História FitzSimmons Tales - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Agents of S.H.I.E.L.D.
Personagens Jemma Simmons, Leo Fitz
Tags Agents Of Shield, Angst, Drama, Fitzsimmons, Fluffy, Oneshot, Romance
Exibições 12
Palavras 5.613
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Ficção Científica, Fluffy, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Título alternativo: À Primeira Vista

FitzSimmons Academy Era

One-shot sobre a rivalidade e posterior amizade entre Fitz e Simmons na época da Academia da SHIELD.

Capítulo 1 - 1 Academia


— Por que você me odeia?

A pergunta pegou Fitz de surpresa.

— Eu não… Eu não odeio você.

— Então você gosta de mim? – ela perguntou genuinamente. Não havia nenhum resquício de malícia ou provocação em seu semblante.

— Bem…

Diante da ausência de uma resposta exata e de seu tom reticente, Jemma suspirou, desapontada.

— Então você me despreza. O que é pior do que odiar – ela se jogou sobre os travesseiros, impelindo seu corpo para trás, o impacto foi imediatamente absorvido pela maciez das inúmeras almofadas.

— Um pouco, talvez - ele disse, gracejando, e abriu um meio sorriso. Foi então que Jemma notou o quanto o sorriso dele era bonito.

Eles finalmente estavam se falando, depois de semanas de competição e rivalidade velada.

Bem... Velada, mas nem tanto.

À primeira vista, Fitz a achou irritante. Uma irritante sabe-tudo. Era essa a melhor definição. Costumava erguer a mão antes de todo mundo para responder as complicadas questões lançadas pelos professores. Imediatamente, tornou-se a primeira da turma… O que fazia de Fitz, inevitável e consequentemente, o segundo melhor.

Eles eram os mais jovens da classe. Dezesseis anos e admitidos na Academia da SHIELD devido ao seu brilhantismo e capacidade intelectual acima da média. E talvez, por terem isso em comum, Jemma achava que eles se dariam bem.

Ela não poderia estar mais errada.

Jemma o observara atentamente. Ele era muito quieto, tímido, solitário... Às vezes conversava com um ou outro aluno, mas eram raras as vezes que o via interagir com os demais. Ele costumava trocar algumas palavras com Alex Miller que não poderia ser mais diferente dele. Alex era brincalhão e solícito. Fitz, taciturno e inacessível. Jemma ficava imaginando de que forma Alex havia conseguido se aproximar de Fitz para que chegassem ao estágio de dizer bom dia e boa tarde um para o outro e fazerem comentários esporádicos acerca dos projetos e testes. Seja lá qual tenha sido a abordagem, o fato é que Alex era a pessoa que havia chegado mais perto de ser um quase amigo de Fitz.

Geralmente, ele ficava na biblioteca, estudando. Em várias ocasiões, Jemma tentou uma aproximação. O garoto de cachos louros e olhos profundamente azuis despertava sua curiosidade, atenção e até certo interesse. Ela queria saber mais sobre o gênio solitário e tão prodígio quanto ela.

Mas ele se esquivava.

No começo, tentava ser discreto. Quando sentava na mesma mesa da biblioteca em que ele estava, Fitz pigarreava, folheava o livro por alguns instantes, levantava-se da cadeira e abandonava o recinto, fingindo não ter notado a presença da garota.

Após alguns meses (em que ela se tornou a aluna destaque, a estudante mais exemplar, tirando sempre as melhores notas), ele deixou de se fazer de desentendido. Ao notar sua presença na biblioteca, imediatamente levantava e saia. Não sem antes lhe lançar um olhar austero, não fazendo segredo de que não tinha a mínima vontade de estar no mesmo ambiente que ela – a sala de aula já era o suficiente.

Assim foi durante um tempo. Eles não se falavam. E Jemma não tinha segurança suficiente para se aproximar e confrontá-lo acerca de sua indiferença e dos motivos pelos quais ele a ignorava com tanta energia.

Isso até o professor Ray surgir com uma brilhante ideia. E, por brilhante, leia-se uma legítima ideia de jerico.

— Vocês bem sabem que a SHIELD é a última defesa do mundo contra ameaças superiores. Ora, claro que sabem! - dizia o professor Ray, com seus trejeitos afetados, erguendo os braços e, depois, batendo as palmas da mão uma na outra - vocês não estão aqui à toa. O que vou pedir para vocês é muito simples… Isto é, deve ser simples para vocês.

Ele pausou por alguns minutos e deu uma boa olhada em toda a turma, com um perigoso ar de desafio em seu semblante. Então prosseguiu:

— Eu quero um trabalho teórico E, VEJAM BEM… - ele deu ênfase às palavras, erguendo o dedo em riste - um protótipo.

A turma toda soltou um muxoxo.

— Ora, ora… Vocês não estão em uma simples universidade, meus caros. Vocês estão na Academia da SHIELD. Não é qualquer um que entra aqui, portanto, façam valer seu ingresso na Academia com a grade curricular mais complexa. Energia, amigos! Um trabalho teórico e um protótipo.

Alex, com seu sorriso fácil como sempre, ergueu a mão.

— Doutor Ray, o tema é livre? - Perguntou, mas tratava-se de um gracejo. Consequentemente, toda a turma caiu na gargalhada.

— Ahá, senhor Miller! Era aí que eu queria chegar. Eu também não estaria fazendo valer meu ingresso no corpo docente desta supramencionada instituição se sugerisse uma pauta livre - ele disse, retorcendo o rosto em um careta - eu quero algo transformador. Que possa ser usado como uma arma de defesa e combate, prestem atenção, para um agente que sofreu um dano severo e deseja continuar sendo parte atuante da SHIELD.

Os queixos caíram. Os alunos não tinham a menor ideia do que fazer.

— Mas como assim…?

— Eu não acredito que estou ouvindo essa pergunta - disse o professor de modo mais afetado do que nunca - nem quero saber quem foi o autor dessa brilhante indagação. Pessoal! Imaginem um agente que sofreu um acidente durante uma missão. Qualquer tipo de acidente que lhe custou alguma função ou um membro fundamental? E precise compensar isso para continuar atuando na agência. Como ele o faria? Como um agente brilhante pode perder sua carreira dessa forma? - ele dizia em um tom lamurioso de voz - o que vocês, responsáveis pela área de ciência e tecnologia, fariam para ajudar um colega que deseja continuar seguindo o modus operandi? Alguém que perdeu a visão, a audição, com um membro decepado, que perdeu a mobilidade dos braços ou das pernas? Amigos, isso vai acontecer em algum momento. As missões da SHIELD são feitas com o máximo de segurança possível, com agentes extremamente treinados e capacitados, mas as ameaças enfrentadas são imprevisíveis. Nunca se sabe com o que um agente vai topar em seu caminho… Portanto, pensem, raciocinem, projetem, realizem - ele finalizou.

— O trabalho é para ser feito sozinho em duplas de cinco? - Alex perguntou, rindo.

— Muito engraçado como você ainda acredita estar no jardim de infância, senhor Miller.

Alex não se ofendeu, se limitou a rir junto com o restante.

— O trabalho é em dupla e vocês vão começar já!

Os estudantes se levantaram, adiantando-se para unir e arrastar suas carteiras pela sala.

— Hey! Mas o que estão fazendo? Eu não terminei.

Os alunos pararam e voltaram a se sentar, confusos.

— Primeiramente, eu é quem formarei as duplas - a sentença foi seguida por ruídos de contrariedade da turma - em segundo lugar, vocês não vão ficar na sala de aula, discutindo os projetos. Vão sair. Vão para a biblioteca e para os laboratórios, com autorizações assinadas por mim. Os ambientes, certamente, serão mais ideais para que pensem em algo.

— O senhor vai sortear as duplas? - uma aluna sentada nos fundos da sala perguntou.

— Não. Eu vou formar de acordo com a minha percepção da dinâmica entre vocês. Vocês tem duas semanas.

— Somente duas semanas? - outro estudante perguntou com os olhos arregalados.

O Doutor Ray deu um sorriso cínico e sádico.

— Como eu disse, vocês não estão em uma universidade qualquer. A SHIELD exige agilidade, urgência e competência.

À medida que o professor proferia os sobrenomes, formando as duplas, a ansiedade de Fitz o consumia cada vez mais. Não era possível que o doutor Ray iria obrigá-lo a trabalhar ao lado dela. Justo ela. Não. Tinha de haver outra pessoa com quem o professor achava que Fitz teria uma boa dinâmica de trabalho.

— Senhorita Simmons! - a voz do doutor Ray ecoou pela sala, então, ele baixou o rosto, correndo seus olhos pela lista de alunos com uma sobrancelha erguida - você formará dupla com o Senhor Fitz - ele disse, por fim, erguendo o olhar na direção de Fitz e o encarando com um sorriso sorrateiro, como se soubesse que havia acabado de destruir seu dia.

Sim, o que Fitz mais temia era possível. O que menos desejava, agora, era uma realidade.

Aos poucos, os alunos foram deixando a classe rumo à biblioteca e aos laboratórios, providos de suas autorizações assinadas digitalmente pelo professor. Antes de se aproximar da mesa do Doutor Ray, Fitz esperou que todos abandonassem o recinto - inclusive Jemma que saiu logo após lhe lançar um olhar inexpressivo que ele fingiu ignorar, mas que havia capturado com sua visão periférica.

— Professor? - ele começou.

— Hmm? - O doutor, de pé em frente à tela de projeção, murmurou sem levantar os olhos do livro que consultava.

— Eu posso me aproximar?

— Isso não é um tribunal, senhor Fitz. Claro que pode.

Com passos vacilantes e vagarosos, o garoto seguiu em sua direção. Parou diante do professor - que tanto admirava e que mais o desafiava - e estacou, mudo de repente.

O professor ergueu o olhar e o fitou por um instante.

— Você quer me dizer algo ou admirar meus lindos olhos? Eu não tenho o dia todo, senhor Fitz.

— Bem… - ele pigarreou, tomando coragem. No geral, Fitz tinha dificuldade em interagir com as pessoas. Ainda mais quando se tratava de contestar ordens - eu gostaria de saber se tem como…

O professor arqueou as sobrancelhas, esperando ele terminar a sentença. Fitz sentiu suas faces arderem devido ao rubor.

— Tem como mudar de dupla?

— Algum problema com a senhorita Simmons? - ele largou o livro sobre a mesa e cruzou os braços. Fitz achou aquela postura, de certa forma, ameaçadora.

— Não, é que… Eu não deixo de pensar que o senhor só me colocou para trabalhar com ela pelo fato de sermos os mais jovens da classe…

O professor suspirou.

— Eu os coloquei juntos porque acredito no potencial de vocês dois trabalhando em equipe. São os alunos mais exemplares da classe. Agora vá, Fitz. Não tem um projeto para fazer? - finalizou e foi empurrando Fitz em direção à porta.

— Mas, senhor… - ele tentou, porém, o professor o impeliu para fora da sala e bateu a porta, dizendo estar muito ocupado e sem tempo para frivolidades.

O garoto fitou a porta cerrada por um instante. Então, se deu conta de alguém recostada na parede logo ao lado da porta, com um suéter azul, seu característico par de all star vermelho, um longo cabelo em tom dourado com leves ondas, os braços cruzados e uma expressão de poucos amigos estampando seu rosto.

Simmons.

Era óbvio que ela havia ouvido toda a conversa entre ele e o professor.

Fitz a encarou com um semblante sério por um momento e então virou as costas.

— Temos um trabalho a fazer - ela gritou atrás dele.

— Eu não sei por que todos precisam ficar me lembrando disso. Eu sei das minhas obrigações.

Ele se pôs a caminhar a passos largos, com Jemma em seu encalço.

— Ok, ótimo! Devemos começar a pensar em algo, que tal? Eu tenho uma autorização para utilizarmos um dos laboratórios. Seria ideal se fôssemos para lá agora, começar a trabalhar em nosso projeto…

Fitz parou e girou nos calcanhares. Jemma deteve suas palavras e seus passos bem a tempo de evitar que colidisse com ele.

— Simmons…

— Meus amigos me chamam de Jemma - ela tentou seu melhor sorriso amistoso, se esforçando ao máximo para parecer simpática. Ela não queria conflitos justamente com o colega com quem iria trabalhar nas próximas duas semanas.

— Simmons - ele tornou, gélido e ríspido - nós temos duas semanas.

— Exato! - a garota exclamou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Podemos fazer isso em dois dias e de olhos fechados. Não é necessário ter pressa. Isto é, pelo menos eu sei que posso fazer isso em dois dias - ele soou extremamente arrogante aos próprios ouvidos.

Jemma bufou, tornando a cruzar os braços.

— Devemos começar o quanto antes. Eu detesto deixar tudo para a última hora.

— Você é a senhorita certinha - ele comentou com desdém - mas isso é um desafio. Só o estou tornando mais interessante e estimulante.

— De jeito nenhum! Devemos dar início ao projeto o mais rápido possível, pois quanto antes começarmos, mais rápido iremos terminá-lo.

Fitz revirou os olhos.

— E mais rápido você irá se livrar da minha presença. Uma vez que parece incomodá-lo tanto. Só quero lhe poupar desse martírio, Leopold Fitz - ela concluiu em uma toada tão ácida quanto o tom que ele usava para se dirigir a ela.

Ele a olhou com puro veneno nos olhos. Ela, por sua vez, manteve a expressão de desafio em seu rosto. Ficaram se encarando dessa forma pelo que pareceu ser um minuto eterno, antes de Fitz dar meia volta e se afastar a passos rápidos e furiosos.

Aquilo soava como uma batalha perdida para Jemma. Ela se limitou a suspirar e encolher os ombros.

*

— Não se preocupe, Jemma. Em algum momento ele vai ter que falar com você - disse Ellie, uma das colegas de turma de Jemma.

Todas as suas colegas eram mais velhas, uma vez que ela, bem como Fitz eram os mais jovens da classe. Mesmo assim, Jemma se dava muito bem com algumas delas. Especialmente com Ellie e Flora.

— Ou talvez ele só fale com você faltando dois dias para a entrega do projeto.

— Se não for para consolar a Jemma, então é melhor nem abrir a boca.

— Mas não foi ele mesmo quem disse que conseguia fazer todo o trabalho em dois dias? - Flora disse, simulando o ar altivo de Fitz.

— Vai ser muito difícil se aproximar dele. Pior ainda: falar com ele - comentou Jemma, já conformada.

— Vai mesmo!

— Flora! - Ellie repreendeu a amiga.

— O que foi? Estou sendo realista. Ele não fala com ninguém. É um misantropo.

— Ele fala com Alex Miller - Jemma retificou.

— Correção: Alex Miller é quem fala com ele.

— Aí está! - exclamou Ellie - por que você não pergunta a Alex qual é a melhor forma de abordar Fitz? Afinal, eles começaram a se falar de algum modo… De repente, ele pode te dar uma luz.

— Sim, e relaxa Jemma. Ainda faltam onze dias. Eu garanto que, inteligente como você é, vai conseguir finalizar esse projeto antes de todo mundo. E Fitz é o segundo melhor da turma. Não vou me surpreender se ele estiver mesmo certo quanto à teoria dos dois dias.

Jemma sorriu para suas amigas, grata por lhe aconselharem.

*

— Alex… Tem um minuto?

Ela o parou na saída, quando Alex estava nos degraus da frente do prédio em que estudavam, meio atrapalhado, enfiando os livros e o restante do material na mochila.

O garoto deu aquele sorriso fácil de costume.

— Tenho vários minutos. Não vou conseguir colocar todos esses livros na mochila antes de anoitecer - ele desviou o olhar de seu material e encarou Jemma por um instante - qual é a boa?

Jemma levou uma mecha de cabelo que caía pela testa para trás da orelha, ponderando se deveria mesmo perguntar, mas respirou fundo e verbalizou:

— Você é um dos únicos aqui que conversa com Fitz.

— Bem… - Alex olhou para cima, como se refletisse - vamos dizer que sim. Mas a verdade mesmo é que eu sou um dos únicos com quem Fitz conversa. Ele não é excluído, se auto-exclui. Mas a ordem dos fatores… - ele estalou os dedos - diabos, por que eu sempre me embanano com o final dessa sentença?

— Não altera o produto - Jemma concluiu.

— Isso! Você é brilhante!

Muitas vezes haviam dito a Jemma que ela era brilhante. Mas nunca por concluir uma sentença tão banal.

— E para que exatamente eu sou útil? - Alex indagou.

— Como você mesmo disse, ele se auto-exclui. Faz questão de não conversar com ninguém, muito provavelmente porque acha que ninguém é digno de se aproximar dele dado o seu intelecto - ela revirou os olhos - e, muito provavelmente, a razão de me odiar é porque ele descobriu que existe alguém mais esperta do que ele.

Alex arqueou as sobrancelhas diante da ladainha incessante da prodígio de dezesseis anos diante dele.

— A questão é: como começou a falar com ele e conquistou, digamos, a simpatia de Fitz? Eu preciso fazer isso o mais rápido possível, pois ele é a minha dupla para o projeto do Dr. Ray.

O garoto deu um sorriso enviesado.

— Bem, primeiramente, eu não acredito que ele a odeie.

— Ah, odeia sim! - ela cruzou os braços e deu ênfase às palavras - ele até pediu ao professor para mudar de dupla.

— Não é ódio, Jemma. Ele está apenas competindo com você. E acho que se sente ameaçado ou, talvez, apenas desafiado. Quer dizer, ele se orgulha muito de sempre ser o melhor. E agora é o segundo melhor.

— Razão suficiente para me odiar.

Alex deu de ombros, ainda tentando ajustar seus livros e o restante do material dentro da mochila.

— Creio que você esteja interpretando isso de modo errado, mas enfim - com um último soco em um pesado livro de Fundamentos da Termodinâmica, ele suspirou, sabendo que não poderia fazer melhor do que aquilo, e fechou a mochila entupida com certa dificuldade - o fato é que Fitz não é arrogante. Ele é gente boa. Só é muito tímido e não sabe bem como se aproximar dos outros. Tem dificuldades de interação. Não é que ele sente raiva das pessoas. Ele sente receio… Medo de que não o aceitem. Medo de que se afastem dele por, sei lá, acharem que ele é estranho ou que seja arrogante por ser inteligente, por não saber tratar de outros assuntos que não seja alta e sofisticada tecnologia ou Doctor Who.

Jemma suspirou, sentindo-se, repentina e inexplicavelmente, mal por ele.

— Mas ele parece se esforçar para que as pessoas pensem exatamente isso dele. Que ele é um arrogante.

— É um meio de defesa, Jemma. Para evitar que as pessoas o excluam, ele as exclui primeiro - comentou, fazendo algum esforço para colocar a mochila pesada nas costas.

— Mas assim ele nunca sairá do lugar. Jamais vai se aproximar de alguém…

— Tente dizer isso a ele.

Ela arregalou os olhos.

— Eu?

— Sim. Vocês são parecidos, têm a mesma idade, parecem gostar das mesmas coisas. Você também gosta de Doctor Who, não?

— Sim, mas…

— Então, de repente pode aconselhá-lo. Você, diferentemente dele, se aproxima e interage com as pessoas, é simpática, gosta de conversar…

— Mas se ele não permite que eu me aproxime…

— Jemma, eu o conheci de uma forma bem peculiar - ele a cortou - você sabe o quanto eu costumo ser atrapalhado, certo? Bem, isso não vem ao caso - Alex sacudiu a mão no ar, como se espantasse um inseto que voava defronte ao seu rosto - o fato é que eu estava saindo da biblioteca bem tarde, com minha mochila cheia de quinquilharias e quando fui colocá-la sobre os ombros, o peso me impeliu para a frente e eu tropecei nos degraus e levei um tombo feio. Adivinha quem me socorreu? O próprio Fitz. Ajudou-me a juntar meu material e me levar até à enfermaria já que eu havia dado um mau jeito no calcanhar que não me permitia andar direito… Foi quando eu descobri que ele era fascinado por gadgets. E, na hora de recolher meu material, ele se deparou com uma graphic novel de Doctor Who que já havia lido uma dezena de vezes. Ficamos conversando sobre ela e sobre os furos na narrativa - Alex riu, recordando aquele momento - o cara é legal, só é muito fechado. Mas você vai adorar conhecê-lo quando finalmente falar com ele.

— Ou quando ele finalmente falar comigo - corrigiu, Jemma. Mas a verdade é que ela já estava se sentindo um pouco mais confiante depois daquela conversa.

— Ele vai falar, sim. Não se preocupe – Disse Alex, com um novo sorriso, então acenou para Jemma e se afastou, deixando a colega com muito que pensar.

*

Fitz não teve muito tempo de processar de que se tratava aquele movimento ao seu lado enquanto lia um livro na biblioteca praticamente vazia. De maneira brusca, uma cadeira foi puxada e, quando Fitz deu por si, se deparou com Jemma sentada bem próxima dele, mas sem encará-lo. Ela descansou os braços na mesa diante de si e suspirou longamente.

— Isso já está ficando ridículo. Podemos começar nosso projeto de uma vez? Sabe que não podemos adiar muito e… - ela fez uma pausa, ainda sem olhar para ele, então prosseguiu - como eu já te falei, quanto antes começarmos, mais rápido iremos terminar. Falta apenas uma semana.

— Faltam oito dias.

— É quase a mesma coisa.

Eles falavam aos sussurros, mesmo que não houvesse quase ninguém na biblioteca. Mas, por algum motivo, eles não ousavam levantar o tom, como se tivessem receio de desafiar o silêncio sepulcral no qual o ambiente estava mergulhado.

Foi a vez de Fitz suspirar. Ele não queria dar o braço a torcer, mas a verdade é que ela estava certa. Não havia como continuar adiando. E o que falara para ela, sobre conseguir fazer todo o trabalho em dois dias, era algo que nem ele próprio acreditava.

— Está bem - ele disse, meio que a contragosto, por fim virando o rosto na direção dela - você está com a autorização para usarmos o laboratório?

Jemma retribuiu seu olhar e ergueu um dispositivo eletrônico com a autorização assinada digitalmente pelo professor Ray.

Sem fazer muito barulho, ambos se levantaram e arrastaram as cadeiras para frente, deixando o recinto sem dizerem mais nem uma palavra, como se o silêncio da biblioteca fosse sagrado.

Assim que entraram no laboratório, Jemma fechou a porta atrás de si com mais força do que deveria empregar e se virou para Fitz.

— Ok! Se vamos fazer isso, temos de nos falar. E não de maneira ríspida, mas como dois adultos que querem se formar na Academia da SHIELD - ela falou alto e claro, para que não restasse nenhuma dúvida de que eles deveriam deixar suas diferenças e rivalidades de lado e se concentrar única e exclusivamente em seu projeto.

Ele a ouviu, calado, com uma expressão insondável em seu rosto.

— Pode deixar. Eu levo isso muito a sério.

Aquela sentença a tranquilizou, mesmo que ainda houvesse alguns resquícios de desdém no semblante e no tom de voz de Fitz. Pela primeira vez, desde que se conheceram, ela estava menos tensa e respirando com mais calma perto dele.

— Você já pensou em algo? - Jemma indagou.

Ele fez que não com a cabeça.

— E você?

Ela repetiu seu gesto e encolheu os ombros.

— Bem… hora do brainstorming.

Depois de algumas horas ponderando, eles optaram por projetar e desenvolver uma prótese robótica de um membro amputado que captava estímulos cerebrais enviados a para controlar os movimentos da região. O dispositivo deveria captar os impulsos cerebrais relacionados ao movimento do membro e os utilizar para movimentá-los de maneira mecânica, simulando um movimento natural, tanto de gestos comuns quanto de combate. A leitura dos impulsos deveria ser feita por sensores que ficavam na área amputada, recebendo as informações enviadas aos nervos responsáveis pela movimentação daquela região. A cereja no topo do bolo é que o artefato disparava raios de energia. Tratava-se tanto de um membro sobressalente quanto de uma arma de combate.

Foram horas debatendo, alguns dias projetando. Simmons utilizava seus conhecimentos acerca de neurologia e Fitz seu talento em operar tecnologia avançada para comporem seu invento. Isso dentre alusões a Doctor Who e tímidos sorrisos que iam surgindo aos poucos e se formando cada vez mais natural abertamente em suas faces à medida que eles se entendiam melhor e percebiam que, juntos, eram ainda mais espertos e que, sim, eram realmente muito parecidos. Quando finalmente, concluíram, nem eles mesmos podiam acreditar que o trabalho estava finalizado e que havia dado tão certo. Ambos ficaram boquiabertos diante de sua criação. Havia excedido suas expectativas. Tanto que não conseguiram evitar os largos sorrisos de orgulho e satisfação que tomaram conta de seus rostos e nem o abraço que partilharam em meio a gargalhadas de felicidade.

Eles perceberam tarde demais o que estavam fazendo. Separaram-se um do outro de maneira desajeitada, ruborizados e se sentindo um tanto quanto desconfortáveis.

Pouco tempo depois, apresentaram o projeto pronto para o Doutor Ray que sorriu extremamente satisfeito com o que haviam realizado.

— Eu não errei quando uni vocês dois. Eu não esperava nada menos do que brilhante, mas ainda assim estou surpreso. Isso passa longe de ser um simples protótipo, é… praticamente a versão final e absoluta e que pode ser utilizada pelos agentes da SHIELD. Meus parabéns.

Fitz e Simmons sorriram para o professor e agradeceram em uníssono. Foi a primeira de tantas vezes que eles viriam a fazer isso.

Antes de deixar a sala, Jemma relanceou o olhar para Alex que assentiu e deu uma piscadela para ela. Ele estava mesmo certo.

Fitz saiu na sua frente e Simmons apressou o passo para poder acompanhá-lo.

— Hey, você quer estudar para as provas de final do semestre comigo?

Ele a fitou como se não acreditasse no que ela estava sugerindo, mas continuou andando, sem frear seus passos.

— Estudar com você?

— Sim. Eu estou no dormitório 202.

Agora, Fitz havia parado subitamente, o que quase fez com que Jemma trombasse com ele. Ela levou um pequeno susto, desequilibrou-se e quase caiu para trás. Fitz foi rápido em segurar seu braço.

— Por que sempre faz isso? Me assustou… Mas ótimo reflexo.

— Me desculpe… - ele ficou quieto por um instante, refletindo sobre o que deveria dizer a seguir - por que está fazendo isso, Simmons?

Ela deu de ombros.

— O que há de errado em te chamar para estudar comigo? Quer dizer, nosso projeto foi excelente. Somos um bom time.

— Não, isso eu sei… eu quis dizer, por que está fazendo isso? Você não precisa. Não sou mais sua dupla. Terminamos nosso projeto - ele não falou de modo ríspido ou amargo, nem para ofendê-la. Ele estava genuinamente curioso - isto é, você tem seus amigos…

— Bem… eu tenho, mas todos são mais velhos do que nós. Eu gostaria de conversar com alguém da minha idade. Às vezes eu me sinto um pouco estranha por aqui, achando que as pessoas me olham como se eu fosse uma pirralha…

— Eu também - ele apressou-se em dizer - mas também acho que me olham como se eu fosse estranho… - Fitz pareceu falar mais para si mesmo, tanto que seu olhar ficou desfocado de repente.

— Então você aceita? - Jemma perguntou com um sorriso.

Ele pareceu voltar a si e a encarou, dando-se conta de repente de que gostava do sorriso dela. Transmitia algo de genuíno, como uma sensação boa de paz, de alegria, de estar em casa…

— Bem, é… tá… pode ser! - Fitz aceitou o convite entre gaguejos.

— Ótimo! Apareça lá pelas sete - ela terminou, antes de girar graciosamente nos calcanhares e se afastar.

Sem que pudesse conter, um sorriso enviesado e uma sensação calorosa invadiram respectivamente o rosto e o peito de Fitz.

*

Agora, estavam sobre a cama de Jemma, em meio a diversos livros e cadernos de anotações e ela estava perguntando a Fitz se ele a odiava ou gostava dela. E ele não encontrava as palavras certas para respondê-la.

— Pensei que nós tínhamos feito uma trégua - ela comentou, após ele dizer que a desprezava um pouquinho.

Fitz a olhou de soslaio e então se reclinou, deitando se de costas sobre as almofadas, ao lado de Jemma, sem lhe pedir permissão. Mas ela não pareceu se importar. Antes de tornar a falar, ele deu uma boa olhada no quarto que Jemma dividia com outra estudante que, segundo ela, deveria estar em alguma festa na Caldeira, sem intenção de voltar àquela noite. O garoto reparou no quão viciada ela era por organização e almofadas coloridas. Tinha dúzias em sua cama.

— Eu nunca… - as primeiras palavras saíram com dificuldade e Fitz limpou a garganta - nunca fui o primeiro lugar em nada… Nem mesmo na vida do meu pai.

A revelação pegou Jemma de surpresa. Ela o ouviu atentamente, sem interrompê-lo, enquanto ele ia contando sua história ao mesmo tempo em que fitava o teto.

— Quer dizer, meu pai foi embora, simplesmente, o que quer dizer que eu realmente nunca signifiquei muito pra ele. Ele me abandonou com a minha mãe quando eu era muito pequeno… Depois eu cresci e percebi que não era muito bom em nada. Era péssimo em esportes e um fracasso em fazer amigos. Mas sempre me interessei por tecnologia, não que isso seja a melhor coisa do mundo quando se tem onze anos e tudo o que você quer é se encaixar de algum modo… Meu cérebro é tudo o que sempre tive. E procurava compensar a solidão com isso, passando horas e horas sozinhos, consertando aparelhos eletrônicos antigos e construindo novos com peças rudimentares que encontrava pelo sótão - ele pausou por um momento, com o olhar distante e um sorriso vago no rosto - às vezes acreditava que se me tornasse um grande cientista, de renome, meu pai iria me dar atenção, se orgulharia de mim e me procuraria. Depois de alguns anos, deixei de esperar por ele e me conformei com o fato de que ele jamais fará parte da minha vida - concluiu em uma nota particularmente melancólica.

Jemma ficou triste por ele. E surpresa que ele estivesse se abrindo. Fitz não conseguia explicar a razão, mas sentiu uma confiança estranha nela para desabafar.

— E onde ele está agora? - ela perguntou em uma voz baixa.

Ele ergueu os ombros.

— Não sei… Só sei que eu vi a oportunidade perfeita para ser o primeiro lugar em algo quando entrei na Academia da SHIELD. Então você apareceu - ele disse com um meio sorriso, agora olhando para ela - não é culpa sua. Eu só fiquei chateado com minha falta de sorte.

Ela sempre foi feliz ao lado de uma família maravilhosa, que sempre a apoiou. Tinha um pai amoroso que jamais a abandonaria e que foi justamente quem inspirou seu amor pela ciência. Seu pai tinha um senso de proteção e carinho enorme por ela… Jemma não conseguia imaginar não tê-lo ao seu lado. E gostaria que Fitz pudesse ter o mesmo.

Aquele garoto arrogante que se declarou seu rival desde o início, ainda que não diretamente, com sua típica postura altiva e seu ar presunçoso, se desfez diante dela, cedendo lugar a um menino desprotegido que apenas queria ser amado por um pai e ter alguém para conversar e desabafar suas frustrações.

Jemma pensou se não era melhor deixá-lo ser o primeiro da turma. Ela já tinha tudo, por que não dar essa vitória a ele? Depois de tantas tristezas, ele teria essa alegria, o título de melhor, as maiores notas, algo de que se orgulhar pelo resto da vida…

De canto de olho, Fitz notou que Jemma o fitava e, como se houvesse lido seu pensamento, a dissuadiu de seu plano.

— Nem pense nisso! - ele exclamou.

— Do que está falando?

— Não relaxe em suas notas, não vá mal nas provas porque sente pena de mim…

— Eu não…

— Nada faria eu me sentir pior do que se você me deixasse vencer. Não seria uma conquista minha. Eu posso aceitar ser o segundo lugar. Posso aceitar perder pra você. Contanto que, ser o segundo, seja fruto unicamente do meu esforço, não porque alguém facilitou as coisas para mim - o olhar dele era tão penetrante que Jemma se sentiu intimidada - não seja negligente, Jemma. Nem tente se refrear para me ajudar.

O coração de Jemma deu um solavanco. Era a primeira vez que ele a chamava pelo nome.

— Eu não vou fazer isso, Fitz - ela tornou com sinceridade.

Fitz retribuiu aquelas palavras com um sorriso genuíno.

*

Eles tornaram-se inseparáveis. Estavam sempre juntos na biblioteca, no laboratório, nos intervalos entre as aulas, no quarto um do outro estudando para as provas.

Ainda que, a princípio, eles fossem rivais e Fitz a evitasse com todas as forças, ninguém estava realmente surpreso com a repentina cumplicidade. Eles eram muito parecidos e uma aproximação parecia inevitável. Era como se estivesse impregnada no inconsciente coletivo a certeza de que eles ainda iriam se entender e ser grandes amigos.

As provas do fim do semestre chegaram e as notas foram dispostas em um painel eletrônico no corredor da Divisão de Ciências e Tecnologia.

Também não foi nenhuma grande surpresa o fato de Jemma Simmons ter tirado as melhores notas. Sendo seguida de perto por Fitz que só não se equiparou a ela por conta de alguns décimos.

Ao conferir o resultado, ela ficou radiante. Enquanto abraçava Ellie e Alex gracejava, dizendo que gostaria de ter a massa encefálica de Jemma emprestada, ela avistou Fitz a uma distância razoável de onde ela estava, sorrindo em sua direção. Assim que se separou de Ellie, Simmons se aproximou dele.

— Parabéns - ele disse, sincero.

— Obrigada.

— Eu é que agradeço.

E lá estava aquele sorriso novamente. E Jemma não precisou perguntar o motivo de ele a estar agradecendo. Ela sabia. Na verdade, durante os anos que se seguiriam, eles não precisaram de muitas palavras para se entender. A comunicação entre os dois parecia quase telepática (alguns até apostariam altas quantias nisso, que eles poderiam ler o pensamento um do outro). Eles se entendiam por meio de sorrisos, gestos, olhares, toques... Foi se tornando cada vez mais fácil estabelecerem um vínculo. De um modo natural e sem grandes esforços, Fitz e Simmons tornaram-se tão amigos a ponto de não imaginarem mais suas vidas longe um do outro.

Como duas peças de um complexo quebra-cabeça, eles se completavam.



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