História Entre Sem Bater - Capítulo 7


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Original, Romance, Slice Of Life, Yaoi, Yaoi Day 2014
Visualizações 91
Palavras 5.076
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Seinen, Yaoi
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Personagem novo na área. Agradeço a Gi-chan pela ideia!
Feliz aniversário, Gi! /o
* Foi revisado na correria, desculpem eventuais erros.

Capítulo 7 - Capítulo 07 - Mesmo que haja desconfiança?


Entre Sem Bater

Por Andréia Kennen

Capítulo 07

Mesmo que haja desconfiança?

— Ai. Está doendo. Não coloca com tanta força.

— Calma. Estou indo bem devagar.

— Não, não, não está. Não, para. Espera. Espera.

— Você chora demais. Está todo suado. E eu só coloquei a pontinha ainda.

— Mas está doendo.

— Você ainda é o mesmo bebê chorão de antes. Deixa eu colocar tudo de uma vez que a dor vai ser uma só.

— Não, não quero desse jeito — reclamei com uma voz chorosa.

— Tire a mão, está atrapalhando!

— Mas você prometeu que iria devagar, e não está cumprindo sua promessa.

— Se eu for mais devagar que isso, vamos terminar o ano que vem.

— Tá — suspirei fundo. — Pode colocar, mas...

— Era o que eu queria ouvir, agora vai!

Arqueei a cabeça para trás e não consegui segurar o grito quando senti aquela dor aguda.

— Ah!

— Santa Madre de Dios, Caiozito! Parece até que está tendo um orgasmo.

— Juro que eu fiquei com essa mesma impressão.

A voz repentina do Thiago me fez sobressaltar e afastar o Cassiano de perto de mim, ele tinha se aproximado demais para poder colocar o pircing no meu nariz.

— Mas é que doeu. Você foi muito mal, Cass.

— Não me chame desse apelido de trolo (1)[1] que tu sabes que eu não gosto.

— “Argentino” cai bem melhor — Thiago balbuciou, voltando a sentar na frente da televisão para assistir o documentário financeiro que ele tinha alugado para fazer o trabalho de economia do professor Rogério.

— Fica na sua aí, ô, Thiaguito. E que mierda é essa que tú estás assistindo? Bota no futebol! E pega una birra(2)[2] para todos nós! Pega somente para usted! És um boludo(3)[3] mesmo!

— Vocês estão muito ocupados se pegando no momento, não vão querer beber.

— O Cassiano só está colocando o pircing que eu pedi — eu o corrigi rapidamente. 

— Como se ele não tivesse quatro olhos na cara para não ver esto! Ah, ele só está de marra, Caiozito. Ciúmes desse corpo aqui, que Dios modelou com mais perfeição que o dele. — O Cassiano apontou para o próprio corpo, olhando de soslaio para o Thiago. Eu podia afirmar que se tornara a diversão dele, desde que voltara da Argentina, alfinetar o meu namorado. — Agora larga a mão desse vacilão e vai olhar no espelho como ficou tu pircing.

— Está sangrando? — eu perguntei antes de me mover.

— Está tudo certo, pibe (4)[4]! Olha lá.

Eu fiquei com receio de levantar, não por causa do pircing, era outro tipo de receio. Mas levantei assim mesmo, e quando passei pelo Cassiano o meu temor se concretizou em forma de pesadelo. Ele fez aquilo: me deu um baita tapa na bunda. Foi tão forte que o barulho do estalo ecoou pelo meu pequeno quarto e sobressaiu até mesmo o barulho da televisão que o Thiago assistia.

Eu congelei, e antes que eu pudesse repreender o Cassiano pela idiotice que fez, o Thiago havia se colocado de pé e ido na direção dele com os punhos fechados.

Eu tive que bloqueá-lo, ao me colocar entre eles, tentando parar o Thiago que começou a gritar, apontando ameaçadoramente para o Cassiano.

— Olha aqui, argentino filho da puta, vou ensinar você a respeitar as coisas dos outros!

— Olha aí digo, yo! O trolo tem sangue correndo nas veias! — e forçou uma gargalhada. — Deixa ele vir, Caiozito. Deixa ele vir.

— Para, Cassiano — eu pedi, bastante nervoso. — Thiago, por favor. Ele está te zoando.

— Brincadeira tem hora, Caio.

— Não sabe brincar, Thiaguito? 

— Cassio, por favor, para. Vá embora. Você passou dos limites.

— Dale (5)[5]! Tú manda — ele ergueu as mãos em sinal de rendição e saiu gargalhando em direção a porta.

— Isso! Volta para Argentina de onde não deveria ter saído — Thiago gritou e o Cassiano mostrou o dedo do meio para ele e depois saiu batendo a porta. 

— Thi! — eu o repreendi.

— “Thi”? “Thi” o quê, Caio? O cara meteu a mão na sua bunda.

— Eu falei que não tem motivos para você ter ciúmes do Cassiano, não falei? Somos amigos desde os sete anos. Eu te contei que foi graças a mãe dele que tive um teto para morar aqui em Campo Grande. Ele sempre foi desse jeito provocador. Se você responder as provocações dele, aí que ele vai te provocar mesmo.

— Coisa de argentino vagabundo isso.

— Olha aí. Outra coisa que eu não gosto e certamente ele não gosta também é esse seu preconceito besta. Meu amigo tem nome, Thiago. “Cássio Fabiano”. Você gostaria de chegar na Argentina e ficar ouvindo as pessoas te chamarem de “brasileiro” para cá e para lá a todo momento? Ou ouvir os argentinos gritando: “Volta para o Brasil, seu brasileiro!”?

— Como se eles não falassem assim com os brasileiros.

— Você já esteve lá por acaso?

— Tá, Caio. Eu estou errado nessa parte. Mas não justifica ele meter a mão na sua bunda.

— Foi um tapa. O Cassiano passou dos limites, eu sei. Eu vou repreendê-lo depois, mas, por favor, esquece isso. Não é motivo para ficar tão bravo. Não vamos estragar nosso fim de semana. Você nem falou se o pircing ficou legal.

— Tá sangrando.

— Oh, merda! — tapei o nariz com ambas as mãos e corri para o banheiro.

— Estou vou embora — ouvi o Thiago anunciar.

— Por quê? — eu apontei na porta do banheiro, com a toalha cobrindo o nariz.

— Tem muito trabalho da facul para fazer, Caio. Vou colocar alguns em dia. Além disso, seu amiguinho me tirou do sério, estou sem paciência. Você inventou de colocar essa merda no nariz logo agora, nem vamos poder ficar juntos. Então, não tem nada mais para fazer aqui. Fui — ele terminou de colocar as coisas na mochila, inclusive o DVD que tirou do aparelho, pendurou a alça da mochila no ombro e saiu sem sequer me dar um beijo.

 Meus ombros pesaram. 

— Oh, droga! — praguejei e, no momento de raiva, chutei o pé da cama, e a ponta do dedão bateu bem na quina de madeira, provocando uma dor extrema. — Ah! Hoje não é meu dia! 

...

Eu não parava de reclamar para Laura do desastre que foi meu fim de semana. Ainda, para piorar a situação, levei duas broncas da minha chefe. Uma, por não fechar a boca, e a outra, por causa do pircing no nariz.

A Leandra até pediu que eu tirasse, mas aceitou que eu ficasse com ele, depois que implorei, quase ficando de joelhos. Contudo, se eu não pedisse isso, o furo iria cicatrizar e a dor e todo meu fim de semana destruído, teriam sido em vão.

— Tudo bem, tudo bem — ela falou, depois que eu parei de implorar. — Só não chore na minha frente, Caio, por favor. Ando com os nervos à flor da pele por causa do meu casamento. Fiquei quase um ano na reserva do melhor salão da cidade, para agora, cinco semanas antes do casamento, me interditarem a bosta do lugar porque estão com alvará do bombeiro vencido. Eu não consigo acreditar nisso! Mesmo com o reembolso, eu não vou conseguir um salão decente em cima da hora! Então, eu vou simplesmente fingir que não vi seu pircing. Mas, pelo amor de Deus, não aparece na frente do seu “pai” — o contador-chefe — desse jeito. Você sabe o quanto o Sr. Arnaldo é conservador. Você só conseguiu o emprego aqui, porque sequer passa pela cabeça dele que você é gay. Para ele, todo gay tem trejeitos femininos, rebola e fala fino.

— Eu sei, eu sei, chefe. Obrigado.

— Caio — a Laura me chamou, com o ar distante, enquanto coçava o queixo, como se estivesse buscando algo em sua mente. — Você não disse que a mãe do seu amigo argentino é dona de um salão de festas?

— Sim, é verdade. A dona Rosa tem mesmo um salão de festas enorme para alugar. Ele é bem bonito, vi as fotos no Facebook. Não sei ao certo onde fica, mas me falaram que está numa boa localização.

— Sério?! — Eu juro que vi os olhos da Leandra brilharem. — Onde fica? Tem capacidade para quantas pessoas? Tem ar-condicionado? — ela disparou as perguntas, uma atrás da outra.

— Não sei, mas deixa eu dar um telefonema que descubro tudo rapidinho, chefa.

De advertência para um abraço. Fiquei até sem graça com aquele abraço repentino da minha chefe. Ela deveria estar mesmo desesperada. Não deixei de perceber que a Leandra estava levemente perfumada. Os seios não eram tão fartos como os da Laura, por isso, quase não os senti, não foi um abraço feminino desagradável, mas foi constrangedor. 

— Obrigada, Caio.

— De nada, chefe. 

A Laura piscou para mim e eu sorri de volta para ela por ter me ajudado a me remediar com a chefe sugerindo o salão da tia Rosa.

...

Além de ter dado aquela sugestão que, literalmente, limpou minha barra com a chefe, a Laura se prontificou a me levar na Academia Verano para conversar com a tia Rosa, a mãe do Cassiano, depois do expediente do trabalho. Eu a lembrei que nos atrasaríamos para aula, mas a Laura não deu tanta importância e disse que daria tempo de pegarmos os últimos tempos.

O prédio da Verano estava localizado próximo a área militar da cidade, na Duque de Caxias. Nessa região também que se encontra o Hospital Militar, a Base Aérea, e bem mais para frente o Aeroporto. Ela desceu pela Avenida Mato Grosso, com a intenção de pegar Afonso Pena depois da Ernesto Geisel, que sai direto na Duque de Caxias, mas, o trânsito é super-hiper-mega-lento na região central da cidade por causa do horário do pico, e por isso, fomos nos movendo a passos de tartaruga e ficamos fofocando enquanto o trânsito não andava.

O único problema é que caímos, inevitavelmente, naquela bendita conversa.

— Então, ainda, não rolou?

— Será que dá para evitar “entoar” com zombaria esse “ainda”?

— Meu bem, oitenta por cento do seu mau humor é por causa disso, garanto a você. Você precisar dar para ser feliz, Caio. 

— Laura, a única coisa que me deixa mal-humorado é essa sua bendita pergunta.

— Vocês estão namorando há quanto tempo? Seis meses?

— Três, Laurinha! — eu a corrigi, revoltado. — E eu fiquei quarenta e cinco dias de gesso! Ainda fiquei três semanas nas sessões de fisioterapia intensiva.

— Caio, o problema foi com o seu pé.

— O joelho também. Você esqueceu que fiquei com uma bota de gesso que imobilizou toda minha perna? Você queria que eu fizesse o quê, a posição do canguru-perneta?!

A Laura gargalhou.

— Pelo menos seria uma tentativa.

— Você não entende o Thiago. Ele é todo cuidadoso, preocupado, ele não iria querer tentar nada que pudesse me machucar.

— Umas dorzinhas de vez em quando na hora do “rala-e-rola” faz parte, baby.

— Sua pervertida.

— Tá, mais não vamos mudar de assunto não, Caio Henrique. Era a bota de gesso, depois a fisio, agora você está curado, andando, é quase um atleta olímpico, qual é a desculpa?

Eu soltei um esturro e afundei no banco com aquela pergunta.

— Vamos, filho, desembucha!

— Ciúmes — falei em um buchicho, que com o barulho dos locutores na rádio falando todos ao mesmo tempo sobre o trânsito, foi impossível ela ouvir.

— O quê?

— Ciúmes! — gritei. — Ciúmes, Laurinha. Ele tá com ciúmes do Cassiano.

— Do seu amiguinho argentino? Ah? Sério? — ela riu debochada. — Está de brincadeira?

— Não, eu não estou. Desde que ele pegou o Cassiano dormindo na minha casa, na minha cama, ele simplesmente não quer acreditar que somos só amigos.

— Vocês dormiram juntos?

— Eu te contei isso, Laurinha!

— Eu deveria estar distraída, não estou lembrada.

— Foi quando ele chegou da Argentina. Há umas duas semanas atrás, eu acho. Ao invés dele chegar e ir direto para casa da mãe dele, ele veio para minha casa. Tudo isso porque ele largou a faculdade de medicina que começou lá, e não queria falar pra mãe dele que fez isso. Então, ele dormiu uns três dias na minha casa. Eu falei para o Thiago. Disse que era um amigo, que ele era hetero, mas o Thiago é como você, ouve as coisas superficialmente quando está ocupado, finge que entende, depois fica me culpando por eu não ter contado — aproveitei para alfinetá-la, mas ela só deu de ombros. — Ele não deu a mínima, exatamente como você fez.

— Para de me comparar com seu namoradinho esquisito, pelo amor de Deus.

— Tá, mas enfim, ele sabia da situação, eu tinha contado para ele, mas viemos juntos para casa na quarta, ou foi na quinta passada, não lembro, e quando ele viu o Cassiano deitado na minha cama, só de cueca, bem, ele, meio que surtou.

— O quê?! De cueca?!

— O Cassiano estava morando na Argentina, era uma região fria, tipo o nosso Sul do país, aliás, a Argentina é praticamente o Sul do nosso país. Bem, ele é calorento. Qualquer calorzinho ele arranca a roupa.

— Cara, eu preciso conhecer esse “hombre”! — a Laura falou eufórica, fazendo uns sacolejos com os ombros e eu fui obrigado a fazer uma careta. — O que foi?

— Não foi você quem ficou fazendo cara de nojo quando eu disse que tinha um amigo argentino? Agora, do nada, você se interessou? Você está andando muito com a Dafne, Laurinha. Está virando uma periguete como ela. Preciso ter uma conversa séria com o Maurício.

— Estou de brincadeira — ela bateu a mão na minha coxa. — Mas que eu preciso conferir esse tipo com os meus próprios olhos, eu preciso. Sério, eu pagava para ver a cara do Thiago nessa cena que você me contou. Como ele reagiu quando pegou o Cássio Fabiano na sua cama? Rápido, Caio, me conta!

— Ah, você deveria perguntar como eu reagi, né? Fiquei com a minha cara no chão, por que o Thi foi logo gritando “o que significa isso?!”. Aí o Cass acordou em um pulo. Bem, os dois se conheceram entre a discussão. O Thiago jogou a toalha na cara dele e perguntou se ele não tinha vergonha de dormir “pelado” na casa de alguém comprometido. Depois mandou ele colocar uma calça. O Cass, nervoso, só respondia em espanhol. Aí que o Thiago ficou mais puto ainda, porque não entendia nada. Então, quando eu menos esperava, o Thi se virou para mim e perguntou se estávamos dormindo na mesma cama.

— E vocês estavam?

 Encolhi os ombros.

— E você diz que ele não é gay? Dois homens não dormem juntos na mesma cama, nunca, Caio!

— Mas sempre dormíamos quando éramos mais novos, Laurinha. Várias vezes. Tipo, jogávamos dois colchões de solteiro no chão e dormíamos, né? Mas minha cama é de casal, então, por que eu iria deixá-lo dormir no chão se tinha espaço na cama sobrando para nós dois? 

— E você respondeu isso para o Thiago?

— Eu tentei, mas ele não me deixou explicar o resto, quando eu balancei a cabeça em um “sim” ele simplesmente pegou o capacete da moto e saiu.

— Meu Deus, que bafo, Caio.

— Bota bafo nisso, Laurinha. Demorei uns três dias para convencer o Thi de que nunca rolou e nunca vai rolar nada entre o Cassiano e eu, que somos apenas amigos de infância. E foi bom por um lado, porque o Cass se sentiu culpado e constrangido pelo mal entendido, e resolveu encarar a tia Rosa de uma vez.   

— Preciso mais do que nunca conhecer esse cara.

— Laurinha, só não vai agir com ele como agiu com o Gui, por favor, né? Ninguém merece você me atirando para cima do meu melhor amigo agora.

— Ué, porque eu faria isso?

— Daqui a pouco você vai saber.

Eu não precisava responder ainda. O momento certo falaria por si. E foi exatamente como pensei. Assim que a Laura ficou diante do Cassiano, ela o mediu de cima embaixo com a boca aberta, poderia dizer que até vi um fio de saliva escorrendo pelo canto da boca dela.

— Caiozito! — O Cassiano me cumprimentou ao me apertar em um abraço, ao ponto de me erguer do chão.

— Ai, ai, está quebrando meus ossos, Cass — reclamei, e ele me colocou de volta no chão, rindo.

Então aproveitei para apontar a boca-aberta da Laura, que estava limpando a baba com o punho da mão naquele exato momento, antes de estendê-la para o Cassiano.

— Laura, esse é o meu amigo que eu te falei, Cássio Fabiano. Cássio, essa é a minha amiga Laura.  

— Só “Cássio” ou “Cassiano” para os íntimos. Encantado, linda.

É. O Cass faz o tipo galante. E eu vi a Laura derretendo em uma poça quando ele pegou a mão dela e beijou.

— Eu que estou encantada, gato (6)[6].

— Ui — eu senti doer em mim.  

— O que foi?

A Laura ficou confusa, olhando para mim e depois para o Cassiano. Mas não tinha como ela saber que “gato” era um termo pejorativo na Argentina, e que ela tinha acabado de chamar meu amigo de garoto de programa.

— Depois eu te explico — cochichei para ela. — Mas só um conselho, melhor chamar ele de “Cassiano” — aconselhei.

O Cassiano estava com um sorrisinho sem graça, então perguntei da mãe dele.

— Eu vim falar com a tia Rosa, Cass — mudei de assunto. — Ela está?

— Claro, vamos entrar.

Estávamos na recepção e o Cássio nos encaminhou para uma porta que dava para os fundos, onde pegamos o elevador de serviço, provavelmente iríamos para área administrativa, no último andar. O lugar estava lotado àquele horário, tinha gente andando para todos os lados, entrando, saindo. Era uma Academia mista, com aulas de dança, aeróbica, ginástica, musculação, jiu jitsu, natação e muay thai. O prédio tinha três andares, no térreo ficava a recepção, lanchonete e as salas com aparelhagem para musculação, além das piscinas. O primeiro andar era dedicado as artes marciais; o segundo para dança e o terceiro para área administrativa. A academia havia crescido mais do que eu me lembrava. No Paraná, antes de vir para Campo Grande, a tia Rosa gerenciava uma academia pequena, de música e dança. Mas eu sabia que ela havia expandido para outras modalidades e parado com as aulas de música, por não ter procura suficiente que desse para cobrir os honorários de um professor. Era um lugar bonito e espaçoso, e eu só não fazia musculação ali para evitar a fadiga de ter que pegar ônibus.

Olhei a Laura e a vi com aquele ar “embasbacado” de quando ela se deparava com um cara deslumbrante. O Cássio era mesmo muito bonito. Apesar de termos quase a mesma idade, ele sempre foi mais alto e mais malhado do que eu, o que dá a impressão de ser bem mais velho também. O rosto levemente quadrado, meio estilo Thiago Lacerda, não tanto quanto o do ator. Às vezes ele usava o rosto sem barba, mas era mais fácil vê-lo como estava naquele momento, com uma barba rala. Os cabelos lisos, castanhos e sempre brilhantes. Além daquele chamativo especial: os olhos azuis turquesa. Ele vivia dizendo que na Argentina as mulheres falavam que ele parecia com um modelo de lá, um tal de Hernan Drago. Com toda certeza, ele era o tipo de homem que qualquer mulher (ou gay) babaria para ter. Mas nunca despertou meu interesse devido a personalidade. O Cássio não é o tipo certo para ter um relacionamento sério. Que eu bem sei, ele faz o estilo mulherengo, que adora festas, baladas agitadas, beber até cair e ficar com quantas mulheres ele conseguir em uma noite só. Por isso que, mesmo que o Cássio tivesse interesse em caras, o que eu não tenho tanta certeza, eu não iria querer ele como namorado. Fora que, somos amigos, e não acho legal misturar as coisas.

Saímos do elevador e a Laura agarrou o meu braço, cochichando o que eu imaginava, enquanto o Cássio adentrava na primeira porta diante do elevador.

— Caio que homem é esse?

— Sh, Laura.

— Madre, olha quem veio nos visitar.  

Assim que entrei na sala acompanhado com a Laura, vi os olhos azuis, iguais aos do meu amigo, todavia miúdos e meio escondidos por debaixo dos óculos gateados da dona Rosinda, crescerem em surpresa.

— Oi, tia Rosa.

Rapidamente ela largou a pasta que folheava, saiu detrás da escrivaninha e veio ao meu encontro, me apertando em seus braços, igual fizera tantas outras vezes quando eu era mais novo. Correspondi aquele abraço tão saudoso, que era bem mais carinhoso e materno do que eu me recordava ter recebido da minha verdadeira genitora.

A mãe do Cássio era uma mulher alta, com o corpo de dar inveja a qualquer adolescente, resultado dos anos como dançarina e professora. Ela estava usando um vestido até os joelhos, que moldava bem suas curvas, marrom, de estampa florida e de manga cavada. Os cabelos estavam presos em um coque no alto da cabeça, loiros acobreados. Com certeza a dona Rosinda ainda era uma mulher bonita e conservada para idade.

 — Meu querido, há quanto tempo? Eu vou puxar sua orelha, Caio Henrique! Está fazendo quase ano que tú não vem me visitar, Chico! — ela falou largando do abraço para prender minhas orelhas em um apertão forte entre seus dedos de unhas bem feitas.

— Ai, ai, desculpa, tia Rosa, desculpa.

— Quê desculpa, chico?! — ela largou da minha orelha. — Só porque esse sem vergonha do Cassiano foi estudar longe você acha que tem o direito de esquecer sua segunda mamá aqui!

Eu apenas ri, sem graça, não tinha muito que falar. Era a pura verdade, eu merecia ser repreendido, pois se não fosse a dona Rosinda eu não sei qual teria sido meu destino. Talvez tivesse fugido de casa e tivesse tomado um rumo pior na vida. Mas ela estava de partida para Campo Grande na época que minha vida virou de ponta cabeça. Recomeçar do zero era o que a dona Rosa buscava ao vir morar na região que sua irmã mais velha residia há anos. E ter razões para recomeçar, era o que eu buscava mais que tudo naquela época. Por isso, não pensei duas vezes em aceitar o convite para vir morar com ela e o Cassiano nessa cidade que me acolheu tão bem.

Enquanto levava novos puxões de orelha, depois de ter dito para dona Rosa que fiquei muito tempo engessado, eu senti meu celular vibrando no bolso da calça. Imaginei que fosse o Thiago, mas eu não podia me dar ao luxo de parar de levar bronca para atendê-lo, não ainda, então fui obrigado a ignorar.

Depois dos ânimos mais controlados, apresentei a Laura para a tia Rosa. Meia hora depois, preparado para novas broncas, consegui explicar o motivo da minha visita. Claro, outros pitos vieram, mas ela resolveu meu problema. Bastou uma consulta rápida no computador para que mãe do Cássio passasse o orçamento e o portfólio do salão por e-mail para minha chefa, que retornou em seguida, fechando negócio.  

Despedimo-nos da tia Rosa e estávamos indo em direção ao estacionamento quando a Laura recebeu uma ligação do Maurício, dizendo que precisava dela, pois tinham acabado de bater no carro. A Laura ficou em polvorosa com a notícia, sem saber o que fazer. Afinal, havíamos combinado de entrar depois do intervalo na facul. Claro que o ocorrido era grave e socorrer o namorado era prioridade, então a acalmei, dizendo que eu me viraria para ir para faculdade. Óbvio que a preguiça de pegar ônibus para ver somente os dois últimos tempos de aula não iria sobrepor nunca minha índole de bom universitário. Então, só mentalizei, assim que ela entrou no carro, que o percurso que eu faria era o direto para casa. Antes disso, precisava ligar para o Thiago. Mas foi pegar no celular e o Cassiano me perguntou.

— Tú vai mesmo para facul, Caiozito?

— Nem a pau. Casa.

— Então, ‘bora comer algo comigo? Estava pensando em ir naquela sobaria top lá perto da sua casa. Tem um espetinho divino naquele lugar.

— Você não está inventando isso só para me dar carona, Cassiano? — desconfiei. — Eu vou de ônibus.

— Ah, Carajo! — ele envolveu meus ombros, quase me esmagando com o peso do braço puro músculo. — Como se eu precisasse de desculpa pra fazer algo por você, Chico! Bora lá?

Dizer “não” para um homem daquele tamanho, com aquele porte físico, seria nadar contra a correnteza; eu aceitei.  

Além disso, seria um tremendo desperdício recusar boa companhia, boa comida e boa bebida em plena noite de segunda-feira.

Não fui capaz de fazer aquela desfeita.

Mandei um Whats para o Thiago falando o que havia acontecido com o namorado da Laura e que iria comer algo na rua depois de perder minha carona, então iria para casa. Preferi omitir que estávamos na academia da mãe do Cassiano e que iria sair com ele para comer. Quando eu chegasse em casa falaria diretamente e evitaria novos maus entendidos.

...

As horas se passaram em um piscar de olhos e antes do badalar das dez e meia da noite, pedi para o Cass me levar para casa, não queria que o Thiago me visse chegando de carona com ele, eu estava com uma sensação ruim, como se tivesse fazendo algo de errado, por mais que não estivesse. Afinal, Cassiano e eu, somos apenas amigos. Era o que eu me repetia a todo momento.

Porém, bebemos um pouco demais, estávamos alegres demais, e quando ele estacionou em frente de casa, ele não me deixou sair do carro.

— Eu falei para esperar — ele ditou, fazendo pose de homem autoritário, saindo do acento do motorista, dando a volta no carro, abrindo a minha porta, e antes que eu fizesse menção de que iria descer, ele me pegou no colo.

— Você é louco, Cass! — eu dei risada, me segurando nos ombros dele. — Me põe no chão! Já pensou se o Thiago chega e vê uma merda dessa?  

— Seu namorado é um bendito de um boludo sem graça, Caiozito. Onde já se viu não confiar no próprio taco, carajo?!    

— Não, Cass! Pare!

— Eu disse que ia te deixar em casa, não disse? Para de agir feito mulherzinha e me deixa fazer meu trabalho.

Gargalhei ainda mais alto, jogando a cabeça para trás e, desistindo de me debater, só me deixei ser levado. Era legal imaginar que não estava tão fora de forma ao ponto de alguém conseguir me carregar no colo.  

— Agora está entregue — ele anunciou, me colocando no chão.

— Besta! — bati no ombro dele, ainda tentando controlar a crise de riso.

Ele segurou meu rosto com uma mão e o apertou.

— Bestá és tu — falou e soltou meu rosto em seguida, então ele se virou e seguiu em direção ao carro. — A gente se vê — acenou de dentro do automóvel.

— Tá, tchau. — Acenei de volta e abri o portão.

O coração estava acelerado, o riso ainda vivo e brincando nos meus lábios. Mas foi abrir a porta de casa e ascender a luz e o meu coração parou de bater e quase veio na boca. O Thiago estava sentado na banqueta rente ao balcão que serve de mesa e divisória para cozinha, e tudo que eu pensei era “por quê?”.

— Cadê sua moto? — eu perguntei.

— Deixei na revisão — ele respondeu seco. — Eu vim de ônibus, não fui para aula hoje.

— E você estava pensando no que, me esperando aí no escuro? Me flagrar fazendo algo errado?

— E você não estava?

— Eu disse que estava lanchando — justifiquei, o coração voltou a bater um tanto desesperado.

— Com o “Cass”?

Fiquei com raiva daquele tom irônico, muita raiva. Aquilo não eram ciúmes. Era desconfiança. Do pior tipo. O Thiago estava insinuando, de maneira óbvia, que eu estava traindo ele com o meu melhor amigo. Eu? Logo eu? Que sempre fui o mais dedicado aquele relacionamento?

Não sei. No fundo, eu pressentia aquilo, mas não pensei que o Thiago faria algo tão baixo e ridículo como me vigiar.

— Você é a merda de um idiota, sabia, Thiago? — foi a única coisa que consegui pronunciar para me defender, depois de um respirar fundo, trêmulo.

Eu queria me conter, mas sempre fui muito fraco para isso. Não consegui segurar e as lágrimas vieram. Escorreram como cascata pelas minhas bochechas, enquanto o Thiago continuava diante de mim, impassível, em sua pose inabalável, com seu jeito sempre frio de agir. Talvez fosse por isso que doesse tanto. Aquela frieza doía em mim.

Fazia três meses que estávamos juntos e tudo que eu fazia era pensando em nós. E tudo que ele fazia era pensando nele.

Como eu conseguia ser tão patético e chorar feito um babaca? Eu sou homem, não sou?

Mas eu detestava ser julgado e naquele momento tudo que eu queria era desaparecer. Por que, no fim, eu sabia qual seria atitude do Thiago: ir embora. Como ele sempre fazia quando ficava bravinho. Era o que ele sabia fazer melhor: se resignar e fugir.

Larguei minha mochila no chão, virei às costas para ele e decidi, pela primeira vez, responder de maneira fria também.

— Pense o que quiser, Thiago. Afinal, não importa o que eu diga, você formulou suas conclusões e...

Eu não completei a frase, senti meu braço ser agarrado, meu corpo ser virado e empurrado para cama. Abri os olhos que havia fechado no susto e vi o Thiago ofegando em cima de mim. Ele retirou os óculos devagar, largou-os pela lateral da cama e eu prendi a respiração quando seus olhos se fixaram nos meus.

— O que...

— Eu não sei se tenho um problema, Caio. Mas devo ter mesmo. Eu nunca senti o que estou sentindo nesse momento por ninguém, nem mesmo com o Guilherme. Você não tinha amigos homens, só a Laura. Talvez por isso eu nunca tenha sentido algo parecido. Mas agora eu sinto alguma coisa corroer, queimar, ferver dentro de mim quando aquele cara chega perto de você, quando ele te toca, quando ele te chama de “Caiozito”. Eu sinto vontade de avançar nele e arrancar sua língua para nunca mais ele te chamar desse jeito; arrancar cada dedo dele para ele nunca mais te tocar. Eu sei que sou patético por pensar de maneira tão débil e infantil, mas eu não sei lidar com ciúmes. Você é meu, Caio. É apenas o que sei. E, hoje, mais do que nunca, eu quero te provar isso. Eu quero te provar. Literalmente. Quero fazer amor. Transa comigo, Caio?

Céus...

Eu não sabia mais como reagir.

Como um homem consegue levar outro homem do inferno ao céu em tão poucos segundos?

Continua... 

 

[1] Trolo/puto = gay, viado, bicha – a forma grosseira.

[2] Birra – gíria para “cerveja”.

[3] Boludo – vacilão, idiota.

[4] Pibe – garoto.

[5] Dale – está certo.

[6] Gato/gata: Jamais usar como elogio na Argentina, tal como no Brasil, pois na Argentina refere-se a “uma garota/garoto de programa”


Notas Finais


Obrigada por ler!
Comentem! /o
Até o próximo!!


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