História Espelho - Capítulo 11


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Tags Bts, Jikook, Kpop, Romance, Século Xix, Taegi, Vga
Exibições 96
Palavras 5.492
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Magia, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 11 - Hoseok



  - Senhor Yoongi - Hyuna se levantou do sofá. - Está muito elegante!

  Eu ainda estava chocado demais para poder falar, apenas olhei para Hyuna e tentei sorrir.

  - Mas ainda reluta em usar todos os itens do vestuário, pelo que vejo. - SooHyun acrescentou secamente. - Usar a roupa dessa forma o deixa com o aspecto de um simples criado!

  - Não concordo com isso, SooHyun Acho que Yoongi está muito bonito, de uma forma muito original! - então Taehyung entrou na sala, ainda atordoado. - Não concorda, Taehyung? Não acha que Yoongi está muito bonito com o terno que escolhi para ele?

  Assim como eu, Tae ainda não havia se recuperado totalmente. Duvidei que alguma pessoa naquele fim de mundo alguma vez tivesse tido a audácia de quase beijá-lo! O que eu estava pensando? E por que disse a verdade a ele? O que havia de errado comigo? Eu não podia estar interessado nele, por razões óbvias que não precisavam de maiores explicações. Dois séculos nos separavam. Dois Séculos!

  Então o que tinha de errado comigo?

  Não consegui encontrar a resposta. Concentrei-me em parecer normal - o meu normal pelo menos.

  - Está sim, Hyuna. Ouso dizer que ele está muito bonito, realmente - disse ele, desviando rapidamente os olhos quando encontrou, os meus.

  - E agora, meu caro. - SooHyun se aproximou de Taehyung e colocou as duas mãos em seu braço, exatamente onde estava as minhas estava minutos atrás. - Será que pode nos dizer quem é o convidado misterioso?

  - Não é misterioso, senhorita SooHyun. Eu apenas estava muito atarefado para poder dar-lhes mais detalhes - retrucou ainda perturbado - É um novo habitante da vila. Conheci-o esta tarde. Seu nome é Jung Hoseok, está hospedado na pensão da viúva Herbert e não tem conhecidos aqui. Pensei que seria educado oferecer-lhe um jantar.

  - Oh! Ja ouvimos falar dele hoje pela manhã na Maison de madame GeorJette. - SooHyun se apressou.  - Parece que o pobre foi assaltado! Assaltado, Senhor Kim. Veja a que ponto chegamos -  ela exclamou, horrorizada.

  Eu, entretanto, não me choquei. Apesar de desconfiar que ele não fosse um pobre homem do século dezenove, mas sim um cara do século vinte e um, mesmo que tivesse sido assaltado, ainda assim, não me surpreenderia. Assaltos eram tão comuns quanto respirar.

  Suspirei, desanimado. Como eu queria me chocar também! Queria que assaltos e violência não fizessem parte do meu cotidiano.

  - É mesmo? - perguntou Taehyung, fingindo inocência. Ele sabia bem a história toda. Eu já tinha contado a ele naquela tarde no estábulo. - Que feliz coincidência! De toda forma, encontrei o cavalheiro esta tarde quando fui a vila... Resolver alguns problemas. Pelo que entendi, ele havia acabado de chegar de algum lugar. Então o convidei para conhecer minha família.

  Notei que ele me fitou rapidamente quando disse isso. Então, ele foi procurar o estranho sem mim. Mas por quê? De toda forma, estava agradecido por ter ido. Eu precisava falar com esse Hoseok, não me importava onde ou como.

  - Com sua licença, Senhor Kim, o Senhor Hoseok acaba de chegar.

  - Mande-o entrar, Flyn. Não o deixe esperando.

  O mordomo saiu apressado e, em seguida, um homem moreno e de estatura mediana entrou na sala.

  - Como tem passado, Senhor Kim? - o homem, que era mais velho do que eu havia imaginado, se inclinou para cumprimentar Taehyung. Ele aparentava ter trinta e cinco ou quarenta anos, pele morena, barba curta e rala, e os cabelos castanhos liso. Era até bonito, na verdade.

  - Estou muito bem, Senhor Hoseok. Deixe-me apresenta-lo a minha irmã Hyuna - Hyuna se inclinou ligeiramente. - Esta é a senhorita SooHyun e o senhor Yoongi.

Hoseok se inclinou dizendo:

  - É um prazer conhecer-los.

  Analisei o quadro com desconfiança. Ele não se comportava como eu esperava. Na verdade, se comportava como se fosse dali, daquele século. Talvez tenha entrado no clima mais facilmente que eu, pensei. Aposto que nem se importou com a casinha! Ou talvez já estivesse perdido ali ha vários dias.

  - Está apreciando a região, Senhor Hoseok? - SooHyun perguntou, como se fosse a anfitriã.

  - Para ser honesto, senhorita, ainda não pude admirar a beleza do local. - seu rosto ficou sério por um instante. - Não tive tempo para me familiarizar com a região.

  - Soubemos de seu infortúnio, senhor. Foi lastimável! - Hyuna disse, com a delicadeza de sempre.

  - Sim, senhorita Hyuna. Foi terrível. Ainda estou muito surpreso. Tudo aconteceu tão depressa!

  Minhas sobrancelhas arquearam. Aquilo estava ficando bom!
 
  - Pretende ficar aqui por muito tempo? - perguntei, ansioso.

  Seus olhos encontraram os meus. Pensei ter visto alguma coisa neles, mas não pude dizer o que foi.

  - Na verdade, pretendo voltar para casa assim que puder! - seu rosto moreno me analisava atentamente. Pensei que procurasse por alguma coisa em especial. Então fui me sentar no sofá.

  - Espero que consiga voltar para casa o mais breve possível. - disse eu, enfático.

  - Sim. Também espero. Este lugar é um pouco díspar do que eu estou habituado.

  - Nem me fale! - falei revirando os olhos. As garotas me observaram com espanto.

  Fomos alertados pelo mordomo que o jantar seria servido. Seguimos até a sala de jantar e eu ainda estava desconfiado das maneiras de Hoseok. Ele tinha se adaptado muito bem aos costumes daquele século!

  Taehyung se sentou no lugar de sempre, com sua irmã de um lado e Hoseok do outro com SooHyun a reboque, querendo mostrar a Tae que sabia entreter um convidado, supus  Sentei-me ao lado de Hyuna e observei os modos de Hoseok a mesa. Ele era muito educado, se comportava como Taehyung, só que com menos elegância.

  - De onde disse que veio, Senhor Hoseok? - Perguntou Taehyung, me ajudando com o interrogatório.
A testa de Hoseok se franziu um pouco.

  - De um lugar muito longe. Não acredito que já tenham ouvido falar dele. - Aha! - Amanhã a tarde precisarei partir em uma pequena viagem para resolver tudo. Tenho coisas importantes me esperando em casa. Preciso voltar logo.

   Era ele. Tinha que ser ele. Mas onde ele estava indo? Resolver o que?

  - E volta quando? - perguntei inquieto.

  Hyuna e SooHyun me observavam espantadas. Tae não se surpreendeu. Tive a sensação de que, depois do que aconteceu entre nós dois no corredor, nada mais que eu fizesse o surpreenderia.

  - Na sexta-feira, creio eu. - ele me encarava fixamente

  - Extraordinario! Assim poderá vir ao baile. É claro que já foi convidado, não foi? - SooHyun não esperou que ele respondesse. - Será um baile maravilhoso, Senhor Hoseok. Todas as pessoas importantes da região estarão aqui.

  Só na sexta? Mas eu tinha tanta coisa para perguntar a ele!

  - Então, eu estarei aqui, senhorita. - ele respondeu e depois voltou a me encarar.

  Como de costume, SooHyun se apoderou da conversa. Prestei atenção para ver se Hoseok me daria alguma dica, no entanto, ele não disse mais nada que fosse relevante, repetiu a história do assalto e ficou me fitando durante o resto do jantar. Talvez porque eu o encarasse também.
Voltamos a sala de visitas, onde SooHyun nos ofereceu licor, fala sério, licor?

  É a conversa ainda estava animada, mas não para mim. Eles conversavam sobre a beleza da região, o quanto ele iria apreciar as famílias que residiam ali, impedindo que Hoseok me dissesse algo mais específico. Tentei desesperadamente falar a sós com ele, mas não tive chance. SooHyun!

  Suspirei derrotado.

  Ja estavam sendo feitas as despedidas e eu não tinha encontrado outra forma de falar com ele, então interrompi alguém - Taehyung, percebi tarde demais e perguntei sem rodeios.

  - Ainda estara aqui no sábado? - e lancei um olhar conspiratório. Seu rosto surpreso pareceu satisfeito.

  - Sim, estarei, senhor - e sorriu de forma estranha.

  - Tem certeza? - estava desesperado pra perguntar tudo, mas com tanta gente ali, eu não podia.

  - Sim. Prometo que estarei aqui. Até sábado devo ter conseguido tudo o que preciso e, talvez, possa voltar para casa. - e me olhou significativamente.

  Bom, eu achei que fosse significativo.

  - Ótimo. Então vou esperar por você. Talvez me conte mais sobre o lugar de onde vem. - levantei apenas uma sobrancelha.

  - Será um imenso prazer. - ele se inclinou, sorrindo.

  Logo depois da saída de Hoseok, comecei a entender algumas coisas. Fosse o que fosse, ele sabia o que devia fazer para poder voltar. E no sábado talvez já tivesse resolvido tudo. Eu o pegaria no baile, nem que fosse a unha, e o obrigaria a me contar tudo o que sabia.

   Hyuna e SooHyun conversavam animadamente sobre ele. Que educado! Que elegante! Uma lástima ter sofrido tamanha selvageria! Um cavalheiro tão distinto...

  - Acredita que ele possa ser a pessoa que procurava?-  sussurrou Taehyung bem ao meu lado.

  - Arran! Você não ouviu? Ele também não sabe como voltar. Parece que se adaptou ao modo de vida daqui mais rápido que eu, mas acho que é ele. - sussurrei também. - Você viu como ele me olhou? Ele sabe que não sou daqui!

  - Sim, eu vi como ele o olhou durante todo o jantar. - o tom de sua voz trazia uma pitada de alguma coisa. Tipo... Irritação.

  - Você me leva até a vila amanhã bem cedo? Talvez sem a SooHyun por perto eu consiga falar com ele e descobrir se ele pode me ajudar com alguma informação.

  - Eu já havia lhe prometido isso.

  - Valeu, Tae!

  - Fico feliz em lhe ser útil. - mas seu rosto não parecia feliz

  - Taehyung?

  - Sim? - e me olhou de um jeito que fez minha respiração voar.

  - Obrigado, de verdade! Obrigado por tê-lo trazido aqui.

  - Não me agradeça, senhor. - e sorriu um pouco.

  - Não tem ideia de como isso é importante para mim! - estava tão feliz por sua ajuda! Taehyung parecia ser um presente dos céus no meio daquele pesadelo!

  - Eu sei que é importante. Por isso fui até a vila esta tarde. Depois que você me disse que talvez este cavalheiro pudesse ser o mesmo que procurava fui tentar descobrir alguma coisa e acabei o encontrando por acaso. - ele falava muito baixo, me aproximei um pouco para não perder nada. - Achei que seria mais prudente que se encontrassem aqui em casa do que em um quarto de pensão, não quero que você, senhor, se exponha dessa maneira.

  Olhei dentro de seus olhos completamente maravilhado!

  - Você não queria que eu me encontrasse com ele sozinho? - e lutei para não sorrir.

  - Acho extremamente inadequado que fique a sós com um total desconhecido. - seu rosto estava sério, os olhos opacos.

  - Você é incrível, Tae! -  A seu modo, tentava me proteger de um estranho do qual não tinha nenhuma informação, fiquei um pouco emocionado. - Você foi a melhor coisa que encontrei aqui, sabia?

  Então seus lábios se abriram num sorriso de tirar o fôlego, seus olhos brilharam e achei que meu coração fosse parar de bater.

  Oh oh!

  - E você foi a melhor coisa que encontrei em toda minha vida. - seus olhos queimaram nos meus, sua voz baixa e rouca me provocou arrepios, minha cabeça girava e meu coração acelerou o passo de tal forma que temi que pudesse saltar do peito.

  Ah, não! Ah, não! Isso não pode estar acontecendo! Não podia!

  - Eu... Hã... Eu... - tentei dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas não saiu nada.

   Estava perplexo demais com a intensidade do que eu estava sentindo. Do que estava e que não deveria estar sentindo. Fiquei olhando dentro de seus olhos escuros, incapaz de desviar os meus. Senti uma força irresistível me puxar para ele.

  - Eu... Preciso resolver algumas coisas. - ele disse, parecendo desnorteado também. - Resolver alguns assuntos.

  - Ta - ainda chocado pelos sentimentos que me assaltaram, não consegui pensar em mais nada para responder.

  Minha cabeça girava, meu estômago cheio de pedras de gelo era o que parecia, minhas mãos suavam e eu queria muito, muito mesmo toca-lo.

  Ai, não!

  - Boa noite, senhor Yoongi - e, como na noite anterior, pegou minha mão e a beijou delicadamente, fazendo meu coração bater tão forte que achei que minhas costelas pudessem se partir ao meio.

  - Boa noite. - tentei dizer, mas acabou saindo apenas um murmúrio.
Só algum tempo depois de Tae ter deixado a sala, consegui me recompor o suficiente para dizer que estava cansado e que queria dormir. Estava preso numa espécie de transe, minha mente não conseguia se concentrar em nada. Nada além do sorriso de Taehyung.

  Como permiti que isso acontecesse? Por que não fui embora naquela manhã em que discutimos? Por quê?
Eu não podia me apaixonar por ele, por razões que eu conhecia bem. Como eu poderia me apaixonar se logo iria embora e nunca mais o veria? E eu iria embora, de uma forma ou de outra. Como permiti que a enrascada na qual me meti aumentasse ainda mais?

  Tae era diferente dos caras que eu conhecia, sempre tão educado e atencioso. Mas assim eram todos os homens daquele século. Alguma coisa naqueles olhos escuros me fizeram confiar nele, aceitar sua ajuda, querer falar com ele e... querer toca-lo de forma nada educada! Um tremendo erro! Um erro que depois me machucaria muito. Precisaria ser cuidadoso e evitar ficar sozinho com Tae. E precisaria, acima de tudo, manter minhas mãos bem longe dele!

  Nesse momento, meu espelho fez um barulho estranho, só então me dei conta de que já estava em meu quarto. Por um breve segundo, me perguntei como aquilo funcionava. Peguei o espelho e vi o rosto tão conhecido. Dessa vez, não me assustei tanto.

  "Fase um: completa. Parabéns Yoongi"

  Fiquei confuso. Eu não sabia o que pensar. Só sabia que tinha dado um passo na direção de casa. Havia feito alguma coisa certa e que logo voltaria.

  Uma sensação muito desagradável na boca do estômago me atingiu. Não pensei mais nisso. Fui para a cama, ainda atordoado, e tentei muito não pensar em Taehyung.



                 (...)




   Acordei cedo outra vez e percebi por que isso estava se repetindo todas as manhãs desde que cheguei ali. Havia muito barulho. Os malditos pássaros não calavam a boca!

  Eu já estava habituado aos barulhos de pneu freando bruscamente, buzina, o zum-zum-zum das pessoas e todo tipo de som que entrava pela janela do meu apartamento, mas ali, aquele delicado cantarolar dos pássaros acabava me acordando simplesmente por não estar habituado a ele.

  Como havia prometido, Taehyung já estava pronto para me levar até a vila quando o encontrei na mesa do café. Fui informado que Hyuna e SooHyun já haviam se levantado e saído. SooHyun tinha ido até sua casa avisar a família sobre o assalto. Fiquei com pena dela por um momento. Ela estava realmente assustada e eu sabia bem que não havia motivo algum para isso.

  - Como lhe prometi ontem, já estou pronto, mas minha irmã e SooHyun usaram a carruagem, então, se não quiser ir até a vila a cavalo, teremos que esperar que elas retornem.

  - Não! Hoseok disse que vai viajar esta tarde, eu tenho que encontrá-lo antes disso. Se você não me deixar cair, não vejo problema.

   Ele sorriu.

  - Eu jamais o deixaria cair. Estará seguro em meus braços. - Tae se curvou e saiu, provavelmente para preparar o cavalo.

  Só então percebi que a viagem seria mais íntima que na carruagem. Lembrei-me com clareza de quando nos conhecemos e ele me levou até sua casa em seu cavalo. A proximidade de seu corpo me perturbou muito, e agora eu viveria a mesma experiência, numa viagem mais longa, e entendia um pouco melhor as sensações perturbadoras que Taehyung me causava. Pensei que não seria capaz de voltar a respirar outra vez.

  Encontrei Tae na porta da casa com o cavalo marrom claro selado e pronto. Ele me ajudou a subir, mas, ainda assim, fiquei com medo de cair. Taehyung hábilmente montou no cavalo e passou um dos braços seguramente em minha cintura. Concentrei-me apenas em respirar e olhar para frente.

  Ja estávamos na estrada quando ele resolveu falar.

  - Creio que não esteja habituado a passeios como este. - Acertou em cheio. - Sabe, senhor, estou cada vez mais curioso a seu respeito. - Eu não disse nada, apenas olhava para frente temendo cair de cara no chão. - Estou fascinado com sua determinação. - ele continuou.

  - Determinação. - zombei. - Acho que a palavra certa pra isso é teimosia!

  Ele riu, muito próximo do meu pescoço. Estremeci.

  - É uma boa palavra, lhe asseguro. - disse ele.

  Tentei me distrair dos tremores e arrepios observando a paisagem. De alguma forma, as pequenas montanhas me eram familiares. Eu tinha a impressão de que não havia sido transportado para um lugar diferente, apenas para um tempo diferente. Mas não dava para ter certeza, não sem as favelas e os bairros, as ruas ou os prédios sobre aquelas terras.

  Taehyung pareceu muito satisfeito quando me desceu do cavalo ao chegarmos a vila. Quase presunçoso até. Um sorriso teimava em não deixar seus lábios. Não perguntei o motivo, não tinha certeza se gostaria saber o que o deixara tão feliz.

  - Aonde pretende ir agora? - ele perguntou.

  - Sei lá. Que tal irmos até a pensão? Deve ser o lugar mais provável para encontra-lo.

  Tae assentiu e me ofereceu seu braço. Eu o peguei sem reclamar, sabia que ele insistiria até que eu aceitasse. Partimos em direção a pensão, mas não foi necessário irmos até ela. Hoseok estava parado na calçada estreita em frente ao boticário, totalmente distraído, observando algo em suas mãos. Quando nos aproximamos mais, na luz fraca da manhã, o objeto brilhou como um espelho.

  - Senhor Hoseok. - chamou Taehyung.

  Hoseok rapidamente guardou o objeto em seu bolso, me impedindo de vê-lo com clareza.

  - Senhor Kim, senhor Yoongi. Bom dia. - exclamou surpreso. - Não imaginei que eu teria o prazer de revê-los tão cedo.

  - Viemos para um passeio matinal. O senhor Yoongi queria conhecer a vila enquanto ainda está aqui. Creio que já sabe que ele também não é daqui. - Taehyung disse.

  - Eu notei. - Hoseok me olhou de um jeito estranho. - Parece que temos algo em comum, senhor.

  - Acho que temos muito em comum. - e o observei atentamente.

  Ele sorriu, e seu rosto se tornou divertido.

  - Certamente.

  - Então... você vai até a cidade hoje? Pra poder voltar pra casa? - perguntei apressado.

  - Sim. Preciso chegar lá antes do entardecer. - seus olhos ficaram opacos. Antes do entardecer?

  - Por quê?

  - É um pouco complexo. Uma longa história. Talvez no sábado eu possa lhe dar mais detalhes. - e arqueou uma sobrancelha.

  - Não pode me dizer agora? - percebi que Hoseok sabia muito mais sobre o que estava acontecendo que eu.

  - Sinto muito, mas não posso. e importante que eu não faça alarde. - ele piscou. Taehyung pigarreou ao meu lado.

  Ah! Ele devia ter dito a ele para não contar a ninguém, assim como pediu para mim.

  - Entendi. Sábado então! - eu disse, enfaticamente Hoseok assentiu.

  - Então, se puderem me perdoar, preciso fazer os preparativos para minha partida.

  - Certamente. - Tae disse com indiferença.

  Estranhei a maneira fria com que Taehyung respondeu a ele. Eu nunca vi Tae ser rude com ninguém, O que havia de errado com ele?

  - Então, te vejo no sábado. - eu disse, sorrindo amistosamente, tentando distraí-lo da cara de poucos amigos de Taehyung.

  - Até! - Hoseok se curvou e saiu apressado em direção a pensão.

  - O que foi, Tae? - perguntei assim que Hoseok estava longe o bastante para não ouvir.

  - Nada. - resmungou de cara amarrada.

  - Não parece nada. Por que esta irritado comigo?

  - Não estou irritado com você. - ele começou a me induzir de volta para o cavalo. Andamos em silêncio por um tempo.

  - Está irritado com Hoseok então? - tentei fazê-lo me contar o que o incomodava. Tae hesitou e pareceu relutante ao dizer:

  - Não gosto da maneira como ele olha para você!

  Tentei engolir. Era esse tipo de coisa que eu queria evitar: eu me envolver com Taehyung era uma coisa, ele se envolver comigo era outra completamente diferente.

  - Ah! - foi minha resposta brilhante.

   Tae ficou calado até quase a metade do caminho. Pensei que ainda estivesse furioso, mas, quando voltou a falar, sua voz estava mais tranquila.

  - O que pretende fazer agora?

  - Acho que nada. Vou esperar que Hoseok volte e me diga se descobriu alguma coisa. - eu tinha quase certeza de que de saberia como voltar no sábado. Quase. Apenas sua maneira tão educado ainda me deixava encucado.

  Andei pensando muito no que estava acontecendo. E cheguei a brilhante conclusão de que a coisa não estava na vila.

  - Então, parece que teremos mais alguns dias. - seu braço se estreitou em minha cintura. Eu estremeci com o calor que emanava dele.

  - Ainda posso quebrar sua cara em dois tempos, lembra? - ameacei fraquinho, mas a ameaça quase se tornou um apelo.

  Ele riu.

  - Posso apostar que pode! - acelerou o cavalo. Fui obrigado a deixar que seu corpo colasse ao meu ainda mais, enquanto cavalgavamos de volta pra casa.

  Hyuna e SooHyun ainda não havia retornado. E, depois do almoço, imaginei que ainda demorariam bastante, pois Madalena me contou que sempre Hyuna ia até a casa da amiga, não voltava antes do anoitecer. Então, percebi que eu e Taehyung ficaríamos sozinhos o resto do dia naquela casa.

  - Será que estaria disposto a caminhar um pouco, senhor Yoongi? - perguntou ele.

  - Para onde vamos?

  - Na verdade, a lugar algum, quero que conheça minha propriedade. Não se assuste, não é tão grande assim, não vai se cansar. E estou certo de que gostara do passeio.

  - Tudo bem. - e ri.

  A propriedade como ele chama - que pra mim, parecia uma fazenda era muito bonita. Taehyung me levou por caminhos que eu não conhecia ainda - se bem que o único que eu conhecia até então era o caminho para o estábulo -, fiquei encantado que pudesse existir um mundo como aquele. Tudo parecia intocado, a natureza era exatamente como deveria ser: colorida e cheia de vida, repleta de pequenos animais, que no começo me assustaram. Até o vento parecia diferente, cantava uma suave canção em meus ouvidos, e o ar puro chegava a ser inebriante para meus pulmões acostumado com tanta poluição. Talvez meu corpo estivesse reagindo de forma estranha nos últimos dias por causa disso: tanto ar puro devia fazer mal!

  Caminhamos por uma trilha de terra cercada por árvores de copas altas, vi muitos pássaros e até um esquilo. Passeamos por um campo aberto com uma árvore apenas. Esse eu reconheci. Foi ali que apareci pela primeira vez. Aproximei-me mais do local, examinando minuciosamente pra ver se eu havia deixado escapar alguma coisa. Não encontrei nada.

  Tae me explicava e apontava até onde iam os limites de suas terras e com quais famílias faziam fronteira. Uma delas era a família de SooHyun. Descemos um pouco no terreno levemente inclinado e paramos perto da margem de um rio. Um rio de águas claras e límpidas - sem pneu, garrafas, papel, ou qualquer outro tipo de porcaria boiando. O mesmo rio que transbordava a cada chuva, inundando as ruas da cidade, poluído e fétido, há oito quadras do meu prédio. Fiquei surpreso que aquele mesmo riacho já tenha sido um dia assim tão limpo.

  - Nossa! É lindo aqui! - não pude me conter.

  - Eu sabia que gostaria do riacho. De alguma forma, ele me faz lembrar você. - ele pegou uma pedrinha e atirou na água, que fez um glup ao cair.

  - A mim? - não consegui entender a comparação.

  - Sim. Assim como este rio, você segue seu curso. Se uma pedra aparecer na sua frente, você simplesmente contorna e tenta encontrar um novo caminho. E, assim como as águas deste rio correm em direção ao mar eu sei que você corre em direção a sua casa. - Ele estava de costas, mas, no final, sua voz parecia aborrecida. - Mas imagine se, de repente, este rio resolvesse mudar seu curso e passasse bem no meio da sua sala. Não seria o lugar certo, ele teria que voltar para cá. - pra ser honesto, eu também fiquei um pouco aborrecido.

  Sentei-me na grama na beira do rio, a margem era um pouco inclinada, mas de uma forma leve e regular, fazia um banco perfeito. Taehyung se sentou ao meu lado depois de alguns instantes.

  - Eu sei disso. - ele ainda fitava as águas. - Mas ainda posso desejar que fique em minha casa por mais um tempo.

  Não tive certeza se ainda falávamos sobre o rio.

  - Ah! Tae. - sacudi a cabeça - Acho que, se não fosse por você, eu já teria enlouquecido. Você tem sido um amigo e tanto. Se eu pudesse te contar tudo...

  Mas eu não podia. Não sem ir para um hospício logo em seguida.

  - Mas não pode ainda. - ele disse delicadamente. - Eu entendo. Não estou exigindo nenhuma explicação. Mas realmente gostaria que pudesse ficar um pouco mais. Acredita que o Senhor Hoseok realmente partirá em breve?

  - Eu espero que sim. - mas estranhamente, minha voz não tinha a convicção que deveria ter.

  - É tão ruim aqui? - perguntou triste.

  - Não é ruim. Apenas diferente. Eu nem posso usar minhas próprias roupas sem ofender ninguém! - sua sobrancelha arqueou minimamente. - Tem tanta coisa que eu queria que você conhecesse, coisas de que eu gosto e sinto falta, coisas que só existem lá.

  - Como o que? - a curiosidade estampada naqueles olhos negros e brilhantes.

  - Como o Jimin, meu melhor amigo, por exemplo. Nós nos conhecemos no colegio e desde então nunca mais nos separamos. Ou o JungKook, o namorado dele, quase marido agora. No começo, ele é meio difícil de engolir, mas depois que você se acostuma acaba gostando dele. - e por incrível que pareça, eu sentia falta dele também. - Ou o banheiro. É incrível, Tae, tem tudo nele, você apenas gira uma alavanca e a água sai quentinha. E tem a privada, é claro, muito útil e indispensável. E sinto falta do cinema, da música. Sinto muita falta da música... - depois de Jimin e do banheiro, era a coisa que mais sentia falta.

  - Como pode sair água quente de uma alavanca? - indagou espantado.

  - A água não sai da alavanca! - eu ri. - Ela apenas controla o fluxo de água que saiu do... ha... Descobriram um jeito de aquecer a água do banho, ela sai fria do cano e entra num aparelho chamado chuveiro. Se parece com... Com... um balde, só que, no fundo deste balde, tem centenas de furinhos. Não é bem isso, mas é quase isso! A alavanca serve para controlar o fluxo de água ou interrompê-lo e também para regular a temperatura. Então, quando se gira a alavanca, a água passa dentro do chuveiro que a aquece e sai na temperatura certa por estes furinhos. - difícil explicar o uso de um chuveiro elétrico para alguém que nem ao menos sabia o que era energia elétrica.

  - Parece que existem muitos cientistas nesse lugar. Acaba deixando isso aqui um século atrasado. - ele riu.

  - Dois! - corrigi, rindo junto com ele.

  - O que disse?

  - Nada.

  Precisava tomar cuidado com o que falava. Mas era tão fácil conversar com Taehyung.

  - Contou as seus pais, Senhor Yoongi? - ele pergunta me fazendo franzi as sobrancelhas. Do que ele está falando? - Digo, contou a ele sobre você... uh... ser gay.

  Oh!

  - Huhum... Foi bem fácil na verdade. Eles eram ótimos pais. - Falei e um sorriso surgiu em meus lábios. - Os melhores, na verdade.

  - E como eles reagiram?

  - Primeiro eles ficaram bem surpresos... - Claro, quem chega nos pais é diz: "Pai, Mãe... Então eu descobri que gosto de pau na minha bunda. Espero que respeitem isso"? Ninguém. Ou melhor ninguém em sã consciência. - Mas logo disseram que já suspeitavam. Até comemoraram. Ver se pode?

  Ele riu.

  - Imagino.

  - Aposto que brincou bastante neste rio quando era criança. - eu disse depois de um tempo em silêncio, e abraço os joelhos.

  Ele sorriu timidamente, mas acabou me respondendo.

  - Um pouco. Brincava escondido de minha mãe. Ela achava que esse tipo de brincadeira era coisa para os filhos dos criados. - um sorriso torto.

  Meu coração reagiu.

  - Mas você gostava. - deduzi.

  - Muito. Não há muitas coisas que um moleque possa fazer por aqui, se excluir nadar no riacho e atormentar os criados.

  Eu ri.

  - Mas não posso me queixar, minha infância foi boa. - ele continuou. - Muito diferente da que Hyuna teve. Nossa mãe morreu quando ela tinha apenas nove anos. Foi uma época muito difícil para ela. - ele arrancou o caule de uma plantinha ao seu lado e começou a retorcer nos dedos sem perceber.

  - Eu sinto muito. - sabia na pele o quanto era difícil perder os pais.

  - Passei o resto da minha adolescência tentado ajudar Hyuna. Era mais fácil quando ela ainda era criança. Agora, já não consigo ser útil em muitos aspectos.

  - Mas ela te adora! Qualquer um pode ver isso! - assegurei a ele.

  - Sei disso. Hyuna já sofreu muito, senhor Yoongi. Primeiro nossa mãe, mais tarde nosso pai. Sou tudo que sobrou da família dela. E ela da minha. Por isso farei o que for preciso para vê-la feliz! - Tae remexia o talinho com raiva, como se seus problemas pudessem ser enrolados e depois descartados como a planta.

  - Ainda bem que vocês tinham um ao outro. Quando meus pais se foram, fiquei sem ninguém. Se não fosse Jimin ou Jin, eu nem sei o que teria acontecido comigo. Fiquei tão sem rumo! Tão sozinho!

  - Sinto muito. - sua voz grave, intensa. - Deve ter sido muito ruim não ter ninguém.

  - Foi muito... péssimo! Teria sido bacana ter um irmão. - tentei sorrir, mas não o enganei.

  Ele ficou em silêncio por um tempo, seus olhos apenas analisavam meu rosto.

  - Quando aconteceu? - indagou em voz baixa.

  - Foi em dois mil e... Ha... Foi há cinco anos atrás. Eu tinha dezenove na época. Imagino que foi menos... Ruim do que foi para Hyuna, que ainda era uma criança.

  - Não acredito nisso. Não é uma situação fácil para ninguém, senhor. É uma pena que eu ainda não o conhecesse na época, gostaria de ter feito algo para amparar-lo.

  - Taehyung, você é a pessoa mais incrível que já conheci. - tentei sorrir para aliviar o clima. - E olha que já conheci cada figura! Mas obrigado por estar aqui agora. Depois da morte de meus pais, esta é, com certeza, a situação mais difícil que já enfrentei. E desta vez você está aqui!

  Ele sorriu um pouco. Mas seus olhos ainda estavam tristes.

  - Não fique assim, Tae. Se saiu muito bem com Hyuna e logo você terá uma nova família e tudo ficará bem... - um nó no meu estômago me fez parar.

  - Não, senhor Yoongi, não ficará bem. - ele baixou a cabeça e apoiou os braços no joelho.

  - Claro que ficará. Se você quiser, posso te ajudar a encontrar uma garota bacana. - meu estômago se revirou como se eu estivesse em uma montanha russa. - Você me diz do que gosta e eu te ajudo. De repente, você encontra alguém que gosta de verdade e acaba sendo muito mais feliz do que imagina ser possível.

  Ele ficou ainda mais triste.

  - Mas eu já encontrei, senhor.

  - Ja?

  - Sim. Mas não pode dar certo. - seu rosto desolado.

  - E por que não? - murmurei, ainda assim, minha voz tremeu.

  - Por que ele não pode ficar. - E me lançou um sorriso triste.

  E como dois imãs poderosos, seus olhos capturaram os meus, a intensidade deles fez meu coração voar. Minha cabeça girava como um liquidificador na potencia máxima, e respirar se tornou impossível. Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, minha atenção foi desviada para o barulho de patas pesadas. Procurei ver o que era ao mesmo tempo em que Tae se colocava de pé. Levantei-me também e corri para seu lado.

  - O que foi? - perguntei, quando vi a expressão preocupada em seu rosto.
Seus braços se estenderam em minha frente protetoramente, me empurrando um pouco para trás.

  Então eu vi Storm cavalgando feito louco em nossa direção.



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