História Fallen - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias Fallen
Personagens Lucinda "Luce" Price
Visualizações 29
Palavras 3.835
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 10 ANOS
Gêneros: Shoujo (Romântico), Suspense

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 3 - Ficando Escuro


Fanfic / Fanfiction Fallen - Capítulo 3 - Ficando Escuro


Luce serpenteou pelo frio e úmido corredor do dormitório em direção ao seu quarto, arrastando a sua mochila vermelha Camp Gurid com a alça partida em sua trilha. As paredes eram da cor de um quadro negro poeirento – e todo o lugar era estranhamente quieto, salvo pelo maçante zumbido das lâmpadas fluorescentes suspensas no teto recuado manchado por gotas de água.

Principalmente, Luce estava surpresa em ver tantas portas fechadas. Lá em Dover, ela sempre quis mais privacidade, um tempo das festas no corredor do dormitório que duravam horas. Você não podia caminhar para o seu quarto sem se deparar com uma reunião de garotas sentando de pernas cruzadas em jeans iguais, ou um casal de lábios grudados pressionado contra a parede.

Mas na Sword&Cross... Bem, ou todo mundo já havia começado os seus artigos de trinta páginas, ou então a socialização aqui era mais do tipo atrás-das-portas.

Falando nisso, as portas fechadas era um sinal a ser notado. Se os alunos da Sword&Cross eram cheios de recursos com as violações do código de vestimentas, eles eram completamente engenhosos quando o assunto era personalizar seus espaços. Luce já havia caminhado por uma porta moldurada por uma cortina de contas, e uma outra com um tapete de detecção de movimento que a encorajava a "dar o fora dali" quando ela passou por ele.

Ela parou na única porta em branco do prédio. Quarto 63. Lar, amargo lar. Ela tateou em seu bolso a procura de suas chaves no bolso da sua mochila, respirou profundamente e abriu a porta da sua cela.

Exceto que não era terrível. Ou talvez não fosse tão terrível como ela imaginava. Havia uma janela de um tamanho decente que se abria para deixar entrar um ar noturno menos sufocante. E além das barras de metal, a vista da porção da luz da lua era na verdade algo interessante, se ela não pensasse muito sobre o cemitério que ficava embaixo dela. Ela tinha um closet e uma pequena pia, uma mesa para fazer seus trabalhos – pensando nisso, a coisa mais triste no quarto foi o vislumbre que Luce capturou de si mesma no espelho de corpo inteiro atrás da porta.

Ela rapidamente desviou a visão, sabendo bem demais o que ela ia encontrar em seu reflexo. Seu rosto parecendo apertado e sonolento. Seus olhos castanhos salpicados com estresse. Seu cabelo como o pelo do poodle toy histérico da sua família após uma tempestade. O suéter de Penn caía nela como um saco de pano. Ela estava tremendo. Suas aulas da tarde não haviam sido melhores do que as da manhã, devido principalmente ao fato de seu maior medo ter se tornado realidade: Toda a escola já havia começado a chamá-la de Bolo de Carne. E infelizmente, muito como seu homônimo, o apelido parecia que ia grudar.

Ela queria desfazer as malas, transformar o genérico quarto 63 em seu próprio lugar, para onde ela podia ir quando precisava fugir e se sentir bem. Mas ela somente conseguiu abrir o zíper da sua mochila antes de entrar em colapso na cama descoberta, derrotada. Ela se sentia tão longe de casa. Só levava vinte e dois minutos de carro para sair das dobradiças soltas da porta traseira caiada da sua casa para os portões de ferro forjado enferrujado da Sword&Cross, mas poderia muito bem levar vinte e dois anos.

Pela primeira metade da silenciosa viagem com seus pais essa manhã, a vizinhança parecera praticamente a mesma: subúrbio sulista de classe média adormecido. Mas então a rua foi sobre a marginal em direção à praia, e o terreno ficou mais e mais alagadiço. Um aumento de árvores de mangue marcava a entrada na terra úmida, mas logo até essas diminuíram. Os últimos dezesseis quilômetros até a Sword&Cross foram sombrios. Castanho acinzentado, inexpressivo, abandonado.

Lá em casa, em Thunderbolt, as pessoas da cidade sempre brincavam sobre o estranho, memorável e embolorado fedor por aqui: Você sabia que estava nos pântanos quando o seu carro começava a feder a lama.

Mesmo Luce tendo crescido em Thunderbolt, ela não estava familiarizada com a parte mais oriental do condado. Quando criança, simplesmente presumira que era por nunca ter razão para vir aqui – todas as escolas, lojas, e todos que sua família conhecia estavam do lado oeste. O lado leste era simplesmente menos desenvolvido. Só isso.

Ela sentia falta dos seus pais, que grudaram um bilhete na primeira camisa da mala – Nós te amamos! Os Price nunca quebram. Ela sentia saudade do seu quarto, que tinha vista para a plantação de tomates do seu pai. Sentia saudade de Callie, que devia ter certamente mandando umas dez mensagens que nunca serão vistas. Sentia saudades de Trevor...

Ou, bem, não era exatamente isso. O que ela tinha saudades era do modo como a vida era quando ela começou a falar com Trevor pela primeira vez. Quando tinha alguém em quem pensar senão conseguia dormir à noite, o nome de alguém para rabiscar como uma boboca dentro dos cadernos. A verdade era que Luce e Trevor nunca realmente tiveram a chance de se conhecer bem. A única lembrança que ela tinha era uma foto tirada pela Callie secretamente, do outro lado do campo de futebol, entre dois dos seus conjuntos de pesos, quando ele e Luce conversaram por quinze segundos sobre... seus conjuntos de pesos. E o único encontro que ela realmente teve com ele não foi exatamente um encontro real – só uma hora roubada quando ele a afastou do resto da festa. Uma hora que ela se arrependeria pelo resto de sua vida.

Havia começado inocente o suficiente, somente duas pessoas caminhando pelo lago, mas não demorou muito antes de Luce começar a sentir as sombras sobre a sua cabeça. Então os lábios de Trevor tocaram os seus, e o calor caiu sobre seu corpo, os olhos dele ficaram brancos de terror e segundos depois a vida como ela conhecia fora embora em uma labareda.

Luce virou-se e enterrou seu rosto na curva do seu braço. Ela passou meses em luto pela morte de Trevor, e agora, deitada nesse quarto estranho, com as barras de metal cavando em sua pele através do fino colchão, ela sentiu a egoísta futilidade disso tudo. Ela não conhecia Trevor mais do que ela conhecia... bem, Cam.

Uma batida em sua porta fez Luce pular da cama. Como alguém poderia saber como encontrá-la aqui? Ela andou nas pontas dos pés até a porta e a puxou até abrir. Então colocou a sua cabeça no vazio corredor. Ela não havia nem ao menos ouvido passos ali fora, e não havia sinal de alguém ter acabado de bater.

Exceto pelo avião de papel preso com um alfinete com uma tacha de latão no centro do quadro ao lado de sua porta. Luce sorriu ao ver seu nome escrito em caneta preto ao longo da asa, mas quando ela desdobrou o bilhete, tudo que estava escrito dentro era uma seta negra apontando diretamente para o corredor.

Ariane havia convidado-a para essa noite, mas isso havia sido antes do incidente com Molly na cafeteria. Olhando para o corredor vazio, Luce questionou-se sobre seguir a seta enigmática.

Então ela olhou sobre o seu ombro para a sua gigante bolsa de pano duro, sua festa de autopiedade a aguardando para ser desfeita. Ela deu de ombros, fechou a porta, colocou a chave do seu quarto em seu bolso e começou a caminhar.

Parou em frente a uma porta do outro lado do corredor para checar um pôster gigante de Sonny Terry, um músico cego que ela sabia, pela coleção arranhada de vinis de seu pai, que era um incrível tocador de gaita de blues. Ela se inclinou para frente para ler o nome no quadro e percebeu com surpresa que estava em frente á porta do quarto de Roland Sparks. Imediatamente, irritantemente, havia uma pequena parte do seu cérebro que começou a calcular as chances de que Roland podia estar passando o tempo com Daniel, com apenas uma fina porta os separando de Luce.

Um zumbido mecânico fez Luce pular. Ela olhou diretamente para uma câmera de vigilância pregada acima da porta de Roland. Os vermelhos. Dando zoom em cada um dos seus movimentos. Ela se encolheu, embaraçada por razões que nenhuma câmera seria capaz de discernir. De todo modo, ela tinha vindo aqui para ver Ariane – cujo quarto, ela percebeu, pelo jeito era do outro lado do corredor, em frente ao quarto de Roland.

Em frente ao quarto da Ariane, Luce sentiu uma pequena pontada de doçura. Toda a porta estava lotada por adesivos – uns impressos, outros obviamente caseiros. Havia tantos que eles se sobrepunham, cada slogan cobrindo uma parte e geralmente contradizendo o que o de cima dizia.

Luce riu baixinho imaginando Ariane coletando adesivos indiscriminadamente (PESSOAS MÁS SÃO DEMAIS... MINHA FILHA É UMA ESTUDANTE NOTA ZERO NA SWORD & CROSS... VOTE NÃO NA PROPOSIÇÃO 666) e então os colando com um foco casual – mas compromissado – em seu território.

Luce podia ter ficado entretida por uma hora lendo a porta de Ariane, mas logo se sentiu consciente de que estava em frente a um quarto de dormitório que ela estava somente meio certa de que havia sido convidada. Então ela viu um segundo avião de papel. Ela tirou-o do quadro e desdobrou a mensagem:


Minha querida Luce,

Se você realmente apareceu para sairmos hoje à noite, parabéns! Nós vamos nos dar tããão bem!

Se você me deu um bolo, então... tire as suas garras da minha carta privada, ROLAND! Quantas vezes eu tenho que te dizer isso? Jesus.

De qualquer modo: eu sei que disse pra você passar aqui essa noite, mas eu tive que correr da estação de descanso e recuperação na enfermaria (a cereja em cima do bolo do meu tratamento de arma de choque hoje) para fazer uma revisão de biologia com a Albatroz. Ou seja, fica pra próxima?

Sua psicoticamente, A.


Luce ficou com a carta nas mãos, incerta sobre o que fazer a seguir. Ela estava aliviada por Ariane estar sendo cuidada, mas ela ainda desejava poder ver a garota pessoalmente. Queria ouvir a indiferença na voz dela, então ela saberia como sentir-se sobre o que houve na lanchonete. Mas estando ali no corredor, Luce estava cada vez mais incerta sobre como processar os eventos do dia. Um pequeno pânico a invadiu quando ela percebeu que estava sozinha, depois da escuridão, na Sword&Cross.

Atrás dela, uma porta abriu-se. Uma fatia de luz apareceu no chão abaixo do seu pé. Luce ouviu música sendo tocada dentro do quarto.

— O que você tá fazendo?

Era Roland, parado no vão da sua porta com uma camisa branca e jeans rasgados. Seus dreads estavam presos em um elástico amarelo acima da sua cabeça e ele segurava uma gaita nos lábios

— Eu vim ver Ariane — Luce respondeu, tentando controlar-se para olhar através dele se havia alguém mais no quarto. — Nós íamos...

— Ninguém está em casa — ele respondeu obscuramente.

Luce não sabia se ele queria dizer Ariane, ou todos os outros no dormitório, ou o que. Ele assoprou algumas notas na gaita, mantendo seus olhos nela o tempo todo. Então ele abriu a porta um pouquinho mais e ergueu suas sobrancelhas. Ela não conseguia afirmar se ele estava ou não convidando-a para entrar.

— Bem, eu só estava passando a caminho da biblioteca — ela mentiu rapidamente, virando-se para o caminho de onde ela havia vindo. — Há um livro que eu preciso emprestar.

— Luce — Roland chamou.

Ela se virou. Eles não haviam se conhecido ainda oficialmente, e ela não esperava que ele soubesse o seu nome. Seus olhos relampejaram um sorriso para ela e ele usou a gaita para indicara direção oposta.

— A biblioteca é para lá. — Ele cruzou os braços sobre o tórax. — Tenha certeza de checar as coleções especiais da parte leste. Elas são realmente boas.

— Obrigada — a menina respondeu, sentindo-se realmente grata enquanto mudava de direção.

Roland parecia tão real ali, acenando e tocando algumas notas na sua gaita enquanto ela saía. Talvez ele só tenha feito-a sentir-se nervosa mais cedo por ter pensado nele como amigo do Daniel. Pelo que ela sabia, Roland podia ser uma boa pessoa. Seu humor se elevou enquanto ela caminhava pelo corredor. Primeiro a carta de Ariane havia sido impertinente e sarcástica, depois ela teve um encontro não-estranho com Roland Sparks; além do mais, ela realmente queria dar uma olhada na biblioteca. As coisas estavam ficando boas.

Perto do fim do corredor, onde o dormitório fazia uma curva na direção da ala da biblioteca, Luce passou pela única porta meio aberta do corredor. Não havia nenhum estilo de decoração nessa porta, mas alguém tinha pintado-a completamente de preto. À medida que ela se aproximava, Luce podia ouvir o heavy metal raivoso tocando lá dentro. Ela nem teve que parar para ver o nome na porta. Era a Molly.

Luce acelerou os seus passos, de repente ciente de cada barulho da sua bota preta de montaria no linóleo. Ela não havia percebido que tinha prendido a respiração até ela passar pelas portas de madeira com pontas de ferro da biblioteca e exalado.

Um sentimento quente envolveu Luce à medida que ela olhou ao redor da biblioteca. Ela sempre amou o fraco e doce cheiro bolorento que só uma sala cheia de livros cheirava. Se sentiu confortável com o leve e ocasional som das páginas sendo viradas. A biblioteca de Dover havia sido sempre o seu refúgio, e Luce se sentiu quase oprimida de alívio ao perceber que essa poderia oferecer-lhe a mesma sensação de um santuário. Ela dificilmente podia acreditar que este lugar pertencia a Sword&Cross. Isso era quase... era na verdade... convidativo.

As paredes eram de um mogno profundo e o teto era alto. Uma lareira com um console de tijolo descansava em uma parede. Havia longas mesas de madeira iluminadas por lamparinas verdes antiquadas, e corredores de livros que continuavam mais longe do que ela conseguia ver.

O som de suas botas foi abafado por um grosso tapete persa enquanto Luce vagava pela entrada.

Alguns alunos estavam estudando, nenhum que Luce conhecesse pelo nome, mas até mesmo os de aparência mais punk pareciam menos ameaçadores com suas cabeças curvadas sobre os livros. Ela se aproximou da mesa circular principal, que era uma estação grande e redonda no centro da sala. Estava com pilhas de papéis e livros espalhados e tinha uma bagunça acadêmica caseira que lembrava Luce da casa de seus pais. Os livros estavam empilhados tão alto que Luce quase não viu a bibliotecária sentada atrás dela. Ela estava extirpando uma papelada com a energia de alguém separando o ouro. Sua cabeça levantou à medida que Luce se aproximou.

— Olá!

A mulher sorriu – ela realmente sorriu – para Luce. Seu cabelo não era cinza, mas sim prata, com um tipo de brilho que cintilava até mesmo na suave luz da biblioteca. Seu rosto parecia velho e novo ao mesmo tempo. Ela tinha uma pele pálida, quase incandescente, olhos pretos brilhantes e um pequenino e pontudo nariz. Quando ela falou com Luce, empurrou as mangas de seu suéter branco de casimira, expondo amontoados e amontoados de braceletes de pérola decorando ambos seus pulsos.

— Posso ajudá-la a achar algo? — ela perguntou em um sussurro feliz.

Luce se sentiu imediatamente à vontade com essa mulher, e espiou a placa identificadora em sua mesa. Sophia Bliss. Ela desejou realmente ter um pedido bibliotecário. Essa mulher era a primeira figura de autoridade que ela tinha visto o dia todo cuja ajuda ela realmente iria querer procurar. Mas ela só estava perambulando aqui... E então ela de lembrou do que Roland Sparks dissera.

— Sou nova aqui — ela explicou. — Lucinda Price. Você poderia me dizer onde fica a ala leste?

A mulher deu a Luce um sorriso do tipo você-parece-uma-leitora que Luce vinha recebendo de bibliotecários sua vida toda.

— Bem por ali— ela respondeu, apontando na direção de uma fileira de janelas altas no outro lado do cômodo. — Eu sou a Senhorita Sophia, e se a minha lista de plantão está correta, você está no meu seminário de religião nas terças e quintas. Ah, vamos nos divertir!— Ela piscou. — Enquanto isso, se precisar de qualquer outra coisa, estou aqui. Foi um prazer te conhecer, Luce.

Luce sorriu em agradecimento, disse alegremente à Senhorita Sophia que ela a veria amanhã na sala, e começou a ir à direção da janela. Foi-se depois de ter deixado a bibliotecária que ela se perguntou sobre o jeito estranho e íntimo pela qual a mulher lhe havia chamado por seu apelido.

Ela tinha acabado de passar pela área de estudo principal e estava passando pelas altas e elegantes estantes de livros quando algo sombrio e macabro passou por sua cabeça. Ela olhou para cima.

Não. Aqui não. Por favor. Deixe-me ter só esse lugar.

Quando as sombras vinham e iam, Luce nunca tinha certeza absoluta onde elas acabavam – ou por quanto tempo elas ficariam longe.

Ela não conseguia entender o que estava acontecendo agora. Algo estava diferente. Ela estava apavorada, sim, mas não sentia frio. De fato, se sentia um pouquinho corada. A biblioteca estava quente por causa do fogo, mas não estava tão quente. E então seus olhos caíram em Daniel.

Ele estava encarando a janela, suas costas para ela, inclinando-se sobre um palanque que dizia COLEÇÕES ESPECIAIS em letras brancas. As mangas de sua jaqueta de couro gasta estavam empurradas para cima em torno dos seus cotovelos, e seu cabelo loiro brilhava sob as luzes. Seus ombros estavam curvados, e novamente, Luce teve o instinto de se dobrar dentro deles. Ela tirou isso de sua cabeça e ficou na ponta dos pés para dar uma olhada melhor nele.

Dali, ela não conseguia ter certeza, mas parecia que ele estava desenhando algo. Enquanto ela observava o ligeiro movimento de seu corpo enquanto ele desenhava, o interior de Luce parecia que estava queimando, como se ela tivesse engolido algo quente. Ela não conseguia entender porque, contra toda a razão, ela tinha essa premonição selvagem de que Daniel estava desenhando-a.

Ela não devia ir até ele. Afinal, ela nem ao menos o conhecia, nunca tinha nem ao menos falado com ele. Sua única comunicação por enquanto tinha incluído um dedo do meio e um par de olhares feios. Ainda assim, por alguma razão, parecia muito importante para ela que ela descobrisse o que estava no bloco de desenho.

Então ela se tocou. O sonho que ela tinha tido na noite anterior. O relampejo breve dele voltou para ela de repente. No sonho, tinha sido tarde da noite – úmido e frio, e ela estava vestida em algo longo e flutuante. Ela se inclinou contra uma janela com cortina em uma sala estranha. A única outra pessoa ali era um homem... ou um garoto – ela nunca conseguiu ver seu rosto. Ele estava desenhando a representação dela num bloco grosso de papel. Seu cabelo. Seu pescoço. O traçado preciso de seu perfil. Ela ficou de pé atrás dele, assustada demais para deixá-lo ciente de que ela estava observando, intrigada demais para se virar.

Luce deu um sacolejo para frente enquanto sentiu algo apertar a parte de trás de seu ombro, então flutuar sobre sua cabeça. A sombra tinha ressurgido. Era negra e tão grossa quanto uma cortina.

O martelar de seu coração ficou tão alto que encheu seus ouvidos, bloqueando o farfalhar sombrio da sombra, bloqueando o som de seus passos. Daniel olhou por cima de seu trabalho e pareceu levantar seus olhos para exatamente onde a sombra pairava, mas ele não se assustou do jeito que ela tinha se assustado.

É claro, ele não conseguia vê-las. Seu foco estava fixo calmamente do lado de fora da janela. O calor dentro dela ficou mais forte. Ela estava próxima o bastante agora que ela sentia que ele era capaz de sentir ele saindo de sua pele.

O mais silenciosamente que pôde, Luce tentou espiar seu caderno sobre seu ombro. Por apenas um segundo, sua mente viu a curva de seu próprio pescoço nu desenhado em lápis no papel. Mas então ela piscou, e quando seus olhos se fixaram novamente no papel, ela teve que engolir em seco.

Era uma paisagem. Daniel estava desenhando a vista do cemitério do lado de fora da janela detalhadamente quase perfeitamente. Luce nunca havia visto algo que a deixara tão triste.

Ela não sabia porquê. Era maluco – até mesmo para ela – esperar que sua intuição bizarra virasse realidade. Não havia razão para Daniel desenhá-la. Ela sabia disso. Exatamente como ela soubera que não havia razão alguma para ele mostrar-lhe o dedo do meio essa manhã. Mas ele tinha.

— O que você está fazendo aqui?— ele perguntou.

Ele tinha fechado seu caderno e estava olhando para ela solenemente. Seus lábios cheios estavam fixos numa linha reta e seus olhos cinzas pareciam opacos. Ele não parecia nervoso, para variar; ele parecia exausto.

— Eu vim pegar um livro das Coleções Especiais — ela disse em uma voz vacilante.

Mas na medida em que ela olhava ao redor, ela percebeu rapidamente seu erro. Coleções Especiais não era uma seção de livros – era uma área aberta na biblioteca para uma amostra de arte sobre a Guerra da Secessão. Ela e Daniel estavam parados em uma minúscula galeria de bustos de bronze de heróis da guerra, caixas de vidro cheias com velhas notas promissórias e mapas da Confederação. Era a única sessão da biblioteca em que não havia um único livro para emprestar.

— Boa sorte com isso — Daniel respondeu, abrindo seu caderno de desenho novamente, como se para dizer, preventivamente, adeus.

Luce ficou sem saber o que falar e envergonhada e o que ela gostaria de ter feito era ter escapado. Mas então, havia as sombras, ainda espreitando perto, e por alguma razão, Luce se sentia melhor em relação a elas quando estava próxima de Daniel. Não fazia sentido – como se houvesse algo que ele pudesse fazer para proteger ela delas.

Ela estava presa, enraizada em seu lugar. Ele olhou para ela e suspirou.

— Deixe eu te perguntar, você gosta quando é espreitada?

Luce pensou nas sombras e o que elas estavam fazendo agora com ela. Sem pensar, ela balançou sua cabeça violentamente.

— Está bem, então somos dois.

Ele limpou sua garganta e encarou-a, escancarando o fato de que ela era a intrusa.

Talvez ela pudesse explicar que estava se sentindo um pouco tonta e só precisava se sentar por um minuto. Ela começou a dizer:

— Olha, posso...

Mas Daniel pegou seu caderno de desenho e ficou de pé.

— Eu vim aqui para escapar — ele cortou-a. — Se você não vai embora, eu vou.

Ele enfiou seu caderno de desenho em sua mochila. Quando ele passou, seu ombro roçou no dela. Por mais breve que o toque tenha sido, mesmo através de camadas de roupas, Luce sentiu um choque de estática.

Por um segundo, Daniel ficou parado, também. Eles viraram suas cabeças para olhar de volta um para o outro, e Luce abriu sua boca. Mas antes que ela pudesse falar, Daniel tinha virado e estava andando rapidamente na direção da porta. Luce observou enquanto as sombras espreitaram sobre sua cabeça, serpentearam, fazendo um círculo, então se apressaram para fora da janela para a noite.

Ela estremeceu no frio do rastro delas, e por um longo tempo após isso, ficou parada na área de coleções especiais, tocando seu ombro onde Daniel tinha roçado, sentindo o calor esfriar



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