História Filhos da Noite - Capítulo 4


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Categorias Originais
Tags Caçadores, Lobisomens, Morte, Romance, Sangue, Sobrenatural, Vampiros
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Palavras 3.872
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Conheçam Paul Davis, o terceiro e último protagonista dessa história. Aproveitem que Adam e Claire também.

Capítulo 4 - O Homem da Máscara


Fanfic / Fanfiction Filhos da Noite - Capítulo 4 - O Homem da Máscara

Em um quarto escuro e selado contra luz, ele dormia. De porte robusto, cavanhaque, tatuagens tribais e vestindo apenas uma calça jeans. Ao alcance do corpo, jazia uma pistola de grosso calibre, sua companheira em momentos de necessidade. Ele abriu os olhos assustado, ao ouvir o som da porta sendo arrombada, estendendo a mão para a arma por puro reflexo. Com sua existência condenada à escuridão, o dia era período de hibernação forçada, de esconder-se do sol em seu lar protegido por soldados humanos. O que poderia vir atrás dele pela manhã, se perguntava? Mal teve tempo de se levantar, algo avançou pela porta recém-aberta. O quarto estava escuro, mas seus olhos de bicho da noite discerniram os objetos sendo arremessados em sua direção. Latas de coquetel molotov. Fogo!  

Victor se jogou contra a parede para escapar da explosão. Gritou por seus homens, sem resposta, provavelmente mortos pelo esperto caçador. Fogo era o fim de qualquer vampiro, tanto quanto o sol, e ele se forçou a manter o controle em meio a dor das chamas que lhe atingiram, em meio aquela situação desesperadora. Recuar seria apenas adiar seu fim, de modo que o vampiro usou o poder do sangue para saltar sobre as chamas o mais rápido que pôde, olhos acessos e presas de fora, totalmente entregue a fera! O calor infernal parecia enlouquecê-lo, e o toque das chamas sobre sua pele, o fizeram urrar enquanto saltava. Mas nada disso adiantou, pois assim que chegou a porta, o invasor abriu fogo. O corpo do morto-vivo sendo transpassado por uma rajada de balas. Balas de prata.

Victor caiu, sem forças. Fogo e prata, as armas dos caçadores humanos, as armas dos matadores de vampiros. Balas comuns causavam dor, mas logo o corpo vampírico era capaz de regenerar seus efeitos. Balas de prata não. Por algum motivo qualquer, a prata castigava a carne dos mortos, queimando e impedindo a regeneração, os deixando vulneráveis. Que dirá uma rajada delas. O invasor trajava roupas pretas que tapavam todo o corpo, mesmo seu rosto. Era rápido e habilidoso, e encarava o predador, de joelhos e abalado.

E sob a luz das chamas, Victor pôde contemplar a máscara: uma face sem emoção, olhos vazios. Escritas nela, palavras em uma língua que ele não compreendia.  

— Quem diabos é você? — perguntou um vampiro experiente, enquanto era empurrado de costas ao chão.

— Sou sua morte. — disse o invasor, seu pé descendo pesado sobre o monstro. 

O golpe atingiu em cheio o rosto do vampiro, seguido de outros, muitos outros. No fim do massacre, restou apenas uma massa disforme onde antes havia uma face. Uma casca grotesca, condenada a ser consumida pelas chamas.

...

Curso de Psicologia, Universidade de York.

Às 8h30 da manhã, os alunos se dividiam entre aqueles que prestavam atenção na aula de Antropologia, os que conversavam discretamente e os que dormiam.

— No mundo de hoje, é fácil se manter cético, racional e cientificista quando nos confrontamos com as lendas e mitos dos nossos antepassados. Resumir tudo a simbologia, ignorância ou crendice. — disse o magistrado ao lado do projetor, de terno, cabelos e olhos negros, para além de um meio sorriso no rosto. — Mas alguns de nós, tolos ou sábios, acreditam que alguma verdade se esconde por trás daquelas histórias que gelavam espinhas.

— Diz aí, o que acha do professor? — perguntou a garota de olhos amendoados e voz melodiosa, para a amiga da carteira ao lado.

— Ele explica muito bem, gosto da aula dele. — respondeu uma Claire sonolenta.

— Esses indivíduos percebem que nem tudo no mundo pode ser resumido a números e reações fisiológicas. Que as trevas da noite ainda escondem mistérios e segredos disponíveis apenas para quem tenha estômago de ir atrás deles. — continuou o professor, fitando seus alunos mais atentos. — Enxergam os fantasmas, pesadelos e demônios que caminham entre nós.

— Tá de brincadeira, né? — questionou Evelyn, olhando para a amiga como se visse uma Alienígena. — Um homem gostoso desses e você vem me falar de aula? Tava pensando em pedir pra ele umas aulas particulares, isso sim.

— Ei, você não tem vergonha não? O cara é casado, vejo a aliança daqui.

— Mas aposto que ele tá com o casamento em crise, tadinho. Ou talvez use só pra atiçar o tipo de mulher que gosta de homem casado — brincou ela, olhando maliciosamente para o sujeito. — Um cara assim forte e cheio de energia, com certeza tá frustrado ao se ver preso a uma mulherzinha ruim de cama. Acho que ele tá precisando conhecer uma mulher de verdade, cheia de saúde e criatividade, até para render mais nas aulas.

— Credo! E imagino que essa seria você, não é? — Claire perguntou, encarando a amiga despudorada.

— Eu posso fazer esse sacrifício. — e as duas começaram a rir.

— Rindo de que, meninas, vídeos de gatos? — perguntou o professor, parado em frente às duas.

Risos e piadas por parte do resto da turma, silêncio por parte delas. Quando Claire começou a esboçar uma resposta, foi cortada pela voz da amiga, que disse:

— Estávamos rindo da sorte da Claire em fisgar o dono de uma mansão, e ainda por cima, disposto a dar um brinquedinho desses pra ela. — A garota colocou a mão por dentro da bolsa da amiga, retirando de lá o bracelete dourado e deixando Claire Winnicott em estado de choque. — Não é lindo?

Ele olhou desinteressadamente para a peça, ignorando a cara de vergonha da dona e as gozações dos colegas de classe. Só que algo no objeto chamou sua atenção.

— Bonita sim. Mas isso não é desculpa para interromperem seu dedicado mestre. Agora, como eu dizia... — prosseguiu ele, deixando para trás uma loira dando cadernadas na amiga.

— Sua doida, eu pedi pra não falar pra ninguém sobre o colar que ele me deu, agora vão ficar fofocando... — resmungou, se escondendo atrás do caderno.

— Desculpa miga. Fiquei nervosa com o gostosão tão perto e foi só no que pensei pra falar — respondeu ela, sorriso debochado.

Fim da aula, as duas deixavam a sala enquanto o professor desligava o projetor, quando ouviram a voz dele:

— Claire, venha aqui um momento, por favor.

As duas se olharam e Evelyn sussurrou para a amiga antes de se afastar:

— Por que o safado não me chama? Você já tem um peixe grande, vê se deixa o professor pra mim, hein!

— Posso dar uma olhada na joia? — perguntou ele, enquanto os últimos alunos saiam da sala.

— Claro. É muito bonita, não é? — disse ela, sorrindo como uma boba ao se lembrar do momento em que a recebeu. E do beijo que antecedeu o presente.

O professor observava minuciosamente o objeto que agora tinha em mãos. 

— É verdade que ganhou isso do tal dono do casarão na nossa cidade?

— Foi sim. Ficamos amigos e ele me deu isso como presente. — disse ela, um tanto envergonhada.

— Então vou te pedir um grande favor, Winnicott. Pode conseguir um encontro meu com ele? O homem é dono de uma propriedade histórica que ficou abandonada por séculos, como profissional, preciso muito conversar pessoalmente com alguém assim.

— E quantos pontos isso vale, professor Davis? — questionou ela, guardando seu presente. 

— Vamos pôr dessa forma: me dê tempo suficiente com ele para perguntar tudo que quero, e o dez é garantido.

Ela sorriu, satisfeita.

— Eu posso fazer isso sim. Mando um email avisando se ele topar. — E Claire se afastou, pensando que essa era uma boa desculpa para ligar para aquele homem enigmático e interessante.

Do lado de fora, Evelyn aguardava, ansiosa.

— E então, o que ele queria?

— Ele queria saber se você já fez o meu trabalho de Psicodiagnóstico.

— Isso é muito injusto, Claire. Muito injusto mesmo! — resmungou ela, esbarrando na amiga. — Você sabe que no fim isso é só desculpinha pra me fazer de secretária.

Claire a encarou, séria.

— Se eu fosse você ficava bem quietinha, se não quiser que seus dois meses fazendo meus trabalhos virem três. — ameaçou, com um sorriso sádico na face. — Vamos ver se assim a senhorita aprende a nunca mais esfregar essa bunda no pretende da amiguinha.

— Ah, Claire! Você sabe que eu tava meio alta aquela noite. Além disso, era meu aniversário, e você sabe o que dizem “o que se faz no niver, fica no niver”.

— ...quer mesmo fazer meus trabalhos pelo período inteiro, não é? — pergunta puramente retórica.

— Não tá mais aqui quem falou. E já, já eu entrego, lady Winnicott.

Elas riram, sem saber do homem que as observava da porta de sua sala. Um homem com muitos segredos.

...

Em um porão bem iluminado, cercado por uma infinidade de estantes abarrotadas de livros, Paul Davis analisava as informações de que dispunha. Arquivos de computador, pilhas de livros e o curioso mural com fotos e matérias de jornal. Entre elas, uma coisa em comum: Adam Turner .

As fontes históricas datavam o casarão entre o fim do século 17 e início do 18, pertencendo a um estrangeiro chamado Willian Connor. Haviam relatos sobre um ataque que teria matado todos os moradores, exceto seu dono. Uma fonte mais obscura incluía ai o dono, para além de mais de uma centena de moradores, envolvidos no ataque. Segundo ela, Connor só o herdara após a morte do mesmo, um nobre de nome... Adam. O castelo permaneceu fechado pelos séculos seguintes, com a escritura sendo passada adiante para ingleses sem qualquer ligação de sangue. Indivíduos reclusos da sociedade.

O que mais chamou a atenção foi o fato da enorme propriedade jamais ter sido utilizada como fonte de lucro. Foi reformada duas vezes, entre os séculos 19 e 20, mas jamais utilizada para turismo ou vendida para aristocratas interessados. Já sob posse de Jonathan Lincoln, foi recusada a parceria com o governo por diversas vezes, mesmo quando o mesmo arcaria com os custos de uma reforma, de olho no potencial do casarão erguido no topo da colina como único ponto turístico da pequena cidade. Somente nos últimos anos Lincoln passou a sediar festas de casamento, batizados e outras festividades. Algo insignificante, dado o potencial do lugar. Resumindo: após seu dono de nome Adam morrer, o castelo ficou fechado pelos séculos seguintes. E só agora, quando um novo dono também chamado Adam apareceu, ele reabriu. Para o professor, coincidências demais.

Circulando com a caneta a face de Adam Turner, resultado de uma foto amadora em uma matéria de jornal, Davis falava para si mesmo:

— Adam: você me apareceu do nada, na mesma noite em que dois rapazes foram vistos pela última vez justamente no seu castelo. Não bastasse isso, deu um bracelete bastante peculiar para uma garota com quem deve estar transando. Uma joia com um símbolo antigo e cheio de significado. Nada sobre você na internet, nenhum registro na polícia. E o mesmo nome de um homem dado como morto há trezentos anos.

O professor sorriu, examinando o arsenal de armas e munição de prata que utilizava contra seus alvos. Sorriu ainda mais, ao reler o email que sua boa aluna enviou, confirmando seu encontro com o misterioso Adam para aquela mesma noite.

— Hora de descobrir quem é você realmente.

...

As 20h00, o carro parou em frente à casa do professor, uma bela residência na cidade de Bleak Hill, fronteiriça a York. Dele saíram Claire e Adam. Da janela de cima Paul analisava o homem: seu rosto sugeria algo entre vinte e vinte e cinco anos, com longos cabelos negros presos, olhos de um azul raro e pele branca. Vestia um terno de grife e andava com elegância. Sua acompanhante vestia um terninho social vermelho, junto com o bracelete que levou a tudo isso. Eles pararam diante do portão da casa, enquanto ouviam um cachorro que latia sem parar, correndo pelo vasto quintal. Por um momento os olhos dos dois homens se encontraram, ambos se encarando por um tempo que pareceu infinito. Adam desviando apenas quando Claire fez um comentário que exigiu sua atenção.  

— Quieto, vamos, quieto! — repetiu o professor para seu agitado cão, que abanava o rabo e latia para os convidados. E abrindo o velho portão de ferro, fez sinal para que entrassem. — Me perdoem, ele não está muito acostumado a visitas. Assim como eu.  

— Professor, esse é meu amigo, Adam Turner. Adam, esse é meu professor, Paul Davis.  — disse Claire, cumprindo as formalidades.

— É um prazer conhecer o dono do nome mais falado nessa nossa pequena cidade. — Davis disse, estendendo a mão para o vampiro. — Bom ver que não é uma lenda urbana.

— Sou bem real, senhor Davis, e o prazer é todo meu — respondeu Adam, apertando com ambas as mãos a dele.

O imóvel contava com uma garagem, ao contrário da maioria das outras casas, cujos carros ficavam estacionados em frente. Também tinha um pequeno cômodo separado, construído do lado de trás da propriedade. E foi para lá que ele os guiou. O lado de dentro era aconchegante, com aquecimento, carpete, uma mesa e outras comodidades, como computador, tv e objetos de diferentes culturas.

— Sentem-se, por favor, e perdoem-me se não os convido para entrar na minha casa, mas está tudo em obras lá dentro.

— Compreendo, mestre Davis, minha casa está em obras, igualmente. — Adam respondeu.

Adam examinava o lugar com seus olhos atentos, se detendo no reflexo de sua imagem no espelho da parede. Paul gostaria de estar sozinho com o misterioso Adam, mas não deixaria de aceitar o encontro apenas pela garota Winnicott estar inclusa no pacote. Segundo ela, um pedido do próprio Adam. E foi ele quem iniciou a conversa:

— Claire me disse que o senhor é um mestre na ciência da Antropologia. Seria focado em alguma cultura específica?

— Meu mestrado foi justamente sobre a cultura de Bleak Hill: suas lendas e mitos. Não sei se tem conhecimento sobre isso, mas essa cidadezinha é cheia de histórias, com todo um folclore bastante rico. — disse Paul, enquanto preparava chá para os três.

— Lendas e superstições, então. — disse Adam, olhando para uma Claire que sorriu ao ouvir isso, já conhecendo seu professor a mais tempo e prevendo a resposta.  

— Talvez sim, talvez não... eu pessoalmente, procuro manter a mente aberta. Claro, a maior parte não passa de ignorância e tolice. Mas não seria a maior parte de tudo na vida o mesmo?

— O senhor é judeu, professor? — perguntou Claire, olhando para o quadro de uma bandeira de Israel, ao lado de uma Estrela de Davi.

— Sim, sim. É que não uso quipá, nem costumo falar sobre isso. O que é engraçado, já que falar é minha profissão.

— Eu admiro muito os judeus, um povo que sofreu tanto, e mesmo assim conquistou tantas coisas. — disse a estudante, após agradecer ao anfitrião pela xícara. — A Psicologia deve muito a eles, Adam. Afinal, Freud, pai da Psicanálise, era judeu.

Adam concordou, provando de sua bebida e notando um peculiar sabor nela.

— Esse chá leva alho? — perguntou ele.

— Não gostam? Esqueci de avisar, uma antiga receita de família. — respondeu o professor, notando que Adam continuava a beber.

Os dois se observaram por algum tempo, como dois predadores estudando um ao outro. Adam com seus olhos que pareciam subjugar a vontade daqueles que os confrontavam. Paul com seu sorriso sarcástico.

— O que quer de mim, mestre Davis? — inquiriu o vampiro. — Claire me disse que se interessou pelo presente que dei a ela.

— Sim, parece coisa de colecionador. A arte remonta ao séculos 15, se não me engano. Isso se for original.

— O senhor me insulta ao insinuar que portaria uma falsificação. Não usaria algo falso, muito menos daria uma a quem eu ... — Adam travou, quase falando demais. — ... prezo. — ele disse, “amo”, gostaria de dizer.

Adam ficou repentinamente sem graça, desviando o olhar da garota. Claire não conseguiu disfarçar um sorriso, mas tentava, através do vinho. Quanto a Paul, apenas riu da situação, mudando de assunto:

— Perdoe-me, senhor Adam. É que achei o símbolo especialmente curioso. Se tratando de uma peça original como diz, deve ser muito valiosa. Herança de família?

Claire levou a mão ao bracelete, intimidada pelas palavras do homem. Interrompendo a brincadeira com o cachorro deitado aos seus pés.

— Herdei muitas coisas de valor de minha família, sou... de uma linhagem muito antiga. — ele respondeu,

— Perdoe-me novamente, é que não achei registro sobre sua família ou mesmo o senhor. Parece um fantasma saído do nada. Acho intrigante que possa ter herdado uma propriedade como essa de um homem que sequer é seu parente, sendo que ele mesmo o herdou de alguém que tão pouco era parente dele. Aliás, seus pais seriam..?

— Nossa, o senhor parece um pouco empolgado com as perguntas, professor. — disse Claire, com medo do clima ficar pesado. — Pode ser bom tomar um chazinho de camomila.

— Infelizmente meus pais se foram há muitos anos. — o vampiro respondeu, sob o olhar do professor. — Minha mãe quando eu ainda era um garoto, me deixando apenas esse bracelete como lembrança. Já meu pai... se foi quando eu já era um homem feito. Não tenho irmãos, sou o último da minha família.

Claire pareceu ainda mais intimidada ao ouvir aquilo, e com razão. O presente que recebeu não apenas era caro, deveria ser caríssimo! E além disso, também era a última lembrança da mãe do namorado. Isso era bem transparente para Paul.

— Lincoln cuidou bem do castelo, mas reconheceu que o direito sobre ele é na verdade meu. Ele trabalha para mim agora, um homem leal. Nunca me preocupei em ter um diploma, mas gosto de ler e aprender sobre o mundo. Viajei por lugares distantes, e tenho dinheiro investido em todo tipo de negócios, principalmente antiguidades.

— Ainda não me disse os nomes deles, senhor Adam. Assim como o nome de nenhuma empresa, país ou instituição, para ser exato.

Adam desviou o olhar e terminou de beber seu chá de alho.

—... Xeque. — ela deixou escapar.

— Creio que já falei o suficiente sobre mim, mestre Davis. E sinceramente, não gosto de falar do passado. Há muitas coisas nele que lá devem permanecer.

— Pena, recordar é viver. — Paul respondeu, erguendo-se da mesa. — Espero que seja maior de idade Claire, pois vamos beber um pouco, para alegrar a noite.

— Vinte e um, professor.

Ele retornou de sua adega com uma garrafa de vinho já antiga, e taças para os três.  

— Não é sempre que tenho a oportunidade de dividir uma boa bebida. — ele disse, servindo o líquido com elegância. — Assim como nosso caro Adam, o vinho é cheio de mistérios, tradições e histórias. Festejado por Dionísio, sacralizado pelos cristãos. E agora, bebido por nós.

— Já que insiste em ouvir histórias do passado, senhor Paul, fique com a seguinte. De onde vim, era costume dizer que não foi sem motivo que o primeiro milagre do Cristo, Filho de Deus, foi transformar água em vinho. — disse Adam, erguendo a taça acima da cabeça. — A grande mensagem que ele queria passar era a seguinte: a vida sem vinho é um inferno.

Eles brindaram.

— O verdadeiro néctar dos deuses. Não consigo imaginar no mundo bebida melhor — disse o professor.  

— Sabe, eu amo vinhos, mesmo não entendendo muito sobre eles. — disse a jovem — Meu pai é diferente, um especialista que consegue perceber cada variaçãozinha no cheiro e sabor. Mas e vocês, são apreciadores ou especialistas?

— Eu conheço um pouco, sim, mas somente do tipo que gosto. Para mim, quando você encontra aquilo que pode satisfazê-lo por completo, todo resto se torna irrelevante.

Ela desvia o olhar, disfarçando o sorriso e bebendo mais daquele tinto.

— Eu...espero que possamos apreciar muitas outras coisas juntos. — brindou ela, com o homem ao seu lado.

Paul se divertia com aquele clima romântico entre os dois. Um lobo e uma ovelha... que grande futuro teria aquilo.

A conversa seguiu sobre a cidade e sua fundação, assuntos sobre os quais o vampiro demonstrou conhecimentos muito acima do esperado de alguém sem formação em história. Adam falava de coisas do passado com muita propriedade, não como um estudioso, mas como alguém que viveu naquele tempo. Por outro lado, não demonstrava o mínimo conhecimento sobre temas atuais, ignorando piadas e referências óbvias, e fugindo desses temas de todas as formas possíveis. As horas passavam rapidamente durante esse jogo de palavras. Taças foram entornadas, sorrisos trocados...até que o celular da garota tocou:

— Desculpe gente, mas tenho de ir agora. Surgiu um problema inesperado em casa, então...

— Nada de desculpas, nos vemos na aula da próxima semana, senhorita Winnicott. — disse Paul. — E quanto ao senhor, Adam. Imagino que possa ficar mais um pouco enquanto seu motorista deixa sua acompanhante em segurança. O que acha?

Claire olhou para seu professor levemente aborrecida pela sugestão.

— Lamento, mestre Davis, mas cuidar dela é minha maior responsabilidade. — Pausa para colocar a mão no bolso e retirar de lá um celular. — Se precisar falar comigo, pode usar seu aparelho para falar com o meu.

Paul se esforçou para segurar o riso.

— ...certo, mas qual seu número?

— “Número”? — perguntou Adam, inocentemente.

— Do celular.

— ...claro, do aparelho. — repetiu Adam, sem graça. — É um celular novo, me deixe verificar aqui.

Claire não conseguia parar de rir ao ver Adam tentando usar o touch screm do celular, sem sucesso. Paul observava a tudo com um sorriso cada vez maior, mas não pelo mesmo motivo que ela. Por fim, a própria Claire disse o número dele.

— Liga não professor, o Adam adora fazer essas piadas com a gente. Já estou acostumada. — disse ela, sem qualquer noção sobre Adam ser um homem do século 18, parido nesse novo mundo há apenas poucas semanas.

— Até breve, senhor Turner. — Paul respondeu, gravando o número do celular e observando ao casal partindo.

Paul continuou sentado lá dentro, apenas ele e o cão, juntando mentalmente as peças que coletou naquela noite. Adam tinha um objeto que datava do século XV, alegava ter herdado o casarão e riqueza de sua antiga linhagem, ainda que se esquivasse de dar qualquer informação sobre ela. Falava com muita propriedade sobre fatos históricos que remetiam há trezentos anos atrás ou mais, mas escorregava sobre tudo que vinha após isso. Sua fala era muito formal e até mesmo antiquada, com um sutil sotaque que apenas estudiosos como Paul reconheciam como pertencente há séculos atrás. E o mais importante: possuía o mesmo nome do fundador original da propriedade em que hoje vivia.

Não pareceu ter sido afetado pelo alho no chá e sua imagem refletiu normalmente nos espelhos (o que podia significar simplesmente que a coisa do alho e falta de reflexo fossem só lendas). Quanto a prata, que por experiência o professor sabia afetar vampiros, o sujeito deu um jeito de apertar a mão desviando do anel de prata, o que era um forte indício de sua real natureza. A não permissão para entrar na casa não podia ser testada, mas ele achou melhor prevenir.

— Ele não esconde esses traços extravagantes dos outros, seja por escolha ou simples incapacidade. Talvez um desejo de alimentar a fantasia... ou revelar a verdade. — Paul falava consigo mesmo, bebendo mais um gole do vinho. — Pode ser um vampiro muito antigo... 

Paul sorriu por um momento, lembrando-se da forma como Adam e Claire se olhavam.

— No fim somos todos movidos por desejos irracionais, senhor Adam: quais seriam os seus? — Ele quebrou a taça com violência, seus olhos exibindo frieza, enquanto o sangue escorria da mão cheia de cacos. — Fique em guarda, vampiro. Cedo ou tarde ficaremos frente a frente, então saberemos qual o pior dos monstros: você... ou eu.


Notas Finais


E ai, estão gostando? Comentários serão bem vindos, sejam longos ou curtos, pois me ajudarão a ser um escritor melhor. No próximo capítulo: hora dos lobos.


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