História Entre Sem Bater - Capítulo 5


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Original, Romance, Slice Of Life, Yaoi, Yaoi Day 2014
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Palavras 5.899
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Seinen, Yaoi
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Notas no final do capítulo, boa leitura! o/

Capítulo 5 - Capítulo 05 - Mesmo se o mundo desabar?


Entre Sem Bater

Por Andréia Kennen

Capítulo 05

 Mesmo se o mundo desabar?

 

Saí correndo atrás da Laura, apesar de eu ter sido o prejudicado, era o mundo dela que parecia estar vindo abaixo.

— Laurinha, pelo amor de Deus, espera.

— A culpa é minha, Caio. Minha! — ela gritava, intercalando a exposição da sua raiva entre chutes na porta do carro e as mãos que esfregavam o rosto. — Como eu não percebi? Como pude ser tão estúpida?

— Laurinha, a culpa também foi minha.

— Ele te humilhou, Caio. Como um cara lindo como ele teve a capacidade de ser tão podre? Ele te chamou de garoto de programa! Fui eu quem bati a foto. Vamos pra polícia? Vamos agora. Vamos denunciar esse cafajeste — ela decidiu abrindo a porta do carro e se sentando no banco do motorista.

Mas eu tive que ser mais rápido e pegar da mão dela a chave que ela tentava em vão colocar na ignição.  

— E você acha que a polícia vai mesmo dar crédito para dois bêbados? — perguntei. — Apesar de que eu estou bem. Mesmo assim, esse é um problema meu. Eu vou resolver depois. Agora passa pro banco de passageiro. Você não vai dirigir desse jeito. Eu só bebi aquele coquetel no começo da noite, estou em melhor estado que você.

Mantive-me firme, enquanto a Laurinha me encarava com seu rosto encharcado em lágrimas, a maquiagem borrada e os olhos vermelhos arregalados. Mas depois de estremecer os lábios e tentar engolir o choro, ela pulou do banco do motorista para o de passageiro e me deu espaço para entrar.

Respirei fundo, sentindo o vento frio cortar meu rosto. A temperatura havia caído drasticamente. O inverno tinha que mostrar sua cara em uma situação tão crítica como aquela?

Entrei no carro, bati a porta, coloquei o cinto, pedi para bêbada-chorona da Laura fazer o mesmo e partimos. Durante todo o caminho a Laura continuou se lamentando muito pelo ocorrido, querendo saber onde eu havia conhecido o Guilherme e porque ele havia feito algo tão baixo para me machucar. Eu só respondi que explicaria quando ela estivesse em condições de compreender.

Não sei bem o que houve, mas o desespero da Laurinha acabou aplacando o meu próprio.

Deixei-a em casa depois de ajudá-la a trocar de roupa, colocar um pijama e ter certeza que ela havia pegado no sono. Chamei um moto-táxi em seguida. Usei a chave reserva para fechar a casa dela e esperei do lado de fora, tremendo de frio. Estava quase congelando quando o moto-táxi chegou. Andar de moto no frio, só com blazer, foi a pior das ideias que tive, mas eu não estava em condições de pagar um táxi e também não poderia prever que a noite esfriaria tanto.

Quando cheguei em casa dei graças a Deus. Eu estava um verdadeiro picolé. Desci da moto rápido e retirei a carteira do bolso para pagar o moto-taxista quando eu o vi franzir o cenho.

— Olha, moço. Não quero te assustar não, mas tem um sujeito suspeito sentado ali na calçada, encostado no muro.  

Senti meu coração vir na boca, mas quando me voltei para trás e vi a moto, deduzi imediatamente quem era.

— Ah, não se preocupa, é o meu colega. Ele deve ter esquecido a chave — justifiquei rápido, dando a nota de vinte reais para o motoqueiro, que abriu a pochete na sua cintura, guardou a nota de vinte e me devolveu dez de troco.

— Tem certeza? Nem dá para ver o rosto direito, moço. E se não for? Se quiser, eu ilumino com a moto até você entrar.

— Não precisa — afirmei e peguei o troco da mão dele, guardei de qualquer jeito no bolso detrás da calça e dei as costas ao moto-taxista. — Obrigado.  

— Tá certo.  

Mas eu percebi que mesmo assim o motoqueiro ainda demorou um pouco a sair, ele só funcionou a moto e saiu quando me viu falando com a pessoa sentada na calçada.

— Thiago? É você?

— Eu.

— Pega sua moto, vou abrir o portão.

— Tá.

Enquanto eu abria o portão meio desajeitado, ele funcionou a moto e a estacionou na varanda. Tranquei o portão e abri a porta da casa.  

— Está congelando, vem. Faz tempo que está me esperando? Se tivesse me avisado que... — Eu me paralisei assim que acionei a lâmpada de dentro de casa e olhei para o rosto do Thiago.

Aquilo não era possível. Ele havia sido espancado. Os óculos estavam tortos e haviam várias marcas de hematomas no seu rosto, alguns cortes e ralados de onde saíam muito sangue.

— O- o q- que houve?

Ele ergueu a cabeça, sorrindo meio sem jeito, mostrando seus dentes também sujos de sangue, então ele me estendeu seu celular.

— Eu o obriguei a tirar a merda daquela foto.

Eu apanhei o celular, estava no perfil do Facebook do Guilherme. A minha foto não estava mais lá. Mas aquilo não me interessava de verdade, larguei o celular em cima da cama e me aproximei dele.

— Foda-se o Guilherme e suas criancices, Thiago. O que ele fez com você? Você está bem? Vamos para um posto de saúde agora!

— Eu tô bem — o Thiago confirmou aquilo e riu. — Como se ele fosse capaz de fazer alguma coisa por ele mesmo. Foram os merdas dos capangas da casa dele. Mas antes que eles me pegassem eu dei uns bons sopapos na cara bonitinha do Guilherme. Valeu a pena.

— Por que fez isso? — perguntei com indignação.  

Ele passou por mim e seguiu em direção da cama onde se sentou, apoiando os braços no joelho e encarando o carpete.

— Eu acordei atrasado pro trabalho e nem tive tempo de te avisar. Quando saí do trampo eu cheguei em casa exausto para caramba e praticamente desmaiei. Dormi até as oito da noite. Só acordei com a minha mãe me chamando para jantar. Eu tomei banho, jantei e quando decidi te ligar foi que eu descobri as merdas que estavam acontecendo. — Eu vi ele fechar as mãos em punho sobre as pernas. — Desculpe-me. A culpa foi minha.

Eu bati as mãos ao longo do corpo, por que todo mundo queria assumir a culpa das babaquices do Guilherme? Passei por ele, entrei no banheiro e peguei algodão e o vidro de álcool no armarinho. Sentei ao lado dele e depois de umedecer o algodão em um chumaço passei a limpar os ferimentos dele. Thiago não reclamou.

— Você não deveria ter feito isso — eu resmunguei baixinho.

— Eu não admito esse tipo de baixaria, Caio. Eu disse para o Guilherme se ele quisesse me atingir ele poderia vir sem medo, mas eu não vou perdoá-lo se ele ferir as pessoas a minha volta.

— Ele ainda te ama?

Aquela pergunta saiu sem querer, quando dei por mim já havia vocalizado o que me veio à mente. O Thiago ergueu a cabeça e encarou meus olhos. Mas ele não pareceu irritado e sim surpreso. Então o vi desviar o olhar novamente e como se vagasse de encontro ao passado, ele passou a narrar a história do Guilherme com ele.

— Toda sexta eu e um grupo de colegas matávamos os últimos tempos de aula. Na época eu fazia o ensino médio no Geraldo Murtinho. Descíamos para a concha acústica do Horto Florestal para curtir a noite do rock. Fumávamos, bebíamos e curtíamos boa música até umas onze da noite, horário que tínhamos que pegar o busão se quiséssemos chegar no último em casa.

Lá também era ponto de encontro de um grupo de skatistas que gostavam de ficar zanzando por ali depois de usarem a área de skates do parque, eles eram compostos na maioria por mauricinhos que estudavam a tarde na escola particular Force e subiam para ficar lá até umas dez horas da noite, quando seus pais ricos vinham pegá-los em seus carrões.  

Havia vários grupos de outras escolas particulares e públicas também, por isso não dávamos muita importância para presença desses caras.

Mas eles faziam a alegria das garotas do nosso grupo que começaram a ficarem alvoroçadas por um loirinho de olhos azuis que era desse grupo de skatistas da Force.  

O garoto se achava, ele percebia os olhares famintos das garotas sobre ele, claro, eram evidentes. Os caras do nosso grupo só se divertiam, tirando sarro das meninas, alegando que elas nunca conseguiriam nada com ele porque ele e o grupo eram um bando de veadinhos. Na época eu ainda não havia me descoberto gay.

Mas eu não ligava pra nada daquilo. Nunca fui fã nem de ficar tirando sarro, nem de azarações. Na maioria das vezes eu ia para o Horto com esse grupo de amigos, mas me separava dele e subia para o último degrau das arquibancadas da concha e ficava deitado lá, ouvindo a banda que tocava enquanto colocava a leitura em dia.

Foi então que em uma dessas sextas, na qual havia chovido o dia todo, e a noite ainda continuava garoando, que muitos dos nossos colegas foram embora mais cedo e outros não quiseram ir por causa do mal tempo. Nesse dia só desceu para o horto um casal de amigos, que queriam ir para ficarem namorando, e eu.

Ao chegar, deixei os dois sozinhos e subi para o último degrau, como era de costume. Havia pouquíssimos alunos naquela noite e o som do grupo que tocava ecoava dentro da concha. Mas quando cheguei no lugar que costumava ficar eu me surpreendi, o tal loirinho, que as garotas idolatravam, estava deitado no meu lugar.

Fiquei um tempo experimentando um conflito interno entre rechaçar alguma coisa ou deixar quieto, mas quando notei a roupa dele molhada e seu corpo tremendo, eu optei mesmo por deixar quieto. Havia muito espaço. E pelo jeito ele também estava sozinho e ainda havia se molhado. Então me acomodei no degrau abaixo dele e abri a mochila para apanhar meu livro.

Não demorou nem dez minutos e a chuva recomeçou. Curioso, ergui a cabeça para ver se o loirinho havia acordado, mas ele só tinha se virado para o outro lado e ainda tremia bastante, abraçado ao próprio corpo. Então retirei um casaco reserva que estava dentro da minha bolsa e joguei em cima dele.

— Por que você não vai embora? — eu perguntei, tendo certeza que ele estava acordado e que sabia da minha presença ali.

Ele ficou em silêncio por algum tempo, então ele se encolheu, se aconchegando com casaco e me respondeu.

— Meu pai dá aula em uma universidade, eu não posso pedir para ele largar a aula e vir me buscar.

— Tenho certeza que tem dinheiro para pagar um táxi.

— Tenho, mas...

— Você não quer ir para casa — eu meio que afirmei, ele só se virou para o lado que eu estava e mudou de assunto.

— O que você está lendo?

Fechei o livro e ergui a capa para que ele pudesse ler.

— “Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe”. Uau. Poe? É um autor famoso da literatura internacional, não é? Você parece bem culto para alguém que estuda em uma escola pública.

Eu dei um sorriso de lado para intenção dele de me diminuir, mas como disse antes, eu não ligava para essas coisas banais e idiotas, apenas ignorei sua arrogância e respondi euforicamente sobre aquela que era uma das minhas paixões.

— Está enganado. Eu não sou nada “culto”. Na verdade eu só gosto de histórias perturbadoras, que nos causam instabilidades momentâneas, pensamentos insanos e arrepios. Eu amo terror.

E voltei para a minha leitura.

Não sei que tipo de sentimento minha resposta causou nele, mas o loirinho não a esboçou. Ele se levantou de onde estava, sentou-se ao meu lado, vestiu meu casaco e pediu para que eu emprestasse um livro para ele matar o tempo também.

A partir desse momento, estranhamente, nos tornamos amigos. Ele sempre me cumprimentava quando eu chegava na concha, até pediu meu telefone e começamos a trocar mensagens e telefonemas.

Às vezes ele me ligava tarde da noite, normalmente quando eu estava na cama, e imitava uma voz assustadora, repetindo alguma besteira do tipo: “eu sei que o que vocês fizeram no verão passado”.

Um dia ele recitou um trecho de um poema famoso do Edgar Allan Poe e eu não consegui segurar a resposta idiota ao final.

— Ok. Você conseguiu me deixar de pau duro.

Eu o ouvi respirar pesado e depois de algum tempo responder.

— Você está me zoando, né?

Eu achei que ele fosse me repreender e desligar o telefone, mas ao contrário disso a voz dele soou surpresa e interessada, algo que me fez querer continuar com aquela brincadeira.

— Como pode saber se não está aqui para conferir? Te garanto que estou excitado, e estou massageando ele nesse exato momento.

— Cara, você é bem pervertido e esquisitão... — ele comentou, rindo. — Quer que eu continue até você gozar?

  Eu senti meu estômago contrair, a virilha arder, e acabei rindo, sem saber como reagir, eu aceitei.

Ele pareceu se divertir, ouvi o folhear do livro de contos, em seguida houve um pigarro para limpar a garganta e no instante seguinte ele voltou a sussurrar um novo conto: “Sombra”.

Como prometido, eu me masturbei.

Achei que aquilo mudaria nossa amizade, que ele se afastaria por ter certeza de que eu era um gay nojento. Até então, nem eu sabia que era gay. A única coisa que sabia é que nunca tive interesse em garotas do tipo gostosonas. Eu sempre preferi as mais discretas, em quase tudo, atributos, no jeito de se vestir e que tivessem pensamentos ideológicos ao invés de se preocuparem com sapatos.

Mas eu me enganei completamente sobre ele não querer mais falar comigo, pois na sexta seguinte, mesmo depois daquele ocorrido, ele estava lá, sentado do meu lado, arrancando olhares curiosos do grupo dele e do meu, por ele preferir passar mais tempo comigo do que com eles.

Para evitar questionamentos estranhos por parte dos nossos colegas, acabamos marcando dias e horários diferentes para nos encontrarmos no horto.

Porém, com a concha acústica vazia, não demorou acontecer o primeiro beijo. Os beijos não demoraram evoluir para amassos e quando demos conta do que estávamos fazendo, percebermos que havíamos entrado em um tipo de relacionamento sério. E mais estranho do que isso: continuamos desse jeito.

Eu terminei a escola naquele ano e passei a trabalhar durante o dia e fazer cursinho a noite. Eu queria de qualquer forma entrar na Universidade Federal, só que por duas vezes (no vestibular de verão daquele ano e no de inverno do ano seguinte) eu reprovei.

O Guilherme ainda estava terminando o terceiro ano do ensino médio e continuávamos nos encontrando sempre no mesmo lugar.

Foi então que sentimos a necessidade de adentrar mais a vida um do outro, eu passei a frequentar a casa dele, uma mansão em um bairro nobre da cidade. Conheci a irmã gêmea dele, a Luciana, o pai, o Sr. Alberto, professor e político, a mãe, a dona Sandra, socialite, e alguns dos seus amigos; os quais você também conheceu.

O Guilherme também quis conhecer o barraco onde eu morava com a minha mãe, a dona Helena, lavadeira, e a minha irmãzinha de três anos, a Vitória. Eu não conheci meu pai, minha mãe não gostava (e ainda não gosta) de falar sobre ele. E as poucas vezes que perguntei ela só me garantiu que era melhor eu não saber. Fazer o quê? Aceitei, apenas.

Quanto ao pai da Vitória, bem, quando minha mãe ficou grávida, o cara veio morar com a gente. Concordei numa boa. Até começar a desconfiar dele. O cara ficava agressivo quando bebia e várias vezes eu o peguei gritando com a minha mãe. Um dia eu cheguei do serviço mais cedo e o flagrei batendo na cara dela, minha mãe estava grávida, foi a primeira e a última vez que ele fez isso. Eu quase o matei de tanto esmurrá-lo. Demorou minha mãe aceitar que estava sem marido de novo, mas quando a Vitória nasceu ela encontrou na minha irmãzinha uma nova motivação para viver.

E foi a Vitória o grande estopim para muitos problemas, inclusive a decadência do meu namoro. Não por culpa dela, óbvio, minha irmã é uma benção, um anjo inocente. Porém, descobrimos que minha irmãzinha tinha nascido com um raro problema no coração e somente uma cirurgia poderia salvá-la. Minha mãe tinha fé, mesmo estando a dois anos na fila do SUS, que conseguiria a cirurgia.

Eu nunca escondi nada da minha mãe, sempre fomos muito amigos, e ela também me conhecia bem. Por isso que, assim que o Guilherme passou a fazer parte das nossas vidas, ela desconfiou. E quando ela quis saber a verdade, eu contei a verdade. Ela não me disse nada na ocasião, não me repreendeu, não ficou feliz, simplesmente não teve reação alguma, só voltou para seus afazeres domésticos e cuidar da minha irmã como se nada houvesse acontecido. Os dias se passaram e quando o Guilherme apareceu em casa ela o tratou como sempre fazia. Ofereceu bolo, café, conversou com ele, no fim da visita ele foi embora sem imaginar que ela já sabia sobre nós.

Quando eu perguntei para a minha mãe o porquê, ela só me respondeu: “Se o Gui te faz bem, quem sou eu para ir contra ao que os dois sentem?”.

A minha admiração por ela aumentou um nível.

Os dias se passaram rápidos naquele ano, fazia um ano e meio que o Guilherme e eu estávamos juntos. E no final daquele ano, depois de se formar no ensino médio, no vestibular de verão, o Gui passou para a Universidade Federal na sua primeira tentativa: direito. O pai dele queria que ele se formasse na área para alcançar um cargo de juiz no futuro.

Esse não foi só o primeiro motivo, mais foi uma soma de fatores que se uniram para o nosso namoro decair. Eu nunca me vi inferior ao Guilherme na questão de intelecto, mas ele havia passado na sua primeira tentativa e eu havia repetido pela terceira vez no vestibular para o curso de administração. Ele ter passado na Federal em um curso tão concorrido me fez me sentir um lixo, o idiota dos idiotas. Mesmo assim, tentei me convencer que a culpa das nossas diferenças não era dele. Continuei acreditando em um futuro que o ensino público seria tão bom quanto o particular e que a Universidade Pública seria para àqueles que não tivessem condições de pagar e a particular fosse para aqueles que tivessem condições de pagar.

Eu entrei na Universidade particular no curso de contábeis no primeiro vestibular que fiz. O valor era mais viável que o de administração e ainda consegui um bom desconto nas mensalidades por ter passado em primeiro lugar.

O Guilherme ganhou uma caminhonete do pai por ter passado na Federal e aquele estranho incômodo continuou crescendo dentro de mim de forma desproporcional. Eu estava me matando em dois empregos para poder ajudar em casa, pagar a faculdade e o financiamento da moto, enquanto ele se divertia com seu novo brinquedo.

Além disso, os remédios da Vitória começaram a ficar mais caros a cada dia que passava e o estado dela começou a se agravar. Minha mãe teve que largar o emprego de lavadeira para ter mais tempo para cuidar dela e um período difícil se instaurou pra gente.

O Guilherme e eu continuávamos juntos e saímos com os amigos dele nos fins de semanas. Mas chegou um momento que eu já não conseguia separar meus problemas pessoais dos meus sentimentos e passei a recusar os convites para as boates e barzinhos, até porque eu não podia gastar e eu não gostava de ficar na veia dos caras, mesmo eles sendo ricos. O Guilherme não aceitou muito bem a minha decisão e disse que queria fazer algo em relação a minha irmã, ao meu serviço.

“Eu vou falar com o meu pai, ele é influente, conseguirá fazer algo por vocês”, sugeriu empolgado certa vez.

Óbvio que meu orgulho não aceitou aquilo.

Então, o Guilherme encontrou uma forma de agir indiretamente, um pessoal que fazia caridade começou a visitar nossa casa, nos trazer roupas, mantimentos, remédios, agasalhos. Certo dia cheguei em casa exausto, era o início do semestre na faculdade e eu ainda estava fazendo extras como entregador depois da aula, quando a minha mãe veio com aquela notícia: a cirurgia havia saído e seria em São Paulo. Até a passagem e a hospedagem sairia de graça. Eu perguntei para ela como aquilo era possível e ela só me respondeu: “foi Deus”.

Eu não queria aceitar aquela resposta, mas pelo bem da minha irmã me obriguei a concordar. Era pelo bem Vitória e da minha mãe.

A cirurgia correu bem. Minha irmã se recuperou rapidamente. Eu estava feliz e minha mãe também.

Aquele era o ano das eleições municipais e comecei a “sentir” algumas mudanças naquele cenário, o povo estava com uma nova opinião, todos a favor de um novo prefeito, um que não estava na panelinha que havia se apossado da prefeitura e do governo há muito tempo. Eu não acreditava que o povo da cidade havia acordado. Estava satisfeito, pois eu estava a favor daquelas mudanças.

Mas o Guilherme não, ele ficou irritado quando me ouviu falando aquilo com o nosso grupo em uma discussão calorosa no Copo Sujo.

“Mas e meu pai?”, ele perguntou, chamando atenção de todos a nossa volta. “Ele pertence ao grupo da atual gestão, você esqueceu? Toda nossa família é a favor da reeleição do Geraldo. Se esse cara aí, esse radialista Zé-Ninguém, for eleito, estamos ferrados”.

“Quem estará ferrado, Gui? Ferrados por quê?”, eu quis saber, franzindo o cenho na hora da discussão. “Se seu pai é um político honesto, se ele trabalha a favor da população, ele e sua família não tem o que se preocupar. Além disso, ele tem que ser a favor do povo e das escolhas que o povo faz e não de eleitos, partidos ou bandeiras!”

O grupo a nossa volta bateu palmas, depois bateram na mesa, ergueram seus copos de bebidas em apoio ao meu discurso, mas o Guilherme não, ele continuou me encarando com seu ar ferido. Foi nesse momento que algumas verdades apareceram.  

“Tudo é muito simples na sua cabeça, né, Thi? Você acha mesmo que as coisas lá dentro podem funcionar de forma limpa e honesta, não é?”

Sem entender muito bem o que ele queria dizer, saí da cadeira onde estava, me aproximei dele e o apanhei pela gola da camisa.

“Que merda é essa que você está falando?”

“É isso mesmo que você está entendendo. Ninguém fica rico sendo certinho, Thiago. Larga de ser metido a bom moço. Todos nós precisamos de favores. Veja o exemplo da sua irmã. Você acha que a Vitória viveria por muito tempo esperando na fila do SUS? Você acha mesmo que se não fosse a influência do meu pai e da minha ela teria sido salva?”.

Eu senti como se o tempo tivesse fechado naquele mesmo instante. Nuvens negras e pesadas pairaram sobre minha cabeça e escureceram minha visão. Até hoje não sei descrever exatamente o que senti, nem quão grande foi a minha decepção, minha raiva, agonia e repugnância.

Verdades foram jogadas na minha cara como lama sendo atirada no ventilador. Eu descobri que a mãe do Guilherme e a irmã dele, a Luciana, visitaram minha mãe várias vezes e, que em troca do “favor de acelerarem a cirurgia da minha irmã” haviam pegado cópias dos documentos dela e assinatura em um monte de papelada, as quais minha mãe continuava assinando todo mês ou sempre que precisavam.

Descobri que o nome da minha mãe havia sido usado para abertura de uma firma. Ela se tornara laranja deles. Laranja da família do cara que era meu namorado, por quem eu estava apaixonado.

Descobri também que até entrada do Guilherme na Federal havia sido forjada; outro esquema entre poderosos. Para onde eu olhava me deparava com sujeira, corrupção e tudo que eu repudiava de podre no ser humano, na droga do nosso país e em boa parte da classe política brasileira.

Não posso mentir que não fiquei feliz pela recuperação da minha irmã. Mas não precisava ter sido daquela forma, pois, se gente baixa e corrupta não abusasse do poder concedido pelo povo para se beneficiar e tirar os direitos do próprio povo, teríamos escolas de qualidade, saúde de qualidade, segurança de qualidade, sem precisar de “favores” daqueles que deveriam nos representar.

— Você entende agora, Caio? — Thiago me encarou e eu já nem sabia o que responder, pois a dor que eu estava sentindo parecia maior que as feridas no rosto dele. — Entende agora o que aconteceu entre o Guilherme e eu? Eu nunca pude perdoar o Gui pelo que ele e a família dele fizeram. Nunca. Mesmo assim ele e a família ainda achavam que a minha mãe e eu éramos ingratos, nos fazendo de vítimas depois que nos “beneficiamos” da boa ação deles.

— Não sei nem o que dizer de uma história com desfecho tão horrível — foi a única coisa que consegui balbuciar depois de tudo.

— Horrível ainda é pouco. Ainda tem mais uma parte. Quando descobri toda essa sujeira, eu terminei com o Guilherme sem hesitar. Mas ele não aceitou isso numa boa. Continuou agindo infantilmente como o garoto rico e mimado que sempre fora e começou a me chantagear, dizendo que tiraria a própria vida se não voltássemos. Fingiu até que estava com depressão. A família dele não entendia porque o Guilherme ainda queria a “amizade” de alguém que fora tão mal-agradecido depois que sua “humilde” família conseguiu salvar a vida da irmã caçula. E que eu era do tipo oportunista, vítimista, que só tinha me aproximado para conseguir o que queria da família rica e que agora não precisava mais deles.

— Vocês voltaram?

— Não exatamente. Mas eu comecei a ficar com medo. Eu posso ser alguém cheio de ideais e princípios, mas não sou burro, Caio. Eu sei que nesse mundo pode mais quem tem dinheiro, quem tem poder. Fiquei com medo de que o Guilherme viesse a prejudicar sua própria saúde e comecei a temer pelo bem estar da minha mãe e da minha irmã caso isso viesse acontecer. Então eu fui fraco, covarde e recuei. Fui até a casa deles e pedi perdão. Fingi que era ignorante suficiente para não ter compreendido bem o tamanho da “benevolência” que fizeram pela minha irmã. Permitiram que eu me reaproximasse do Guilherme com inúmeras ressalvas.

— E o Guilherme?

— Não me queria daquele jeito. Foi a resposta que ele me deu depois de tudo. Ele não queria alguém inferior sendo “obrigado” a ficar com ele; sentindo pena dele. Ainda disse que eu me arrependeria de ter terminado com “um bom partido” como ele e que eu jamais encontraria alguém que o substituísse. Mas aceitou que pelos menos continuássemos amigos. Então, aos poucos, ele foi recuperando a saúde, o orgulho e o egocentrismo. Não deixamos de nos falar, como prometido. Afinal, ainda temos amigos em comum e por isso é inevitável nos esbarrarmos. Mas eu sempre evito estar no mesmo lugar que ele, pois o Guilherme sente verdadeiro prazer em me afrontar e me constranger fazendo coisas desnecessárias.

— Como aconteceu no Copo Sujo.

— Isso. A irmã dele tem o mesmo sentimento que a família e o Gui. Ela acha que somos pobres orgulhosos e mal-agradecidos, por isso ela foi tão rude comigo e com você ontem à noite. Ver que eu havia “superado” o Guilherme e arrumado alguém foi a gota d’água. A Luciana ainda acredita que eu deva me rastejar aos pés do irmão dela porque eu sou um mero mortal perto deles que são deuses.

Eu ri e o Thiago me olhou com uma sobrancelha arqueada. A história havia sido muito dramática, mas aquele finalzinho com sua pitada de ironia me fez rir. Ele havia passado por maus bocados e eu acreditava que a minha história com meus pais era um drama maior, digno de se tornar um roteiro de filme.

Como eu era ingênuo.

Então eu fiz aquilo, eu levantei, o apanhei pela mão e o ajudei a ficar de pé, então o beijei delicadamente na face. Em cada ferimento que eu havia esterilizado com álcool enquanto ele narrava a história.  Avancei um pouco mais e beijei seu queixo, o pescoço, o canto dos lábios. Parei e espalmei minhas mãos sobre seu peito. Ele me encarava fixamente através dos óculos tortos. Eu sorri mais uma vez. Eu sabia exatamente o que dizer, mas não encontrava as palavras, queria que ele sentisse meu coração batendo e o desejo ardente que me consumia e me fazia desejar estar com ele, cuidar dele, pela vida toda.

Mas eu não sei, eu travei.

A única coisa que consegui foram lágrimas em meio ao meu sorriso congelado na face. Eu não soube o que fazer. Ele não iria me entender. Mas, diferente do que imaginei, o Thiago passou os dedos pelo meu rosto e tentou amparar as lágrimas, então ele me envolveu pela cintura e me abraçou. Foi um abraço forte, caloroso, cheio de esperanças no futuro. Não sei como um abraço podia transmitir tanta coisa, mas foi o que senti.

Foi maravilhoso sentir as mãos firmes dele nas minhas costas, seu hálito quente roçando minha nuca, o cheiro bom de desodorante, o coração que batia descompassado. Achei que o mundo poderia parar de girar naquele instante.

Eu o correspondi. Evidentemente me senti um fracasso, acho que não consegui impor um terço das sensações que ele me proporcionava com os meus braços, entretanto, retribuí de forma sincera. Estava aconchegado naquele abraço, quando aquele pedido irrompeu o silêncio como se fosse fogos de artifícios.  

— Quer namorar comigo, Caio?

Eu fiquei um tempo estagnado, me aproveitando ao máximo daquele abraço e daquele pedido repentino. Ainda havia pessoas que faziam aquela pergunta?

A resposta era tão óbvia que a pergunta parecia ter sido feita pelo professor Rubens. Só faltou ele acrescentar o “Henrique” no meu nome.

— Se quiser, eu te dou um tempo para pensar? — ele propôs, talvez por eu estar demorando a dar a resposta.

— Sério que você perguntou isso? — eu me afastei, sentindo um aquecer nas bochechas, talvez pelo constrangimento.

— Eu não entendi. Por que eu não deveria perguntar? Como vou saber se você quer ou não sem te perguntar diretamente?  

Eu sorri.

— Achei que estivesse bem óbvio o quanto quero ficar com você. E essa é uma pergunta que não se ouve muito nos dias de hoje — comentei.  

Ele riu.

— Desculpe-me por ser antiquado.

Eu ri.

— Falando sério, Caio. Você me deixou pegar na sua perna, te levar pra beber, te abraçar, me deixou tomar banho no seu banheiro, dormir na mesma cama que você. Subentende-se então que se você me permitiu todos esses avanços, é porque me deu espaço e que posso continuar avançando o quanto eu queira. Porém, sou antiquado ao que se refere a relacionamento também. Se deixarmos as coisas apenas subentendidas, ficará essa brecha por onde outros possam avançar da mesma forma. E não é isso que eu quero. Posso ser gay, mas nunca gostei de relações abertas. Eu gosto de assumir um relacionamento monogâmico, brega e piegas, de estar apenas com uma pessoa, de curti-la verdadeiramente e viver com ela momentos bobos e românticos.

Eu me desarmei completamente.  

— Além disso, — ele continuou, amparando meu rosto com ambas as mãos, olhando dentro dos meus olhos. — Não consigo mais esperar para te beijar.

Ele realmente tinha o dom de me constranger com coisas idiotas. Senti minhas bochechas e até as orelhas queimarem, enquanto meu estômago se contraía e aquele formigar atingia minha virilha com força. Mas decidi não prolongar mais aquela tortura e me aproximei dos lábios dele.

— Minha resposta é “sim”, bobo. Bem antes de você imaginar fazer essa pergunta ela já era sim.

Então eu o vi ficar sério, retirar os óculos, esticar o braço para deixá-los sobre a cama, amparar o meu rosto de novo com ambas as mãos e finalmente seguir na direção da minha boca.

Nunca, simplesmente nunca, gestos que antecedem um beijo me deixaram tão ansioso. Nunca senti o emaranhado de sensações adversas somente com o unir dos lábios. O Thiago me beijou delicadamente, como se saboreasse minha boca. Aos poucos foi aprofundando o beijo, tornando-o mais intenso, fazendo sua língua adentrar a minha boca e quando isso aconteceu e o beijo se tornou mais erótico com o sugar desesperado e quase claustrofóbico de nossas línguas, nossos corpos estavam tão prensados e roçavam tanto um no outro que pressenti que o pior iria acontecer.

E eu não consegui evitar aquela vergonha alheia. Quando ele sentiu a humidade vinda do meu ventre ele apartou o beijo e me encarou surpreso. Eu estava arfante e envergonhado.

Deus, como eu tinha conseguido gozar somente com um beijo? Somente de sentir o corpo dele se esfregando ao meu? Como eu podia ser tão patético, Deus?!

— Merda... Desculpe... — pedi, mantendo a cabeça baixa, não tendo coragem de encará-lo. — Você deve estar pensando que sou um adolescente de quinze anos agora.

Ele riu mais uma vez e alto.

— Você é tão honesto, Caio. Tão bonitinho — ele disse em um tom murmurado, meio eufórico, enquanto beijava minha testa e voltava a me abraçar, o que me deixou ainda mais envergonhado.

— Bonitinho... — eu arremedei, fazendo um bico com os lábios, encolhido nos braços dele. — É um feio arrumado.

Ele riu alto mais uma vez.

Foi aí que percebi, no meio daquela madrugada fria, que ainda não transaríamos. Aquela seria a deixa perfeita para que o Thiago me puxasse para cama e simplesmente deixasse acontecer. Mas não aconteceu. Quando a ansiedade do meu corpo simplesmente esfriou e ele me afastou dos seus braços ele mesmo disse aquilo:

— Eu sei que quer isso. Eu também e muito. Mas eu quero fazer as coisas devagar. De forma mais brega e antiquada possível. Um passo de cada vez. Sei que vai soar estranho, afinal, somos dois caras e ambos entendemos a necessidade dos nossos corpos, mas... será que você se importaria da gente esperar mais um pouco antes de irmos para o próximo passo?

O Thiago realmente tinha o dom de me deixar constrangido. Só neguei com a cabeça dando certeza à ele de que não me importava. Não, eu não me importava de adiar nossa primeira vez para o próximo dia, para a próxima semana ou o próximo ano. Não, depois daquele vexame, onde meu corpo tomou a liderança e assanhado reagiu antes mesmo das preliminares. Tudo que eu queria naquele momento era poder esconder a minha cabeça dentro de um buraco.

Ele falou que eu poderia me trocar se eu quisesse e apenas me deixei levar. Troquei de roupa, coloquei um short curto, desses do tipo de jogador de futebol e uma camisa regata. Ele tinha trazido uma calça de moletom, colocou meias e uma camisa regata preta também.

Eu não sabia exatamente o que se passava pela cabeça do Thiago, ou o que ele pensava em relação ao sexo. Apenas percebi que ele não seria como os caras normais, cujo sexo vem em primeiro lugar. E eu realmente não estava decepcionado com aquilo. Estava feliz, porque percebi que para ele o importante era realmente os sentimentos.

Escovamos os dentes juntos, empurrando um ao outro para usar o espaço da pia. Depois deitamos. Ficamos abraçados, nos beijando, fiquei ouvindo ele falar que queria me levar para conhecer sua mãe e sua irmã, eu concordei. O sono veio e nos levou por completo.

Continua...


Notas Finais


Depois de algum tempo, está aí, atualização! Agora é oficial, Caio e Thiago estão namorando e o Gui levou uma coça. Apesar que o Thiago levou outra pior. =/

Enfim!

Vocês ficaram sabendo nesse capítulo sobre o passado de Thiago e Guilherme. Alguns dos lugares apresentados nesse capítulo como a Concha Acústica do Horto Florestal existe de verdade na minha cidade e essa noite do rock acontecia mesmo, só não me recordo se era na sexta, porque tinha outros ritmos durante a semana.

Obviamente os nomes dos colégios, tanto o particular quanto o público, foram alterados para evitar problemas, mas foram baseados em dois colégios que existem mesmo na região central da cidade. Eu estudei no público, claro, eu faço parte da classe pobre-trabalhadora como o Thiago e como ele também batalhei muito para entrar na federal, mas por fim tive que ralar e pagar a particular. Ou seja, fatos dessa original foram baseados em alguns fatos reais.

Na outra versão de ESB esse seria o penúltimo capítulo da história, mas como resolvi alongá-la, então eu posso dizer que a história chegou ao meio. Teremos ainda mais alguns capítulos, inclusive irei narrar o passado do Caio.

Desculpem-me a demora pela postagem, vou tentar não demorar nos próximos, mas como eu coloquei nas notas finais do capítulo que atualizei de As Origens de Sebastian, estou passando por alguns problemas familiares, caso de doença, e bem, está tudo meio controlado agora, mas ainda não completamente, e isso acaba ocupando tempo e a cabeça da gente também. Então, perdoem! Mas não esqueci meus trabalhos não. Vou fazendo as atualizações em um ritmo um pouco mais lento, mas vou fazer!

Se possível, por favor, comentem, ajudam a elevar o ânimo já desgastado dessa autora aqui. ;D

Beijos! Bom fim de semana!


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