História Espelho - Capítulo 9


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Tags Bts, Jikook, Kpop, Romance, Século Xix, Taegi, Vga
Exibições 103
Palavras 5.586
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Magia, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 9 - Storm & Casamento.



  Eu ainda não conhecia os estábulos, ficavam muito afastados da casa.

  Rústicos ate a essência, feitos de madeiras imperfeitas que se uniam desajeitadamente umas as outras.

  Enquanto nos aproximávamos, olhei ao redor, admirando a beleza do lugar. Era tão diferente do que eu estava habituado, sem aquela poluição de outdoors, letreiros, homem-sanduíche, cartazes, ambulantes vendendo cacarecos... Ali era tão calmo e - eu tinha que admitir - lindo.

  - Ouço dizer que você é a primeira pessoa que conheço que não fica entusiasmado com a menção da palavra baile. - Taehyung disse, parecendo aliviado.

  - Eu não sou muito de festas. Eu sou mais caseiro. Na verdade, deveria dizer escritoreiro, já que é de lá que eu não saio. Eu não gosto muito de balada, gente falando ao mesmo tempo, bebendo, fumando e contando piadinhas machistas. Ou pior ainda, cheias daquelas pessoas que tomam duas cervejas e depois se acham tão irresistíveis que acreditam ter o direito de dizer pra qualquer outra pessoa que nunca viu na vida as piores baboseiras imagináveis. - suspirei - Mas de shows eu gosto. Mesmo porque não dá pra ficar batendo papo num show, o barulho é ensurdecedor. Nunca me sinto deslocado num show. Tudo que é relacionado a música eu curto muito... Jimin me perturba por causa disso. Ele acha que eu não tenho vida, apenas trabalho e mais trabalho, e que nunca vou arrumar um namorado se ficar trancado em casa ou no escritório. Mas sabe, Tae eu não me sinto a vontade saindo com a galera. Parece que sou um alienígena que não se entrosa em lugar algum... - ele assentiu. - Sabe quando você sente que todo mundo te olha de um jeito diferente, tipo “O que ele tá fazendo aqui?" e depois fingem que estão interessados em ouvir o que você tem a dizer? Eu detesto isso! Prefiro ficar em casa. Mas gosto de sair com Jimin ou com Jin. Só que agora eles cismaram que eu... - vi um pequeno sorriso se espalhar em seu rosto. Eu ri. - Desculpe, Taehyung. Eu estou falando pelos cotovelos. É que é fácil falar com você. Não é estranho? Eu mal te conheço e já te contei coisas que muitos dos meus colegas de escritório não sabem.

  - Acho ótimo que pense assim. Aprecio muito sua companhia. Acho fascinante sua maneira de se expressar. - ele disse, olhando pra frente, mas sorrindo. - E também me é estranho preferir falar com uma pessoa que acabei de conhecer a falar com várias outras pessoas que conheço há muito mais tempo.

  - De onde eu venho se diz que o nosso santo bateu. - ele me encarou. - Quando duas pessoas se dão bem logo de cara, quero dizer, logo que se conhecem. E o meu decididamente bateu com o seu. - e sorri.

  - Então, acho que o meu também.

  - Que bom - sorri até ele olha pra mim com um semblante confuso.

  - Você disse algo... - ele começou. - Disse namorado no lugar de namorada.
  
  Oh!

  - Digamos que eu prefiro homem a uma mulher - disse e ele não pareceu surpreso como eu pensei que ficaria. Apenas sorriu e virou pra frente novamente. - Não acha errado?

  - Na verdade, não. Cada um tem seu gosto e você apenas gosta... - Ele pareceu esta procurando a palavra certa para dizer. - Você apenas gosta de homens... É seu gosto e eu respeito isso.

  Eu sorri. As pessoas realmente deveriam ser igual a Taehyung. Se fosse meu avô ele me mataria aquí e agora. Mas como não fica sabendo que seu único neto gosta de pau?

  - Obrigado por compreender. - Eu disse e ele sorrir.

  Ele ficava tão lindo sorrindo daquele jeito! Mas no que eu estou pensando?

  - Qual deles é a do cavalo do seu quadro? - perguntei, apontando com a cabeça para as baias. Havia uma dezena delas, talvez mais.

  - A terceira. - informou. - Dei a ele o nome de Storm. Significa...

  - Tempestade! - fiquei surpreso Inglês ja fazia parte do currículo escolar no século dezenove? - Você fala inglês?

  - Na verdade, leio melhor do que falo. Tive um professor de línguas que me forçou a aprender algumas delas. O inglês foi imposto por meu pai. Meu bisavó veio da Inglaterra. E meu pai não acreditava que era importante manter as raízes da família. O alemão foi mais difícil de aprender. Mas, uma vez que aprendo uma coisa, senhor Yoongi, não me esqueço mais.

  - Você só não consegue aprender meu nome. Estou começando a pensar que faz isso de propósito só para me irritar! - eu disse ainda muito espantado que ele soubesse (aparentemente) diversas línguas estrangeiras.

  - Não tenho mais desculpas para isso, senh... Yoongi - ele realmente tinha dificuldades para dizer apenas o meu nome. A única pessoa que ele chamava pelo nome era Hyuna. E ele a conhecia desde que nasceu.

  - Nossa, ele é lindo! - parei assim que cheguei a baia de Storm.

  Ele era tão bonito quanto no quadro. Mas ainda maior do que eu havia imaginado. Principalmente se comparado com os cavalos das baias a seu lado.

  - Também acho! O problema é seu temperamento! Nunca conheci um animal mais cheio de vontades que nem este! - ele ralhou, mas o sorriso em seu rosto era afetuoso.

  Eu, entretanto, conhecia alguns animais cheios de vontade. Meu avô, por exemplo.

  - Vou tira-lo dali para que o senhor possa conhecê-lo melhor.

  Taehyung parou ao lado da porta baixa, retirou seu casaco e gravata e os pendurou num prego, em seguida, arregaçou as mangas da camisa branca. Fez tudo isso com tanta naturalidade, como se fizesse isso todos os dias, que não pude desgrudar os olhos dele. Ele pegou uma corda e entrou na baia. Storm relinchou e recuou um pouco, mas o espaço não era grande o bastante para que pudesse escapar do laço preciso de Tae. Então, ambos, com extrema elegância, saíram marchando.
  Eu recuei um pouco. O quadro não mentia em nem um aspecto. Quase dava pra ler "encrenca" escrito nos olhos do animal.

  Taehyung o levou mais ao centro do estábulo, o bicho fez barulho, andou para trás diversas vezes, parecendo não gostar de receber ordens. E era imenso! Entretanto, Tae não se deixou vencer e, depois de um tempo, Storm ficou parado perto - mas não exatamente - de onde Taehyung queria.

  - Aproxime-se - disse ele. - Não tenha medo. Ele não vai machuca-lo. Não vou permitir que isso aconteça.

  Não me movi. Era mais fácil fala do que fazer.

  - Não tenha medo, os animais sentem o cheiro do medo, sabia?

  - É mais fácil dizer que não estou com medo do que não sentir de verdade. - respondi, encarando o cavalo selvagem.

  - Confie em mim. - Tae me fitou intensamente. - Acredita que eu permitiria que se aproximasse dele, a qualquer distância que seja, se houvesse a menor chance de que ele pudesse feri-lo?

  Dei um passo, hesitando. O cavalo não se moveu. Experimentei outro passo. Ele continuou parado, apenas respirando rapidamente. Lentamente, vacilante, me aproximei de Taehyung mantendo certa distância do cavalo.
Storm era ainda mais incrível de perto! Muito alto, muito negro, o pelo brilhante emanando toda a altivez que o cavalo visivelmente sentia. Era lindo demais! Seus olhos pareciam me avaliar, assim como os meus o avaliavam.

  - Ele é incrível. - fiquei hipnotizado por ele. Dei um passo a frente, tentando sentir o calor que a tela tinha me passado e sem pensar ergui a mão exatamente como fiz com o quadro.

  - Senhor Yoongi, não se aproxime mais. Storm não gosta... - mas eu já tinha meus dedos cravados no pescoço de Storm. Era muito quente, seu pelo tão sedoso quanto a própria seda. - ...que o toquem. - ele disse devagar, ligeiramente confuso, fazendo sua frase soar como uma pergunta retórica.

  - Você é lindo, cavalinho! - exclamei, não resistindo ao impulso de toca-lo com ambas as mãos. Ele era muito maior e, ainda assim, eu podia sentir a rígida musculatura sob seu pelo. Toquei sua crina embaraçada, deslizei minha mão e acariciei seu dorso. - Muito prazer, Storm. Me chamo Yoongi. Vi seu quadro agora há pouco, você é um modelo incrível! Muito especial.

   E, para meu espanto, quando minhas mãos voltaram para seu pescoço, ele inclinou a cabeça ligeiramente, como um cachorrinho, como se gostasse do meu toque. Tae arfou, surpreso. Me virei para vê-lo.

  Sua boca estava aberta, os olhos imensos.

  - Ta tudo bem? - indaguei preocupado.

  - Sim, esta. Na verdade estou... Pasmo. Storm nunca deixou ninguém toca-lo dessa maneira sem recuar ou relinchar ou... empinar. O que você fez? - e sua cabeça se inclinou ligeiramente para o lado.

  - Eu? Não fiz nada. Ou fiz?

  - Fez, sim. - ele sorriu abismado. - Você o conquistou!

  Virei-me para Storm e vi seus grandes olhos me observando. Não havia mais fúria ali, a altivez e a zombaria continuavam, mas não a fúria. Continuei a acaricia-lo um pouco mais. Ele parecia estar gostando de verdade. O longo rabo balançando pra la e pra cá.

  - Não é estranho - eu comecei, - que Storm seja mais gentil comigo que SooHyun? Claro que ele é muito mais esperto que ela, nota-se de longe! Mas ainda não entendi bem a razão de tanto cinismo.

  - SooHyun não gosta de muitas pessoas. É mais ficil enumerar as que ela admira, do que as que repudia.

  Repudiar. Aí estava a palavra certa para o que eu sentia nos rosto dela toda vez que olhava em minha direção. Como se eu não senti-se o mesmo.

  - Ja notei isso. Mas ela parece gostar de Hyuna - me virei para encara-lo. - E parece gostar de você também. Muito, na verdade.

  Ele sacudiu a cabeça, um pouco constrangido.

  - A senhorita SooHyun e Hyuna cresceram juntas. A família dela sempre foi vizinha da nossa propriedade. Por isso passa tanto tempo conosco. Hyuna e ela estudaram juntas, vão as compras juntas, fazem quase tudo juntas. As vezes me pergunto como Hyuna a tolera por tanto tempo? Não que eu não a estime, mas as vezes ela é um pouco... demais! - ele riu.

  Taehyung levantou a mão, se aproximou de Storm um pouco mais e, num único movimento, retirou a corda de seu pescoço, o libertando. O cavalo rapidamente saiu trotando.

- Vamos deixa-lo correr um pouco. e uma das coisas que ele parece gostar de fazer. Só é difícil fazê-lo parar depois.

  Eu o segui para fora do estábulo e apoiei meus cotovelos na cerca, assim como ele.

  - SooHyun me disse uma coisa... - eu comecei e depois parei.

  Não queria ser indelicado nem parecer abelhudo. Afinal, o conhecia há apenas um dia, não tinha direito de exigir maiores explicações. Mas a verdade é que eu queria saber mais sobre ele.

  Tae tirou os olhos da corrida em círculo que Storm fazia e se voltou para mim.

  - E o que a senhorita SooHyun disse que o deixou... que o deixou curioso? - ele não pareceu satisfeito com a palavra, que escolheu.

  - Eu não quero ser indelicado nem nada disso, mas... - era melhor perguntar de uma vez. Tipo arrancar um band-aid. - SooHyun disse que você está procurando uma esposa. - lancei um olhar furtivo em sua direção e, depois de notar o espanto estampado em seu rosto, voltei encarar Storm, que agora fazia meios círculos, mudando de direção a toda hora como um ziguezague. - Fiquei pensando o porquê disso. Por que não dá pra se obrigar a gostar de alguém, não é?

  Não ousei olhar para ele. Tentei ao maximo ouvir cada barulho que ele fazia. Ouvi um suave pigarrear e barulho de tecido se movendo.

  - Eu preciso me casar logo, minha irmã precisa de uma influência... - ele disse a palavra influência com amargura. - feminina. Eu preciso encontrar alguém que seja adequada. - disse, por fim.

  - Engraçado. - falei, ainda observando Storm. - Pensei que se procurasse amor num casamento.

  - O amor pode vir depois. O respeito, a admiração comum tanto quanto o amor, neste caso. - e se calou.

  Não consegui mais me segurar. Tive que me virar para ele. Lembrei dos meus pais naquela hora. Fiquei com raiva. Muita raiva.

  - Você se preocupa com a castidade e não dá a mínima para o amor? Sabia que casamento é uma coisa muito séria e que deve ser tratado com respeito? Um casamento já é difícil se os dois estiverem apaixonados, sem amor então, ja começará fadado ao fracasso. Você devia ser mais responsável! - senti a raiva crescendo dentro de mim e fiquei ainda mais furioso por estar sentido aquilo.

  - Estou sendo responsável, senhor Yoongi. Estou tendo o cuidado de escolher uma jovem decente e de boa família. - seu rosto sério, sem aquele brilho nos olhos. - Alguém que possa ocupar uma parte do lugar deixado por nossa mãe tantos anos atrás. Estou pensando no bem estar de Hyuna.

  - Escolher? Você fala como se estivesse comprando uma esposa! - retruquei secamente. - Está a tratando como um bem a ser adquirido. Uma mercadoria. Isso é repulsivo!

  - E acha que eu não sei disso? - sua voz diminuiu, praticamente um sussurro. Havia um tipo de amargura em seus olhos. - Mas prometi ao meu pai que cuidaria de Hyuna. E vou cumprir esta promessa. Mesmo que, ao cumpri-la, esteja condenando minha própria felicidade.

   Sua voz baixa e um pouco rouca e o tom melancólico me desarmaram.

  - Me desculpe, Taehyung. Eu não queria chatea-lo com assuntos desagradáveis. Só pense bem no que está fazendo. - continuei, louco para que a tristeza abandonasse seu rosto, e não entendendo o motivo de me sentir tão triste por vê-lo triste. - Você ainda é muito jovem. Não precisa se casar agora. Espere um pouco mais. Talvez acabe encontrando amor e... Adequação numa só pessoa. Dá um tempo. Pense melhor. - meu pé batia repetidamente numa tábua da cerca.

  - Eu gostaria que pudesse ser assim. Que pudesse ir ao meu ritmo. Mas Hyuna vai completar dezesseis anos em breve e precisara de uma mulher para ensina-la certas coisas.

  - Mas, se o problema é esse, então está resolvido. Eu posso ensina-la!  Posso explicar tudo que eu sei sobre como se fazem os bebês e como não cair na conversa de espertinhos e...

  - Senhor Yoongi! - ele me interrompeu, o tom reprovador me fez recuar. - Por favor, pare! Não é a isso que me refiro. Refiro-me a como ser uma boa esposa cuidar da casa, dos criados, essas coisas. Nenhum assunto sobre bebês ou coisa do gênero.

  Minha testa se enrugou.

  - Você acha que ela precisa saber sobre como comandar os empregados e que não precisa saber o que seu marido espera que ela faça no quarto? - que lugar era esse, afinal? -Sabe, Tae, você é muito estranho!

  - Sem querer ofendê-lo, Senhor, o mesmo se aplica a você! - mas seus olhos me fitavam com certa doçura.

  - Bem, se mudar de ideia...
 
  - Não mudarei. Mas obrigado por sua preocupação com minha... situação. - ele voltou a encarar Storm.
 
  Ficamos ali, os dois olhando para Storm. Eu podia jurar que seus pensamentos estavam tão longe daquele cavalo quanto os meus.

  - Com fome? - perguntou depois de um tempo.

  - Aprende uma coisa, Taehyung. Eu sempre estou com fome! - sorri, tentando aliviar o clima. Deu certo. Ele sorriu de verdade.

  - Vamos ver o que a Senhora Madalena nos preparou então.


(...)



  Passei o resto da tarde na companhia de Hyuna e SooHyun Participei pouco da conversa. Eu tinha a impressão de que Taehyung não queria que eu dissesse tudo o que pensava a Hyuna.

  Fiquei espantado com a postura das garotas. Elas se sentavam tão eretas que minhas costas doíam so de olhar. Minha mãe teria gostado disso. Endireite os ombros, Yoongi, ela disse durante toda a minha adolescência, mesmo percebendo que não surtia efeito algum.

  Os movimentos delas eram tão fraciosos, tão meticulosamente delicados, que acabei me sentindo um ogro desajeitado.

  Eu nunca, em toda minha vida, ouvi as palavras "delicado" e "Yoongi" usadas numa mesma frase. Geralmente era desajeitado, atrapalhado, desatento acompanhados por Yoongi. Essas sim, ouvi milhares de vezes. Contudo, nunca dei muita importância.

  E lá estava eu, afundado na poltrona como sempre, enquanto as duas pareciam se equilibrar na beirada do sofá. Meu corpo ja tinha memorizado a postura: encoste as costas no sofá, solte os ombros e se afunde, cruze as pernas. Cruzar os braços em caso de irritação ou frio.

  Eu não pertenço a este lugar. Se elas se comportassem do mesmo modo em 2016, seriam taxadas de esnobes. Tentei me convencer disso, mas não funcionou muito. Os movimentos delicados que Hyuna fazia para bordar um pequeno pedaço de tecido eram mais graciosos que qualquer gesto que eu pudesse fazer. Pensei que as mulheres acabaram ficando sem tempo para detalhes como esse.

  Depois do jantar fui ate a cozinha falar com Madalena

  - Eu queria te pedir um favor, Madalena.

  - O que quiser, senhor Yoongi.

  - Por acaso, não teria um pedaço de tecido sobrando por aí? - notei a curiosidade em seu rosto. - Algum tecido velho que eu possa usar para fazer uma... Coisa.

  - Na verdade, tem sim. Sempre precisamos de tecidos para fazer alguns remendos num lençol ou em uma roupa. Precisa de quanto?

  - Ah, só um pedaço pequeno basta.

  - Vou pegar meio metro então. - e me fitou com suspeita.

  - É mais que o bastante! Também vou precisar de tesoura. - acrescentei.

  - Claro. - ela se inclinou ligeiramente. - Voltarei num instante.

   Madalena me entregou o tecido bege e uma tesoura de ferro muito pesada. Corri para meu quarto. Estiquei o tecido sobre cama. Procurei a caneta em minha mochila, peguei minha cueca - minha única cueca - e a coloquei sobre o tecido.

  Risquei em volta da parte da frente, depois da parte de trás, sem interromper o desenho. Tracei fitas de dois dedos de largura nos dois desenhos. Peguei a tesoura e comecei a recortar.

  Meu Deus! Como é pesada! Também, parecia feita de metal fundido.

  Puxei algumas linhas soltas quando terminei e provei. O tecido não era de lycra, claro, então facilitava muito ter as tiras para o ajuste. Só esperava que não desfiasse muito!

  Dobrei o resto de tecido - sobrou mais que a metade - e o guardei dentro da comoda de madeira escura que combinava com a cama. Nenhuma das gavetas estava ocupada. Deixei a tesoura no aparador ao lado da banheira.

  Dessa vez, assisti o preparo de meu banho. Achei engraçado varios empregados com baldes cheios de água indo e vindo, Madalena com um balde enorme cheio de água escaldante tomando cuidado para que o pano que protegia sua mão não escorregasse. Tudo muito complicado para uma ação que eu estava acostumado ser tão simples.

  - Gostaria que eu voltasse depois para pegar sua roupa para ser lavada, senhor? - Madalena perguntou, prestativa como sempre.

  - Será que secará até amanhã? - bem que estava precisando ser lavada. Eu o estava usando há dois dias! - Vou precisar da roupa para ir até a vila amanhã.

  - A noite está bastante quente. Acho que secará a tempo.

  Fechei a porta e tirei a roupa.  Quando o entreguei a ela, notei seu rosto vermelho.

  - Madalena, você não precisa ficar envergonhada. - ela assentiu. E, mais depressa do que eu imaginei que fosse possível, saiu do quarto.

  Descobri que o conteúdo do vidro ambar era algo parecido com xampu. Na verdade, mais parecido com detergente de cozinha que xampu, mas fez bastante espuma e pareceu limpar bem minha cabeça. No entanto, deixou meu cabelo um pouco espigalhado. Não encontrei condicionador.

  Depois de me vestir - com alívio, com minhas próprias roupas - saí para procurar por Tae. Entretanto, não foi necessário. Ele estava ali, com a mão ainda erguida para bater na porta quando eu a abri.

  - Taehyung, precisava mesmo te encontrar! - exclamei satisfeito.

  - E eu também. - ele riu parecendo satisfeito com minha euforia por vê-lo ali. Depois seus olhos percorreram meu corpo e um vermelho intenso se espalhou em seu rosto. - Por que está vestido assim?

  - Madalena ta lavando minha roupa. Ou uso estas roupas ou roupa nenhuma. - avisei. Imagine se eu estivesse dormido apenas de cueca. Seria um caos.

  Ele ficou desconcertado.

  - Mas, senhor...

   - Você ja me viu com elas, não precisa ficar todo estranho por causa disso. É só uma regata e uma bermuda. Totalmente inofensivos. Agora entre logo que eu quero falar com você.

  Taehyung pareceu relutante.

  - Algum problema? - perguntei.

  Sua cabeça se inclinou um pouquinho para frente enquanto ele me dizia:

  - Não é adequado que eu entre em seu quarto, senhor. Ainda mais durante a noite e com você... vestido com estes trajes.

  Ah! Pelo amor de Deus! Parece que eu vou ataca-lo a qualquer momento!

  - Deixa de ser tão antiquado, Taehyung. - alcancei seu braço para dentro. - Vou deixar a porta aberta, está bem? Não vou te atacar. - brinquei.

  Ele não riu. Mas acabou se deixando arrastar, só um pouco. Dois passos depois ele disse:

  - A Senhora Madalena me procurou há pouco. Disse que o senhor precisa de algumas roupas e eu gostaria de ajuda-lo, mas creio que terá que esperar até amanhã de manhã. Com certeza, madame Georgette terá alguma roupa que sirva em você.

  - Por isso mesmo queria falar com você. - Fui até minha bolsa e peguei minha carteira. - Você ja viu algumas destas?

  Estendi a mão para que ele pegasse as notas.

  - Não. Nunca. O que são? - ele examinava o dinheiro atentamente.

  Não dava para acreditar!

  - São notas de dinheiro. - expliquei desanimado - Você usa para comprar coisas...

  - Sei o que é dinheiro, senhor Yoongi. Apenas nunca vi um que fosse feito de papel. Não deve ter valor algum.

  - Tem muito valor! Cada uma vale mais que as outras. Veja, o número impresso nela determina seu valor, o número maior é para a que vale mais e...

  - Você não usa moedas? - perguntou surpreso.

  - As vezes, para pequenas coisas. Elas não valem muito. - daí entendi. - Vocês usam apenas moedas, não é?

  Ele assentiu e aproximou a nota de seu rosto para examina-la melhor.

  - Então, eu tô liso! - com certeza a Mastercard não teria colocado uma máquina de cartão de crédito no atelier da madame sei-la-oque. - Como é que eu vou pagar pela a roupa amanhã? - eu disse, mais para mim mesmo.

  - Isso deve bastar. - Taehyung tirou do colete três moedas douradas e estendeu a mão para que eu as pegasse. Peguei as moedas automaticamente. Olhei para elas por um minuto, tinha uma coroa desenhada em alto relevo e depois estiquei a mão para ele.

  - Não. Não posso aceitar. Você ja tem feito muito me hospedando em sua casa e me alimentando. Não posso aceitar seu dinheiro também.

   Ele apenas me encarou. Os olhos obstinados

  - Guarde isso, Tae. Eu não quero. - estiquei teimosamente o braço. Ele não fez movimento algum. Então eu fiz. Aproxime-me dele e, como ele não se deu ao trabalho de me estender sua mão, a agarrei e coloquei as moedas dentro dela.

  - Senhor Yoongi, por favor! Ira precisar de um terno para o baile. E, apesar da roupa que eu lhe emprestei destacar sua beleza, esta muito claro que não pode ter apenas um. - ignorei o elogio. Ele apenas tentava me convencer a aceitar o dinheiro. - Você não sabe quanto tempo ficara aqui. Não pode passar todo o tempo apenas com uma roupa.

  - Eu me viro. - dei de ombros. - E tenho minhas próprias roupas.

  - E acho que deveria guarda-las... - ele sacudiu a cabeça e não continuou.

  - Obrigado pela preocupação. Ta vendo? Você está se preocupando comigo sem ter nem uma obrigação pra isso. Eu já estou te incomodando demais! - então, de repente, tive uma ideia. - Mas talvez eu possa vender alguma coisa!

  - Não lhe restou nada! Vender o que? - ele não gostou da minha ideia, tive certeza disso.

  - Ainda não pensei nessa parte. - e corri para minha mochila. Tinha que ter alguma coisa ali que tivesse valor.

  Joguei o conteúdo dela sobre a cama e me ajoelhei no chão, procurando por alguma coisa que pudesse interessar a alguém naquele lugar atrasado. Tirei o celular, a carteira, o fone de ouvido, o carregador, o notebook, o espelho e a caixinha com o cola de minha mãe - não poderia vendê-los por diferentes razões - e remexi em minhas coisas. Minhas únicas coisas, tentando encontrar qualquer objeto que pudesse ter algum valor.

  Taehyung se aproximou da cama, olhando minha bagunça com curiosidade.

  - O que é isto tudo? - indagou.

  - É tudo que tenho na vida agora. - eu disse, desanimado. - Está vendo algo que possa ter valor? Que alguém possa se interessar para eu tentar vender amanhã lá na vila?

  - Humm... - resmungou. - Não sei bem. Nunca vi nem uma destas coisas antes.

  Podia acreditar nisso.

  - Vejamos... - comecei a espalhar melhor meus pertences.

  As minhas chaves? Pra quê alguém iria querer as chaves de um apartamento localizado dois séculos adiante? Salgadinhos? Não, depois eu como. Camisinha? Talvez. Sempre útil. E eu podia apostar que ainda não haviam inventado o preservativo no século dezenove.

  Virei-me para perguntar para Tae o que ele achava, apesar de não ter a menor ideia de como explicar o uso dela, ja que ele não reagia bem quando o assunto era sexo. Tive esperanças de que, se ele apenas lesse a embalagem conseguisse entender. Só então me dei conta de que ele estava bem ali, agachado como eu, com minha Bic nas mãos.

  - O que é isso? - perguntou, examinando a caneta de todos os ângulos.

  - É uma caneta. Você usa para escrever. - Assim, tomei a caneta de suas mãos e fiz alguns rabiscos num pedaço de papel. - Não me diga que ainda não tem caneta aqui?

  - Não, não tem! - ele olhava fascinado para minha caneta simples comprada no supermercado - Usamos pena e tinta para escrever.

  - Ah! É quase igual. Só que ao invés de mergulhar a ponta da pena na tinta, a caneta já vem com a tinta dentro. Veja. - apontei o cartucho quase negro dentro do cilindro transparente e a devolvi para ele. - Deve ser mais prática, eu imagino.

   - É fantástico! - Tae exclamou. - Uma invenção maravilhosa! Como não pensei nisto antes! - seu rosto ficou ainda mais lindo com o sincero entusiasmo. - Que material é este? Se parece com vidro, mas não é gelado!

  - É plástico. É tipo um vidro só que mais resistente. Não vai quebrar se cair no chão, por exemplo. - não dava pra explicar que plástico era um derivado da nafta, um polímero que bla, bla, bla... Só complicaria mais a cabeça dele. - Acha que alguém pode se interessar por ela?

   Tae estava completamente fascinado com a caneta. A olhava como se fosse uma joia rara.

  - Sim. Quanto quer por ela? - indagou, se virando pra me encarar.

  - O que? - apertei os lábios.

  - Eu a quero. Quanto quer por ela? Estou disposto pagar qualquer quantia! - seus olhos brilhavam como duas estrelas.

  Percebi o que ele estava fazendo.

  - Não posso vender pra você! - disse com certa indignação.

  - E por que não? Meu dinheiro é tão bom como o de qualquer outro. - disse ele, ofendido.

  - Eu sei disso, Taehyung. Mas você só está tentando me ajudar. Outra vez! Eu não quero que faça isso. - fiquei desconfortivel com a situação.

  - Não é isso, senhor Yoongi. Eu realmente quero a caneta. e maravilhoso! - ele pegou a mesma conta de telefone e experimentou um risco. - Olhe! - mais alguns traços. - e extraordinaria! Sem manchas ou borrões. Seria muito útil, principalmente com os livros da contabilidade.

   Observei seu rosto por um instante Os olhos brilhavam e um sorriso entusiasmado o deixou ainda mais lindo. Era como se ele tivesse acabado de encontrar o maior tesouro do planeta.

   Sacudi a cabeça e então comecei a rir. Quem dera as pessoas fossem assim tão fáceis de agradar como Taehyun era!

   - Tá bom, então é sua. - eu ainda ria. Ele sorriu radiante e botou a mão no bolso. - Ah! Não! Pode guardar estas moedas. Eu não vendi, eu te de a caneta. Pode pega as duas se quiser.

   - Mas não posso aceitar, senhor. Vejo que não tem muitos recursos no momento e este invento vale algumas moedas com certeza, seria injusto tirar-lhe este objeto de grande valor.

  Grande valor! Não custou nem dois reais!

  - Mas eu quero te dar as canetas... - ele sacudiu a cabeça antes que eu pudesse terminar. Tentei outro caminho. - Como um presente! Um presente de agradecimento. Por toda a ajuda que tem me dado. Você não vai me ofender recusando a única coisa que posso te oferecer neste momento, vai?

  Ele parecia relutante.

  - Não quero ofendê-lo, senhor, mas...

  - Então, não me ofenda. Aceite, por favor. Gostaria de ter algo realmente bacana pra te dar Tae, mas no momento to meio sem opções. - eu sorri, meio envergonhado

  Ele também sorriu, ainda que os olhos não. Ainda estava contrariado

  - Muito obrigado pelo presente. É estupendo! Não creio que pudesse me dar algo que eu apreciasse mais. - então, de repente, uma chama faiscou em seus olhos. - E, se me permite, também quero lhe dar um presente.

  Meu sorriso desapareceu. Eu sabia exatamente quais seriam suas próximas palavras.

  - Você aceitaria roupas como prova de minha amizade não aceitaria? Não me ofenderia recusando um presente meu, ofenderia? - pude ouvir o leve triunfo em tom. Ele jogava sujo.

  Estreitei meus olhos.

  - Não. - disse derrotado - Pode pagar a droga da roupa!

  - Excelente. - ele sorriu vitorioso, pegando as moedas outra vez.

  - Taehyung, se não quiser engolir estas moedas é melhor guarda-las de novo. - resmunguei carrancudo

  - Precisará delas amanhã. Você já aceitou as roupas - exclamou confuso.

  - Roupas, não dinheiro. - expliquei secamente. - Não sei como funcionam as coisas por aqui, mas, de onde eu venho, não é muito lisonjeiro quando uma pessoa da dinheiro a outra pessoa que não é sua. Estou sendo claro?

   Ele corou.

  - Muito! Perdoe-me, não tive a intenção...

  - Eu sei que não teve. - eu o interrompi, ainda aporrinhado com a ideia de que ele me comprasse coisas.

  - Entregarei a Hyuna então. - disse inseguro.

  - É melhor. - resmunguei ainda insatisfeito. Por que me incomodava tanto o fato dele querer me dar dinheiro?

   - Vou deixa-lo descansar. Vemo-nos pela manhã. - Taehyung se levantou esticando a mão para me ajudar.

   Aceitei o apoio e me levantei também assim que olhei em seu rosto na intenção de agradecer, perdi o fôlego. Ele estava mais perto do que eu havia imaginado. Perto o bastante para que eu pudesse ver pequenos pontos prateados brincando em suas íris negras. Fiquei ali parado olhando pra ele como um idiota. Tae me encarava também, e só depois de alguns segundos percebi que ainda segurava sua mão. Tentei puxar minha mão, mas ele a prendeu um pouco mais forte, não permitindo que eu o soltasse, então se inclinou - ainda me encarando e, muito delicadamente beijou as costas de minha mão. Um tremor desconhecido reverberou por minha coluna. Senti minhas bochechas arderem e todo meu copo se arrepiar.

  - Boa noite, senhor Yoongi. - sua voz baixa e rouca, os olhos não deixaram os meus um só instante.

  Outro arrepio.

  - Boa noite. - baixei os olhos, tentando esconder meu embaraço e as sensações novas e estranhas que ele havia provocado em mim. O que estava acontecendo comigo?

   Taehyung sorriu e depois saiu fechando a porta atrás de si.

   Continuei ali parado, feito uma estátua, olhando para a porta, minha mão pinicando pelo seu toque gentil e pensei se, talvez, eu não tivesse enlouquecido de vez.

  Eu sabia que voltaria para casa - não sabia como, mas acabaria descobrindo - e que aquelas pessoas, todas elas, incluindo Taehyung, não. Eles ficariam onde deveriam ficar, no lugar ao qual pertenciam. Eu não podia me envolver emocionalmente com nenhum deles. Quando eu voltasse para o meu tempo, todos já estariam...

  Senti meus joelhos tremerem. Não gostei de pensar nisso. Não gostei mesmo! Mas era a verdade. E eu não me apaixonava desde... Não que eu estivesse apaixonado por Taehyung. Eu não estava! Mal o conhecia! Mas alguma coisa nele mexia comigo. Uma coisa que eu não sabia explicar, nem para mim mesmo.

  Então, sabendo disso tudo, o que eu estava fazendo? O melhor seria dar o fora dali. Mas para onde eu iria? Dormir na rua e morrer de fome? Teria que ficar com Tae por enquanto. E teria que manter meus pensamentos bem longe dele. Fui para a cama - usando apenas a cueca improvisada - e decidi que me manteria afastado de Tae o máximo que conseguisse. Se é que eu conseguiria.


Notas Finais


Gostaram??


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...