História Eu, Meu Noivo Seu Crush - Capítulo 22


Escrita por: ~

Postado
Categorias Percy Jackson & os Olimpianos
Personagens Jason Grace, Nico di Angelo, Thalia Grace, Will Solace
Tags Nicalia, Nico Di Angelo, Romance, Thalia Grace, Thalico
Exibições 193
Palavras 5.391
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Comédia, Escolar, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Spoilers
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Oi pessoas,
Primeiro tenho que agradecer à Dama do Poente porque, sem ela, esse capítulo não teria sido postado hoje (ou essa semana). Ela me ajudou em tudo: Com falas, editando, com a tirinha, com dicas sobre o que acrescentar, enfim, tudo! Principalmente motivação, me fez até voltar com as tirinhas (que deu erro e tive que refazer </3). Por isso, esse capítulo é dedicado à Embaixadora do Team Pipopinha!
Segundo: Mil perdões por não estar respondendo aos reviews, eu estou muito enrolada com a faculdade, mas assim que passar essa temporada de provas/trabalhos eu vou responder! Desculpa!
Ademais, boa leitura!

Capítulo 22 - Criança


Fanfic / Fanfiction Eu, Meu Noivo Seu Crush - Capítulo 22 - Criança

Narração: Narrador Onisciente

 

O último vestígio de autocontrole desapareceu de Nico di Angelo quando este se encontrava no banheiro masculino do Acampamento Meio-Sangue, com seus dois melhores amigos nos boxes ao lado, tentando lavar cada gota de sangue que, além de lhes manchar o corpo, estavam impregnadas na alma. Felizmente, Nico já estava vestido com uma cueca box quando começou a agir como uma criança, e, como uma criança, seu maior objetivo era justamente não vestir roupas.

Em um perigoso corre-corre no banheiro ensopado e escorregadio, Will e Jason conseguiram, com muito custo,  intercepta-lo e enfiá-lo em uma calça de pijamas, antes de puxá-lo para o chalé treze.

Aliás, o local estava em um estado muito melhor do que quando foi deixado pelos rapazes: Thalia havia de se livrado de todos os lençóis, cobertores e travesseiros manchados, voltado a cama para o lugar certo e só faltava lavar o chão, que não estava em um estado tão crítico. Hazel havia ajudado, mas interrompeu a tarefa para enviar uma mensagem de íris urgente para Reyna, antes que a pretora chegasse para um funeral que não aconteceria.

Quando os três garotos voltaram extremamente molhados e cansado — com exceção de Nico, que parecia ligado em 220 volts —, Jason e Will se jogaram nas camas desocupadas do chalé, sem conseguir explicar por que o Di Angelo estava sem camisa exibindo as novas cicatrizes na pele pálida ou porque ele não parava de puxar o cordão da calça, reclamando que estava com calor e queria se despir.

— Alguma ideia do porque ele está agindo assim? — Thalia questionou, ao ver Nico se deitar ao lado do irmão dela e o apertar, como se ele fosse seu ursinho de pelúcia. Na verdade, “ursinho”, “fofinho”, “fica quieto” e “ursinhos não se mexem”, eram as únicas coisas que ela conseguiu entender na infinidade de palavras que o garoto balbuciava.

Thalia pensou seriamente em intervir, deixar o irmão descansar, mas a julgar pelo sorriso dele, não era necessário. Para relatar veridicamente, Jason até estava gostando, ajudava sua mente a realmente acreditar que Nico estava ali, que estava vivo. Além do mais, o Di Angelo estava sorrindo e demonstrando afeto, tudo o que era guardado a sete chaves por trás da fachada sombria. E a alegria do filho de Hades era uma das coisas que fazia o Grace acreditar na humanidade, acreditar que a vida sempre pode melhorar, que todas as dificuldades podem ser superadas. O sorriso verdadeiro de Nico significava esperança para Jason.

— Parece algum tipo de alucinógeno. — Will resmungou, lutando para manter os olhos abertos. Ele nunca havia se sentido tão cansado durante toda a sua vida, seu corpo pedia por descanso, mas o Solace tinha medo de que, assim que conseguisse a inconsciência, sua mente fosse inundada por pesadelos dele se afogando no sangue de Nico.

Mesmo que não admitisse para si, ele não queria adormecer com medo de que algo sério acontecesse com Nico, que o garoto começasse a passar mal ou sangrar novamente  — ou pior, que o assassino, que Will ainda desconfiava ser Apolo, voltasse para terminar com o trabalho — e Will não estivesse ali para salvá-lo. Ele nunca havia se preocupado tanto com a morte de alguém, nunca havia se desesperado tanto, nem quando foram os corpos dos seus irmãos que ele teve que fechar os olhos depois das batalhas. Não havia machucado tanto. Isso assustava o Solace.

— Que palavra estranha! Alu… Alu… — Nico tentou dizer gargalhando antes de começar a falar uma infinidade de palavras em italiano que ninguém entendia.

— Tem algo que eu possa ajudar? — Thalia perguntou, suprindo o instinto de jogar uma manta sobre Will e cantarolar até que ele pegar no sono. Ela se sentia culpada ao ver o estado dos três, da mesma forma como se sentiu culpada quando Nico expirou.

Ainda estava vivo em seu peito todo o terror que sentiu quando viu Nico cair de joelhos e tudo o que ela podia pensar era em como aquele era um golpe muito baixo dos deuses. Quando o Di Angelo estava deitado em seu colo, Thalia só conseguia pensar em como ele havia dito que ela era tóxica, que tudo o que ela tocava se destruía. Era irracional, mas ela não conseguiu parar de pensar em como seu irmão estava bem mais feliz antes dela chegar no acampamento, assim como Nico parecia em paz e completo até tomar conhecimento dos planos dos deuses.

Não era culpa de Thalia, mas ela se sentia responsável de uma forma tão grande que não se sentia digna nem de fechar os olhos de Nico quando todos os resquícios de vida haviam deixado seu corpo, ela só conseguia afagar os fios negros, como se esperasse que ele voltasse a vida e se afastasse, reclamando do contato físico. A Grace nunca admitiria, mas enquanto via os esforços inúteis de Will para deixar Nico vivo, ela só conseguia rezar aos deuses que tudo não passasse de um sonho.

— Não. — A voz do Solace ressoou pelo chalé, tirando Thalia dos seus devaneios. — Talvez eu pudesse fazer alguma coisa, mas no momento não estou em condição de ajudar nem com uma simples gripe. — Como testemunha de sua palavras, Will bocejou, se aconchegando mais na cama que parecia empoeirada, devido o desuso. — Mas obrigado.

Ele resmungou, fechando os olhos e Thalia se sentiu pior ainda: Ela não deveria ser agradecida, fora a culpada pela morte do garoto. A filha de Zeus assentiu, apenas encostada na soleira da porta. Tudo o que mais queria era sair dali e nunca mais ver Nico di Angelo, contudo, a julgar pelo estado quase zumbi dos amigos dele, ela estava responsável por cuidar do garoto que agia como uma criança, com o dedo na boca e cantando em italiano, ao lado de um Jason que parecia ter pegado no sono.

Thalia respirou fundo, sentindo dor na altura da costela — provavelmente estava lesionada — que lhe fez exibir uma careta. Ela se sentia tão dolorida fisicamente quanto emocionalmente: Os arranhões causados por Mirah continuavam a doer, bem como todos os hematomas espalhados pelo corpo da morena. Já estava quase indo a procura de néctar e ambrósia, quando Hazel entrou no chalé, trazendo várias guloseimas nos braços, sendo seguida por Annabeth e Percy.

— Desculpe a demora, é um pouco difícil contrabandear comida uma hora dessa, mesmo no chalé de Hermes. —  Hazel se desculpou, enquanto o casal corria até Nico que tentava não rir enquanto fingia dormir ainda fazendo Jason de ursinho.

Percy se ajoelhou ao lado da cama, sentindo um aperto no peito. Seus olhos estavam vermelhos — foi só quando ele se retirou com Annabeth para ajudá-la com a mortalha que ele se permitiu chorar — e ele tentava a todo custo racionar: ele viu Nico morto e agora o menino estava ali a sua frente, abrindo um sorriso tão similar ao que ele havia visto há sete anos.

— Nico? — O Jackson chamou em voz baixa, fazendo o menino abrir os olhos surpreendentemente escuros. Apesar das pupilas dilatadas, ele olhou para Percy com a mesma contemplação da primeira vez, como se estivesse vendo um dos seus super-heróis tomar forma. Mas não havia qualquer traço de romantismo, era apenas como se o Filho de Poseidon lhe trouxesse confiança; E Percy se sentia mal por isso, mal por não estar ao lado de Nico sempre que ele precisava, por ter passado tanto tempo se dedicando a ter uma vida normal, que, às vezes, deixava seus amigos de lado.

— Você já aprendeu a surfar?¹ — Nico perguntou com uma voz doce, fazendo Percy rir nostálgico.

— Como ele está? — Annabeth perguntou, observando o namorado responder as perguntas infantis do Di Angelo, com uma calma e atenção que quase a surpreendeu.

— Agindo como uma criança. — Thalia suspirou, quando nem Will nem Jason se pronunciaram. — Mas parece bem. Pelo menos, fisicamente, levando em conta tudo o que aconteceu, claro.

— O que acontece se ele não melhorar? — Hazel questionou, tirando alguns pacotes de biscoitos de dentro das sacolas.

— Vamos ter um Nico mais bipolar que o normal. — Will resmungou, ainda de olhos fechados, mas se forçando a levantar quando a Levesque ofereceu uma caneca de café para ele.

Annabeth suspirou e se afastou da cama para ajudar Hazel, deixando Percy ainda conversando com Nico sobre coisas aleatórias. Poucos minutos antes de Hazel aparecer no chalé de Poseidon exasperada tentando explicar que Nico estava vivo — Tudo bem, eles já haviam visto um par de semideuses burlar a morte: Hazel, Leo, Gwen, Sísifo e até Dédalo; Mas isso nunca se tornaria normal, mesmo porque as portas da morte estavam fechadas naquele momento. —, Annabeth tentava consolar o namorado que parecia arrasado, como se tivesse perdido um irmãozinho. Ela sabia que os dois haviam se tornado amigos no ano depois da Guerra de Gaia, amigos de verdade, e a morte do garoto mexeria com Percy.

— Pode ser só a mente reagindo ao choque. Só temos que esperar. — A filha de Atena opinou tentando soar positiva, fazendo com que Will revirasse os olhos pensando: “Acho que eu sou o médico aqui.”.

— E ficar de olho nele. — Hazel completou, vendo o irmão resmungar quando Jason se desvencilhou dele para se sentar e comer biscoitos.

— Eu quero chocolate. — O menino Di Angelo² afirmou categórico, levantando-se da cama e olhando suplicante para Hazel.

— Tudo bem! — A Levesque falou assustada, entregando uma barra Hershey ao irmão. Ela não sabia quantas vezes havia pedido aos deuses que devolvessem o apetite de Nico, ou quantas vezes haviam chegado perto de discutir por ele se sentir enfartado com uma única uva. Era quase um sonho ele pedir por comida.

Hazel não sabia dizer quando realmente começou a amar e se importar com o irmão, ela só sabia que o amava como se tivessem crescidos juntos, ele era sua família e porto-seguro, em quem sabia que podia confiar acima de tudo. Ela realmente havia se preocupado com Nico quando ele se arriscou pulando no tártaro — mesmo com toda a fé que tinha nele —, principalmente ao saber que ele havia sido capturado.

Mas em nada isso havia se comparado a dor e pavor que a tomou quando sentiu a presença de Thanatos. Agora que ele estava vivo novamente, ela faria o possível para protegê-lo da mesma forma com que ele fazia com ela. Não se importaria com os resmungos e as brigas quando ela insistisse que ele deveria comer mais, sair mais do acampamento, abraçar e sorrir mais. Ela faria o possível para que seu irmão ficasse bem e feliz, mesmo que não pudesse ficar o tempo todo com ele. Mesmo que isso significasse começar o entupindo de doces.

Nico a recompensou com um sorriso muito semelhante ao da infância ao aceitar o doce, fazendo com que Hazel retribuisse da mesma forma, os olhos castanhos quase lacrimejando ao vê-lo rasgar a embalagem antes de morder um pedaço grande o suficiente para mal caber na boca.

— Não sei vocês, mas estou preferindo essa nova versão. — Percy murmurou nostálgico, vendo o garoto se lambuzar com chocolate. — Bom, desde que ele não comece a falar de mitomagia, é claro.

Uma lembrança enevoou a mente de Thalia, uma memória tão confusa quanto velha, de sete anos atrás: Ela se lembrou de quando encontrou Nico pela primeira vez. Na época, não havia prestado muita atenção no menino tagarela, estava concentrada demais em se preocupar com Annabeth, querer bater em Percy e odiar as caçadoras; Ela só se lembrava de achar que ele tinha um sorriso bonito para uma criança, e que tudo o que ela menos queria era ficar perto dele, afinal, Nico era o irmão de uma caçadora e tudo o que Thalia menos queria era se envolver com algo relacionado as seguidoras de Ártemis.

Mesmo que esse algo fosse um menininho inocente e fofinho, que os instintos de irmã mais velha de Thalia a fizesse querer apertá-lo, enrolá-lo no cobertor e niná-lo até que ele adormecesse. Contudo, Nico não era mais aquele menininho, mesmo que sua mente estivesse fazendo com que ele agisse dessa forma naquele momento.

"Crianças não são fáceis de cuidar, principalmente meio-sangues, e Jason não fugiu à regra na infância, prova disso foi quando ele tentou saborear um apetitoso grampeador.” Era o que Thalia pensava, enquanto assistia um Nico irritado batendo os pés no chão e pedindo para Hazel deixá-lo se entupir de néctar. “Quando ele foi tirado de mim há dezoito anos, eu imaginei que jamais voltaria a cuidar de crianças, mesmo quando conheci Annabeth poucos anos depois — Aos sete anos, ela às vezes agia menos como uma criança do que eu. —. Por isso, é uma enorme surpresa agir como mãe em uma das noites mais turbulentas da minha vida, principalmente porque minha criança é mais de sessenta anos mais velho que eu."

Ao perceber que todos pareciam surpresos ou cansados demais para intervir enquanto Nico implorava pelo copo com a bebida dos deuses, ela decidiu tomar a frente, principalmente ao ponderar as reações de Nico ao ouvir um “não” como resposta. Thalia sabia que dois roteiros poderiam ocorrer: Ou ele começaria a chorar, ou tentaria pegar à força; De qualquer forma, ambas eram realmente ruins para deixar a Levesque enfrentar sozinha.

— Não. — Thalia falou com a voz firme, se colocando à frente de Hazel e usando o seu melhor tom mandão. — Você não pode agora.

Todos estavam estáticos com a cena, imaginando que Nico perguntaria o porquê de não poder, mas se surpreenderam mais quando ele começou a chorar. Não um choro de criança, com berros, gritos e reclamações, mas um choro silencioso, apertando os lábios e deixando as lágrimas desceram pelas bochechas pálidas. Thalia ficou tentada a abraçá-lo, mas sabia que não era assim que devia lidar com crianças.

— Por que você não gosta de mim? — Ele perguntou com a voz trêmula e Thalia se sentiu estremecer. Esse era o problema das crianças: Eles só falavam e questionavam o que realmente acreditavam, e se Nico estava questionando o motivo disso, era só porque ela deixou a entender. A última discussão dos dois lhe voltou à mente, quando ele disse que não a odiava, e ele até estava tentando fazer com que ela desse uma chance de se envolver com Jason, mas Thalia se sentia magoada demais pelas palavras dele, principalmente ao relembrar a conversa que ouviu por acaso entre Nico e Will no qual o primeiro afirmava não gostar nenhum pouco dela, para poder agir racionalmente e ponderar os argumento dele.  

Agora que ele lhe perguntava isso, Thalia só podia pensar que não era como se ela não gostasse dele, era apenas que todas as histórias que tinham em comum eram tristes e eles mal se conheciam, as poucas conversas civilizadas que haviam tido ocorreram nesses três dias que ela estava no acampamento, em que ela foi manipulada pelos deuses para acreditar que Nico sabia sobre o casamento, o que a levava a não confiar nele de maneira. nenhuma.

A Grace somente engoliu em seco enquanto o silêncio se prolongava, pensando em uma resposta e rezando para que alguém interviesse. Por fim, o garoto pareceu perder o interesse na pergunta, ao avistar um tecido negro dobrado sobre a cama.

— O que é isso? — Ele perguntou, mas já avançava na direção, como um peixe atraído por objetos brilhantes (ou Percy por problemas), os dedos pálidos desenrolando o tecido e exibindo a frente tecida com fios negros e prateados, um elmo tomando forma com a tonalidade mais clara.

— Hum… Sua mortalha. — Annabeth murmurou com a boca seca. Ela havia passado algumas horas manipulando fios, dando o seu melhor para criar algo digno do seu amigo, mesmo que ela odiasse tecer e que o motivo fosse triste.

— É capa do Batman! — O Di Angelo a ignorou, segurando a mortalha sobre os ombros. — Eu sou o Batman!

Antes que qualquer um pudesse dizer o contrário, Nico começou a correr pelo chalé, segurando sua “capa” e cantando “na na na na na na na na na na na na na na na na, Batman!”

— Nós deveríamos fazer alguma coisa sobre isso? — Percy parafraseou os pensamentos dos demais, olhando para o garoto que se escondia atrás dos móveis antes de pular e voltar a correr, cantando.

— Vamos, Aquaman! — Ele gritou alegre para Percy. — Temos que salvar o mundo! Levante-se Superman! — Ele puxou a mão de Jason, mas, ao ver que com isso o tecido escorregava de seus ombros, desistiu. — Somos a Liga da Justiça!

Ele parou em frente a Thalia, os olhos brilhantes e um sorriso quase enfeitiçado, fazendo com ela desse um passo para trás, incomodada e quase assustada.

— Mulher-Maravilha! — gritou, a abraçando de maneira apertada. Thalia olhou assustada para os amigos, que retribuíram inutilmente da mesma forma confusa, Annabeth a motivando dizendo “abraça” e a Grace acabou se deixando vencer, envolvendo a cintura  de Nico aos poucos.

— Você não tem cheiro de árvore. — Nico deitou a cabeça no ombro dela rindo Thalia tentou ao máximo ignorar a vermelhidão que seu rosto tomava, ao tocar a pele nua e quente do garoto, acima da cintura. Ela sentiu as descargas elétricas familiares entre os dois pinicando a ponta dos dedos e fazendo seu corpo arrepiar.

— Eu deveria dizer obrigada? — Thalia resmungou, sentindo seu coração acelerado.

Nico, porém, nem respondeu. Se dando conta de que a capa havia caído, soltou-a e, colocando novamente a mortalha sobre os ombros, voltou a correr pelo chalé.

— Precisamos fazer alguma coisa! — A Grace falou engolindo em seco e se afastando do meio do chalé, querendo se encostar novamente na porta, onde ficaria a salvo de Nico.

Infelizmente — para ela — a porta passou a ser, justamente, o alvo do Di Angelo.

— Para o Batmóvel! — Segurando a capa, ele correu em direção a saída com um sorriso quase assustador, fazendo com que Thalia fechasse a porta e se encostasse nela, impedindo a passagem.

— Você não vai sair! — ordenou, vendo seus amigos se aproximaram em apoio.

— Mas precisam de mim! — Nico argumentou, fazendo um bico, o que o deixava fofo. — Você não viu o sinal no céu?

— Você não vai sair daqui, Nico. — Thalia repetiu calmamente, mas com uma postura firme. Por mais que o garoto estivesse dando um olhar tentador de “gatinho de botas”, seria uma loucura deixá-lo sair.

— Mas eu sou o Batman! — Nico exclamou, quase se ajoelhando. — Precisam do Batman lá fora! O Batman vai lá fora!

— Não. — A Grace continuou, contando até dez mentalmente. Isso trazia memórias antigas de volta a sua mente, como quando Jason chorava querendo fazer o recipiente de ketchup de mamadeira. — O Batman  vai ficar aqui, com seus amigos.

— O Batman é um Cavaleiro Solitária das Trevas! — Nico reclamou, batendo os pés no chão. — Me deixa sair, Thalia!

— Eu não posso te deixar sair, Nico. — Thalia retrucou, cruzando os braços. Se ele achava que podia ser persuasivo, era só porque ainda não havia discutido realmente com ela. Se ela conseguia dizer “não” para o Jason gorduchinho e chorão quando ele queria usar as janelas de parede escalada, ela conseguia dizer “não” para qualquer ser humano.

— Vai sim! — Ele retrucou, deixando a capa cair e desistindo de ser o Batman.

— Me dê um bom motivo pra te deixar sair. — Thalia ergueu as sobrancelhas escuras, um sorriso arrogante nos lábios.

— Se você não deixar, — Nico começou, sem o tom infantil. Seu sorriso era malicioso e estrategista, um brilho de desafio nos olhos escuros. — eu vou te beijar.

Thalia demorou um pouco para processar as palavras, piscando os olhos em incompreensão. Nico estava agindo de maneira infantil, mas isso não significava que estava menos inteligente, e como todo bom jogador, ele estava usando as desvantagens da inimiga contra ela.

— Não, você não vai. — A Grace retrucou firme, apesar de não acreditar realmente naquilo.

— Você duvida? — O Filho de Hades questionou, cruzando os braços em uma postura desafiadora: Ele realmente teria coragem. — Se eu te beijar, você não vai ser mais uma caçadora. E você sabe o quanto eu odiaria isso.

Thalia trincou os dentes, mas manteve o olhar sério. Não era com o Nico criança que ela estava falando, mas com o Nico extremamente estrategista. Ela não podia negar que esse lado na personalidade dele a incomodava: a teimosia era algo herdado por todos os filhos dos três grandes, e não a agradava ver essa característica espelhada em Nico, principalmente quando ele estava agindo de maneira semiconsciente.

Nico deu mais passos na direção dela, ficando há poucos centímetros, o suficiente para Thalia poder sentir o cheiro do sabonete de limão mascarando o sangue e olhá-lo firmemente nos olhos escuros.

— E, vamos combinar, Grace: — ele falou baixo, para que só ela ouvisse. — nós dois sabemos como os deuses amariam ver isso.

Engolindo em seco, Thalia observou Nico se aproximar mais, inclinando a cabeça para o lado esquerdo. Ela não se moveu quando os lábios de Nico a tocaram, deixando um beijo suave na bochecha dela, o que gerou correntes elétricas, fazendo com que a pele de Thalia formigasse no local.

Três segundos foi o tempo exato que durou o beijo na bochecha e, quando se afastou, Nico sorria maliciosamente.

— Me deixe sair, Thalia, ou o próximo será nos lábios.

Mais uma vez ela permaneceu parada, o coração acelerado e se obrigando a permanecer com os olhos fixos nos dele, enquanto Nico se aproximava novamente, porém, sem inclinar a cabeça.

— Nico, — A voz de Will soou quando Thalia e Nico estavam tão próximos que até seus narizes poderiam se tocar. — deixe a Thalia em paz. Você não vai sair: ordens médicas.

Suspirando, Nico se afastou desfazendo o sorriso e comprimindo os lábios, como se pedisse desculpas e, só então, Thalia conseguiu soltar o ar que não sabia que segurava.

— Você não pode beijar uma caçadora, Nico. — Will continuou, ainda deitado na cama. — Por mais que queiramos que Pipopinha seja real.

— Todo mundo quer que Pipopinha seja real. — Nico falou, sentando-se no chão ao lado do Solace em uma posição de índio. Thalia realmente pensou em dizer que ela não era todo mundo e em perguntar se, naquele momento, todo mundo incluía Nico. Mas, invés disso, ela somente se deixou escorregar pela porta, sentando no chão também e abaixando a cabeça. Ela não podia acreditar naquela cena, não podia acreditar que até Nico parecia ter sido influenciado pela ideia louca dos deuses. — Will, eu posso sair?

— Não. — O filho de Apolo negou, encolhido na cama e fechando os olhos novamente.

— Por quê? — Nico questionou como uma criança, passando as mãos pelo rosto do amigo, afastando os fios loiros da pele bronzeada. Era um gesto de carinho quase impensado, algo completamente invulgar no Di Angelo.

— Ordens médicas. — Will bocejou, tentado a dormir com o afago.

— Mas eu quero sair! Estou me sentindo preso. — Nico reclamou, fazendo um bico. — Estou me sentindo em uma panela de pressão! E eu sou um milho! Você sabe o que acontece com um milho em uma panela de pressão?! — O menino Di Angelo se ergueu, começando a pular e gritar. — Eu vou estourar! Vou virar uma pipoca! Eu não quero ser uma pipoca! Socorro!

Como um louco, ele começou a correr pelo quarto, gritando em inglês e italiano que não queria ser uma pipoca, esbarrando nos amigos e os chacoalhando pedindo para deixarem ele sair.

— Eu não quero ser uma pipoca!

— Estou preocupada com ele. — Hazel murmurou, olhando para o irmão como se estivesse louco. Talvez esteja mesmo, mas ainda não é o momento de contar porque ele agia assim.

— Uma pipoca estourando na panela!³ — Nico cantou, pulando em cima da cama.

— Tenho certeza que ele vai ficar bem. — Annabeth afirmou, apesar de não ter certeza disso. Ela também estava ficando muito preocupada.

— Outra pipoca começou a responder! Então começa um tremendo falatório, — O menino Di Angelo continuou, rebolando a cintura enquanto cantava e dançava. — e ninguém mais consegue entender!

— Pelos deuses, — Percy murmurou, em dúvida se ria ou gritava por Apolo. — que música é essa?!

Mas nenhum deles soube responder enquanto Nico di Angelo pulava em cima da cama cantando uma música de escoteiro, que parecia uma cantiga de ninar para  um Jason desmaiado em cima de uma das camas, mais um motivo de preocupação para Percy, Annabeth e Hazel que assistiam chocados, e um sinal de que os deuses haviam ido longe demais para um Thalia encostada na porta; Will, por sua vez, já havia sucumbiddo a Morfeu.

— É um tal de poc! — Nico gritou, dando um salto para frente, fazendo a madeira da cama ranger. — Po-poc, poc, poc! — Ficou repetindo os “poc”, pulando em cada monossílaba e quase quebrando a cama, mas quando foi pular novamente para trás, acabou se desequilibrando, caindo de costas e batendo a cabeça pela milésima vez naquela noite. Talvez fosse bom Will fazer um diagnóstico desse menino quando acordar do semicoma.

— Nico! — Hazel correu para ajudá-lo, assim como Percy e Annabeth, mas ele já estava de pé novamente, subindo na cama para recomeçar a cantoria, mesmo que os amigos gritassem histéricos para que ele não fizesse isso. — Nico, por favor! Desça daí.

Respirando fundo, Thalia decidiu agir. Com sua pouca experiência, a Grace havia aprendido uma coisa fundamental sobre crianças: Quando elas estavam extremamente animadas e eufóricas, muitas vezes elas só estavam com sono;  Por isso, a julgar pela energia do Di Angelo e tudo o que havia passado durante o dia, a melhor solução seria “a hora da naninha”.

— Nico di Angelo! — Thalia brigou, colocando-se em frente a cama. Ela estava assumindo a postura de Tenentes das Caçadora de Ártemis, com a coluna reta e o queixo erguido, além das mãos na cintura e o olhar sério, o mais intimidante possível. Nico parou de pular (deveria acrescentar que se ele pulasse novamente a cama se quebraria?) e a encarou, franzindo os lábios e com um pouco de medo. — Escute sua irmã e desça daí agora.

O garoto engoliu em seco e balançou a cabeça que não, fazendo um bico.

— A-GO-RA! — A Grace ordenou novamente, no mesmo tom, fazendo o menino Di Angelo descer emburrado da cama e olhar para baixo, tentando segurar as lágrimas. — Você quer ouvir uma história? — ela mudou o tom, falando suavemente com um sorriso, fazendo com que ele erguesse o rosto sorrindo, balançando a cabeça em afirmação. — Então deite-se na cama, querido.

Ele obedeceu, se enrolando no meio dos cobertores. Haviam poucas coisas que Nico di Angelo gostasse mais do que de uma boa história. Enquanto ele se ajeitava para dormir, Thalia fez sinal para Hazel, Percy e Annabeth saíssem em silêncio.

— Você vai contar “La Figlia del  Sole”4? — Nico perguntou, lembrando-se da fábula que sempre ouvia quando criança.

— Não, querido. — Thalia falou suavemente, sentando-se ao lado na cama e ajeitando os cobertores de Nico, da forma como ela via na televisão. Quando cuidava de Jason, ele era pequeno o suficiente para se enrolar nos braços dela sempre que Thalia tentava fazê-lo dormir. Essa nostalgia a fez sorrir, pensando em como agora Jason que poderia segurá-la no colo.— Essa eu não conheço.

— Eu posso te contar! — Ele falou animado, começando a contar a história em italiano, sem se dar conta de que a garota não falava aquela língua.

— Nico! — Thalia chamou, fazendo sinal para que ele parasse de falar. — Depois você me conta, tudo bem? Posso te contar a história agora? — Nico assentiu, sorrindo animado e apertando os cobertores finos, mesmo que a noite estivesse quente.

Thalia suspirou, revirando a memória em busca de algum conto. Por fim, se lembrou de um dos seus favoritos, que ela adorava recitar para o irmãozinho, um conto que sempre ouvia pela televisão e aprendeu sozinha.

— Tudo o que eu queria era uma casinha5. — Thalia começou, apesar de não conseguir se lembrar das palavras exatas da história. — Uma casinha leve como uma pluma, alta como uma torre , quente como um ninho e doce como mel.

— Eu queria uma casinha assim. — Nico murmurou, começando a piscar lentamente.

— Todos queremos, não é? Eu queria desde pequenininha. Então construí minha casinha com papel.

— Com papel? — Nico perguntou, franzindo a testa e Thalia fez um leve carinho na testa dele, afastando os fios negros. Ela tentou esquecer que havia feito a mesma coisa horas antes, quando o veneno queimava nas veias dele.

— Sim, com papel. Era leve como uma pluma… Mas, como uma pluma, o vento a levou e eu fiquei sem minha casinha.

— Sinto muito. — Nico fez uma expressão triste, falando baixinho. — O que você fez depois?

— Eu fiz outra casinha, mas essa era grande como uma torre. Era toda feita de areia, onde o vento não levava. Mas então o mar subiu e lá se foi minha casinha feita de areia. Mas eu não desisti: ainda ia ter minha casinha quente como o ninho, eu ia ter meu lar. Então eu fiz minha casa de madeira e nenhum vento poderia levá-la, nenhum mar poderia desfazê-la.

— E nenhum lobo podia soprar e derrubar? — Nico perguntou, bocejando e misturando os contos. Ele estava se assemelhando mais à uma criança inocente do que nunca, tinha uma expressão que fazia Thalia querer se deitar ao seu lado e apertá-lo ao máximo, como se ele fosse Pipo.

— Não, não podia. Mas então vieram os fogos do céu e toda a minha casinha queimou, tudo virou cinzas. Eu pensei tanto em desistir… Mas tentei de novo. Tudo o que eu tinha usado era tão barato, por isso eu trabalhei muito e juntei todo o açúcar que eu podia e então construí minha casinha doce como o mel!

— E chamou João e Maria? — Nico perguntou e Thalia não conteve o riso, balançando os cabelos dele.

— É difícil te contar uma história, hein?! — Thalia sussurrou e Nico deu um sorriso envergonhado, mostrando as covinhas. Já se aproximava o fim da história e os olhos escuros piscavam lentamente, contudo, ele ainda estava acordado demais para o gosto dela. — Não, eu não virei uma bruxa e chamei criancinhas para virar biscoitos. O que aconteceu foi que vieram todos os bichinhos da Terra e comeram minha casinha, devoraram cada grão de açúcar.

— O que você fez? — Nico perguntou, bocejando novamente e lutando para permanecer de olhos abertos. — Construiu outra casinha?

— Eu construí outra casinha: leve como a pluma, alta como a torre, quente como o ninho e doce como o mel. Eu a construí nos meus sonhos, onde o vento, o mar, o fogo e nem os bichos alcançariam. Onde toda a casinha seria minha.

— Isso é triste. — Nico murmurou, de olhos fechados. — Você ficou sozinha na sua casinha? — Thalia engoliu em seco, não sabendo o que dizer. Ela olhou de relance para o resto do chalé, vendo que só restava ela, Nico, Jason e Will, sendo que os dois últimos pareciam estar no milésimo sono. — Eu já tenho minha casinha. — O Di Angelo continuou, quase ressonando. — Minha família é minha casinha. Você pode morar nela, se você quiser.

Felizmente, Thalia não precisou responder. A respiração de Nico se tornou profunda e calma, ele se virou de lado, ficando de costas para Thalia, e adormeceu.

Thalia ficou ali, sentada ao lado da cama e vendo-o ressoar com um sorriso inocente, alheio há todos os problemas e pesadelos que enfrentou, e a todos os problemas que iria enfrentar. Contudo, a Grace não tinha essa dádiva: sua mente girava refletindo as palavras do menino, pensando em todas as casas que tentou construir uma casa: Primeiro com a mãe, que foi destruída quando Jason foi levado; Depois com Luke e Annabeth, até que ela se sacrificasse pelos amigos; Quando ela acordou tentou tornar o Acampamento Meio-Sangue sua casa, mas estava tudo tão diferente e seu melhor amigo era seu rival, não era sua casa; Por fim, escolheu a caçada, e agora se via abandonada por Ártemis;

Talvez tudo o que restasse a Thalia fosse uma casa dos sonhos, uma casa idealizada e completamente vazia.

Entretanto, os atuais planos de Nico di Angelo incluíam dar, não só uma casa tangível, como uma nova família para a Filha de Zeus.

 

¹ Frase criada pela Dama do Poente;

² Crédito à Dama do Poente que adora chamá-lo assim;

³ Essa canção realmente existe. É usada por escoteiros e em igrejas, vocês podem encontrá-la no Youtube;

4 “La Figlia Del Sole” é uma fábula infantil italiana. Você pode encontrá-la no livro Fábulas Italianas, de Ítalo Calvino.

5 Fonte do conto (adaptado):

https://historiasparaosmaispequeninos.wordpress.com/2007/07/23/a-casa-feita-de-sonho/

6 A fala de Ártemis na tirinha (também) foi criada pela maravilhosa Dama do Poente;

7 Essa tirinha se passa durante o jogo; Só não postei antes por causa dos spoilers;


Notas Finais


*Obrigada, novamente, a Dama do Poente por toda a ajuda! Não é àtoa que é a embaixadora do Team Pipopinha;

*Novamente eu pedi ajuda do Team Pipopinha para escolher quem venceria o Game Poser (eu mandei as respostas sem o nome de quem escreveu, logo, não é marmelada!)
*Os(as) vencedores(as) do Game Poser é:
kaah-Monkeys e Princesa de Jade!
(Entrem em contato comigo por mensagens, please!)

*Pergunta Game Poser:

Qual a maior estrepolia que o Jason fez quando criança?

*Feliz dias das crianças atrasado!


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