História Pintando O Sete - Capítulo 13


Escrita por: ~

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Categorias Naruto
Personagens Ino Yamanaka, Iruka Umino, Kakashi Hatake, Naruto Uzumaki, Personagens Originais, Sasori, Sasuke Uchiha, Shikamaru Nara
Tags Família, Naruto Yaoi, Romance, Vida Escolar
Visualizações 176
Palavras 5.617
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Em especial para minha filhota Bruninha Uzumaki. Era pra ter sido a semana passada, atendendo ao pedido de aniversário dela, mas como eu tinha planejado dar outro presente, a fic de Okumuracest, eu não consegui terminar POS na outra semana. Mas me esforcei pra terminar durante a semana, minha amada beta, a Blan, super dedicou seu tempo pra revisão, e está aí. Atualização de 2015 de POS, espero que goste, filhota! Espero que os leitores gostem! De volta ao palco os nossos gêmeos lindos Bara e Hikari!
Boa leitura!

Capítulo 13 - Bara - Parte 4


Pintando O Sete

Revisado por Blanxe

Capítulo 13 – Bara – Parte 4

 

A campainha que anunciava o fim do dia de aula repercutiu por todo prédio escolar, fazendo com que os corredores, antes vazios, se enchessem de alunos e, em questão de instantes, voltassem a ficar vazios de novo.

Apenas a chuva, que havia começado suave e repentina no início daquela tarde, acabou prendendo, no hall de entrada e saída do colégio, alguns alunos que não haviam trazido seus guarda-chuvas.

Uma hora após o fim da aula, Bara saiu apressada da reunião do Conselho. Na opinião dela, a presidente havia se alongado demais no discurso referente às viagens que ocorreriam naquele fim de semana. Afinal, estava mais do que ciente de todos os regulamentos, pois a apostila de regimento interno da Nohara era praticamente seu livro de cabeceira. Mas não se importaria de repassar todas as normas do colégio se não tivesse compromisso àquela tarde: visitar o irmão Yoru na casa dos avôs.

A amiga Giovana fora selecionada para participar da Olimpíada de Matemática e se encontrava em uma maratona de revisão com o grupo dela na sala do clube. Hikari estava no treino de basquete e havia avisado aos pais que só visitaria o irmão mais velho depois que chegasse da viagem que faria com o time para o amistoso em Nagoya, naquele fim de semana, antes das preliminares do intercolegial. Era nessas horas que Bara ficava contente de ter um amigo como Kinizuna, que se comprometera em acompanhá-la assim que pediu. Porém, não esperava fazer o amigo esperar tanto e, novamente, culpava a presidente pelo discurso desnecessário.

Entrou na repartição onde ficavam os armários, trocou as sapatilhas de pano pelos sapatos, e resolveu deixar parte do material guardado. Não havia trazido guarda-chuva, por isso teria que levar somente o necessário: os quatro cadernos de lição.

— Oh, porcaria! — praguejou. — Por que eu nunca me lembro da merda do guarda-chuva? E a droga dessa previsão do tempo que nunca dá a previsão certa? Não ouvi nada sobre chuva para hoje — reclamava, enquanto tentava empurrar mais alguns livros para dentro do cubículo de madeira que não era espaçoso suficiente para todas as coisas que ela tinha guardada ali. Por último, enfiou as sapatilhas e quando a montanha de materiais estremeceu, ameaçando vir abaixo, ela fechou o armário rapidamente e o trancou, passando a mão na testa para limpar o suor. — Ufa! Essa foi por pouco. Eu preciso fazer uma faxina no meu armário antes que eu seja pega pelos su-per-vi-...

Bara não conseguiu completar a linha de raciocínio, a cena que viu a seguir fez seus olhos claros se arregalarem, incrédulos. O amigo Kinizuna estava sendo encurralado por três alunos grandões que pareciam querer tomar seu guarda-chuva.

Sentindo o rosto afoguear de raiva, ela apressou os passos firmes que a guiaram para trás do grupo. Deteve-se às costas dos grandões e pigarreou alto, adotando uma pose ameaçadora ao cruzar os braços sobre o peito.

— Muito bonito, né, senhores?

Ao ouvirem aquela fala, os três rapazes se voltaram para trás com olhares fuziladores, e um deles, o que tinha a expressão de mais mal-encarado, foi quem perguntou em um tom claro de indignação. 

— Como é que é, chibi[1]?

— Que tal mexerem com alguém do tamanho de vocês, hã? — Bara não se intimidou e ainda os intimou para briga ao fazer o gesto de erguer os dois punhos fechados na frente do rosto.

Os três rapazes se entreolharam, não acreditando na petulância daquela menina baixinha que queria satisfação deles.

Kinizuna, prevendo o problema, tentou remediar com a colega.  

— B- Bara-chan, não... 

— Tipo quem, chibi? — O mal encarado, que estava no meio dos três, perguntou, estalando os dedos dos punhos e se agigantado para cima de Bara.

— Chibi? Quem é chibi aqui, idiota? — ela respondeu a ameaça com aquela pergunta, mostrando os punhos fechados. — Eu não tenho medo de covardes como você. Vem, pode vir.

O do meio gargalhou forçadamente, apoiando as mãos na cintura.

— Ah, agora eu meio que entendi. A baixinha aqui veio proteger sua amiguinha, não é? — zombou.

Mas um dos rapazes, o qual encarava Bara como se tentasse reconhecê-la, arregalou os olhos em sinal de compreensão e, em seguida, puxou a manga da camisa do colega, fazendo-o se curvar para o lado, alcançou o ouvido dele, e cochichou a informação:

— Ei, Takano, essa baixinha é a vice-presidente do Conselho.

— Como? — surpreendeu-se ele com a revelação.

A informação pegou-o de surpresa, fazendo com que ele observasse Bara com desconfiança. Por ser do tipo encrenqueiro, passava longe dos representantes do Conselho, por isso não a reconhecera de imediato. Engoliu em seco e desfez a postura carrancuda rapidamente, procurando disfarçar. Não era idiota para entrar em conflito com a vice-presidente e cavar uma detenção às vésperas das férias de verão. 

— Yare, yare... — Coçou a cabeça e abriu um sorriso sem graça. O que fez Bara arquear uma das sobrancelhas. — Pô, fuku-kaichou[2], só estávamos verificando com o Kinizuna, nosso amigo, se ele tinha um guarda-chuva extra para emprestar pra gente. Né, Kinizuna-kun? — Buscou apoio da própria vítima ao jogar um dos braços sobre os ombros de Kinizuna e o puxar para frente.

O amigo de Bara manteve-se rígido e calado, com o guarda-chuva verde-limão abraçado junto ao peito.

— Sei — Bara desconfiou da encenação. — E eu sou o primeiro ministro do país. Agora larguem do meu amigo e desapareçam, babacas. Ou irei formalizar uma denúncia contra os três por bullying. 

— Ei, ei, não sabe brincar não desce...

— Andem! — ela ordenou em um tom mais ríspido.

O líder do trio retirou o braço em torno dos ombros de Kinizuna e crispou os punhos, aumentando sua expressão de desgosto, por estar sendo repreendido por uma garota com a metade do seu tamanho. Mas engoliu seu orgulho por ora.

— Certo, certo. Estamos indo — disse, chamando os outros dois com um gesto de cabeça, mas antes de ir, voltou-se diretamente para Kinizuna, e o viu estremecer com o olhar que direcionara para ele. — Ser protegido por uma garota? Cara, eu teria vergonha de ter nascido homem. Apesar de que... — Takano fingiu estar se lembrando de algo e, em seguida, completou. — Pensando bem, são duas garotas mesmo, não é? — E caiu na gargalhada, puxando os três demais para rirem com ele.

Bara inflou o peito de ar, prestes a soltar uma resposta em reprimenda ao comentário homofóbico do grupo, quando Kinizuna a impediu, segurando-a por um dos ombros.

— Não, Bara-chan.

Os três rapazes seguiram para saída e as gargalhadas altas que ecoavam pelo hall vazio se encerraram assim que atravessaram a porta principal e saíram correndo pela chuva.

— “Não”, digo eu, Hiro-chan! — A loira voltou-se energética para o colega, frustrada por ter deixado Takano sem resposta. — Eu vou pegar o nome daqueles três agora e...

— Não, Bara-chan — o amigo insistiu.

— Mas aqueles desgraçados acabaram de fazer bullying com você na minha frente. Eu vou pegar, preciso formalizar uma denúncia na diretoria.

 — B- Bara-chan, c- calma, p- por favor. N- não adianta.

— Como assim não adianta, Hiro-chan? Esse pensamento que faz com que tipos como eles continuem agindo como agem.

— D- denunciá-los só vai aumentar o ódio. S- sou e- eu quem vai sofrer mais perseguições d- depois.

A energia de Bara se esvaiu. A loira parou de tentar ir atrás do trio para encarar o amigo com um pesar evidente nos seus olhos sempre vívidos.

— Você pensa isso mesmo? — perguntou em tom de incredulidade. 

— Hm — Kinizuna assentiu, tirando a mão do ombro dela. — P- parece algo simples de lidar para q- quem está de fora, m- mas não é tão simples assim ser diferente dos outros garotos.

— Mas deveria ser sim! — afirmou ela, recuperando a intensidade, os olhos grandes e azuis retomando a firmeza. — Afinal de contas, é algo simples de se compreender. Quem você escolhe amar, o tipo de família que você decide criar, para quem você resolve dedicar seus sentimentos, não tem nada a ver com a vida desses idiotas. Por que você precisa ser perseguido por eles e sofrer discriminação por preferir amar alguém do mesmo sexo?

Hiroki fechou os olhos e respirou profunda e pausadamente, precisava apenas se controlar para não desabar diante da amiga, não quando se encontrava em um problema maior que aquele com os colegas de escola. Bara era gentil. Tinha pais gays. Certamente a realidade que ela vivia era diferente da maioria dos homossexuais e mais ainda de quem tinha pais conservadores como ele.

Todavia, de longe, Kinizuna gostaria de apagar o brilho que reluzia daqueles encantadores olhos azuis, muito menos desejava que a amiga perdesse sua energia, entusiasmo e a forma tão pura de pensar. Então decidiu por aquele gesto um pouco ousado, mas simples e sincero: um abraço.

— O- obrigado, Bara-chan. O m- mundo seria um lugar ideal se mais pessoas pensassem como você.

Bara arregalou os olhos quando os braços de Hiroki a envolveram, mas logo compreendeu que o amigo não era mesmo o tipo que gostava de resolver as coisas brigando. Sentiu-se confortável naquele abraço e decidiu aceitar a resignação dele por hora. 

— Só por hoje vou deixar as coisas como estão, entendeu? Só por hoje.

— O- obrigado, Bara-chan. 

...

A chuva estava caindo mais calma quando Bara chegou à casa dos avôs ao lado do amigo. Haviam feito o percurso de metrô até a região e da estação até a residência andaram a pé, debaixo do guarda-chuva verde-limão de Kinizuna.

Kinizuna retirou os óculos para limpá-lo na barra do paletó escolar assim que chegaram à varanda da casa. Só ao recolocá-los é que pode admirar a residência de arquitetura convencional a qual adentraram o terreno. Acabou ficando receoso. A amiga narrou, durante o trajeto até o bairro, a história dos dois avôs que serviram a FAJ[3], e que ainda davam aula em um colégio militar.

Mas bastou serem recepcionados por aquele homem moreno, de nome Iruka, e de sorriso caloroso, para Kinizuna se acalmar. O outro avô estava lendo, sentado no chão de taco espelhado da ampla sala da casa, e apesar de aparentar ser sério, também fora muito educado. Surpreendeu-se ao perceber o quanto os dois ainda pareciam jovens senhores para serem avôs de netos tão crescidinhos.

Notou também que Bara era muito querida pelos dois homens, pois era perceptível a disputa entre eles pela atenção da neta. Enquanto um avô oferecia lanche, biscoitos e café, o outro a puxava para falar dos livros novos que estava lendo.

Porém, conhecia Bara suficiente para saber que quem teria a completa atenção dela, naquele dia, seria o irmão mais velho.

Os avôs os levaram até o rapaz que estava sentado na varanda que fazia fundos com a residência. Yoru estava diante de um tabuleiro de shogi[4] e de um homem robusto, de barba grisalha. Esse homem estava fardado com uniforme militar e tinha um cigarro pendurado no canto da boca, enquanto seus olhos estavam fixos no tabuleiro do jogo. Kinizuna impressionou-se ao ver Yoru vestido com Yukata, os cabelos presos em um curto rabo de cavalo e a barba rala, a qual crescia em seu queixo, somava-se a todo o restante para dar-lhe um charme de rapaz mais velho; o que fez seu coração adolescente palpitar.

Diferente do senhor com quem jogava, Yoru parecia entediado, e não tão debilitado quanto imaginava.

— Onii-san! — Bara correu até o irmão, se pôs de joelho diante dele e o abraçou, quase caindo sobre ele.

— Ei, Bara-kun! Calminha. Está me sufocando.

— Pode se aproximar, Kinizuna-kun. Junte-se a nós — chamou Iruka atrás dele, que vinha carregando a bandeja com xícaras e um bule de café.

— Oi, tio Asuma! — Bara cumprimentou o colega dos avôs.

— Tudo bem, Bara-chan? — respondeu ele à saudação, dando um belo sorriso ao ver a menina. — Você não cresceu muito desde a última vez, né?

— Não diga isso, Asuma-ojii-san! É claro que eu cresci! — ela reclamou, inflando as bochechas que haviam ficado rubras de vergonha. — E cadê a Mirai-san? Por que ela não veio? 

— Eu fiz a mesma pergunta, Bara-kun. Preferiria mil vezes estar jogando com a Mirai do que com esse bando de velhos. Estou me sentindo em um asilo.

Asuma, Iruka e Kakashi, juntaram as sobrancelhas quase ao mesmo tempo, diante da observação do rapaz que os comparava aos velhinhos de asilo.

— Graças à Kami-sama minha princesa está de serviço hoje — respondeu Asuma. — Até parece que vou trazer minha inocente Mirai para as garras de um lobo feroz como você, Yoru!

— Ojii-san, você travou no tempo, é? A Mirai já deve estar beirando os trinta anos! Quem o senhor está chamando de inocente?!

— Ô, Kakashi? Dê um jeito nesse seu neto, ou eu vou dar.

— Yare, yare... — Kakashi suspirou, coçando a nuca e se acomodou no piso de taco, direcionando um olhar para Iruka e o incumbindo desta forma da advertência.

Iruka meneou a cabeça negativamente e também soltou um suspirar resignado. Desde criança tinham dificuldades de controlar a língua afiada do neto, que falava o que vinha em sua cabeça sem pesar.    

— Yoru-kun, por favor, mais respeito com os mais velhos.

— Mais respeito com os “velhos” você quis dizer, né, Iruka-ojii?

— Yoru!

— Eu entendi, eu entendi — ele soltou um bocejo. — Quero voltar logo pra casa, é só isso. — Foi só então que Yoru pareceu notar o amigo de Bara e sorriu para ele. — Olha só, finalmente um colírio para os olhos, alguém não senil. Vem cá, Kin-kun, vem. Tem um espaço aqui do lado do onii-san — Yoru ajeitou a postura, ficando mais ereto e bateu no piso ao lado dele, reafirmando o convite, enquanto ouvia os protestos a sua volta aumentarem, tanto da irmã, por estar claramente cantando seu colega de classe, quanto dos homens mais velhos que foram chamados de “senil” de novo.

— Ei, você está mesmo doente, onii-san?! — Bara desconfiou.

— Sim, sim, estou morrendo, Bara-kun. — Tossiu baixinho e forçado, e puxou o colega de Bara, que se aproximava receoso, pelo punho, forçando-o a se sentar no espaço mínimo ao lado dele, aproveitando para repousar a cabeça no ombro do adolescente. — Você não se importa se eu me escorar no seu ombro, né, Kin-kun? Às vezes os remédios me deixam tonto.

— I- ie — o garoto concordou, sem ter muita certeza, sentindo o rosto queimar de vergonha. Ainda se retesou quando sentiu o hálito quente do irmão de Bara tocar seu pescoço.

— Se está tonto, vá se deitar, Yoru-nii-san! Largue de ser tão descarado!

— Hm... Como é bom sentir o perfume da juventude. — Ignorou o comentário da irmã, fungando mais o pescoço de Kinizuna. — Muito melhor do que essa merda de tabaco (Asuma), incenso (Iruka) e livros mofados (Kakashi).

Todos os três homens, ao serem citados daquela forma indireta, sentiram veias de irritação pulsarem em suas frontes.

— Juro, Kakashi, vou espancar esse seu neto abusado até fazê-lo sentir-se doente de verdade.

— Yare, yare...

...

— O ônibus parte amanhã às 17 horas — O professor e técnico do time de basquete dava as derradeiras orientações ao seu grupo após o treino, enquanto passava recolhendo os últimos papéis de autorização de viagem assinados pelos pais. — Então, não esqueçam suas bagagens. Tragam roupas de dormir, roupas debaixo, escovas de dente. A pousada irá fornecer o básico: produtos de higiene pessoal e a alimentação.

O professor apanhou a autorização de Hikari e deteve-se na conferência do responsável, não por desconfiança, e sim por ter visto aquela assinatura, ou ouvido aquele nome, em algum lugar. Mas notou que sua distração fez propagar risinhos e cochichos de deboche pelos membros do time.

— Será que o Uzumaki falsificou a assinatura para viajar?

Hikari inquietou-se. Jamais precisou fazer algo tão irresponsável para viajar. Por isso não esperava que seu professor fosse desconfiar da assinatura verdadeira do seu pai Sasuke. Ambos os responsáveis costumavam revezar nas assinaturas, mas a verdade é que o pai Naruto era quem assinava as suas viagens, o outro pai era o que normalmente encontrava empecilhos para tudo. Além disso, o pai Sasuke costumava assinar o sobrenome abreviado: “U. Sasuke”, o que poderia levantar desconfianças, por não ficar claro que o “U” era mesmo de Uzumaki. Sentiu o suor em sua testa aumentando ao pensar em algo pior: ter que explicar porque havia assinatura de outro homem como seu responsável.   

— Ah! — o professor exclamou de repente. — Agora lembrei, minha filha comentou sobre isso — falou, chamando atenção dos demais do grupo. — Ela é estudante de biologia na Toldai e escreve artigos para a revista que ganhou um prêmio internacional recente, junto com o coordenador do curso dela. Seria muita coincidência esse U. Sasuke ser seu pai?

Hikari manteve-se petrificado, não tendo certeza se podia sentir-se aliviado ou não. Foi quando o burburinho a sua volta aumentou que ele piscou, retomando do susto, não imaginava que o pai havia se tornado conhecido por algo que ele nunca considerara ter muito valor.

— Não, é sim o meu pai, coach[5] — confirmou, ainda incerto. E recebeu um afago na cabeça vindo do professor.

— Parabéns, Hikari. Tem um pai incrível. — O homem sorriu e voltou-se para o restante da equipe, dispensando-os. — Por hoje é só, descansem bem porque a viagem será longa amanhã.

Finalmente, o loiro pode suspirar aliviado. Alguns dos seus colegas ainda vieram perguntar do que se tratava o tal prêmio enquanto seguiam para o vestiário. Mas os que ficaram decepcionados procuraram outro assunto.   

— Cara, vocês perceberam que nossa amada gerente não veio hoje? — falou Kaneda, levando as mãos para trás da nuca.

— Ouvi dizer que ela pegou um resfriado daqueles — comentou o que estava ao lado dele.

— Vira essa boca pra lá, Murano! — Kaneda rebateu, preocupado. — Sem a nossa beldade essa viagem será um fiasco!

— Como se fosse fazer alguma diferença pra você, né, Takeda-kun? — comentou Sora, um dos reservas do time, com o ar de deboche, ganhando um olhar de canto do colega, o qual gostava de alfinetar somente pelo fato dele gostar de “cantar” de pegador, mas não pegar ninguém. — Todo mundo sabe que a Mitsue-san é a-pai-xo-na-da pelo Hikari-kun — silabou o “apaixonada” para entoar melhor o deboche.

— Soraa-temeee! Eu vou estrangular você! Picar você! Quem disse isso? Quem?!

— Precisa dizer o que é evidente?

Os garotos que andavam mais atrás riram do desespero de Kaneda, que, sem saber o que argumentar, crispou os punhos, fez um grande bico com os lábios e encarou, revoltado, as costas de Hikari, que seguia indiferente na frente, ao lado do capitão do time.

Ele nem era apaixonado pela Mitsue, a achava uma garota atraente, apenas. Porém, sabia que a gerente do time não era para alguém como ele, que não tinha nenhum atrativo especial, exceto pelo fato de jogar no popular time de basquete da escola. Por isso, preferira não alimentar sentimentos que o frustraria mais tarde. Mas saber que existia alguém de nível como Hikari, que podia ficar com ela ou com qualquer garota que bem entendesse, e que ainda corria o risco de ela ser rejeitada por ele, o irritava profundamente.

— Está saindo fumaça das suas orelhas, Kaneda — brincou Sora ao apontá-lo, caindo na risada novamente.

— Calem-se!  

— Calem-se todos vocês! — gritou o capitão. — Estão fazendo muita algazarra, seremos repreendidos — avisou.

— Tsc — Kaneda resmungou e foi alcançado por Sora, que jogou o braço esquerdo sobre seus ombros e começou a sussurrar uma fofoca. — Veja pelo lado bom, Takeda-kun. Tinha ouvido dizer que a Mitsue iria aproveitar a viagem para ficar um momento a sós com Hikari-kun e se declarar. Se ela está doente, não a veremos passar por essa decepção, né? — piscou um dos olhos.

— Está falando como se o Hikari fosse rejeitá-la.

— E não irá? — o outro largou dos ombros do colega para elevar as mãos à nuca. — Tão óbvio quanto o fato de ela gostar dele. Afinal, todos nós sabemos que o Hikari-kun nunca demonstrou nenhum tipo interesse por ela.

— Não entendo o que esse metido, cabeça de palha, está pensando — resmungou Kaneda.

— Talvez ele ainda goste da Morita-san — justificou o outro.

Kaneda arqueou uma das sobrancelhas em sinal de dúvida. Giovana tinha traços estrangeiros, era bonita, mas achava a gerente do time superior no quesito beleza. Além disso, havia aquele boato...

Lembrar-se do boato fez a energia de Kaneda revitalizar de repente.  Hikari e o capitão já adentravam o vestuário, procurou alcançá-los ao iniciar uma corrida.

— Venham comigo! — chamou os outros, animando-se com a ideia de alfinetar o loirinho número um do colégio.

— Oi, espera, Kaneda! O que foi?

— Ele vai aprontar uma das dele e dessa vez ele leva umas porradas, já estou vendo! — comentou Murano, com um tom de repreensão, mas animado com a possibilidade de uma briga, apressando os passos atrás do colega. — Não perco isso por nada.

Os outros garotos também se apressaram e entraram no vestuário praticamente ao mesmo tempo, aumentando a bagunça. Hikari e o capitão estavam de frente aos seus armários, tirando o uniforme do treino, quando o restante do time e os reservas entraram agitados, como eram normalmente.

— Não, Sora-kun, será que esse rumor é mesmo verdadeiro? — falou Kaneda, encenando surpresa, como se tivesse dando continuação a uma conversa iniciada ainda fora do vestuário. — Será mesmo que o nosso garoto mais popular perdeu a namorada para a própria irmãzinha? — jogou a pergunta no ar, seguindo para o próprio armário. 

Os olhos de Hikari, do capitão, e do restante do grupo se arregalaram. Sora ficou apreensivo por Kaneda ter deixado entender que ele quem comentara tal rumor.

— Ei! Eu não disse...

A porta do armário de Hikari bateu interrompendo a fala de Sora. Mas Hikari sabia muito bem que aquele veneno só podia estar sendo destilado pelo colega Kaneda, e encarou o foco do problema com um olhar de fúria.

— Que merda você está despejando pela boca de novo, Kaneda? — questionou entredentes.  

— Ué? Não é verdade, Hii-kun? Você anda todo amuado por aí, rejeitando todas as garotas que querem sair com você. Só porque a garota que você ama foi roubada pela sua própria irmã-macho... Não é verdade?

— Kaneda, seu... — Hikari nem viu quando fechou o punho e seguiu na direção do colega, pronto para desferir um soco certeiro na cara dele.

Mas percebeu que o seu soco não chegou aonde queria, o punho passou a centímetros do nariz do colega. Só então notou que havia sido imobilizado há poucos metros de distância do rosto do seu alvo, pela força dos braços firmes do capitão que rodearam sua cintura.

— Não, Hikari! Quer ser expulso do time antes das preliminares do inter-high? Sai daqui, Kaneda! Agora! Ou eu vou chamar o técnico e quem vai ser expulso é você.

— Ué? Eu só estou comentando algo que ouvi e...

— Cale-se, Kaneda! Saia logo! Vai, Sora, você quem começou com isso, leva ele daqui agora. 

— Ei, taichou...

— Não, não, Hayate — Hikari se debatia, tentando se soltar do agarre firme do seu capitão entorno da sua cintura. — Eu só quero dar umas duas na fuça dele para ensinar algo para ele.  Me solta!

Kaneda saiu rindo, enquanto era puxado pelos outros colegas para fora do vestiário.

— Se ficou tão nervosinho é porque tem um fundo de verdade.

— Esperem! Não o levem! Retire o que disse da minha irmã, Kaneda, seu desgraçado!

Hayate sentiu a toalha com a qual havia envolvido a cintura escorregar e ao tentar ampará-la Hikari escapou.

— Oh, merda! — Resolveu deixar a toalha de lado e saiu correndo atrás do colega, segurou-o pelas pernas e os dois acabaram caindo.

O baque da queda não desanimou Hikari, que tentou escapar engatinhando com o sobrepeso do capitão preso em suas pernas. Mas Hayate manteve-se firme, até que Hikari cansou-se e, para evitar que ele tentasse fugir novamente, começou a escalar as pernas dele.

Hikari virou-se para cima e viu capitão sentar-se sobre seu ventre e imobilizá-lo ao prender seu quadril entre as pernas dele.

Hayate se debruçou e prendeu os punhos que estavam repousados no chão, ao lado rosto do loiro. Sentiu-se aliviado por Hikari ainda estar vestindo o calção. Mas não conseguiu evitar o baque ao vê-lo ofegante, os cabelos loiros esparramados no piso, o rosto vermelho devido ao momento de fúria e os olhos azuis claros ainda mais brilhantes. 

— Minha nossa, meu coração vai sair pela boca.

— Do que está falando, Hayate?

— Que vocês dois me confundem por serem tão parecidos.

— Por acaso está insinuando que a minha irmã parece mesmo um cara?!

Hayate negou com um menear de cabeça.

— Não, Hikari. Na verdade, eu acho que é você quem tem um rosto tão feminino quanto o dela.

A situação ficou ainda mais constrangedora quando o capitão viu o rosto de Hikari corar e se tornar atrativo tanto quanto no dia do festival.  O colega loiro era orgulhoso, imparcial, frio e quase sempre inexpressivo, por isso era tão estranho vê-lo se encabular.

— Não pense nada errado, Hikari — o advertiu. — Eu não estou te cantando ou coisa parecida. Vamos deixar isso bem claro, ok?

— Eu não estou dizendo isso também, taichou. Você quem está aí, falando esse monte de merda. Dá para sair de cima? Essa posição não é nada confortável.

Hayate acatou o pedido imediatamente, saiu para o lado e ergueu-se, indo atrás da sua toalha, pelo menos havia conseguido desanimá-lo da intenção de procurar briga com o sem noção do Kaneda.

Hikari aproveitou para se levantar também, e, menos energético, decidiu largar a mão de ir atrás do colega idiota. De cabeça fria pôde perceber que não valia a pena perder seu lugar no time por causa da implicância dele.

— Eu só acho que... acho que sua irmã é uma garota incrível — aquela fala dita do nada fez Hikari voltar-se para o capitão confuso. Notou-o completamente encabulado. Hayate coçava a cabeça baixa diante do armário dele. — Eu... meio que estou interessado nela, sabe? Então... tem essa coisa de vocês serem gêmeos e serem parecidos e... meio que acaba rolando essa confusão na minha cabeça. É só isso. Não entenda as coisas erradas.

Hikari entreabriu os lábios, sem fala, simplesmente. Não sabia o que dizer. Era a primeira vez que ouvia algo do tipo, que alguém estava interessado na sua irmã.

...

Terminava de arrumar sua mochila para viagem quando a irmã entrou no seu quarto sem bater e entregou o celular dela em suas mãos, então Hikari viu Bara jogar-se de costas na cama dele.

— Você não está se achando folgada demais, não, garota? — bronqueou.

— Larga de ser estúpido! Eu não sou “garota”, sou sua irmã!

— Tanto faz. O que você quer me dando isso?

— Mensagem do Yoru-nii-san para você. Já que você não foi vê-lo.

— Eu vou quando eu voltar. Eu tive treino até tarde, tive que arrumar minhas malas.

— Não é para mim que você tem que se justificar... — Bara comentou tranquilamente, balançando os pés para fora da cama dele.  

Hikari revirou os olhos, mas deu play na reprodução de vídeo do celular da irmã.

— Se eu não morrer esse fim de semana com a minha doença. — Yoru parou para fingir uma tosse sofrida e retomou o discurso mórbido. — Ou se você não morrer em um acidente no caminho para Nagoya, Hii-chan, volte com esse amistoso ganho! — retomou a energia. — Arrase os bundões de Shutuoka! — gritou, puxando alguém que estava do lado dele para aparecer no vídeo e aproveitou para dar um beijo no rosto do amigo de Bara. — Né, Kin-kun! Manda beijo pro Hii-chan também, deseje boa sorte. Vamos lá.

Os olhos de Hikari se arregalaram e seu coração passou a bater forte. A única coisa que conseguia enxergar no vídeo eram as mãos de Yoru em torno dos ombros de Kinizuna e o quanto o amigo de Bara estava corado e encolhido abaixo do braço pesado do irmão.

— Ga- ga...

— Vamos! Vai, você consegue.

— Ganbatane[6], H- Hikari-kun! — gritou, soltando de uma vez sua palavra de incentivo.

— Viu, você conseguiu! — Yoru deu outro beijo estalado no rosto de Kinizuna e acenou para câmera. — Beijos irmãozinho. Boa viagem!

Hikari ficou olhando a imagem no display escurecer e tocou na tela novamente, com a intenção de enviar o vídeo para si mesmo. Estava confuso, chateado e irritado pelo fato de o irmão ter aparecido no vídeo agarrado ao Kinizuna. Tanto que não conseguiu reagir de imediato. Nem mesmo comentar com Bara o conteúdo do vídeo. Apenas enviou o vídeo para ele mesmo e devolveu o celular para irmã, voltando a fazer as malas e desejando que a gêmea saísse do seu quarto de uma vez, para poder pensar melhor, entender o que era aquela palpitação frenética no seu peito.

— Não vai dizer nada? — Bara perguntou em tom de repreensão, ao apanhar o celular de volta.

— Ele parece ótimo — foi a única coisa que conseguiu comentar.

— Também achei. Mas essa doença é assim mesmo, Hii-chan, dizem que ela engana as pessoas em volta. O doente parece bem, finge estar bem, mas por dentro a coisa está um caos.

— Hm.

— Ah! “Hm” é tudo que tem para dizer? É assim que se conversa? Você é muito chato. Responda algo diferente!

— Estou ocupado fazendo minhas malas, se você não percebeu, Bara. Por que não vai procurar outra pessoa para atazanar as idéias? Eu não estou com clima. Fale com o Kora, ligue para Giovana, mas me deixa quieto.

— Ui! Precisa ser a grosseria em forma de gente? — ela impulsionou pernas para fora da cama e se levantou. — Sério, Hii-chan, não sei o que as meninas veem em você. Estúpido! — gritou e saiu, batendo a porta do quarto.

Mas tudo que Hikari queria era ficar sozinho e ver aquele bendito vídeo com mais tranquilidade, trancou a porta quando Bara saiu. Então colocou o vídeo para reproduzir novamente. Sentiu de novo aquele misto de sentimentos, o coração acelerar de várias formas: primeiro, de raiva do irmão, por ele estar abraçado ao amigo de Bara; depois pelo beijo estalado que ele deu no rosto dele e a forma como Kinizuna corou nas bochechas. Depois sentiu algo diferente, o coração bater mais aquecido quando ouviu aquele “esforce-se” dito gaguejado pelo próprio Kinizuna.

Fora a vez de ele, Hikari, jogar-se de costas na cama, sentindo-se angustiado com todas as coisas que estava acontecendo. Especialmente por saber que um cara interessante como o capitão do seu time estava interessado em Bara e ter quase certeza que ele tinha chances com ela. Afinal, Hayate era o tipo de pessoa que Bara admirava: gentil, idôneo, justo, além de ter uma boa aparência.

Sendo assim, a irmã, que era uma total entusiasta do mundo homossexual, tinha mais chances de ser hetero do que ele, que abominava aquela ideia desde que crescera suficiente para entender que dois homens juntos não era um padrão normal de família. Sempre detestou os olhares de repulsa que as pessoas direcionavam a ele e a irmã ao descobrirem que tinham dois pais, e não um pai e uma mãe como deveria.

Por isso sentia-se tão irritado, ao mesmo tempo que frustrado, por ter que ser ele a sentir e passar por aquelas coisas estranhas. Afinal, se fosse com Bara, tinha certeza que a irmã lidaria com aquilo com toda naturalidade do mundo, exatamente como os dois pais faziam.

— Merda! — praguejou, batendo o punho fechado no colchão.

Mas não conseguiu evitar a vontade e colocou o vídeo para reproduzir novamente, repetindo várias vezes o trecho em que Kinizuna aparecia dizendo:

“Ganbatane, H- Hikari-kun!”.

Continua...  

VOCABULÁRIOS

[1] Chibi ちび: Pequeno(a); criança, ou é usado também para chamar uma pessoa mais velha de “baixinha”.

[2] Fuku-kaichou: fuku 副 Prefixo de duplicar, copiar, assistente, associado, vice-, sub-, substituto, auxiliar; kaichou: presidente (normalmente usados para “presidente” do conselho estudantil das escolas);

[3]FAJ - Força de Autodefesa Japonesa, tipo nosso exército;

[4] O shogi (shôgui, em português brasileiro), também conhecido como xadrez japonês é a versão japonesa do xadrez. Ao contrário do ocidente, onde todos os países têm as mesmas versões do jogo de xadrez, no oriente cada país tem sua versão nacional do jogo: Xiang Qi na China, Jonggi na Coreia, Makruk na Tailândia, Sittuyin no Sião, etc. O objetivo do jogo é o mesmo do xadrez ocidental, mas mudam-se as peças e o tabuleiro. Vence o jogo quem capturar o rei adversário (Fonte: Wikipédia).

[5] Coach – o termo é inglês, mas o Japão adotou alguns termos em inglês na sua língua, principalmente no esporte, é o exemplo de “player” [prayer] para jogador e “coach” para treinador, além de “ace” para o “ás” do time. A pronúncia de “coach” é variada, as vezes ouvimos “kouti” [Kōchi/kouchi] e às vezes “kato”, mas é o termo “coach” em inglês, que significa técnico/treinador.

[6] Ganbatane – pode ser traduzido como “boa sorte”, “bom trabalho”, “se esforce” ou “Dê o seu melhor”.


Notas Finais


Obrigada por lerem! o/
Comentem!
Até o próximo!


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