História Entre Sem Bater - Capítulo 8


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Original, Romance, Slice Of Life, Yaoi, Yaoi Day 2014
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Palavras 5.306
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Seinen, Yaoi
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 8 - Capítulo 08 - Mesmo que haja interferências?


Entre Sem Bater

Por Andréia Kennen

Capítulo 08

Mesmo que haja interferências?

 

Era o momento tão esperado, mas de repente, o mundo decidiu acabar e o apocalipse zumbi começar, porque meu telefone disparou a tocar e não parou um segundo sequer.

Para piorar a situação, eu nem sabia onde o aparelho tinha ido parar, somente imaginava que ele deveria estar caído em algum lugar incerto do infinito: entre a porta e a cama.

Mas o barulho irritante e incessante da chamada estava, definitivamente, tirando a concentração do Thiago e a minha para o ato em questão, aumentando a nossa tensão, não nos permitindo aproveitar a troca de carícia que começava a ficar boa.

Eu quis morrer quando ouvi o suspirar do Thiago e na sequência o peso dele desaparecer de cima do meu corpo.

— Não dá, Caio — ele sentou-se na cama, passando as mãos nos cabelos para alinhá-los para trás novamente. — É melhor você achar onde está a merda desse celular e desligá-lo.

— Concordo plenamente — afirmei e agi depressa, desci da cama e fui à procura do aparelho no escuro mesmo, não queria acender a luz, estávamos completamente nus, era nossa primeira vez, daria uma baita vergonha se ele me visse engatinhando no chão atrás do celular e com o traseiro pelado empinado para cima.  Então segui a vibração e o toque e logo o encontrei debaixo das calças jeans. — Achei! — comemorei, mostrando o celular que continuava tocando incessantemente.

— Deixa eu ver quem é — ele pediu, estendendo a mão na minha direção, algo que eu não esperava.

O quarto estava um pouco escuro, mas não completamente, havia a meia luz da luminária sobre a cabeceira da cama e eu conseguia visualizar perfeitamente a seriedade estampada no rosto do Thiago.

— É a Laura — informei.

— Estou sem óculos, claro que não tô vendo daqui. 

Aquele pedido me pegou mesmo desprevenido, o fato de que o Thiago ainda estava desconfiado me pegou desprevenido. Eu olhei do celular para ele sem saber bem que atitude tomar. Mas suspirei fundo, eu não tinha nada a esconder no final das contas, apesar de entendê-lo, eu quem havia dado margens para desconfianças ao omitir que iria sair para comer com o Cassiano, eu não podia me dar ao luxo de reclamar. Por isso balancei a cabeça positivamente, soltei um suspiro de novo, me aproximei e entreguei o telefone na mão dele.

O Thiago só deu uma olhada rápida no display e depois que confirmou o nome da Laura ele me devolveu o aparelho.

— Se ela está tão desesperada é melhor atender — ele sugeriu.

— Não, Thi. Eu conheço a Laurinha bem. Ela é sempre desesperada.

— Você não disse que ela foi socorrer o namorado? Vai que aconteceu algo.

Suspirei fundo pela terceira, ou era a quarta vez, precisava evocar toda minha paciência, não entendia porque o mundo havia decidido conspirar quando eu só estava querendo transar!

— Tá.

Foi atender ao telefone e o berro do outro lado me fez paralisar.

— Caio, eu preciso muito de você!

— Laurinha, você está chorando? O que aconteceu?

— Caio, por favor, me ajuda. Só você pode me ajudar nesse momento. Eu não estou aguentando. Caio, tá doendo tanto. Eu quero morrer.

— Laurinha, que papo é esse? Do que está falando?

— Não dá para falar por telefone, eu posso ir até a sua casa?

— Agora?

— Sim, Caio! Agora! Eu estou desesperada!

— Mas... 

Eu olhei para o Thiago, que parecia estar ouvindo a conversa perfeitamente bem, o som do fone estava bem alto, e o silêncio ajudava.

— O Maurício, Caio... eu descobri que o Maurício tem outra... estou tão desesperada... me ajuda, por favor?  

Ao ouvir esse trecho, o Thiago saiu da cama.

— É melhor deixar ela vir — ele expôs simplesmente, saindo a procura das roupas dele no chão.

— Espera um pouco, Laura — eu falei no aparelho e abafei a saída de voz com a mão. Então me voltei para o Thiago. — Thi, espera um pouco.

— Não tem mais clima, Caio. — Ele achou a calça e meio que tateando na escuridão a vestiu. — Sua amiga precisa de você. Ela parece mesmo com problemas. 

Enquanto ainda ouvia a Laurinha chorando do outro lado da linha e pedindo para eu respondê-la, eu vi, mais uma vez, o Thiago me dando as costas e saindo sem me dar a chance de argumentar.

Tratei de mentalizar rapidamente: quando aquela crise da Laura passasse, se ela viesse de novo com aquela pergunta cretina do “Porquê o Thiago e eu não havíamos transado ainda?”, eu iria ter o prazer de jogar na cara dela que ela estragou a melhor oportunidade que tivemos.

— Pode vir — respondi.

— Chego aí em cinco minutos.

— Não corra como uma louca, Laura. Venha devagar. 

Ela não ouviu, pois havia desligado e quando ela chegou, eu me desarmei. Obviamente, eu iria esquecer o que tinha mentalizado mais cedo. A Laura estava mesmo destruída. Nunca havia a visto chorar daquele jeito e, por mais firme, bem resolvida, e independente que uma mulher era, eu percebi que quando o assunto é o coração, elas ainda eram seres frágeis, altamente quebráveis.

Foram cinco anos de namoro, a Laura acreditava que o Maurício era a pessoa com quem ela iria se casar, ela fazia planos sobre isso o tempo inteiro. Porém, a recíproca parecia não ser verdadeira, afinal eu nunca ouvi dela se ele correspondia positivamente aos planos, aliás, ele era até bem liberal, deixava ela sair com as amigas, não era do tipo que sentia ciúmes, nem ficava no pé. Era mesmo algo para se estranhar.

Por fim, o incidente com o carro veio para revelar a verdade sobre a “tranquilidade” de Maurício sobre o relacionamento dele com a Laura, não era excesso de confiança, era falta de sentimento mesmo.

A Laura contou que descobriu quando o Maurício deu as coisas dele para ela segurar enquanto prestava esclarecimento para a equipe de Socorro de Trânsito, foi quando o celular dele começou a vibrar com o nome de “Lu” na tela. Ela não atendeu, mas não se lembrava de ele ter mencionado nenhuma “Lu” como amiga. Por ele não atender, pipocou mensagens no Whatssapp e pela prévia que aparece no visor ela leu o princípio de uma das mensagens: “Amor, onde você está? Estou te esperando tem mais...”. O telefone tocou novamente e depois daquela mensagem e ela não se segurou e atendeu a ligação e antes de perguntar a confirmação veio por si só: “Por Deus, amor, o que aconteceu? Estou esperando você há horas! Você vem me pegar ou não?”.

Pois é. Se meu chão fugiu na hora que ela me contou tudo aquilo, fiquei imaginando o dela. Abracei a Laura com força e pedi para que ela chorasse tudo que a estivesse machucando por dentro, porque seria a última vez que ela choraria por aquele canalha.

Também passei a repensar minhas atitudes com o Thiago. Pensei que não era algo ruim afinal ele sentir ciúmes, pedir para vistoriar o meu celular, ser desconfiado. Não era apenas desconfiança, talvez ele gostasse mesmo de mim ao ponto de ter medo de me perder.

E, enquanto a Laura soluçava nos meus braços, eu mandei um Whats para o Thiago. “Limpe seu celular, meu bem, porque amanhã será dia de vistoria. Vou fuçar todos seus contatos, suas conversas, quero saber detalhe por detalhe de cada um deles”. Ele respondeu me enviando uma carinha sorridente e um “vai dormir, Caio”.

Bem que eu queria, mas a Laura não iria dormir e pelo jeito eu também não. Percebi por fim que nós dois chegaríamos acabados no serviço no dia seguinte.

...

A Laurinha ficou deprimida por mais de uma semana, depois que o namoro acabou ela entrou em uma “vibe” desesperada de encontrar um substituto o mais rápido possível para o Maurício. Algo que eu achava perigoso. Encontrar alguém no calor do momento poderia acabar aumentando as feridas. Mas ela não me deu ouvidos, baixou tudo quanto foi aplicativo de encontros no celular, e passou a maior parte do tempo tentando encontrar alguém legal para marcar um encontro.

Vê-la fazendo aquilo, me fez recordar de algo, não era ela a princípio quem vivia me criticando por tentar marcar encontros por meio virtual?

Enfim. Eu entendia o desespero dela, havia passado por uma fase parecida. Não tão desesperadora. Eu estava sozinho há muito tempo, por isso o meu desespero era mais com a intenção de ter alguém especial como companhia e não uma ânsia desmedida de substituir a ausência de outro.

De qualquer forma, eu queria fazer pela Laura mais do que estava ao meu alcance, mas eu não sabia o que fazer. Talvez, não tivesse mesmo o que ser feito, além de dar a ela a atenção que precisava. Ademais, eu tinha que cuidar do meu próprio relacionamento, ou ele iria pelos ares também.

...

Estávamos na primeira semana de novembro, era o último mês efetivamente letivo, pois os professores costumavam fazer as provas e trabalhos dentro daquele mês, para dezembro terem folga para revisão, lançamento de notas e trabalhar com aqueles que ficariam para o exame de recuperação. Mas naquele dia, a professora Cida, de português, havia nos dado um dia de aula-livre. Ela pediu para que fizéssemos uma redação tendo como base as manifestações daquele ano e as influências que elas teriam na eleição do ano seguinte. A única exigência feita por ela foi que a redação fosse manuscrita e entregue na próxima aula. 

Por isso que os dois primeiros tempos com a Cida estariam livres. Thiago e eu aproveitamos para passarmos em casa e tomarmos banho antes de ir para faculdade. Eu pedi para ele me apanhar no serviço, depois que a Laura havia dito que não iria para aula, assim que ela confirmou comigo que o Thiago ia mesmo me pegar, ela bateu o ponto as dezoito cravado, entrou no seu uninho e desapareceu. Mas eu estava preocupado, tinha a impressão que ela estava prestes a aprontar uma. 

Agora estávamos na biblioteca e enquanto o Thiago se empenhava na redação, eu aproveitei para dar início a missão: “Vistoria no celular do Thiago!” bem como havia prometido.

— Luíza?

— Vai fiscalizar as mulheres também? — ele perguntou sem se dar ao trabalho de erguer os olhos para visualizar a melhor cara de desconfiança que eu fazia.

— Vai que “Luiza” é na verdade Luiz, não é? Ou, pior. Vai que você de repente decidiu experimentar da fruta. Afinal, como você pode ter tanta certeza que não gosta de mulheres se nunca ficou com uma?

A caneta dele parou sobre o caderno por um segundo, mas foi um mero segundo, logo ele balançou a cabeça e voltou a escrever.

— Você já? — ele reverteu a pergunta. 

— Claro que não!

— Então como pode ter certeza que não gosta delas? Será que eu deveria começar sentir ciúmes da Laura também, agora que ela está solteira?

— Thiago, quem está sendo investigado aqui é você, pare de se esquivar! Quem é Luiza?

Ele suspirou.

— O cartão de crédito.

— O quê?

— É a senha do cartão de crédito da loja Luíza. Tenta ligar, vê se você consegue completar a chamada. É um disfarce para o lembrete da senha.

— Se está achando que eu sou idiota e que vai me enganar com esse papo furado está muito enganado. Logo você que tem um cérebro que memoriza os nomes de todos os ex-presidentes do país? Espera só... — acionei a chamada e sequer houve um toque e a mensagem eletrônica da operadora entrou informando que aquele número não existia ou havia sido discado errado, que eu deveria tentar novamente.

— E então, desistiu de falar com a Luíza? — perguntou ele tirando uma com a minha cara, e continuou escrevendo.

— Engraçadinho... — resmunguei. — Pode ser só uma estratégia sua para me fazer desistir. Mas eu não vou!

— Você deveria é começar a sua redação.

— Então isso significa que quer que eu desista? Ou seja, estou chegando perto de algo, não? — Voltei para agenda. — Quem é Mario Quintana?

— Meu ex-chefe, lá do Super Frutas.

— Hm...

— Você não vai ligar para ele para perguntar se é...

— Alô? Chefe? Sim, sou eu Thiago César. Tudo bem? Só queria saber se o senhor está precisando de alguém para fazer extras? Ah, é? Entendo. Tudo bem, então. Quando precisar estou à disposição, estou precisando ganhar um extra. Certo, chefe. Obrigado de qualquer forma. Abraços — desliguei. — É. Só um ex-chefe com pouco contato para sequer se lembrar da sua voz, né?

Olhei para o Thiago e só então percebi que ele estava me olhando e meio que querendo rir. 

— Que foi?

— Você fez mesmo isso? Eu não estou acreditando.

— Eu disse que estou empenhado, não disse?

— Caio, me dá esse telefone e vamos estudar. Você está fazendo muito barulho aqui dentro, seremos expulsos — ele tentou cochichar, mas deu para notar que entonação da voz dele havia mudado. 

— Agora que não dou mesmo — voltei para a lista de contatos dele. — Você começou a demonstrar preocupação, está até rindo de nervoso. Vou continuar. O próximo: “mãe”? Vou dar um alô pra dona Helena.

Eu não queria ter ligado para dona Helena, mas meu dedo escorregou e sem querer acionei a tecla de discagem, antes que eu pudesse desfazer a ligação, ela havia atendido.

— Thiago? — a voz soou um pouco preocupada.  

Eu olhei para ele, como se quisesse que ele me salvasse, mas o Thiago estava com aquele risinho debochado no rosto, querendo ver como eu sairia daquela.

— Filho, aconteceu algo? — a voz dela ecoava pelo fone.  

Suspirei fundo.

— Sou eu, dona Helena.

— Caio?

Eu me surpreendi por ela ter me reconhecido de imediato, mães eram incríveis. E olha que eu só tinha falado com ela uma única vez, quando ocorreu o incidente em agosto, e eu fiquei com a perna engessada no hospital, ela fez questão de acompanhar tudo.

— Isso — respondi um pouco envergonhado.

— Aconteceu algo? Por que está ligando do celular do Thiago?

— Não aconteceu nada, dona Helena. Bem, eu... só estou fazendo uma pequena vistoria nos números — acabei confessando aquilo e tive que me encolher, tão envergonhado que fiquei.

— Ah... — ela suspirou realmente aliviada. — por um minuto pensei que tinha acontecido algo com ele.

— Nada, ele está bem aqui na minha frente. Rindo da minha cara nesse exato momento. Por eu ter desconfiado até do número da senhora.

Ela riu gostoso, de um jeito afetuoso, era aquela sensação que uma mãe verdadeira passava. Não que a minha mãe não fosse verdadeira, acho que ela tentou ser, me lembro do quanto ela era carinhosa, gentil e prestativa até descobrir que eu era gay. 

— Você está certo em se preocupar, Caio. Hoje em dia as coisas estão complicadas, as pessoas não são tão mais confiáveis como antigamente, sabe? Mas o meu Thiago é um menino sério e, pelo que conheço dele, ou ao menos, pelo que ele me deixa conhecer, ele não é do tipo que enganaria alguém.

— Obrigada, dona Helena. Eu também quero acreditar nisso.

— Venha almoçar aqui em casa qualquer dia desses. Sua perna está melhor?

— Sim, eu vou sim. E sim, a perna está cem por cento agora.

— Fico feliz.

— Obrigada, dona Helena. Desculpe incomodá-la. Boa noite. Manda um beijo para Vitória por mim.

— Pode deixar, querido. Boa aula.

Eu desliguei e respirei fundo.

— Que vergonha... — eu sentia meu rosto queimando.

O Thiago fechou o caderno, e passou a guardar as coisas na mochila.

— O que foi?

— Vamos, vou quero te levar em um lugar.

— Não vamos ver os últimos tempos?

— Vai ser só revisão. A gente pode revisar a matéria juntos depois.

Apanhei o meu caderno que eu nem tinha aberto aquela noite e devolvi para minha bolsa.

— Espera, Thi. E o seu celular?

— Fica com ele. Pode continuar com a vistoria quando chegarmos lá.

Eu sorri ao encarar as costas do Thiago se afastando na minha frente. Meu peito se encheu de algo, de confiança, ele era mesmo do tipo que inspirava confiança, eu não podia estar enganado, não tinha porque desconfiar. Nem todos os seres humanos eram cafajestes como o Maurício, e eu queria acreditar que jamais passaria pela dor que a Laura estava passando. Era no que eu iria acreditar, por isso apertei o celular na mão, andei rápido para alcançar o Thiago que já passava na catraca da Biblioteca, e enfiei o celular no bolso da calça dele.

— Ei, tá pegando na minha bunda em público?

Duas meninas que passavam pela gente nos olharam, mas viraram o rosto rapidamente, tentando disfarçar os risos. Dei um soco no braço do Thiago e mostrei língua para ele.

— Só estou devolvendo seu celular, idiota. 

O Thiago riu alto enquanto descíamos os degraus em direção ao pátio redondo da faculdade e então ele juntou as duas mãos nos meus cabelos e esfarelou.

— Você tem que parar de ser tão fofo desse jeito, ou qualquer dia te agarro no meio de todo mundo.

— Ei, para, Thi! Tá virando um ninho — eu dei risada.

O Thiago estava de bom-humor, era a primeira vez que eu o via sorrir tão espontaneamente daquele jeito, e o sorriso espontâneo dele deixava-o mais lindo do que ele era.

...

O Thiago subiu pela Ceará e depois pegamos a Afonso Pena, estávamos indo em direção ao Parque dos Poderes. Nessas horas é que eu gostava de andar de moto, estava um calor infernal, o verão estava apenas começando, apesar de não ter certeza se havíamos entrado oficialmente no verão. Eu apenas sabia que o horário de verão tinha começado há algum tempo e por isso que, mesmo passando um pouco das oito da noite, havia fachos laranja e violetas tingindo o horizonte e muita gente aproveitando o horário para caminhar. 

Passamos pela entrada do Parque das Nações Indígenas e continuamos subindo até chegar a rotatória que dá no Parque dos Poderes. Ali o fluxo era somente de veículos. O Thiago me levou para entrada da reserva do parque. As visitas haviam se encerrado aquele horário, pelo que li na placa, mas o Thiago falou com uma pessoa na guarita, parecia ser um conhecido, e pegou algo com ele. Em seguida ele retornou e pediu para que eu trouxesse a moto para estacionar lá dentro do parque. Depois disso, o Thiago fez um aceno para a pessoa na guarita e nós entramos.

— Seu amigo? — não ia perder a oportunidade de continuar investigando.

— Na verdade eu o conheço só daqui.

— Hm... Não vamos ter problemas? Encerrou o expediente, não é?

— Confie em mim — ele disse, apanhando minha mão e fazendo com que eu o seguisse.

Era engraçado como um simples gesto de pegar na mão se tornava tão intenso quando não se tinha o hábito. Talvez fosse por aquele motivo que o Thiago estivesse optado por um lugar reservado, poderíamos nos dar ao luxo de nos sentirmos um “casal normal”, longe das vistas das pessoas, do preconceito. Senti novamente aquele algo bom me invadir.

Andamos por uma trilha no meio da mata. O Thi na frente, segurando minha mão firme na dele. Fiquei um pouco apreensivo no começo, estava escuro, havia só mata dos dois lados e era uma subida íngreme e dava para sentir a diferença na queda da temperatura. Mas o Thiago parecia saber exatamente onde estava indo, então me deixei guiar e na última etapa, tivemos que dar um impulso para escalar a elevação, um pequeno morro. Eu quase caí de volta para trás, porém a mão firme do Thiago me puxou de volta.

Cheguei um pouco arfante da caminhada.

— Vem ver — ele me chamou, parado mais a frente.

Eu me aproximei e fiquei do lado dele. Era realmente incrível, da onde estávamos se tinha uma visão deslumbrante para toda extensão do parque, dava para ver o lago, a Afonso pena ao longe, os prédios iluminados, fiquei boquiaberto por um tempo.

— Uau. Que vista é essa, Thi? — Eu me voltei para ele, que estava saindo dali e indo para debaixo das árvores. Só então percebi o que era aquilo que ele havia pegado com o cara na guarita: uma rede de casal, a qual ele estava armando entre duas árvores. 

— Fala aí, se não é poético?

— Só esse seu “fala aí” não soou muito poético.

Ele riu, terminando de fazer as amarras de forma firme da rede, que era de uma cor verde musgo, e meio que se camuflava entre as folhagens de fundo. Eu engoli em seco. Aquele clima fez minha mente trabalhar rápido. Ok. Havia algo no ar e eu estava ficando excitado.

Foi quando o som de uma música antiga soou, fazendo com que eu franzisse as sobrancelhas.

Não, eu não estava ouvindo aquilo.

— O que é isso, Thi?

— “Quanto tempo eu!” — ele fez um gesto para si mesmo, acompanhando a voz conhecida que tocava no celular. — “Vivi a procurar” — ele veio se aproximando devagar, cantando a letra com o celular em uma das mãos e estalando os dedos com a outra. — “Por você meu bem. Até lhe encontrar”.  — ele venceu a distância entre a gente e segurou minha cintura. — “Mas se você pensar e me deixar farei o impossível para ficar... até!” [1]

— Não, Thi, não. Eu não estou acreditando nisso — eu dei uma risada alta.

— Mas é verdade. Agora, escuta essa parte: “Eu te darei o céu meu bem, e o meu amor também!” — ele abriu os braços e mostrou ao redor. Então voltou a me apanhar pela cintura, me ergueu e me girou em seus braços.

Eu dei risada.

— Roberto Carlos? — eu perguntei ao ser devolvido ao chão.

— E Erasmo. Os Tremendões, pô! Caio, é um clássico.

— É tão cafona.

— Mas é bonitinho.

— Estamos parafraseando o Renato Russo agora (2)[2]?

Foi ele quem riu, passou as mãos nos meus cabelos, tirou-os da testa, depositou um beijo sobre ela, depois na minha bochecha, até que ele segurou meu queixo e fixou seu olhar nos meus olhos. Senti meu corpo inteiro arder como se eu tivesse tomado banho de gasolina e o Thiago tivesse ateado a faísca. Meu coração batia tão depressa. Era algo tão simples, tão bobo, mas parecia tão surreal e romanticamente brega para os dias atuais que eu, de repente, me senti felizardo.

— Eu te amo, Caio Henrique — ouvi aquela declaração que soou mais doce que a melodia no ar.  

— E eu nem consigo mais descrever o quanto eu te amo, Thiago César. 

O sorriso do Thiago se expandiu graciosamente. Em seguida ele retirou os óculos e guardou-os no bolso detrás da calça, fez o mesmo com o celular. Com as mãos desocupadas, segurou minha camisa pela barra e passou a subi-la devagar. Ergui os braços e permiti que a retirasse, senti a brisa mais amena provocar arrepios na minha pele e aumentar a tensão no meu estômago, então ele fez o mesmo com a camisa dele. Em meio aquele cenário, o céu límpido e carregado de estrelas nós nos despimos. 

E tudo que eu pedia naquele momento era para o meu corpo se acalmar e não se adiantar como aconteceu no primeiro beijo.

O Thiago me apanhou pela mão e me levou para rede, antes de nos deitarmos ele parou de frente para mim e ficou me analisando. Algo que me deixou mais nervoso.

— O que foi? — eu quis saber, para me encabular com a resposta em seguida.

— Você é tão lindo.

— Para. Estou ficando... Sei lá. Sem jeito. Sem graça. Sem ar. Tá quente aqui, não tá?

— Está sendo honesto como sempre — observou ele e apontou para o meu ventre, se referindo claramente aquela parte que eu tentava esconder entre as minhas mãos.

— É, e isso porque estou tentando esconder. Eu nem consigo olhar pra você e descobrir se seu estado é recíproco.

 — Então, não é melhor sentir?

O que responder nessas horas?  

Apenas fechei os olhos e esperei. Quando a boca do Thiago tocou a lateral do meu pescoço, eu não tive forças para sustentar as minhas pernas e me segurei ao abraçá-lo.  

Os beijos subiram mornos pela minha pele descoberta, tocaram meus ombros, o queixo, meus lábios. As mãos dele trilharam caminhos ousados, desceram apertando minha cintura e chegou às nádegas, as quais ele apalpou com vontade, ao ponto de me fazer prender a respiração. A boca dele colou na minha e nossos corpos se pressionaram um no outro em um abraço fora do comum. Eu sentia cada músculo do Thiago tencionando e meus dedos acabaram movendo-se sozinhos, trilhando um dedilhar meticuloso por cada linha dos braços que me envolviam, dos ombros, até que minhas mãos se entrelaçaram na nuca dele, o corpo ficando suspenso, como seu eu tivesse me pendurando. Minhas costas arquearam e quase pude imaginar o meu bumbum que era pouco avolumado ficando maior.

Mas não estava me importando, queria me sentir sexy, desejado, queria ser amado sob aquele céu negro, sem lua e de estrelas cintilantes.

Abri minha boca e permiti que a língua do Thiago entrasse, tocasse a minha e me arrastasse ainda mais para aquele mar de erotismo em que ele me envolvia.

O beijo mais intenso deu um resultado imediato para ambos os lados, pois passei a sentir o membro dele enrijecido resfolegando na minha barriga, e até mesmo os toques dele haviam ficado mais seguros, suas mãos apertaram mais minha cintura e subiram da mesma forma pela lateral, ele se afastou da minha boca e se abaixou para beijar um dos meus mamilos. E... merda. Aquele era o meu ponto fraco, tive que morder um dos dedos para aguentar. A língua dele fazia movimentos leves e circulares, com algumas mordiscadas. Tentei, mas não abafei o gemido.

A boca dele repetiu o mesmo ato tortuoso com o outro, depois os beijos desceram por minha barriga, então ele ajoelhou-se, apanhou meu membro que gotejava o pré-gozo, massageou por alguns instantes e enfim o direcionou inteiro para dentro da boca.

E como foi difícil me controlar então. Além da sucção no meu pênis, os dedos dele também estavam me preparando. Estava prestes a atingir o ápice quando o Thiago parou, pensei que era minha vez de fazer o mesmo e fiz menção de me abaixar, mas ele me segurou.

— Não precisa, eu estou duro suficiente — ele pegou minha mão e direcionou-a sobre o sexo, fazendo com que eu conferisse. E ele estava absolutamente certo. Havíamos nos masturbado algumas vezes, mas tocá-lo naquela região naquele instante teve um sentido completamente diferente. Deu para sentir perfeitamente o quão duro e grande ele estava, eu arfei ansioso. — Viu?

Assenti com a cabeça.

— Está com medo?

Neguei com a cabeça.

— Então deita na rede e abre bem as pernas, não quero te machucar.

— C- Certo...

Era estranho deitar em uma rede, batia aquela sensação estranha que ela não seria capaz de nos sustentar. Além disso, faríamos sexo suspensos no ar, literalmente ao ar livre, comecei a ficar mais ansioso.

A claridade vinha das luminárias ao longe. A playlist de Roberto Carlos ainda tocava no celular dele.

 “Além do Horizonte deve ter um lugar tranquilo para viver em paz”(3)[3]

A música que eu só conhecia na voz do vocalista do J-Quest pareceu bem mais profunda sem todos os arranjos e balanços eletrônicos.

Senti o cheiro do Thiago invadir minhas narinas, ele estava subindo na rede, que balançou de um lado para o outro com o nosso peso juntos. Ele estava suado. Admirei o torso magro, mas bem desenhado a minha frente, percebi que ele colocava a camisinha e ao terminar puxou o elástico do cabelo e balançou a cabeça fazendo os fios negros se soltarem. Como ele havia lavado aquela noite, estavam sedosos, brilhantes e perfumados.

O Thiago usou o lubrificante da camisinha para umedecer melhor minha entrada e quando ele se posicionou, encaixando seu membro em mim meu coração veio na boca. O Thiago se curvou para alcançar meus lábios e me beijou enquanto começava a se movimentar. 

A música alternou e a que passou a tocar a seguir combinou com a situação.

“Feche os olhos para não ver passar o tempo. Sinto falta de você. Anjo bom, amor perfeito no meu peito. Sem você não sei viver...”(4)[4]

O Thiago era tão cuidadoso. Ele me penetrava devagar, movia o seu sexo para dentro e para fora com delicadeza, estocava no lugar certo, chegava ao fundo. Mesmo com a dor do princípio da penetração, mesmo ele estando grande e ereto, mesmo sentindo que ele forçava para entrar, ele conseguiu me excitar e relaxar ao ponto de eu sentir o pênis dele deslizar dentro de mim. O calor aumentou. O nosso pulsar aumento. Quando o Thiago entrou por completo e se alojou no limite eu só desejei gozar de uma vez. Meu coração bombeava tão depressa que eu mesmo passei a mover o quadril com a intenção de contribuir com a intensidade, sentia os cordões da rede marcando minhas costas. Os nossos corpos estavam suados. O balançar da rede tornava a adrenalina mais concisa e fazia com que nossos corpos se encaixassem mais. Em um último movimento, quando senti que o sexo dele massageava minha próstata, eu não aguentei, abracei o corpo do Thiago com as pernas, arqueei as costas da rede e então deixei vir o orgasmo mais fantástico que senti. 

O sêmen quente dele me invadiu, e eu senti que o sexo dele também pulsava, e aquela sensação foi tão extasiante que prolongou o meu orgasmo. Minhas pernas haviam mudado de posição sem que eu percebesse, estavam tesas no ar. Quase não conseguia respirar, mas quando a boca dele tentou se afastar da minha eu não permiti, segurei o rosto do Thiago com ambas as mãos e continuei beijando-o por mais um tempo. Só passado alguns segundos, depois que o meu corpo relaxou completamente, é que permiti a boca dele se afastar.

— Foi tão bom que as horas poderiam ser infinitas — comentei.

“Você passou por mim sem dar-me atenção, mas logo percebi que para mim, seria o fim da solidão... (5)”[5]

— Foi bom mesmo?

— Você ainda tem dúvidas?

Ele sorriu.

— Obrigado, Thi.

— Não me agradeça por isso. Eu só queria que fosse especial — ele disse, fazendo carinho atrás da minha orelha.

— Com certeza será inesquecível.

Adormecemos ouvindo aquela playlist de músicas do Roberto Carlos dos anos 60, quase me senti de volta no tempo.

...

Estava relaxado, em um sono profundo, quando ouvi algo estranho, que me fez despertar. Era um farfalhar, risinhos debochados e algo passeando na minha pele. Ouvi alguns resmungos, estava frio, eu não sentia o calor do corpo do Thiago ao lado do meu, abri os olhos depressa e me sentei. Era um grupo de pessoas, tinham várias lanternas apontadas para minha cara, para o meu corpo, eu tentei me esconder puxando as franjas da rede.

— T- Thiago?

Eles riram.

— Thiago é o nome do cara pra quem estava dando a bunda, é, meu irmão? Se for, ele deve ter dado no pé e ter deixado aqui sozinho — eles riram novamente.

— Mas a gente não vai deixar esse seu cuzinho gostoso se sentir sozinho, não. Vamos cuidar de você, não é gente?

— Irmãos, eu tô fora, tenho nojo de bicha.

— Larga de ser besta, idiota! Bunda é tudo igual e aqui, no escuro, nem vai dar para ver a diferença.

— Isso é nojento. Vocês são loucos.

— Quem não quiser é só assistir, ou se não quiser assistir também, só vira o rosto. Eu vou ser o primeiro — disse a pessoa que estava bem na minha frente, descerrando o zíper. — Vem, belezinha, vem chupar o papai vem.

Eu comecei a tremer. Não conseguia acreditar naquilo, só podia estar ficando louco, de sonho a pesadelo em um piscar de olhos?

Continua...

 

[1] Eu te darei o céu – Roberto Carlos (Compositor: Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

[2] A referência feita é sobre a música “Hoje a noite não tem Luar” dos Menudo, interpretada pelo Legião Urbana, no Acústico MTV – Legião Urbana de 1999. ) 

[3] Além do Horizonte – Roberto Carlos (Compositor: Roberto Carlos);

[4] Amor Perfeito – Roberto Carlos (Compositores: Michael Sullivan / Paulo Massadas / Lincoln Olivetti / Robson Jorge);

[5] Ar de Bom Moço – Roberto Carlos (Compositores: Niquinho – Othon Russo)

 


Notas Finais


Obrigada a todos que lerem!
Por favor, comentem.
Até o próximo! o/


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