História Eye of hurricane - Capítulo 27


Escrita por: ~

Postado
Categorias One Direction
Personagens Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Niall Horan, Personagens Originais, Zayn Malik
Tags Drama, Niall Horan, One Direction, Suspense
Visualizações 38
Palavras 5.146
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela, Suspense
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Amo esse capítulo e espero que vocês gostem também. Boa leitura xx

Capítulo 27 - Long way down


Fanfic / Fanfiction Eye of hurricane - Capítulo 27 - Long way down

Não consigo dormir a noite. Não depois de tudo que Niall me contou. Passo a noite buscando falhas e erros em sua história, tentando desesperadamente provar para mim mesma que ele está mentindo. Que minha mãe amava meu pai. Que ela perdeu a vida devido a ganância de dois homens que agora apodrecem na cadeia, e não por causa da fúria de meu pai. Mas algo dentro de mim corrói e gira e grita que não tenho mais como me livrar disso. Que não tenho como escapar dessa terrível realidade que me atinge. E isso me deixa tão assustada e nervosa que acabo arrancando alguns fios de cabelo por pura frustação. Niall não aparece no dia seguinte em momento algum, apenas James e Jason, que como sempre não perde a oportunidade de me provocar e humilhar. Na tarde seguinte, porém, ele aparece mais furioso que o normal, batendo a porta e pisando fundo, extremamente irritado. Jason praticamente joga a comida em cima de mim, fazendo com o que suco gelado caia em minha camisa e me faça arfar e pular. Ele ri impiedosamente e me olha com nítido desprezo.

- Nada que você não mereça, putinha.

E sai sem dizer mais nada, quase arrancando a porta da parede pela força que a bate. Fico me perguntando se ele e o pai descobriram que Niall me tirou do quarto, deixou que eu tomasse banho e me alimentou, para estar tão bravo assim, além do sumiço de Niall. Mas não firmo muito meus pensamentos nisso. Niall não apareceu porque não liga para mim e nem faz questão de saber como eu estou. E isso, a esse ponto da história, não é nenhuma novidade.

Durante mais uma noite em claro, tenho uma lembrança que faz com que eu me sente em meio a escuridão e tente a todo custo enxergar alguma claridade vindo da lua lá fora.

Eu devia ter mais ou menos oito anos e Danen ainda era um bebê. Nossa mãe nos arrumou e saiu para nos levar ao parque. Lá, se sentou no banco ao lado de uma mulher alta e loira, por sinal muito bonita. Mamãe não me disse quem era, apenas pegou meu casaco e deixou que eu fosse brincar nos brinquedos, onde apenas dois garotinhos brincavam. Um estava de pé sobre o balanço, perigosamente tentando escalar a corrente do brinquedo enquanto se balançava. A mulher loira gritou para que ele parasse, e reclamando, ele saltou de lá e começou a se pendurar nos arcos envolta do parque. O outro garoto estava brincando no escorregador, subindo e descendo várias vezes seguidas, sem parar, como se nunca se cansasse. Tinha os cabelos loiros em um topete e quando me aproximei para brincar no mesmo brinquedo, me cumprimentou com um sorriso de dentes tortos. Naquela tarde brincamos juntos, a mulher loira e minha mãe não paravam de conversar e rir juntas, e compraram sorvete e algodão doce para nós. Aquela tarde, porém, era muita mais que uma simples tarde no parque na qual você faz amigos de momentos. Aquele era o primeiro e único contato de que me lembro ter tido com os Horans.

De repente algo mexe na porta e pulo de susto. Fico olhando para a fechadura sendo aberta e meu coração acelera. Quem será? E o que quer aqui no meio da madrugada? Me encolho no meio das cobertas e espero, o coração retumbando no peito. Confesso que sinto uma ponta de alívio quando a luz é acessa e com os olhos semicerrados vejo Niall entrar.

- Niall? - pergunto sem fôlego, notando seu olho direito roxo - O que aconteceu?

Niall para a minha frente e se abaixa, seus cabelos uma verdadeira bagunça e seu rosto aparenta cansaço.

- Seu olho... Você está bem? - sussurro, resistindo ao impulso de erguer a mão e tocar seu olho machucado. Niall assente brevemente com a cabeça e comprime os lábios, mas não diz nada. Enfiando a mão dentro do casaco ele puxa um envelope branco e me entrega.

- O que é isso? - pergunto, segurando o papel com mãos trêmulas. Niall me encara, seus olhos azuis agora parecendo tão tristes e apagados observando-me com cuidado. Ele lambe os lábios devagar e inesperadamente seus olhos ficam marejados.

- Eu menti sobre várias coisas Yarla, mas não sobre ter me apaixonado por você.

Fico paralisada. Tentando absorver suas palavras e seu significado enquanto ele se afasta e me deixa sozinha. Trêmula e com um aperto no estômago eu abro o envelope e tiro de lá duas fotos. Começo a chorar imediatamente ao ver que é Danen nas fotografias, sentado no quintal de casa junto com Jenny. Seu cabelo cai pelos olhos e ele parece distante, triste. Apesar disso me sinto imensamente feliz ao ter uma prova concreta de que ele está bem, ainda que fisicamente. E foi Niall quem me proporcionou isso à meu pedido. Será que isso significa que ele realmente passou a sentir algo por mim com o tempo? Ou seria esse apenas mais um de seus joguinhos? Não, será que ele seria capaz?

Simplesmente odeio não saber de nada e ter essa dúvida me corroendo por dentro. Mas de repente uma ideia me ocorre. Meu pedido para Niall. Seu sumiço. O nervosismo de Jason e do James. O olho roxo de Niall. As fotos.

Sinto um aperto no coração quando a suspeita se forma em minha cabeça. Talvez Niall tenha apanhado de Jason ou de seu pai por minha causa. Ele pode muito bem ter ido atrás das provas que pedi e para isso precisou se arriscar; os Horan descobriram e por isso o bateram. Essa é a única explicação que consigo imaginar, e apesar de tudo que aconteceu, me sinto culpada. Ainda que Niall tenha sido um completo babaca comigo, ele enfrentou seus companheiros e levou aquele soco para provar algo unicamente para mim. Aperto as fotos contra o peito sentindo a intensidade do choro aumentar. Talvez não tenha sido tudo uma mentira. Talvez Niall tenha mesmo sentido algo por mim, por menor que fosse o sentimento. Talvez.

Mas na manhã seguinte nada disso importa mais, porque tomo uma decisão durante a noite. Não durmo, assombrada por pensamentos que não param de zanzar de um lado para o outro em minha cabeça.

Sou a moeda de troca que os Horan's possuem em mão e que em muito em breve usarão para atingir meu pai. Depois de armarem tudo isso, o que eles querem é mais que apenas colocar meu pai atrás das grades. Essas pessoas irão matar o meu pai, e a culpa será toda minha. A culpa de Danen perder o pai será minha, já que quem deixou que Niall se aproximasse e se inserisse com tanta facilidade em nossa casa e nossas vidas fui eu. E sei que esse é um peso grande demais para que eu possa carregar. Por isso, chego à conclusão de que se os Horan's me perderem, há então grandes chances de meu pai e Danen seguirem com suas vidas. Sei que eles ficarão arrasados em um primeiro momento, mas com o tempo a dor diminuirá e eles serão felizes. E de qualquer forma estou tão cansada, tão arrasada com tudo que aconteceu, que não sinto como se estivesse realmente me sacrificando. Estou tão cansada do que minha vida se tornou, tão amedrontada com o que ela ainda pode se tornar, que sinto como se dormir para sempre não fosse algo tão ruim. Na verdade, chego a pensar que será libertador.

Como imaginei, no dia seguinte Niall vem me buscar para tomar um banho quando seu pai e seu irmão não estão. Ele me entrega um par de toalhas e me surpreende com roupas íntimas e roupas normais limpas. Uma calcinha e um sutiã pretos, uma calça escura e uma blusa de frio de gola alta.

- Obrigada. - agradeço baixinho, me obrigando a elevar os olhos para o loiro. Ele está usando uma camiseta azul e calças jeans apertadas, o cabelo aparado atrás e nos lados, e aquele seu topete agora todo bagunçado na frente. Seu rosto exala cansaço e os olhos parecem berrar por uma noite de sono - além daquele que ainda está meio roxo.

- Tudo bem, leve o tempo que precisar. - responde baixo, sua voz quase um sussurro que mal ouço. Ele se inclina sobre mim por um único segundo, para abrir a porta do banheiro, mas isso é o suficiente para o cheiro gostoso de hortelã que ele exala se apossar de meu olfato e me levar a nostalgia. Sou puxada bruscamente para uma lembrança do dia em que fomos visitar meus parentes no interior, quando trilhamos aquele caminho até uma clareira e encontramos aquele penhasco. Lembro-me da sensação libertadora de poder olhar para toda aquela imensidão sem ter medo de cair ou ser arrastada pelo vento forte, porque Niall estava bem ali, logo atrás de mim, com seus braços me envolvendo e sua boca em meu ouvido. E eu me sentia extremamente feliz naquele momento, exatamente o contrário de como me sinto agora.

- Obrigada pelas fotos, não imagina o que elas significaram para mim. - sussurro com olhos marejados, desejando desesperadamente que esse pesadelo todo chegue ao fim. Desejando que a dor que esmaga meu peito e me puxa para baixo chegue ao fim. E chegará, tudo isso chegará.

Entro bruscamente no banheiro sem deixar que Niall responda, porque sei que não posso mais segurar o choro. Liberto minhas lágrimas ao ligar o chuveiro, as gotas quentes se confundindo com as gotas salgadas ao inundarem meu rosto. Choro por mim, choro por Danen, choro por meu pai. Choro pelo futuro que nunca teremos juntos. Choro pela dor de ter sido enganada pelo garoto que passei a amar. Sim, amar. A palavra é forte e o sentimento é ainda mais, portanto não posso negar que Niall conseguiu dominar meu coração e fazer dele sua morada. Pena que o ódio pelo qual ele foi alimentado por anos falou mais alto que qualquer sentimento que possamos ter sentido um pelo outro.

Por fim tomo meu banho, lavando meus cabelos com o xampu e condicionador que Niall arrumou para mim. Esfrego bem minha pele e me livro de toda e qualquer sujeira. Saio do box em meio a uma nuvem de fumaça, o corpo antes dolorido agora mais relaxado, o rosto inchado pelo choro. Apesar das roupas novas que me foram dadas, visto apenas as peças íntimas. Ao olhar no espelho dou de cara com uma garota de cabelos loiros encharcados e escorridos, olhos verdes opacos contornados por uma imensidão negra. O rosto pálido e amassado, os lábios ressecados e feridos. Ela está simplesmente um caco, mas o mais surpreendente é que não dou a mínima pelo fato de ela ser eu. Nunca antes dei a mínima para minha aparência, mas agora vejo que meu estado físico é apenas um reflexo de meu estado interior. Feio, cansado, uma verdadeira bagunça. Ao focar meus olhos naquele par de íris opacas sou levada ao verde brilhante dos olhos de Danen. Posso vê-lo recebendo a notícia, se sentindo traído e sozinho, coisa que, na verdade, ele jamais estará. E sei que Danen irá sofrer, não tenho a menor dúvida disso, mas também sei que a dor irá passar e que ele crescerá. Posso vê-lo daqui a bons anos em seu primeiro dia na faculdade, carregando caixas e mais caixas para seu dormitório e em uma dessas viagens acabará esbarrando em uma garota. Garota essa que lhe ajudará a se adaptar a faculdade e mais tarde se tornará sua namoradinha. Para ficar bonito e agradá-la, ele parará de enrolar para ir cortar sua juba loira que insistirá em cair sobre os olhos.

Em futuro ainda mais distante posso ver meu pai todo grisalho, adentrando uma casa bonita e arrumada que agora pertence a Danen e a sua esposa. Quando Dexter se sentar ao lado de Danen no sofá, uma garota com enormes cabelos loiros aparecerá correndo com uma bolsa de bonecas no braço, ansiosa por ver o avô. E quando meu pai abraçar a pequena Yarla, sei que eles se lembrarão de mim.

Posso ver também Harry comprando seu tão sonhado carro e viajando com a namorado para a praia, pra longe do frio da Finlândia do qual ele tanto reclama. Styles também sentirá minha falta, e se lembrará de mim toda vez que parar em uma cafeteria e ver meu sabor preferido no cardápio. Ele e Pia me odiarão quando souberem, me amaldiçoarão por toda a eternidade, mas nunca vão saber que o que fiz foi por um propósito ainda maior. Pia sairá em um mochilão pela Europa assim que terminar o Ensino Médio, e continuará se aventurando até descobrir a que lugar e a que profissão ela pertence.

Com mais lágrimas escorrendo pelo rosto, garanto a mim mesma que não só Danen, Pia e Harry, mas todos com os quais me importo darão continuidade a suas vidas depois que o choque a tristeza de me perder passar. Chorando eu abro o armário e tiro os dois vidros de remédio, entornando todas as pequenas pílulas em minha palma. Afirmo para mim mesma que tudo ficará bem, então com a mão trêmula jogo os comprimidos na boca.

 

Niall Horan Pov

 

Calmamente levo a caneca aos lábios e beberico mais um gole do café que fiz para Yarla. Faz mais de vinte minutos que a deixei no banheiro para tomar seu banho e espero pacientemente porque imagino como ela possa usar o banho para relaxar um pouco.

Desde aquele dia, aquele maldito dia onde todo esse inferno começou, posso ver uma tensão sempre constante nos músculos da garota. É óbvio que ela ficaria assim com tudo que tem acontecido; sua descoberta de minha traição, os dias e noites naquele porão horrível, deixar Danen para trás e descobrir a verdade sobre seu pai. É muita coisa para qualquer um absorver e tudo tem se refletido fisicamente e psicologicamente nela. A garota está nitidamente mais fraca e não se queixa, mas posso notar como sofre com as constantes dores de cabeça. Está sempre trêmula, aérea e se assusta toda vez que alguém abre a porta. Além disso, seu rosto sempre tão belo e alegre agora exalam olheiras intensas e uma tristeza que me deixa sem ar.

Os estragos psicológicos não são tão fáceis de ver, mas dá pra se imaginar a intensidade. Do lado de fora do quarto ouço-a chorar na maior parte do tempo em que está sozinha e isso simplesmente parte meu coração o tanto quanto ainda é possível. Nunca imaginei que botar nosso tão esperado plano em prática me causaria tanto sofrimento; era óbvio, mas fui burro demais para enxergar isso antes de ter minha vida piorada ainda mais. Assistir a Yarla sendo maltratada por Jason e meu pai; tratada como um simples objeto de troca amarrado aquele colchão e saber que a culpa é toda minha me sufoca. Não consigo mais dormir, tenho dificuldades em engolir qualquer alimento e a vontade de beber está quase sempre presente. Me sinto um verdadeiro traidor, um mentiroso da pior espécie, o pior dos homens. No silêncio da noite me flagro aos prantos, desejando mais que tudo desaparecer para que assim consiga parar de decepcionar e fazer sofrer as pessoas com as quais me importo. Sinto-me tentado a encher a cara, injetar uma dose ou atirar em mim mesmo para fazer com que tudo isso pare. Apenas pare.

Jason e meu pai já não veem tanta certeza em mim e tentam me convencer de que estou fazendo o certo, em honra de minha mãe. Na maioria das vezes funciona, mas só por um tempo. Logo toda a culpa e os sentimentos massacrantes voltam a invadir meu peito e toda e qualquer argumentação não são o suficiente para me acalmar. A única coisa que ainda me mantém aqui, é saber que sou a única esperança para que Yarla consiga sair daqui bem e em segurança.

Mais uma vez estou perdido em pensamentos que vem e vão e que nunca param.

Sinto meu coração apertando de uma forma ardente, um arrepio gelado percorre minha espinha e fico sem ar. Ao olhar para o relógio literalmente pulo da cadeira ao perceber que já se passaram mais de meia hora de que Yarla está naquele banheiro. Em passos largos vou até a porta e bato duas vezes.

- Yarla? - espero, em vão, por alguma resposta. - Yarla!

Mas não ouço sequer um ruído lá dentro e isso é estranho demais.

- Yarla? - bato mais duas vezes seguidas. Será que a garota deixou o cômodo enquanto eu estava distraído e está tentando fugir?

Abaixo a maçaneta e empurro a porta. Trancada. Ela ainda está lá dentro.

- Yarla! - agora estou realmente gritando, batendo os punhos com força contra a porta. Não ouço resposta alguma e medo e desespero tomam conta de mim. Com a respiração e coração acelerando corro até a cozinha e pego a cópia da chave sobre a geladeira. Corro de volta para o banheiro e destranco a porta com dificuldade. Quando ela se abre e vejo o que vejo, é como se todo o mundo fosse puxado de meus pés. Sinto uma pontada no peito e um aperto no estômago; meu corpo fica bambo quando a terrível realidade me atinge. Yarla está no box, sentada no chão com a cabeça pendendo, dois vidros vazios de remédio em suas mãos.

- Yarla... - abro o box e me ajoelho em frente a ela, sem me importar que minhas calças se molhem. Ergo o rosto da garota e sinto uma pontada de alívio ao ver um pincelada de seus olhos verdes sob as pálpebras pesadas. - Yarla, o que foi que você fez?

Os olhos verdes se direcionam brevemente para mim e elas os fecha. Sinto algo grosso escorrendo por meu rosto e atingindo meus lábios, o gosto salgado que invade minha boca me informam ser minhas próprias lágrimas. Puxo o corpo bambo da garota para mim e seguro sua cabeça, então forço-a a abrir a boca e coloco dois dedos em sua garganta. Quase que instantaneamente um líquido quente e esbranquiçado salta da boca de Yarla, escorrendo por entre meus dedos. Ela tosse e tomba para frente, mas seguro firme em sua cintura e a puxo para mim. Aperto seu corpo molhado e frágil contra o meu, que balança em soluços de puro medo. Sem pensar duas vezes eu envolvo o corpo inerte e bambo da garota e a pego no colo, alcançando apenas uma camisa limpa e a chave do carro antes de deixar a casa alugada. Coloco Yarla no banco de trás e a enfio de forma desleixada em minha camisa grande. Enquanto puxo a peça para baixo percebo que ela apagou totalmente e isso me alerta sobre ir mais rápido, pois em uma situação como essa, um minuto pode ser decisivo.

Tomo meu lugar e ligo o motor, obrigando a mim mesmo a respirar fundo pelo menos uma vez antes de dar a partida.

Não sei como, mas consigo chegar ao hospital com o carro inteiro. Estaciono na primeira vaga que vejo e volto a pegar Yarla, que agora está bem mais pálida do que antes. Corro para dentro do hospital e grito por ajuda como um perfeito maluco desesperado.

- O que ela tem? - uma mulher loira e alta se aproxima de mim, analisando Yarla com os olhos e acenando para alguém.

- Ela... Ela engoliu um monte de remédios. V-você precisa me ajudar, ela não pode... Tire esses remédios de dentro dela. Por favor.

Meus lábios voltam a tremer e preciso parar de falar antes que eu volte a chorar.

- Tudo bem, está tudo bem. Nós vamos cuidar dela ok? Vamos levá-la para dentro e então preciso que fique aqui e faça a ficha dela.

Dois enfermeiros se aproximam  e juntos colocam Yarla em uma maca. Noto os lábios secos e roxos da garota, o cabelo molhado grudando na testa.

- Não, por favor, me deixe ir junto. Preciso ficar ao lado dela, eu não posso decepcioná-la... - imploro para a mulher, sem me importar em como pareço um fraco desesperado.

- Precisa cuidar da ficha dela para que ela possa permanecer no hospital, são as regras. Faça isso e logo poderá estar com ela. - a mulher coloca uma mão em meu ombro e sorri gentilmente. - Vamos fazer o melhor que pudermos. Eu prometo.

(...)

Inquieto em uma cadeira dura eu completo a ficha de Yarla com todas as informações corretas que sei, porém na data de nascimento preciso mudar pelo menos um número. Apesar do desespero e do medo, felizmente meu cérebro me alerta sobre o fato de ela ser menor de idade e precisar de um acompanhante para ser atendida. Então minto mais uma vez. Entrego a ficha para a mulher e ela a coloca em meio a uma pilha, indicando para onde posso ir agora. Subo a enorme rampa que leva para o segundo andar e alcanço a porta da sala de emergência, me sentando no parapeito da janela mais próxima. Encarando as letras vermelhas que denunciam urgência, sou levado ao momento exato em que vi Yarla naquele box e achei que a tivesse perdido para sempre. Pensar que ela havia morrido, ainda que por alguns segundos, me fez descobrir algo que eu certamente não conseguiria sozinho.

Me fez descobrir que amo Yarla Mier.

Sim, eu amo aquela garota e simplesmente não há como negar isso. Pela primeira vez me apaixonei por uma garota e consegui machucá-la e feri-la ao ponto da mesma desejar dar fim a sua vida. Assim como meus sentimentos, sou extremamente tóxico; uma figura que exala decepção e tristeza. E nunca antes me senti tão mal em ser eu mesmo. Zayn estava certo quando disse que essa história não acabaria bem, e me sinto mil vezes pior por não tê-lo escutado. E se Yarla morrer... Se ela morrer sei que não conseguirei prosseguir. A culpa e a tristeza se apossarão inteiramente de mim, me consumindo até que tudo dentro de mim esteja vazio e oco. Se Yarla morrer, jamais perdoarei a mim mesmo.

- Ah Deus, por favor, não deixe que ela morra. - murmuro desesperado, pressionando as palmas de minhas mãos contra o rosto para abafar o choro.

Sinto-me tão mal e tenso que sem perceber começo a bater a cabeça contra a parede, até começar a chamar atenção demais e a mesma enfermeira loura vir até mim.

- Como ela está? - pergunto baixinho, a voz embargada.

- Estamos fazendo uma lavagem estomacal mas ainda não temos noção da intensidade dos estragos que os comprimidos podem fazer no organismo dela. Mas você está muito nervoso...

- Niall.

- Você está muito nervoso Niall, precisa se acalmar. É o namorado da paciente?

A pergunta faz minhas lágrimas aumentarem. Balanço a cabeça ao comprimir os lábios.

- Eu sou só... Só...

Mas volto a chorar antes que consiga finalizar a frase. Sou só um idiota que destruí a vida dessa garota.

- Tudo bem, tudo bem. Aguarde aqui um instante.

A loira me deixa chorando e volta minutos mais tarde com um copo de água e um comprimido pequeno.

- Beba isso.

É um calmante que tomo de bom grado. Faço qualquer coisa para ser levado dessa terrível realidade.

(...)

Depois de vários cochilos e apagões, acordo por definitivo. Minhas costas doem, meus olhos mal se abrem e minha boca está seca. Saio pelo corredor em busca de um copo de água e beberico a água devagar, ainda catatônico enquanto encaro o piso branco. Em poucas horas Jason e meu pai voltarão para a casa onde eu deveria estar com Yarla, e quando não nos encontrarem eles surtarão. Não estou com meu telefone aqui mas sei que eles me encherão de mensagens e ligações. E sei também que ficarão furiosos quando descobrirem que Yarla não voltará para lá, porque simplesmente não permitirei que ela volte. Depois do que aconteceu hoje, não contribuirei com mais nada que possa fazer essa garota ou seu irmão sofrerem. Ainda que Jason e meu pai me odeiem pelo resto da vida ou até queiram e tentem me matar, qualquer coisa é melhor do que sentir a dor cortante e fervente que massacra meu peito.

Então com esse novo propósito em mente, começo a traçar meus planos daqui pra frente.

- Você é o Niall? - um homem negro, magro e de cabeça raspada vestindo um jaleco branco chama minha atenção. Ergo os olhos e balanço a cabeça. - Sou o Dr.Alison e estou cuidando do caso da paciente Yarla... Mier. Podemos...?

Fico imediatamente de pé e me aproximo.

- Sim, como ela está? - pergunto apreensivo.

- Tudo o que era possível ser feito para trazê-la a ativa imediatamente foi feito Niall; fizemos a lavagem estomacal e tudo o mais mas infelizmente os remédios já haviam começado a fazer efeito. Ela não reage, está em coma e precisamos entuba-la.

As palavras do homem são como socos fortes em minhas costelas, me fazendo curvar de dor.

- Ela vai...

- Ainda não podemos afirmar nada, precisamos esperar até que o efeito dos remédios passem para que vejamos como seu corpo e seu organismo irá reagir.

Mordo meus lábios com força.

- Eu posso vê-la? - sussurro praticamente implorando.

- É uma ótima ideia. Converse um pouco com ela, talvez ela consiga ouvir você e isso a ajudaria a acordar.

"Ou a fará querer dormir para sempre" meu cérebro me repreende. Balanço a cabeça assentindo.

- Obrigada Dr.

- Mais uma coisa Niall. - volto a olhá-lo - Se for mantê-la nesse hospital, precisamos que dê uma olhada nos preços.

 

 

Abro a porta do quarto devagar e entro com cuidado, me aproximando da cama silenciosamente. O quarto é escuro e exala um ar frio; preenchido com uma cama, uma cadeira simples, um armário branco e vários aparelhos próximo a cama. Yarla está deitada com um cobertor cobrindo abaixo de seus seios, usando uma camisola azul clara que certamente acharia horrorosa se pudesse vê-la. Em seu braço direito há dois curativos de onde saem dois fios brancos, um levando a uma bolsa de soro, outro a algo que não faço ideia do que seja. Seus cabelos agora secos escorrem pelas laterais da cabeça e o rosto pálido se esconde debaixo de um cateter que a ajuda a respirar. Ela parece tão fraca, frágil e pequena que sinto a necessidade de me sentar nessa cadeira e nunca mais sair, disposto a protegê-la do que quer que possa ameaça-la. Mas na verdade sua grande ameaça sou eu e as pessoas de meu sangue, por isso preciso me sacrificar, pelo menos uma vez, pela vida e felicidade desta garota.

- Ei você. - sussurro, puxando a cadeira para mais próximo da cama e me sentando. Estico meu braço e pega a mão da garota, sua palma fria e as unhas mal feitas. - Não sei se você pode me ouvir mas há algumas coisas que preciso te dizer agora, antes que mais uma vez seja tarde demais.

Engulo com dificuldade e molho os lábios, subindo a ponta de meus dedos pelo braço fino e acariciando seu cotovelo.

- Precisa saber que sinto muito Yarla, por tudo. Realmente sinto muito por toda dor e sofrimento que te causei, eu... Eu sou um idiota, você sabe disso. Mas só percebi o quanto você realmente significa para mim tarde demais, agora que não posso mais voltar a trás.

Lágrimas escorrem por minha bochecha, minha voz um sussurro pesado que compete com o bip da máquina.

- Quando vi você naquele box... Não sabe o quanto é duro ter que lidar com essa culpa, ver que você chegou ao ponto de tirar sua própria vida por minha culpa.

Não suporto a dor que transborda de mim e me curvo para frente, apoiando a testa no quadril da garota e deixando que os soluços infinitos me balancem mais uma vez.

- E eu amo você. - admito entre um soluço e outro. - É difícil até para mim mesmo acreditar nisso, mas eu amo você. Me apaixonei pela garota incrível que você é e para sempre carregarei a dor de ter te machucado tanto. Mas você não pode desistir Yarla, há muitas pessoas que se importam com você. Precisa acordar por Danen, precisa estar ao lado dele vendo-o crescer. Precisa acordar para ter a vida incrível que você merece e terá.

Apoio meus cotovelos na cama e seguro meu rosto nas mãos.

- Daqui a algum tempo você vai conhecer um cara. Não um babaca do ensino médio como Brian e eu, mas um cara legal. E esse cara vai saber valorizar você e suas qualidades; vocês se apaixonarão e ele te tratará como você realmente merece. Ele vai te levar a lugares legais, pouco a pouca ganhando seu coração até que você o ame. E ele será merecedor do seu precioso amor Yarla. Ele te pedirá em casamento cedo demais mas você não vai se importar, porque está apaixonada. Então Danen irá morar com vocês em uma casa nova, mas só até entrar em uma banda e sair de casa. Sim, aquele cara tem jeito de que uma hora ou outra irá parar em uma banda.

Permito-me rir, apesar da dor de imaginar Yarla com outro ser dilacerante.

- E quando se lembrar de mim espero que não sinta mais tanta raiva, mas sei que a pena é inevitável. Pena desse infeliz que viveu por anos guiado pelo ódio. - balanço a cabeça, desapontado comigo mesmo - Mas você fez muito por mim Mier, mesmo sem perceber fez uma mudança em mim porque me possibilitou amar de novo.

Levo sua mão aos meus lábios e beijo os dedos gélidos.

- Enquanto eu te quebrava você me restaurava e vou ser eternamente grato por isso. Vou fazer tudo o que puder para ajudar você agora, e espero fazer da forma certa.

 

Respirando fundo eu tiro o único anel que uso no dedo do meio e coloco com cuidado no dedo de Yarla. Fico de pé e me aproximo de sua cabeça, encarando-a por bons minutos na esperança de absorver e guardar seus belos traços. Por fim me inclino e beijo suas bochechas, sua testa e seu lábio, sabendo que essa será a última vez. Com um suspiro profundo deixo o quarto e consigo um papel e uma caneta, onde anoto o nome de Yarla, sua data de nascimento correta e o número do telefone de sua casa. Espero uma oportunidade e enquanto a mulher da recepção atende à uma senhora, deixo o papel em que escrevi sobre o balcão e corro para o carro.

Antes de dar a partida dou uma última olhada no hospital, imaginando que independentemente de Yarla acordar ou não, nunca a verei novamente.


Notas Finais


Não deixem de dizer aqui embaixo o que estão achando. Vejo vocês em breve. Beijos!


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