História Os Garotos - Capítulo 3


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Categorias Saint Seiya
Personagens Hyoga de Cisne, Ikki de Fênix, Saori Kido (Athena), Seiya de Pégaso, Shiryu de Dragão (Shiryu de Libra), Shun de Andrômeda
Tags Romance, Saint Seiya, Vida Escolar
Visualizações 212
Palavras 5.727
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 3 - Capítulo 03 - Reencontros - Parte I


Os Garotos

Por Andréia Kennen

Capítulo III

Reencontros – Parte I

Depois de andar por quase meia hora na região de Tóquio, Seiya encontrou o prédio da Rede Sekai de Televisão. Ao assistir a uma gravação de rua lembrou-se que o amigo Shun recebera a proposta de emprego de um dos diretores que gerenciara a transmissão do Torneio Galáctico assim que retornaram da Grécia.

Sempre achara que os amigos Shun e Hyoga eram bonitos o suficiente para seguirem tranquilamente uma carreira na televisão. Na realidade, Shun, por ter sido um dos primeiros a retornar ao Japão como cavaleiro, foi o responsável ao lado de Jabu, Ichi, Nachi, Geki e Ban, pela divulgação do evento na mídia. Sabia que o ex-cavaleiro de Andrômeda, por ter aquele tipo de beleza andrógina que sempre esteve em alta entre as mulheres do país, foi capa de várias revistas e o responsável direto por despertar o interesse das espectadoras femininas pelo show de combates que seria realizado pela Fundação Graad. Por isso, mesmo ele não tendo notícias do amigo há algum tempo, tinha certeza que Shun estava muito bem.

— Uau! Como esse lugar é luxuoso — exclamou impressionado ao adentrar o salão de piso espelhado onde funcionava a recepção da emissora. 

Aproximou-se do balcão em formato oval que ficava no centro do lugar onde estava uma recepcionista loira que atendia as ligações com um bluetooth¹ o qual também tinha um microfone acoplado.

— Um minuto, vou transferir — ela informou, suspirando enfadada e, após o processo de transferência da ligação, ela se voltou para Seiya que aguardava rente ao balcão. — Em que posso ser útil?

Seiya fez uma breve comparação entre o atendimento daquela moça com traços estrangeiros, e que mais parecia uma modelo, com a simpática secretária de óculos da doutora Kanagawa, e concluiu que preferia uma centena de vezes a secretária da advogada.  

— Bom dia. Estou procurando um amigo que trabalha aqui — respondeu, cumprimentando-a antes com um “bom dia” mesmo que ela não tivesse tido aquele trabalho primeiro.

— Nome?

— O meu?

— Não, moço, do seu amigo — ela explicou, revirando os olhos.

— Ah, sim. Shun Amamya. 

— Só um minuto — pediu, e revirou novamente os olhos ao perceber o toque incessante de chamada no fone em seu ouvido; atendeu a nova ligação e fez um gesto com a mão para que o visitante aguardasse.

Enquanto ela falava com a pessoa ao telefone, Seiya percebeu que o lugar era bem movimentado e que a todo o momento entrava e saía gente pelas portas automáticas e pelos elevadores. Todos com crachás pendurados no peito. Muito deles poderiam ser artistas famosos, mas como ele não tinha o hábito de assistir televisão, sentiu-se constrangido em não reconhecê-los. 

O jovem moreno percebeu que a atendente havia parado de falar no telefone, pois fora desperto pelo o barulho dos dedos ágeis dela digitando no computador, então, voltou sua atenção para ela.

— Não temos nenhum Shun Amamya na nossa lista de funcionários —informou ela, após concluir a consulta. — Tem certeza que ele trabalha aqui?

— Tenho.

— Eu vou procurar na lista de terceirizados, só mais um minuto.

Seiya iria abrir a boca pra responder “tudo bem” quando foi interrompido pela chegada abrupta de uma pessoa no balcão. Não conseguiu visualizar o rosto, pois a caixa cheia de equipamentos eletrônicos que ele carregava era tão grande que o encobria. Porém, o ex-cavaleiro de Athena não precisava identificar a face por trás do papelão para saber que conhecia muito bem o dono daquela singela cosmo-energia que estava sentindo.

— July-san, o diretor Soujiro está gravando em qual andar?

— Eu não consigo saber quem é você só pela voz, né, benzinho? Pode se identificar.

— Sou eu, July-san...

— Shun Amamya — Seiya interrompeu, ganhando a feição curiosa da recepcionista.

— Isso. Mas, quem disso isso? — Shun perguntou, virando de um lado para o outro, ainda com a caixa tampando sua visão.

— Se você não colocar essa caixa no chão, não conseguirá me ver.

— Ah, é verdade — concordou, depositando o objeto no chão, para só então se reerguer e enfim contemplar aquela pessoa que não via há muito tempo. — Seiya?!

Não foi surpresa para o rapaz moreno ver a tez clara a sua frente avermelhar-se e os grandes olhos verdes claros dobrarem de tamanho e se encherem de lágrimas. Sorriu, ainda mais abertamente, ao perceber que apesar de ter se passado algum tempo, Shun continuava do jeito que se lembrava: bonito e sensível.  

— Ei, Shun... — Seiya coçou a nuca, um tanto constrangido. — Não vai chorar na frente da moça, né?

— Desculpe-me — Shun fungou, limpando o canto dos olhos com a ponta dos dedos. — Mas, faz tanto tempo que não o via, Seiya...  

Shun não conseguiu mais falar, apenas juntou-se ao amigo em um abraço tão caloroso que encabulou até mesmo secretária da recepção. A jovem loira, diante daquela cena tão tocante de reencontro, deixou uma suavidade ganhar seu semblante antes estressado, e um sorriso simpático adornou seus lábios.

Porém, a expressão de suavidade da moça se desfez quando ela ouviu mais uma vez a chamada irritante de ligação nos fones em seus ouvidos. Depois de atender, voltou-se para os dois que já haviam se separado e agora iniciavam uma conversa com perguntas triviais de pós-reencontro: “Como você está?”, “O que anda fazendo?”, “Você está mais bonito, mais alto, mais magro”, concluindo que iria na verdade salvá-los daquela ladainha toda, a moça os interrompeu.

— Desculpem-me por interromper o belo reencontro de amigos, mas, Shun, o diretor Soujiro acabou de ligar perguntando do equipamento que você tem que levar para ele. É melhor subir rápido, ele parece com pressa.

— É verdade, July-san, eu preciso mesmo, vão atrasar a gravação por minha causa. Você pode arrumar uma credencial pro meu amigo? Eu vou indo na frente.  

— Claro que sim, docinho.

— Eu não quero atrapalhá-lo.

— Não vai atrapalhar em nada, Seiya. Daqui a pouco é o meu intervalo e a gente pode sair pra comer.

— Para onde eu o mando? — a secretária perguntou para Shun.  

— Para gravação do seriado “Coração de adolescente”. No décimo quinto andar. Obrigado, July-san! Te espero lá, Seiya.

— Está... bem.

— Pode me emprestar sua identidade, por favor? — a jovem pediu, abrindo um sorriso mais amigável para Seiya.

— Claro.

...

Após receber a identificação, Seiya seguiu as orientações da recepcionista e foi parar no décimo quinto andar. Ao chegar lá, percebeu que o local era um amplo salão e que tinha várias repartições onde havia vários cenários montados. Percebeu um aglomerado maior de pessoas em torno do que sugeria ser uma sala e ao centro dela, uma adolescente gritava aos prantos para um rapaz, enquanto todos seus gestos eram captados pelas câmeras em torno dela.  

— Eu não te entendo, Sora-kun. Eu confiava tanto em você. Você sempre se mostrou tão diferente dos outros rapazes — a moça alegou, esfregando os olhos vermelhos do choro. — Como você deixou que o pervertido do Hiei fizesse aquilo com você?

— Gomen, Megumi-chan. Eu não queria que você tivesse assistido aquilo... — o rapaz informou a jovem e soltou um suspiro, dando alguns passos para trás e afastando-se dela. — Mas agora que você já viu com seus próprios olhos, acho que é melhor que saiba da verdade.

Seiya notou o silêncio que havia se instaurado no estúdio, enquanto o ator retirava o boné que soltou seus enormes cabelos castanhos e lisos, que foram sacudidos de um lado a outro, fazendo-os emoldurar o belo rosto. Na sequência, o ator retirou os óculos de grau, desatou o nó da gravata do uniforme e desabotoando um a um dos botões da camisa a abriu e mostrou o busto para a outra menina, que após ficar totalmente vermelha e interpretar um semblante de choque, deixou as lágrimas rolarem mais rapidamente pelo o seu rosto.

— Agora entende, Megumi-chan? — A voz do artista, que na verdade era uma garota, soou mais suave. — Esse é o verdadeiro motivo por eu ter recusado seus sentimentos desde o princípio. Na verdade, eu sou uma garota.

A outra adolescente encobriu a face envergonhada com as mãos e saiu desesperada do ambiente, batendo a porta. A moça que ficou no meio do cenário, soltou um alto suspiro de lamento e recitou:

— O problema é que agora eu não sei o que fazer com esse sentimento que só cresce dentro de mim, Megumi-chan. — Ela deixou-se cair de joelhos no chão e passou a soluçar, interpretando um choro sentido. — Eu estou apaixonada de verdade por você.

Seiya arregalou os olhos, chocado com a declaração repentina do amor de uma menina pela outra. Mas logo, lembrou-se que aquilo era só uma interpretação e que fora tão real que, por um instante, o havia convencido. Sentiu o um ímpeto fervoroso de aplaudir, contudo, a voz do diretor gritando “corta” e a dispersão do grupo de atores, o fez manter-se contido em seu lugar.

— Vocês estão de parabéns, a cena ficou perfeita — informou o homem ao microfone. — Meia hora para troca de cenário.

Seiya logo conseguiu identificar o amigo Shun atrás das câmeras, puxando os cabos. Ele havia colocado um boné que prendia seu longo cabelo e havia vestido um jaleco azul que tinha escrito em letras garrafais nas costas a palavra “Apoio” e que sobrepunha sua camisa branca. Foi só então que compreendeu que o amigo não era ator como imaginava, mas um mero ajudante de estúdio.

— Como eu, o Shun também não tem um trabalho digno. Deveria estar na frente das câmeras e não por trás delas.

— Concordo plenamente — a voz que veio detrás de Seiya o fez sobressaltar.

O rapaz moreno voltou-se rapidamente para origem da voz e notou que era a jovem que se vestia de homem na cena que acabara de ocorrer. Como se já o conhecesse, ela continuou falando:

— Eu mesma já disse ao meu pai várias vezes que é um grande desperdício manter o Shun apenas como ajudante dele.

— Então, você é a filha do diretor?

— Bingo — ela afirmou, puxando o crachá que estava entorno do pescoço de Seiya e lendo a identificação. — “Seiya Ogowara, visitante”. Hm... — ela soltou do crachá. — Então, Ogowara, conhece o Shun de onde?

— Somos amigos de infância — Seiya respondeu um pouco encabulado com o olhar intenso da garota sobre ele. — Como você se chama? 

A jovem, de repente, arregalou os olhos, incrédula no que ouvira. Nunca imaginou que depois da audiência de “Coração de Adolescente” ter alcançado índices espantosos, que um dia precisaria se apresentar a alguém. Ela sorriu. Achou Seiya interessante, era um jovem fora dos padrões normais, afinal, qual adolescente da idade dele não reconheceria uma estrela da televisão?

— Sou Kallya Kanamoro — ela se apresentou, estendendo a mão para cumprimentá-lo. — Sou a atriz protagonista desse seriado que acabou de assistir a gravação. Também sou filha do famoso diretor Soujiro Kanamoro, chefe do seu amigo de infância, Shun Amamya.

— É um prazer Kanamoro-san — Seiya segurou a mão dela e a apertou, levando a outra mão desocupada à nuca e coçando-a, em um gesto de embaraço. — Eu sinto como se devesse conhecer alguém tão importante, mas eu sou meio desligado dessas coisas de televisão.

— Não se desculpe por isso — ela pediu, desvencilhando-se do aperto de mão e sorrindo gentilmente. — É raro conhecer um jovem como você que é “desligado” dessas coisas de televisão. Mas isso não é motivo para se desculpar.

Shun, que estava terminando a tarefa de reposicionar os fios das câmeras no próximo cenário que seria utilizado para gravação, acenou para os dois ao vê-los juntos. Tanto Kallya quanto Seiya acenaram de volta. Foi então que Seiya percebeu o semblante da atriz ganhar um certo rubor.

— Sabe, Ogowara, desde que Shun está trabalhando com o meu pai, nunca ninguém veio visitá-lo antes. Quando eu perguntei onde estava a família dele ele me respondeu que não tinha e que era órfão, mas afirmou que existia um irmão mais velho, do qual ele aguarda ansiosamente por notícias. Será que por um acaso... você veio trazer notícias desse irmão?

Seiya espantou-se com aquela pergunta, pelo que havia percebido, aquela jovem bonita e desinibida conhecia muito bem o amigo, mais do que isso, ela parecia nutrir um sentimento especial por ele.

— Na verdade, eu também não sei do Ikki. Eu vim aqui por outro motivo.

— Ikki? Então é esse o nome do irmão do Shun?

— Ele nunca te disse?

A pergunta pareceu encabular a atriz e Seiya decidiu aliviá-la de dar-lhe aquela resposta.

— Eu, o Shun, o irmão dele, mais alguns amigos, fomos internos do mesmo orfanato. Éramos como uma família, de alguma forma.

— Entendo — ela respondeu pensativa. — Você parece mesmo conhecê-lo muito bem. Até conseguiu me deixar com um pouco de inveja agora.

— Você gosta dele?

Seiya fez aquela pergunta de uma forma tão natural, que a atriz demorou alguns segundos para assimilar a intensidade daquela questão. Entreabriu os lábios, espantada com a ousadia daquele rapaz que acabara de conhecer. Não conseguiu controlar o rubor que coloriu sua face por inteira.

— Que tipo de pergunta é essa? — ela o questionou em um tom claro de advertência. — O Shun e eu somos bem próximos sim, afinal ele mora no mesmo apartamento que eu. Por isso, me preocupo com ele. Mas é apenas isso.

Seiya sorriu de lado. O que deixou a jovem ainda mais irritada.

— Está duvidando?

— Eu não abri a boca.

— Nem precisa. Seu sorriso debochado já diz tudo.

— Vejo que vocês estão se dando bem — Shun, que havia terminado seus afazeres, comentou ao se aproximar dos amigos.

— Sim, acabamos de nos conhecer — foi Seiya quem respondeu. — A senhorita Kanamoro é muito bonita, gentil e parece que ela gosta bastante de...

— Urusai, baka[1]! — Kallya pediu, desesperada, sobrepondo a boca de Seiya com uma das mãos. — Parece que você é bem falador, né, Seiya?

Shun sorriu e admirou-se.

— Vejo que vocês acabaram de se conhecer e já parecem amigos íntimos. Fico feliz.

A observação de Shun fez a jovem atriz ficar ainda mais constrangida ao perceber que seu surto momentâneo a fez chamar o rapaz que havia acabado de conhecer pelo primeiro nome. Desolada, ela destampou a boca dele. Não queria que Shun tivesse uma má impressão da cena, apesar de sentir que era tarde.

— Eu terminei o meu trabalho aqui, Seiya. Vou ver com o Soujiro-san se posso tirar o restante do dia de folga, aí almoçamos juntos, o que acha?

— Boa ideia — o moreno concordou, sentindo o estômago protestando a falta de comida.  

— Aguarda só mais um minuto, eu já volto — Shun pediu e foi ao encontro do diretor que dava coordenadas para o técnico responsável pela iluminação do estúdio.

— Ogowara — a atriz chamou por Seiya assim que notou Shun do outro lado do salão. — Você pensava em dizer para o Shun que eu gosto dele?

— Você gosta?

— Não se faça de desentendido!

— Kanamoro-san, primeiro: pode continuar me chamando pelo meu primeiro nome, não precisa ser formal comigo — Seiya pediu, sorridente. — Segundo: eu não ia dizer ao Shun nada disso. Você que se antecipou e entendeu errado. Eu só iria dizer que parecia que você gostava muito de interpretar, pois reparei o quanto a cena que eu assisti ficou autêntica.

Mais uma vez, a atriz entreabriu os lábios, compreendendo que havia sido ela quem tinha metido os pés pelas mãos.

— Mesmo? Eu fiz papel de idiota na frente do Shun por nada?

Seiya até pensou em responder aquela pergunta, mas a aproximação repentina do diretor o fez manter-se em seu lugar.

— Olá — O diretor o cumprimentou. — Então você que é o amigo de Shun?

— Sim, Seiya Ogowara, é um prazer conhecê-lo, senhor — o moreno se apresentou formalmente, juntando as mãos ao longo ao corpo e curvando o tronco para frente.

O homem correspondeu à reverência da mesma forma.

— Sou Soujiro Kanamoro. Fico feliz em conhecer um amigo de infância de Shun. Eu e a Kally-chan já o temos como um ente da família. Tenho certeza que um dia ele será tão bom ator quanto a minha filha — o homem informou orgulhoso, direcionando seu sorriso para a jovem ao lado dele.

— Tem uma filha muito talentosa. E eu sempre acreditei que o Shun seria um bom ator, porque pinta de galã ele já tem, não é?

O diretor e a filha riram, mas não deixaram de concordar. Shun, que se aproximava novamente do amigo, ao ouvir aquele comentário que ele já havia lhe dito algumas vezes, acabou ficando envergonhado.

— Não diga essas coisas embaraçosas para o Soujiro-san e a Kally-chan, Seiya.

— Eu só disse a verdade!

Os três riram novamente, e Shun decidiu ele mesmo mudar o rumo daquele assunto constrangedor, voltando-se para a atriz e perguntando:  

— Você vem almoçar com a gente, Kally-chan?

— Não, Shun. Temos mais quatro tomadas para gravar ainda hoje.

— Se quiser, pode acompanhá-los até lá embaixo, minha filha. É o tempo para mudança do cenário, só não demore, estamos atrasados.

— Obrigada, outou-san! — ela agradeceu, e em seguida agarrou o punho de Seiya e depois o de Shun e os puxou para fora do estúdio antes que seu pai mudasse de ideia.

Ao entrar no elevador Kallya soltou do punho dos dois rapazes e ficou em silêncio enquanto desciam, apenas ouvindo-os sugerir aonde iriam almoçar. Assim que pararam e as portas se abriram ela os informou:

— Vou subir de volta — disse, detida na porta do elevador. — Bom almoço pra vocês.

— Você não vem mesmo, Kally-chan?

— Você ouviu o papai, não é, Shun? “Não demore, estamos atrasados” — ela resmungou, imitando a voz do pai, fazendo os dois rapazes sorrirem.

— Tudo bem, nos vemos mais tarde.

— Foi um prazer conhecê-la.

Os dois acenaram e Kallya voltou para dentro do elevador. Sentia aquela correspondência pesando no bolso da calça jeans. Queria muito saber do que se tratava antes de entregá-la ao seu destinatário, por isso ainda estava com ela. Mas imaginou que a visita de Seiya tivesse ligação com aquela carta e antes que as portas do elevador se fechassem ela passou entre elas, fazendo-as ativar o sensor e recuar, então correu atrás dos dois rapazes que se afastavam conversando.

— Espere, Shun! Eu esqueci de te entregar uma coisa. — Eles pararam antes das portas automáticas do salão se abrirem e a jovem esbaforida os alcançou, parando diante deles e buscando respirar fundo. Depois disso, ela retirou um envelope amassado do bolso da calça jeans e o estendeu na direção do protegido do pai. — Chegou hoje de manhã, é para você.

Shun apanhou o envelope e leu o remetente com desconfiança, além de decepcionado, ao perceber que não eram notícias do irmão, parecia apenas um tipo de telegrama comercial.

— Bem, eu estava um pouco curiosa — ela confessou, coçando a bochecha. — Mas como não consegui ler nada mesmo colocando contra luz, e violar correspondência é crime, então, está aí, intacto.

— Você queria ler meu telegrama? — Shun arqueou uma das sobrancelhas para amiga.

— Pois é. Tenho um pressentimento ruim sobre isso.

— Pressentimento ruim?

— Você nunca recebe correspondências e nem visitas — ela disse, apontando Seiya com um aceno de cabeça. — E, agora, de repente, chegam as duas coisas ao mesmo tempo. Algo me diz que estão interligadas, não é, Seiya?

Seiya concordou com um aceno de cabeça.

— Eu recebi o mesmo telegrama. Foi por isso que resolvi visitá-lo.

— Desculpe-me a minha intromissão, Shun — Kallya pediu, curvando o corpo para frente. — Não foi certo ficar com sua correspondência até agora.

Shun balançou a cabeça negativamente.

— Não tem problema, Kally-chan.

Ela sorriu constrangida e ergueu os ombros, suspirando fundo, como se não tivesse mais o que fazer.

— Depois a gente conversa então. Bom almoço para vocês. Vou voltar. Até mais, Seiya.

— Gostei dela. É uma garota simpática.

— A Kally-chan é alguém muito especial, ela tem sido uma verdadeira irmã desde que Sr. Soujiro me ofereceu o emprego e ainda me cedeu um lugar para morar. Mas me assustei um pouco quando ela disse que queria violar a minha correspondência.

Seiya sorriu.

— É que ela gosta muito de você, Shun. Está com medo de perdê-lo.

— Eu também gosto muito dela. Mas como assim me perder?

— As mulheres têm essa coisa de sexto sentido natural, elas sentem quando algo vai acontecer ou estão prestes a perder alguém que ama — ele concluiu, indo em direção à saída do lugar e atravessando as portas de vidros que se abriram automaticamente. — Onde fica esse restaurante afinal? Vamos, Shun. Estou com fome.

— Lado esquerdo — Shun respondeu, acompanhado os passos apressados do amigo. — Seiya do que você esta falando? Como assim “alguém que ama”?

— Eu não consigo acreditar que você continua tão bobinho, Shun. Mas é melhor a gente conversar enquanto enchemos a barriga. Já disse: estou com uma baita fome! Para que lado é mesmo o restaurante? Ah! Na outra quadra, lado esquerdo — Seiya mesmo se respondeu, não dando mais atenção para as perguntas do amigo, o único a quem queria ouvir naquele momento era seu estômago que não parava de reclamar. — Você vai pagar a conta, né? Sinto informar que além de desempregado, estou completamente duro.

— Desempregado? Mas o que houve com seu emprego no cais? Seiya, me espera!

...

Durante o almoço Seiya e Shun conversaram como há muito não faziam. Não falaram somente de suas perspectivas futuras, mas dos seus sonhos e de um sonho que ambos tinham em comum: uma família. Seiya também explicara ao amigo sobre o fechamento do Lar Starlight, do telegrama e da conversa que tivera com a Doutora Erika Kanagawa.

— Ainda não consigo acreditar que o orfanato que foi nosso lar na infância foi fechado, Seiya.

— Se você, que quase não mantinha contato está chocado, imagina como foi minha reação.

— E o que houve com a senhorita Miho?

— Mudou-se para o exterior com os pais adotivos.

— Isso significa que você está sozinho?

— É.

— Está deprimido?

— Não diria isso — Seiya acomodou melhor as costas na cadeira do restaurante. — Mas estou em uma má fase, isso eu concordo. Sem emprego, sem a Miho, sem as crianças do orfanato e agora estou quase sem casa — concluiu ele, soltando um suspiro profundo. — Ter um lugar próprio para chamar de lar seria como um sonho se tornando realidade, não acha?

— Sim, eu concordo — Shun assentiu, o olhar se tornando ainda mais sonhador enquanto movia a colherinha em círculos no café que fora servido após a refeição. — Mas perante a lei alguns de nós ainda somos “crianças”, Seiya. E para formarmos uma família perante as regras da sociedade precisaríamos, primeiro que tudo, ter um adulto como tutor.

— Engraçado isso. Não éramos “crianças” quando fomos encaminhados para nos tornarmos cavaleiros, ou quando quase morremos lutando para salvar o mundo, agora precisamos ter um adulto responsável por nós se quisermos viver como pessoas comuns — Seiya completou com um esturro.

— Mas a sociedade sequer tem ciência da guerra pela qual passamos. 

— Eu sei. Mas será que você poderia me deixar colocar a culpa em alguém?

Shun sorriu, deixou a colherinha do café repousada no canto do pires e calmamente levou o líquido a boca, após soprar sobre ele, apenas certificando que não queimaria os lábios. Então sorveu um pouco da bebida, voltando a repousar a xícara sobre pires. Mas ao erguer os olhos de volta para o amigo, percebeu que ele o encarava com estranheza.

— Que foi?

— Como consegue beber esse negócio tão amargo?

— Não é ruim quando se acostuma com o sabor — o mais novo respondeu simplesmente, mantendo seu sorriso no rosto, enquanto se divertia ao ver Seiya contorcendo o rosto em uma careta.

— Eca.

— Mas, voltando ao assunto, Seiya — Shun chamou o amigo de volta ao foco da conversa. — Agora que herdamos a antiga sede do orfanato, o que faremos com aquela residência tão grande e velha?

— Por enquanto, nada. Não podemos tomar nenhuma decisão ainda. De acordo com a senhorita Kanagawa é necessário aguardarmos a resposta dos outros.

— Mas para os outros talvez nem compense se deslocarem até o Japão por causa disso.

— Foi exatamente o que eu pensei. Shiryu herdou o templo do Vale dos Cinco Picos. Hyoga vive em um vilarejo de difícil acesso na Sibéria e quanto ao seu irmão...

Shun abaixou os olhos para a mesa assim que o nome do irmão foi mencionado e passou a encarar o café em sua xícara, quase sendo capaz de visualizar seu reflexo abatido envolto por aquele negrume. Ouvir a palavra “irmão” naqueles últimos meses havia se tornado um tabu. Há algum tempo não recebia notícias de Ikki e a distância dele causava-lhe uma angustia desmedida. Simplesmente por não conseguir se livrar daquela grande esperança que sustentara. Esperança que surgira depois de retornarem vivos de Elíseos e que o fizera acreditar que os dois iriam viver juntos como uma família no fim. Entretanto, não foi bem o que ocorreu, esperou, um dia após o outro, que Ikki viesse encontrá-lo ali no Japão. Esperou, esperou, e até o momento continuava esperando.  

— A- acho que... não poderemos contar com a presença de Ikki — conseguiu falar após algum tempo, sentindo o peso de cada palavra daquela frase.

Não precisou que Shun dissesse mais nada para que Seiya percebesse que a ausência do irmão mais velho na vida dele ainda causava-lhe dor. Não que aquilo o surpreendesse, desde a época de orfanato percebera que Ikki era do tipo de cara antissocial, o qual tinha verdadeira aversão de conviver com outras pessoas. Mas não gostava de relembrar desse fato, pois o fazia sentir raiva de Shun por deixar-se iludir de propósito. Ele, mais do que qualquer um, conhecia bem o irmão que tinha e não deveria ter confiado naquela promessa de que Ikki voltaria em breve para o Japão para que vivessem juntos. Mas decidiu que não iria estragar o reencontro deles revivendo aquele assunto.

— Então, era como eu pensava, no fim das contas, só nós dois responderemos ao chamado desse telegrama. Os outros provavelmente enviarão uma mensagem-resposta dizendo que não possuem interesse. 

— Sabe, Seiya, eu também não estou em uma má situação — Shun ergueu os olhos e voltou a encarar o amigo. — O senhor Soujiro e a Kally-chan cuidam bem de mim. Estou bem alojado na casa deles. Eu poderia abrir mão da minha parte nessa herança e se os demais abrirem também, você, que está quase sendo despejado do seu quarto alugado, terá um lugar para morar.

— Seria perfeito se fosse simples assim. Mas quando você for falar com a doutora Kanagawa irá perceber que a coisa é bem mais complexa do que parece. Ela frisou que quer nos reunir para que as decisões sejam tomadas em conjunto — Seiya explicou, soltando um suspiro saudoso ao final. — Na verdade, eu gostei muito dessa ideia. Sinto saudades de todos e gostaria de ver nosso grupo reunido mais uma vez. Você não sente o mesmo, Shun?

Os olhos de Shun se moveram rápido do rosto de Seiya para a vitrine ao lado deles, faziam alguns minutos que estava evitando deixar vir à tona seu lado sentimental, queria mostrar-se forte, mais controlado, mas era tão difícil. Por isso tentou esconder o ardor e as lágrimas que margeavam seus olhos e ameaçavam cair. Entreteve-se por um instante na rua e nos vários tipos de pessoas que passavam pela região. Mães segurando as mãozinhas dos seus filhos, vários casais, grupos de adolescentes usando uniforme escolar, senhores usando terno e falando ao celular ao mesmo tempo. Suspirou profundamente e voltou-se para o amigo, não conseguindo mais segurar aquilo que o consumia.

— Sim, Seiya — respondeu, as lágrimas enfim escorrendo por seu rosto. — E você não tem ideia do quanto sinto falta de vocês. Apesar de estar rodeado por pessoas o tempo todo no trabalho, eu me sinto sozinho. Eu odiava as batalhas, as lutas, a guerra, o derramamento de sangue. Mas não posso enganar a mim mesmo dizendo que aqueles dias foram infelizes, pois não foram. Eu era feliz ao lado das pessoas que eu amava. Eu tinha uma família. Lutávamos juntos com o propósito de defendermos uns aos outros também. Vencíamos sempre, porque no fim estávamos juntos. Mas agora, mesmo não havendo guerra, sinto-me derrotado, porque estamos separados.

Ao ouvir aquelas palavras e ver o rosto do amigo banhado em lágrimas, Seiya sentiu o peito apertar, afastou a cadeira rapidamente e debruçou-se em direção ao chão.

— O que foi?

— Os meus cadarços estão desamarrados.

— Ah, sim.

Shun aproveitou para passar as costas das mãos no rosto e tentar se recompor, pedindo desculpas. Mas ao invés de respondê-lo, viu Seiya levantar-se rapidamente e sair da mesa, justificando:

— Peça a conta, vou ao banheiro.

— C- certo.

A garçonete lançou um olhar de preocupação ao ver o cliente passar apressado para o banheiro, o rosto em lágrimas. Mas ateve-se realmente na mão levantada do outro rapaz que o acompanhava e aproximou-se dele, não deixando de notar que seu rosto bonito também estava úmido, levemente ruborizado e os olhos marejados. O que estava acontecendo ali, afinal? Pegou-se curiosa.

— A conta, por favor?

— Sim, senhor. Deseja mais alguma coisa?

Shun negou com um balançar de cabeça.

— Obrigado — disse, e tentou sorrir. — Pode levar a xícara também, o café esfriou.

— Sim. Já volto com a conta, com sua licença.

O cliente assentiu e a moça se retirou levando a xícara, sentindo seu coração acelerando estranhamente no peito. O cliente era um jovem muito bonito, do tipo que parecia artista de televisão. Mas aquele estranho nervosismos certamente não era pela beleza dele, era mais do que acostumada a ver rapazes bonitos naquele região onde havia emissora de televisão e várias agências de modelo. O problema era o fato de ambos estearem chorando e sua mente romântica, que adorava dramas BL[2], não conseguir deixar de assimilar que o motivo era pelos dois estarem rompendo um relacionamento.

— Que foi, Michiko? — A atendente do Caixa perguntou desconfiada ao ver a amiga com o rosto levemente ruborizado e o “modo sonhadora” completamente ativado.

— A conta da mesa 06, por favor — ela suspirou.

— Ei, não foi essa minha pergunta!

Fechado dentro do banheiro, Seiya se permitiu chorar. Andava tão cheio de dores que aquela conversa foi o estopim que faltava para ele explodir. Shun, mais do que qualquer um, conseguiu transmitir com clareza o que era aquele sentimento de ausência que vinha sentindo. Seus soluços se tornaram altos, não conseguia controlar a dor, o choro. Sempre foi fácil para ele ser um guerreiro e lidar com a dor física, mas aquele tipo de dor, era insuportável.

Alguém no banheiro escutou, comentou ao passar pelo Caixa que tinha alguém chorando lá dentro. Shun que pagava a conta ouviu e resolveu averiguar. Assim que adentrou o local ouviu aquele choro sentido. Bateu na única porta fechada e a resposta chorosa do amigo o fez sorrir.

— Está o- ocupado.

— Seiya, sou eu. Desculpe-me se disse algo de errado.

— Você não tem culpa. Eu achei que fosse forte. Achei mesmo que suportaria muitas coisas, mas, mas eu não sou. Eu não aguento mais assistir de braços cruzados as pessoas que eu amo partirem. Primeiro foi a Seika, depois meus amigos, depois a Saori, agora a Miho... Eu estava mesmo feliz convivendo com a Miho e as crianças do orfanato, mas até eles se foram. Tudo que eu amo se vai. Eu só queria ter uma família, mas aqueles com quem eu poderia formá-la se vão. Isso dói, Shun. Dói tanto.

Aquele desabafo surpreendeu Shun. Ele sempre fora considerado o mais sentimental do grupo, algo que irritava os amigos. Agora compreendia o que os amigos sentiam, era difícil ouvir os lamentos de alguém especial e sentir-se tão impotente perante toda aquela dor.

A única coisa que conseguiu fazer por Seiya foi esperar que ele se aliviasse, se recompusesse e então saíram juntos do banheiro. Agradeceram a garçonete que os atenderam e ela os acompanhou até a saída, fazendo um comentário estranho ao se despedir, o qual eles não se ativeram muito ao significado: “Espero que fiquem bem e se reconciliem. Voltem sempre.”

Caminharam de volta ao prédio da emissora e Seiya não quis entrar ao chegarem, resolveu se despedir ali mesmo.

— Obrigado pelo almoço, Shun.

Shun moveu a cabeça de um lado para o outro em negação e sorriu gentilmente. 

— Não foi nada.

— Então a gente se vê.

— Hein, Seiya?

— O que?

— Será que o Hyoga e o Shiryu não se sentem da mesma forma que a gente?

— Quem sabe — Seiya deu de ombros.

— Talvez eles possam aceitar.

— Aceitar?

— Sermos uma família.

Seiya arregalou os olhos.

— De onde veio essa ideia?

— Apenas me ocorreu que se nos reunirmos, poderíamos fazer à eles essa proposta, o que acha?

A boca de Seiya se entreabriu para argumentar uma contra-resposta, mas ela se perdeu no meio do caminho. Na verdade, sentiu-se irritado por deixar que Shun o contaminasse com suas ilusões, se apegar naquela possibilidade era acreditar que os amigos iriam responder ao chamado, se caso eles não viessem iriam se machucar ainda mais. No entanto, para quem já estava sozinho e machucado como ele, talvez não fosse uma má ideia.

— É, acho que não custa sonhar.

Continua...

Revisão: Giovana_Kitsune

 

[1] Urusai: Cale-se, fique quieto, silêncio! Baka: idiota;

[2] BL: Boy’s Love, gênero romântico de mangá, livros, games, séries e outros, e que aborda a relação amorosa entre dois homens.


Notas Finais


Depois de muito tempo, resolvi reviver esse meu primeiro projeto o qual tenho um carinho imenso e estava parado a bastante tempo. Desculpem a demora gigantesca pela atualização. Mas vou tentar de agora em diante manter um ritmo bom nas postagens. Vou tentar, não sei se vou conseguir, mas quero, ao menos, lançar dois capítulos por mês, ou seja, de 15 em 15 dias.
Apesar do nome do capítulo ser “Reencontros - Parte 1”, o que nos remete que o próximo será a parte 2, já vou alertando-os que não. A segunda parte de “Reencontros” virá mais para frente, nos próximos capítulos vocês farão uma viagem junto comigo até as Terras geladas da Sibéria, para saber como anda nosso lindo loiro de olhos azuis.
Espero que continuem acompanhando!
Beijos! Até o próximo! o/


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