História Os Garotos - Capítulo 8


Escrita por: ~

Postado
Categorias Saint Seiya
Personagens Hyoga de Cisne, Ikki de Fênix, Saori Kido (Athena), Seiya de Pégaso, Shiryu de Dragão (Shiryu de Libra), Shun de Andrômeda
Tags Romance, Saint Seiya, Vida Escolar
Visualizações 132
Palavras 7.436
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Feliz dia nacional do Yaoi!
Agradecimentos especiais para as lindas da ~avrilquem25 e ~DudsMendesDail pelos comentários.
Agradecimentos também a todos que estão acompanhando em silêncio, favoritando, curtindo de alguma forma, todo apoio é importante.
Já sabem, se puderem, comentem!
Beijos ❤

Capítulo 8 - Capítulo 08 - Reencontros - Parte III


Os Garotos

Por Andréia Kennen

Capítulo VIII

Reencontros – Parte III – Final

Shun não via seu irmão mais velho há quase um ano, era certo que para adolescentes como ele, em fase de crescimento, um ano fazia muito diferença em sua estatura, por isso ficou sem graça perante aquela observação de Ikki, de que havia crescido.

— Por que estava fugindo de mim, onii-san? — foi mais objetivo. — Você não voltou para o Japão para me reencontrar?

— Eu vim resolver um problema — Ikki contrapôs rápido e em um tom frio de voz, evitando encontrar com o olhar do mais novo.

— É assim que você me chama agora, de problema?

Ikki encarou Shun, mantendo a expressão fechada.

— Eu tenho outro problema que não seja você?

A resposta cruel fez com que Shun abrisse a boca para emitir uma resposta, porém não conseguiu dizer nada e voltou a fechá-la.

Alguns curiosos dos prédios vizinhos abriram as janelas para verificarem o que estava acontecendo e passaram a acompanhar intrigados ao que parecia ser o princípio de uma discussão entre dois jovens.

Fora a vez de Shun desviar os olhos dos de Ikki ao sentir-se completamente constrangido. Seus lábios tremeram ao segurar a vontade latente de chorar diante da aspereza do irmão mais velho. Parecia que Ikki havia se armado contra ele e não entendia o motivo.

Não se viam há quase um ano e era assim que ele o tratava?

Sentiu o peito apertar de uma forma dolorida. Abriu a boca para tentar emitir uma resposta novamente, mas a voz não saiu. Quando deu por si sentiu os olhos marejarem. Mesmo havendo trabalhado uma forma de controlar suas emoções e não se desmanchar em lágrimas diante do irmão, para evitar chateá-lo, notou-se incapaz de fazê-lo.

Ikki percebeu que estava prestes a presenciar mais uma cena de choro do irmão caçula e se frustrou, achou que Shun tivesse amadurecido um pouco naquele ínterim, todavia...

— Escuta, Shun. Se for começar a chorar me avise, que eu vou embora, não voltei para o Japão para ficar assistindo suas crises de choro.

Aquelas palavras foram o estopim. Mesmo que Shun não quisesse e estivesse se esforçando para que as lágrimas não descessem, não conseguiu mais, elas vieram rápidas. Tentou disfarçar, limpando o rosto com ambas as mãos, mas a única coisa que conseguiu foi inchar e avermelhar ainda mais sua bela e feminina face.

O ex-cavaleiro da armadura de Fênix fez uma careta de repulsa e, como prometera, enfiou as mãos nos bolsos da calça e passou a caminhar.

— Quando aprender a conversar normalmente como um adulto e não ficar apenas se desmanchando em lágrimas como uma criança, eu volto para conversarmos — declarou ao passar por ele.

A dor apenas piorou. O choro aumentou e junto com ele vieram os soluços. Shun virou-se depressa e estendeu uma das mãos na direção de Ikki, queria gritar para que o irmão esperasse, para que ficasse mais um pouco, para que tivesse paciência, mas novamente foi em vão, apenas se conformou enquanto deixava-se tomar completamente pelo pranto.

...

Mesmo depois de toda a insistência de Kally, Hyoga se despediu da amiga atriz de Shun dizendo que iria se hospedar na casa de Seiya.

Não conseguiu se despedir do amigo Shun apropriadamente, pois ele se trancou no quarto depois que chegou do encontro com Ikki.

Era fácil deduzir que o reencontro entre eles havia sido um fracasso mesmo Shun não tendo dito uma palavra. Jamais esperaria um comportamento afetuoso daquele que fora o mais frio entre eles e não entendia porque o amigo continuava sofrendo por nutrir expectativas desnecessárias em relação ao mais velho.

Determinou que Shun precisava de um tempo sozinho, pois como voltara para o Japão com a intenção de se instalar definitivamente, teria outra oportunidade de conversar e matar saudades do amigo. Principalmente, depois que ele estivesse recuperado daquele baque, e o assunto sobre o telegrama fosse resolvido.

Seu próximo destino fora o Cais do Porto, no pequeno imóvel onde Seiya vivia.

O reencontro com Seiya e Shiryu foi moderado. Cumprimentaram-se apenas com apertos de mãos firmes e depois de acomodado, Hyoga narrou aos dois o ocorrido entre Shun e Ikki.

A notícia abalou Seiya, que não culpava Shun por idealizar viver como uma família ao lado do único ente vivo que ele ainda tinha. E, se os dois Amamiya, que eram ligados pelo sangue, estavam com os laços enfraquecidos daquele jeito, ele não conseguia imaginar como sua proposta, — a de morarem juntos na antiga sede do orfanato — pudesse ser melhor aceita.

A cabeça de Seiya chegou a pender em direção ao peito, ele estava sentado em sua cama de solteiro, com as mãos entrelaçadas e os cotovelos apoiados sobre as coxas, sentiu um peso imenso em seus ombros.

Foi quando a presença dos amigos o reconfortou. Hyoga sentou-se do seu lado esquerdo e firmou a mão em seu ombro, Shiryu fez o mesmo do lado direito. E, como mágica, o peso aliviou-se.

— Fique firme, Seiya — pediu Hyoga. — Você é o mais confiante de nós, se o brilho do seu olhar ser perder aí sim nós ficaremos sem esperanças.

— Além disso — Shiryu tomou a palavra. — Mesmo que Ikki seja contrário a nossa proposta, ainda restaram nós três. Poderemos formar uma família do mesmo jeito.

— Não, Shiryu — Hyoga irrompeu com um olhar firme no amigo. — Nós quatro — afirmou ele. — Tenho certeza, mesmo que Ikki não aceite a proposta de morarmos juntos como uma família, se conversarmos com Shun, ele virá para o nosso lado.

Os três sorriram após aquela constatação e o brilho dos olhos de Seiya se reascendeu como a chama crepitante que sempre fora seu cosmo.

...

Kallya estava inquieta em sua escrivaninha, batendo com a caneta de tubo de acrílico transparente na base de madeira do móvel, enquanto repassava o script da próxima gravação. Por mais que quisesse se concentrar e decorar suas falas, o texto parecia não permear sua mente.

E, para dispersar de vez com sua tentativa de concentração, ouviu o barulho da maçaneta da porta se mover, o que chamou sua atenção para o patamar pintado nas cores branco e rosa. Porém, sua expressão curiosa e apreensiva se esmoreceu ao ver a cabeça do pai apontar no pequeno vão que se abriu.

— Papai, quantas vezes preciso te dizer que não se entra no quarto de uma garota sem bater?

— Desculpe-me, anjo. Estava tão quietinha aí dentro que achei que estivesse dormindo e não quis fazer barulho para acordá-la. Posso entrar?

— Fazer o quê, né? Você vai entrar de qualquer jeito — ela deu de ombros e voltou-se para o encadernado sobre a escrivaninha.

Soujiro sorriu, tentando evitar se chatear com a aspereza da filha. Optava sempre por culpar a puberdade por ter levado sua doce menininha e ter deixado aquele monstrinho no lugar.

— É impressão minha, ou ficou decepcionada ao ver seu pai?

— Só pensei que fosse o Shun — ela confessou sem rodeios.

— Ele ainda não saiu do quarto?

Kallya meneou a cabeça negativamente.

— Não se preocupe, querida. Há momentos que nós rapazes precisamos ficar sozinhos para colocar as coisas que estão ficando bagunçadas em nossa cabeça na ordem.

— Então, por que estou me sentindo tão inquieta com relação a isso, papai?

— Talvez seja porque Shun esteja prestes a tomar um novo rumo em sua vida.

A adolescente arregalou os olhos em surpresa depois daquela observação feita de maneira simplória pelo pai. No entanto, logo eles se mortificaram e ela se encolheu na cadeira. Era exatamente aquilo que ela tanto temia.

O pai de Kallya compreendeu rápido o que estava acontecendo. Vivia reproduzindo para as telas situações idênticas. Mas agora que acontecia na vida real, não sabia bem como reagir. A filha estava com medo de perder seu primeiro amor, e devia explicar para ela, sem machucá-la, que o amor não se perde, pois ele é livre, assim como as escolhas. E que mesmo ela nutrindo aquele sentimento especial por Shun, era preciso permitir que ele seguisse suas escolhas sem pressão de terceiros.

Aproximou-se da jovem com cuidado e repousou as mãos sobre os ombros dela, fazendo uma leve massagem em seus ombros rijos, notando o quanto ela estava mesmo tensa.

— Sabe, minha filha, eu aprendi a amar o Shun como um filho. Ele é um bom menino, aplicado e honesto. Certamente ele é para mim o filho que eu não pude ter com sua mãe porque ela se foi. Entretanto, eu sempre soube que ele não pertencia a nossa família. Não por não sermos ligados pelo sangue, mas porque essa foi a opção dele. Você se lembra do que ele respondeu quando eu quis adotá-lo?

Kally sorriu um tanto contida, seus ombros se retesaram ainda mais, e ela largou a caneta sobre o script encadernado, enquanto sentia o amargor daquela recordação.

— Ele chorou muito, muito mesmo — respondeu e soltou um suspiro em seguida. — Agradeceu várias vezes, mas disse que teria que recusar, pois já tinha uma família. E se ele aceitasse fazer parte da nossa, estaria abrindo mão do laço que tinha e o qual ainda queria resgatar com o irmão.

— Exato. E esse momento chegou. O momento que Shun pode reatar e fortalecer esse laço enfraquecido com o irmão. E, minha querida, se o amamos como amamos, não podemos tornar as coisas mais difíceis para ele agora.

Lágrimas brotaram nas margens dos olhos castanhos da jovem estrela, enquanto ela sentia o rosto abrasar. Era preciso ser forte — repreendeu-se em pensamento, para em seguida respirar fundo, engolindo o desejo intenso de chorar.

— Eu até quero entender, papai. Mas eu me preocupo tanto. Será que o Shun vai mesmo ficar bem? — perguntou, após um tempo em silêncio. — Será que essa escolha é mesmo a mais certa? Eu o achei tão estranho.

— É normal que Shun fique um pouco estranho nesse estágio. Há muitas coisas passando por sua...

— Não, papai! — ela interrompeu o mais velho com aquela exclamação e voltou-se para ele, fazendo-o tirar as mãos dos ombros dela ao girar na cadeira. — Estou falando dele, do irmão — ela retificou. — O tal Ikki me pareceu tão estranho. Ele parece um mafioso, com uma cicatriz no meio dos olhos, algo que torna sua expressão mais fechada. Ele tem um jeito de falar todo durão, sabe? Eu o vi e interagi com ele muito pouco, mas esse pouco foi suficiente para notar o quão diferente esses dois irmãos são. O Shun sempre foi tão amável e tão doce. Será que ele ficará mesmo bem ao lado de um homem como aquele?

O pai-diretor estava pensando em uma resposta para dar a filha quando batidas de leve na porta chamou a atenção de ambos. Pai e filha se entreolharam e rapidamente se colocaram de pé, indo em direção da porta.

Assim que esta se abriu e revelou o jovem de cabelos castanhos e olhos verdes, o coração de Kallya disparou. Shun estava vestido com pijama, seus olhos estavam vermelhos e a região abaixo deles levemente inchada. Era certo que ele estivera chorando desde que chegou do encontro com o irmão.

— Você está bem, Shun? — Soujiro perguntou apreensivo.

— O que está sentindo, Shun? — Kallya também o questionou, a preocupação aumentando o brilho e o tamanho dos seus olhos.

Shun meneou a cabeça positivamente.

— Eu estou bem, obrigado — ele deu aquela resposta mecânica, mesmo que parecesse o contrário. — Eu... — Shun apertou as mãos umas nas outras em sinal claro de nervosismo, engoliu em seco, então tomou coragem para continuar. — Gostaria de falar com o senhor e com a Kally, Soujiro-san. Seria possível?

— E você ainda pergunta, meu filho?

— Entre logo, Shun — Kally puxou-o pela mão e sentou-a na cama.

A jovem atriz se acomodou na mesma cadeira em que estava antes, apenas a puxou para mais próximo de Shun, enquanto o pai apanhava um dos seus puff e o trazia também para perto da cama, acomodando-se sobre ele em seguida.

Diante dos olhos atentos do diretor e da sua filha, Shun narrou como foi o encontro com o irmão e sobre a forma áspera que ele o tratou. Também falou de sua insegurança e de como se sentiu magoado quando Ikki simplesmente virou às costas para ele e foi embora.

O diretor ouviu tudo atentamente, com os braços cruzados no peito. Quando Shun deu a entender que havia concluído a narração, ele subiu uma das mãos para o queixo o qual passou a alisar. Kallya estava inquieta ao seu lado e dava para notar pelo tremor que a percorria que a filha estava prestes a explodir e dizer as verdades que achou do tal irmão mais velho.

Mas Soujiro impediu que ela iniciasse seu discurso de indignação ao repousar sua mão sobre uma das pernas da menina e fazer um gesto de pedido de silêncio com a outra. Shun estava de cabeça baixa, por isso, não percebeu a troca de olhares efusiva entre os dois.

Após conter a explosão de Kally, o diretor se voltou para Shun, notando que ele recomeçava a secar os olhos com as costas das mãos e soluçar baixinho. Suspirou fundo e resolveu se manifestar.

— Você está enganado, Shun — Soujiro declarou, chamando a atenção dos olhos verdes de Shun para si.

Até Kallya se surpreendeu.

— Como assim, papai?

— Veja bem — o homem gesticulou, os olhos fixos em Shun. — Não é que seu irmão não o ame. Se esse jovem, Ikki, não é? Se ele realmente não o amasse, ele não teria se preocupado com você ao ponto de vir até aqui confirmar em que situação está vivendo. O que eu imagino, Shun, é que na verdade, ao chegar aqui e se deparar com o lugar confortável em que você está acomodado, ele tenha se sentido inseguro. Imaginou, creio eu, que nós, seus tutores atuais, tivéssemos bem mais a oferecer do que ele poderia.

Shun pensou por um instante, até conseguir se manifestar.

— Mas, isso é bobagem, Soujiro-san! Eu jamais trocaria meu irmão por conforto algum, o Ikki sabe muito bem disso.

— Você sabe e seu irmão sabe, Shun. O problema aqui não é uma questão de ter consciência dos sentimentos um do outro. A questão é saber sobre o que é melhor para você. Talvez, exatamente por saber que você escolheria viver uma vida desconfortável ao lado dele, ao invés de continuar com o luxo e o conforto com a família que está cuidando de você atualmente, que Ikki tenha optado por ser mais duro e cruel nesse encontro. Seria bem mais fácil você aceitar e continuar na condição que se encontra se sentisse mágoa e raiva dele.

O esclarecimento atingiu Shun como se tivesse levado um tapa. Algo que fez com que suas bochechas corassem, especialmente ao ser invadido por aquela sensação forte de alívio. Ikki o amava no final das contas?

Sua alegria foi tanta que ele saiu da cama, ajoelhou-se no chão acarpetado do quarto de Kally e abraçou-se a silhueta do diretor, escondendo sua face envergonhada de excitação no peito dele.

— Obrigado, Soujiro-san. Muito obrigado por esse esclarecimento. Por tudo.

O homem sorriu e acariciou o topo da cabeça do adolescente. Afagando com cuidado os cabelos macios e volumosos que ele tinha.

Kally apenas assistiu em silêncio. Impotente diante dos acontecimentos. Ela imaginou que era exatamente por momentos como aquele que os adultos existiam. Ela jamais conseguiria ter enxergado por si só aquela perspectiva do ocorrido com Shun naquela manhã.

Agora a escolha estava de volta às mãos do amigo. E, somente por aquele agradecimento emocionado dele ao pai, Kallya conseguia deduzir qual seria a próxima ação de Shun e não conseguiu evitar sentir aquela dor aguda no peito.

...

No outro dia, Shun tirou uma folga no trabalho e Kally foi com o pai para o estúdio de gravação. Assim que as cenas dela foram concluídas, a atriz se despediu do mais velho e disse que iria almoçar em casa.

Ao chegar no apartamento sentiu o aroma bom de comida dançando no ar e concluiu que Shun havia preparado o almoço.

— Estou em casa — ela anunciou, tirando os sapatos e deixando-os na soleira da porta.

— Seja bem vinda de volta, Kally.

— Onde você está, Shun?

— No quarto.

— Estou indo aí.

— Pode vir.

Passou pela sala, entrou no corredor e parou diante da porta toda branca do quarto de Shun. Segurou a maçaneta com cuidado e, antes de invadir, deu duas batidas de leve na madeira, como se pedisse licença.

— Entre — Shun autorizou, a voz abafada por estar fechado do lado de dentro.

Kally, repetindo o gesto do pai na noite anterior, colocou apenas a cabeça para dentro do cômodo do rapaz e o encontrou em pé diante do espelho da parede, escovando os cabelos.

— Olha só. Está elegante, hein? Aonde o senhor pensa que vai assim?

— A advogada daquele telegrama convocou a mim e aos meus amigos para uma tal de “audiência de conciliação”.

— Sério?

— Sim. Entre, Kally — Shun repetiu ao ver que a amiga continuava na porta. — Você sempre invade sem bater, não estou entendendo o motivo da formalidade.

A menina fez um bico de contrariedade com os lábios ao ser chamada indiretamente de “indiscreta” e adentrou o quarto em seguida.

— Ora, eu só não queria flagrá-lo sem roupas de novo.

Shun sorriu em concordância e mudou de assunto.

— As gravações terminaram cedo hoje, não foi?

— Sim. A minha parte, pelo menos. Mas o papai continuou lá para gravar a cena da conversa dos pais da Megumi com ela.

— Ah, então é hoje que eles terão a tal conversa? Eu queria ver essa gravação.

— Hm — ela confirmou. — Mas você sabe o que vai acontecer, Shun. Passamos todo script desse arco juntos.

— Sim, eu sei. Mas o arco está terminando e eu não me conformo com a ideia de a Megumi aceitar a proposta dos pais e ir estudar fora. Está na cara que é uma estratégia deles para afastar a filha do Sora.

Kally suspirou.

— Concordo.

— Se isso acontecer, e com a Megumi longe, o Hiei vai dar um jeito de se aproximar do Sora.

— Sim, certamente. Mas você se esqueceu do detalhe que o meu personagem, o Sora, é uma garota disfarçada de menino, não é? É bem mais natural que “a” Sora dê uma chance para “o” Hiei e esqueça “a” Megumi de vez.

Kally se surpreendeu quando Shun voltou-se rápido para ela e a encarou com mágoa no olhar, como se ela tivesse dito um absurdo.

— O que foi?

— Eu sei que é estranho... São duas garotas. Mas... dá para notar que existe um sentimento verdadeiro entre elas. Não é só a Megumi que ama a Sora. A Sora também ama a Megumi. Acho triste o fato de elas não poderem viver esse amor só porque são duas garotas.

Kally abriu a boca, mas voltou a fechá-la, não encontrando argumento para contradizer a explicação de Shun. Não deveria haver barreiras quando o amor é verdadeiro, é isso que o amigo estava tentando dizer. E era por aquele motivo que ela o amava tanto. A pureza dos sentimentos de Shun era tão palpável, mesmo quando o assunto era uma obra de ficção, que eram dignos de admiração. Os lábios dela se curvaram em um sorriso singelo e ela decidiu consolá-lo.

— Não fique assim, Shun. O seriado ainda não terminou. Vamos torcer para que a Megumi volte disposta a reconquistar a Sora no próximo arco, né?

A fala animada de Kally, junto com aquele piscar de olhos cúmplice, reascendeu o brilho nos olhos de Shun que assentiu animadamente com a torcida.

— Vamos!

— Certo. Agora vem, vamos almoçar, estou faminta.

— Mas eu estou sem fome, Kally. Comi um sanduíche mais cedo e o meu estômago está revirando desde então. Eu cozinhei com a intenção de deixar pronto o jantar, mas já que você veio, pode ficar a vontade. Apenas armazene tudo na hora que terminar.

— Está nervoso com a reunião?

— Um pouco.

— Eu entendo. Não é bom mesmo empurrar comida para o estômago quando se está tão nervoso.

— Sim, e eu estou de saída também — disse Shun, guardando a escova de cabelo dentro de uma das repartições do guarda-roupa e apanhando do mesmo local a carteira e a chave do apartamento, os quais ele guardou em um dos bolsos da frente da calça jeans. — Quero ir cedo para não correr o risco de acontecer algum contratempo no caminho e eu chegar atrasado.

— Você é mesmo todo certinho.

Shun sorriu para observação feita pela a amiga e seguiu em direção da porta do quarto, Kally o acompanhou. Os dois andaram em silêncio até o hall do apartamento, onde Shun sentou-se na parte elevada da soleira e calçou os tênis que estavam ali.

— Estou indo. Torça por mim, Kally — ele pediu ao se levantar.

— Hm — ela anuiu um pouco apática, sentindo seu coração retomar o ritmo acelerado. — Shun?

— Hã?

A adolescente ficou em silêncio. A conversa que tivera com o pai fora esclarecedora no sentido de conscientizá-la que não deveria expor seus sentimentos naquele instante, pois poderia interferir na escolha de Shun. Entretanto, era difícil para ela simplesmente se conter e deixar que Shun escapasse por entre seus dedos sem fazer nada, sendo que ele estava tão ao seu alcance.

— Você parece chateada. Tem algo te perturbando, não é, Kally? Se quiser conversar, ainda tenho um tempo e...

— Não! — ela o interrompeu abruptamente. — Você não vai correr risco de chegar atrasado por minha causa. Eu estou bem. Apenas... — Kally parou, pensou, suspirou fundo e abrindo seu melhor sorriso, perguntou: — Posso te dar um beijo de boa sorte?

— Claro.

A resposta foi dada tão depressa que a atriz não conseguiu evitar o constrangimento e o aquecer em suas bochechas que certamente as deixaram coradas.

Ela encarou Shun pela primeira vez de um jeito diferente, não como amigos, nem como irmãos, muito menos como colegas de trabalho, mas deixou-se vê-lo como homem, como o seu primeiro amor.

Shun exalava um aroma adocicado de perfume e cremes pós-banho, o cabelo e a roupa estavam bem alinhados. Ele vestia uma camisa branca, sobreposta por uma quadriculada com listras em variados tons de verde, a calça jeans convencional e o tênis Keds de estampa preta conferiam-lhe um visual limpo e harmônico.

Apesar de terem a mesma idade, Kally percebeu o quanto eram diferentes, começando pela estatura, mesmo ela estando um degrau acima, Shun continuava bem mais alto que ela. Além disso, o amigo tinha um rosto delicado, a pele branquinha, os lábios e o nariz pequenos, os cabelos castanhos claros naturais e para completar sua bela tez ainda havia aquele par de olhos grandes, de um surpreendente tom verde claro. Algo considerado raro mesmo entre japoneses mestiços.

E ela tinha uma certeza: se o amigo não se escondesse diariamente atrás de um boné e do jaleco do trabalho, seguramente ele já teria recebido inúmeras propostas para se tornar modelo.

Mas, acima da aparência, Shun tinha algo maior: uma aura brilhante, uma personalidade cativante por ser sensível, educado, gentil, atencioso e inteligente. Não precisava procurar um motivo que justificasse sua paixão, pois poderia passar o dia inteiro elencando vários motivos.

Suspirou uma última vez e, mesmo abalada por um leve tremor de ansiedade, a jovem atriz apoiou as mãos nos ombros de Shun, elevou um pouco os pés descalços e alcançou a bochecha dele, onde depositou um beijo com os olhos fechados. Seu coração bateu ainda mais aturdido ao sentir a maciez da pele dele sob seus lábios e o perfume adocicado se tornar mais forte.

Afastou-se devagar, tentando conter a ebulição dos seus sentimentos que pareciam querer explodir.

— Boa sorte — desejou ela por fim, retomando a compostura.

Shun assentiu com gentileza e sorriu o sorriso mais doce que pode, se despedindo em seguida.

— Ittekimasu[1].

— Iterasshai [2] — ela respondeu assim que a porta se fechou, deixando que o peso em seus ombros tornasse sua postura menos ereta.

Não se sentia muito confiante quanto ao retorno de Shun. Por isso não conseguiu dizer um “iterasshai” sincero e animado.

— Kally? — a voz do amigo a surpreendeu.

Shun ainda estava do lado de fora.

— H- hai?

— Obrigado.

Ela sorriu e as lágrimas enfim a venceram, mesmo que ela não quisesse deixá-las cair era difícil controlar.

Os passos apressados no corredor depois do apito barulhento do elevador a fez entender que Shun finalmente havia ido. Então resmungou sozinha, permitindo-se chorar mais alto.

— Não se despeça ainda, baka[3].

...

Uma conversa animada se instaurou na área de espera que antecedia a sala de audiência do Fórum de Pequenas Causas. A audiência estava marcada para as 15h30 e o relógio da parede marcava 15h20. Todos os adolescentes ali presentes conversavam entre eles causando um pegando tumulto.

Seiya parecia o mais nervoso e não parava de falar com Shiryu de forma afobada, emendando uma fala na outra e não dando espaço para que o chinês respondesse. Shiryu, por sua vez, tentava acalmar a agitação do amigo pedindo que ele se acalmasse e falasse mais baixo e devagar.

Hyoga conversava de forma comportada com Shun, o mais novo narrava ao amigo loiro a conversa que tivera com o diretor Soujiro e sua filha na noite anterior.

Ikki também estava presente e era o único afastado do grupo. Ele estava acomodado próximo da advogada Kanagawa, nas cadeiras na frente da sala de audiência e era com Ikki que a defensora trocava uma observação ou outra. Tais como: “O grupo deles seriam os últimos a serem atendidos naquele dia”, “O lugar está ficando vazio”, “Está quase na hora”, “O ar condicionado parece que está na potência máxima, isso aqui está um gelo”, “A máquina de bebidas tá quebrada” e para todas as observações feitas, Ikki respondia o mesmo e monossilábico: “hm”.

Também estavam presentes no local Tatsumi, o mordomo da senhorita Kido, certamente assumindo o papel de preposto da mesma, e ao lado dele um senhor alto, de bigode fino, o qual aparentava ser o advogado da fundação.

Havia passado uns quinze minutos do horário agendado da audiência, quando a porta, aonde ocorriam as sessões, se abriu e o pequeno grupo que estava lá dentro se dissipou no salão. Na sequência eles foram anunciados por um jovem que segurava uma prancheta. Esse rapaz foi quem os encaminhou para o interior da sala e pediu que se acomodassem, organizando-os. Do lado direito da mesa retangular ficaram os cinco rapazes, ex-residentes do Lar Starlight e a defensora pública deles, Erika Kanagawa. Do lado esquerdo ficaram os representantes da Fundação Kido. Na ponta da mesa se encontravam em uma bancada com o Juiz Principal, ao centro, do lado direito dele o Juiz Auxiliar e do lado esquerdo o redator.

Após os cumprimentos formais e a leitura da minuta inicial da audiência, o juiz deu direito de voz a defensora.

— Bem, meritíssimo, como redigi na minha petição inicial, estou intervindo a favor desses cinco jovens pelo direito adquirido deles à antiga residência onde funcionou o Lar de Adoção onde os mesmos residiram quando crianças. É algo que está em cláusula do próprio Estatuto da Fundação Graad e...

— Exatamente — o advogado de Saori posicionou-se, interrompendo a fala da advogada mais jovem. — E se é um direito adquirido, a Fundação Graad não irá negar o fato. Bastávamos ter resolvido a situação indo a um cartório e tomado as devidas providências.

— Sensei[4] — irritada com a intromissão, Kanagawa se deu ao direito de interromper o advogado mais velho e ainda usar o termo “sensei” para denotar o fato de que ele era bem mais velho que ela. — Se fosse só por esse motivo, não teria perdido tempo convocando uma audiência.

— Oh, a jovenzinha tem uma língua afiada.

O meritíssimo bateu o martelo de madeira no apoio na base em sua mesa e os quatro mais jovens se entreolharam apreensivos.

— Vamos manter o nível profissional, por favor, senhores — pediu o Juiz.

Ikki sorriu de lado, a fala ferina da advogada chamou sua atenção. Ela recordava-o às amazonas do Santuário. Apesar de bela na aparência e de ela parecer jovem, a mulher era ousada e afiada.

Tatsumi, por sua vez, tentou, mas não conseguiu segurar as caretas que fez para a mulher que respondia pelo grupo de rapazes.

“Tão irritante quanto esses cinco impertinentes!” reclamou ele em pensamento.

— Pois bem, Kanagawa-sensei — ponderou o advogado da Fundação, tratando a defensora de forma mais respeitosa. — Exponha-nos as suas exigências.

— Obrigado, sensei — ela respondeu e direcionou-se ao juiz. — Meritíssimo, verificando as documentações desses cinco jovens aqui presentes, percebi que os mesmos estiveram ausentes do Lar Starlight durante um período de seis anos. É um período bem grande para cinco crianças ficarem fora, não acha? Então, talvez, o Sr. Tatsumi, representante da Fundação Graad aqui, possa nos esclarecer o motivo desse estranho ocorrido?

Tatsumi não esperava responder perguntas sobre o Programa de Aprendizes de Cavaleiros, visto que seu mestre o havia condicionado em segredo e, por esse motivo, seu rosto empalideceu diante da pergunta e do olhar desafiador da defensora em si. Ficou ainda mais tenso quando os demais olhares curiosos se voltaram para ele, inclusive dos dois juízes.

E, se não fosse o advogado de Saori intervir friamente por Tatsumi, ele teria confessado facilmente algo que, precisamente, Mitsumasa Kido havia feito às costas da lei.

— Acho que questões administrativas do Lar Starlight não venham ao caso no momento, meritíssimo. Não estamos aqui para revirar o passado que já se foi, e sim para decidir questões atuais e futuras, as quais são mais relevantes para esses cinco jovens, não é mesmo, Kanagawa-sensei?

A mulher assentiu com um sorriso enviesado brilhando em seu rosto, agora sabia que podia fazer suas exigências sem receios de receber negativas.

— Exato. Bem, vamos apenas relembrar o fato de que, esses cinco rapazes ficaram longe da escola durante seis anos e, por esse fato, não tiveram uma educação apropriada. Por esse motivo, não tiveram a oportunidade de se integrarem a sociedade e hoje nenhum deles tem condições de pleitearem bons empregos ou até uma mesmo a admissão em uma universidade. Todavia, quatro deles ainda estão em idade escolar, e o meu desejo, como defensora desses rapazes, é que a Fundação arque com essa responsabilidade e forneça uma ajuda de custo mensal, suficiente para esses rapazes manterem suas necessidades básicas até concluírem os estudos, inclusive o universitário, além de uma quantia indenizatória de Dois Milhões[5] de Ienes para que eles possam se restabelecer de imediato na nova residência.

— Protesto! — irrompeu Tatsumi fervoroso. — Escute aqui, senhorita, podemos concordar em arcar com as despesas deles até concluírem o ensino básico, pois é sim, responsabilidade da nossa Fundação suprir esses jovens até a entrada na vida adulta. Mas, não temos nada em nosso Estatuto que nos obrigue a arcar com essa despesa até a universidade, além dessa quantia é absurda!

— Senhor Tatsumi, não é absurda, visto o tamanho do patrimônio dos Kido hoje. Poupe-me, desse teatro, por favor.

— Teatro?! — o tom de revolta fez o mordomo apontar o dedo para advogada. — Como ousa sua...

— Tatsumi-san, mantenha a postura, por favor — pediu o advogado da Fundação, repousando a mão na perna do mordomo e dando-lhe um beliscão de leve na coxa. — Tenha certeza que a senhorita não irá gostar nada de saber que viemos para um acordo e voltamos com a instauração de um Processo, não concorda?

A energia fugiu da expressão do mordomo ao recordar-se da sua ojou-sama[6] e o quanto era impiedosa quando irritada. Engoliu em seco e permitiu ao advogado que negociasse sozinho.

— Fique a vontade, Osamu-sensei — ele concordou.

— Obrigado — disse ao mordomo e voltou-se para advogada. — Senhorita, qual o custo mensal que teremos?

— Fiz as contas do básico, duzentos mil ienes por mês, em torno de quarenta mil ienes[7] para cada.

— Senhorita, analisemos o seguinte: somente um membro da família recebe remuneração: o pai. Em algumas ocasiões o pai e a mãe, os filhos normalmente não possuem renda própria até ingressarem no mercado de trabalho. Baixemos esse valor de duzentos mil para oitenta mil, considerando que essa seria a remuneração que um pai e uma mãe teriam em uma família convencional.

— Sensei, não estamos falando de uma família convencional. E, se estivéssemos, ainda assim, não caberia essa conta, pois uma família convencional é formada em sua grande maioria por três membros, no máximo quatro: pai, mãe, o primeiro filho e em alguns casos um segundo filho. Se uma família ter o terceiro filho recebe um subsídio do governo. Estamos falando de uma família que será de cinco membros. Além disso, existe outro “porém”. Se todos os cinco rapazes tivessem sido adotados por alguma família, o governo estaria custeando a família com um subsídio também[8].

— Mas ninguém pode garantir que todos eles estariam adotados. Então que tão baixarmos esse valor em cinquenta por cento?

— Isso não é um leilão, sensei. Estamos falando do bem estar e da reintegração social de cinco crianças. É um custo necessário para educação dos mesmos.

— “Rapazes”, senhorita — o advogado a corrigiu. — “Adolescentes” no máximo. Nota-se que todos são bem grandinhos e encorpados, seriam confundidos com adultos facilmente. Além disso, podemos entrar com recurso para isentá-los da taxa escolar.

— Mas ainda não são adultos, pois o que manda é a idade. — A advogada voltou-se para o juiz. — Meritíssimo, é a minha palavra final. Mesmo que esses rapazes não precisem pagar a mensalidade escolar eles precisarão de móveis, de uma reforma naquela residência que está em péssimo estado, uniformes, material escolar, tudo isso vai custar dinheiro e não vai sair barato. Ademais, estou pedindo uma quantia insignificante diante do patrimônio bilionário da Fundação Graad.

O Juiz voltou-se para o preposto e o advogado da Fundação.

— Estou de acordo com a proposta imposta pela defensora. Senhores, o parecer de vocês?

Minutos mais tarde a audiência foi dada por encerrada e o grupo foi liberado. Tatsumi saiu da sala emburrado, mas o advogado da fundação parecia orgulhoso ao encarar a defensora dos rapazes.

— Foi uma ótima defesa, Kanagawa-sensei. Argumentos firmes, postura reta. Estou orgulhoso.

— Obrigado, sensei — ela o reverenciou. — Tive bons mestres, não é?

— Então essa petulante foi sua aluna? — Tatsumi irrompeu a conversa amistosa furioso.

— Sim, Tatsumi-san, uma das mais brilhantes — respondeu o advogado sem nenhuma cerimônia.

— Deu para notar — o mordomo concordou com um bico imenso nos lábios.

Tatsumi e o Senhor Osamu se despediram da defensora e Erika se reaproximou do grupo de rapazes que estavam reunidos no salão, ainda incrédulos na vitória. Eles haviam conseguido não só a residência onde funcionou o antigo Lar Starlight, mas sim uma indenização de Dois Milhões de ienes e um subsídio mensal até se formarem.

Para quem até aquela manhã não dispunha de nada de poder aquisitivo, agora eles poderiam até desfrutar como jovens da classe média. Principalmente, se souberem administrar corretamente o dinheiro. Nesse quesito, Erika ainda pensava em orientá-los da melhor forma.

— Devem estar cansados, não é? A sessão foi um pouco tensa e desgastante. Mas vencemos, então deu tudo certo.

— A senhorita foi incrível! — exclamou Seiya. — Apesar de não ter entendido quase nada do que aconteceu ali dentro.

Hyoga deu um safanão na cabeça de Seiya.

— Ai! Isso dói.

— Como pode alegar que ela foi incrível se você nem sabe o que aconteceu, Seiya, seu idiota.

— Ah, Hyoga, me deixa! Ora, deu para deduzir pela cara que o careca do Tatsumi fazia — respondeu malcriado e ainda mostrou língua para o loiro.

Todos riram.

Erika ainda pensou com ela mesma que, apesar das aparências, eles ainda eram crianças.

— Bem, de qualquer forma, foi mais uma etapa vencida. Agora só precisamos formalizar tudo e...

— Então, minha parte aqui está concluída? — interrompeu o membro mais afastado do grupo. — Já posso ir embora?

— Você parece um pouco nervoso, Amamya-san? Não estou entendendo — observou a doutora. — Eu sei que foi cansativo, eu vou liberá-los e...

— Não, a senhorita não entendeu, não estou falando em ir embora desse lugar, estou falando de ir embora do Japão. Eu não pretendo ficar aqui nem mais um segundo, só vim resolver esse problema e vou voltar para onde estava.

— Espera um minuto, Amamya-san, do que está falando? O acordo foi fechado entre vocês cinco. Você precisa ficar.

— Podem passar tudo que estiver em meu nome para o meu irmão.

— Eu não quero! — gritou Shun, de repente, chamando atenção de todos. Os olhos verdes brilharam devido as lágrimas que se formavam, mas ele segurou bravamente o choro. — Eu não quero dinheiro nenhum, Ikki. Eu não sei da onde você tirou essa ideia idiota de que conforto e dinheiro são melhores do que o amor. Você sempre foi ambicioso, mas eu não. Eu apenas amo você. Somos irmãos de sangue e a única coisa que desejei durante esses seis anos de treinamento, os dois que estivemos em guerra e esse um ano que retornamos cheios de sequelas dessa guerra, era poder estar com você. Tudo que eu sempre quis foi isso. Nada mais. Não sei se vamos viver em uma mansão ou embaixo da ponte, se eu estiver com você, Ikki, nada mais me importa.

Após aquela declaração o silêncio perdurou por alguns instantes até que Seiya irrompeu explosivo.

— Você sempre chama os outros de vermes, mas quem é um verme é você, Ikki. O que ganha fazendo isso, hã? Como é capaz de ser tão perverso? O Shun é seu irmão de sangue. Nós somos seus irmãos de consideração, somos sua família! Será que não sente um pingo de compaixão dentro dessa pedra que tem no lugar do seu coração? Você está destruindo não só os sonhos do Shun de ter uma família, mas o de todos nós!

— Seiya tem toda razão, Ikki — Shiryu apoiou o discurso do amigo. — Você não tem o direito de fazer o Shun sofrer dessa forma. Muito menos de destruir nossos sonhos do jeito frio que está fazendo.

— Você não deve ter ouvido o que o Seiya acabou de dizer, Shiryu — complementou Hyoga. — Este homem não tem um coração e muito menos uma pedra no lugar dele, porque até mesmo uma pedra teria mais sentimentos do que ele. Dentro desse peito só há um espaço vazio. Um buraco negro.

Ikki delineou um sorriso amargo no rosto e o sangue de Seiya ferveu, fazendo-o avançar para cima do ex-combatente e ele só não concluiu seu intento de socá-lo porque foi detido por Shiryu.

— Se acalme, Seiya — pediu o chinês. — Está louco! Vai começar uma briga logo aqui dentro?

— Eu vou acabar com a raça dele, Shiryu, me solte!

— Seiya, cale a boca — pediu Ikki, chamando a atenção de todos, dando um riso que pareceu um esturro e que confundiu os demais, pois parecia debochado ao mesmo tempo em que amargo. — Vocês já disseram o que queriam agora quem vai falar sou eu — declarou. — Quem são vocês para dizer o que tenho ou não direito de fazer com o meu irmão? Vocês acham mesmo que eu não tenho um coração?

O silêncio permaneceu intacto na sala. Ikki continuou.

— Eu amo o Shun como nunca vou amar ninguém na minha vida. Esse amor fraternal é como um laço amaldiçoado que nos une enquanto estivermos vivos. E é exatamente por amá-lo que sei o quanto eu só faço mal para ele. E sei perfeitamente bem que é por minha culpa que as malditas lágrimas de Shun sempre teimam em cair.

Seiya fez menção de interromper, mas Ikki expôs a palma de sua mão para o ex-companheiro de bronze, fazendo um gesto para que ele parasse onde estava.

— Eu ainda não terminei — Ikki engoliu o nó que se formou em sua garganta e deu continuidade. — Eu obriguei Shun a se tornar algo que ele jamais quis ser. Eu o obriguei a ser um guerreiro, a lutar e a derramar sangue quando ele nunca desejou algo do tipo. Eu tornei a vida dele miserável — ele se voltou para o mais novo. — É isso que eu penso, meu irmão. Enquanto você estiver do meu lado, nada de bom vai acontecer. Eu não quero mais estragar sua vida. Entenda, você vai estar muito melhor sem mim.

Mas a resposta do mais novo veio em forma de gesto: Shun apenas andou ao encontro de Ikki e o abraçou com toda força que conseguiu.

— Pois bem, meninos, o que acham de esperarmos lá fora? — sugeriu a doutora, com o rosto levemente corado, empurrando Seiya e Shiryu que estavam mais próximos dela em direção a saída. — Esses dois precisam conversar a sós.

Assim que ficaram sozinhos, Shun começou a falar com a voz embargada, mas ainda segurando o choro.

— Você sabe o quanto eu te amo, não sabe, onii-san? Eu nunca o culpei pelas fatalidades que vivemos. Ninguém teve culpa. Tudo que fizemos foi por um bem maior e eu sou grato por termos lutado ao lado de Athena, de Seiya, e de todos os outros cavaleiros. Agora eu só quero um recomeço. Fique, meu irmão, por favor.

— Tenho medo dos meus próprios sentimentos, Shun. Tenho medo de não ser o irmão mais velho que você deseja. Você sabe muito bem o quanto sou paranoico e possessivo. Tenho receios de ser inconveniente. De sufocá-lo. De não deixá-lo tomar suas próprias decisões. Não sei direito como lidar com você crescido. Quando era um bebezinho eu podia ficar no controle, carregá-lo em meus braços, protegê-lo com meu próprio corpo, mas agora... — Ikki se afastou e amparou o rosto do caçula com ambas as mãos. — Você cresceu, Shun. Tornou-se ainda mais belo e cativante de quando era criança. É muito fácil ser conquistado por esse olhar, por essa face singela, por essa sinceridade impar.

Ikki fez uma faz uma pausa, umedeceu os lábios ressequidos com a língua e acariciou delicadamente o rosto pálido de Shun.

— Mas, se você quer correr esse risco de me ter por perto, deixo essa escolha em suas mãos.

— Ikki, isso quer dizer?

— Sim, Shun. Se você quiser, eu aceito a proposta de vocês de vivermos juntos como uma família. Sei que vai ser complicado, mas vamos tentar ser felizes.

— Ikki! — Shun abriu um brilhante e imenso sorriso e abraçou o irmão de novo. — Prometo que não irá se arrepender. Farei o possível e o impossível para que você nunca se arrependa dessa sua escolha.

— Não, Shun. Não precisa prometer nada. Lembre-se: a escolha está sendo sua. E se quer fazer uma promessa, apenas me prometa que não vai se arrepender dessa sua escolha.

— Eu prometo, onii-san!

Os dois riram e a comoção acabou tomando-os, desta vez, somente daquela vez, se permitiram chorar juntos, afinal, eram lágrimas de alegria, de recomeço.

Três cabeças apontaram no vão pequeno que se abriu na porta principal, a qual servia de entrada e saída do local. O prédio estava quase vazio, pois expediente do Fórum havia se encerrado com o término da audiência deles. Os três rapazes, ao perceberem que tudo parecia sobre controle entre os dois irmãos, voltaram para onde estava a doutora, Shiryu teve que puxar Seiya pelo colarinho da camisa, já que ele queria continuar espionando.

— Você tinha razão, doutora — comentou Hyoga, se aproximando da advogada que estava sentada no primeiro degrau da escadaria do prédio. — Eles fizeram a pazes.

— Não disse? — ela sorriu, levantou-se de onde estava sentada, esticou os braços, soltou o cabelo longo do coque e deixou que o vento soprasse e balançasse seus fios. — Agora sim, sinto que a minha missão está quase cumprida.

Hyoga, Seiya e Shiryu concordaram com um assentir de cabeça. No coração, a semente da esperança que havia sido semeada, dava seus primeiros brotos. Era o prelúdio do início de uma nova vida que começava a partir daquele entardecer.

Continua...

Revisão e Suporte de roteiro: Naluza.

Escrito originalmente em: 11.07.2007

Versão revisada: 31.07.2015

 

Notas e Vocabulário de expressões:

[1] Itekkimasu: “Estou indo” ou “estou saindo”.

[2] Itterasshai: resposta para “Itekimasu”, normalmente traduzido como “volte em segurança”, ou “volte com cuidado”. Seria o nosso equivalente “Vai com Deus” ou “Vá com cuidado” dito por nossas mães.

[3] Baka: idiota, bobo.

[4] Sensei: professor. É usado também com denotação de respeito aos profissionais médicos, advogados. Seria algo como o nosso termo “doutor” utilizado para nos dirigirmos a advogados e médicos, mesmo que esses não sejam doutores (que possuem doutorado);  

[5] Dois Milhões de Ienes: Em torno de 51 mil Reais hoje (julho/2015);

[6] Ojou-sama: “Ojou” significa “menina” (a filha de outra pessoa), mas é um termo muito usado quando se refere a jovens ricas e de status elevado.

[7] Duzentos Mil ienes: em torno de Cinco mil Reais hoje. Quarenta mil ienes, em torno de mil reais hoje.

[8] O governo do Japão tem vários tipos de Auxílios para mães solteiras, pais solteiros ou até para famílias que tem o terceiro filho. Sobre a Ajuda de Custo para filhos adotivos ou tutelados foi algo que vi em um filme, não busquei embasamento legal, por isso pode ser algo que não condiz com a realidade atual (se souberem de algo me avisem). Fonte sobre os subsídios que o governo do Japão fornece de verdade: portalmie: benefios-para-crianca


Notas Finais


Beijos ❤


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...