o local. “Eu..ahn.. posso o dizer para colocar?” perguntou incerta, revezando o olhar entre sua família.

“Diga-o para que não prepare o almoço.” Clara disse com os olhos fixos na filha mais velha. Sua face branca estava tomada pela cor rubra de raiva. O tom claro de seus olhos ostentava uma tempestuosa escuridão. Seu maxilar estava travado, seus dedos esmagando-se uns nos outros.

“Mas, mãe, nós convidamos Lauren justamente para isso.” Chris interviu receoso. Seu olhar alternou-se entre a mãe, as irmãs e Lucy. Lauren sentiu-se congelar com o fogo que ardia na expressão da mais velha que a encarava com tamanho desgosto que jamais haveria palavras para descrever.

“Acho que elas deveriam ir embora.” Declarou secamente, seu braço fazendo um sinal para que a filha e a loira se retirassem da casa. Havia um último resquício de polidez, mas todos podiam ver a força com que se continha para não perder a razão.

“O que... a senhora...?” a voz da morena falhou em incredulidade. Não acreditava que passaria por aquilo novamente. Não fizera nada e, no entanto, estava sendo expulsa por uma simples suposição: uma suposição falsa e falha. Mesmo que fosse verdade, não haveria justificativa.

“Você quer que eu seja complacente com essa vergonha?” proferiu entredentes, a veia de seu pescoço saltando pela ira. Desejava manter sua compostura, mas ver a expressão de naturalidade de todos em meio àquela vergonhosa situação era demais para ela lidar.

“Do que você está falando?”

“Fora daqui você pode fazer o que quiser, mas, na minha casa, jamais permitirei uma heresia destas.” Falou seriamente; sua raiva subindo dois tons ao ver Lucy levar sua mão direita até o ombro de sua filha mais velha, que possuía seu corpo encolhido.

“Meu Deus, eu não fiz absolutamente nada.” Argumentou com a voz falha; as lágrimas já despontavam de seus olhos, assim como faziam dos olhos de seus irmãos que não sabiam o que fazer. Taylor correu para chamar seu pai e Chris pôs-se no meio das mulheres para evitar um  possível confronto físico.

“Eu já me permiti ser cega uma vez, isso não acontecerá novamente.” Completou com um último olhar frio direcionado à filha, a qual somente a envergonhava no momento. Subiu as escadas e deixou-os todos consumindo a tóxica atmosfera que contagiou o ambiente. 

Os irmãos da garota tentaram intervir, até mesmo seu pai chegara lá para tentar fazê-la ficar. Todavia, Lauren sabia que aquele não era mais seu lugar. E, assim como anos antes, de olhos marejados e coração quebrado, teve de partir, ao lado de Lucy, para horizontes melhores do que aquele local. 

Partiu com o familiar sentimento de se sentir uma completa estranha em seu próprio lar.

[...]

Deixou-se cair no sofá da sala com um alívio absurdo. O peso sobre seus ombros deu uma pausa, permitindo-a respirar livremente sem a pressão da competitividade e desafio que pairava na relação com sua mãe. Ali, ao contrário de momentos antes, estava em casa. Seu apartamento era um refúgio para que pudesse clarear suas ideias, mesmo que fosse nas pessoas ao seu redor que ela construísse a força para ascender individualmente.

Fechou seus olhos por alguns instantes, seus músculos relaxando contra o estofado. Seus lábios curvaram-se em um sorriso divertido ao notar o quão pacífico era ter sua mente finalmente em silêncio. Simplesmente livrou-se de toda negatividade de momentos antes.

“Que cara é essa?” ouviu a voz de Lucy quebrar a magia do momento. Virou seu rosto na direção da amiga, este dominado por uma expressão confusa. Encarou a garota que estava de pé em sua frente, suas duas mãos apoiadas nos lados de seu quadril e suas sobrancelhas arqueadas em zombaria.

“Eu só estava pensando.” Lauren respondeu dando de ombros ainda deitada. Sua mente fugindo para longe dali em questão de segundos. A loira percebeu que aquele era um daqueles momentos em que a garota precisava ficar sozinha para poder vagar de maneira livre por todos os cantos de sua mente. Sabia também que logo a procuraria para compartilhar suas conclusões, então, decidiu esperar o tempo da mais nova.

“Eu vou ir comprar algo pra gente comer, okay?” a morena simplesmente acenou distraída perante a fala da de olhos castanhos que riu conivente e aplicou um beijo carinhoso no topo de sua cabeça antes de se afastar e cruzar a porta do apartamento em direção à rua.

Lauren levantou-se de maneira despreocupada e encaminhou-se até a cozinha. Manejou a máquina de café em cima do balcão com habilidade, seu corpo sendo apoiado na bancada logo após. Deixou-se observar o líquido negro caindo no recipiente; certo conforto provindo do ato. Logo que se dera por satisfeita, agarrou a asa da caneca, assim como seu olhar voltou-se a mala apoiada na mesa ao seu lado.

Puxou a bolsa onde os rolos de sua câmera estavam e se arrastou pelo corredor sentindo seu corpo estremecer, devido ao contato entre seus pés descalços e o chão frio. Entrou no quarto que dedicava à sua paixão a passos lentos. Seus dedos arrastaram-se pela parede da esquerda até o interruptor e o acionaram sem soltar a alça que seguravam.

Quando as luzes se acenderam, pode ver as centenas de fotos pinturas e coladas em cada um dos cantos do cômodo, não parou para observá-las: conhecia cada uma delas como a si mesma. Havia uma porta em uma das laterais e, com os rolos de sua câmera em mãos, aproximou-se dela e, depois de girar lentamente a maçaneta, entrou na câmara escura.

Largou com cuidado a xícara em suas mãos e abriu a mala retirando os filmes fotográficos de lá. Vistoriou seu equipamento e o organizou sistematicamente para que não houvesse imprevistos durante o processo que se seguiria. Tomou um longo gole do líquido quente e sentiu a energia de sua criação a dominar.

Segurou o frasco com a substância alcalina reveladora, observando-a com atenção. Despejou-a no recipiente branco e observou-a cobrir o papel assim que o colocou ali. Sem demora, a reação química fez-se presente e, antes que a foto se tornasse totalmente obscurecida e indecifrável, largou ácido acético glacial e, então, o processo fora interrompido.

Com um zelo desmedido, agitou o filme e o deixou escorrer para então banhá-lo em água. Continuou o processo de revelação, seus olhos jamais deixando o objeto em mãos e seus dedos trabalhando ágeis em cada uma das partes da atividade com cada uma das fotos. Assim que terminara o último ato, o qual consistia na secagem, deixou-se relaxar no confortável puf que ali havia.

A xícara de café permanecia em sua mão direita; o calor sendo transmitindo para sua pálida pele. Virou o restante do líquido, estremecendo pelo amargor do final. Seus lábios molhados curvaram-se em um satisfeito sorriso assim que seu olhar caiu no varal que circundava a câmara. Riu consigo quando por sua mente perpassara a constatação do quão natural era aquele ambiente: suas fotos ganhando vida, ao mesmo tempo em que seus cafés tinham um fim.

Estava finalmente de volta. A experiência que tivera na África agora ficaria imortalizada em sua memória e, sobretudo, nas folhas que agora revelavam cada peça integrante do magnífico cenário natural. Sentia-se em seu habitat naquela hexagonal sala, com a baixa iluminação e o aroma químico que dominava seu interior.

Era hora de voltar à rotina, mas talvez aquilo não fosse, de fato, algo ruim. Mesmo que significasse encarar as mazelas do dia-dia, também significava aproveitar cada momento que estava prestes a ocorrer. Significava mais experiências, mais histórias e outras muitas paixões. No entanto, não estaria desamparada em sua espera, pois sempre estaria realizada entre suas eternas fotografias e seus efêmeros cafés.



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