História Eva - Anna Carey - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias The Shannara Chronicles
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Palavras 2.429
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Aventura, Ficção, Romance e Novela, Suspense
Avisos: Insinuação de sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, xuxus
Como eu disse, eu tentaria enviar um capitulo o mais rápido o possível e aqui estou eu
Então espero que gostem e desculpe qualquer erro
Beijinhos de luz no core de vocês da tia Yas

Capítulo 2 - E se Arden estivesse certa?


 

UM

Quando o sol se pôs atrás do muro de 15 metros de altura, o gramado da Escola estava coberto de alunas do terceiro ano. As meninas mais novas inclinavam-se para fora das janelas do dormitório, sacudindo as bandeiras da Nova América enquanto cantávamos e dançávamos. Agarrei o braço de Pip e a girei quando a banda tocou um ritmo mais rápido. Sua risada curta soou por cima da música.

Era a noite antes da nossa formatura e estávamos comemorando. Havíamos passado a maior parte de nossas vidas dentro dos muros do complexo, sem nunca conhecer a floresta além deles, e esta era a maior festa que já recebêramos. Uma banda foi colocada perto do lago — um grupo de voluntários do segundo ano —, e as guardas haviam acendido tochas para manter os gaviões afastados. Dispostas sobre uma mesa estavam todas as minhas comidas favoritas: pata de cervo, javali selvagem assado, ameixas cristalizadas e tigelas repletas de frutas silvestres.

A diretora Burns, uma mulher corpulenta com um rosto que lembrava o de um cão selvagem, estava cuidando da mesa, encorajando todas a comerem mais.

— Vamos lá! Não queremos que isso seja desperdiçado. Quero minhas meninas como porquinhos rechonchudos! — A gordura em seus braços balançava para a frente e para trás conforme ela indicava o banquete.

A música ficou mais lenta, e eu puxei Pip mais para perto, guiando-a em uma valsa.

— Acho que você se sairá um homem muito bom — disse ela enquanto deslizávamos na direção da beira do lago e o cabelo ruivo grudava no rosto suado.

— Eu sou lindo — brinquei, franzindo as sobrancelhas em uma imitação de masculinidade. Era uma piada na Escola, pois fazia mais de uma década desde que qualquer uma de nós vira um menino ou um homem; a não ser que contássemos as fotos do Rei que ficavam em exibição no salão principal. Nós implorávamos às professoras para nos contarem sobre a época anterior à praga, quando meninas e meninos frequentavam as Escolas juntos, mas elas só diziam que o novo sistema era para a nossa própria proteção. Os homens podiam ser manipuladores, traiçoeiros e perigosos. A única exceção era o Rei; apenas ele era digno de confiança e obediência.

— Eva, está na hora — chamou a professora Florence, que estava perto da beira do lago, com uma medalha dourada nas mãos velhas e gastas. O uniforme-padrão das professoras, uma blusa vermelha com calça azul, ficava largo em sua silhueta franzina. — Juntem-se aqui, meninas!

A banda parou de tocar, e o ar foi preenchido com os sons da floresta lá fora. Passei os

dedos pelo apito de metal em volta do meu pescoço, grata por tê-lo se alguma criatura

atravessasse o muro do complexo. Mesmo depois de todos esses anos na Escola, nunca me

acostumei a ouvir as brigas de cães, o ra-tá-tá-tá distante das metralhadoras, os horríveis

lamentos dos cervos sendo comidos vivos.

A diretora Burns mancou até nós e pegou a medalha das mãos da professora Florence.

— Muito bem, vamos começar! — anunciou, enquanto as quarenta alunas do terceiro

ano se enfileiravam para assistir. — Todas vocês se esforçaram muito durante o tempo na

Escola, e talvez ninguém tenha se esforçado tanto quanto Eva. — Ao dizer isso, ela se virou

para mim, e a pele em seu rosto era flácida e enrugada, formando ligeiras papadas. — Eva

provou ser uma das melhores e mais brilhantes alunas que já ensinamos aqui. Através do

poder conferido a mim pelo Rei da Nova América, eu lhe entrego a Medalha da Conquista.

Enquanto a diretora pressionava o medalhão frio em minhas mãos, todas as meninas

aplaudiram. Pip acrescentou um assovio estridente com os dedos, para que não restassem

dúvidas.

— Obrigada — falei baixinho.

Olhei através do lago comprido, mais parecido com um fosso, que se estendia de um lado

ao outro do muro. Meu olhar se firmou no gigantesco prédio sem janelas além deste. No dia

seguinte, depois que eu fizesse meu discurso de oradora na frente da Escola inteira, as

guardas na outra margem do lago estenderiam uma ponte, e a turma de formandas seguiria

atrás de mim, em fila indiana, para o outro lado. Lá, naquela estrutura enorme,

começaríamos a aprender nossos ofícios. Eu passara tantos anos estudando, aperfeiçoando

meu latim, minha escrita, minha pintura. Havia passado horas ao piano, aprendendo Mozart

e Beethoven, sempre com aquele prédio ao longe — o objetivo final.

Sophia, a oradora de três anos atrás, havia subido no mesmo pódio e lido seu discurso

sobre nossa grande responsabilidade como futuras líderes da Nova América. Ela falou sobre

tornar-se médica e sobre como trabalharia para prevenir futuras pragas. A essa altura,

provavelmente estava salvando vidas na capital do Rei, a Cidade de Areia. Diziam que ele

havia restaurado uma cidade no deserto. Eu mal podia esperar para chegar lá. Queria ser

uma artista, pintar retratos como Frida Kahlo ou cenas surreais como Magritte, em afrescos

pelas grandes muralhas da Cidade.

A professora Florence repousou a mão sobre minhas costas.

— Você incorpora a Nova América, Eva: inteligência, empenho e beleza. Estamos muito

orgulhosas de você.

A banda começou uma música bem mais animada, e Ruby cantou a letra a plenos

pulmões. As meninas no gramado riam e dançavam, girando e girando e girando umas as

outras até estarem tontas.

— Vamos, coma mais um pouco — ordenou a diretora Burns enquanto empurrava

Violet, uma garota mais baixa com olhos negros e amendoados, na direção da mesa.

— O que há com ela? — perguntou Pip, aproximando-se de mim. Ela tomou a medalha

nas mãos para vê-la melhor.

— Você conhece a diretora — comecei, prestes a lembrar Pip de que a chefe da nossa

Escola tinha 75 anos, artrite e que já havia perdido a família inteira quando a praga

finalmente terminara, 12 anos atrás, mas Pip balançou a cabeça em negativa.

— Não ela, ela.

Arden era a única aluna do terceiro ano que não comemorava. Estava encostada na

parede do dormitório, com os braços cruzados; e mesmo com o vestido cinza sem graça, com

o brasão da Nova Monarquia Americana bordado no peito, mesmo de cara amarrada, ainda

estava linda. Enquanto a maioria das meninas na Escola mantinha os cabelos compridos, ela

havia cortado as madeixas pretas bem curtas, fazendo a pele parecer ainda mais clara. Os

olhos cor de avelã eram salpicados de dourado.

— Ela vai aprontar alguma coisa, tenho certeza — falei para Pip, sem tirar os olhos dela.

— Está sempre aprontando.

Pip passou os dedos pelo medalhão liso.

— Alguém a viu nadando pelo lago... — sussurrou ela.

— Nadando? Duvido.

Ninguém no complexo sabia nadar. Nunca haviam nos ensinado.

Pip deu de ombros.

— Quem é que sabe, se tratando dela...

Enquanto a maioria das alunas do terceiro ano tinha vindo para a Escola aos 5 anos de

idade, depois que a praga havia terminado, Arden chegara com 8, então sempre houvera

algo diferente a seu respeito. Os pais a haviam entregue à Escola até que conseguissem se

estabelecer na Cidade de Areia. Ela adorava lembrar às alunas o fato de que, diferente do

resto de nós, não era órfã. Quando terminasse de aprender seu ofício, iria se mudar para o

novo apartamento dos pais. Não teria de trabalhar um dia sequer na vida.

Pip havia decidido que isso explicava uma verdade mais profunda sobre Arden: como

tinha pais, ela não tinha medo de ser expulsa da Escola. Frequentemente, sua rebeldia era

demonstrada na forma de trotes inofensivos: figos podres no mingau de aveia ou um

camundongo morto na pia, com pasta de dente branca no penteado. Mas outras vezes ela era

má, até mesmo cruel. Certa vez, Arden cortou o longo e negro rabo de cavalo de Ruby, só

para rir do C que ela tirou em uma prova de Perigos de Meninos e Homens.

Nos últimos meses, porém, Arden se manteve estranhamente quieta. Era a última a

chegar para as refeições e a primeira a sair, e estava sempre sozinha. Eu tinha a crescente

suspeita de que, para a formatura amanhã, ela estava planejando o maior trote de todos.

Em um instante, Arden virou-se e começou a correr na direção do prédio do refeitório,

levantando poeira enquanto se movia. Meus olhos se estreitaram ao observá-la ir. Eu não

precisava de nenhuma surpresa na cerimônia; com o discurso que faria, já tinha o bastante

para me preocupar. Fora dito, até, que o próprio Rei viria para a solenidade, pela primeira

vez na história da Escola. Eu sabia que era um boato, iniciado pela sempre dramática

Maxine, mas ainda assim era um dia importante; o mais importante das nossas vidas.

— Diretora Burns? — perguntei. — Por favor, posso ser dispensada? Deixei minhas

vitaminas no dormitório. — Tateei os bolsos do vestido do uniforme, fingindo frustração.

— Quantas vezes terei de lembrar a vocês meninas que as mantenham em suas mochilas?

Vá, mas não demore. — Enquanto falava ela acariciou o focinho do javali assado, que tinha a

pelugem do rosto chamuscada de preto.

— Sim — concordei, virando a cabeça para trás à procura de Arden, que já tinha dobrado

a rua ao fim do refeitório. — Pode deixar, Diretora. — Saí correndo, oferecendo a Pip um

rápido volto já.

Virei a esquina, aproximando-me do portão principal do complexo. Arden abaixou-se ao

lado do prédio e pegou algo debaixo de um arbusto. Ela despiu o uniforme e o trocou por

um macacão preto, a pele branca como leite cintilando sob o sol do crepúsculo.

Caminhei até ela enquanto Arden calçava um par de botas de couro preto, as mesmas

que as guardas sempre usavam.

— O que quer que esteja planejando, pode simplesmente esquecer — anunciei, satisfeita

ao ver que ela se endireitou ao som da minha voz.

Arden ficou parada por um momento, então apertou firmemente os cadarços, como se

estivesse estrangulando os tornozelos. Um minuto se passou até que falasse e, mesmo assim,

ela não se virou para me encarar.

— Por favor, Eva — disse baixinho. — Apenas vá embora.

Ajoelhei-me ao lado do edifício, segurando minha saia para que não se sujasse.

— Sei que vai aprontar alguma coisa. Alguém viu você perto do lago.

Arden movia-se rapidamente, com os olhos fixos nas botas enquanto dava um nó duplo

nos cadarços. Havia uma mochila em uma vala sob o arbusto, e a menina enfiou o uniforme

cinza dentro dela.

— De onde você roubou o uniforme das guardas? — continuei.

Ela fingiu não ter me ouvido e, em vez disso, espiou por um buraco entre os arbustos.

Segui seu olhar até o portão do complexo, que estava se abrindo lentamente. O

carregamento de comida para a cerimônia do dia seguinte havia acabado de chegar em um

jipe preto e verde do governo.

— Isso não tem nada a ver com você, Eva — disse ela finalmente.

— Então tem a ver com o quê? Está se passando por uma guarda? — Ao dizer isso, peguei

o apito que ficava em volta do meu pescoço. Eu nunca havia denunciado Arden antes, nunca

levara nada do que ela fizera até a diretora, mas a cerimônia era importante demais, para

mim, para todo mundo. — Sinto muito, Arden, mas não posso deixar que você...

Antes que o apito tocasse meus lábios, Arden arrancou a corrente do meu pescoço,

atirando-a pelo gramado. Em um movimento rápido, ela me prensou contra o edifício, e seus

olhos estavam molhados e vermelhos.

— Escute aqui — falou lentamente, com o braço apertando meu pescoço, dificultando

minha respiração. — Vou embora daqui em exatamente um minuto. Se sabe o que é bom

para você, volte para a comemoração e finja que nunca viu isto acontecer.

Uns seis metros à nossa frente, algumas guardas descarregavam o veículo, levando caixas

para dentro do complexo, enquanto as outras apontavam suas metralhadoras na direção da

floresta.

— Mas não há para onde ir...

— Acorde! — sussurrou Arden. — Você acha que vai aprender um ofício? — Ela fez um

gesto na direção do edifício de tijolos do outro lado do lago. Eu mal podia vê-lo em meio à

escuridão crescente. — Nunca se pergunta por que as Formandas nunca saem do prédio? Ou

por que há um portão separado para elas? Ou por que há tantas cercas e portas trancadas por

aqui? Acha que estão mandando vocês para lá para pintar? — Com isso, ela finalmente me

soltou.

Esfreguei o pescoço. Minha pele queimava onde a corrente havia arrebentado.

— É claro — falei. — O que mais faríamos lá?

Arden soltou uma gargalhada enquanto jogava a mochila por cima do ombro, então se

inclinou para perto de mim. Eu podia sentir o cheiro da carne picante de javali em seu hálito.

— Noventa e oito por cento da população está morta, Eva. Morta. Como você acha que o

mundo vai continuar? Eles não precisam de artistas — sussurrou. — Precisam de crianças. O

mais saudáveis que puderem encontrar... ou fazer.

— Do que está falando? — perguntei.

Ela se levantou, sem nunca tirar os olhos do jipe. Uma guarda puxou a capa de lona por

cima da traseira do veículo e subiu para o banco do motorista.

— Por que acha que estão tão preocupados com a nossa altura, nosso peso, ou o que

estamos comendo e bebendo? — Arden espanou a terra do macacão preto e olhou para mim

uma última vez. A área embaixo de seus olhos estava inchada, com as veias roxas visíveis sob

a pele branca e fina. — Eu as vi; as garotas que se formaram antes de nós. E não vou acabar

em uma cama de hospital, parindo uma ninhada todo ano pelos próximos vinte anos da minha

vida.

Eu cambaleei para trás, como se tivesse levado um tapa na cara.

— Você está mentindo — falei. — Está enganada.

Mas Arden apenas sacudiu a cabeça e, com isso, saiu correndo em direção ao jipe,

puxando o capuz preto por cima do cabelo. Ela esperou as guardas do portão se virarem

antes de abordá-las.

— Mais uma! — gritou, então pulou para cima do para-choque traseiro e enfiou-se na

caçamba coberta.

O veículo sacolejou pela estrada de terra e desapareceu na floresta escura. O portão se

fechou lentamente depois que ele passou. Eu ouvi o som do cadeado, incapaz de acreditar

no que acabara de ver. Arden havia deixado a Escola. Fugido. Ela fora para o outro lado do

muro, para a selva, sem nada nem ninguém para protegê-la.

Eu não acreditava no que ela dissera. Não podia acreditar. Talvez Arden fosse voltar em

algumas horas, no jipe. Talvez esse fosse seu trote mais maluco até hoje. Mas, enquanto eu

me virava de volta para o prédio sem janelas do outro lado do complexo, não pude evitar

que minhas mãos tremessem ou impedir o vômito azedo de frutas silvestres irrompendo da

minha boca. Passei mal ali, na terra, com um único pensamento me consumindo: e se Arden

estivesse certa?


Notas Finais


Bye, cutes


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