História Entre Sem Bater - Capítulo 10


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Original, Romance, Slice Of Life, Yaoi, Yaoi Day 2014
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Palavras 5.362
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Seinen, Yaoi
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Nem vou falar muito, pq já estou super atrasada com essa postagem, apenas que divirtam-se!
Boa leitura!

Capítulo 10 - Capítulo 10 - Mesmo quando do nada você está disputado?


Entre Sem Bater

Por Andréia Kennen

Capítulo 10

Mesmo quando do nada você está disputado?

 

— Somente você — foi ditado pelo policial ao barrar a entrada de Thiago.

E, diante das nossas caras de indagação, ele se explicou:

— É protocolo. Só a vítima pode entrar. Acompanhante só se for um advogado. Você pode aguardar aqui na espera — esclareceu ele, apontando para o Thiago as cadeiras da recepção.

Deu para notar, na cara que o Thiago fez, que ele não gostou da forma ríspida que foi tratado. Também achei estranho. O policial que havia sido todo simpático comigo na primeira vez agora parecia carrancudo. Seu semblante estava endurecido, as sobrancelhas juntas, a testa enrugada e os lábios formavam um bico. O Sérgio parecia bem mal-humorado, como a maioria dos policiais parecia ser.

O Thiago revirou os olhos e antes que ele causasse algum alarde eu decidi entrar sozinho.

— Tudo bem, Thi. Pode me esperar aqui fora. Só vou pegar meu celular mesmo. Já venho.

— Fazer o quê, né? — ele deu de ombros, bateu as mãos na cintura, virou as costas e foi se acomodar em uma das cadeiras de plástico na fileira rente à parede da recepção.

Em seguida o policial apontou com a mão esquerda a porta que ele segurava aberta para mim. Evitei encará-lo para não causar mais desconfianças no Thiago e passei pelo Sérgio de cabeça baixa.

O policial pediu que eu me acomodasse e fosse lendo o documento de Retirada de Objetos Perdidos, — o qual já estava impresso com os meus dados sobre a mesa — enquanto ele foi buscar meu aparelho.   

Não demorou e o Sérgio retornou com uma caixa de madeira, a qual depositou sobre a mesa, na minha frente. Notei que ele continuou andando dentro da sala. Eu estava terminando de assinar o documento quando aquela pergunta me surpreendeu.

— Quer café?   

Eu ergui meus olhos e o vi de pé, em frente a um armário de aço, onde tinha uma garrafa de café e copinhos descartáveis em uma bandeja. Ele tinha servido um copinho e ficou esperando minha resposta para servir o segundo.

Arqueei uma sobrancelha. Eu estava louco ou ele havia mudado de humor de repente?

— Não, obrigado. Não sou muito de café.

— Certo.

Ele apanhou o copinho servido e sentou-se, enquanto eu voltava para o documento. Terminei de assinar, coloquei a caneta de volta no porta-canetas, onde eu a havia apanhado, e empurrei o papel de volta para ele.

— Assinei em todos os lugares que tinha meu nome.

— Está mesmo com pressa — ele observou um pouco sem graça, apanhando o papel e o folheando para conferir as assinaturas.

O que ele queria? Que eu tivesse vindo para tomar Tereré e jogar conversa fora?

Eu tinha notado que o documento estava com assinatura do delegado, ou seja, ele não precisaria ir atrás do superior para pegar assinatura dele como da primeira vez. Nosso contato seria bem breve. Bastava ele me devolver o meu celular, a minha via do formulário e adeus.

Notei que o Sérgio demorou um pouco na conferência do documento e ao terminar ele deteve o olhar em mim. Talvez, fosse por eu não ter respondido a observação feita anteriormente, sobre eu estar com pressa. Optei por não me manifestar de qualquer forma.  

Ele suspirou e finalmente retirou o aparelho da caixa. Ele estava dentro de um saco plástico, todo desmembrado (chip, bateria, o aparelho e a cópia da nota fiscal que eu havia trazido no dia que fiz o B.O.). Aliás, todos aqueles itens estavam relacionados no formulário que eu havia assinado.

— É esse aqui, pode ligar e conferir se está tudo de acordo. Tinha um cabo para esse aparelho aqui na central, então tomei a liberdade de carregá-lo.

— Hm — apenas resmunguei a resposta, achei que era gentileza demais.

Eu ainda tinha a impressão que ele estava interessado em mim. E, pelo jeito que o Thiago e eu fomos flagrados na sala de espera, bem no momento que o Thiago massageava um dos meus ombros, o Sérgio certamente imaginava que não éramos meros colegas.

E, talvez, — estou fantasiando alto nesse trecho — fosse esse o motivo que o tivesse deixado carrancudo ao nos recepcionar.

Afinal, eu ter um parceiro, diminuía as chances dele de ir mais adiante e arrumar um caso comigo e trair a esposa com filho recém nascido.

Liguei o celular e começaram a cair algumas mensagens e ligações perdidas. Respirei fundo, me sentindo aliviado.

— Finalmente sorriu — ele observou.

E eu nem tinha percebido o fato. Ergui os olhos para ele e acabei sorrindo com vontade.

— Então, não esperava mesmo recuperar meu celular. Obrigado.

— Falei para ter fé.

— Pois é — ergui os ombros. — É só isso?  

Ele relutou, mas destacou minha folha do formulário e me estendeu.

— Infelizmente é só — disse ao me entregar, com um verdadeiro ar de pesar. Então veio aquela nova observação, que me surpreendeu, por não imaginar que ele fosse fazer tão diretamente. — Você tem namorado? É o carinha na recepção? — complementou, fazendo um meneio na direção onde ficava a recepção.

Dava para ver a sala de espera meio embaçada dali, porque parte da divisória era um tipo de vidro distorcido com riscos brancos.

Foi a minha vez de ficar relutante em responder, mas ao me recordar da foto da criança no celular dele e do fato que ele podia ser um tremendo sacana que estava tentando arrumar um caso para trair a esposa, me fez criar coragem para ser direto também.

— Desculpa, mas você não é casado?

Ele pareceu bem surpreso com a minha pergunta, pois arregalou os olhos e ficou ereto na cadeira. Então vasculhou os dedos das duas mãos ou algo de onde eu pudesse ter tirado aquela informação.

— Da onde você tirou isso? — resolveu por perguntar.

— Da foto de pano de fundo do seu celular. É um bebê recém-nascido, não é? Não é seu filho?

Ele riu. Riu um sorriso divertido, em seguida meneou a cabeça em negação e tirou o celular da gaveta, buscou por algo nele, então estendeu para mim uma foto.

— Pode pegar. Olhe.

Eu apanhei o aparelho. Havia uma foto de uma mulher morena lindíssima, com os cabelos crespos natural, estilo Black-power, ela tinha alguns traços que lembrava o policial, ela estava em um leito de um hospital, com o bebê no colo e um homem bem branco ao lado dela. Ambos eram só sorrisos.

— O bebê é o Alan, nosso novo xodó — ele me informou. — A mulher na foto é a Analice, minha irmã mais velha, é o primeiro filho dela, por isso os dois estão com esses sorrisos bem bobos na face. Ao lado dela está o Deivid, meu cunhado, o marido dela e o pai do bebê. O Alan é o primeiro filho deles, então é o meu primeiro sobrinho também, sou uma espécie de tio babão agora. Por isso coloquei a foto de fundo no celular. Eu gosto de crianças. Até penso em adotar quando eu encontrar um parceiro legal e a gente se estabilizar juntos.

Eu me desarmei completamente.

Como eu conseguia ser tão paranóico e imaginar tantas coisas deploráveis de uma pessoa que, pelo que tudo indicava, era tão bacana?

Devolvi o celular para ele, um tanto constrangido.

— O que foi?

— Desculpe por ter pensado mal de você.

O Sérgio sorriu, mostrando os dentes claros entre aqueles belos lábios carnudos.

— Tudo bem. Deve ser normal ter esse tipo de pensamento quando se trata do nosso meio, não é? Eu sei que tem muitos em busca apenas de sexo e diversão. Além disso, eu dei margens para que fizesse um juízo ruim de mim ao colocar a foto do meu sobrinho de fundo de celular. Não tinha como você saber que ele não era meu filho. Mas isso prova que você é mesmo o tipo de cara que imaginei que fosse; um cara sério e que não está aberto a relacionamentos passageiros, ou sem futuros — ele suspirou de novo, recostando-se na cadeira. — E isso me deixa mais frustrado por não ter chegado primeiro. É mesmo uma pena que esteja comprometido, Caio. Não que eu esperasse uma chance, do nada, mas nos é permitido sonhar e nunca se sabe, não é?  

Engoli em seco. Só consegui sorrir em concordância, por estar muito, mais muito sem graça mesmo.

O meu coração assanhado até acelerou, afinal, eu nunca tinha sido cortejado daquela forma tão sincera e gentil.

Os gays, ou ao menos a maior parte deles, fazem exatamente como o Sérgio havia mencionado: partem direto para o ataque, para o assédio e até usam de vocabulário sujo e obsceno para chegar ao ponto que se deseja: o sexo.

Não que sexo seja ruim. Eu sou homem, e gay, e pensar em sexo em boa parte do meu tempo é algo da minha natureza. Mas eu aprendi a grande diferença entre “somente sexo” e “sexo com o amor”. O primeiro nunca te sacia. Na verdade, ele apenas aumenta sua libido por mais e mais, porque ele nunca preenche o vazio que a gente sente depois. Enquanto o segundo, bem, não vou dizer que pode te fartar, homens jamais se fartam de sexo, mas ao menos ameniza e preenche o vazio que nos faz sentir tanta fome.

— Pois é — respondi por fim, a voz rouca, quase nem saiu.

— De qualquer forma, eu coloquei meu número no seu aparelho, está como “Sérgio Policial”, para eu poder entrar em contato e você saber que sou eu, caso alguém devolva mais alguma das suas coisas e... Bem, eu sei o quanto pessoas como nós passam por dificuldades diariamente, então, se estiver diante de algum problema e se eu puder ajudar, seja qual for, Caio, não hesite em me chamar.

Eu senti um engasgo. Havia sido tão babaca e estava sendo retribuído com tanta gentileza que senti uma dor aguda no peito e uma vontade de chorar. E, por uma fração de segundo, também me senti arrependido por estar namorando.

Mas eu sei que esse sentimento de arrependimento sumiria no momento que eu ultrapassasse aquela porta e meu olhar encontrasse com o do Thiago. Pois era ele por quem eu estava apaixonado, era ele quem preenchia o meu vazio, e era por ele que meu coração batia de verdade.

Sorri, guardei o celular no meu bolso e estendi a mão para o Sérgio.

— Te dou um “oi” no Whats para você gravar meu número.

Ele sorriu, um sorriso que mal coube em seu rosto, então apanhou a minha mão e apertou firmemente na dele.

— Obrigado, Caio.

Então nos levantamos e ele me acompanhou até a porta.

— Posso dizer algo? — ele falou antes de abrir, parecia meio nervoso, passando a língua sobre os lábios ressequidos para umedecê-los, enquanto impunha força no segurar da maçaneta. — É meio constrangedor — ele justificou.

De repente fiquei com medo de que o Sérgio estragasse toda boa impressão que eu havia reconstruído sobre ele pedindo para que fossemos amantes, ou algo do tipo. Sim, minha mente processa as coisas distorcidas de maneira ligeira. Por outro lado, seria bom se ele desse aquele avanço, porque eu evitaria dar o “oi” prometido no Whats e nossa futura relação de amizade acabaria antes de começar.

— Pode dizer — eu o incentivei.

Ele relutou, parecia algo difícil de dizer.

— Você é... — ele travou ao começar, então fez uma pausa, suspirou, e depois de um provável debate interno, ele resolveu falar. — Eu nunca fui bom com isso — ele confessou, respirou fundo mais uma vez, e após uma nova pausa, declarou. — Desculpe-me se parecer meio bobo, ou ousado demais, mas é que eu gostaria que soubesse que eu o achei lindo desde o primeiro dia que veio fazer o boletim. Mesmo com as marcas no rosto, a cara emburrada, o mau-humor, eu... fiquei encantado. Você é lindo e atraente, Caio. Lindo mesmo. Do tipo... que faz a gente ficar sem fôlego por um tempo e de ter... bem, ter pensamentos, sonhos, sabe? Seu corpo também é perfeito e... Ah, é isso, chega, desculpe-me.

Era mesmo só aquilo?

— Você também não é de se jogar fora — respondi prontamente, sem o mesmo constrangimento. — Tem lábios sensuais e um corpo atraente.

— Parece tão mais fácil quando você fala.  

— Mas é, acredite — eu sorri. — Você é tímido.

— Acho que por isso estou solteiro há tanto tempo — ele riu, baixou a cabeça e coçou a nuca, após aquela confissão.

Ok. Eu queria agarrá-lo e levá-lo para minha casa e colocá-lo na minha estante. Obviamente, não o faria, o Thiago me mataria e o quebraria no meio na sequência.

Então, me vi fazendo aquilo, fui de encontro ao rosto dele e o beijei na bochecha.

— Tenha mais confiança em você mesmo. Fofo do jeito que é logo vai arrumar alguém especial — garanti.

Ele tocou o rosto aonde beijei, e finalmente girou a maçaneta da porta.

— Obrigado, Caio. Foi bom te conhecer.

— Foi bom te conhecer também, Sérgio — acenei. — Tchau. A gente se vê.

Ele não me acompanhou até a recepção, voltou para dentro da sala e fechou a porta. O Thiago se colocou de pé assim que me viu saindo.

— E aí? Recuperou tudo? — perguntou assim que me aproximei.  

— Só o celular — respondi e tirei do bolso o aparelho, mostrando para ele. — Já é alguma coisa, né?  

— Sim, com certeza.

— O Sérgio disse que se tiver notícia das outras coisas entrará em contato.

— Prestativo ele, né? — aquela observação do Thiago me deixou apreensivo por ter soado meio irônico, desconfiado. — E como foi que encontraram?

Só depois daquela pergunta me dei conta que eu não havia procurado saber também. Estapeei minha própria testa.

— Merda! Esqueci de perguntar.

— Que porra é essa, Caio? E por que demorou tanto lá dentro?

— Precisa falar palavrão? Eu estava assinando as papeladas. Falar nisso, deve estar escrito aqui em algum lugar quem entregou e... — eu tirei o formulário do bolso e o abri, tentando desviar do assunto.     

— Tá — o Thiago esturrou, impaciente. — Vamos andando, vai. — Ele me entregou o capacete. — O pessoal ligou dizendo que estão nos esperando lá na sua casa.

— Que pessoal?

— Todo pessoal. A Fran, a Jess, o Vinny, a turma toda.

— Mas o que estão fazendo lá?

— Souberam do seu “acidente” e estão lá para te visitar.

— Você tá brincando? Não tem lugar para receber todos eles lá em casa!

— Vamos pensar nisso depois que chegarmos lá.

“Oh, céus!”, exclamei em pensamento, o meu fim de domingo tranquilo havia acabo de ir para o espaço.

...

Não era história do Thiago para me arrastar para fora da delegacia por estar com uma pontinha de ciúmes do Sérgio, até parecia que estava tendo algum tipo de manifestação na porta da minha casa, tantos eram os carros estacionados, inclusive aquela caminhonete vermelha reluzente e de tamanho exagerado do Guilherme.

Assim que descemos da moto eu fui recepcionado pelo abraço caloroso da Fran.

— Meu Deus, Caio! — ela exclamou com aquele tom de mãe preocupada, o que me lembrou a mãe do Thiago que também havia me visitado naquele dia. — Como que esse acidente foi acontecer pelo amor de Deus?

— Fran, desgruda que eu quero abraçar ele também — reclamou a Jess, empurrando a namorada pelo ombro e abrindo espaço para ela me abraçar.

— Oi, Jess — a cumprimentei, correspondendo ao abraço.

— E aí, meu bem, está melhor?

— Sim, sim. Melhor.

Em seguida fui abraçado pela a Amandinha, depois foi a vez do Claudio, o Vinny, até mesmo o Ronaldo e o Heitor, com quem tinha menos contato, estavam ali.

Sem falar neles: os gêmeos reluzentes. Tanto Luciana quanto o Guilherme desencostaram da caminhonete depois que chegamos e se aproximaram de vagar. Ambos de óculos Ray-Ban, estilo aviador, de armação dourada e de lentes bege gradiente, adorno que os deixavam com cara de serem mais ricos do que eram.

A Lu, como sempre, foi discreta, me deu apenas dois beijos, um em cada lado do rosto, perguntou se eu estava melhor e mal tive tempo de responder e ela se afastou, dando espaço para o Guilherme, que me deu um abração tipo de urso, me erguendo do chão, como se fossemos amigões do futebol.

— Ei, ei, ei, Gui! Ainda estou dolorido — reclamei. — Não me aperta desse jeito.

— Só estou conferindo se está tudo bem mesmo, novinho — ele respondeu e me deu tapinhas nas costas ao me colocar no chão. — Tá inteirásso, hein. O que é uma pena, né? — E piscou um dos olhos, após aquela observação sórdida.

Esse “é uma pena” com certeza fora referente ao fato de eu ainda estar vivo e não ter deixado o caminho do Thiago livre para ele novamente.

Observação, que óbvio, levantou reclamações dos demais.

— Você é tão desagradável, Guilherme — retrucou a Fran.

— Ai, credo, Gui, como você é trouxa, véi.

— Isso é comentário que se faça, Gui, porra — falou o Cláudio.

Mas o Gui parecia de bom humor e só mostrou a ponta da língua para o grupo.

Os cumprimentos seguiram para o Thiago e ao término eu os convidei para entrar, muito constrangido, claro, por ter certeza que não tinha lugar suficiente para acomodar todos eles dentro do meu pequeno quarto.

Mas até que couberam todos. As meninas se sentaram na cama, a minha volta, menos a Luciana, que preferiu a banqueta perto do balcão de mármore que servia de divisória entre a cozinha e a sala. O Vinny se acomodou na outra banqueta perto dela.

Era quase certeza que a Lu estava com nojo de sentar na mesma cama que dois caras faziam amor.  Se ela soubesse da verdade: que o Thi e eu só havíamos dormido ali, ao pé da letra, talvez ela não sentisse tanto receio em se acomodar com as outras meninas.

Os rapazes se sentaram no tapete mesmo. O Gui foi o único que se acomodou em um Puff que ganhei da Laurinha, quadrado, de cor lilás, o qual eu usava de mesa para os meus materiais da faculdade, os quais o Gui não se importou em derrubar para o chão para ocupar o móvel com o traseiro dele.

O Thiago foi o único que ficou de pé, braços cruzados e expressão séria. Talvez, porque, assim como eu, estivesse sentindo o peso das perguntas que eles faziam buscando detalhes do acidente que não tinha acontecido.

Direcionei minha atenção para o Thiago, buscando o apoio dele, ou ao menos uma ideia do que responder. Não havíamos conversado nada sobre omitir para os nossos amigos a realidade do fato ocorrido. Nós dois não costumávamos e nem gostávamos de mentir. Mas era constrangedor detalhar o que houve. 

Abaixei a cabeça e então o Guilherme, para frente como era, foi quem sugeriu a resposta por nós.

— Não teve queda de moto nenhuma pelo jeito, não é? Tá na cara que vocês dois, meninos certinhos, se meteram em alguma confusão. Tô errado?

Eu corri meus olhos entre os presentes e percebi que todos olhavam sérios para o Gui, que havia levantado uma questão que não era tão descabida assim. Em seguida eles se voltaram para mim, talvez, esperando que eu negasse.

A Fran, que estava ao meu lado, com a mão repousada sobre minha coxa direita, apertou devagar, me transmitindo força.

— Se não quiser falar, Caio, fica tranquilo. A única coisa importante é que estão bem.

— Tranquilo como, Fran? — O Guilherme continuou abrindo a boca grande que ele tinha. — Não é estranho que só o novinho tenha se ralado todo? Parece até que ele levou um soco no olho? Você era um namorado bem melhor, Thi. Ou foi você quem fez isso com ele?

Finalmente o Guilherme tinha feito uma observação que conseguiu exaltar os ânimos e todos começaram a falar ao mesmo tempo.

— Não! — eu gritei rapidamente, antes que a confusão aumentasse. — O Thiago jamais faria isso comigo e ele não teve culpa de nada!

— Foi um pouco culpa minha sim, Caio — o Thi interferiu, fazendo as vozes dos demais se calarem.

— Espera, Thiago — A Francisca falou, em um tom atipicamente sério, encarando o Thiago com os olhos arregalados. — Agora eu fiquei preocupada. Como assim? O que aconteceu afinal? Você não pode ter tido uma crise de ciúmes e ter ficado violento, não é?  

— Não sou baixo desse jeito, Fran. Você sabe.

— Claro que sei. Por isso estou confusa.

— Eu sugeri fazermos um programa o qual acabou dando nessa merda toda.

— Mas você não tinha como ter previsto o que iria acontecer — eu continuei defendendo-o.  

— Poderia ter previsto sim.

— Opa, o casal perfeito vai discutir, esperem, esperem, deixa eu ligar minha câmera, preciso registrar isso para posteridades.

— Cala a boca, Gui! — falaram a Amanda e a Fran ao mesmo tempo.  

— Nossa, Gui, cala a boca, véi.

— “Véi” é seu passado, Jess — ele retrucou.

— Gente, será que dá para não baixar o nível? Deixa que os dois falem, por favor — a Luciana interferiu.

— Isso mesmo — apoiou a Amandinha, direcionando-se para mim. — Fala coração, explica para nós o que houve. Isso, se você quiser também, se não quiser, vamos mudar de assunto agora mesmo.

— A Amandinha tem razão — a Fran apoiou. — Se eles não quiserem contar é direito deles.

— Só acho que se for algo relacionado com homofobia, vocês tinham que falar — observou o Ronaldo, que foi apoiado pelo namorado.

— Concordo, amor — disse o Heitor. — Precisamos proteger uns aos outros. E, quem sabe, formalizarmos uma denúncia.

O silêncio perdurou por alguns segundos, até que o olhar firme do Thiago me fez compreender que ele queria minha autorização para contar a verdade. Suspirei e acabei meneando a cabeça em um sim discreto. Então ele começou a narrar a história o mais resumido que pode.

— Eu quis fazer algo romântico com o Caio e sugeri um encontro ao ar livre. Fomos para aquela reserva no final do Parque das Nações indígenas. Deitamos em uma rede e pegamos no sono. Eu acordei para ir ao banheiro e quando cheguei o Caio estava rodeado de milicos. Eu desci para pegar a moto e quando cheguei os palhaços tinham feito isso com o Caio.

— Por que eles fizeram isso, pelo amor de Deus? — indignou-se a Fran. — Se os dois não foram pegos juntos, não tinha como saberem que o Caio era gay, tinha?

— Eu... — Meu rosto esquentou de um tanto que parecia que estava pegando fogo. Mas se eu não explicasse aquele detalhe, a história ficaria sem sentido. — Eu estava sem roupas — confessei. — Lógico que não é normal um cara dormindo pelado em uma reserva ao ar livre.

— Putz!

Alguns fizeram aquela exclamação enquanto estapeavam suas testas.

— Ei, com certeza é o maior tesão fazer sexo selvagem ao ar livre — brincou o Guilherme, fazendo gestos de vai e vem com o quadril em cima do meu Puff. — Mas pô, Thi! Hoje em dia sempre tem alguém de olho, cara. Vocês poderiam até terem ido parar na internet. Por que não foram para um motel, porra?

O Thiago revirou os olhos e o semblante dele se fechou ainda mais.

— Por isso disse que a culpa foi minha, caralho! — ele se exaltou. — Eu fiz a sugestão sem analisar os riscos.

— Meninos, querem tirar a “porra” e o “caralho” da boca?

— Lógico que eles não querem, né ‘mozão? — a Jess quem respondeu. — Eles amam isso.

— Ai, Jess... Você podia ter ficado quieta e ter evitado me fazer visualizar essa imagem — A Fran fez uma cara de nojo para observação da namorada e eu tive que sorrir. O que pareceu aliviar um pouco tensão.

— Então foi isso — o Cláudio, que era um dos mais sérios do grupo e o mais objetivo também, retomou o foco da conversa. — Os militares bateram no Caio porque o encontraram pelado e deduziram que ele poderia ser gay?

— Basicamente foi isso — assumi, encolhendo os ombros. — Não sei se deduziram que eu era gay. Mas eles meio que tentaram fazer umas gracinhas e eu quis escapar e acabei levando um soco.

— Que babacas! — A Fran exclamou, tendo apoio das demais meninas.

— Esses idiotas tinham que ser denunciados por agredirem um cidadão de bem — reclamou a Amandinha.

— Na hora que o Thiago apareceu, — eu continuei a explicação. — fazendo estouros com o escapamento da moto, o grupo se assustou, e saiu correndo. Mas, quando estávamos fugindo, provavelmente notaram que éramos gays mesmo, pois ficou claro depois que eu fui resgatado por outro cara, então eles começaram a atirar pedras de onde estavam. Foi daí que ganhei os outros hematomas. Eu perdi minha carteira, minhas roupas e o meu celular. Tudo ficou lá. Quando fui ao médico hoje não consegui falar para ele o que tinha realmente acontecido e nem para polícia ao fazer o B.O., então inventei essa história que tinha caído de moto.

— E por que não teve coragem de dizer o que aconteceu? — a Luciana pareceu inocente ao se manifestar do outro lado. Pude notar que ela havia se sensibilizado com a minha história.  

— Oras, Lu — o namorado dela, o Vinny, quem respondeu. — Porque eles também infringiram algumas regras: o de atentado ao pudor, de invasão de reserva em horário fechado. Além do fato de que, se falassem que eles eram um casal, dependendo do policial que os atendessem era capaz da coisa ter sido revertida negativamente contra eles.  

O Thiago bateu as mãos ao longo do corpo e apontou para o Vinny, como se concordasse, indignamente, com aquele esclarecimento.

— O que não deveria acontecer, pois o erro de vocês não feriu ninguém — respondeu o Ronaldo, que era um defensor nato da causa LGBT junto com o namorado.

— Enquanto o coitado do Caio levou um soco, foi apedrejado gratuitamente e ficou com o rosto bonitinho todo deformado — completou o Heitor.

— Essa é a nossa realidade — constatou a Fran com pesar. — Não adianta fecharmos os olhos para ela. É a mesma injustiça que acontece com os negros, com as lésbicas.

— Deficientes, bissexuais, trans, mulheres, ateus, moradores de ruas, pobres, as minorias no geral — continuou o Claudio.

— De qualquer forma, podemos tentar fazer alguma coisa para achar seus pertences — o Heitor sugestionou. — Temos um grupo de LGBT da cidade no Whats e ali a gente costuma relatar e tentar encontrar soluções para situações como essa.   

Bem, achei prudente não entrar no mérito que eu quase havia sido violentado. Os ânimos haviam se exaltado demais, estava feliz suficiente com a preocupação deles. Eu realmente tinha conseguido bons amigos ao lado do Thiago.

Eram quase nove horas da noite quando o Heitor e o Ronaldo foram embora, justificando que tinham compromisso e que iria expor o ocorrido no grupo deles.

Uns cinco minutos após a saída dos dois, o Claudio também se despediu com a Amanda. A Luciana e o Vinny decidiram pegar carona com a saída deles e anunciaram que iriam também, visto que o Guilherme não dava indício de que iria embora tão cedo. A Fran e a Jess ficaram.  

 O Thiago sugeriu pedirmos algo para jantar e o Guilherme recomendou sushi. Os votos favoráveis foram unânimes. A Jess, que amava sushi, foi quem se encarregou do pedido. Não tinha nem dez minutos que o pedido havia sido feito e a campanhinha tocou.

— Nossa, isso sim que é sushi express — comemorou o Guilherme, levantando-se, por ser ele o mais próximo da porta. — Deixa que eu atendo.

— Mas não deve ser o sushi, Gui, foi muito rápido e...

— Ow! — Exclamou o Guilherme ao abrir a porta e se deparar com o visitante. — Tomara que o entregador tenha vindo de brinde.

— Opa. E aí? O Caiozito estás?

— “Caiozito”? Sotaque legal. Entra aí, irmão. Ele está ali, entre a linha tênue da vida e da morte.

— Ai, Gui, larga de ser mala, véi.

— Ai, Jess, larga de falar nessa gíria nojenta, véia — remendou ele, apanhando o Cassiano pelo ombro e o trazendo para dentro, recebendo somente um mostrar de língua da Jéssica. — Caio, diga-me, por favor, que esse gostosão é seu ex. E diga, por favor, que ele está disponível.

O Thiago revirou os olhos. E o Cass deu uma olhada de canto para o Guilherme.

— É meu amigo de infância — respondi. — Cássio Fabiano. Mas ele gosta de ser chamado pelo apelido de “Cassiano”. Cass, esses são nossos amigos — eu tive que incluir o Guilherme por hora no meu ciclo de amigos. — Francisca, ou Fran, a Jessica, que prefere ser chamada de Jess e o...

— Guilherme Alcântara Figueiredo Ramos, vulgo: Gui — o próprio tomou a frente, estendendo a mão e apanhando a do Cassiano na dele. — Prazer. Você está solteiro? — o Gui foi direto ao ponto, analisando os dedos das mãos grandes do Cassiano. — Pelo jeito está. Ou, ao menos, não tem compromisso muito sério. Tem algo para fazer essa noite?

O Cass riu, me buscando com o olhar.

— Ele é para frente desse jeito mesmo, Cass — eu respondi, erguendo os ombros.

— Se você não o tesourar ele vai longe — aconselhou a Fran. 

— É como dar asas a cobra — observou a Jess.

— Gui, dá um tempo — falou o Thiago, sem nada de paciência.    

— Sabe de uma coisa, eu sou a luz que ilumina esse grupo. Deveriam ter um pouquinho mais de consideração com a minha pessoa, não acham?

— Não — respondemos todos juntos em um coro harmônico.

Algo que fez o Guilherme interpretar um ar maior de injustiçado ao fazer um grande bico com os lábios.

Todos nós rimos e no fim o Cass, que tinha vindo ver como eu estava, foi capturado pela lábia do Gui e os dois acabaram papeando como se fossem amigos de longa data.

Depois do sushi, a Jess e a Fran resolveram ir embora.

A Fran aproveitou para expulsar o Guilherme também, dizendo que estava tarde e que eu precisava descansar. Deu para ver o olhar de agradecimento que o Thiago direcionou para Fran ao fazer aquilo.

No fim, deu para notar que o Cass e o Gui marcaram de irem beberem juntos, por isso o Cass não demorou a se despedir depois que eles saíram.

— Caiozito, también voy.

 Na verdade, achei um pouco estranho, porque o Cassiano pareceu ter perdido o foco do que realmente tinha vindo fazer: me visitar.

Mas, eu estava exausto demais para poder reclamar, queria um banho, o Thiago tinha ido para o banheiro primeiro. Depois queria tomar o remédio que o médico havia receitado e passar o resto da noite deitado ao lado do Thiago assistindo seriados na televisão.

O Gui era uma boa companhia para o Cass, ambos adoravam baladas, acho que era uma amizade que poderia dar certo de verdade. Mas eu precisava alertar o Cassiano de algumas coisas sobre a personalidade distorcida do Gui, não que essas coisas não fossem visíveis.

— Tudo bem — eu o abracei.

— Estás mesmo bien?

— Estou sim, Cass. Vai se divertir vai. Mas quero que tome cuidado com o Gui. Deu para notar que ele não tem muitos princípios, né? Ele também é gay... Digo, talvez ele seja bi, nem sei direito. Mas ele não é como o Thiago e eu, que somos assumidos e sérios, ele tem o pé meio dentro do armário ainda. Por isso ele atira para todos os lados em forma de brincadeira e quem cair na rede é peixe.

— Ei, ei, soy yo, Caiozito — ele segurou meu rosto com ambas as mãos e encostou minha testa na dele, esfregando nossos narizes, em um tipo de beijo de Esquimó, como ele costumava fazer quando éramos crianças. — Yo puedo cuidar de mí, cierto? No te preocupes. Yo quero és saber como usted ficou así?

— É uma longa história, depois de conto com mais calma.

— Caio...

Eu tive a impressão que o Cass queria me dizer algo, porque depois daquele chamado ele se afastou e passou a massagear o pescoço, parecia apreensivo.

— O que foi?

— Necessito decirte algo.

— É, estou percebendo. Diga.

Ele abriu a boca, mas travou com ela aberta.

— Cass?

— Minha mamá não vai gostar nada.

— O que tem a tia Rosa?

— Caio...

— Fala logo! — pedi exaltado. — Agora fiquei preocupado.  

— Eu peguei mi madre ligando para su madre hoje — ele confessou de uma vez. — Depois que ficamos sabendo do acidente pelo Facebook eu percebi que mi mamá ficou mui preocupada, impaciente. Creo que su madre deve estar a caminho de Campo Grande ahora.  

Foi a minha vez de travar com a boca aberta, como se tivessem me colocado no pause.

Minha mãe estava se deslocando do Paraná para Mato Grosso do Sul para ver como eu estava?

Não, aquela era uma informação completamente surreal para ser verdade.  

Era só o que estava faltando.

Continua...


Notas Finais


Se puder, comentem!
Beijos!
Até o próximo! o/


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