História Pintando O Sete - Capítulo 14


Escrita por: ~

Postado
Categorias Naruto
Personagens Ino Yamanaka, Iruka Umino, Kakashi Hatake, Naruto Uzumaki, Personagens Originais, Sasori, Sasuke Uchiha, Shikamaru Nara
Tags Família, Naruto Yaoi, Romance, Vida Escolar
Visualizações 140
Palavras 5.418
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Em especial para os fofos e fieis que comentaram no último capítulo: Haansel, Danielle, Nil, Glazyangela. Beijos no coração de cada um. Vocês são a força que fazem essa autora continuar em pé. Capítulo em especial pra vocês. Aos fantasminhas que colocaram a fic no acompanhamento e estão sempre presente nas atualizações, apesar de não se manifestarem, fica meu agradecimento também.
Boa leitura!

Capítulo 14 - Capítulo 14 - Hikari - Parte 4


Fanfic / Fanfiction Pintando O Sete - Capítulo 14 - Capítulo 14 - Hikari - Parte 4

Pintando O Sete

Revisado por Blanxe

Capítulo 14 – Hikari – Parte 4

 

O clube de basquete aguardava a saída do ônibus. Hikari estava em um banco no fundo, ao lado da janela, com o celular na mão, fone nos ouvidos e boné na cabeça. O banco ao seu lado estava vazio; não que se importasse realmente com o fato de nenhum dos seus colegas se propor a viajar na sua companhia, pois normalmente era Hayate quem ocupava o acento.

Todavia, daquela vez, o professor tinha solicitado ao capitão que o acompanhasse no banco da frente, para que revisassem a estratégia para o amistoso. E os dois, o professor e o capitão, haviam saído para atender a um chamado da administração da escola e ainda não tinham retornado, causando a impaciência de alguns.

— Ah, que saco! — reclamou Kaneda, jogando as mãos cruzadas para trás da cabeça. — Que demora. O que será que está acontecendo, hein? O ônibus das Olimpíadas de Matemática saiu faz horas!

— Nós não vamos para o mesmo lugar que aqueles nerds... — balbuciou o rapaz que estava sentado ao lado de Kaneda, com a pose relaxada, um único fone no ouvido direito e uma revista que parecia de artigos sobre música nas mãos.

Juuzou Yamagata é o armador titular do time de basquete da escola. Apesar de gostar de basquete, sua paixão maior é a música. Tanto, que ele toca bateria nas horas vagas e usa um visual diferenciado dos demais colegas: o cabelo crespo estilo Black-power, como alguns dos seus cantores e jogadores favoritos.

Apesar de estar na posição de armador, uma das poucas do basquete que não se exige uma altura elevada, Juuzou era um dos jogadores mais altos do grupo, medindo em torno 1,85.

— Mas é uma cidade vizinha — justificou Shino, um dos reservas, sem tirar os olhos da tela do game em suas mãos.

— O que será que aconteceu? — reclamou Echiiro, outro reserva, que estava sentado ao lado de Shino.  

— Eu estou mais preocupado com o fato da minha Mitsui não ter aparecido — Kaneda lamentou alto. — Deus, por que é tão injusto?

— Cale a boca, idiota — Sora tratou de alfinetar o colega. — Ela nunca foi sua.  

— Cale a boca você, Sora-teme. Ela só precisa de tempo para entender que eu sou o grande amor da vida dela! Né, Murano?  

Murano, que tentava segurar o riso, virou o rosto para o lado da janela. Não queria apoiar Sora ao rir da discussão deles, pois significava ficar contra Kaneda, mas até ele, que era melhor amigo do Ala-Armador do time, não conseguia dar apoio quando assunto era o fascínio platônico dele pela gerente do time.

— Só que não, né? — acabou apoiando Sora e todos em torno de Kaneda estouraram em uma alta gargalhada.

— Você só vai ter que nascer de novo, Kaneda — Sora continuou zombando.

— E de preferência loiro e de olhos azuis — complementou Shino, sem tirar os olhos do jogo, não notando de imediato que sua observação provocou uma reação nada confortável no grupo.

Somente após aquela observação que o grupo pareceu recordar-se de Hikari, e todos se voltaram para trás ao mesmo tempo. O loiro, que era do segundo ano e Ala do time, estava acomodado sozinho no banco do fundo, no canto direito, e tinha o olhar voltado para o vidro da janela, enquanto uma música alta zumbia em seus fones de ouvido.

Shino, ao notar o silêncio repentino, ergueu os olhos do jogo em suas mãos e viu Kaneda se virar do banco em que estava na frente e encará-lo seriamente.

— O que foi? Eu disse alguma mentira?

— Nunca eu iria querer ser parecido com esse intragável do Hikari — Kaneda respondeu a observação feita por ele. — Prefiro não ter o amor da Mitsui do que nascer insuportável igual aquele ali.  

Um murmúrio de comentários se fez entre eles. Algo que todos ali concordavam era que Hikari Uzumaki era irritante. Não do tipo que irritava as pessoas, mas do tipo que causava desconforto por ser extremamente bonito, habilidoso, popular e, apesar de tudo isso, ter aquele ar arrogante, de superioridade, e pouco se enturmar com o grupo. E, mesmo que alguns deles não se importassem com a frieza do colega, era de comum acordo que a presença do loiro causava desconforto.

Mesmo com a música alta, Hikari conseguiu ouvir seu nome ser mencionado na conversa dos colegas. Mas preferiu fingir que não estava ouvindo. A algazarra e as tiradas de sarro em torno dele e sua aparência seguiu por mais uns minutos e como era de costume, logo os colegas cansaram e mudaram de assunto, voltaram a falar de garotas e como seriam as meninas da região de Nagoya.

O que queria na verdade era que seus colegas se calassem de uma vez; não tivera uma boa noite de sono e queria aproveitar para dormir. Acionou uma nova playlist no celular com baladas suaves e encostou a cabeça no suporte da janela, fechou os olhos e tentou pegar no sono.

O sono veio rápido, embrenhando-o no mundo dos sonhos. Viu Bara saindo do seu quarto e passando por ele, dizendo que a roupa havia ficado um pouco larga, mas que serviria. Achou engraçado ver a irmã com suas roupas. As pernas das calças estavam dobradas e a camiseta parecia um vestido.

Além disso, era uma das suas camisetas favoritas, uma de malha fria e com duas cores, do peito para cima era da cor cinza e a debaixo preta. Bara pediu para desejar a ela boa sorte em seu encontro. Apenas a alertou que, se seus pais descobrissem, ela deveria lembrar que ele não tinha nada a ver com aquilo. A irmã exibiu, então, seu largo sorriso, o qual era idêntico ao do pai loiro.  

Em seguida a viu descer as escadas correndo, falando que depois conversavam melhor, pois ela estava atrasada e não era educado deixar sua companhia esperando. Seguiu-a com olhar para saber com quem ela iria sair e surpreendeu-se ao ver Giovana e o capitão do seu time na sala de sua casa esperando por ela. Mas a cena mais estranha veio a seguir: Bara cumprimentou Giovana com um selinho nos lábios, e repetiu o gesto com o seu capitão. Depois cada um deles se pôs ao lado dela, apanhando um dos seus braços, e seguiram em direção a saída da casa. Bara ainda se virou e piscou um dos olhos para ele, antes de sair.

Sentiu o coração batendo mais depressa, mas o acelerar das batidas em seu peito não fora somente devido à troca de beijos da irmã entre seus dois companheiros, mas sim porque alguém conhecido estava prestes a entrar pela porta que a irmã havia deixado aberta, pois reconheceu imediatamente aquela voz que cumprimentou o trio que estava saindo. Ainda teve aquele estranho alerta vindo de Bara: “Não vão se atrasar para o próprio casamento, hein!”.

Casamento? Repetiu a informação, e só então olhou para si mesmo, notando suas roupas: estava usando o mesmo fraque do dia que fora mordomo no Café do festival escolar.

Ouviu um pedido gaguejado de licença e Kinizuna surgiu vestido de noiva. Deslumbrante. Tudo ao redor dele ficou branco, ouvia murmúrios, vozes conhecidas, dos seus colegas de time. Os comentários ficaram mais altos, a música em seus ouvidos falava de “roupa de casamento”[1], a imagem de Kinizuna foi se misturando ao branco do cenário e sua cabeça pesou. As vistas escureceram. Esforçou-se para abrir os olhos que pesaram de repente, sentia aquele estranho emaranhado de sensações de quando se acorda em meio a um sonho e não se sabe ao certo onde está. 

Seus colegas olhavam através das janelas do lado em que ele estava no ônibus, as quais davam vista para o pátio do colégio e, de súbito, seus olhos se arregalaram ao visualizar o que eles viam: o técnico, o capitão e... Kinizuna.

Quando os três citados se aproximaram do ônibus, os colegas recuaram das janelas rapidamente e ocuparam seus lugares. Logo o técnico entrou, dando a ordem de partida para o motorista.

— Desculpe-nos a demora, Yatazi-san. Estávamos resolvendo um problema de última hora. Podemos partir — avisou ao homem no acento do motorista que fez um aceno com a cabeça.

— Sem problemas, treinador — respondeu e voltou-se para o grupo de alunos. — Acomodem-se, por favor, para segurança de todos. E coloquem os cintos.

— Estão todos aqui? — perguntou o professor, olhando também para dentro do ônibus.

Kaneda levantou a mão.

— Kaneda?  

— Está faltando a Mitsui-san, né, coach?

— Ah, sim. É sobre isso mesmo que estávamos resolvendo e o que ocasionou a demora — o professor explicou, parecendo se dar conta do outro aluno que estava com eles. — Vem aqui, Kinizuna-kun. — Apanhou o aluno por um dos ombros e trouxe o adolescente, que parecia um tanto encolhido, para sua frente e o expôs para o restante do grupo. — Esse aqui é o Hiroki Kinizuna-kun. Ele é vice-presidente da sala do 2º B e foi disponibilizado pelo Conselho Estudantil para nos acompanhar no lugar da senhorita Kumagai. Ela está doente e, infelizmente, não poderá nos acompanhar nessa viagem.

Houve um murmúrio geral de desaprovação.

— Não tinha outra garota, não, coach? — Kaneda acabou vocalizando sua decepção em tom alto.

O treinador, que segurava os ombros do jovem a sua frente, sentiu quando Kinizuna se retesou, a cabeça dele abaixou e ele pareceu ainda mais miúdo do que já era.

Balançou a cabeça em negação, sentindo uma veia de irritação pulsar em sua testa.

— Escutem aqui, rapazes — chamou atenção de todos. — Nós não teríamos nenhuma ajuda se o Conselho Estudantil não tivesse buscado uma solução de última hora para nos ajudar. Tivemos sorte de a presidente ter conseguido alguém. Vocês deveriam agradecer ao invés de parecerem senhores de idade e que reclamam de tudo da vida. Agora cumprimentem o colega de vocês devidamente e agradeçam. Ou eu farei questão de tirar do grupo a função de gerente e deixar vocês mesmos tomando conta dos trabalhos extras!

Rapidamente, os alunos levantaram-se, curvaram o corpo para frente e gritaram em um único som:

— Yoroshiku onegai shimasu, Kinizuna-kun![2]

Kinizuna retesou-se mais, apertou em seus braços a mochila que trazia na frente do corpo, enquanto sentia as bochechas arderem e respondeu.

— H- hai.

— Acomode-se, Kinizuna-kun. E vamos partir.

— Hai! — respondeu aos alunos em um tom firme e alto.

Hikari sentia o coração acelerado. Observou com os olhos arregalados quando Hayate pegou a mochila de Kinizuna e a acomodou no bagageiro acima do acento que ele ficaria. Depois apontou para ele o banco e o viu curvar-se algumas vezes em agradecimento. O amigo de Bara tinha o rosto muito vermelho, o olhar vacilante, parecia que ele estava tomando o cuidado de não erguer seus olhos para o fundo do ônibus. Talvez ele soubesse de alguma forma que era ali que se encontrava. 

De repente, o cochicho da dupla que estava no fundo com ele, porém do outro lado do ônibus, chamou mais sua atenção.

— Ei, Shino, você sabe sobre os boatos com relação a esse garoto, não sabe? Ele é seu vizinho, não é?

— Cale a boca, idiota.

— Vocês são amigos, não são?

— Não sou amigo dele coisa nenhuma. E pare de falar besteiras. Já perdi tempo demais com vocês que só estão me atrapalhando a passar de fase no meu jogo.

— Você está ficando vermelho. Hein, até que ele é bonitinho, não é? — cutucou o colega. — Viu como ele tá mais encabulado que a Mitsui-san por estar em um ônibus cheio de garotos pintosos como a gente?

— Cale-se, Eichiiro. Está me atrapalhando.

— Parem de falar asneiras — reclamou Juuzou, virando-se para os dois colegas. — Não importa o que dizem por aí, dois caras juntos é algo nojento. Ponto. E caras que gostam de outros caras só podem ser anormais. Ponto.  

— Uhh... quanta homofobia para uma pessoa só, hein, Juu-kun? — Eichiiro falou, colocando a mão direita aberta em sua testa, fingindo estar procurando por algo. — Agora deixa eu ver aqui se eu encontro quem diabos pediu sua opinião e te chamou na conversa.   

Shino tentou conter o riso e Juuzou respondeu mostrando o dedo do meio para o colega e em seguida voltou-se para frente.

— De alguma forma, eu concordo com ele — comentou Shino, após conter a vontade de rir.  

Eichiiro não quis causar alarde e preferiu se calar ao comentar algo desagradável e que deixasse um clima ruim entre o colega e ele. Retornou sua atenção para o capitão Hayate, que estava todo prestativo com Kinizuna, que se dispôs a ajudá-los, assumindo a função de gerente temporário do time. Pensava diferente dos colegas Shino e Juuzou, apesar de gostar de meninas, alguns meninos eram tão fofos e bonitinhos — como o próprio Kinizuna em questão — que conseguia entender muito bem o motivo de garotos gostarem de garotos, ou garotas gostar de garotas. Havia um bom exemplo no time deles também, deu uma olhada de soslaio para o loiro antissocial do grupo, sozinho, no canto oposto do ônibus. Apesar de que, Hikari não tinha nada de “fofo”, mas ele poderia ser muito mais bonito e interessante se fosse mais dócil. Jogou os braços para trás da nuca e soltou um suspiro.

— Tenho que confessar que garotas são interessantes, mas para mim tanto faz. Não é algo comigo mesmo.

— Como assim “tanto faz”? Essa sua resposta ficou estranha, Ecchi-kun[3] — balbuciou Shino.

— Tanto faz é tanto faz, oras. E não me chame assim!

— Ecchi-kun.

— Shinoooo!  

Hikari aumentou o volume do som em seu celular o máximo que conseguiu, determinado a não ouvir mais aquela conversa. Era por causa daquele tipo de comentários que odiava tanto sentir o que estava sentindo. Parecia que Deus o estava testando. Mas não iria se render, faria o possível para ignorar a presença de Kinizuna naquela viagem.   

...

 — Uau. Uma pousada com termas? — Kaneda exclamou assim que desceu do ônibus e colocou a mão diante dos olhos para enxergar melhor o local. — Isso só pode ser um sonho, alguém me belisca?

— Haai! — Sora levantou a mão, se posicionou ao lado dele e beliscou o braço do colega.  

— Aii! — gritou, recolhendo o braço e alisando o lugar beliscado. — Isso doeu, Sora-teme!

— Foi você quem pediu, Kaneda-kun.

— Não era para levar a sério!

Hikari foi o último a descer do ônibus, bocejando, e surpreendeu-se ao ver Hayate, com Kinizuna ao seu lado, esperando por ele. O amigo de Bara mantinha a cabeça baixa, enquanto praticamente esmagava a mochila em seu peito.   

— Oi — o capitão o cumprimentou com um sorriso avantajado no rosto.

Não compreendia como Hayate, e até os demais colegas, conseguiam manter aquele ânimo depois de uma viagem tão longa e cansativa.  

— Oi — respondeu, sem o mesmo entusiasmo. Evitando também olhar o rapaz ao lado do capitão.   

— Dormiu a viagem inteira, hein?

— Pois é — bocejou novamente. — Não tive uma boa noite de sono.

— Tem que parar de ficar fazendo “aquela coisa” a noite inteira, Hikari-kun — o capitão brincou e piscou um dos olhos.

Mas, diferente dos outros colegas, que diante de um comentário indireto sobre masturbação ficariam aturdidos e sem graça, Hikari só virou o rosto para o lado e murmurou.

— Não é da sua conta, taichou.

Hayate deu risada e assim que Hikari desceu, fez um sinal positivo com o dedão para o motorista, que desejou boa noite e manobrou o veículo para o estacionamento do local. O professor tinha seguido na frente para verificar a reserva do grupo e o deixara encarregado de dispensar o motorista. Estavam há mais ou menos duas horas do estádio aonde ocorreria o amistoso e dava para notar que tinha outro ônibus no estacionamento. Não era algo de se estranhar, naquele final de semana haveria amistosos de vários times em Nagoya, então não era improvável haver outra escola hospedada naquela pousada.

Em seguida, o capitão jogou um dos braços sobre os ombros de Hikari para seguirem juntos em direção da pousada.

— Na verdade, sua noite mal-dormida deve ser ansiedade, não é, Hikari? Eu entendo, é bem normal.

— Não estou ansioso coisa alguma, passamos por isso várias vezes.

— Ah, você não é nada fofo.

— Eu não preciso ser. Não sou uma garota. E quer desencostar, Hayate? — reclamou, tirando o braço do capitão que estava em seu ombro.

— Caramba. Precisa parecer um gato arisco?

— Cale-se.

Kinizuna seguia um pouco afastado dos dois, e por isso pode levantar os olhos e visualizar os dois jogadores caminhando a sua frente. Principalmente Hikari, que parecia ainda mais bonito vestido com roupas casuais, semi-esportivas. Sentiu uma inveja profunda do capitão do time e ficou chateado por isso, já que Hayate era uma boa pessoa. Mas não tinha como não sentir inveja dele. Os dois, o capitão e Hikari, eram íntimos, de se tratarem informalmente usando os primeiros nomes. Sempre soube que Hikari não era nada sociável, por isso achou que ele não tivesse um amigo como aquele.

Engoliu em seco, tentando evitar aquela sensação de inveja, que fazia a dor em seu estômago aumentar. Pensou em recusar o pedido estranho e de última hora da presidente do Conselho, mas depois do favor que ela fizera há algum tempo atrás, ao permitir que sua sala fizesse o Café Reverso, sentia-se em dívida com ela. Por esse motivo não conseguiu dizer “não”, mesmo sabendo que se sentiria desconfortável a viagem inteira.

Simplesmente, não conseguiria relaxar. Era a primeira vez que viajava com tantos garotos de uma única vez e, ainda por cima, com aquele bem a sua frente: o objeto de seus desejos mais intensos. A pessoa por quem estava completamente apaixonado.   

Antes de conhecer Hikari, não tinha certeza sobre sua sexualidade. Sempre fora um tanto delicado, reservado, e nunca tivera muita afinidade com as atividades de meninos, nem com os próprios. Sempre fizera amizade mais facilmente com as meninas, por serem como ele, gentis, delicadas e agradáveis em se ter como companhia. Sentia-se diferente sim, mas não estranho.

Quando conheceu Hikari e Bara estavam no primeiro ano do Ensino Médio[4]. Os dois tinham feito o primário em outra escola. Giovana entrou na sala naquele mesmo ano, um mês depois do ano letivo ter iniciado, estudante transferida de uma escola de estrangeiros.

Assim como os gêmeos de aparência estrangeira, Giovana, que era estrangeira de verdade, foram tratados de forma hostil pelo restante da classe. Por esse fato, não demorou para que os três se juntassem. Sentiu inveja quando aquilo aconteceu, porque ele ainda não tinha ninguém. Sua amiga de infância havia se mudado para longe e a outra colega que sempre andava com eles fora alocada em outra sala, mas a Aiko-chan, depois que a Lori se foi, arrumou novas amizades e passou a evitá-lo. Por isso, a vontade de estar naquele grupo diferente aumentava com o passar dos dias. Todavia, não sabia como se aproximar, ele não tinha descendência alguma de estrangeiros, e achava que eles não o aceitariam.

Porém, não demorou a hostilidade em torno deles se dissipar como fumaça sendo levada pelo vento. Bara era energética, alegre, atrevida, divertida, completamente sociável. Ela não se importava com caras feias, cochichos, nada era capaz de diminuir sua energia e seu sorriso. Mesmo com quem ela não tinha afinidade, ela puxava conversa e, em pouco tempo, estavam se falando como se fossem melhores amigos. Ela se candidatou à presidência da sala, ganhando com uma quantidade unânime de votos, e Giovana se tornou sua vice.

Hikari passou a chamar atenção também, ele era alvo da irmã em brincadeiras as quais ele respondia mal-humorado, o que tornava a situação mais cômica. Os dois eram gêmeos, porém opostos em suas personalidades, o que chamava mais atenção e os tornavam mais interessantes. Além disso, não tinha como não reconhecer a beleza de Hikari, ele sempre foi um pouco mais alto que a média dos meninos da sala, com um corpo atlético, por gostar e ser bom nos esportes, os cabelos loiros e brilhantes, com franjas que caíam em seu rosto. O rosto era outro atrativo a parte, de tirar o fôlego: Hikari tinha uma feição tão bonita quanto de muitas meninas, a pele branquinha e aqueles olhos azuis encantadores. Além disso, ele tirava boas notas, e seu jeito reservado e sério faziam-no ser o tipo “Kakkoi”[5] das meninas. Dos excluídos, para os populares, em um tempo monstruosamente recorde. Quando tudo se inverteu, teve certeza absoluta, jamais pertenceria aquele grupo, se não fosse...  

Sentiu um braço ser jogado sobre seus ombros de repente e a aproximação repentina do capitão do time fez seu coração saltar.

— T- taichou-san?

— É Hayate, Kinizuna-kun. E você ouviu o que eu disse?

— G- gomen...

— Eu percebi que estava com a cabeça na lua. O Hikari disse que se eu quiser saber mais sobre a Bara-chan, você é a pessoa mais adequada do que ele, o próprio irmão dela — mencionou em tom alto a última parte da frase, para alfinetar o loiro que ia na frente. — É verdade? Os dois são melhores amigos?

— H- hai. Um dos. A- a- a- a- a- — Hayate deu um tapinha nas costas dele, fazendo-o desengasgar. — A Bara-chan tem vários amigos. A G- Giovana-san é a m- melhor amiga d- dela também — concluiu, sentindo que as bochechas coravam.

— Ah, eu entendo. Então, preciso me esforçar para ser seu melhor amigo também, hã?  

— Ah? É... Hm.

Hayate sorriu, satisfeito.

— Sabe, Kinizuna-kun, diferente do Hikari, pelo menos você é fofo — complementou ao puxá-lo para mais perto em um abraço de lado, em seguida o soltou.  

Kinizuna direcionou o olhar para Hikari, que havia entortado levemente o pescoço para trás, e dado um sorrisinho discreto, então logo ele voltou para frente. Ele havia feito aquilo de novo: ajudá-lo a se enturmar.

 “O trabalho deverá ser feito em duplas. Mas as duplas serão entre meninos e meninas, pois faremos uma pequena inversão entre sexos. Os meninos deverão escolher e falar sobre uma grande figura feminina internacional. E as meninas deverão escolher uma grande figura masculina.”.

Naquela ocasião, encolheu-se em sua carteira, de cabeça baixa, sentindo o tremor de ter que ficar sozinho, por último, até que o professor, com pena, o direcionasse para alguém que restou. E esse alguém também ficaria constrangido por ter que ficar com quem ninguém quis. Foi o que imaginou que aconteceria, mas um arrastar de cadeira o fez erguer a cabeça, alguém estava colocando a mesa ao lado da sua e quando seus olhares se cruzaram, ele simplesmente não acreditou.

“Eu vou fazer com você”, a fala de Hikari soara seca, séria, como uma ordem.

Não fora uma escolha, Hikari não lhe deu uma opção, simplesmente determinou e sentou-se ao seu lado. Não perguntou se podia, se ele queria, se era possível. Apesar de serem perguntas cujas respostas eram óbvias demais. Hikari Uzumaki não precisava perguntar se alguém o aceitaria, ele era muito seguro para se preocupar em ser recusado.

Foi naquele instante — que experimentara todos os mistos de sensações possíveis, ao mesmo tempo em que sentia uma vontade eloquente de chorar — que ele se apaixonou perdidamente por Hikari.

O loiro fora o responsável pela aproximação dele com seu grupo. Por causa do trabalho entre os dois, acabaram marcando encontros na biblioteca e na hora do almoço. Bara e Giovana finalmente o notaram e logo começaram a conversar com ele. Hikari queria deixar o trabalho duro todo em suas costas para poder jogar. Não se importaria de ter feito tudo sozinho, apenas o fato dele tê-lo escolhido, já o fazia sentir-se endividado por mais de uma vida. Mesmo assim, Bara não achava justo, brigava com o irmão e o obrigava a fazer a parte dele também.

Ficou com muito medo de quando o trabalho acabasse fosse obrigado a se afastar deles, porém Bara havia se encantado com seu jeito dedicado e como elaborara tão bem o trabalho que fizera em dupla com seu irmão. Ao término, ela o convidou para ser um tipo de auxiliar dela e da Giovana na liderança da classe. Ficou tão contente que achou que morreria feliz naquele momento.

Graças ao seu grande amor, fora enturmado em um grupo e deixou de sentir-se excluso e tão diferente.

Nos dois anos seguintes, eles ficaram na mesma turma. Somente no primeiro ano do ensino secundário foram separados. Bara e Hikari ficaram na mesma sala, enquanto Giovana e ele ficaram em outra. Foi então que veio à tona os sentimentos da Giovana por Hikari, também a confissão e o pedido de namoro por parte dela. Como Hikari dificilmente negava um pedido vindo de uma garota interessante, ele aceitou os sentimentos da melhor amiga da irmã e os dois passaram a sair juntos. Bara ficou possessa na ocasião, ela não gostou nada daquela situação, pois ela não queria o irmão tratando a melhor amiga da mesma forma fútil como ele tratava as outras garotas com quem ele saíra até então, e o clima entre eles ficou tenso pela primeira vez. Bara acabou se aproximando mais dele, Kinizuna, e, em algum momento, ela percebeu o que ele sentia pelo irmão dela. Mas, ao invés de Bara odiá-lo, ela se encantou ainda mais e prometeu apoiar seus sentimentos.

“A Gi-chan está se deixando levar como fogo em palha, Hiro-chan. Tenho certeza de que ela está confundindo as coisas, se encantando pela popularidade do Hii-chan. Algo me diz que os sentimentos dela são totalmente diferentes do que você sente. Por tudo que me disse até agora, eu sei que você ama meu irmão de verdade. Aliás, você o tem amado reservadamente há muito tempo, e isso só prova a pureza e a veracidade dos seus sentimentos. Por isso eu o apoio e sempre vou apoiá-lo”.

— E- eu posso falar da B- Bara-chan, t- taichou — Kinizuna concordou, depois que chegaram ao quarto. Acabou chamando atenção até dos que faziam algazarra, que pararam para prestar atenção. — D- depois de ter certeza de que seus s- sentimentos por ela, são r- realmente v- verdadeiros. P- pois e- eu nunca permitirei que a machuque.

O semblante do capitão do time de basquete se tornou incrivelmente sério. Kaneda olhou os dois com interesse e depois encarou Hikari, que parecia tranquilo, sentado no futon que escolhera, enquanto mexia em sua mochila.

— Oi, oi, Hikari. Isso é sério? O capitão está interessado na sua irmã?! Você não vai dizer nada?

— Não é assunto meu — respondeu, e levantou-se, apanhando o kit de banho que pegara na recepção e saiu do quarto. — Estou indo para o banho.

Hayate continuou encarando Kinizuna por mais um tempo, e no fim, respondeu, após soltar um breve suspiro.

— Nunca estive tão sério na minha vida, Kinizuna-kun.

O gerente-interino do time analisou o semblante e o olhar do capitão por um breve momento, os outros colegas assistiam o impasse sem piscarem os olhos.

Todavia, Kinizuna não precisava de muita análise para ter certeza das intenções reais do capitão. Se ele estivesse mal intencionado, o próprio Hikari não teria indicado o caminho a Hayate. Pois, por mais desinteressado que o loiro demonstrasse ser em relação à irmã, sabia que aqueles gêmeos tinham um jeito especial de se amarem e demonstrarem o quanto se importavam um com o outro. Então, apenas desfez o ar sério, sorriu e estendeu a mão na direção do capitão.

— S- se for a- assim, c- conte comigo, t- taichou-san. E- eu vou apoiá-lo.

Hayate abriu um sorriso que não coube em seu rosto e apertou a mão estendida.

— Obrigado, Kinizuna-kun.

Os demais colegas suspiraram aliviados após aquele anúncio e vieram cumprimentar o capitão.

— Ei, taichou, quem diria? Você está apaixonado, hein?

— Calem-se, idiotas.

— Ele ficou vermelho!

— Então era por isso que vivia na cola do chato do Hikari, né?

— Menos mal. Estava começando a pensar que era pelo Hikari que ele estava apaixonado.

— Já disse para ficarem quietos.

— É isso aí, Kinizuna — Murano bateu nas costas do gerente substituto, fazendo-o andar para frente e os óculos entortarem em seu rosto. — Obrigado por ajudar o nosso capitão a desencalhar.

— H- hm — respondeu ele, voltando a arrumar os óculos na face.  

— Ei, Kinizuna, você poderia me apresentar para Giovana, o que acha?

— Ei, ei, pessoal. Esperem, esperem um pouco — gritou Kaneda, afastando os demais e jogando ele o braço sobre os ombros de Kinizuna. — Se o Megane-kun[6] aqui for apresentar a Giovana para alguém, que seja para mim!

— Ah! Larga de ser cara de pau, Kaneda. Onde foi parar sua louca obsessão pela Mitsui-san?!

— É verdade! E não era você quem estava falando que a Giovana não era mais bonita que a nossa...

Kaneda largou de Kinizuna para abafar a boca de Sora com suas mãos.

— Nossa, como você tem uma língua grande, Sora-temee!!

Uma alta gargalhada explodiu entre eles.

O que era aquilo que estava acontecendo? Kinizuna não conseguia parar de sorrir. Todos aqueles garotos estavam falando com ele? Estavam sorrindo e brincando com ele? Sentiu como se uma barreira estivesse sendo rompida novamente. E mais uma vez, o responsável fora aquele a quem amava tão descomedidamente.

...

Hikari ouvia as gargalhadas vindas da onde havia deixado Kinizuna. Suspirou fundo e, ao mesmo tempo, aliviado. Havia acabado de guardar suas roupas no armário e estava terminando de se lavar na área do pré-banho. Assim que terminou, enrolou a toalha na cintura e seguiu para o terma. Queria apenas tomar banho, relaxar, comer e ter uma boa noite de sono, pois sabia que teriam um jogo apertado contra Sohoku no dia seguinte.

Mas, assim que passou pela porta que dava na área ao ar-livre, onde se encontrava o lago de águas mornas, Hikari arregalou os olhos, o lugar estava completamente ocupado. A situação não poderia ser pior, pois conhecia muito bem aquele grupo, os responsáveis pela eliminação deles no interhigh do ano anterior, os atuais campeões da categoria: a Kainan Gakkou.

— Yo, nos encontramos de novo, blond-kun.

Retesou-se ao ouvir aquela voz. Virou para trás e seus olhos cresceram ainda mais em surpresa. Aqueles cabelos lisos acinzentados, bem alinhados, os olhos gateados, mortiços e o sorriso arrogante. Sim, era ele mesmo, o imponente capitão da Kainan.

— Kentaro Toyo?     

— Oh, que honra, né? — disse o capitão da escola rival em um tom forçado, estreitando os olhos e o sorriso, enquanto apanhava uma mexa do cabelo de Hikari e a alisava entre seus dedos, apreciando a textura boa que tinha. — O jogador mais bonito de todos os tempos ainda se lembra do meu nome. Com esse belo rosto, esse corpo atraente e esses olhos incríveis, achei que já tivesse deixado o basquete para se tornar modelo profissional. Né, Hikari Uzumaki-kun?

 Continua...

Observações e Vocabulário:

[1] A música no fone do Hikari: Wedding dress (Tae Yang) – indicação da Bruna Uzumaki.

[2] Yoroshiku onegai shimasu: Normalmente essa expressão é usada depois de conhecer alguém e pedir algo (um favor) a esse alguém. Ela pode ser traduzida como “Prazer em conhecê-lo (a)”, “Conto com você”, “Tome conta de nós” ou “Deixo isso em suas mãos”.

[3] Ao invés do Shino falar “Eichii” que seria a abreviação do nome “Eichiiro”, Shino fez um trocadilho com o termo Ecchi ou Etchi (エッチem tradução livre, "obsceno") é um termo japonês que refere-se a relação sexual. No Ocidente, o termo é associado principalmente com animes, mangás, ou jogos que apresentem a sensualidade como principal tema, em contraste com o termo hentai, usado para aqueles que apresentam sexo explícito.

[4] Primeiro ano do Ensino Médio no Japão é equivalente a sétima série no Brasil;

[5] Kakkoi ou Kakkoii – expressão usada como adjetivo para dizer o quanto alguém é “legal”, “maneiro” ou até “gato” (no sentido de “muito bonito”). 

[6] Megane (óculos) – ao pé da letra seria “Óculos-kun”, mas no nosso bom português é traduzido para o mais comum “Quatro Olhos”. 

Momento Fanart:

Novamente minha filhota caprichou no fanart para fic (Que está na capa)! Obrigada, Bruninha!

Não só ela, mas Hayabara tem apoio de uma grande parcela dos leitores! Obrigada pela torcida!


Notas Finais


Agradeço antecipadamente à todo que lerem e comentarem! o/
Até o próximo!
Bjos


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