História Filhos da Noite - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Caçadores, Lobisomens, Morte, Romance, Sangue, Sobrenatural, Vampiros
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Palavras 3.444
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Conheçam Andy Valentine, o 2º dos 3 protagonistas dessa história.

Capítulo 3 - O Garoto Lobo


Fanfic / Fanfiction Filhos da Noite - Capítulo 3 - O Garoto Lobo

Primeiro foi o cheiro. Cheiro de medo, de alguma forma ele soube.

Em seguida, a visão. Homens correndo e tropeçando uns nos outros, fitando-o com olhos arregalados e horror estampado na face! Depois, o gosto. Gosto de sangue e carne. Carne de um homem se arrastando, com costas dilaceradas e um braço arrancado, de onde sangue jorrava abundantemente. Logo, o som. De tiros e gritos, uma mistura de raiva e desespero traduzida em disparos e choro. Seus ouvidos vibravam e doíam ao som estridente. Então, a dor. Balas atingindo seu corpo, seu sangue espirrando por todo lado. Seu corpo caindo ao chão, grunhindo e banhado em sangue.

E por fim: a fúria. Uma fúria crescendo dentro dele, um fogo capaz de consumir a tudo e a todos, incluindo ele mesmo. Um ódio que lhe tirou a sanidade e consciência, deixando apenas brutalidade no lugar. Não havia mais pensamento, apenas instinto. Ele era um predador, e nada mais que isso. Todos eram suas presas, e ele mataria um por um.

...

O barulho de batidas na porta o trouxe de volta a realidade. Lá estava ele em um quarto apertado e mal conservado, seu lar pela última noite. Seu nome era Andy, e esse era o terceiro dia seguido em que acordava suado e assustado, o que não podia ser bom sinal. Sempre o mesmo sonho, tão real quanto uma lembrança...só que não era. Não poderia ser.

Mais batidas, e agora mais altas. O garoto resmungava, vestindo uma calça e indo na direção da porta, pouco ligando para o cabelo bagunçado ou a cara de sono. Ao abri-la, se viu diante de um idoso magricela apoiado em uma bengala, usando boina e um camisão. O homem o olhou com desprezo, e então falou com seu característico bafo de cachimbo:

— Isso lá é hora de dormir? Quando tinha sua idade, as 10h00 eu já tinha trabalhado mais do que você em sua vida inteira.

Andy encarou o velho Fremman com ar de deboche. O sujeito era o dono das poucas hospedarias da cidade, um homem azedo e orgulhoso. O hóspede bocejou preguiçosamente, e só então respondeu:

— Perdi a hora, velho. Mas me responde só: o problema é de quem mesmo?

— Olha lá como fala comigo! — Berrou ele, balançando a bengala ameaçadoramente. — Mas é muita ousadia em me faltar com o respeito, sabendo que me deve o aluguel pela estadia de hoje. Tem até o meio-dia: ou paga, ou tá na rua!

Andy nunca foi conhecido por sua paciência, e acordou com ainda menos.

— O recado foi dado, velhinho. Já posso voltar a dormir?

— Acho bom não tentar me enrolar, moleque, não gosto de gente metida a esperta. — Fremman se afastou, o som da bengala marcando o ritmo do seu caminhar arrastado rumo a escada que levava ao andar de baixo.

O garoto fechou a porta, respirando fundo. Aborrecido tanto pelo pesadelo, quanto pelo ultimato do velho. Principalmente por não ter como pagar pelo segundo dia. Olhou em volta, e viu a bagunça que o cercava como um reflexo da própria vida. Uma enorme lixeira, com quinze anos de merda acumulada. Quem limparia aquilo? Andy não fazia ideia, até aquele dia, nunca havia conseguido.

Depois que terminou de se vestir, pôs a mochila nas costas e saiu sem rumo certo. Ele adoraria dar adeus aquele lugar, mas que opção tinha? O jeito era arrumar o dinheiro e garantir mais alguns dias sob aquele teto fedorento.  Um lugar velho como seu dono, e tão desagradável quanto. Mudar de ares foi necessário, mesmo que doloroso para ele. Quando se tem o costume de quebrar a cara de cada sujeito mal encarado que cruza seu caminho, é só questão de tempo até bater no cara errado. E o tempo dele acabou. O jovem de olhos azuis e cabelos negros foi jurado de morte, se vendo obrigado a deixar tudo para trás. Amigos, colegas da academia, sua mãe...

Sem destino certo ele pegou o trem, decidindo na sorte em qual estação desceria. Pois a sorte definiu Bleak Hill como parada final. Uma cidadezinha no meio do nada, cheia de histórias sem pé-nem-cabeça, e nem mesmo um ponto turístico que justificasse a visita. Foi com a cabeça cheia que ele vagou pelas ruas, fazendo uma parada quando a fome falou mais alto. Era um horário sem grande movimento no bar e restaurante “Beer in Hill”. Com dez mesas, duas atendentes, um cozinheiro e dois clientes, o dono do estabelecimento secava copos enquanto ouvia o noticiário da tv:

“— E as buscas pelos irmãos Leonard e Barry Fremman prosseguem sem novidades. Segundo informações, os dois universitários estão desaparecidos há mais de uma semana, mas só há dois dias seu avó, Harold Fremman, comunicou a polícia. “Sempre foram de sair sem avisar”, disse ele ao nosso repórter, “Mas assim também já é demais. Nem ligaram, não atendem o celular, não tão pedindo meu dinheiro... alguma coisa ai tem”.

Sozinho em uma mesa, Andy tomava uma sopa aguada, enquanto quase sentia pena do velho que reconheceu pela tv. Quase. O pouco dinheiro que lhe restava exigia economia, e a solução foi pagar a refeição mais barata do lugar.

 “A polícia acredita que os jovens não chegaram a sair da cidade, mas admite não ter muitas pistas. Pra piorar, sons de uivos muito próximos tem sido relatados por moradores nas últimas semanas, o que dá margem para hipóteses como a dos jovens terem sido vitimados por lobos. Não é atoa que as buscas avançam pela área verde. Vamos lembrar que nossa cidade sempre teve problemas com ataques desses animais.” — disse o repórter do telejornal local.

Andy ficou um tempo digerindo aquelas palavras: “ataques de lobos”, “jovens desaparecidos”, “uivos próximos”... a lembrança do sonho surgindo repentinamente, o fazendo sentir um embrulho no estomago. Então se deu conta que uma atendente diferente parou à sua frente. Cabelos presos e uniforme sujo, junto ao fato de estar fungando para alguma coisa, emprestavam um ar engraçado a ela — Esse cheiro é de...

  Antes que o garoto pudesse entender ou questionar alguma coisa, ela saiu em direção ao balcão. E ele desviou os olhos da sopa para o noticiário:

“— As línguas mais afiadas sussurram o nome do misterioso dono do casarão abandonado, um milionário desconhecido chamado Adam Turner. Isso, pois a chegada do sujeito não só coincide com o desaparecimento dos dois irmãos, como eles foram vistos pela última vez justamente em uma festa sediada... pasmem: na propriedade do tal Adam! Oficialmente a polícia não tem suspeitos, e os dois irmãos estão apenas desaparecidos, mas nada mais normal por aqui que a população fantasiar um envolvimento dessa curiosa figura com os desaparecimentos.”

O som de pratos sendo colocados sobre sua mesa chamaram a atenção do garoto. Uma grande porção de carne com batatas coradas, com um cheiro e aparência tentadores, servidos pela mesma garota que o encarara antes. Andy olhou na direção dela com cara de interrogação, ao que ela respondeu, com cara de peixe morto:

— O prato é cortesia do Jimmy, ali.

Escorado no balcão estava o dono, um homem na faixa dos trinta, cabelos e olhos castanhos como os da jovem, e barba por fazer.

— Essa é a nossa especialidade, não quero tu saindo daqui com má impressão da nossa comida. Se fosse maior de idade, rolava um drinque também, mas daí não quero treta com os tiras.

— Acredite tio, eu muito menos.  — respondeu o garoto, comendo com gosto, e feliz pela hospitalidade de cidadezinha do interior lhe garantir um almoço daqueles. — E valeu pelo rango.

Enquanto comia, percebeu que tanto a atendente quando o dono não desviavam os olhos dele, entre um cochicho e outro, até o tal Jimmy resolver falar:

— Tu é novo na cidade, não é mesmo? Se tiver procurando alguém é só dizer, que o Jimmy aqui conhece todo mundo. — E abriu os braços, enfatizando a frase.

— Tô procurando a senhora sua mãe, avisa que o homem dela chegou, faz favor. — respondeu ele, atrevido.

A garota soltou uma gargalhada ao ouvir aquilo, depois dando um soquinho no ombro do sujeito.

— Viu isso, Jimmy? Nem educação nem dinheiro o carinha tem.

— Um piadista, a cidade tá mesmo precisando de um show de stand up. Mas fica nervosinho não, garoto. Só puxei assunto por conta dessa tua cara de cachorro sem dono.

Ele riu daquela dupla estranha e inconveniente.

— Sei me virar, falou? — respondeu um Andy desconfiado, enquanto mastigava o mais rápido que podia.

Não houveram outras perguntas depois daquilo, e logo o garoto pôde deixar aquela dupla para trás.

Se virar, esse foi seu lema a vida toda. Para alguém como ele, pobre e com sérios problemas para lidar com autoridades, roubar foi um caminho natural. Uma carteira aqui e ali, uma ou outra casa, mas nada que envolvesse machucar gente inocente ou pobre como ele. Mesmo um ladrão poderia ter seu senso moral, afinal. O que ele fazia não era certo, mas era bem menos errado do que poderia. Ao menos era nisso que ele queria acreditar.

O problema é que essa nova cidade era pequena e pacata, o tipo de lugar em que todo mundo conhecia todo mundo, e qualquer desconhecido chamava atenção. E atenção era tudo de que um ladrão não precisava. O que não faltavam eram cachorros nos quintais, e vizinhas fofoqueiras nas janelas. E após passar o dia todo rodando, vendo todo tipo de casas, uma paróquia Anglicana e, por mais improvável que fosse, um casarão distante em cima de um monte, Andy começou a se conformar com sua condição de futuro sem-teto. Vendo a noite chegando, decidiu voltar para a pensão e, como prometeu ao velho, meter o pé de lá.

Próximo a hospedaria, encontrou o velho Fremman sentado em frente à entrada e bebendo chá, como se estivesse a sua espera. Andy não estava com cabeça para ouvir o velho, por isso decidiu resolver as coisas do seu próprio jeito. Pulando um muro e escalando uma grade, entrou escondido no cubículo que chamavam de quarto. Lugar que mal tinha espaço para uma cama de solteiro torta e um guarda roupas caindo aos pedaços. Sem perceber, se pegou fitando a lua, enorme e brilhante, reinando em um céu negro como seu futuro.

O garoto se deixou cair sobre a cama, pensando em descansar uns minutos, antes de colocar o pé na estrada. Mal fechou os olhos, o sonho lhe veio a mente, seguido por uma sensação de mal estar. Andy decidiu agir. Enfiou sua meia dúzia de peças de roupa e itens pessoais dentro da bolsa de viagem. Então sentiu um calafrio lhe subindo a espinha, acompanhado de uma dor começando a espalhar-se por todo corpo. Levou a mão a testa...constatando que estava com febre.

— Merda! Isso lá é hora de ficar doente? — falou para si mesmo, incrédulo quanto a sua falta de sorte.

Sentou-se na cama, sentindo que a febre e a dor aumentavam de intensidade. Sua garganta estava seca, o suor frio e os olhos ardendo. Ele olhou para a janela, vendo a lua no céu...a observá-lo, enquanto se esforçava para resistir com dignidade a uma dor que só aumentava. Ele sempre foi excepcionalmente resistente, e naquela noite, os céus pareciam colocar essa qualidade à prova. Andy rilhou os dentes e caiu de joelhos no chão, gemendo de agonia.

O garoto sentiu um calor sufocante queimando o corpo todo, e uma raiva intensa: da dor, do velho que o expulsava, do sonho, da cidade e de si mesmo. Ele gritou, urrou de dor! E Seu grito parecia o prenúncio de sua tragédia, pois logo seu corpo começava a mudar de modo sobrenatural, com ossos e músculos se moldando numa nova e monstruosa forma. Pelos brancos começavam a crescer por toda parte, como se fossem agulhas perfurando sua pele para forçar saída. Sua boca foi brutalmente rasgada ao se abrir para dar espaço a presas; garras grandes e afiadas surgindo de dedos muito maiores que o normal.

E enquanto a dor alcançava o seu ápice, ele ouviu o som de batidas na porta, com a voz conhecida vindo de trás dela. 

— Pode abrindo essa porta, moleque! Que raio de bagunça e gritaria é essa?

Andy se viu sobre quatro patas, com músculos e tamanho dignos de um monstro de cinema! A dor começava a diminuir, dando lugar a uma vontade louca de correr e caçar. Seus novos sentidos ouvindo a voz do homem gritando do outro lado, o cheiro de tabaco sufocando e enraivecendo o monstro. O velho começava a mexer em maços de chaves, deixando claro que logo aquela porta seria aberta. Um gesto desnecessário. A porta foi arrombada com facilidade por um bicho meio-homem, meio-lobo, que parou rosnando face a face com um homem velho, trêmulo e de olhos arregalados caído diante de si.  

— ...santo ...Deus. — murmurou ele, instantes antes de perder a consciência.

E desmaiar de medo, pode ter sido justamente sua salvação, pois o garoto-lobo perdeu o interesse em dilacerá-lo após isso. O monstro correu pelos corredores e atravessou a porta, iluminado pela luz da lua, e escondido de olhos curiosos pela escuridão da noite. Seu mundo foi logo invadido por cheiros de pessoas, de objetos, árvores e bichos. Ele correu, atravessando ruas desertas até chegar aos limites da cidade. E então uivou, alto e claro, externalizando a selvageria que trazia no peito.

Andy sentia ser dono de um corpo muito forte e rápido, mais que qualquer humano deveria ser. E por falar em humanos...conseguiu sentir o cheiro de alguns deles, mata a dentro.  Ele se aproximou furtivamente da fonte dos odores, com olhos brilhantes espreitando entre as árvores. Viu um casal de jovens, a única fonte de luz vinda de um lampião próximo aos dois. Ele iluminava a garota encostada contra a árvore, com o rapaz entre suas coxas, os dois suando muito entre beijos intensos e mãos que passeavam sobre os corpos um do outro. Ele ouvia seus sons, o cheiro do suor e as palavras sem sentido que ele falou enquanto ela ria, sem nem sinal de perceberem-no.

O lobo sentia o cheiro deles. Cheiro de gente. Um cheiro bom. Qual seria o gosto deles? Andy se perguntou enquanto salivava, se aproximando da carne que saciaria sua grande fome. Então, o horror! A percepção do pensamento, o medo daquilo que se tornava e a fuga como única opção. Tudo virou um grande borrão enquanto o garoto-monstro fugiu pela floresta, pensando em qualquer coisa que não fosse comer, evitando olhar para a lua brilhante no céu, que o convidava a abandonar toda humanidade e se juntar aos outros predadores da noite. Ele avançou sem destino, se cortando e machucando durante uma corrida insana, tentando achar forças para dominar a si mesmo:

Sua luta interna pareceu levar uma eternidade, até ser bruscamente interrompida. Andy mal teve tempo de sentir o cheiro da criatura, e um golpe forte como a batida de um carro o lançou contra o chão. A dor de cortes profundos no peito de onde jorravam sangue abundante trouxeram o garoto de volta a consciência. Então contemplou um monstro tão assustador quanto ele se imaginava ser, de pé, logo à sua frente.

— Tu é novo nisso, não consegue controlar a raiva. — Não era uma pergunta. A voz cavernosa era de alguma forma familiar, vinda de um monstro de pelos marrons e olhos negros.

O garoto foi tomado pela raiva, mas também pelo medo. Sentia que seu agressor era muito forte, com garras afiadas que o feriram com gravidade. Por um momento ele se esqueceu do que se tornou, e se viu como um simples humano diante de uma criatura saída de um pesadelo. O medo o fez hesitar, e essa hesitação encerrou a luta. Um golpe, e depois outro. O garoto monstruoso se viu vítima de uma chuva de poderosos murros, capazes de fazê-lo chocar-se contra as árvores com violência sobre-humana. O sangue começou a embaçar sua visão, a dor e a fome o levando a inconsciência...

...

Andy acordou com o sol no rosto e uma sensação boa de quem dormiu tudo o que precisava, após muito tempo. E o melhor, sem pesadelos. Cama macia, lençol limpo, tudo muito bom, até perceber que não sabia onde estava. Ele se viu em um quarto grande, com um guarda roupas, mesa, cama e uma infinidade de outras coisas menores. Quadros na parede exibiam um casal de senhores que não reconhecia, assim como uma bebezinha no colo de um garoto com cara de travesso. De repente, barulho de porta abrindo e um sujeito familiar surgiu.

— Toma! — Jimmy falou, jogando um par de roupas limpas em cima do garoto deitado. — Veste isso, bate um rango e desce a escada para o porão. Temos que colocar tudo em pratos limpos.

Andy levantou devagar, desorientado, no processo percebendo que estava nu sob o lençol. Ele logo se vestiu, percebendo algumas dores onde teria recebido os golpes do monstro. Teria sido um sonho, afinal? Sem saber em que pensar ele saiu do quarto. A cozinha da casa era grande, com uma mesa de madeira no centro, ovos, enroladinho de salsicha, bacon e refrigerante por cima. Apoiada na mesa, uma garota já conhecida olhava para ele.

— A bela adormecida acordou, pensei que tivesse em coma. — disse a menina do bar, de cabelos soltos na altura dos ombros, dessa vez vestindo um short e uma blusinha da Hello Kitty. — E ai, a surra que o Jimmy te deu ainda tá doendo muito?

Como ela poderia saber daquilo se fosse um sonho? Por inacreditável que fosse, parecia ter sido tudo verdade.

— Se mete não, o Hello Kitty. — resmungou ele. — Onde tá o Master Chef?

Ela riu com a resposta e apontou com o pé para uma porta velha à esquerda. O garoto pegou uma porção grande de bacon e enfiou na boca, depois foi em direção a porta semiaberta que levava ao porão. Lá embaixo, o dono do bar revirava um monte de caixas cheirando a mofo, fazendo ratos saírem de seus lares em frenesi, enquanto falava:

— Você é um Licantropo cara, ou lobisomem, se quiser chamar assim. Aposto que ninguém te disse isso ainda. — disse ele, enquanto observava o garoto, e continuou o assunto quando confirmou, pela expressão dele, que realmente era novo na coisa. — Eu sei disso pois também sou um, e minha irmãzinha Mandy, também. Simples assim.

Andy ficou paralisado com a notícia. Foi tudo tão rápido e inesperado que ainda não tivera tempo para digerir nada, mas agora que parava para pensar, fazia todo o sentido. Era até bem óbvio. A transformação na lua cheia, o uivo, a aparência...era inacreditável. Ouvir de alguém que você era um bicho de histórias infantis mudava tudo. E ainda saber que o dono de um bar e a irmã garçonete dele também eram, tornava a coisa ainda mais estranha.

— Isso explica um bocado de coisas. — disse ele, olhando para as próprias mãos.

— É cara, tu tá cheirando a leite mesmo. — Jimmy falou, enquanto movia uma prateleira do lugar, seu rosto quadrado suando pelo lugar abafado combinado ao esforço — Tive que te meter a porrada ontem. E vou fazer de novo, até você aprender a controlar essa coisa que tem ai dentro, antes que mate algum vizinho ou seja morto.

— Então tem como controlar? — perguntou um Andy interessado na conversa.

— Negócio é o seguinte: toda lua cheia é mais difícil de se conter, e dominar o bicho leva tempo. — Jimmy foi falando enquanto organizava a bagunça e abria espaço. — E é justo nesse tempo que tu pode fazer uma merda sem tamanho!

Quando terminou, tirou um pano do bolso e enxugou a testa, encarando Andy com seriedade.

— Tu pode sair daqui agora e mostrar que “sabe se virar”, e aguentar as consequências, quando a merda que fizer explodir. — Alguns passos em direção ao Andy, olhar fixo. — Ou ficar aqui, seguindo minhas ordens até aprender a dominar seu monstro, pelo menos até o período de lua cheia acabar.

Jimmy apontou para o resultado da arrumação com um gesto: o sótão fedorento, cheio de teias e ratos, um colchão fino e manchado sobre o chão e mais uma diversidade de coisas inúteis, cercando um objeto em especial que chamou sua atenção.

— E ai, qual tua resposta, garoto?

Andy parou um momento para digerir tudo o que ouviu. Ele era um lobisomem, um monstro muito forte e capaz de devorar pessoas. Não foi um sonho, ele não era o único e aquilo não iria parar de acontecer. Olhou para o sótão, olhou para o Jimmy, e por último para a corrente grossa presa na parede com uma coleira de ferro na ponta. Respirando fundo e olhando nos olhos do sujeito, do seu igual tão diferente, deu a única resposta que podia:

— Negócio fechado, cara. 


Notas Finais


No próximo capítulo, conheçam Paul Davis, 3º e último protagonista dessa história.


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