História Ferdinand - Capítulo 1


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Personagens Personagens Originais
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Palavras 1.351
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia)
Avisos: Bissexualidade, Drogas, Insinuação de sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Música que dá título à história: "Breathe Me", Sia.

Boa leitura.

Capítulo 1 - Capítulo Único: Breathe Me


 

 

Assombro-me pelos fantasma-nuvens, que é o formato das memórias, de Ferdinand. No espelho craquelado do corredor estreito vejo-me como um ser desbotado escorrendo, gangrenando enquanto tateio o vidro de olhos fechados. A brisa que o deus-céu sopra pela janela insistentemente aberta me assusta. O silvo da chaleira para o chá de morangos me assusta. Os livros frágeis, livros de sebo, tortos na estante, deslizam das páginas suas palavras de poesias eróticas e chatas, urbanas e vazias demais, mas me assustam. O miado faminto de Alexandre, o gato chartreux, o gato de Ferdinand, me assusta.

Ferdinand me devorou. Devorou minhas rotinas, meus sentimentos e minhas ambições. Quando Ferdinand me agredia, quando me insultava, me diminuía e deprimia; eu não era capaz de sentir as inteiras dimensões de todos os efeitos que Ferdinand estava causando em mim. Eu não me via e não via Ferdinand no tremendo abismo em que me atirou. Eu não percebia como Ferdinand descoloriu as paredes, os quadros, as flores e os olhos do gato, Alexandre. Eu não notava com clareza Ferdinand enlouquecendo os ponteiros dos relógios, pintando minhas pálpebras de roxo e meus lábios de vermelho.

Em tom de fel, minha mãe disse “Você precisa deixar Ferdinand”.

Em tom de sabedoria, meu pai disse “Você pode voltar para a nossa casa”.

Em tom de inexperiência, meu irmão caçula disse “Eu não sabia que você tinha fraquezas”.

Eu também não sabia, até conhecer Ferdinand como Ferdinand realmente era distante do mundo exterior, onde os holofotes não alcançam.

Onde o monstro habita silencioso e ardil.

Em meados de uma primavera, depois de sufocar sob o travesseiro e beirar a varanda do apartamento com o súbito desejo de abandonar a vida, uma vez incapaz de abandonar Ferdinand, eu simplesmente fugi. A primeira mala, o primeiro trem, a primeira viagem.

Na cidade costeira, conheci Olívia. Olívia e seus cabelos vermelhos, sua paixão por música céltica e uma predileção inigualável por suco de manga com chá inglês, combinação estranha da qual eu não ousava experimentar. Apesar de alguns absurdos em minha vivência monocromática, Olívia era engraçada e voraz.

Talvez seja o modo como agarrava-me pelas pernas e me domava até que os lençóis rasgassem sob meus dedos. Talvez sejam os trejeitos muito específicos e joviais, a pele escura e macia sob meus lábios, a ousadia e determinação de suas palavras.

Eu me refazia em minha esplendida Olívia.

Me redescobria, reprojetava. Estava feliz.

Feliz até o dia em que Ferdinand bateu em minha porta, quando Olívia não estava em casa. Ferdinand disse que Alexandre, o gato, lhe pertence, mas não passa de uma premissa mentirosa para invadir tudo o que possuía novamente. Ferdinand me abraçava e dizia que tudo seria diferente, que poderíamos fazer tudo novo e belo outra vez.

Eu estraguei Olívia. Com uma tesoura enferrujada e hostil, cortei seus vívidos fios vermelhos, eu a magoei e a deixei de joelhos sobre nosso tapete predileto, que ela mesma teceu em seus passatempos peculiares. Eu destruí Olívia porque sou caos e destruição quando sob a influência de Ferdinand.

Voltei ao apartamento com Ferdinand e o gato Alexandre. Voltei para seus braços de ferro, correntes aprisionando-me em inverdades estimadas. Eu tinha que perdoar Ferdinand, jamais poderia negar uma segunda chance diante de suas copiosas súplicas. O espaço fechava-se ao meu redor, suprimia minha voz e vontade. De repente, sem surpresas, Ferdinand arrastava-me para baixo outra vez e outra vez, sadista, mantendo-me em submersão na banheira transbordante, satisfeito, mergulhando-me em apatia e silêncio.

Meu fôlego, novamente, foi fugir de Ferdinand. Fugi para mais longe, mais uma mala, um trem e um avião, uma longa viagem. Livre enfim de suas garras e imposições; de sua aura densa, mórbida e possessiva.

Passo a viver numa cidade muito fria, onde conheço, na melhor cervejaria da região, quando redondos óculos de grau caem bem no instante em que entro e os pisoteio sob meus sapatos, Sook. Sook com seus fortes laços e costumes orientais, suas camisas brancas e seu sorriso fácil.

Sook, diferente de Olívia, era simplesmente brando e generoso, quase escravo em sua lealdade por oferecer-me tudo o que desejava e mesmo o que não expressava desejar. Sook, que mudou todo o seu cotidiano para transformá-lo em nosso, seus horários, sua prateleira de cds, seu guarda-roupa espaçoso, a marca do porco enlatado e a quantidade de colheres de pó de café. Sook, que me cobriu de finas sedas, vasta culinária, carícias devotas a cada manhã, deixando-me desalinhar as linhas perfeitas de seu penteado enquanto nos consumíamos no sofá ao desistir dos catálogos de filmes que não queríamos realmente assistir.

Eu me permitia em meu adorável Sook.

Me reconfortava, deleitava. Absorvia sua segurança.

Segurança até a sombra de Ferdinand destronar o Sol refletido nos óculos de Sook.

Desta vez Ferdinand demorou para encontrar-me, mas Sook partiu numa viagem de negócios e, um dia depois, Ferdinand estava ajoelhado em minha porta com um buquê de rubras rosas.  Como se estivesse nos seguindo e vigiando, esperando pelo momento oportuno para clamar por mim uma vez mais. “As pétalas das rosas estão ensanguentadas como meu coração”, Ferdinand diz. Ferdinand mente e eu acredito em cada palavra. Seus olhos brilham e me fazem acreditar.

Não deixo nada para Sook. Nenhuma nota. Nenhuma despedida.

Apenas um lar mudo de tristezas.

Nosso antigo apartamento, na antiga cidade, antiga viagem, é uma ruína. Alexandre, o gato, desapareceu há semanas. Ferdinand oferece afago e sussurros como nunca antes, mil promessas, mil fantasias. Numa furiosa noite, quando me preparo para enfrentar-lhe face a face pela primeira vez, Ferdinand sugere confortos ilícitos e eu os aceito: Nós nos entorpecemos para sanar a dor que nos queda entrelaçados.

A cada dia entorpeço-me mais ao lado de Ferdinand, as veias em meu braço como fios eletrificados e desencapados entre a carne adormecida; minhas percepções nubladas e abstratas pela sensação ácida que percorre meu corpo.

Eu me entorpeço para sanar o horror.  

Porque Ferdinand recita suas próprias poesias com voz ferina e me devasta. Ferdinand toma o meu sofrimento em suas mãos como um cristal quebradiço, arranca minha melancolia e a floreia, a resplandece, Ferdinand rouba a minha dor e tenta transformá-la em bela forma, tenta fazê-la comovente e admirável, arruinando-me.

Porque minha dor é feia, é densa, fervente e amarga. Não quero vê-la artística e poética, mas sim como de fato sei que é: Terrível, hedionda, infame. Minha dor é feita de estragos, temores e angústias, não é formosa, não é digna. Pois sou eu quem a alimenta sempre que Ferdinand me encontra, me convence e me aprisiona.

Ferdinand é tudo o que penso possuir, sendo em verdade sua posse.

Depois de Olívia e Sook, houve Petra, Gael, Kunal e Orlando. Petra que deixei chorosa, Gael que deixei gritante, Kunal que deixei incrédulo e Orlando que deixei desesperado. Um a um, refúgio a refúgio, quedados quando Ferdinand exigia-me persuasivamente de volta.

Ferdinand estava sempre lá. Sempre espreitado, sempre consciente e convincente.

Ferdinand é violência diurna, desdém vespertino, descomedimento noturno.

Ferdinand é a última parada de toda a minha existência, a última e mais escura estação. Ferdinand fez-me solidão, medo e tristeza. Fechou-me todas as portas, suprimiu todas as expectativas, rendeu todas as perspectivas.

Ferdinand fez-me inexistir. Fez-me anular.

Encolho-me sobre a cama fria, à luz do abajur contra a porta entreaberta, para enxergar infinitamente no espelho craquelado no corredor estreito, o único espelho, silencioso. Hoje até mesmo este silêncio me assusta.

Porque hoje sou produto vencido de uma vida que não é mais minha. Hoje sou criatura andarilha anestesiada pela inexistência, embarcação naufragada de anseios de uma travessia derrotada por uma tempestade imprevisível e inescapável.

Hoje arrasto-me através do apartamento cheirando a desgosto e descuidado, estremecendo em meu cansaço, arranhando as paredes sem cor para doer no corpo o que não sei curar na alma.

Hoje sou rastro frágil de uma felicidade que almejei.

Hoje sou rascunho e traço de tudo que em dano abandonei.

Hoje não falo, não ouço, não vejo, no escuro eu me desfaço e no escuro eu me esqueço.

Hoje nada sou e nada tenho para ser, nada para oferecer, nada para crescer.

...

Meu nome é Ferdinand.

 

 


Notas Finais


be my friend. hold me, wrap me up, unfold me.
i am small, i'm needy
warm me up and breathe me... ♪


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