História Os Garotos - Capítulo 4


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Categorias Saint Seiya
Personagens Hyoga de Cisne, Ikki de Fênix, Saori Kido (Athena), Seiya de Pégaso, Shiryu de Dragão (Shiryu de Libra), Shun de Andrômeda
Tags Romance, Saint Seiya, Vida Escolar
Visualizações 228
Palavras 5.343
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 4 - Capítulo 04 - Saindo de uma fria - Parte I


Os Garotos

Por Andréia Kennen

Capítulo IV

Saindo De Uma Fria - Parte I

Enquanto isso, em Kohoutek, um vilarejo situado ao norte da Sibéria, o rapaz loiro corria desenfreadamente em meio as dunas geladas. Corria como se estivesse fugindo de um perigo iminente, como se sua vida dependesse daquela fuga.

Atrás dele, vinha sua implacável perseguidora, a qual se encontrava quase em seu encalço.

— Espere, Hyoga! Não seja tão covarde, eu não tenho o mesmo fôlego que você para acompanhá-lo!

— Mentira! Você está quase me alcançando. Até parece que também foi treinada pelo mestre Cristal.

— Hyogaaa!

— Deixe-me em paz, Anna! Eu já dei minha resposta.

Hyoga estava visitando o túmulo da mãe quando percebeu a aproximação da mulher que na opinião do ex-combatente, certamente, daria uma boa espiã para o Santuário, já que Anna sabia muito bem como perseguir uma pessoa, além de ser persistente. Tentou despistá-la, mas a mulher continuava firme em sua perseguição.

Há alguns dias vinha evitando a sua tutora, pois ela continuava exigindo dele uma resposta sobre a proposta que recebera do ancião da vila mesmo que já tivesse dado essa resposta. Mas Anna não concordava e continuava insistindo para que mudasse de ideia.

Adentraram o vilarejo e, mesmo com dificuldade, quase sem fôlego e ter caído e levantado algumas vezes, Anna continuava atrás dele. Decidiu despistá-la pelo alto e enquanto ela se recobrava da terceira queda, Hyoga adentrou uma pequena viela entre algumas residências e utilizando as paredes da construção como apoio, tomou impulso e subiu para o telhado. Lá de cima, ficou observando a tutora passar pelo local por onde havia se esgueirado, procurando-o por todos os lados, mas, para seu alívio, ela não pensou em olhar para cima.

Suspirou aliviado e se ergueu, olhando mais adiante a fumaça vinda da chaminé de uma residência conhecida.

— Achei um bom lugar para me esconder — assentiu para si mesmo e saiu pulando de telhado em telhado.

...

O garoto que estava jantando levou um grande susto e acabou derrubando sua colher de sopa quando viu aqueles cabelos loiros e a metade de um rosto em posição invertida aparecer no vidro embaçado da sua janela.

— Ah!! — deu aquele grito e saiu da mesa irritado, após recobrar-se do susto. Caminhou até a janela e a abriu, crispando as sobrancelhas ao encarar sua visita. — O que pensa que está fazendo, Hyoga? Quer me matar de susto?

— Preciso de um lugar para me esconder, Jacob. Posso entrar?

— Já deveria ter entrado, de preferência pela porta. Rápido. O ar frio está entrando.

Hyoga, que estava de ponta cabeça, fez um movimento malabar: soltou as pernas do apoio no telhado e jogou o corpo para dentro da casa, virando em uma cambalhota e caindo agachado no chão. Se pôs de pé e, depois que seu pequeno amigo fechou a janela, ele o segurou pelos ombros e pediu desesperado.

— Preciso que me esconda, Jacob!

— Acalme-se, Hyoga. Aonde você quer que eu o esconda? — o garoto quis saber, arqueando uma das sobrancelhas para ele. — E o que está havendo afinal? De quem quer se esconder? — perguntou, sentindo-se confuso. — Por acaso surgiram novos inimigos?

— Não é bem isso. Eu gostaria de explicar melhor, mas...

Batidas na porta fizeram Hyoga deter a explicação e se paralisar.

— Jacob, abra! O Hyoga está aí, não está?

— É a voz da Anna?

— Ela já me encontrou, droga! Rápido, Jacob. Eu preciso me esconder! — pediu Hyoga com a voz sussurrada e os olhos arregalados.

O garoto desistiu de entender e apenas apontou o armário onde guardava seus utensílios de limpeza.

— Entre ali. 

— Obrigado. Te devo minha vida! — disse e se fechou dentro do armário.

O garoto balançou a cabeça em negação e foi atender a porta.

— Por que está tentando derrubar a minha porta, Anna?

— Eu sei que ele está aqui, Jacob! — Anna sequer cumprimentou o garoto e foi passando por ele na porta, vasculhando a pequena sala onde estavam, o quarto, a cozinha e até atrás dos móveis.

— Quem deveria estar aqui? — quis saber o garoto, tentando disfarçar, antes que ela percebesse que não tinha averiguado seu armário de vassouras.

— Não se faça de desentendido! — a mulher ruiva e de grandes olhos azuis esbravejou. — É claro que estou falando do Hyoga! Quem mais seria, Jacob? Eu estava atrás dele agora pouco e ele simplesmente desapareceu do nada. Ninguém desaparece do nada. Ele está escondido em algum lugar e esse lugar só deve ser aqui — insistiu ela.

Hyoga se encolheu o máximo que pode dentro do armário, sentando-se ao fundo e abraçando as pernas.

— Anna, o Hyoga é um cavaleiro. Ele pode correr tão rápido que seus olhos, nem os meus, seriam capazes de acompanhá-lo. Sinto informá-la, mas ele pode desaparecer do nada sim! E deve estar a quilômetros de distância de nós nesse exato instante — o garoto a informou, fazendo o rosto da mulher se contorcer e ganhar um tom vermelho brasa.

Deu um passo para trás ao percebê-la se aproximar soltando estranhas baforadas pelo nariz, agora entendia o porquê Hyoga estava tão desesperado em se esconder, uma mulher irritada parecia um ser monstruoso, sentiu vontade de correr e se esconder também.

— Não tente defender seu amiguinho, Jacob! — a mulher gritou, segurando-o pelos ombros e encarando-o com um olhar ameaçador. — Ou será pior para você.

— Você está louca, Anna, me solta! Não tem ninguém aqui. Você já não confirmou com seus próprios olhos, não foi?

“Aguente firme, Jacob”, pedia Hyoga, sentindo o suor, que era algo raro para quem vivia em um vilarejo cujo a temperatura padrão era de dez graus abaixo de zero, brotando em sua testa.

— Não minta para mim! — gritou ela novamente.

— Pare você de gritar comigo, Anna. Eu já disse, já disse, não vi ninguém.

A mulher de repente se deu conta que estava mesmo agindo de maneira demente e soltou dos ombros do garoto, voltando a ficar ereta. Ajeitou o xale entorno do pescoço, arrumou os fios de cabelos ruivos por detrás da orelha, e passou as mãos na roupa, retirando os resquícios de gelo e pedras que haviam grudado no tecido devido as quedas.   

— Desculpe-me. Acho que perdi o controle.

— Acha? — o garoto arqueou uma das sobrancelhas. — Você me deu medo, Anna.

— Não exagere. Vou continuar procurando pelo Hyoga lá fora. Boa noite — ela desejou ao garoto e saiu da casa tão desconfiada de quando entrara.

Ao ouvir o barulho da porta da casa se fechando, Hyoga saiu de dentro do armário de vassouras suspirando aliviado.

— Obrigado, Jacob. Você salvou a minha vida.

O garoto apenas assentiu com um sorriso e voltou a se sentar à mesa, após apanhar a colher que tinha ido ao chão no momento do susto e limpá-la na barra do forro da mesa.

— Quer jantar?

— Estou sem fome.   

— O que a Anna queria com você para fazê-lo fugir desse jeito, Hyoga? — perguntou o menino, enchendo a colher com o caldo esverdeado o qual levou a boca, mas fez uma careta ao constatar que sua janta havia esfriado. — Argh! Esfriou — observou, mas continuou comendo assim mesmo.

Hyoga puxou uma cadeira e sentou-se à mesa com o amigo, disposto a contar-lhe tudo o que estava acontecendo. Mas foi abrir a boca para iniciar a explicação e um baque da porta se abrindo abruptamente o fez se paralisar da mesma forma que fez Jacob sobressaltar, bater a mão na beirada do prato de sopa e fazê-lo voar da mesa e cair virado no chão.

— Eu sabia que você estava aqui, Hyoga! — Anna o apontou, vitoriosa.

Jacob cruzou os braços sobre a mesa, escondeu o rosto neles e reclamou.

— Eu nem estava com fome mesmo, droga!

— Eu sabia que você tinha se escondido aqui. Eu sabia! Como pode ser tão covarde e se esconder de mim dessa maneira, Hyoga? E ainda persuadir um inocente a mentir para você?

— Chega de drama, Anna — o homem loiro bateu na mesa. — Eu já dei minha resposta, não dei? Por que continua insistindo?

— Porque eu não posso aceitar sua negativa! Qualquer homem desta vila se sentiria honrado com um convite deste porte. E você, que permanece tão pouco tempo no vilarejo, recebe uma lisonja como essa e ousa a esnobá-la?

— Eu não estou esnobando. Só acho que não mereço. Como você mesmo acabou de dizer, qualquer outro da vila se sentiria lisonjeado em receber essa proposta, então porque eu? Eu estive mais fora da vila do que presente durante esses anos todos, eu não mereço essa incumbência.

— A decisão foi tomada pelo ancião, Hyoga. Você não pode fazer essa recusa.

— Será que podem me dizer sobre o que estão falando? — perguntou Jacob, interrompendo-os. Após acompanhar o rebate de argumentos de um para o outro.

— Não se intrometa, Jacob — respondeu a mulher mal-humorada, fazendo o menino sobressaltar e aumentar sua feição de emburrado. Então ela se voltou para o rapaz loiro, retirando de dentro do bolso interno do casaco uma correspondência. — Sou sua tutora nessa vila, Hyoga — ela o lembrou. — O mestre Cristal me deixou responsável por você. E como sua responsável, eu sei o que é melhor para o seu futuro. Aqui está o convite — ela colocou o envelope na mesa.  — O jantar é amanhã, espero que repense sua resposta. Caso continue pensando em não mudar de ideia, nossas relações também serão cortadas.

Depois disso, a tutora virou-se em direção da porta, mas antes de sair, ainda de uma última advertência.

— Só mais uma coisa, Hyoga. Se não quer aceitar o convite por mim, faça por Natássia. Sua mãe amava nossa vila e era muito estimada pelo ancião. Imagina como ela se sentiria ao saber que seu único filho desfez de um convite vindo dele?

Anna saiu fechando a porta e Hyoga despejou sua frustração em um golpe sobre a mesa.

— Droga!

— Nunca vi a Anna tão determinada — o menino observou, saindo da mesa para limpar a sujeira feita no chão com a queda do prato. — Do que se trata esse convite afinal, Hyoga? Pelo jeito, não é um mero convite para jantar.

Hyoga suspirou fundo, saiu da mesa de jantar e sentou-se na poltrona diante da lareira, observando o fogo que crepitava. 

— Se fosse somente um simples jantar eu já teria aceito, Jacob. O problema é que esse será o jantar para oficializar o meu noivado — anunciou em um tom verdadeiro de preocupação.

O pequeno amigo de Hyoga parou de passar pano sobre a sopa congelada no chão para encarar o mais velho com seus grandes olhos verdes arregalados.

— Você vai se casar e nem me avisou?

— Jacob!

— O que foi?

— Esse é o problema. É um casamento arranjando. Eu não quero me casar. Pelo menos, não, nessas circunstâncias... — ele franziu as sobrancelhas, fitando as chamas.

— Desculpe-me, amigo. Mas ainda não entendi — o menino foi sincero, levantando-se com o prato e o pano de limpeza na mão, levando tudo para a pia. — Como assim um casamento arranjando do nada? Com que pretensão?   

— Eu também fui pego de surpresa — Hyoga informou com um novo suspirar desolado. — Ontem eu recebi uma carta do Japão dizendo que eu precisava resolver algo que havia ficado pendente na minha documentação na época que fui residente do Lar Starlight. Então avisei para Anna que iria viajar para o Japão e na mesma hora ela disse que eu não podia viajar. Eu só quis saber o porquê e ela veio com essa história que eu precisava participar do jantar que o ancião daria em sua casa para anunciar seu novo sucessor. Eu disse que isso não era do meu interesse e foi aí que ela ficou nervosa. A Anna sabia que eu recusaria a proposta do senhor Kaiovisk para ser o seu sucessor.

— Sucessor do ancião? Você, Hyoga?

— Sim, Jacob. Eu. Por isso a Anna decidiu não me contar nada, acreditando que se eu fosse pego de surpresa no jantar eu não teria coragem de recusar.

Jacob riu da astúcia da tutora do amigo e aproximou-se dele, acomodando-se na poltrona perto da lareira também.

— Agora fiquei curioso, o que aconteceu depois?

— Continuei fazendo as malas. Então ela decidiu ser direta. Falou sobre a proposta, informou que o ancião estava seguro de que eu aceitaria e que até havia oferecido a mão de uma de suas netas em casamento para mim.   

 — Uau. Isso é maravilhoso, Hyoga! — exclamou Jacob com os olhos brilhando devido a luz amarelada das chamas da lareira. — Você será o novo governante da vila.  

— Maravilhoso? — Hyoga rechaçou, incrédulo. — Será que você não entende a gravidade do problema, Jacob? — perguntou o loiro, sentindo-se ofendido com a animação do amigo. — Você acha mesmo maravilhoso as pessoas quererem decidir a minha vida no meu lugar? Perdi minha mãe quando era uma criança, não sei quem é meu pai, vivi minha infância em um orfanato no Japão, voltei para minha Terra Natal, quase morri em um doloroso treinamento para me tornar um cavaleiro, perdi meu mestre, descobri que tinha como obrigação lutar ao lado de Athena contra o mal que queria dominar o mundo e agora.... Agora que tudo acabou e eu posso finalmente seguir o caminho que eu bem entender vem a Anna, o governante, ou seja lá mais quem estiver por trás disso, e se acham no direito de decidir meu futuro por mim? Acha mesmo que isso é justo?

Jacob piscou os olhos que haviam se arregalado a medida do discurso inconformado de Hyoga e sorriu gentilmente com a conclusão dele.

— Acalme-se, meu amigo. Não é que eu esteja do lado das pessoas que querem tirar seu livre arbítrio e decidirem seu futuro no seu lugar, muito menos do lado da Anna, que quer obrigá-lo a tomar uma decisão fazendo chantagem emocional. Mas é que... — o garoto mostrou a língua, coçou a nuca e sorriu com as bochechas coradas. — Eu me deixei empolgar ao imaginá-lo como o novo governante e ao lado de uma das lindas netas do senhor Kaiovisk.  

Hyoga desfez a feição de indignação e arregalou os olhos, ainda mais incrédulo no amigo.

— Você anda bem assanhado para sua idade, hein, senhor Jacob?

O garoto riu, ficando com as bochechas ainda mais vermelhas.

— Ah, Hyoga!

— Mas... — O loiro sentiu o coração acelerar suas batidas de repente. Voltou seus olhos claros para janela embaçada e sentiu aquele desejo crescendo novamente dentro de si: o de abrir as asas e voar. Voar de volta para o lugar que havia se tornando mais o seu lar do que sua própria Vila. — Eu sinto que não pertenço mais a esse mundo, Jacob. Seria injusto com outros pretendentes que certamente se dedicaram mais à Vila do que eu, você não acha? — perguntou, tirando os olhos da janela e voltando a encarar os olhos atentos do menino.

Jacob assentiu e abriu um sorriso.

— Você é mesmo um cavaleiro de Athena, Hyoga. Está no seu coração ser justo. Se você já tomou sua decisão, então deveria fazer uma recusa de maneira digna: indo a esse jantar e falando diretamente ao ancião, expondo seus motivos. Ele certamente irá compreendê-lo. Afinal, o Sr. Kaiovisk é conhecido por ser um homem sábio e também justo. Mas, tente não magoar a Anna, irmão. Ela gosta de você de verdade e a forma como se preocupa é só por sentir-se responsável por seu bem, como sua mãe faria.

— Você tem razão — concordou o loiro, sorrindo mais tranquilamente. — Obrigado por seus conselhos, Jacob.

...

Não muito longe dali, na residência de umas das famílias de prestígio da Vila, seus membros pareciam discutir, abrasados, a nomeação feita pelo Sr. Kaiovisk para o seu substituto ao cargo de governante de Kohoutek.

— Eu não me conformo, meu pai. Jamais irei me conformar! — bradara um rapaz de cabelos castanhos, pele muito alva e olhos azuis acinzentados. — Eu não consigo acreditar que aquele velho esclerosado teve a coragem de escolher alguém tão... tão quadrúpede! Um homem grotesco, sem prestigio algum, sem nome e nem família!

— Compactuo da sua revolta e da sua inconformidade, meu filho. Eu lhe dei os melhores estudos, fiz de tudo para que se tornasse a escolha mais óbvia. No entanto, o Kaiovisk escolheu mesmo o maldito moleque, pupilo do Cristal.

Duas belas mulheres, vestidas elegantemente, adentraram a sala, interrompendo o calor da discussão dos dois homens. Uma delas, a que parecia ser mais velha, trazia em suas mãos uma bandeja de chá.

— Acalmem-se os dois — ela pediu com um tom paciente e ao mesmo tempo autoritário. — Não gosto de palavreados chulos na hora do chá — completou, após depositar a bandeja na mesinha central da sala e sentar-se no sofá a frente dela.

A outra menina se postou de pé ao lado da mãe. O chá era servido de maneira metódica e delicada pela mulher mais velha, tal como um ritual: primeiro a xícara era preenchida até a metade com a água quente que esfumaçava do bule de porcelana, então o sache de chá era retirado de uma cesta decorada com tecido bordado e babados de renda, e depositado na água, junto com três torrões de açúcar, só então a xícara era repassada para as mãos da filha, que, por sua vez, repassou a primeira xícara para o pai, depois para o irmão próximo a janela. Somente após ela ter a sua xícara em mãos e a mãe servir a dela, é que todos saborearam a bebida que ajudaria a abrandar um pouco os ânimos exaltados no ambiente.

— O jovem Alexei, meus queridos... — falou a mulher mais velha calmamente, após devolver a xícara ao pires, depois de sorver um pouco da bebida quente. — Não é nenhum sem nome, em primeiro lugar — ela afirmou, chamando atenção dos olhares endurecidos do marido e do filho. — Natássia era neta de Vladmir, irmão de Kaiovisk, de certa forma, ele é tio-avô do rapaz. O que faz de Alexei o único parente homem com a linhagem mais próxima de sua família. Além disso, ele é um cavaleiro, foi pupilo de Cristal e salvou o povo do nosso vilarejo quando Cristal enlouqueceu e tentou escravizar todos os moradores para construção daquela estranha pirâmide de gelo. Não podemos desprestigiar um jovem que... quer queiramos quer não, possui algumas qualidades.

— Ele é um assassino! — esbravejou o rapaz próximo a janela. — Ele matou o Cristal.  

— Ele o fez para nos salvar, Alexandre.

— Fico feliz em saber que a senhora se tornou uma fiel seguidora dele, visto que ele está a um passo de se tornar o novo governante, não é, mamãe?

— Não seja grosseiro comigo, meu filho — a mulher o advertiu, elevando mais o nariz. — Esses não foram os modos que lhe ensinamos. Você é nobre, é belo e impetuoso, qualidades que o ancião, e sua pobreza de espírito, possam menosprezar, não eu, sua mãe. Apenas acredito que reconhecer a grandeza de um inimigo é ter seu ego enaltecido também. Afinal, ainda estamos falando do governante e, do talvez, futuro governante, devemos manter o nível na discussão.

 — E o que sugere, querida? — perguntou o homem mais velho, após terminar seu chá.

— Ponderarmos seus pontos positivos de maneira digna, depois faremos o mesmo com os pontos negativos. Existem fatores que devem ser levados em consideração antes de ser batido o martelo, e, um deles, é o fato de que Alexei quase nunca está presente em nossa vila. Como um rapaz que vive pelo mundo e é tão ausente poderá ser um bom governante? Vamos nos reunir com o senhor Kaiovisk e exigir que ele leve em consideração esse fator. Porém, tudo teria sido mais simples se você, meu filho, não tivesse falhado com a missão de casar-se com uma de suas netas.

— Eu não posso ir contra as vontades daquele velho estúpido, mamãe! Ele quer primeiro que o futuro governante escolha uma das netas como noiva para só depois disso liberar as demais para se casarem. Isso é um absurdo!  

— Já pedi para que meça com cuidado suas palavras, Alexandre.

— Se o Alexandre fosse corajoso suficiente desafiaria o cavaleiro para um duelo pela mão da Ernine — sugeriu a mais novas com uma voz suave e um olhar perdido, entrando pela primeira vez na conversa.

— Você é maluca, Alexandra? — o irmão explodiu, encarando a irmã com olhar incrédulo.  — Você estava ouvindo a nossa conversa? Aquele maldito é um assassino, um maníaco sedento por sangue! Por um acaso você quer que eu morra?

— Covarde — balbuciou a menina, incandescendo a fúria do irmão.

Mas, antes que Alexandre desferisse sua fúria sobre a caçula, a mãe os interrompeu.

— Quietos os dois. Estou cansada da falta de etiqueta de ambos. Não é dessa forma selvagem que agem os nobres. Desculpem-se um com o outro agora mesmo.

O rapaz esturrou, mas abaixou a cabeça e obedeceu a mãe. A irmã fez o mesmo.

— Muito melhor assim. Vamos conversar enquanto terminamos o chá, tranquilamente, sem mais ofensas, e tenho certeza que chegaremos a uma solução para essa situação de maneira mais plausível.

— Mas, mãe...

— Sem “mas”, Alexandre. Sente-se e tome seu chá como o lorde que é.

O rapaz apertou a base do pires em suas mãos e voltou seu olhar para janela, pensando que, de certa forma, Alexandra tinha razão, deveria ponderar em desafiar Hyoga caso ele escolhesse sua Ernine.

...

Enquanto isso, na residência Kaiovisk.

— Se não desfazer essa cara, irmã, vai acabar quebrando o espelho — observou a segunda neta do senhor Kaiovisk, que estava deitada na cama folheando um livro.

Ernine, a neta mais velha, desembaraçava seus longos cabelos castanhos sentada diante do espelho da cômoda. Ela estava tão concentrada em seus próprios pensamentos que não entendeu o que a irmã mais nova lhe dissera.

— O que disse, Nina?

— Eu disse: “Espelho, espelho meu, existe alguém nesse mundo mais cara fechada do que eu”? E ele respondeu: “sim, sua irmã, Ernine”!

— Desculpe-me se as minhas feições te incomodam tanto, Nina. Mas eu não consigo conter minha preocupação — ela respondeu a irmã e repousa a escova sobre o móvel. — Eu não consigo entender o porquê do vovô fazer uma escolha como essa — ela falou mais para si mesmo do que para irmã.

Mas notou, pelo reflexo no espelho, que a irmã mais nova havia largado o livro e sentou-se com as pernas em formato borboleta sobre a cama, como se fosse finalmente dar-lhe um pouco de atenção.

— Eu tenho certeza que não era isso os que moradores estavam esperando.

— Claro que não, mana — concordou a menina, arrancando desconfiança da mais velha. Sabia que Nina não era do tipo que concordava facilmente com as coisas sem criar uma sequência de objeção. Prova disso, fora o sorriso debochado que desenhou-se na face dela em seguida. — Todos da vila certamente esperavam que Alexandre, ô Grande, fosse o escolhido.

A mais velha largou os ombros.

— Não fique zombando com as desgraças dos outros, Nina!

— Não estou zombando, sua boba. Estou sendo sincera. O Alexandre era a escolha perfeita. Porém, perfeição demais causa desconfiança. Você não achou mesmo que o vovô cairia na maquiagem que a família fez nele, não acha?

Ernine pensou por um segundo, então respondeu.  

— Mas tinha que ser o pupilo do Cristal? Ouvi dizer que ele é um homem frio e arrogante. Além disso, eu amo o Alexandre. Não quero me casar com outro que não seja ele — concluiu a mais velha, que debruçou-se sobre a penteadeira e reiniciou a sessão de choro que vinha se repetindo há dias, arrancando um revirar de olhos da mais nova.

— Não começa de novo, Ernine — pediu Nina, caminhando até a irmã e entregando-lhe um lenço o qual apanhou da gaveta do armário. — Seus olhos estão ficando horrivelmente inchados.

— Desculpe-me — pediu a outra, apanhando o lenço e secando as lágrimas.

— Eu já disse: não tem com que se preocupar, o cavaleiro não irá aceitar a proposta do vovô.

— Como pode ter tanta certeza?

— Ué. Tendo — disse, erguendo os ombros. — Um cavaleiro deve ter outras prioridades. Lutar contra seus arqui-inimigos, por exemplo. Além disso, ele faz o tipo andarilho. Ele nunca parou na Vila por um espaço muito longo de tempo.

— Isso era antes, Nina. Acho que agora a situação mudou. O Alexandre me disse que o Alexei não precisa mais prestar serviços como cavaleiro. Parece que a guerra acabou, algo do tipo, ele recebeu baixa. Ele não é mais um soldado. Esse é o momento oportuno para ele fixar moradia e, recebendo uma proposta como essa diretamente do nosso avô, só se ele for louco para recusar.

— Ainda tenho minhas dúvidas — a caçula continuava não concordando.

— De qualquer forma, é uma proposta vinda do nosso avô, mesmo que o Alexei esteja pensando em recusar, qualquer outra pessoa na Vila poderá aconselhá-lo do contrário e convencê-lo de que é melhor para ele que aceite.

— Hm. Disso eu não posso discordar, Nine. Aquela mulher, a tal da Anna, tutora dele se não me engano, pareceu bastante empolgada quando veio conversar com o vovô.

— Eu não disse? É o maior emprego que se pode conseguir na nossa Vila, ele será respeitado, terá status e poder, certamente ele será convencido pela Anna.  

— Mana, já pensou no que eu te disse antes? Está nas suas mãos e nas do Alexandre a solução. Manifestem-se contrários à essa decisão. Assumam o que sentem para o vovô. Ele não poderá contrariar o desejo de dois corações que se amam.

Ernine esboçou um sorriso triste.

— Tem momentos que você parece tão madura, Nina. Mas a verdade é que ainda é uma criança e não sabe como certas decisões são difíceis. Desde a morte dos nossos pais o vovô tem sido nosso pai e nossa mãe. Sempre nos tratou com muito amor e carinho. Hoje ele está velho e doente, e nunca contrariamos suas decisões. Não seria justo agora, quando ele se encontra com uma saúde tão frágil, que eu lhe daria esse desgosto.  

— Mas... irmã!

— Não, Nina. Estou decidida a cumprir com a decisão que nosso avô ordenar. Durante anos, ele soube o que era melhor para nós e para a Vila.

— Eu acho isso uma idiotice — a caçula resmungou, observando a irmã se voltar para o espelho com o semblante novamente abatido. Foi quando algo passou por sua mente. — Ernine?

— O que é agora, Nina?

— E se a escolhida não for você?

A mais velha arregalou os olhos com aquela possibilidade, mas não demorou retomar a expressão de desânimo.

— Eu sou a opção mais óbvia — constatou a mais velha. — Não que eu esteja me supervalorizando, mas, veja bem. A Anne é a mais bonita entre nós quatro, portanto, ela ainda é uma criança, tem onze anos, não tem idade para ser uma esposa. Se o cavaleiro a escolher, terá que esperar que ela complete a idade. Elian é jovem, tem idade para se casar com o consentimento do nosso avô, dezesseis anos, porém, é a menos bonita e tem o fato dela ser muda. E você, Anina Kaiovisk... — Ernine sorriu, percebendo a mais nova arquear uma das sobrancelhas. — Você é muito rebelde. Parece um menino por agir sempre tão impulsivamente, tem dezessete anos, mas a aparência é de treze.

— Menino? — Nina puxou a gola da blusa de frio que vestia e olhou para dentro dela, percebendo que seus atrativos eram mesmo poucos desenvolvidos, fazendo a irmã corar.

— Não foi isso que eu quis dizer — a mais velha bronqueou. — Você é jovem e eu não estou me referindo aos seus...

— Peitos?

— O certo seria “seios’”, seja mais delicada. Além disso, eles ainda irão se desenvolver.

— Mesmo eu já tendo dezessete anos?

A irmã pareceu ponderar para responder, o que fez a caçula soltar um resmungo.

— Ah, quer saber? Eu não queria mesmo ter peitos gigantes! E quer saber mais, Nine? Se fosse para ter tantos problemas e preocupações que nós mulheres temos, eu preferia mesmo ter nascido como um garoto. Os homens são mais práticos. Não precisam usar vestidos, nem pintar a cara, usar tantos penduricalhos, se enfeitar com tantos laços e fitas, e o melhor de tudo: não menstruam todo o mês.

— Você pensará diferente quando se apaixonar.

— Eu tive uma ideia! — exclamou a garota de repente.

— Não, Anina, pare. Eu não quero que você se intrometa. Toda vez que você diz que tem uma ideia, as coisas perdem o controle.

— Eu farei com que o cavaleiro não te escolha.

— Eu já disse, Nina. Sou a escolha mais óbvia. E se você se intrometer e o cavaleiro não escolher nenhuma de nós será pior, o vovô ficará muito decepcionado. Infelizmente o destino conspira contra o amor, a maioria dos romances que eu li são assim — a irmã mais velha se levantou, aproximou-se da mais nova e beijou o topo da cabeça dela. — Obrigada por tentar me animar, maninha. Mas está tarde, melhor dormimos. Agora só um milagre poderá mudar o destino. Boa noite — desejou e saiu do quarto.

Nina fez uma careta, mas logo abriu um sorriso matreiro, crispando um dos punhos.  

— Até imagino o tipo de romance açucarado que você anda lendo, irmã. Eca! Mas não se preocupe, eu farei seu milagre acontecer! — concluiu, determinada.

....

Era tarde da noite. Hyoga não conseguira pregar os olhos e observava Jacob dormir enquanto resmungava para que ele não escolhesse uma tal de “Anne” como esposa.

— Então é isso, né, seu danadinho? Está apaixonado por uma das netas do Sr. Kaiovisk? — comentou sozinho, achando graça.

Mas logo moveu seus olhos do menino que dormia para as chamas da lareira que começavam a diminuir. Havia voltado a nevar também. Levantou-se da poltrona onde estava acomodado com o cobertor que o pequeno amigo lhe emprestara e lançou mais algumas lenhas dentro da lareira, para manter o fogo aceso até de manhã.

Voltou a acomodar-se na poltrona diante do fogo. Na sua cabeça travava-se um dilema. Lembrou-se do seu mestre Cristal e do seu tempo de aprendizado naquela região ao lado do amigo Isaac. Foram momentos preciosos que viveram juntos, mas cujas lembranças e as saudades causavam-lhe dor. Mais dor ainda sentia ao recordar-se que era ali, naquelas terras tão geladas, onde o corpo da sua mãe jazia sem vida, submerso sobre uma densa camada de gelo. Era isso que mais lhe incomodava naquele lugar: as lembranças dolorosas que pareciam se unir para transformar seu coração em uma pedra de gelo novamente.

Seu coração... O coração que havia sido cuidado, descongelado e aquecido pelo calor da amizade. Repousou a mão sobre o peito e pode senti-lo ainda quente, batendo cadenciado, carregado de esperanças, de alegria e do amor com qual Shun e seus amigos o preencheram.  

Não queria machucar sua tutora na Vila, gostava de Anna, ela foi amiga de infância da sua mãe e entendia o quanto ela se preocupava com ele. Mas, desde que recebera aquela correspondência pedindo para retornasse ao Japão, é que havia decidido que seu lar já não era mais naquelas terras geladas. Seu verdadeiro lar era aonde seus amigos estavam.

Hyoga sentiu seu rosto aquecer e sorriu determinado.

— Desculpe-me, Anna. Mas eu já tomei minha decisão.

Continua...

Revisão: Naluza.


Notas Finais


Sei que prometi atualização mais rápida desse trabalho, mas continua indo a passos lerdos, perdoem-me! Mas vou tentar me impor um ritmo melhor.

Primeiro capítulo centrado no nosso loirão, Hyoga. ;D

Ele já tomou sua decisão de reencontrar os amigos no Japão, mas não quer magoar as pessoas que contam com ele na Vila onde nasceu. Como será que ele irá resolver este problema, hein, gente?

Comentem!

Até o próximo! o/


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