História Pintando O Sete - Capítulo 8


Escrita por: ~

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Categorias Naruto
Personagens Ino Yamanaka, Iruka Umino, Kakashi Hatake, Naruto Uzumaki, Personagens Originais, Sasori, Sasuke Uchiha, Shikamaru Nara
Tags Família, Naruto Yaoi, Romance, Vida Escolar
Visualizações 108
Palavras 4.717
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 8 - Yoru - Parte 2


Pintando O Sete

Revisado por Blanxe

Capítulo 08 - Yoru - Parte 2

O ritmo da música que ecoava pelos corredores vazios da Academia de Ballet tinha acordes tão suaves, que o novo funcionário foi guiado por ela como se o som fosse aroma de rosas espalhadas no ar.

Aproximou-se da porta entreaberta de um dos salões e notou que o som, assim como facho de luz amarelado no corredor, vinha daquele local. Direcionou apenas um dos seus olhos verdes para a fresta e sentiu seu coração ganhar o mesmo ritmo dos tambores que se iniciava na música interpretada por uma voz americana[1].

A canção o atraíra como uma armadilha, mas não fora ela a responsável por seu momento de hipnose. A dança e o corpo que seguiam os acordes do ritmo tocado, como se fizessem parte de um único todo, foram os culpados por deixá-lo momentaneamente bobo e de boca aberta. Era ele. Seu alvo. O motivo que o levara a convencer a mãe lhe arrumar o trabalho naquele lugar: Andrii Keichiro.

Esgueirou seu corpo através da fresta para dentro do salão procurando não ser notado. Apesar de que seu alvo parecia tão concentrado em reproduzir os movimentos coreografados da dança que imaginou que, mesmo se ele o visse e o ouvisse, não sairia daquele transe.

Lembrou-se de mais cedo, quando havia chegado à academia e iniciado no posto de atendente na recepção. A recepcionista da escola havia saído em licença maternidade há pouco tempo e a filha da dona, uma adolescente de quinze anos que não saía do aplicativo de comunicação instantânea do celular, é quem estava cobrindo temporariamente a recepção. Mas o uso do celular e dos fones de ouvido em tempo integral, fez com que a mãe da adolescente aceitasse o pedido de emprego para o filho de uma de suas ex-alunas e amiga.

O serviço não era difícil, para Yoru, chegava até ser divertido, pois achava engraçada a reação das mães que vinham trazer suas crianças, isso devido ao físico e a presença que ele exibia. Afinal, a frágil e grávida secretária havia sido substituída por um rapaz de 1,82 de altura, 75 Kg, corpo atlético e olhos verdes. Divertiu-se mais ainda com a reação dos instrutores, os demais funcionários do local e até mesmo os alunos, dos quais, os menorzinhos, o adotaram oficialmente como “onii-san”. Depois de ter tantos irmãos o termo não o incomodava mais, havia se acostumado.

Talvez fosse por esse fator, o de aparentar ser o um bom irmão mais velho, que acabou convencendo facilmente um dos seus novos e pequenos otoutos a ajudá-lo na missão de encontrar uma aliança “esquecida” no banheiro masculino e entregá-la para ele; o responsável também pelos achados e perdidos da academia.

Não foi uma surpresa quando Keichiro veio procurá-lo perguntando da aliança.

— Minha aliança sumiu da pia do banheiro, acredito que esteja aqui.

— Acho que o sensei quis dizer que: “Eu perdi minha aliança em algum lugar do banheiro e um dos nossos atenciosos alunos talvez tenha a encontrado e entregue aqui, na sessão de Achados e Perdidos’” — Yoru fez questão de corrigi-lo.    

— Não, Uchiha-san — o instrutor também fez questão de negar. — Eu jamais “perderia” minha aliança de forma tão imprudente assim. Ela tem um valor altamente estimado. Também não acredito que um dos nossos alunos tenha a apanhado por interesse próprio, isso nunca ocorreu antes. Creio, porém, que o verdadeiro interessado em certificar-se se ela era legítima já tenha averiguado sua legitimidade e talvez esteja interessado em devolvê-la.

O olhar de Keichiro se manteve firme em Yoru o tempo todo, deixando a entender claramente que o “interessado” que mencionara era o próprio rapaz.

Sem contestar, Yoru abaixou-se atrás do balcão, apanhou uma cesta de plástico que ficava em uma das repartições de madeiras do móvel e a colocou no balcão. A reluzente aliança era o único objeto dentro dela, nomeada com uma tira contendo a descrição do dia, horário e o nome de quem a havia encontrado.

Depois que Yoru perguntou se era aquele o objeto que o professor estava procurando, e o mesmo confirmar que sim, o rapaz pediu para que Keichiro assinasse o livro de registro de retirada de objetos Achados e Perdidos. Depois de vê-lo recolocar a aliança no dedo anelar esquerdo, dar meia volta e se retirar sem emitir nem um resmungo de obrigado sequer, Yoru soltou um suspiro resignado, apoiando o cotovelo sobre o balcão e o rosto sobre o punho fechado, enquanto admirava o mover dos glúteos bem moldados na calça de ballet ajustada ao corpo do professor que se afastava.

O que era uma mera desculpa havia se confirmado verdade: a aliança de Keichiro era legítima. Havia o nome de uma mulher gravado na parte internada da joia: Michiko. Pelo nome japonês Yoru imaginou que a garota fosse o motivo pelo qual o professor estivesse no Japão.

Aquela descoberta o havia decepcionado, mas não o desmotivara. Era do tipo de homem que não desistia fácil de uma conquista e, mesmo se fosse do tipo que desistisse, a curiosidade sobre o professor e sua mulher ainda o moveria. Afinal, a amiga de Bara havia lhe garantido a existência de rumores sobre Keichiro ser homossexual.

Por outro lado, não acreditava que o professor de dança se daria ao trabalho de forjar uma aliança com um nome falso para despistar garotas — e caras — que o incomodassem. Acreditava que a tal “Michiko” existia. Mas poderia também haver outros motivos para o nome dela estar gravado naquela aliança: ela ser um amor não correspondido; quem sabe um casamento que não resistiu à crise. As pistas que a amiga da irmã havia lhe dado gritavam algum erro e pela possibilidade deste “erro” é que Yoru estava disposto a não desistir, não até que a verdade aparecesse.

Enquanto isso, iria procurando o melhor meio de se aproximar do arisco professor de dança.   

A música de repente parou, devolvendo Yoru ao momento atual. Sentiu um ímpeto de aplaudir o final da performance solo e acabou não resistindo ao impulso, começou a bater palmas de forma efusiva, até juntou dois dedos na boca e soltou um silvo agudo que ecoou no amplo salão, causando o olhar de espanto do professor que ainda estava em uma posição de “agradecimento a plateia”, do tipo que ocorre em todo final de espetáculo.

Acalmou seu momento de explosão e parou de aplaudir, estreitando os olhos para abrir um grande sorriso, ao perceber que Keichiro havia apanhado a mochila, colocado a toalha entorno do pescoço e vinha ao seu encontro. O professor deteve-se diante dele e o encarou com a respiração arfante, os cabelos loiros desgrenhados, suados e grudados em parte do rosto e do pescoço, as bochechas branquinhas estavam coradas. Yoru não conseguiu olhar para aquele homem e não imaginar uma pessoa que havia acabado de fazer sexo e tido um orgasmo intenso.

— Está com uma cara de quem tem algo pervertido em mente — observou o professor.

— Não sei por que todos têm essa impressão minha — o rapaz moreno respondeu, segurando o próprio queixo e movendo o rosto de um lado para outro, tentando forçar-se a mudar de expressão. — Melhorou? Não pareço um sério professor universitário agora?

Foi a primeira vez que Yoru vira Keichiro sorrir, não era tão perfeito quanto o sorriso do seu padrasto, ele não tinha os caninos salientes como de Naruto, tampouco os lábios bonitos que sempre formavam um bico quando estava bravo ou indignado, mas os dentes eram pequenos e lineares, os lábios finos, o que lhe cabia um sorriso discreto. Também era bonito.  

— Continua com o ar pervertido.

Aquela nova observação despertou Yoru que se viu obrigado a concordar com um balançar meio duro de cabeça.

— Pois é.

— Também não consigo imaginar como alguém pode ter “apenas impressão” quando é algo tão óbvio. — Keichiro passou por Yoru na porta e saiu para o corredor. — Apague a luz e feche a porta — emendou aquela ordem.  

Yoru revirou os olhos ao receber a ordem, mas moveu-se rápido e cumpriu com o pedido, para alcançar Keichiro e acompanhá-lo até a saída. 

— Você está sendo cruel comigo, sensei — comentou. — Para onde está indo com tanta pressa afinal? Estava tão lindo seu ensaio.

O professor não respondeu.

— Vai pro banho? — sugeriu Yoru. — Quer ajuda para lavar as costas?

— Você é mesmo bem assanhado, né, Uchiha-san? Está no seu horário de expediente. Não deveria assediar os colegas de trabalho assim.

— Não estou assediando “os colegas”, somente você, sensei. E, por favor, chame-me de Yoru. “Uchiha-san” é tão.... meu pai.

— Esses anos de convívio no Japão me fez aderir à cultura e sei que não é educado chamar alguém de quem não se é íntimo pelo primeiro nome.

— Se esse é o problema, podemos vencer esse pequeno obstáculo e nos tornarmos íntimos.

Os dois rapazes chegaram ao salão principal. Era início da noite, a academia já estava vazia. Yoru observou o professor Keichiro, que era o último daquele dia, fazer anotação da sua saída no livro ponto que ficava disposto no balcão que ele atendia, enquanto o próprio Yoru se dirigia para dentro do balcão para apanhar sua carteira, o celular que havia deixado carregando, suas chaves e agora a chave da academia. Era responsável por fechá-la todos os dias, já que seu turno começava à tarde, depois da faculdade, e terminava só depois que a última alma viva deixasse a academia.

Por um lado havia detestado aquela parte do trabalho que exigira de si responsabilidade, por outro, ficou feliz quando soube que Keichiro era sempre “uma das últimas almas vivas” que ficava além do horário, dedicando um pouco do seu tempo livre para ensaiar novas coreografias.

— Espere por mim, sensei! — Apressou-se ao notar que o professor seguia na direção da saída e acabou tropeçando nos próprios pés, equilibrou-se para não cair, mas derrubou tudo que carregava no chão, perto de Keichiro que já estava chegando à porta.  

O loiro suspirou e, não conseguindo ignorar a dor que deveria ser a queda de um aparelho celular, retirou a mochila do ombro e deixou-a no chão para apanhar as coisas do rapaz que haviam se espalhado pelo saguão, mas bastou apanhar o aparelho e este começou a tocar. Fora impossível não notar a foto que apareceu na chamada e preencheu a tela do smarthphone: Yoru e um rapaz de cabelos ruivos. Parecia um dia de inverno, pois os dois vestiam roupas pesadas de frio. Na foto Yoru ainda puxava o cachecol vermelho em torno do pescoço do ruivo, trazendo o rosto dele para perto do seu, certamente para o beijo o qual ele depositava na bochecha do rapaz, que tinha um sorriso avantajado no rosto. A descrição da chamada também era no mínimo interessante: “Sasori-Koi”.

Estendeu o telefone ao ver Yoru detido na sua frente e não se impressionou quando ele apanhou o celular e fez uma expressão chateada para tela, tocando em seguida na tecla “rejeitar a ligação”.

— Deveria atender, seu namorado vai ficar chateado.

— Ex-namorado — Yoru o corrigiu.

— Não é o que parece e não é o que está escrito aí.

— Isso realmente importa?

— Para mim, nenhum pouco. Mas você ficou tão sério — debochou o sensei, dando um sorriso vitorioso de lado ao ter pegado Yoru em flagrante. — Achei que seu namorado fosse loiro. Você mencionou alguma coisa sobre isso quando nos falamos pela primeira vez. Na verdade, me lembro de você ter mencionado que essa pessoa também usava aliança, não me diga que o loiro é um ex-amante?

Yoru continuou encarando o professor com uma expressão séria.

— Acho que entendi. Você levou um pé na bunda do seu amante e agora está à procura de outro. Um cara não é o suficiente para tipos egocêntricos como você? Precisa mesmo estar com dois ao mesmo tempo para massagear o ego gigantesco que tem e continuar com a certeza de que é capaz de seduzir quantos forem necessários?

A ausência de resposta confirmaria à Keichiro todas aquelas alegações sobre sua pessoa. Poderia contestar e dizer que Sasori não era mais seu namorado, que ele o havia trocado por uma bolsa de estudos em outro país. Que ele nunca tivera um caso com o homem loiro que mencionara no dia que se falaram, mas que ele fora a primeira paixão avassaladora da sua vida.

Mas não quis contestar porque achou que Keichiro estava certo em suas deduções. Era uma pessoa egocêntrica, sedutora e que traiu o ex-namorado dezenas de vezes, sempre que encontrara uma oportunidade. E mesmo Sasori estando desconfiando de algumas situações ele nunca cobrou justificativas, continuou ao seu lado sendo o namorado dedicado e fiel, vivendo só por ele e para o relacionamento deles. Até o momento em que o ruivo decidiu escolher pensar nele próprio. Naquele momento Yoru achou-se no direito de agir como se Sasori estivesse cometendo a pior das traições e não conseguiu simplesmente aceitar a decisão dele ir estudar fora. Era um baita de um egoísta, por isso a afirmação saiu da sua boca de forma natural.

— É isso — e sorriu. — Você me pegou de jeito, sensei. Não tenho como negar. Eu o quero como um substituto para o meu ex-amante. Você aceita?

Keichiro retribuiu o sorriso que recebia, depois apanhou a mochila e colocou-a no ombro. Então deu um passo mais a diante do rapaz de olhos verdes e tocou o rosto dele, precisou erguer-se nas pontas dos pés para alcançar a boca dele e o beijou. Depois voltou a recolocar a planta dos pés no chão e deu as costas à Yoru. As portas de vidro se abriram automaticamente, ele seguiu para fora e ainda de costas deu sua resposta.

— Vou pensar com cuidado. Te dou uma resposta até o fim de semana. Boa noite, Yoru-kun.   

As portas automáticas se fecharam e Yoru tocou os lábios com a ponta dos dedos, achando um tanto surreal aquela sensação. Havia acabado de receber um beijo de surpresa da pessoa por quem estava interessado. Deveria estar feliz, satisfeito, havia conseguido o que queria em menos de vinte e quatro horas que ingressara na academia com o intuito único de conquistar Keichiro. Mas ao invés de euforia, sentiu-se desgostoso.

Fechou as mãos em punho e sua testa se enrugou entre os aros dos óculos de grau, as costas de Keichiro e seus belos contornos bem ajustados pela roupa de ballet ainda eram visíveis, ele seguia tranquilo em direção a um veículo de cor prata no estacionamento agora quase vazio.

 A quebra repentina da sua euforia fez com que Yoru voltasse aos seus últimos afazeres ali dentro da academia no ritmo adequado: com calma.

Averiguou se todas as luzes estavam desligadas, acionou o alarme com a senha que a dona havia lhe segredado, trancou a porta principal e só então seguiu pelo estacionamento, ainda a tempo de ver Keichiro manobrando e estendendo o braço para fora da janela do veículo para lhe dar um aceno de despedida.

Não sentiu vontade de retribuir o aceno, mas o fez mesmo assim. Estava chateado, não por Keichiro ter de repente dado a entender que iria aceitar sua proposta, tornando aquilo que imaginara ser uma árdua conquista em algo corriqueiro e banal. Porém, o problema era saber que aquilo que possivelmente motivara o professor de dança era o descompromisso.

Keichiro simplesmente aceitou suas condições ao perceber que ele o queria como segundo plano, como amante. E era exatamente aquele ponto que o estava irritando.

Colocou o celular no suporte ao entrar no seu carro, se fosse preciso atender alguma ligação enquanto dirigia acionaria o atendimento por comando de voz. Mas apesar do celular ter chamado algumas vezes — duas ligações da mãe, uma da Ayame, sua colega de faculdade, outra de Bara e outra de Hikari —, não teve ânimo para atender nenhuma delas.   

Encarou o celular quando parou o carro no sinal vermelho, observando a imagem de proteção de tela que se mantinha por alguns segundos antes desta escurecer após a última chamada. Por um acaso, era a mesma imagem que usara na identificação de Sasori. Ficou ainda mais chateado ao perceber que ainda não havia se livrado da imagem dele como seu namorado, o que acabou ocasionando a confusão de Keichiro.

Ouviu o barulho de buzina e só então se deu conta que havia se perdido em devaneios, o sinal havia ficado verde. Mas preferiu movimentar o carro para o acostamento e estacionar, dando passagem aos apressados.

Então aquela estranha vontade de jantar comida caseira na companhia da família o pegou de surpresa, pensou nos pais. Poderia visitar a mãe, mas ao lembrar-se do padrasto e o quanto não se davam bem, desistiu totalmente da ideia. Imaginou então que poderia ir jantar com o pai e os irmãos, mas ao lembrar que veria Naruto, o padrasto com quem se dava bem, sentiu-se ainda mais frustrado com relação a Keichiro. Novamente se viu dominado por aquela sensação de vazio que há algum tempo não o atormentava. Era exatamente aquilo que odiava na sua existência: não pertencer a lugar algum. Ter que se sentir estranho, uma visita indesejada, dentro da própria família.

Resolveu simplesmente ir para casa.

...

Em poucos minutos havia chegado ao prédio que morava. Depois do seu momento de desânimo, não teve vontade de passar na conveniência para comprar algo semi-pronto para o jantar. Decidiu que iria apenas tomar um banho, matar a meia dúzia de latinhas de cerveja que tinha no freezer, comer um sanduíche com o que achasse na geladeira, se masturbar ouvindo “I Just Want You To Be Happy” da Bonnie Pink pela enésima vez e dormir até o dia amanhecer.

Porém, bastou abrir a porta e se deparar com os vários pares de calçados na soleira, para perceber que seus planos de se auto deprimir haviam ido por água abaixo.

O aroma bom de comida caseira estava espalhado no ar e as vozes e risos que preenchiam o ambiente o guiaram até a entrada da cozinha. Encostou-se ao beiral da porta e ficou assistindo com um sorriso leve delineando os lábios os irmãos, Bara e Hikari, e os amigos de escola dos dois, Giovana e Kinizuna, se apertarem na sua minúscula cozinha em uma tentativa de prepararem o jantar.

Pensou em voltar e fazer uma hora mais no térreo antes de subir, dando a eles o tempo necessário de concluir o que imaginava ser um jantar surpresa, mas não contava com os dedos ágeis de Bara que, apesar de estar no meio dos amigos na pia opinando sem parar, estava discando novamente para ele.  

— Vou tentar falar com o Yoru-nii-san de novo — declarou ela, apoiando o aparelho entre o ouvido e o ombro esquerdo. 

O som de “It’s Gonna Rain” da Bonnie Pink, o toque de celular que usava para as chamadas da irmã, irrompeu escandaloso o ambiente fazendo os quatro pararem o que estavam fazendo e voltarem para entrada da cozinha em um sobressalto coletivo.

Bara retirou o telefone do ouvido e o desligou, encerrando também com a música que nem ela, uma garota adolescente, usava como toque de celular. Há muito tempo havia desistido de questionar o estranho gosto musical do irmão.

— Tadaima?

— Yoru-onii-san! — esbravejou ela, indo na direção do rapaz e parando diante dele com ambas as mãos na cintura, após deixar o aparelho desligado sobre a mesa. — Não nos assuste desse jeito.

— Tá, tá, Bara-kun, não fique tão bravinha, ok? Eu que me assustei com a invasão dos super-pirralhos. E antes de vir me dando bronca, baixinha — Yoru apertou o nariz da irmã. — Deveria responder primeiro ao meu “tadaima”, não acha?

Depois de desfazer o bico e a cara de susto, Bara abriu aquele sorriso, que para Yoru era a cópia perfeita do sorriso de Naruto, e o respondeu com ânimo o qual ela certamente também herdara dele.

— Okaeri, Yoru-nii-san!

— Okaeri — emendaram os outros dois colegas da irmã atrás dela, curvando o corpo para frente.

Somente Hikari não se manifestou, ele continuou de costas para o grupo, empenhado no jantar que estava sobre o fogo. Yoru percebeu Bara encher os pulmões de ar, se preparando para bronquear com o seu gêmeo, e resolveu impedi-la, bastando um gesto de mão. Depois disso entrou na cozinha e parou atrás de Hikari, que estava de avental e uma bandana amarrada na cabeça, e o abraçou-o por trás, encostando o queixo no ombro direito dele e sussurrando próximo ao ouvido.

— O cheiro está tão bom, Darling. Fico feliz que um de nós tenha desenvolvido dotes culinários. Cadê meu “Okaeri”, hn?

— Okaeri — murmurou.

— Não, não, assim eu não aceito. Muito xoxo. Faça isso direito. Use como exemplo a Bara e os amigos, bote entusiasmo nisso. Vamos, você consegue: “Okaeri, nii-san!”.  

— Por que você não arruma uma esposa para importunar?

— Você é tão lindo e tão chato, otoouto.

— Concordo — Bara assentiu.  

— Ninguém pediu sua opinião, Bara.

Giovana e Kinizuna sorriam, constrangidos com a cena de Yoru.

— Vai ficar chato que nem o senhor Uchiha quando crescer.

— Aí eu discordo, Yoru-nii-san — Bara saiu em defesa do pai. — O papai Sasuke não é nada chato.

— Só você não vê isso — Yoru e Hikari sincronizaram a resposta o que irritou Bara.

Mas a loira só soltou um resmungo. Yoru sorriu, soltou da cintura do irmão e segurou o queixo dele, forçando a olhar para ele.

— Viu? Pelo menos concordamos em algo, né, Darling? — observou Yoru, depositando um selinho nos lábios do irmão que, pela primeira vez, não reagiu de forma indiferente.

Os olhos de Hikari cresceram com o susto e ele largou imediatamente a colher dentro da sopa que mexia, para ter a mão livre e empurrar o irmão.

— Merda, nii-san! Não faça isso! — ele gritou, e o tom vermelho cobriu todo o rosto dele até as pontas das orelhas.

Demorou apenas alguns segundos para que Yoru percebesse que o amigo de Bara, o tal Hiroki Kinizuna, ficasse vermelho quase na mesma proporção que o irmão, mas o garoto tentou disfarçar o embaraço ao voltar o rosto para o chão.  Hikari também voltou a mexer nas panelas, resmungando.

— Vai logo tomar seu banho. O jantar está quase pronto.

Bara também tentou aliviar o momento de embaraço causado pelo irmão mais velho se movimentando rápido e pedindo para que os dois amigos a ajudassem a servir à mesa.

— Eu prefiro preparar algo para gente beber — sugeriu Giovana. — Você tinha comprado frutas, não tinha, Bara-chan?

— Sim! Comprei manga. É uma delícia. Adoro mangas. Estão na geladeira. Hiro-chan, me ajuda com os prato, estão nesse armário aí atrás. — Bara mostrou apontando o dedo e assim que o menino se virou, ela puxou o irmão mais velho pelo braço e o direcionou para fora da cozinha. — E você, Yoru-nii-san, vai tomar banho. Não precisa fazer nada.

Yoru deixou-se ser puxado para fora da sua própria cozinha, mas quando viu que a irmã iria retornar, foi a vez dele impedi-la, segurando-a pelo braço.

— Ei, parada aí, baixinha. — Resolveu questioná-la sobre aquilo que havia ficado no ar sem querer. — Tá rolando alguma coisa ali que você ainda não me contou?

— Não me chame de “baixinha”, onii-san. E eu não sei do que está falando.

— Estou falando que percebi um estranho constrangimento no ar quando dei o beijo no Hii-kun.

— Claro. Quantas pessoas adultas no nosso país cumprimentam outra com um beijo na boca?

— Foi um selinho. E entre irmãos.

— Mas não somos mais crianças, e beijos na boca são interpretados como desejos de segundas intenções.

— Eu sempre fiz isso e o Hii-kun nunca reagiu daquele jeito.

— Você nunca fez isso na frente dos nossos amigos.

— Ou seria só do Kinizuna-kun?

— Hã?

— Bara.... — Yoru suspirou e massageou a testa. — Bara-kun, não tente se fingir de boba porque isso não combina com você.

A loira suspirou fundo, olhou por cima do ombro e notou que os demais voltaram a se entreter com o jantar, então apanhou o punho do irmão mais velho e o puxou desta vez para fora da sala. Os dois pararam no corredor e Bara olhou nos olhos dele, confessando em seguida:  

— O Hiro-chan está apaixonado pelo Hii-chan.

A informação pareceu penetrar com dificuldade e devagar o consciente de Yoru.

— Quê?

Bara revirou os olhos.

— Você ouviu, nii-san. Eu disse em tom muito claro.

— Ele é gay?

— É o que parece, né?

— E o Hii-kun?

— Ainda não sabe sobre os sentimentos do Hiro-chan. O Hiro-chan morre de medo de ser rejeitado por ele. Ainda estou tentando encontrar um jeito de fazê-lo se declarar.  

Yoru franziu o cenho.

— O Hii-kun ainda não sabe ou finge não saber?

Desta vez foi Bara quem encarou o irmão mais velho com desconfiança.

— Pelo menos é o que imaginamos, já que o Hiro-chan não se declarou e a Gi-chan e eu somos as únicas que sabemos. Agora você também sabe, nii-san. Mas porque está dizendo isso?

Yoru pensou em responder, mas decidiu que não iria se meter nos assuntos adolescentes dos irmãos. Já havia tido muito transtorno com sua própria e problemática adolescência, com a definição de sua sexualidade, a paixão platônica pelo padrasto, entre outros assuntos. Acabou imaginando se a “homossexualidade” era genética na sua família. Afinal, pela reação incomumente exacerbada de Hikari ao receber seu beijo de cumprimento, era de se desconfiar que ele escondia um sentimento razoável em relação a alguém daquele local. Bara e ele estavam fora da lista por serem parentes. Giovana já havia sido namorada de Hikari. Então passou por sua cabeça a possibilidade de ser Kinizuna o felizardo, só não conseguiu acreditar. Hikari além de ser do tipo namorador, sempre fez questão de expor e deixar bem claro seu interesse por garotas.  

— Yoru-nii-san?

— Ah? Não foi nada.

— Nada o quê? Eu te fiz uma pergunta. Por que acha que o Hii-chan sabe sobre os sentimentos do Hiro-chan?

— Bara-kun, pare de se esquivar das tarefas domésticas e vai ajudar todo mundo lá, vai. Eu vou tomar um banho. Não vou me intrometer nos problemas de vocês, pirralhos — afirmou Yoru, dando as costas para a irmã e seguindo em direção ao quarto dele. — Já tenho os meus próprios problemas para pensar, ok? Daqui a quinze minutos estarei na mesa.

A atitude de Yoru não era estranha para a adolescente. Bara sabia que ele não era a melhor pessoa para ajudá-los no quesito “sentimentos”, pois o próprio irmão ainda insistia em negar os seus pelo Sasori. Decidiu voltar para cozinha e ajudar o irmão gêmeo e os amigos com a finalização do jantar.

...

Quando Yoru desabou na cama no fim daquela noite, seu apartamento estava novamente em total silêncio, e fora impossível não sentir aquele estranho vazio se expandindo novamente dentro de si. De bruços e com metade do rosto afundada no travesseiro, ficou encarando a mesinha de cabeceira ao lado da sua cama. Sobre ela somente um rádio-relógio, o celular, a carteira, as chaves do carro, um copo e uma jarra com água, mais nada. Os porta-retratos que antes ocupavam quase todo o pequeno espaço daquele móvel estavam apinhados um sobre o outro dentro da gaveta.

Esticou o braço e abriu a última gaveta, apanhou um deles, olhou para a foto por um instante, então voltou a guardá-lo. Ainda com o braço esticado, apanhou o celular, tocou na tela, entrou na agenda, selecionou aquele nome e acionou a discagem. Foi preciso apenas o primeiro toque para fazê-lo desistir e cancelar a chamada. Ficou esperando, olhando para o visor, até que este se apagou. Acionou a tela mais uma vez apenas para colocar para tocar a Playlist com suas músicas preferidas da Bonnie Pink começando por “I Just Want You To Be Happy”, largou o celular de volta sobre a cômoda, apagou a luminária que era acoplada à cabeceira da cama e enfiou-se debaixo do edredom.   

Continua...

[1] OneRepublic – Feel Again


Notas Finais


Parece que não é somente a autora da fic que entra em depressão por não receber reviews dos leitores fantasmas, os personagens começam a dar indícios do problema também. Perceberam que o Yoru não tá nada bem? >_<

Eu e as meninas que me acompanham lá na página do Facebook: https://www.facebook.com/AndreiaKennenYaoiWriter (cliquem aqui e curtam a página e me acompanhem mais de perto também) montamos uma Playlist com as músicas desse capítulo. Bora conferir? Não esqueçam os comentários são meu anti-drugs e que dependo muito deles para continuar sã e produzindo à todo vapor, né? ;) Apertem o play!

Pintando O Sete Playlist – Cap. 08

Soundtrack 01 - I just Want you to be happy da Bonnie Pink
Indicação do Yoru-kun para os momentos deprê e que o faz recordar da cagada que foi deixar o namorado partir, o nosso fofo do Sasori-kun. >_<
https://www.youtube.com/watch?v=WwOsolwHmHs

Soundtrack 02 - Bonnie Pink - It's Gonna Rain
De acordo com o Yoru-kun é a cara da irmã Bara. Concordam??
https://www.youtube.com/watch?v=O3yWVa0c4eY

Soundtrack 03 - Feel Again - OneRepublic
Indicação da Gi-chan para o momento "contemplação" do Yoru-chin a dança e ao corpo do lindo profe da Yui-chan, o Andrri. <3
https://www.youtube.com/watch?v=2tMKO_9SD1Y

Soundtrack 04 - Overdose - EXO
Indicação da Bruninha, que diz que a música do EXO tem muito a ver com Yoru-chin. Amei a indicação também. o/
Se você também que contribuir com essa playlist, da fic em si, se vocês ouvem algo que lembram os personagens e a história, e só fazer a indicação nos comentários, ou lá na página do Face.
https://www.youtube.com/watch?v=TI0DGvqKZTI#t=21


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