História Everything Will Change - Capítulo 5


Escrita por: ~

Postado
Categorias Carrossel
Personagens Daniel Zapata, Maria Joaquina Medsen
Tags Carrossel, Maniel
Exibições 33
Palavras 4.875
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Mistério, Policial, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Survival, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Oii gente tudo bem?
Estou trazendo mais um capítulo para você então espero que gostem.
Bjjs e boa leitura para todas as leitoras(ou leitores).

Capítulo 5 - 20 de Dezembro, 1940.


Querido Diário (sim, arranjei um nome para você!), 
Nem sei direito como começar a escrever isso, porque coisas inexplicáveis aconteceram esse ano. Coisas que nem eu mesma entendo direito. Coisas que estou curiosa em saber, mas ninguém me conta. Coisas que não entendi até agora porque aconteceram. 
Você pode achar que isso acontece mesmo com quem é jovem, afinal, ainda temos muito que aprender. Mas você está um pouco enganado se pensa que eu sou uma criança ainda, porque eu já tenho 11 anos. Estou em outra fase da vida. 
Eu me lembro exatamente o dia em que aconteceu. Era 3 de julho, numa madrugada extremamente chuvosa onde os relâmpagos e os raios não davam descanso. Já deveria ter passado da meia-noite, mas eu não tinha conseguido dormir ainda por culpa daquele barulhão, mesmo com a janela fechada. 
Tirei o lençol de cima do corpo – estava calor, mesmo com o tempo ruim – e sentei-me na cama abraçando o travesseiro. Procurei minha boneca favorita, que eu havia ganhado de natal quando tinha 7 anos, e encontrei-a em cima da minha cômoda. Tive vontade de pegá-la e fazê-la dormir junto comigo, mas não tive coragem, afinal, gente grande não dorme com esse tipo de coisa. 
Deitei de novo e tentei dormir, sem sucesso. Eu ouvia algumas vozes baixas, e fiquei me perguntando se meus pais estariam acordados àquela hora da madrugada. Se estivessem mesmo, o que estariam fazendo? Não havia um toque de recolher na cidade, mas se alguém percebesse seria muito estranho. 
Desisti de voltar a deitar e levantei da cama, sentindo meus pés descalços contra o piso abafado de madeira. Andei até a minha boneca e abracei-a, sorrindo enquanto a olhava. Depois, coloquei-a de volta em seu lugar e fui dedilhando meus poucos livros que estavam na estante até chegar ao meu chinelo. 
Eu não dormia com a porta do quarto fechada, por isso apenas saí dele com cautela e desci as escadas até a cozinha a fim de pegar um copo de água. Conforme fui chegando perto, ouvi as vozes dos meus pais e percebi que eles estavam sentados à mesa apenas à luz de vela. 
- Mãe? Pai? Tá tudo bem? – perguntei assim que entrei no lugar, estranhando o fato dos dois estarem ali sussurrando. 
- Maria? O que está fazendo acordada há essa hora? – mamãe me perguntou. Dei de ombros e fui pegar o meu copo de água. 
- Não consegui dormir com essa chuva. O que vocês estão conversando? 
Nenhum dos dois respondeu a minha pergunta. Eu estava pronta para repeti-la quando um “toc toc” rápido, simples e quase inaudível fez com que nos sobressaltássemos. Papai levantou da cadeira de supetão, mas inacreditavelmente de forma silenciosa. Mamãe arregalou os olhos e andou na minha direção, me colocando atrás de seu corpo. Eu apenas soltei meu copo de água e fiquei olhando de um para o outro, completamente assustada. 
Eu não deveria estar desse jeito, embora fosse realmente muito estranho estarem batendo na nossa porta a essa hora da noite e com um tempo horrível. No entanto, não podíamos não atender a pessoa que estava ali, porque, mesmo sendo pequena, a luz da vela poderia ter refletido pelo espacinho do vidro para o lado de fora. E, se fosse um oficial, ele provavelmente perceberia os movimentos... e acharia muito estranho o estarmos evitando. E isso causaria mal para nós. 
Era abrir ou abrir, não tínhamos opção. Só rezávamos para que do outro lado da porta fosse apenas o vento. 
Papai andou até a porta e eu agarrei a mão da minha mãe, me escondendo atrás de seu corpo. Era um corpo magro, assim como o meu, mas ela tinha a vantagem de ser bem alta, de forma que podia me esconder parcialmente. 
Respiramos todos juntos quando a porta finalmente fora aberta, e o silêncio predominou de forma pesada no instante seguinte. 
Havia um garoto na porta. Um garoto que eu nunca havia visto antes. Ele não era do bairro e nem da minha escola... deveria ter uns 14 anos de idade, um pouco mais velho que eu. Seus cabelos escuros estavam tão compridos que chegavam até o começo das bochechas, tampando seus olhos, que percebi serem de um castanho escuro. Suas roupas pareciam trapos e, mesmo molhadas pela água da chuva, percebi o quanto estavam sujas: a camiseta branca estava um pouco rasgada nas mangas e no colarinho; a calça preta rasgada nos joelhos e o casaco estava desfiado e não tinha zíper. Seus pés estavam descalços, imundos. Em baixo de suas unhas havia muita sujeira, porque elas estavam pretas. Numa das mãos ele segurava uma pequena trouxa de roupas, na outra estendia um pequeno papel para o meu pai. 
Fiquei me perguntando quem era aquele menino e porque estava naquelas condições. Ele conhecia meu pai? Como ele sabia onde era a nossa casa? Por que ele estava sozinho? Onde estavam os pais dele? Por que ele estava tão sujo? Por que aparecera no meio da noite? Qual seria o seu nome? 
O garoto não olhou através de meu pai (ou seja, para mim e para a minha mãe) nem por um segundo. Seus dentes batiam de frio e os lábios estavam todos rachados, o que fez com que eu me encolhesse mais em minha mãe, estranhando a visita. 
Engraçado porque toda essa minha análise, apesar do que possa parecer, demorou poucos segundos. Assim que o garoto mostrou o papel, papai pegou-o e leu. Em seguida colocou a cabeça para a fora da porta e olhou na rua e, como se tivesse acabado de analisar alguma coisa, puxou o garoto para dentro de casa e fechou a porta, trancando-a em seguida. 
- Anselm... – minha mãe olhou-o tremendamente assustada. Suas mãos apertaram meu corpo e eu me encolhi atrás dela, percebendo o quanto estava tremendo. 
- Não posso deixá-lo na minha porta, Eva. Simplesmente não posso. – foi o que papai disse. 
Arrisquei um relance para o menino e coloquei a cabeça para o lado, longe das costas da minha mãe. Pela primeira vez o garoto pareceu perceber a minha presença ali, porque seus olhos viraram na minha direção e pude perceber sua boca se abrindo um pouquinho (mas percebi também que ele tentou disfarçar isso). 
Para o meu desespero, também percebi o que havia perto das casinhas dos botões do seu casaco: uma estrela amarela. Não era igual a das pessoas que eu costumava ver na rua – um lenço branco amarrado no braço -, mas aquilo não importava. O símbolo, a estrela amarela, era igual. Aquilo só significava uma coisa:
O garoto na nossa porta era um judeu. 
Quando percebi o que estava acontecendo, minha boca se escancarou. Meus olhos se arregalaram ainda mais e senti que tinha alguma coisa dentro da minha barriga, fazendo com que eu sentisse frio e começasse a tremer. 
- Papai... – eu falei, mas a minha boca subitamente estava seca demais. 
- Maria, vá para o seu quarto. 
- O... O quê? 
- Agora! – papai falou firme, embora não tivesse gritado. 
Mamãe me empurrou até a porta que dava acesso à escada enquanto o garoto ficava ali parado, no meio da cozinha, observando tudo o que estava acontecendo. 
- Vá, Maria. – mamãe pediu e voltou correndo para a cozinha, mas não consegui me mexer. Virei meu corpo de volta para a porta e fiquei observando toda a cena. 
Antes que papai começasse a dar ordens, mamãe já tinha apagado as velas e estávamos imersos numa escuridão, embora a pouca luz da lua que passava pela janela fosse o suficiente para que eu enxergasse alguns vultos. 
- Ferva água num balde, Eva. O garoto precisa se aquecer. Esse deve ser o primeiro e último banho que ele vai ganhar em dias. 
- Anselm... – ouvi mamãe recriminá-lo. 
- É só essa madrugada, inferno. Quando estiver pronto virei buscar. Pode ficar de olho na janela por mim? 
Mamãe desistiu de argumentar e acenou com a cabeça, colocando a água no fogo antes de afastar um pedaço da cortina e espiar pela janela que dava para a rua. Em contratempo, papai saiu da cozinha com o menino a passos rápidos, levando-o em direção ao banheiro, mas dando um encontrão em mim. 
- Você ainda está aqui? – ele me olhou um pouco bravo, fazendo com que eu encolhesse os ombros e olhasse para baixo. Ouvi-o suspirar. – Certo. Vá ajudar a sua mãe que depois eu converso com você. 
Aquela madrugada era a primeira de muitas em que os abrigariam um judeu fugitivo sem nome. 

Diário, eu me lembro desse dia como se fosse ontem. Lembro-me de voltar ao meu quarto depois de ajudar papai e não conseguir dormir. Lembro-me que, muito tempo depois, meu pai havia vindo até mim e me explicado que aquele menino ficaria escondido em nossa casa e que nós nunca – nunca mesmo, em hipótese alguma, sob nenhuma circunstância – deveríamos sequer comentar algo relacionado a ele. 
No entanto, no dia seguinte foi difícil de tentar esquecer aquele pequeno fato. Mesmo que o garoto ficasse escondido a maior parte do tempo, era estranho pensar que havia alguém que eu não sabia nem o nome em minha própria casa. Mas papai não parecia se importar, e mamãe, apesar de tudo, também já tinha se conformado. 
Nesse dia não fui à escola. Primeiro porque não consegui acordar no horário, segundo porque estava cansada demais da noite anterior – mesmo que eu não tivesse feito esforço físico, minha cabeça parecia querer explodir. Mesmo assim, estava sentada na mesa da cozinha com os cadernos abertos tentando fazer alguns deveres da escola. 
Era engraçado ter deveres de casa para fazer quando o país estava em guerra. Antes eu não sabia muita coisa sobre isso, mas agora entendo mais – não só porque sou mais velha, mas também porque papai foi obrigado a me contar algumas coisas devido ao efeito direto que a situação estava tendo sob nós. 
Papai me contou que o Führer queria conquistar outros lugares. Bairros, cidades, países. Como alguns países não queriam se render e ficar sob o domínio alemão, estava acontecendo a guerra. Mas tudo piorou quando ele tentou conquistar um país específico, a Inglaterra, e eles começaram a revidar: aviões sobrevoavam Berlim e jogavam bombas. Quando eles eram avistados no céu, soava um alarme em toda a cidade e nós tínhamos que correr para o abrigo mais perto (que, no meu caso, era no quintal de casa. Alguns outros vizinhos também se escondiam lá). Nos primeiros dias isso não era tão constante, mas depois a situação se estendeu e papai não conseguiu mais fingir que não havia nada acontecendo. Durante alguns dias fiquei sem ir para a escola porque as aulas foram canceladas, e de vez em quando isso ainda acontece, embora agora eu já esteja acostumada. 
As bombas nunca haviam afetado diretamente a minha redondeza, mas em alguns pontos da cidade casas e estabelecimentos tinham sido completamente destruídos, sem qualquer esperança de reparo. E tudo isso por causa que o Führer queria ter mais alguns países para liderar. 
- Maria, preciso buscar alguns litros de leite e manteiga. Você consegue ficar sozinha aqui por alguns minutos? – mamãe me perguntou aparecendo na cozinha com um vestido florido, me tirando dos meus devaneios. 
- Claro. – eu respondi balançando um lápis entre os dedos, vendo-a colocar uma pequena bolsinha a tira-colo. 
- Tranque a porta assim que eu sair e não atenda ninguém. – ela me olhou de forma intensa e eu acenei com a cabeça num gesto afirmativo e de quem entendia sobre o que ela estava falando. 
Assim que mamãe saiu para a rua, tratei de trancar a porta com o ferrolho e as chaves. Depois voltei aos meus afazeres, mas me surpreendi pensando no garoto. 
Papai havia me dito que ele ficaria escondido no porão, num canto em baixo da escada coberto com uma bandeira grande da Alemanha. Na verdade, bem naquele lugar, no piso de madeira, havia um pequeno alçapão que dava acesso à parte de baixo da casa, onde era gelado, úmido, não cimentado e provavelmente muito pequeno. Era difícil pensar que um garoto um pouco mais velho do que eu ficaria dias presos ali, mas papai me contou que ele poderia sair daquele cubículo e ficar na parte do porão mesmo, atrás de alguns sacos de grãos. Lá não era muito iluminado como a parte de cima da casa, mas já era alguma coisa. 
Mesmo assim, deveria ser muito tedioso passar o tempo inteiro sozinho, sem brincar, fazer deveres ou mesmo conversar com alguém. E foi por esse motivo que decidi ir até lá. 
Deixei meu material jogado na mesa da cozinha e fui até a pequena escada que dava acesso ao andar de baixo. Para chegar até ela precisei abrir uma pequena portinhola mal cuidada, já que minha mãe não ligava muito para ela porque não a usávamos muito (e porque ficava numa parte mais afastada do corredor). 
Abri o trinco enferrujado e me deparei com uma escuridão tão firme que esperei meus olhos se adaptarem para poder tentar enxergar alguma coisa, mas foi em vão. Procurei por interruptores de luz, mas a única coisa que tateei foi o cimento das paredes. Então voltei para a cozinha e peguei uma vela, colocando-a num suporte depois de acendê-la. 
Desci as escadas para o sótão o mais devagar que pude, com medo de tropeçar e cair. Os degraus eram curtos e escuros, e a iluminação da vela ajudava pouca coisa, mas mantive meu objetivo em mente. 
Quando cheguei até o final, olhei para os lados tentando achar o garoto, mas nada conseguiu chamar a minha atenção. Eu sabia que ele deveria estar por ali, mas estava tudo tão quieto e silencioso que duvidei até dos fatos. 
- Olá? – chamei, percebendo minha voz ecoando baixo por entre as paredes. – Você está aí? 
Ninguém respondeu nada, mas percebi um farfalhar na bandeira e fiquei olhando para o local, esperando que o garoto desse as caras por ali. Mas, para a minha surpresa, ele não apareceu. 
- Por favor, apareça. Sou eu, Maria. – pedi. 
E então, sem mais nem menos, ele apareceu, me fazendo arregalar os olhos ao ver sua figura totalmente diferente da noite anterior. Meus pais tinham feito um trabalho incrível. Seus cabelos haviam sido aparados antes de chegarem às orelhas, bem curtinho. Sem a camada de pó e sujeira, percebi que sua pele era branca (não mais que a minha, mas ainda assim clara) e que ela combinava com seus olhos pequenos cor de jabuticabas. 
O garoto parecia mesmo ter uns 14 anos e, apesar de ter trazido uma trouxa de roupas, estava vestido com uma calça e uma camisa (dobrada na manga) do meu pai – essa última vinha até pouco acima das suas coxas. Em seus pés tinha um par de tênis, também do meu pai. Suas unhas estavam curtas e aparadas, limpas. Ele parecia um outro menino, apesar de manter a mesma altura e o porte magricelo. 
- Oi! – eu exclamei feliz, e me abaixei para deixar o suporte e a vela no chão ao lado, entre nós dois. 
Esperei que o garoto respondesse, mas ele nada falou. Apenas olhou-me com a testa franzida e cruzou os braços por cima do peito, sem graça e sem saber o que dizer. Eu aproveitei para dar um passo a mais para frente, porque queria vê-lo mais de perto, mas instantaneamente ele deu um passo para trás, e agora quem estava sem graça era eu. 
- Sou Maria. – joguei as mãos para trás do corpo e me balancei. Estava sem graça, mas ainda assim queria ser simpática. – Qual o seu nome? 
A figura a minha frente continuou parada, me olhando com uma sobrancelha arqueada e a cara de interrogação, como se não estivesse entendendo absolutamente nada do que eu estava fazendo ou falando. 
- Você fala alemão? – perguntei, mas ele apenas revirou os olhos, para em seguida apertar os cílios e manter uma cara impassível. - Você é... mudo? – perguntei arregalando os olhos. Talvez eu tivesse sido mal educada ou... 
Mas então ele balançou a cabeça negativamente - como se quisesse me dizer “você não deveria estar aqui” - e então andou até o canto perto da bandeira e escondeu-se lá, não falando mais nada. 
Fiquei simplesmente chocada com aquela reação dele. Eu havia feito alguma coisa errada? Por que ele não queria conversar comigo? Ele parecia estar amedrontado... mas ainda assim não falara mais que dez palavras comigo. Nem me dissera o seu nome. 
Peguei a vela do chão e subi as escadas correndo, chegando no andar superior sem fôlego e estranhamente prestes a chorar. Eu havia ficado chateada com aquela postura do menino. Mas então pensei bastante sobre o fato dele ser um judeu, e estar se escondendo na minha casa. Lembrei-me do estado deplorável em que chegara. Lembrei-me de como eu era obrigada a evitar as pessoas que tinham o lenço com estrela no braço, lembrei-me dos soldados destruindo a loja do Sr. Raviv e batendo em pessoas como ele. Era horrível. 
Isso me fez tentar enxergar aquela atitude por outro ponto de vista. Fez com que eu me perguntasse onde estavam seus pais, ou se ele tinha algum irmão. Fez com que eu quisesse saber como ele havia chegado ali sem ter sido pego, porque a cada dia que passava mais e mais judeus sumiam. 
Subi até meu quarto correndo quando tive uma ideia. Procurei algo em minha bolsa e, quando a encontrei, desci correndo até o porão, quase fazendo a vela cair do suporte. O garoto ainda estava escondido, mas eu andei cautelosamente até perto da bandeira da Alemanha estendida, quase até tocá-la. Em seguida, ajoelhei-me contra o piso frio, tentando controlar a minha respiração, que estava fora de controle pela correria. 
- Você está aí? – perguntei, mais por educação mesmo. Não queria abrir a “cortina” e invadir o seu espaço, mesmo que ele tivesse passado pelo alçapão e pudesse estar alguns palmos abaixo de mim. 
Como ele não respondeu, eu me dei a liberdade de colocar o que eu tinha pego no chão e arrastá-lo por baixo da bandeira até a metade. O lírio era branco e comum, mas ainda estava inteiro. 
- É pra você – falei simplesmente. 
O tempo pareceu passar devagar depois das minhas palavras, mas em algum momento pude perceber um farfalhar do outro lado e logo eu não tinha mais visão alguma da flor, porque ele a havia puxado para si. 
Abri um sorriso amplo, mesmo que ele não pudesse ver. Estava feliz. 
Depois disso, subi as escadas novamente e voltei à cozinha, tentando acabar o meu dever de casa e não sabendo que aquilo acabaria virando um ritual diário entre nós dois durante o ano inteiro. 

Diário, se eu soubesse que o meu “relacionamento” com esse garoto sem nome (sim, ainda não descobri o nome dele!) iria durar tanto tempo, eu teria tentado escrever em você antes, não agora que é quase natal, como de costume. Mas, de qualquer maneira, preciso falar mais um pouco dele. 
Nas primeiras semanas, passei a visitá-lo diariamente, mas apenas uma vez, normalmente no período da noite, antes do jantar. Todo dia eu levava um lírio para ele e o passava por debaixo da bandeira. Ele aceitava, sem falar nada, e isso me deixava feliz, porque ele estava aceitando um presente meu sem nem pestanejar. O garoto também pareceu se acostumar com a minha presença, desde que não trocássemos palavras. Nos primeiros dias ficávamos cada um do lado da bandeira-cortina, ambos encostados na parede, sem nos olharmos ou conversarmos, apenas ouvindo o barulho de nossas respirações. 
Meus pais tinham me proibido de ir até ele, mas assim que perceberam que eu não ligava para essa regra passaram a pedir a minha ajuda, então normalmente era eu quem levava uma toalha molhada para ele se limpar ou copos de água e pratos de comida, já que ele não podia sair. Também acabou sendo eu a limpar o balde onde ele fazia as necessidades. 
Era tudo muito escondido. Como minha família não recebia muitas visitas era mais fácil, mas mesmo assim precisávamos ser cuidadosos. Se o garoto fosse pego, não só ele como todos nós (eu, mamãe e papai) sofreríamos as consequências. 
Nunca comentei sobre ele ou algo relacionado a ele na escola, nem para Alícia ou mesmo para os meus pais. Eles sabiam que eu passava algum tempo no porão, mas nunca perguntaram nada, e eu também não me senti à vontade para dizer. 
Julho passou, e foi no começo de agosto que passei a soltar as primeiras palavras. Ainda separados pela bandeira, mas eu comecei falando um pouco sobre o que me acontecia na escola e sobre Alícia e nossas brincadeiras. Foi tudo bem devagar, mas, quando percebi que ele não se incomodava com o meu falatório (desde que não precisasse falar também) continuei com as minhas histórias. Minha vida não era muito interessante, mas era como se com ele eu pudesse falar tudo o que estava se passando pela minha cabeça. Era quase como escrever aqui, porque sei que você, Diário, nunca vai me responder. 
Setembro entrou e com ele as mudanças não apenas climáticas – afinal, o outono estava chegando, os ventos agora vinham mais gelados e era bem mais difícil de achar lírios – como também a maneira de conversar com o garoto-judeu-escondido-no-meu-porão. Foi a partir desse mês que ele aboliu a bandeira como barreira entre nós, o que me deixou surpresa e incrivelmente feliz. 
Eu mal pude acreditar quando isso aconteceu. Recordo-me de descer as escadas com uma vela no suporte, mas estava bem escuro de se ver porque os dias escureciam mais cedo. Faltava pouco para o jantar, mas aproveitei para descer para conversar, porque mais tarde apenas teria tempo de lhe trazer a refeição. 
Apoiei a vela no chão, perto da curva da escada, no mesmo lugar de sempre, e já sentei tirando os meus sapatos e apoiando minhas costas na parede. Passei a flor – dessa vez uma dobradura, porque eu não tinha achado nenhum lírio real mesmo – por debaixo da cortina até a metade e já tinha começado a falar quando de repente percebi que ele havia empurrado a bandeira para o lado e me olhava fixamente. 
Não posso mentir, me assustei tanto com aquilo que engasguei com as palavras e meus olhos se esbugalharam, e poderia jurar que vi um sorrisinho singelo escapar de seus lábios. Estranhamente ele parecia mais alto que da primeira vez que o vira, porque, mesmo sentados, minha cabeça batia apenas nos seus ombros. Minha professora disse que os garotos, nessa idade, cresciam de forma absurda sem que nem percebêssemos. E era verdade. 
- É bom poder te ver – eu disse sorrindo enquanto o olhava, percebendo que eu estava com um pouco de vergonha. O menino abriu um sorriso sem mostrar os dentes, mas acho que conseguia ver seus olhos brilhando. 
Nesse dia ele também não falou nada e, quando fui dormir, me peguei pensando em quanto tempo será que ele estava assim. 
Em outubro passei a levar outras coisas além das flores, porque, convenhamos, apesar de bonitas, elas eram meio entediantes. Acabei levando lápis e cadernos para ele escrever, livros para ele ler e eu mesma passei a fazer meus deveres de casa lá em baixo. Era escuro, apertado e desconfortável, mas eu preferia aquilo ali a ficar sozinha na mesa da cozinha enquanto o meu pai estava fora trabalhando e minha mãe arrumando a casa ou ajudando à vizinha da frente com a lavagem de roupas (em troca daquilo ela conseguia ganhar algumas moedas, o que nos ajudava financeiramente). 
Mas era engraçado também. Apesar do garoto não falar, ele normalmente puxava meus cadernos e ficava lendo-os, como se o que estivesse escrito neles não fossem matérias chatas, mas algo interessante. Suas expressões faciais eram incríveis, e várias vezes me pegava observando-o. Era meio irônico eu odiar os meninos da minha turma, mas passar praticamente a tarde e a noite inteira com um garoto que vivia escondido dentro da minha casa. 
Em novembro, que foi o mês passado, algo estranho e terrível aconteceu. Eu me lembro da sensação, e até hoje não a entendo, apesar de não querer reavivá-la por ter sido totalmente horrorosa. 
Eu estava no porão, observando o garoto jantar um prato de ensopado com grãos e batata. Ele devorava tudo com prazer, sem tirar os olhos da comida, enquanto eu me apertava no cobertor que havia trazido do meu quarto. Ele também se cobria com uma manta, mas ela era estranha – não por ser branca e azul, mas porque parecia ter lugar para pôr os braços e a cabeça, mesmo que fosse bem grande e ficasse bem folgada nele. Pensei em perguntar sobre aquilo, porque nunca havia visto uma parecida por Berlim, mas sabia que ele não iria responder, e por isso me mantive calada. 
Ele estava quase acabando quando ouvi passos grossos e rápidos na escada e notei meu pai correndo até mim, o semblante preocupado e sério. 
- Maria, vamos! – ele me agarrou pela mão e me fez levantar, deixando o cobertor cair no chão. O garoto olhou para o meu pai e franziu as sobrancelhas, mas finalizou o seu jantar antes de pôr o prato de lado. 
- O que aconteceu, pai? – perguntei assustada. 
- Você não está ouvindo as sirenes? – ele me olhou bravo e eu empalideci. – Precisamos ir para o abrigo, os ingleses estão atacando! 
Arregalei os olhos e dei alguns passos em direção à escada, mas em seguida parei e percebi que os olhos castanhos do menino estavam colados em mim. Eu estava indo para o abrigo, mas e ele? Ficaria aqui, escondido? Sozinho? Era apenas uma criança, assim como eu! E se a nossa casa fosse destruída? E se ele...? 
- Pai, não podemos deixá-lo aqui! – comecei a falar desesperada, querendo descer as escadas, mas papai não me deixou. 
Olhei dele para o garoto, assustada e triste. Não queria que isso estivesse acontecendo. Nada disso. Era desumano... era cruel. Ninguém merecia passar por uma coisa dessas. Ninguém. 
Embaixo da escada, o garoto pareceu perceber o meu desespero. Durou meio segundo, mas foi o bastante para que eu o visse me dando um meio sorriso e balançando a cabeça em negativa, para em seguida esconder-se atrás da bandeira. 
- Não, não, não! – gritei. 
Depois daquilo, tudo ainda me parece confuso. Lembro-me de que papai me carregou no colo e correu comigo para o abrigo, do lado de fora da casa. Minha mãe estava lá, assim como algumas pessoas da vizinhança, e o local era tão pequeno e estava tão cheio que eu quase fiquei agoniada. 
Agarrei papai com força com meus joelhos e minhas mãos, e lembro que senti as lágrimas pingando de meus olhos. Era injusto. E se quando o ataque acabasse eu descobrisse que a casa havia sido atingida e que o menino estava... estava... Não. Só de pensar nisso já fazia com que eu quisesse chorar mais e mais, e parecia que havia alguma coisa apertando a minha garganta, era agonizante. 
Fui para o colo de minha mãe quando papai me largou para que pudesse trancar a porta. Lá dentro era escuro e apertado, mas tratei de tentar me controlar, porque não gostava de ficar chorando na frente dos outros. 
Uma das mulheres que estava ali dentro passou a mão pelos meus cabelos, afagando-os. Outras trocaram algumas palavras com mamãe, dizendo que entendiam essa minha reação de susto e estresse com tudo o que estava acontecendo quando eu era apenas uma criança. O pior é que elas falavam isso na minha frente. 
Mas o que era meio irônico era o fato de eu não estar chorando por mim, ou pela minha família, ou com medo de morrer, mas sim por um garoto escondido no porão da minha casa e o qual eu não sabia nem mesmo o nome. 
Ficamos a noite inteira ali trancados até que dessem o sinal de que estava tudo liberado e que o ataque aéreo já havia passado. Eu tinha adormecido, mas quando papai abriu a portinhola fui uma das primeiras a sair para ver se a minha casa havia sido destruída, e fiquei aliviada quando vi que isso não tinha acontecido. 
Tive que esperar as pessoas irem para suas casas para finalmente poder entrar na minha própria sem que desconfiassem. Quando o fiz, saí correndo até o porão e arrastei a bandeira para o lado, querendo achá-lo, mas ele não estava ali. Joguei-me no chão e bati os punhos no alçapão de madeira, quase chorando, até que ouvi um barulho e o garoto saiu de lá, me olhando um pouco assustado. 
Joguei-me em seus braços sem nem pensar duas vezes, e o impacto foi tão grande que ele quase caiu no chão – se houvesse espaço para isso. Ele deu alguns tapinhas nas minhas costas, mas não cortou o abraço, e eu só o larguei quando aquela angústia havia saído de meu peito. 
Graças aos céus, ele estava vivo. 
Vi aquilo como um presente de natal, apesar de na época estar faltando ainda um mês e alguns dias. É por isso que agora, em dezembro, nessa carta (ou relato), não me atrevo a pedir nada. Nem brinquedos, nem livro e nem roupas. 
Apenas um pouco de paz. 

Um ótimo natal a todos nós e ate o próximo!

Maria.

                                                                                                                                                                   .


Notas Finais


Eae gostam? espero que sim.
BotMagia chegando... altas tretas vão rolar então esperem
Deixe ai nos comentários o que vc achou.
Bjjs e ate a próxima.


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