História Os Garotos - Capítulo 6


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Categorias Saint Seiya
Personagens Hyoga de Cisne, Ikki de Fênix, Saori Kido (Athena), Seiya de Pégaso, Shiryu de Dragão (Shiryu de Libra), Shun de Andrômeda
Tags Romance, Saint Seiya, Vida Escolar
Visualizações 141
Palavras 7.602
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Em especial para Isabela, que estava super ansiosa por essa capítulo e me cobrou a atualização. Espero que goste.

Capítulo 6 - Capítulo 06 - Saindo de Uma Fria - Parte 3 final


 

Os Garotos

Por Andréia Kennen

Capítulo VI

Saindo De Uma Fria – Parte 3 [Final]

 

Ao entrar na residência as pessoas aglomeradas no salão principal pararam, todas ao mesmo tempo, para deslumbrarem a beleza do jovem escolhido para ser o novo governante da vila.

— Senhoras e senhores, nosso convidado de honra dessa noite: Hyoga Alexei Yukida — pronunciou o ancião.

Os presentes aplaudiram e cumprimentaram Hyoga no caminho ao encontro do Senhor Kaiovisk. Ele sorria e retribuía as felicitações.

Naquela noite, Hyoga estava graciosamente bem vestido, usava um belíssimo terno negro com um sobretudo da mesma cor por cima. Trazia a cartola que antes estava em sua cabeça nas mãos. Suas mãos também estavam bem calçadas com luvas brancas. Os cochichos das damas presentes diziam que Hyoga parecia ser um verdadeiro e nobre príncipe. Seu rosto ruborizado do frio e da vergonha deixaram os olhos azuis celestes ainda mais destacados. A beleza dele surpreendeu não só aos convidados, mas as quatro netas do senhor Kaiovisk que se sobressaltaram ao vê-lo entrar vestido tão elegantemente.

— Que estranho, Anina — sussurrou Ernine para a mais nova ao seu lado. — Não me lembrava que o cavaleiro fosse um homem tão bem apessoado desta forma.

— Não me diga que está mudando de ideia, minha irmã? — perguntou a mais nova, surpresa, com aquela observação da irmã, arqueando uma das sobrancelhas, fazendo-a ficar envergonhada por te feito o comentário.

— Que bobeira. Óbvio que não! — rebateu rapidamente. — E é claro que eu amo o Alexandre — confirmou, olhando encabulada para o rapaz do outro lado do salão. Havia percebido que Alexandre não havia tirado os olhos dela desde que chegara.

— Sabe o que eu acho? — perguntou Anina, mantendo o tom baixo de voz. — Eu acho que nunca o vimos o cavaleiro tão de perto antes, por isso não havíamos reparado nesse fato. Mas pelo que fiquei sabendo, ele sempre foi muito bonito, já tinha ouvido comentários.

As meninas se calaram quando Hyoga chegou perto do ancião e estendeu a mão para cumprimentá-lo.

— É uma honra, senhor.

— Deixemos o tom tão formal de lado, meu jovem — respondeu o ancião, apertando a mão do rapaz e direcionando-o, com a outra mão em seu ombro, para onde estavam as netas. — Você é praticamente de casa agora. Venha eu quero que conheça minhas netas.

 — Senhor Kaiovisk, antes de tudo, eu precisava ter uma palavra com o senhor em particular.

— Não se preocupe, meu rapaz. Teremos muito tempo para nos falar de agora em diante. Primeiro, conheça as meninas.

O rapaz loiro se viu obrigado a concordar, pois já se encontrava diante das quatro moças.

— Aqui estão elas: Anne, Anina, Elian e Ernine — apontou o senhor para cada uma delas conforme foi dizendo seus nomes. — Quero que as conheça pessoalmente antes de dar seu parecer. Eu separei um cômodo da casa, um lugar mais reservado, venha comigo — chamou o homem não permitindo que o convidado de honra sequer cumprimentasse as moças devidamente.

O senhor guiou Hyoga pelo salão, passaram por um corredor cheio de portas e adentrarem a penúltima, que dava em uma saleta.

Ao adentrar o local Hyoga observou que este parecia ser um pequeno escritório, estava confuso.

— Vou pedir para que venha uma por vez — explicou o velho senhor, que em seguida adotou uma pose pensativa, ao alisar a barba grisalha com uma as mãos. — Você terá um tempo a sós com cada uma delas, algo como... — fez um cálculo mental e logo deu a resposta. — Quinze minutos. Assim, em uma hora, terá conhecido todas elas e não atrasaremos tanto o jantar.

Hyoga encarou o ancião perplexo.

— O senhor acha que quinze minutos são o suficiente para que eu escolha a mulher com quem viverei o resto de minha vida?

Foi a vez do ancião encarar o jovem a sua frente com o ar titubeante, por fim, acabou gargalhando.

 — Q- qual é a graça, senhor?

— Desculpe-me, rapaz. Mas vocês jovens são tão afoitos — disse ele, contendo a crise de risos. — Claro que quinze minutos não são suficientes para conhecer a mulher da sua vida. Aquela que você escolher terá a vida inteira para conhecê-la.

— Senhor... — Hyoga suspirou fundo, sentindo-se chateado por não ter conseguido se explicar. — Não foi bem isso que eu quis dizer...

— Tenha calma, meu rapaz. Eu já vou trazer a primeira pretendente. Lembre-se que temos muitos convidados, não podemos ficar aqui a noite toda — ressalvou ele, saindo do escritório, deixando Hyoga sozinho e ainda mais frustrado.

— Por Athena! Por que é tão complicado falar com as pessoas mais velhas dessa vila? — esbravejou Hyoga, perdendo a paciência e dando uma pancada na mesa com a mão fechada em punho.

— Com licença? — perguntou uma voz suave atrás dele.  

Ao se voltar para porta o loiro percebeu que uma das netas do ancião estava detida na entrada.

— Por favor — assentiu, fazendo um gesto para que ela entrasse e se acomodasse.

Anne adentrou o escritório e acomodou-se graciosamente em uma das cadeiras, repousando as mãos enluvadas sobre a mesa. Hyoga moveu-se rápido e sentou-se em uma cadeira diante da jovem. Estava surpreso com a beleza singela da caçula dos Kaiovisk. A menina parecia uma pintura de tão perfeita que era.

Notou também que a mesma parecia do tipo de menina recatada, pois do jeito que Anne se sentou ela ficou, apenas encarando-o. Foi ele quem decidiu tomar a iniciativa e puxar assunto. 

— É... Senhorita Anne, isso? — perguntou ele incerto, a apresentação feita pelo ancião fora um tanto abrupta e ele apenas conseguiu gravar a sequência de nomes e não ao certo qual nome pertencia a quem. Por isso esperava que o senhor Kaiovisk mantivesse a mesma sequência da apresentação.

A menina assentiu, confirmando que o nome era mesmo dela.

— Você sabe o porquê está aqui, Anne?

— Sim. Para que nos conheça melhor e assim possa escolher qual de nós quatro será uma esposa melhor para o senhor.  

Hyoga se surpreendeu com aquela resposta mecânica, parecera até que havia sido ensaiada.

— E se eu escolher a senhorita? Casaria comigo mesmo sendo tão jovem?

— Farei de tudo para que não se arrependa da sua escolha, meu senhor — a menina respondeu sem vacilar. — Sou uma jovem bastante prendada. Sei rendar, cozinhar, bordar, entre outros afazeres domésticos.

Não havia sentimentos nas palavras de Anne, estava óbvio que tudo que a menina dizia não passavam de orientações decoradas previamente. Era certo que ela ainda não compreendia completamente o que era ser uma esposa e sentiu pena por submeterem uma criança a algo como aquilo.   

— Sabe, Anne, casar-se não se resume apenas aos afazeres domésticos, você tem ideia disso?

Anne ergueu seus cílios de boneca para encarar o futuro substituto ao cargo do avô na vila, depois de alguns segundos analisando a pergunta feita por ele, ela o respondeu com outra pergunta.

— Refere-se ao amor, meu senhor?

Hyoga sentiu o rosto abrasar. Não esperava conversar sobre um assunto tão adulto com aquela criança. Apesar dos belos atributos era notável a inocência que permeavam aqueles olhos infantis e curiosos.

— Sim, sobre o amor, Anne — optou por afirmar. — Mas não do amor que a senhorita conhece: o amor fraterno ou amor entre amigos. Estou me referindo a outro tipo de amor. Aquele que une dois seres que podem ser totalmente opostos ou inconfundivelmente gêmeos e mesmo assim se sentirem completos um do lado do outro como se antes não fosse um todo. Um amor que não tem barreiras, dinheiro, raça, religião ou preconceitos que os separem.

— O vovô sempre nos disse que aprendemos a amar as pessoas conhecendo-as ao longo da vida.

— E eu não tiro a razão dele. Às vezes o grande amor da nossa vida pode ser um amigo que conhecemos como a palma da mão, como também pode ser alguém que acabamos de conhecer. Mas não somos nós que o definimos, e, sim, o coração. Este sabe a hora certa de fazer sua escolha. E como você não me conhece como um amigo, só me amaria se fosse a primeira vista. O que eu acho pouco provável porque a senhorita ainda possui a inocência de uma criança.

Anne sorriu compreensiva e Hyoga ficou contente por ter conseguido se explicar.

— Posso fazer-lhe uma pergunta ousada, meu senhor?

— Hm — ele assentiu, meio incerto.

— O seu coração já vez essa escolha, não é verdade?

Hyoga arrependeu-se imediatamente de ter permitido que ela ousasse a fazer aquela pergunta, pois não tinha ideia de como responder aquela pergunta. Suas mãos transpiraram.

— Bem, eu...

— Ah? Meu tempo acabou — anunciou a jovem de repente, interrompendo-o e levantando-se depressa. — Se eu demorar minhas outras irmãs serão prejudicadas — ela explicou, inclinando a cabeça levemente para frente e apanhando as bordas do vestido e esticando-as, fazendo uma breve reverência. — Foi um prazer conhecê-lo, senhor Yukida. Com sua permissão.

Antes de permitir que ela se retirasse, Hyoga recordou-se dos presentes e pediu para que ela aguardasse apenas mais um instante. Ele se levantou e apanhou uma das quatro sacolas que Anna havia deixado aos cuidados da ama daquela casa mais cedo e as quais notara no balcão, disposto do lado esquerdo daquele mesmo cômodo, assim que adentrou o lugar.

— Esse para você — falou, estendendo a sacola para a menina que pareceu sorrir com os olhos diante da surpresa de ser presenteada.

— Obrigada. Importa-se se eu abrir lá fora?

— De forma alguma. O presente é seu. Fique a vontade.

— Obrigada.

— Anne?

— Sim, meu senhor?

— Aproveite a infância enquanto ainda a tem. É uma fase única e que um dia você sentirá muita falta.

Mais uma vez ela sorriu, fez um aceno com a cabeça e deixou a saleta em seguida.

Do lado de fora a bela menina abriu o pacote e seus olhos azuis cristalinos pareceram dobrar de tamanho e reluzirem ainda mais diante daquele belo presente.

— Uma boneca — comentou contente, e logo abraçou ao objeto. — Justamente a que eu queria. Obrigada, meu bom senhor.

...

Dez minutos haviam se passado dentro do escritório. A segunda neta do senhor Kaiovisk continuava encarando Hyoga com o semblante fechado do outro lado da mesa. Hyoga lhe dera um belo livro diário, com capa de couro colorida e com um suporte com caneta na lateral, além de um bloco de anotações que era acoplado na parte interna da capa. Elian segurava o objeto mãos, vez ou outra ela o alisava com cuidado, abria, folheava suas páginas, parecia ter gostado. Mas ele continuava incomodado, afinal não sabia conversar na linguagem dos sinais para se comunicar com a menina, a qual sabia ser muda.

— Gostou do presente? — questionou gesticulando, apontando o presente nas mãos dela.

Mas ao invés de tentar respondê-lo a garota se pôs de pé bruscamente.

— D- desculpe-me? Eu fiz algo de errado?

Em resposta, Elian apenas apontou o relógio de parede, haviam se passado os quinze minutos.

— Ah, é verdade, sim, o tempo, eu entendi — comentou, se pondo de pé e acompanhando-a até a porta. — Obrigado por vir, foi uma honra conhecê-la, senhorita Elian.

Elian estendeu a mão na direção de Hyoga e ele compreendeu que ela queria cumprimentá-lo. Hyoga sorriu e apanhou a mão que lhe era estendida e o aperto que recebeu em seguida foi surpreendentemente forte para uma garota.  Assim que Elian o soltou ela se retirou e só então Hyoga notou que havia um pedaço de papel bem dobrado na palma da sua mão.

Abriu o bilhete curioso e seus olhos correram rápidos o recado escrito em russo: “Prezado Alexei, por favor, não me escolha, eu não gosto de homens, gosto de garotas. Assinado: Elian”.

— Como assim gosta de garotas?! — gritou com o rosto completamente corado.

Hyoga observava incrédulo o recado em suas mãos quando a terceira candidata entrou no escritório de forma abrupta, abrindo a porta sem bater e entrando e fechando-a em um baque. Ele sobressaltou e encarou com os olhos arregalados a garota que parecia ter saído de um daqueles contos de faroeste americano. Ele a reconheceu da loja de roupas de mais cedo e notou que não era apenas a aparência de esperta que a menina tinha, seus olhos ligeiros e curiosos se moveram para o papel em sua mão antes mesmo que se cumprimentassem. Dobrou-o depressa e guardou no bolso interno do seu fraque, gesto que fez a garota arquear uma das sobrancelhas para ele.

— O que está escondendo aí, cavaleiro? — questionou ela, os olhos estreitando-se na direção do candidato ao cargo do seu avô.

— Eu acho que não é do seu interesse, senhorita.

— Ah! Você está com as bochechas vermelhas, confesse, cavaleiro! A conversa com a minha irmã Elian o empolgou, não foi não? — perguntou debochada e ainda gargalhou.

Hyoga estava surpreso.

— Não deveria zombar da deficiência da sua irmã, deveria?

— Oh, céus! Já basta meu avô e minhas irmãs para me repreenderem, agora vou ser repreendida pelo cavaleiro-forasteiro também? Era só o que me faltava! — ela exclamou e puxou uma das cadeiras da mesa, virando-a ao contrário, e sentando-se de pernas abertas, usando o encosto como apoio para as mãos. — A deficiência não torna a Elian mais especial, muito menos diferente de nenhuma de nós, ela mesma gosta de deixar isso bem claro. Além disso, ela odeia que usem a deficiência dela para tratá-la como coitadinha.  

Hyoga ficou constrangido ao entender bem a justificativa dada, mas já havia cometido a gafe, por isso decidiu ficar quieto. Era evidente que todas as netas do senhor Kaiovisk tinham gênios totalmente distintos, aquela em especial, parecia ser mais a elétrica de todas. Sentou-se de frente para a garota e notou ela puxar aba do seu chapéu mais para frente, encobrindo parcialmente seu rosto, que era bem bonito por sinal. A impressão que ela havia saído de um conto de velho-oeste americano ficou ainda mais evidente, ela parecia o Xerife prestes a interrogá-lo. Tinha que admitir, aquela garota o intrigava e era certamente a mais interessante até aquele momento.

— Então, cavaleiro? Quais são suas verdadeiras pretensões?

— Minhas pretensões? — repetiu Hyoga, achando aquela fala ainda mais engraçada. — Não sou eu que estou impondo casamento aqui, sou?

— Mas está aceitando.

— Eu não estou aceitando — defendeu-se rapidamente. — Só não me permitiram, ainda, dar a minha opinião.

— É exatamente como eu pensava.

— Mesmo? — Hyoga pegou-se curioso diante a fala de vidente da garota.

— Sim. E digo mais — ela se debruçou em direção a mesa, cochichando em seguida. — Eu tenho um plano para tirá-lo dessa enrascada.

Hyoga sorriu, estava totalmente intrigado. 

— Sim. Claro, eu acredito. Agora me diga, Anina, certo? Mas exatamente por que você pretende me tirar dessa enrascada?

— Oras... Simplesmente porque eu sei que você não quer se casar! E sei o motivo: você ama outra pessoa, e essa pessoa mora no Japão.

Os olhos de Hyoga se arregalaram da mesma forma que seu coração acelerou.

— Do que você está falando?!

— Shh! Fala baixo, droga. Quer estragar tudo?

— Do que você está falando? — repetiu a pergunta em tom de voz mais baixo.

— Não dá tempo para trocarmos detalhes no momento. Apenas preste atenção, a Ernine também está apaixonada por outra pessoa e não quer se casar.

— Ernine?

— Sim. Minha irmã mais velha, a última que irá conhecer e a sua opção mais óbvia.

— Minha opção mais obvia? — Hyoga inquiriu, cada vez mais surpreso, arqueando umas das sobrancelhas.

— Isso mesmo — afirmou, dando de ombros. — A não ser que o cavaleiro queira como esposa uma criança ou uma muda que gosta de garotas.

— E o que a faz pensar que eu não irei escolhê-la?

Anina espantou-se com aquela possibilidade que sequer havia cogitado.

— Não tem como me escolher — ela riu, um pouco incerta.

— Por que não?

— Olha cavaleiro, vamos deixar as coisas bem claras desde agora, se ousar a fazer algo nesse sentido, se ousar me escolher, eu farei de tudo para tornar seus últimos dias na Terra os piores de sua existência.

— Uau. Agora está me ameaçando?

— Sim, estou — assentiu firme e sem receios.

Hyoga balançou a cabeça negativamente.

— Eu tenho a impressão que você não gosta muito de mim, não é?

— Bingo.

— Por quê?

— Ah. São vários fatores. Mas o principal é que eu não gosto de tipos como você, que permite que outras pessoas manipulem sua vida e simplesmente aceita isso sem questionar.

O loiro abriu a boca para responder, mas a única coisa que conseguiu foi assentir com um balançar positivo de cabeça.

— Nossa. Você me lembra o Ikki.

— Quem é esse verme maldito?

Hyoga riu com mais vontade, depois de aquela semelhança ainda maior. Ikki era o dono de chamar as pessoas que considerava inferior de “vermes”. 

— Qual é a graça, cavaleiro? Eu estou falando algo muito sério aqui.  

— Eu não estou duvidando. Mas, não temos muito tempo no momento, digamos que eu esteja interessado no seu plano, por isso, diga-me, xerife, como pretende me tirar dessa fria?

Anina finalmente sorriu ao notar que ele iria colaborar e Hyoga impressionou-se o quanto um sorriso podia iluminar o rosto de uma garota e torná-la encantadora.

Ouviu atentamente sobre o plano elaborado pela esperta Anina. Sua parte consistia simplesmente em anunciar ao ancião que sua escolha era a irmã mais velha e que após o anúncio elas colocariam o restante do plano em ação com um anúncio bombástico.  

— E que anúncio seria esse?

— Não posso contar esse detalhe. A Ernine me mataria. Mas garanto que é algo infalível ao ponto de impedir esse casamento.

— E se o ancião me pedir que eu escolha outra de vocês?

— Basta apresentar os argumentos óbvios os quais nem deveriam ser apresentados de tão óbvios que são, né, cavaleiro? Anne é uma criança, a Elian não gosta de rapazes e eu... Bem, eu... diga que eu não faço seu tipo de garota e pronto! Então, estamos de acordo? — perguntou Anina, estendendo a mão na direção do cavaleiro a fim de findar aquele compromisso.

Hyoga não pensou muito, afinal era um compromisso de interesses mútuos, decidiu confiar naquela garota que lembrava tanto seus amigos. Ela tinha o gênio de Ikki, a bondade de Shun, a inteligência de Shiryu e parecia tão determinada quanto Seiya.

— Estamos acordados — confirmou, correspondendo ao aperto de mão da menina.

— Certo! — comemorou Anina, saindo da cadeira. — Então me dá logo o presente porque nosso tempo acabou.

— Como sabia que eu iria te dar um presente?

— Dã! Como? — ela perguntou, colocando as mãos na cintura e revirando os olhos. — Eu vi você comprando os presentes mais cedo e tanto a Elian quanto a Anne saíram daqui com presentes nas mãos.

— Ok, ok, não precisa ser tão intolerante... — Hyoga comentou, levantando-se e indo até o balcão onde restavam duas sacolas de presentes.

— É que perguntas cujas respostas são óbvias me irritam! — comentou ela ao apanhar o embrulho que fora estendido na sua direção.

— Espero que goste, é o vestido que não conseguiu comprar pela manhã na loja.

A observação de Hyoga fez os ombros da garota caírem e o semblante de curiosidade e empolgação ao receber o presente se esvair completamente.

— Você é mesmo idiota? Pela manhã eu estava espionando vocês. Eu odeio vestidos! Eles me dão coceiras! Ah, esquece! Vou trocá-lo depois. — despediu-se e saiu da sala batendo a porta, deixando Hyoga atordoado pra trás.

Não demorou muito e após a saída explosiva de Anina, a quarta, e, a última neta do governante da Vila, bateu na porta e pediu licença para entrar.

— Fique a vontade, a casa é sua. — Hyoga assentiu e após pedir licença Ernine entrou e esperou ser convidada a se sentar.

Era notável que todas as colocações de Anina eram válidas, se ele realmente fosse fazer uma escolha, aquela bela jovem a sua frente seria mesmo a escolha mais óbvia, pois notou que dentre as quatro Ernine era realmente a mais madura. Não só por ser a mais velha, mas por sua postura séria, pelo olhar centrado, os modos recatados e o falar moderado.

— É um prazer cavaleiro.

— O prazer é todo meu. — Hyoga decidiu ir direto ao ponto, já que a garota diante dele era a peça central daquele quebra-cabeça, além de ser o motivo do plano elaborado pela espevitada Xerife. — Você tem algo importante para me dizer, não tem?

— Sim — ela afirmou de imediato. — Eu amo o Alexandre Hignovisk e há algum tempo nós mantemos um relacionamento escondido de nossas famílias.

— Escondido?

— Sim. Meu avô, desde o começo da nossa adolescência, nos impôs uma regra caso quiséssemos nos comprometer com alguém: que não nos envolvêssemos de forma leviana com nenhum homem. Ele nos orientou que um relacionamento correto deveria ser iniciado com interesse mútuo, de ambos os pretendentes, em constituir laços duradouros.

— Ou seja, casamento?

— Exato. Por isso que o Alexandre e eu começamos a namorar escondidos. Não que ele não quisesse compromisso sério, desde o princípio ele sempre quis. O problema era comigo. Eu não tinha certeza. Mas com o passar do tempo eu percebi que o Alexandre é o homem da minha vida e a pessoa com quem quero passar o resto dos meus dias. Mas quando eu percebi isso já era tarde, meu avô veio com essa história sobre conceder a mão de uma de nós em casamento para o futuro governante e quando meu avô coloca algo na cabeça é bem complicado fazê-lo mudar de ideia, eu estava disposta a aceitar esse destino. Foi quando a Anina ouviu você conversando na loja e ela veio com esse plano...

— Esse plano? — Hyoga instigou Ernine a contar os detalhes já que Anina fizera mistério.

— Dizer ao meu avô que estou grávida do Alexandre.

Hyoga arregalou os olhos, surpreso.

— E você está?

— Não! Claro que não. Não chegamos a esse ponto ainda.

— Então, é uma mentira para enganar o ancião?

— Sim.

— Você não acha que seu avô ficará mais chateado em saber que a neta que ele quis tanto preservar está grávida? E pior, depois de tudo, saber que foi uma mentira? Não seria melhor dizer a verdade? Que você ama o Alexandre?

Hyoga viu os olhos da mais velha marejarem, mas ela se manteve firme, engoliu o choro que queria iniciar e se explicou.

— Seria, sem sombra de dúvidas. Mas meu avô firmou um compromisso com o futuro governante e ele não voltará atrás em sua palavra, a não ser em uma situação drástica.

— Alexandre sabe sobre esse plano?

Ernine abriu a boca para responder, mas sua voz fugiu e as lágrimas finalmente desceram seu belo rosto.

Ao perceber o desespero da bela neta mais velha do ancião da Vila, Hyoga levantou-se rapidamente, deu meia volta na mesa, e tocou o ombro dela com cuidado, fazendo-a encará-lo que derramavam fios grossos de lágrimas; retirou o lenço do bolso do seu fraque e entregou nas mãos dela.

— Não chore, por favor, senhorita Ernine. Minhas perguntas não tiveram a intenção de feri-la. Eu compreendo o quanto deve estar apavorada e com medo de perder a pessoa que ama para sempre. Fique tranquila, eu te garanto que tudo será resolvido esta noite.     

— D- desculpe-me — ela respondeu soluçante. — E o- obrigada, Alexei.

...

Alguns minutos depois Hyoga saiu acompanhado com sua última pretendente à noiva. Mal Ernine e ele chegaram ao salão de festa e o ancião da vila se pôs de pé, fazendo aquele anúncio.

— Bem, senhoras e senhores, acabado o tempo que demos ao nosso futuro governante para apresentação formal às minhas queridas netas, a qual, uma delas, ele terá a honra de desposar, iremos ouvir dele agora seu pronunciamento. Meu rapaz, tenha bondade.

O homem apontou o centro da sala e houve uma salva de palmas.

Ernine, que ainda se encontrava ao lado de Hyoga, fez uma breve reverência com a cabeça para ele e foi se juntar as suas outras irmãs. Depois disso, Hyoga respirou fundo, passeando os olhos pela sala e avaliando todos aqueles rostos estranhos ao seu redor, concluindo, com mais veemência, que aquele ali não era mesmo o seu lugar.

— Primeiramente, boa noite a todos.

— Boa noite — respondeu um coro de vozes.

— Bem, eu gostaria de agradecer ao Senhor Kaiovisk pela honra do convite e dizer que a escolha que fiz não foi nada fácil. — Ele olhou as quatro meninas agora enfileiradas ao lado do avô. — Sobre as meninas, em resumo, todas são belíssimas e, além da beleza, possuem personalidades distintamente encantadoras. Anne, por exemplo, a primeira que conheci, é meiga e gentil. — Hyoga pausou por um mero instante, ao ouvir alguns murmúrios de discordância, certamente alguns dos convidados deduziam antecipadamente que ela seria sua escolhida. Manteve-se calmo e prosseguiu, após uma tossida que interrompeu os buchichos. — No entanto, Anne ainda é uma criança, e eu acredito que ela deva viver sua infância em toda plenitude antes de pensar em coisas de adulto como um casamento.

As feições tensas dos candidatos suavizaram-se no mesmo instante, mas Hyoga não se preocupou com eles, assentiu para a Anne que o retribuiu com seu doce sorriso, enquanto segurava a boneca com a qual a havia sido presenteada por ele.

— Elian é misteriosa — prosseguiu. — Porém, sincera, uma qualidade que preso acima de muitas outras. Eu fiquei surpreso quando ela foi direta ao escrever em um pedaço de papel que eu não a escolhesse. Certamente ela possui bons motivos para ter me pedido isso e por esse motivo estou de acordo com a opinião dela.

O Sr. Kaiovisk direcionou sua atenção para neta não falava. Não era possível visualizar com clareza os olhos miúdos por debaixo das suas rugas e as sobrancelhas grossas, mas ele não pareceu incomodado. Elian, por sua vez, manteve-se séria e apenas fez um meneio positivo de cabeça para Hyoga.

— Desta forma, restaram as duas mais velhas e, confesso que, como cavaleiro, passei por desafios menos complexos.

Risos encheram o salão e Anina deu um salto, não esperava que Hyoga a incluísse como uma de suas escolhas óbvias.

— Não estava no plano me incluir como uma das escolhas dele, mana! Que raiva desse idiota — cochichou para a irmã ao seu lado, cruzando os braços e fazendo um bico com os lábios.  

— Veja pelo lado bom: você conquistou alguém, Nina.  

— “Você conquistou alguém” — Anina remendou com deboche a irmã, mostrando a língua no final.

Os convidados pareceram ainda mais ansiosos pelo o anuncio. Mas a família Hignovisk era certamente a mais apreensiva, principalmente Alexandre.

— Talvez você ainda saia vitorioso essa noite, Alexandre — comentou Leyla ao lado do filho.  — Se Alexei escolher a pirralha da Anina, Ernine continuará livre para você.

— Não sei, essa conversa mole dele está muito estranha. Mas o olhar dele parece dizer tudo, mamãe. Ele vai escolher a Ernine, eu tenho quase certeza. Meu coração diz isso.

— Neurótico — murmurou Alexandra.

— Cale-se, fedelha!

— Parem os dois — repreendeu a mãe. — Aqui não é hora e nem lugar para essas brigas infantis de vocês dois.

— Silêncio, os três — ordenou o pai, sendo mais plausível. — Nossas dúvidas serão sanadas nesse instante. Alexei irá fazer seu anúncio. Prepare-se, meu filho, pois será nesse momento que seremos chamados, pois você será o vice-governador da vila ao lado de Alexei. E eu não quero escândalos, está me entendendo?

Alexandre suspirou fundo, tentando manter a calma, de qualquer forma, fosse qual fosse a escolhida de Hyoga, ele havia tomado uma grande decisão.

 “Eu não irei perder a mulher que amo para esse forasteiro”, garantiu para si mesmo, crispando firmemente o punho em algo que segurava na cintura, embaixo do pesado sobretudo que vestia.

— Bem — Hyoga reiniciou, fazendo a sala voltar a ficar em silêncio. Deu alguns passos e aproximou-se das quatro meninas, parando diante dos olhos atentos de Anina, que prendeu a respiração e contorceu a face de uma forma que Hyoga acreditou que ela fosse avançar sobre ele. Mas seus olhos desviaram-se dela e sua mão se estendeu para a neta mais velha. — Por favor, Ernine...

As ações seguintes aconteceram simultâneas. Antes que Hyoga concluísse sua fala houve um alvoroço de aplausos. Anina suspirou aliviada e praguejou algo que foi abafado pelos sons das palmas. Ernine colocou sua mão sobre a mão estendida de Hyoga, enquanto lágrimas desciam por seu rosto, e, por último, o tilintar do metal frio de uma espada que fora desembainhada.

— Alexandre, não! — O grito desesperado de Leyla encobriu as demais vozes e a euforia dos presentes deu lugar a gritos de desespero.

A espada de Alexandre parou a milímetros do pescoço de Hyoga e tocava em seu loiro cabelo que caía sobre seus ombros.

— Silêncio! — pediu o ancião, procurando acalmar os ânimos dos seus convidados. Então se voltou para o trio que havia se paralisado como se a tecla ‘pause’ tivesse sido acionada naquela cena. — Pode me explicar o que está acontecendo, Alexandre?

— Eu amo a Ernine, senhor Kaiovisk. Eu estou disposto a lutar pelo amor dela — respondeu direto, os olhos firmes em Hyoga.

— Meu filho, não seja louco! — gritou a mãe, desesperada. — Tem ciência que está desafiando um homem cujos poderes poderiam parti-lo ao meio em apenas segundos?

— Eu não me importo de morrer, minha mãe — ele continuou determinado. — É bem melhor que viver com a vergonha de perder a mulher que eu amo sem ter lutado.    

— Senhor Kaiovisk, por favor, desconsidere esse ultraje — o pai do rapaz tomou a palavra. — Alexandre está fora de si, ele...

— Argor, Leyla, melhor deixarmos que eles falem com suas próprias vozes.

Todos se calaram. A espada passou a tremer nas mãos de Alexandre.

— Você... — Hyoga girou o corpo para ficar de frente com seu desafiante, manteve a mão delicada de Ernine presa firme na sua. Os olhares de ambos se cruzaram. — Você pode se ferir com isso — informou Hyoga com a frieza adquirida nos seus anos de treinamento.

— Não zombe de mim, cavaleiro! — gritou em resposta. — Eu sei que é muito mais forte do que eu. Mas eu não estou disposto a recuar. Eu não tenho medo de você!

— Eu jamais zombaria de alguém que está disposto a lutar por um sentimento tão forte como é o amor. Por isso, estou pedindo com educação, para que abaixe a arma. Não quero que se fira ou fira algum inocente em um momento de impulso.

— Está achando que sou idiota? — perguntou, cada vez mais trêmulo. — A minha única chance com você é usando uma arma, e eu não vou abaixá-la.

— Alexandre, não... — Ernine lacrimejou.

— Certo. — Hyoga soltou da mão de Ernine e pediu à ela, calmamente, que se afastasse.

— Mas, cavaleiro... — A neta do aldeão-líder tentou protestar, mas Hyoga apontou a palma da mão aberta ela, fazendo-a se deter. Ernine compreendeu imediatamente que não deveria interferir, aquela era uma disputa entre homens. E, apesar de os olhos do cavaleiro estarem firmes em seu desesperado Alexandre, de alguma forma, sentiu que eles pareciam condolentes. Hyoga transmitia certa confiança, iria apenas acreditar e deixar a situação nas mãos dele. Recuou alguns passos para trás e só então notou que a tensão permeava cada olhar dos presentes na sala.

— Venha — ordenou Hyoga. — Use sua espada e dê tudo que tenha. Terá uma única chance.

A afronta fez Alexandre se encher de coragem e lançar-se com tudo para cima de Hyoga.

— Seu desgraçado! Está me subestimando, eu vou te mostrar do que sou capaz!

Mas bastou um simples movimento do cavaleiro e este se desviou do ataque calmamente. Alexandre se desequilibrou ao ver que o seu alvo havia se movido tão rápido que parecia ter desaparecido diante dos seus olhos. No momento seguinte sentiu uma presença em suas costas, um golpe em sua mão direita que o fez derrubar a espada e a mesma cair tilintando no piso, em seguida seus braços foram presos pelos punhos fortes do cavaleiro e mobilizados para trás.

— Droga! Maldito! Solte-me!

— Por favor, não o mate, cavaleiro! — interferiu Ernine ao implorar pela vida do homem que amava. — Eu também o amo! Eu amo o Alexandre! — gritou para todos ouvirem, o rosto coberto em lágrimas. — Acredite, vovô! Por favor, faça algo.

O avô manteve-se estático, dando a entender que não iria interferir. Sem saber o que fazer, Ernine correu e caiu de joelhos diante de Alexandre. Hyoga soltou o rapaz em seguida e casal se encontrou em um abraço desesperado.

— Seu tolo! Você é louco, Alexandre. Louco. O que pensa que está fazendo? Quer me matar do coração?

— Fiquei desesperado ao perceber que iria perdê-la, Nine.  

— Eu jamais mataria alguém nessas circunstâncias de desigualdade, eu não sou um covarde — Hyoga se pronunciou, em sua própria defesa. — Além disso, eu acho que já temos um vencedor aqui. Um ser humano comum, com a coragem de enfrentar um cavaleiro pelo amor da mulher que ama, é digno de respeito e compreensão. — A atenção de Hyoga se voltou para o líder da vila, que assim como todos ali, apenas assistia a cena. — Perdoe-me, senhor Kaiovisk, mas eu não posso aceitar sua proposta.

Aquela fala causou uma nova comoção, até mais que o desafio de Alexandre e a confissão de que o primogênito dos Hignovisk amava a primogênita Kaiovisk.  

— Está recusando a oferta para ser o novo governante da vila? — o ancião se manifestou. — É isso que estou entendendo?

— Sim. É isso que está entendendo, meu senhor.

Um novo coro de buchichos se formou no recinto e o velho pareceu pensar por um instante.

— Mas, pode escolher outra das minhas netas, se este for o caso.

Fora a vez de Anina irromper abrasiva o ambiente.

— Vovô, como ousa! Eu não quero me casar com esse cavaleiro. Mesmo que ele me escolhesse, eu não o escolho. É assim que as coisas funcionam! Não somos objetos em um leilão! Além disso, o cavaleiro tem direito de escolher outra pessoa para amar, que pode ou não ser uma de nós.

— Não? — perguntou ele, ainda duvidoso, olhando diretamente para Hyoga.

— Senhor, sua neta tem toda razão. Eu acredito que as pessoas devam ser livres para trilharem seus próprios caminhos. Eu não faço mais parte desse vilarejo, meu coração pertence a um novo mundo. Mas respeito suas ordens, assim como respeito os sentimentos alheios — disse, apontando para Ernine agarrada a Alexandre no chão. — O amor é o sentimento que nos torna seres tão fortes. Veja o exemplo que ocorreu aqui hoje, um homem é capaz de desafiar a morte, lutar e até de dar sua vida se preciso pela pessoa que ama. Assim deve ser um casamento, sustentando pelo o amor. Como pode acreditar que eu seria um grande governante aceitando um matrimônio forçado?

O ancião ponderou por mais um instante, e ao fim, abriu um sorriso.  

— São palavras de um verdadeiro sábio, palavras de um homem de bom coração, Hyoga.

— São palavras de um homem que sempre lutou pela justiça e pela paz, meu senhor.

— Então, eu devo mesmo aceitar que não nos dará a honra de seu governo?

— Eu acredito que as pessoas aqui são capazes de escolher seu próximo governante.

— O que está sugerindo?

— Escute, senhor Kaiovisk — Leyla resolveu interpelar a favor do filho, ao perceber que Hyoga estava mesmo desistindo. — Meu filho seria o subgovernante, como o senhor mesmo havia dito, então é justo que...

— Não se intrometa, mamãe! — gritou Alexandre, se levantando de mãos dadas com Ernine, encarando a progenitora que o observava com o ar incrédulo.

— Alexandre, como ousa a falar assim comigo? Eu sou sua mãe...

Fora a vez do pai de Alexandre se intrometer, ao repousar a mão em um dos ombros da mulher, e pedir. 

— Deixe-o tomar a decisão que bem entender, querida. Aprenda a ler o ambiente e as circunstâncias, irmos contra a maré nesse instante nos fará vilões da situação.

— Mas...  

— Eu estou cansado de ter meus objetivos manipulados — continuou Alexandre. — Eu quero tomar minhas próprias decisões de agora em diante. Então, eu concordo com o cavaleiro! — afirmou ele. — Acredito que todos os adultos aqui presentes são capazes de escolherem seus destinos, somos capazes de escolher quem amamos, com que trabalhamos e de quem gostamos; então nós também podemos escolher quem é capaz de nos governar.

— Liberdade de escolha! — gritou Anina, erguendo o punho no alto, em apoio a fala do futuro cunhado.

Elian apenas ergueu o punho, pois não conseguia emitir fala alguma, mas seu gesto de apoio ficou claro. Anne falou um “liberdade” menos intenso, e em seguida ergueu uma das mãos enquanto a outra continuava segurando a boneca. Ernine gritou “liberdade” com uma determinação que ela desconhecia. Alexandra foi a próxima, surpreendendo aos pais e até mesmo ao irmão mais velho. Hyoga foi o próximo. Logo uma sequência de punhos erguidos e gritos de “Liberdade” se espalharam pelo salão.

Fora inevitável, o ancião emocionou-se. Aquela era a transição para uma nova era. A era da democracia, onde à escolha seria feita pelo povo.  

— Eu governarei, senhor Kaiovisk — Alexandre pronunciou-se. — Se o povo da vila assim o desejar — decidiu com um ar mais tranquilo, apertando ainda mais a mão de Ernine junto a sua.

O velho governante coçou sua barba grisalha por um tempo, mantendo o ar de suspense; passados alguns minutos, ele decidiu dar seu parecer.

— Para não perdermos o jantar e a festa, que foi preparada com tanto empenho, vamos então comemorar duas grandes tomadas de decisões nessa noite. A primeira: o noivado de Ernine e Alexandre. E a segunda: o lançamento da primeira eleição para o novo governante do vilarejo.

Uma saraivada de palmas ergueu-se eufórica. Ernine e Alexandre se abraçaram e se beijaram e Hyoga finalmente pode suspirar aliviado.

— Que o jantar seja servido! — ordenou o ancião.

Não era mais o centro das atenções, a comida que era servida se tornara o foco, além de notar a excitação de algumas famílias com a ideia de um dos seus membros também se candidatarem ao cargo de governante. Procurou pelo ancião para despedir-se e no caminho encontrou Jacob, que estava muito bem vestido.

— Jacob? Está elegante.

— Estou mesmo, Hyoga? Será que a Anne vai notar?

— A Anne? — o loiro surpreendeu-se, notando de imediato o leve rubor na face do amiguinho. — Por que não iria? — o tranquilizou. — Eu acho até que você deveria ir falar com ela agora mesmo. — Hyoga apontou a menina que estava na fila do buffet, e havia trocado a boneca por um prato de porcelana.  

— M- m- mas nós nunca nos falamos!

— É a sua oportunidade. Puxe um assunto qualquer. Vai perceber o quanto ela é amável.

— Sério? — Hyoga viu o amigo sorrir ao receber o incentivo. — Vou lá agora mesmo, obrigado, Hyoga.

Ficou observando Jacob se aproximar receoso da menina que tinha as feições de boneca e falar algo. Notou-o ficar ainda mais vermelho quando Anne o respondeu e ela entregar o prato que estava com ela para ele, e ir buscar um outro, voltando para o lugar na fila, na frente dele, retomando a conversa.

Ficou satisfeito e estava retomando sua procura pelo ancião, quando, sem querer, notou Elian acenando na direção dele com o rosto encabulado, achou que fosse para ele e achou estranho. Mas, antes de corresponder ao aceno, o rosto corado dela o fez desconfiar, então ele se voltou para trás e notou aquela bela menina, a filha mais nova dos Hignovisk, irmã de Alexandre, acenando de volta para Elian, com o mesmo rubor no rosto e apenas optou por sair de mansinho.

Encontrou o ancião e desculpou-se uma sequência de vezes até ouvi-lo repetir a mesma sequência que estava tudo bem, apesar de ainda reclamar que perderia um grande candidato ao cargo de governante, mas, por fim, ele se conformou e se despediu.

— Natássia certamente terá muito orgulho de você, meu rapaz. Vá em paz.

— Muito obrigado por tudo, senhor — agradeceu-o, com aperto firme de mãos.

...

Estava feliz por ter deixado a mansão sem ser abordado por mais ninguém. Porém, antes que passasse pelos portões, foi detido pela sapeca Anina, que pulara de cima do muro, e caíra bem na sua frente.

— Onde pensa que vai, cavaleiro? — perguntou ela, com seu ar desafiador, cruzando os braços no peito.

— Não quero atrapalhar as comemorações, Nina.

— Oh, que atrevido você, hein? Quem disse que tem intimidade comigo para me chamar de “Nina”?

Antes que pudesse responder, viu Ernine sair da casa e se aproximar rápido, de mãos dadas com Alexandre.

— Venha brindar conosco, Hyoga! — pediu ela.

— Ele estava fugindo, acredita, mana? — dedurou Anina.

— Fugindo? Por quê?

— É exagero dessa pirralha. Eu apenas acho que não faço parte dessa festa.

— Depois de tudo que fez por nós, Hyoga, insistimos para que fique, ao menos brinde conosco. Por favor — Alexandre também interveio.

— Eu agradeço de verdade, mas todo esse tumulto me incomoda bastante.

— Virá para o nosso casamento? — Ernine quis saber.

— Perdoe-me, ficarei devendo essa. Eu pretendo viajar o mais rápido possível. Mas prometo vir quando o primeiro bebê estiver por vir de verdade.

— B- bebê?! — Alexandre sobressaltou ao estarem cogitando aquela possibilidade tão cedo.  

As duas irmãs sorriram cúmplices, mas preferiram deixá-lo confuso.

— Posso dar o nome do meu primeiro filho de “Hyoga”, Hyoga?

— Seria uma grande honra. Se Alexandre não e incomodar.

— Não. Acho digno. Depois de tudo que fez e falou lá dentro. Devemos a nossa união à você.

Nina pigarreou, interrompendo a rasgação de seda, e chamando atenção do trio para si.

— Por um acaso vocês não estão se esquecendo que a gênia de tudo aqui sou eu, não é mesmo? — reclamou ela.

— Você fez um bom trabalho também, Xerife — Hyoga a parabenizou, retirando o chapéu dela para esfarelar seus cabelos ao fazer um afago em sua cabeça.

— Ei, ei, pare com isso! Não mexa comigo, cavaleiro! Olha que eu pego a espada do Alexandre e furo sua barriga de verdade! — ameaçou ela, fingindo apanhar a espada da cintura de Alexandre e cravá-la na barriga de Hyoga; aproveitando para tomar o chapéu de volta da mão dele.

Todos os três riram da brincadeira.

— Ernine, Alexandre, venham! O senhor Kaiovisk está chamando os dois. — gritou alguém na porta.

— Estão nos chamando, vamos. Obrigado mais uma vez por tudo que fez por nós, Hyoga.

— Não foi nada, Ernine. Boa sorte.

— Boa sorte, Hyoga — desejou Alexandre, sendo puxado pela amada.

— Obrigado. — Ele acenou em despedida para os dois, então se voltou para Anina, que não dava indícios de que iria segui-los. — E você? — perguntou Hyoga, voltando-se para Anina. — Não quer mesmo se casar comigo?

— Nem se fosse o último homem da Terra! — ela respondeu convicta, empinando o nariz.

Ele sorriu e ergueu os ombros.

— Pelo menos não diga que eu não tentei. Estou indo. A gente se vê.

— Espera!

— O quê?

— Abaixe aqui, você é muito alto, droga.

— O que foi?

— Rápido, antes que eu mude de ideia — exigiu ela, deixando um discreto rubor tingir suas bochechas.

Apesar de confuso, o loiro se curvou, achando que Nina iria cochichar alguma fofoca para ele antes de ir. Mas, ao invés disso, ela segurou seu rosto entre as mãos delicadas e após fechar os olhos fortemente, direcionou seus lábios até os dele e depositou um beijo sobre eles. O beijo foi quente, leve e rápido. Ao concluir seu intento, Anina se afastou, deu as costas para Hyoga e saiu correndo, rápido e aos pulos, em direção a casa.

— Se não der certo com a pessoa que ama lá no Japão, quem sabe eu mude de ideia e possa pensar na sua proposta. Até um dia, cavaleiro!

Hyoga ficou ereto, elevou as pontas dos dedos aos lábios, ainda não acreditando na ousadia daquela pirralha que tivera a coragem de roubar seu primeiro beijo. Sorriu constrangido, enquanto meneava a cabeça negativamente, mas passou a língua sobre os lábios e saboreou o gosto agradável e morno que ela deixara em seus lábios.

— Maldita pirralha...

Toda situação fora resolvida, não havia mais pendências para deixar. Então, era o momento certo de se despedir do seu vilarejo e seguir de volta para seu verdadeiro destino: o Japão.

Continua...

Revisão e Suporte do enredo: Nalu.

 


Notas Finais


Capítulo postado! Final do ciclo Hyoga antes da volta ao Japão. Agora nossa próxima viagem será pra Rozan, visitar o Shiryu. Então podem engavetar os casacos, chega de frio!

Obrigada todos que lerem e comentar!

Até o próximo! o/


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