História Fada Corrompida - Capítulo 11


Escrita por: ~

Postado
Categorias Fairy Tail
Visualizações 98
Palavras 4.249
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Famí­lia, Fantasia, Ficção, Magia, Mistério, Romance e Novela, Violência
Avisos: Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 11 - Essência das coisas


Fanfic / Fanfiction Fada Corrompida - Capítulo 11 - Essência das coisas

— Demorou! — Lin falou fazendo uma trança no próprio cabelo — Vamos logo. A elegância está valendo a partir de hoje.

— Eu sei… — falei resmungando.

Capítulo Onze — Essência das coisas

Lin amarrou a corda no meu pulso,e eu fiz o mesmo com ele.

Eu lembrava como dançar valsa, afinal isso foi uma das primeiras coisas que aprendi. 

Dessa vez eu caia menos, e a maioria das vezes que ia pro chão eu conseguia, milagrosamente me estabilizar usando a corda, para me dar apoio. Lin parou o treino algumas vezes (entre vinte ou trinta, mais ou menos) me chutando por “pecar contra a elegância”.

— Comparado ao resto da semana você melhorou. Pausa pro almoço. — Lin falou desfazendo a trança no cabelo e tirando a corda do pulso.

— Você me elogiou! — falei surpresa.

— Não elogiei! Só falei que melhorou. Passou de deselegante para desleixada. — ele falou se afastando.

Onde no mundo isso seria melhor? Se Lin falar alguma coisa de mim sem que venha com alguma alfinetada ou indireta escondida, eu realmente iria desconfiar.

Suspirei e entrei na sala de jantar. Olhei ao redor. Todos estavam ali, menos…

— Onde Maya está? — perguntei me sentando entre Sahar e Riza. Me servi e comecei a comer.

— Ela ainda está dormindo. — Liza falou abaixando os talheres — Mas provavelmente ficará bem. Agora você pode parar de fazer coisas desagradáveis.

— Você é desagradável, e ninguém nunca reclamou… — Sahar reclamou baixinho no meu lado.

— Lucy! — Arata me chamou do outro lado da mesa — Você dormiu no meio da história ontem!

Soltei uma risada sem graça.

— Desculpa. Do que estávamos falando? — perguntei.

— Suas missões fracassadas.

— Minhas missões não eram fracassos! — reclamei parando o garfo no meio do caminho até minha boca — Só perdíamos metade das recompensas por causa da destruição que meus companheiros de time causavam.

Algumas pessoas na sala soltaram risadinhas.

— Fracasso é fracasso, você querendo ou não, vadia! — Kira falou.

— Certo, certo! Eu não vou argumentar com você! Tenho certeza que vai ficar irritado se eu tentar argumentar.

— Boa escolha.

— Bitch, bitch, pro seu próprio bem, pare de falar! Se quiser conversar, faça isso depois! — Hasan falou irritado sem me olhar.

— Desculpa… — sussurrei voltando a comer.

— Eu gostaria de escutar essas histórias depois, senhorita Lucy. — Riza falou sorrindo, que foi retribuído por mim rapidamente. Sahar encolheu os ombros ao meu lado, parecendo querer falar alguma coisa… A próxima a ser incomodada com minhas visitas vai ser ela.

— Terminei, vou escovar meus dentes. — falei me levantando.

— Pare de comer tão rápido! — Lize falou cansada — Se você passar mal eu vou ter que cuidar de você!

— Haha, tomarei cuidado. — falei levando meu prato pra cozinha e o colocando na pia.

Após escovar meus dentes eu voltei pra área de treinamento, amarrei a corda no meu pulso com dificuldade e esperei o Lin.

— O nó está frouxo. — ele falou se aproximando.

— Ah… Certo.

Lin puxou a corda e refez o nó antes que eu tivesse a chance de fazer tal coisa. Amarrei a corda no pulso dele e voltamos a treinar.

Perto das três da tarde eu consegui pegar ele e fugir por dez segundos… O que era excelente.

— Muito bom… — Lin falou arqueando uma das sobrancelhas — Está melhorando.

— Um elogio escondido de novo. — sussurrei e ganhei, literalmente, um pé na bunda.

— Eu ouvi, mulher!

— Sinto muito. — falei quase chorando de raiva.

Suspirei e corri pra cima de Lin, ele desviou pela direita e de alguma forma usou a corda pra me derrubar.

— Levante.

Me levantei e suspirei de novo. Me lançando pra cima de Lin.

Preciso de elegância. De equilíbrio. De força. De direção. De velocidade. Preciso prever os movimentos dele.

Lin já tem tudo isso… Lin é incrível de qualquer ponto que se olhe. Não só ele. Yakov, Isana, Sahar, Riza… Todos são incríveis. Eu tenho que ralar muito pra conseguir ultrapassar eles e então desfazer essa porcaria toda.

Eu tenho que ser forte e desfazer a barreira. Ser forte e conseguir abrir as portas do mundo celestial pra eles. Tenho que tirar todo esse ódio deles.

— Pare de sonhar, idiota! — Lin falou me derrubando de novo, só que dessa vez a corda ficou enrolada nos meus tornozelos. Lin pisou no meu peito e fez pressão, se apoiando em cima do próprio joelho, se inclinando sobre ele para me olhar — Você não tem tempo pra ficar pensando nos seus amigos lá de cima! Se concentre em nos tirar daqui! — ele rosnou com raiva.

Mal sabe ele que eu não penso nos meus “amigos lá de cima” a algum tempo. Somente meus amigos celestiais, que estão com o destino incerto. Não sei se estão com aquela mulher, ou então com a guilda… Isso me preocupa profundamente.

— Eu sei… — falei sem ar.

— Eu não estou te treinando por que quero te ajudar. Estou te treinando pra mim conseguir sair daqui!

Lin tirou o pé de cima de mim, eu desenrolei as cordas dos meus tornozelos e me levantei. Meus músculos doíam, minha pele estava cheia de arranhões e cada centímetro do meu corpo doía.

— Sinto muito… Vamos de novo. — falei. Lin sorriu de canto.

E assim se seguiu até de noite, consegui pegar Lin uma ou duas vezes, mas não conseguia escapar por muito tempo.

O jantar correu lentamente, no silêncio quase absoluto, com alguns sussurros aqui ou ali. Me levantei antes que todos — coisa que já era comum — e fui para a “ala”dos quartos, parando na frente do quarto de Maya.

Suspirei e abri a porta, a fechando assim que entrei. Não me atrevi a me aproximar muito.

— Ei, Feles, a atmosfera da casa mudou… — falei me sentando no chão de pernas cruzadas — Todos parecem mais aliviados. Eles não estão preocupados com a Maya. Yakov me falou que ela tentou fazer você usá-la como hospedeira a alguns anos. Isso me surpreendeu, Maya. Ainda mais que você sabe pelo que eles passam... Mesmo assim você escolheu carregar esse fardo.

Um raio crepitou no meio do quarto. Dei uma risada abafada.

— Você não me quer aqui? Bem, isso é o esperado. Eu só queria ver como vocês dois estavam… — falei me levantando — Fiquem bem logo, ok? Eu quero tirar vocês daqui e mostrar as coisas boas lá de cima.

Suspirei e saí do quarto.

— Quer morrer, certo? Posso providenciar isso pra você.

— Kira... Eu queria ver como os dois estavam.

— Blé, eu não me importo. — Kira falou me mostrando a língua — Sabe que eles ainda podem te ouvir, né? Maya e Feles estão travando uma guerra louca pra dividir, ou então entregar o corpo para o outro!

— Eu sei disso… Mas…

— “Mas” nada! Shh! Quieta! Não se meta! Será melhor pra mim, pra você e pra tooooodo mundo, certo, vadia!?

— Ah, você é tão irônico. — falei com cansaço. Kira me olhou e balançou a cabeça com um sorriso falso.

— Eu tenho uma irmã mais velha idiota, boazinha e irritantemente bondosa! Eu tenho que ser mal, cruel e irônico em dobro!

— Isso é uma péssima desculpa. Não use sua irmã para justificar sua personalidade desagradável, Kira. — falei fazendo um X com os braços.

— Você tem coragem, seu mico dourado! Mas… É por aí. Usar a mana pra justificar é muito mais simples. — Kira falou dando de ombros. Fiz uma careta — O que há com essa cara, sua otária?

— Nada não… — falei desviando o olhar.

— Você mente muito mal, vadia! Isso vai ser ótimo quando eu precisar te torturar!

Kira passou por mim e entrou em uma das portas. Suspirei — eu tenho suspirado muito ultimamente — fui ao meu quarto, tomei banho e esperei algum tempo, até ter certeza que a maioria estaria dormindo.

Sai do meu quarto, dessa vez carregando um cobertor e fui até a porta do quarto de Sahar.

✩ ✩ ✩

Três meses se passaram desde então. E basicamente, as pessoas que queriam conversar comigo sempre recebiam uma visita minha a noite e ficávamos conversando por horas, com a porta dos quartos entre nós. Ayane, Yakov, Sahar, Riza, Arata, Isana e Shinobu. Todos conversavam comigo, embora de vez em quando uma outra ameaça era dirigida à mim. Pouco a pouco eles ficavam mais abertos comigo.

Lin estava pior que um carrasco. Um carcereiro. Um torturador. Mas começou a me dar dicas, o que tornava meu trabalho mais fácil. Tudo estava melhorando, eu conseguia fugir dele com elegância e por bastante tempo. Ele não tinha piedade… Mas ajudava como podia… Da maneira Lin de ajudar.

Maya ainda estava desacordada. Às vezes a estática no quarto dela ficava tão terrível a ponto de arrepiar os cabelos só abrindo a porta. Todos diziam que era assim mesmo, mas eu duvidava disso às vezes.

Desconfiávamos também que ela e Feles faziam um tipo de trégua para as necessidades básicas, pois vez ou outra as comidas que deixávamos no quarto sumiam e só sobravam ou restos, mas essas tréguas nunca aconteciam quando havia alguém por perto.

Contabilizando, eu estava no abismo a mais ou menos cinco meses. E eu, egoistamente, queria que todos na guilda estivessem preocupados comigo. De algum tempo pra cá eu comecei a sentir muita falta deles… Às vezes chegava a escorrer uma ou duas lágrimas.

— Você por acaso virou mendiga? — e assim meu dia começou, com Leon e seus comentários revigorantes — Sempre está dormindo no corredor. Isso é repulsivo

— Blé. — falei mostrando a língua.

Leon soltou um risada, como se me chamasse de idiota, e voltou a andar.

— Adivinha quem acordou?

— Tá brincando! — falei me levantando surpresa. Como era o esperado, Leon não me respondeu. Corri pra sala de jantar, o mais rápido que eu podia — Maya!

Maya parou com o bolo a alguns centímetros da boca e sorriu, levantando uma mão pra mim.

— Bom dia! — ela falou — Ah, eu estou com fome! Vocês nunca levaram nada de muito bom! E não era sempre que concordávamos em comer, sabem?

— Você está bem…? — perguntei sem me aproximar.

— Uhum… Eu e Feles nos entendemos. Ele ainda está irritado, mas… Decidiu apaziguar e ajudar. Pode chegar mais perto, eu provavelmente não vou te atacar. — ela falou sorrindo e tomando um pouco de café — Quente!

— Burra! — Arata falou rindo.

— O burro da casa é você. — Maya rebateu.

Inesperadamente o café aconteceu na sala de jantar. Lin cancelou o treinamento, por que aparentemente queria matar Maya, que tinha feito o cabelo dele armar — ele estava se referindo a duas semanas atrás, ou seja, Lin era, é e sempre será uma pessoa extremamente vingativa.

O café passou mais animado que o normal. Arata e eu ficamos bem próximos nos últimos meses. Arata sempre tentava me acordar antes dos outros e me ajudava no treinamento… Mas ele também era um pirralho, comparado a idade que ele tinha.

— Lin, o que eu faço hoje? — perguntei colocando mais um pouco de café na minha xícara.

— Hun… Morra. — arqueei uma sobrancelha — Não levante a sobrancelha pra mim, mulher! Vocês dois… — Lin falou se levantando devagar, olhando pra Maya — Vou queimar vocês até que virem uma pilha de cinzas.

Maya inflou as bochechas e seus olhos passaram para um azul elétrico.

— Já vivi uma experiência de quase morte! Não quero isso de novo!

— Bom dia, Feles. — falei sorrindo. Feles/Maya mexeu no cabelo albino, o bagunçando ainda mais, e depois me mostrou a língua, em uma atitude infantil.

— Eu vou treinar com a Lucy hoje! — Arata disse feliz. Seus olhos passaram para o roxo e ele desviou o olhar, tímido — Vamos nos esforçar…

— Ah, Muren! — falei feliz. Fazia tempo que eu não falava com ele.

Muren foi o primeiro (e até agora o único) que permitia que eu encostasse livremente no seu hospedeiro. Ele era complicado, apesar da timidez do ratinho, Muren era… Malvado.

Entretanto ele se encolhia inteiro quando Viper ou Draco estavam por perto. Viper, em especial, sempre fazia brincadeirinhas cruéis com o ratinho. Yakov parecia gostar e compactuava com Viper nas brincadeiras. Era engraçado, apesar de eu não concordar com isso. Yakov, no final, vinha falar comigo, se desculpando, dizendo para mim não ficar brava, enquanto soltava risinhos baixos e sibilantes.

— Muren ficou tão mansinho depois que a senhorita Lucy chegou. — Xiao falou com a cabeça deitada na mesa. Eu nunca havia falado com ela. Só “bom dia” ou então “boa noite”, mas nunca uma conversa direta.

— Sério?

— Não fiquei, seu frango assado! Eu vou cortar sua cabeça e fritar você! Vai ser o jantar da senhorita Lucy! — Muren falou em um tom baixo e ameaçador. Arata pulou da cadeira e correu pra fora da sala.

— Rato. — Xiao falou fechando os olhos.

— Terminei! — Maya falou suspirando.

— Está comendo a quase uma hora! Achei que ia zerar o estoque de comida da casa! — Ayane falou revirando os olhos.

— Ah, me dá um desconto, né. Eu sofri bastante! — Maya disse rindo.

Ela e Isana saíram juntos da sala, enquanto a maioria soltava uns risinhos.

— Vou atrás do Arata. — falei me levantando.

— Vou com você. — Kira falou sorrindo inocentemente (mas é o Kira, ele não tem nada de inocente).

— Não seja maldoso com ela, irmão! — Riza falou.

— Que isso, mana. Eu serei a melhor das companhias, certo, senhorita Lucy? — Kira falou enganchando o braço no meu pescoço, e o apertando a ponto de me tirar o ar e, literalmente, começar a me sufocar.

Desviei o olhar, desaprovando a ideia completamente, mas mesmo assim nós dois saímos atrás de Arata. Passamos pelo quarto dele, pela “sala de descanso” (onde Lin normalmente dormia depois do almoço) depois passamos na biblioteca (onde Leon passava a maior parte do tempo enfurnado) e por fim fomos procurar na “aldeia”.

— Eu detesto esse lugar. E pensar que algum dia esses caras foram perigosos… — Kira reclamou.

— Tem alguém que você conhece aqui? — perguntei sem interesse.

— Se tivesse eu iria fingir que não conheço. — Kira falou se espreguiçando.

— Suas relações com as pessoas são bem estranhas...

Kira me olhou e pensou por alguns segundos.

— Acho que sim... Bem, não me entenda mal, no fim, todos na casa são minha família. Menos você. — Kira disse. Revirei os olhos, mas fiquei quieta e esperei que ele continuasse — MAS, se, por exemplo, alguém da casa ameaçar minha irmã, eu mataria essa pessoa sem pestanejar. Não dou a mínima se a mana começar a me odiar… Só o que eu quero é protegê-la, ela é a pessoa mais importante pra mim. É só jogar tudo em uma balança, salvar minha irmã ou salvar qualquer outra pessoa da casa? A resposta pra mim é óbvia. Eu sempre vou preferir proteger minha irmã, ao invés de qualquer outro.

— Entendo… — sussurrei. Foi bom ouvir isso do Kira. Por mais estranho que fosse, era bom saber que ele se preocupava com os outros... Uns mais que outros, mas ainda sim se preocupava — Mudando de assunto, onde você nasceu?

— Família super rica e famosa na capital. — ele falou dando um bocejo — Mas eu acho que todos foram mortos… Algo com traição para com a família real… Ou algo assim. Eu era jovem demais na época, não lembro de tanta coisa assim. Enfim, não ligo!

— Eu também vim de uma família rica.

— Eu sei. Arata me contou. — Kira parou de andar e sorriu — Uma regra de convivência com aquele ruivo de merda. Nunca conte um segredo pra ele. Se quiser desabafar, desabafe com qualquer um menos ele, por que aquele imbecil não sabe guardar nada pra ele!

— Entendi… — falei rindo.

— Está espalhando mentiras sobre o Arata… Seu macaco sujo… — ouvimos uma voz perto de nós. Olhei para a direita e Arata estava escondido em um espaço entre duas tabernas.

— Mentiras? É a verdade, seu rato de merda.

— Lave sua boca pra falar comigo, seu pirralho.

— Quer brigar, seu merdinha!? — Kira rosnou com um sorriso, andando até o ruivo e o segurando pela camisa.

Soltei uma risada, fazendo os dois me olharem.

— Vocês me lembram dois colegas de guilda. Eles brigavam toda hora.

Kira suspirou e soltou a camisa de Arata. Muren pareceu entregar o controle do corpo novamente para Arata.

— Por aqui, Lucy! — Arata falou andando até um dos bares e chutando a porta — HEY TIO! MESA PRA TRÊS!

Eu corri até Arata, com Kira atrás de mim. Entrei no bar, sentindo o cheiro do álcool invadir minhas narinas.

O lugar era péssimo. Mesas simples espalhadas pelo lugar. Homens e mulheres lançando olhares… Maliciosos na nossa direção. Copos e garrafas espalhadas pelas mesas e pelo chão.

Senti uma mão em minha cintura, e ela desceu até mais embaixo, apertando uma de minhas nádegas. Antes que eu gritasse, Arata me pegou pelos ombros e Kira chutou o homem, o lançando em cima de uma mesa, a quebrando.

— Não toque nela! — Arata rosnou.

— Hey, hey, não quebre minhas coisas… — um homem no balcão disse cansado. Ele tinha cabelos escuros, ondulados na altura dos ombros e barba mal feita. Vestia uma roupa simples, mas grossa. Tragava calmamente um cigarro, olhando com desaprovação para nós três — Quem é a carne nova? Eu a via correndo pra floresta do monstrinho de vocês.

— Cala a boca, velho! — Kira falou indo até o balcão e se sentando. Arata me levou até o balcão, me sentei entre os dois.

— Nos sirva logo, tio! — Arata falou — E a carne nova não vai se misturar com os porcos!

— Era uma prostituta? Ou uma assassina? — o homem perguntou. Me encolhi de vergonha, sentindo olhares sujos nas minhas costas. Inveja das mulheres e lascivos dos homens.

— Nem um nem outro! — falei levantando o olhar pra ele — Eu fui largada aqui pra-

Kira me chutou e me mandou calar a boca.

— Para de querer justificar. Deixem eles pensar o que querem! QUE MORRAM VOCÊS! FARÃO UM FAVOR A SOCIEDADE!

— Cale a boca, moleque! — alguém gritou com a voz embargada. O “tio do balcão” colocou três copos de uma bebida forte a nossa frente.

— Vem calar, seu bêbado!

— Kira, para de puxar briga. — Arata falou pegando a caneca de bebida. Kira simplesmente ignorou e pegou o copo, ao mesmo tempo que estendia um pra mim.

— Então, a aura nojenta de vocês desapareceu um pouco da floresta seca. — o tio falou.

— É… Podemos dizer que resolvemos o problema. Não tem mais perigo!

— Eu resolvi o problema! — sussurrei, ganhando um soco de Kira no ombro, enquanto o mesmo dava uma gargalhada forçada e falsa.

— Cala boca, maga nojenta! — Kira falou sem olhar pra mim — E não fique bêbada! Tem que treinar amanhã.

— Certo, eu sei! O mais próximo de ser uma criança aqui, é você Kira. Não precisa agir como meu irmão mais velho. — falei, segurando o punho do moreno antes que me atingisse. Eu cogitei falar da altura de Kira, mas… Isso não seria seguro.

— Ela tem razão! — Arata confirmou.

— Não concorda com essa vaca!

— Muuu~ — falei com ironia, tomando um gole da minha bebida.

Kira tentou me socar de novo, mas dessa vez Arata segurou o pulso dele. E assim as horas passaram.

Ninguém se metia conosco. O único que conversava com a gente era o “tio”. Ele parecia ser bem próximo dos dois, até por que ele não tinha medo de xingar o Kira.

— Vocês… Se conhecem?

— Hun… — Arata murmurou olhando de mim para o tio — O tio foi o primeiro a ser jogado aqui, depois da gente. Ele cuidou de nós por um tempo… Nos ensinou algumas coisas e depois abriu esse barraco.

— O dia em que você aparecer morto, estripado, com todas as suas entranhas pra fora e empalado, eu estarei comemorando, com as mãos sujas de sangue. — o tio falou tragando o cigarro.

Arata soltou uma risadinha e deu de ombros.

— Ei… — chamei com cautela — Por que está aqui?

— Já ouviu falar da série de assassinatos que ocorreu em Fiore a quatorze anos atrás, obras do “Ripper”?

— Já sim… Era você?

— Não. Isso é só uma introdução para a minha história. — ele falou revirando os olhos — Claro que era eu. Fui confiar em alguém e olha onde vim parar.

— Estripar e empalar suas vítimas… Que mal gosto. — Kira falou apoiando o cotovelo no balcão e a cabeça em sua mão.

— O dia em que for um assassino mundialmente conhecido, você vem conversar comigo, pirralho.

— Vamos torcer pra que isso não aconteça. — falei rindo e bloqueando um soco de Kira — Só estou preocupada com seu futuro! Se for perseguido e preso pelo conselho-

— Você fala como se fossemos sair daqui. — o tio falou dando uma risada.

— Somos magos e espíritos. Claro que não vamos apodrecer aqui. — Kira falou arrogantemente.

— Lembrem-se de quem ensinou o princípio da magia à vocês, seus pirralhos medíocres. — arregalei os olhos e me inclinei pra frente. Essa pequena ação fez o tio suspirar — Sim, eu ensinei magia à eles. Fico feliz pelos espíritos que estão nessas crianças, afinal se não fosse por eles, esses pirralhos imbecis estariam mortos.

— Bom saber que você nos ama. O tio é tããão gentil com a gente. — Arata falou sorrindo.

O homem bufou e apagou o cigarro, o apertando sobre o balcão.

— Caiam fora.

— Vai nos expulsar? — Kira perguntou desacreditado.

— Estou expulsando. Saiam! Vocês deixam todos os outros irritados.

Kira se levantou gritando xingamentos pra todos no bar. Eu e Arata nos olhamos e sorrimos. Saímos correndo atrás de Kira, que andava para a floresta de árvores secas. Resolvemos somente segui-lo, sem questionar.

Após alguns segundos de caminhada em pleno silêncio eu falei.

— Meu ombro está doendo.

— Espero que seja minha culpa. — Kira disse com satisfação.

— De quem mais seria? — Arata falou dando de ombros — Você e Saru só encostam na Lucy quando é pra machucá-la.

— Por que mais eu encostaria!?

Minha tentativa de manter uma conversa não deu muito certo. Ficamos em silêncio até chegarmos na entrada da floresta. Arata pareceu notar alguma coisa, em seguida correu até a árvore entalhada.

— Olha isso! — ele exclamou feliz — Foi você que fez?

— Foi… Você gostou? — perguntei me aproximando e pegando a faca que ainda estava escondida nas raízes da árvore. Terminei de entalhar o raio, rapidamente. Kira se aproximou e olhou para os entalhes.

— Gostei do macaco…

Arata pegou a faca da minha mão e entalhou uma estrela no meio dos outros desenhos.

— Agora está completo.

— Eu…?

— Claro. Você mora com a gente agora! — Arata falou com um sorriso. Acompanhei o sorriso, antes de ver Kira com uma arma de pequeno calibre na mão e atirar na árvore várias vezes, espalhando lascas e poeira pra todo lado — O que você...  Por que, Kira!?

— Aqui, pronto… — Kira falou se abaixando e pegando uma… “Placa de madeira”, onde todos os desenhos estavam entalhados, ela havia ficado do tamanho do antebraço de Kira, com as bordas irregulares, por causa da forma rude como foi cortada — Vamos voltar.

— Kira… — falei enquanto ele passava por mim.

— São entalhes legais, por que eu os deixaria em uma árvore? E também… O Saru sente algo vindo daqui. — Kira falou jogando a placa pra cima e pra baixo.

— Como assim? — perguntei.

— Saru é tipo um adivinho. — Arata falou pulando nas minhas costas, pelo meu treinamento (e pelo peso leve de Arata) eu consegui mantê-lo nas minhas costas, segurando suas pernas, enquanto ele abraçava meu pescoço. E pensar que ele é um ano mais velho que eu.

— Adivinho?

— Eu não permiti que falasse tal informação, rato. — Kira falou sem olhar para nós. Com uma voz mais séria.

— Ah! Você é o Saru!? — perguntei largando Arata e correndo para o lado de Kira. Seus olhos estavam em uma cor opaca e esfumaçada de amarelo queimado.

— Evidentemente.

— Kira não parece ser o tipo de cara que entregaria o corpo dele assim. — falei.

— Não entregou. Ele abaixou a guarda e eu peguei o controle... Ah, sim, posso ficar com isso por um pequeno período de tempo? — ele falou levantando a tábua.

— Ah, claro. Quer que eu arrume as bordas? Pra ficar mais-

— Eu não ligo para aparência e sim para as essências das coisas. Aqui, estenda sua mão. — Saru falou. Estendi minha mão, com a palma pra cima. Saru deixou a própria mão paralela a minha, com a palma pra baixo.

Entre nossas mãos apareceu um globo, como uma bola de cristal, brilhou em um amarelo fraco e desapareceu, fazendo alguma coisa coisa cair na minha mão.

— Um broto de rosa…

— Meu poder é da adivinhação. Pode não estar certo. Ou pode estar. Esse é o seu objeto, no momento. Ele significa alguma coisa, só depende de você. Ele pode desabrochar, ou então morrer e murchar sem ter a chance de mostrar sua beleza.

— Uma flor?

— Certamente. Um broto de flor. Você ainda tem muito a desabrochar, senhorita maga. Assim eu espero. — Saru falou dando um sorriso minúsculo — A adivinhação é algo inconstante. O destino muda com cada uma de suas ações. O trabalho de ajudar as pessoas a trilhar esse caminho foi dado a mim.

— Espero que possa me ajudar então… — falei olhando para o broto de flor.

— Voltarei a falar com você quando essa flor desabrochar. — ele falou apontando para o broto de rosa. Os olhos dele voltaram para o mesmo tom de vermelho vazio de sempre — Seu estúpido! EU ODEIO VOCÊ! POR QUE TRANCARAM UM MACACO PIADISTA DENTRO DE MIM!? MORTE AOS MAGOS CELESTIAIS!

Kira saiu bufando e batendo o pé gritando xingamentos aleatórios. Arata soltou uma risada.

— Saru sendo Saru. Ele gosta de fazer adivinhações… Isso faz o Kira sempre roubar nos jogos de baralho. Ter um poder assim é tão útil.

— E o seu? Quer dizer, do Muren.

— É esse aqui. — Arata encostou no meu ombro. Senti como se meu corpo se esfarelasse. Tudo ao nosso redor ficou embaçado, meu estômago embrulhou e eu não conseguia me mexer.

Quando voltei a mim e olhei ao redor, eu estava na frente da casa.

— Ei… Isso foi…

— Teletransporte. Esse é o poder do Muren.

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...