História Floresta Viva - Capítulo 2


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Categorias Originais
Tags Medieval, Mistério, Monstros, Morte
Exibições 20
Palavras 2.726
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Ficção, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Mutilação, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


As imagens abaixo são caricaturas dos personagens introduzidos nesse segundo capítulo.
Respectivamente: Preston, Tyago, Sully

Capítulo 2 - Sasha


Fanfic / Fanfiction Floresta Viva - Capítulo 2 - Sasha

Capítulo dois

Sasha

Um vento soprou seu rosto e o do irmão. Tremendo, Sasha olhou para Noah enquanto caminhavam sozinhos.

-Se soubesse que ficaríamos aqui fora até tão tarde teria trazido toda a lã de casa – brincou Sasha. Ver o irmão assim deixava-a preocupada. Noah disse que não vira nada na floresta, mas então porque estava tão assustado? Será que ele vira Oren morrer? Mas Sasha decidiu que o irmão precisava de uma noite de sono e um chá calmante de Preston antes que ela insistisse em mais perguntas.

A luz da lua iluminava o rosto sério do irmão. “Nem depois da morte dos nossos pais você ficou tão calado assim”, ela pensou.

-Noah você perdeu seu arco? – Ela só reparara agora, não havia nada nas costas do irmão.

Ele continuou a segui-la calado. Sasha desistiu de falar com ele.

Passou pelo centro da cidade, sua bota sentiu a pedra quando entrou na pequena praça. Um pequeno espaço de chão circular marcava o centro da vila, e no meio desse espaço havia um fosso que abastecia toda a vila, o balde de metal que trazia a água estava içado, e um pequeno homem dormia com seu cobertor ao lado do fosso. Todos se conheciam na pequena vila, e o mendigo Sully era tão simpático como qualquer um em Daisygarden. De um lado da praça a construção mais alta da vila se erguia, o templo, com sua imensa porta de madeira vermelha, e um sino enorme no topo.

De frente para a o templo do ancião Bernard, estava a prefeitura, uma grade construção abobadada com dois andares e uma sacada no segundo, onde o prefeito podia ter uma visão ampla da praça.

Ao saírem do centro de Daisygarden uma rajada de vento soprou-lhe os cabelos e a fez abraçar o próprio corpo, “A casa de Preston já não está longe” confortou-se.

Sasha sentiu algo escapar-lhe do cinto. A menina virou-se para o irmão surpresa, tateando o que faltava em sua cintura.

-Noah o que... – Ela se calou, o irmão segurava a faca que lhe roubara do cinto. – O que você vai fazer com isso – ela completou com cuidado, tentou não parecer assustada.

O irmão se aproximou com a faca na mão, sem expressão no rosto, aquele olhar indecifrável a encheu de medo.

Antes que pudesse falar ou se afastar o jovem de cabelos amarelos deu o bote, uma brusca passada em sua direção e a lâmina deslizou para sua costela.

Sasha gritou e caiu; com ambas as mãos na lateral do corpo, sentia o sangue molhando a roupa e os dedos, os olhos se fecharam com a pior dor que já sentira.  Quando abriu os olhos, o irmão já não estava lá. Sua respiração estava acelerada, a dor e uma tontura nauseante a mantinham no chão.

Pareceu uma eternidade até ele aparecer, uma barba negra e cabelos longos desgrenhados surgiram acima dela. O pequeno mendigo Sully a encarou com seu cobertor no ombro. Ela chorava em silencio com as costas na grama úmida.

-Ora, você se machucou criança? – disse Sully como se ela tivesse seis anos e com o joelho ralado.

Sem conseguir pensar ou falar por causa da dor, Sasha apenas levantou a camisa até o corte profundo ficar à mostra, provavelmente estava ruim, pois Sully deu um berro semelhante a uma gralha e correu para longe de seu campo de visão.

O frio a torturava como nunca e seus olhos ameaçavam se fechar quando outra figura apareceu, segurando uma lâmpada a óleo. Este parecia alto, pouco mais de dois metros, largo e forte, com um olhar gentil, “Tyago” pensou.

-Que o horror – ele disse, a camisa de Sasha continuava levantada.

Tyago entregou a lâmpada a Sully, o barbudo parecia uma criança ao seu lado.

Sasha foi erguida do chão com facilidade por Tyago, ela se remexeu e gemeu de dor em seu colo.

-Calma caçadora, você vai ficar bem – Tyago correu com suas longas pernas por entre as casinhas de madeira e lojas adormecidas, fazendo o máximo para não a sacudir demais, como se ela fosse um bolo instável sobre uma bandeja.

-Para onde estamos indo? – Sasha ouviu a voz ofegante de Sully tentando acompanhar Tyago.

-Vamos à casa do curandeiro, é claro!

O céu estrelado fui substituído por um teto de madeira quando Tyago bateu a uma porta e os três entraram na casa de Preston.

Fechou os olhos com força quando a tontura aumentou, e dali em diante só o que compreendeu foram partes de conversas agitadas enquanto a colocavam na cama e a furavam com agulhas. Não sabia o que mais a machucava, o corte na lateral do corpo ou a loucura do irmão.

Pareceram horas de tortura até a dor se tornar constante e suportável, e então lentamente acordou de seu delírio onde o irmão mais velho a ensinava a atirar com um arco e ainda criança, sofria ao seu lado pela perda dos pais. Uma pontada no coração dizia que ela já o perdera também.

-A porta é alta o suficiente pra mim, Tyago. E Sully, me devolva isso.

Sasha abriu os olhos a tempo de ver o mendigo barbudo entregando os “óculos“ a Preston, dois círculos de vidro presos por um aro que o curandeiro inventara para curar sua visão; Para seu desagrado, todos riram a primeira vez que o viram usá-los.

-Com eles parece que abri os olhos debaixo d’água - constatou Sully sorrindo.

-E sem eles parece que fiz o mesmo – resmungou Preston. O homem estava de costas, sentado a uma cadeira próxima da cama onde ela estava, e parecia desconfortável observando os dois visitantes perambulando e explorando sua casa escura, iluminada apenas pela lâmpada a óleo que Tyago voltara a segurar.

Sasha tentou se sentar na cama, mas com uma careta de dor falhou.

Tyago foi o primeiro a percebê-la, e pareceu surpreso – oh, não achei que fosse acordar ainda hoje – Preston também se virou, girando a cadeira junto com o corpo para ficar de frente a ela. Sully aproveitou a oportunidade para explorar, passando por uma porta que levava a outro cômodo da casa sem que ninguém percebesse.

-Continue deitada – instruiu o curandeiro – como se sente?

-Bem, eu acho – disse Sasha tateando a costela por baixo do cobertor e roupa; achou os pontos.

-Você perdeu muito sangue Sasha, se tivessem lhe trazido imediatamente não teria desmaiado, mas você vai ficar bem, por sorte sua costela parou a faca... Foi uma faca, certo? – disse Preston, curioso. Tyago se aproximou trazendo a fonte de luz mais para perto.

-Sim – gaguejou ela, foi inundada por uma profunda tristeza ao se lembrar de tudo.

-Quanto tempo eu dormi? – sem saber o motivo tentou mudar de assunto, evitando a terrível verdade.

-Umas três horas? Eu acho que já está quase amanhecendo – o grande Tyago não parecia ter certeza. – Pensei ir chamar o seu irmão, mas Preston me disse que com certeza você ficaria bem, só precisava de descanso.

-Isso mesmo – Preston respondeu para Tyago enquanto a estudava com seu olhar inteligente por trás dos óculos, diferente de pessoas normais ele parecia analisar tudo. Mas logo pareceu se distrair para alivio de Sasha – Por que ficou aqui por tanto tempo se achou que ela só ia acordar pela manhã Tyago? – Preston disse, virando-se irritado para o grande homem.

-Não queria deixar você sozinho com ela – Respondeu Tyago, sincero, porém algo em sua voz sugeriu que ficou um pouco envergonhado em admitir – Ouvi dizer que você corta e abre bichinhos.

Preston pareceu indignado, mas não negou. Depois de alguns segundos desconfortáveis dos dois a encarando, adiando a pergunta, a voz de Sully irrompeu do outro cômodo.

-Eu não tinha pra onde ir mesmo.

A luz do lampião na mão de Tyago delatou o riso reprimido em sua face.

Preston não aceitou a provocação, mas disse: – Na verdade foi melhor assim mesmo, com um assassino à solta nem o seu tamanho se garante contra uma faca Tyago; Sasha quem a atacou? – Tyago logo voltou a atenção a ela também, como se agradecendo Preston por fazer a pergunta.

Sasha hesitou, não queria que o irmão machucasse mais ninguém, se o fizesse poderia acabar indo para forca – Foi Noah – Disse, sentido um peso no coração – Mas, por favor, peça para não o machucarem, ela não está bem, algo o mudou na floresta. Preston você tem que ajudá-lo – Desabou Sasha, sentindo as lágrimas virem.

-Wow – se espantou Preston – Seu irmão?! Como assim algo o mudou na floresta? O que aconteceu?

Sasha tentou se acalmar. Sentou-se com cuidado na cama, com uma das mãos no corte costurado. Preston não a impediu.

-Hoje à tarde... Ontem à tarde, – corrigiu-se - Como sempre, esperávamos a última dupla de caça voltar, normalmente ninguém se atrasa mais de meia hora, mas Oren e Noah já estavam há duas horas na floresta quando eu e Liam fomos procurá-los, o sol já tinha se posto – disse Sasha.

Os dois a olhavam atentos quando ela deu a pausa – alguma coisa matou Oren e deixou meu irmão louco. Noah já estava estranho logo quando o achamos, disse que não tinha visto nada... Então decidimos trazê-lo aqui para que você cuidasse dele... Foi ai que ele... – Não conseguiu dizer o resto.

-Oren está... – sussurrou Tyago atordoado

-Acharam que ele estava apenas assustado, não é? – refletiu Preston afastando os cabelos negros da testa, ele não pareceu muito surpreso ou triste. Preston realmente era o sujeito menos emotivo que ela conhecia. – Mas o que o fez se comportar assim? –refletiu.

-Feitiço de bruxa! – gritou Sully de algum lugar da casa. Sasha se impressionou com os sentidos aguçados do homem, fora do alcance da luz de Tyago a casa estava um breu, e eles não falavam muito alto para que ele pudesse ouvir a conversa.

-Eu diria que o mesmo animal que matou o caçador envenenou seu irmão Sasha. – disse Preston ignorando o comentário aleatório de Sully.

-Matou Oren – ela corrigiu, conhecia o homem há pouco tempo, mas era um grande amigo de Liam – Mas que animal faria isso?

-Uma cobra talvez, já li casos de pessoas se tronando agressivas, e vivem descobrindo novas espécies...

- Não – lamentou por não ser tão simples - ouvimos uivos, e Liam não os reconheceu. – Sasha voltou a se deitar depois de responder mais perguntas, cada resposta deixava Preston mais intrigado e em certo momento Tyago colocou a lâmpada a óleo em cima de uma mesa e se encarregou de avisar o prefeito do novo problema; Polux teria uma noite difícil...

 

-Bem, talvez eu consiga dar um jeito em seu irmão, preciso mesmo é do corpo de Oren, pode ajudar muito se Noah precisar de uma cura, mas talvez precisemos levá-lo a Belmeriti se nada funcionar, eles tem bons curandeiros lá – disse Preston – isso se o veneno não for temporário – concluiu, mas ficou óbvio que ele tentava confortá-la.

 

-Mas aonde você vai... – começou Sasha desconfortável.

-Não se preocupe comigo, tenho uma pilha de cobertas guardadas que só uso no inverno, posso me aconchegar nelas – disse Preston sorrido – descanse o quanto precisar.

Sasha não recusou a cama quente, ambos concordaram que ela não deveria voltar para casa até acharem Noah. Preston saiu do cômodo com a lâmpada a óleo, deixando-a só com a luz da noite que vinha de fora, que passava por uma pequena janela quadrada ao lado da porta da casa.

Demorou, mas quando adormeceu torcia com todas as forças para que não machucassem o irmão quando o encontrassem e imaginava como ele reagiria ao reencontrá-la; Daisygarden por ser uma vila pequena, com não mais de cem moradores não possuía guardas contratados como em Belmeriti, então quando havia algum infrator, Joseph se encarregava de levá-lo à justiça, e às vezes pedia ajuda de homens dispostos, como o açougueiro Frank ou o pescador Finn, que tinha um grande senso de justiça.

 

“pum, pum, pum”; Sasha acordou com o som de passos apressados, Sully correra com dificuldade para a porta da casa com um bolo enorme de cobertores pesados envolvendo-o.

- O que você esta fazendo? – Sasha perguntou sobressaltada enquanto Sully tentava abrir a porta.

- A senhorita Beth sempre me leva pães fresquinhos pela manhã, não posso deixá-la esperando – ele insistia em girar a maçaneta e empurrar a porta.

-Está trancada Sully – ela disse sonolenta; sempre suspeitara da filha do padeiro, tinha um coração mole demais.

Por cerca de um minuto Sully encarou a porta como se fosse uma árvore impedindo uma carroça e então soltou os cobertores no chão, abriu a janela e pulou, fazendo esvoaçar seu cobertor leve, que mais parecia um manto ou capa por estar preso ao pescoço.

Pouco tempo depois, enquanto Sasha se sentava e colocava seus sapatos, Preston apareceu esfregando os olhos e andando de um jeito estranho, como se a coluna doesse.

Agora o sol iluminava bem o grande cômodo, parecia um quarto bagunçado, com livros e pergaminhos espalhados em prateleiras e na mesa redonda de madeira no centro, além de alguns frascos e bugigangas que Sasha não reconhecia aqui e ali.

-Dormiu no chão, não foi? Sem as cobertas – Sasha perguntou, estava sentada na beirada da cama, tentado assentar o cabelo que parecia um monte de palha emaranhado.

Preston assentiu sem graça enquanto escolhia alguma coisa na fruteira - Não sou tão cruel a ponto de roubar o conforto de Sully – agora voltava com uma maçã em cada mão.

Sasha aceitou uma das frutas, não estava tão madura, mas comeu com gosto. Preston sentou-se à mesa e refletiu sobre a janela aberta e os cobertores no chão.

- Por que ele não destrancou a porta? A chave está na tranca, era só girá-la – ele perguntou confuso, depois de colocar os óculos.

A chave realmente estava ali, ela observou; mas já conhecia Sully há tempos e aprendera a não questionar suas ações. Deu de ombros como resposta.

Estava prestes a levantar e pagar o arco encostado à parede, ela queria estar lá quando encontrassem o irmão, se já não o tivessem encontrado, mas alguém bateu na porta.

“Toc, Toc, Toc”

Preston se levantou, limpou uma mão na camisa, destrancou e abriu a porta.

Polux cumprimentou Preston.

-Vejo que já esta de pé, caçadora. – Polux entrou e olhou para ela – Soube o que aconteceu com você – disse com um olhar melancólico – Mas não se preocupe, Joseph e mais alguns já estão à procura de seu agressor, em breve o levaremos à justiça.

- Como assim “levá-lo à justiça”? Não quero que façam mal a meu irmão!

- Eu não disse que lhe faríamos mal, mas se o encontrarmos temos que colocá-lo na prisão até que não seja mais uma ameaça.

 Com isso ela concordava – Mas não o coloquem na mesma sela que o maluco do Baxter.

-É claro que não – ele garantiu – Temos selas de sobra – Baxter era o único prisioneiro da vila.

Um homem ruivo e alto entrou correndo pela porta, parou ao lado de Polux, ofegante e suado.

- Liam! – exclamou Polux – Há jeitos mais bondosos de matar alguém – o prefeito tinha pulado com o susto.

- Sasha, sinto muito pelo que aconteceu – ele começou apressado, Haj apareceu poucos segundo depois atrás dele, parecia bem mais exausto – e desculpe pelo atraso, tive que avisar os pescadores que a floresta é perigosa. Preston, você precisa me ajudar a descobrir com o que estamos lidando, venha à floresta comigo, vou te mostrar o corpo de Oren. - Preston acenou com a cabeça e correu para outro cômodo da casa – Sasha, tenha cuidado se for procurar seu irmão – Pediu Liam, ele parecia realmente preocupado. Sasha concordou, não queria preocupar ainda mais o caçador.

Depois de Preston voltar, segurando com dificuldade uma besta, Liam se despediu de todos e partiu.

-Haj, não a deixe correr, ela pode abrir esses pontos – Disse Liam, já saindo da casa com Preston em seu encalço.

-Tranquem a porta e saiam pela janela – gritou Preston, a voz já desaparecendo à medida que de distanciava.

Sasha juntou seus poucos pertences e foi ao encontro de Haj, provavelmente ele morreria se tentasse correr mais, ela pensou.

–Bem, temos que resolver isso logo. Sem pescadores e caçadores dispostos a vila vai passar fome – Disse Polux, pela primeira vez o prefeito parecia realmente preocupado. Sasha e Haj o deixaram para traz, com a desconfortável tarefa de trancar a casa.

O dia estava ensolarado, os pássaros cantavam e as flores enfeitavam, mas naquele dia nada mais fez Sasha sorrir.



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