História Flox e o Poder da Fênix - Capítulo 38


Escrita por: ~

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Palavras 4.522
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Famí­lia, Fantasia, Ficção, Magia, Mistério, Romance e Novela, Saga, Universo Alternativo
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Yeeees, um capítulo bem atrasadinho por causa da semana corrida que tive, mas espero que gostem o suficiente pra compensar o tempo <3
Boa leitura!

Capítulo 38 - Eu Sou a Escuridão


Soria acordou antes da primeira luz, na vasta escuridão de seu quarto, logo ela percebeu o toque na porta que a despertara e deslizou até ela com o cobertor cobrindo todo o seu corpo. Estava escuro e frio e ela se sentia nua por baixo das cobertas. Abriu a porta e encontrou os olhos cor de gelo iluminados por uma lamparina. Procurou descobrir as horas, mas não precisava de muito para saber que era tarde, muito tarde.

Ou deveria dizer cedo?

O crepúsculo matinal já banhava o céu que escalava as cores de um azul escuro quase cinzento. Soria voltou para o escuro de seu quarto e colocou a primeira roupa que encontrou pela frente, quando saiu pela porta, Castin ainda a esperava com a mesma calmaria, o mesmo frio e a mesma lamparina iluminando a escuridão ao seu redor.

— O que aconteceu?

Ele respondeu com um sinal para segui-lo. Por acaso descobriu meu segredo? Sabe que eu faria qualquer loucura pelos meus amigos sem questionar seus motivos? Isso não é bom...

Ela seguiu atrás dele pela casa e fora dela, pela mata silenciosa e úmida, entre árvores e rochedos, seguiu atrás dele o tempo todo até um grande rio que já iluminava-se pelo profundo tom púrpura do céu. Lá, Castin parou, sentou-se sobre uma rocha e esperou. Soria não sabia o que estava fazendo ali, não havia nada em sua cabeça que pudesse explicar o que estava acontecendo.

— Pergunte-me. — Disse ele com as mãos cobrindo os lábios enquanto respirava nervosamente o frio para fora de seu corpo.

— O que estamos fazendo aqui?

— Uma troca.

Por um momento, a garota de Crispir apenas o encarou com um rosto cheio de confusão, nem perguntas ela era capaz de formular, a caminhada tinha afastado seu sono, mas ainda era confuso demais até para ela pensar em entender.

— Acontecerá a qualquer momento. — Ele prosseguiu. — Vai ser rápido, você vai precisar leva-lo de volta.

— Levar o quê?

— Rian Gover.

O silêncio que se seguiu depois do nome ser dito foi desconcertante, Soria abriu os lábios, mas nem mesmo um sussurro escapou e seguiu assim por um tempo, abrindo e fechando a boca. Ela sentou ao lado dele e esperou enquanto formulava mais perguntas em sua mente.

— Castin... — Ela murmurou por fim, sentindo-se sem forças. — Apenas responda as perguntas que eu não consigo fazer, por favor.

Por um momento Castin pensou que uma mentira a preveniria da dor, da decepção e raiva. Por um momento ele desejou não ter precisado leva-la tão longe, não ter precisado confiar aquela missão a ela. Soria ainda era uma pessoa tão difícil de lidar quanto ele. Quando a olhou nos olhos, os pensamentos foram arrastados e engolidos pela escuridão que os rodeava, então deixou que a lamparina se apagasse e agora sem encarar seus olhos ele pôde responder:

— Fiz uma troca. Rian Gover estará de volta em alguns minutos, Lenore Gover o trará, mas eu terei de ir com ela. É simples, na verdade, não vai demorar nada, eu precisava que viesse para leva-lo, pois não terei tempo de fazer isso. Ele está fraco, não conseguiria chegar por conta própria e você é forte, então faça isso por mim, certo?

— Não, espera... você não pode, o que é isso? Espera!

Ele quis dizer que ainda estava ali. Foi a vez de Soria acender a lamparina, então a escuridão foi substituída e ele finalmente respirou fundo, o medo que gritava dentro de si abraçou um pouco de calmaria, mas os olhos negros de Soria pareciam querer enforca-lo.

— Não pode acreditar que eu vou te deixar ir.

— Vai.

— Não vou coisa nenhuma! — Gritou frustrada enquanto levantava para encará-lo. — Nunca vai sair se depender de mim.

— Não depende de você. Se eu não fizesse isso, Rian ficaria naquele lugar horrível para sempre, a mãe não se importa, Damiwon não se importa, ninguém parecia se importar, mas ele estava morrendo!

— Não cabe a você bancar o herói, Castin Evirus. Os Guardiões conseguiriam encontra-lo mais cedo ou mais tarde.

— Eu sabia de uma maneira que o traria de volta, então eu fiz. Sim, precisei de magia negra, mas isso foi o mais fácil de conseguir, em pouco tempo ele estará aqui e Erina vai... ela finalmente vai tê-lo de volta.

— Erina... por que sempre tem que ser a Erina? Caramba, e eu? Você é meu melhor amigo, não importa pra você que esteja me abandonando? Erina vai ter seu precioso Rian, mas tudo bem eu perder meu melhor amigo? Quem você pensa que é para decidir algo assim?

— Eu sinto muito.

— E não é só eu, não é porque sou egoísta, mas Erina também. Se está pensando tanto nela, por que não pensou que ela poderia querer você aqui?

— Ela o ama. — Disse Castin com a sombra de mil sóis em seus olhos. — Precisa dele mais do que jamais precisará de mim. Falei com Lenore Gover e ofereci-me no lugar de seu filho moribundo. Ele acabaria morrendo se passasse mais um dia naquele lugar.

— Então aceitou que te jogassem no mesmo lugar? Agora sou eu quem terei que te salvar!

— Eu não fui levado, não estou indo contra a minha vontade. Não estou pedindo para ser salvo, estou indo porque quero. Não serei um prisioneiro, nunca tocarão em mim. Sou um Evirus, um mago mais forte que metade deles.

— É com a outra metade que eu me preocupo.

Soria desatou a andar de um lado para o outro, já não sentia o próprio corpo há tempos.

— Não vá. — Ela disse assim que parou. Sabia que sua agressividade precisava ser esquecida, ela tinha que tirar aquela ideia estúpida da cabeça dele. — E Erina? Vai dizer que você não a ama?

Castin parou, surpreso, e virou-se para olhar a amiga. O olhar audacioso dela o deixava ainda mais desconexo, sem fôlego e assustado.

— Você a ama. — Ela repetiu, astuta.

— Eu não amo. — Murmurou logo em seguida, sem respirar, quis atirar coisas ao chão, mas promoveu seu auto controle. — Não posso.

— Fez tudo isso por ela, entregou sua vida nas mãos de Sirun por ela. Como pode ser tão burro quando se trata de amor? É pior que um cego, um cego burro.

As palavras de Soria jorravam de seus lábios e atingiam Castin de maneira que ele jamais poderia esperar, estava estático, à beira de perder o controle. Não tinha sido para isso que a tinha levado até lá. Não foi para arrancar meus sentimentos para fora de mim. Ele ainda tinha algum controle sobre si mesmo, se ela acabasse pressionando, do que ele seria capaz? Castin Evirus baixou a cabeça, derrotado, fechou os olhos com força e deixou que os braços de Soria o apertassem firme.

— Não posso amá-la quando não sou capaz de amar a mim mesmo. — Confidenciou, a voz transformada num murmúrio que pesava em seu peito.

— Sim, você pode.

Ele fechou os olhos e quando o fez percebeu a escuridão em que se encontrava. Ele sempre esteve com medo do escuro, sempre odiou ter que fechar os olhos para tudo quando o mundo é cheio de possibilidades. Sempre acendeu luzes e leu livros em seu quarto, sempre quis a calmaria de um jardim e os sorrisos de sua garota. Ele sempre foi tão enigmático consigo mesmo, e mesmo assim nunca aprendeu a amar a si mesmo. Como ela poderia amá-lo? Nem mesmo ele consegue. Não nasceu para o amor, não está ali para amar ou ser amado, mas se precisava fazer aquilo para que Erina Flox vivesse seu amor, então ele faria de olhos fechados, faria mil vezes. Apenas faria.

Ele sempre achou que a escuridão estava ao seu redor, mas sempre que fechava os olhos era aquela mesma escuridão que via. E agora entendia finalmente, não era o mundo, não eram os lugares, não eram as luzes apagadas, não eram as outras pessoas ou a maldade nelas, era ele. Ele trouxe a escuridão para Erina na prova do labirinto, ele despertou nela um poder além do que ela aguentaria, por isso esteve desacordada por tanto tempo. Ele e apenas ele trouxe a escuridão para ela.

— Sou a escuridão. — Murmurou com uma voz falha e cheia de tristeza.

A luz ao redor ficou mais forte, o sol nascia no horizonte e um semblante tornava-se claro próximo a uma árvore. Quando Soria abriu os olhos marejados e olhou para ele, o corpo de Castin transformava-se, não era mais a forma de um homem na sua frente, não era mais frio, mas também não era quente. Era ele, mas não era ele. Uma Sombra a rodeou, negra como a noite, uma sombra com olhos azul gelo que logo acompanhou outra, arrastando-se para longe dali.

 

Erina Flox acordou cedo demais naquela manhã. A luz do sol entrava por pequenos feixes em seu quarto. Desde o Desafio dos Blocos eles tinham se instalado em uma casa num campo aberto, e dali, dentro de uma semana eles voltariam para seus blocos, ou seguiriam caminhos diferentes. Um cheiro diferente fez seus olhos abrirem lentamente, ao seu lado havia um livro de capa de couro, Erina o reconheceu assim que o tocou para ler o título: O Conto do Conde Convi. Dentro dele, uma página estava marcada por uma pequena rosa branca de inverno, com pétalas de gelo que nunca derretiam. Era uma planta frequente da Nevaspa, mas o que estava fazendo ali? Elas devem existir em Equala, mas aquilo não explicava a outra questão.

Seus olhos então caíram sobre o texto sublinhado e leu-o em seus pensamentos:

“Um destino cruel tinha-lhes sussurrado ao pé ouvido e o fez por dias perder a cabeça, porém, jamais foi capaz de dominá-lo por completo. Ele era um veneno e ela a única a ter o antídoto. Era perigoso, ah porque não a avisaram no começo? Apesar disso, havia uma certa doçura em seu olhar quando partiu e em sua voz quando disse-lhe adeus em seus sonhos. Ele esperava que ela fosse capaz de entender, algum dia, o motivo dos seus erros”.

Assustou-se com a batida frenética em sua porta. Hamo Quoto estava parado dois passos afastado quando ela a abriu e olhou para ele. Seus olhos brilhavam como duas grandes estrelas, uma animação inesperada. O que está acontecendo agora?

— Você tem uma visita.

O corredor tinha se tornado tão grande como se seus passos fossem incapazes de chegar ao destino. “É o Rian”. A voz de Hamo falou carregada de emoção, mas Erina foi incapaz de assimilar qualquer coisa, o corpo tremeu violentamente quando o instrutor falou onde ele estava.

Como? ela correu em uma única direção, os passos maiores que suas pernas, logo ela estava no chão. Como? Quando? Esqueceu-se de respirar e levantou do chão para correr mais. O corpo estava completamente dormente, nem sentia a dor da queda. Ela estava entorpecida.

Havia um grupo de Guardiões parados do lado de fora do quarto. Se me impedirem eu quebrarei a porta. Lutarei até que seja a última de pé, mas não perderei. Quando a viram no final do corredor, um homem alto foi ao seu encontro e colocou a mão em seu ombro, mas os olhos de Erina estavam cegos, seus ouvidos surdos e sua voz falhava quando tentava falar.

— ...respi... re... respire... — Ele repetia e repetia até que ela conseguisse ouvir com clareza. — Respire fundo, você consegue fazer isso.

Então Erina reconheceu Oryon. Suas pernas estavam trêmulas e ela conseguia ver-se caindo a qualquer momento. Fraca demais, estava fraca demais.

— Vou te acompanhar até o quarto. — Ele a ajudou a levantar.

Quando foi que eu caí de joelhos?

Oryon abriu a porta e ambos entraram. Haviam mais alguns Guardiões Médicos e a instrutora de Crispir estava lá também. Desde quando ele está aqui? Por que só me avisaram agora?

— Vamos deixa-la sozinha por um tempo.

Os olhos de Erina prenderam-se na cama, onde havia um corpo deitado. Ele estava mesmo lá, apenas seus ombros, braços e rosto descobertos, logo percebeu que estava mais magro e sem cor. As lágrimas em seus olhos mais uma vez deixaram sua visão embaçada e foi incapaz de ouvir a discussão ao seu redor. Aproximou-se da cama com a flor de inverno entre os dedos e deixou a cabeça cair sobre o peito dele. Houve uma batida fraca, mas estava ali, aquela foi seguida por outra e outra. Seu coração batia calmo e lento, mas batia. Ele está vivo! Ela percebeu enquanto gordas lágrimas desciam de seus olhos.

Respire. Respire lentamente.

Quando acalmou-se mais e olhou ao redor, percebeu que estava sozinha, deitada sobre a cama ao lado dele, a cabeça ainda apoiada em seu peito sentindo seu calor.

— Vamos, acorde. — Murmurou chorando baixinho. — Volte pra mim.

A noite tinha chegado mais rápido que ela esperava, eles tinham levado comida para ela depois de insistirem que ela devia sair do quarto, mas ela recusou decidida a ficar ali até que ele acordasse. Erina permitiu-se olhar bem para ele, para que tivesse a certeza absoluta de que era realmente Rian, não uma ilusão, ou um sonho, ou Sirun mais uma vez. O rosto, claramente mais magro, ainda tinha o mesmo formato, e os lábios ainda eram cheios e macios, ela comprovou ao tocar-lhe com o dedo indicador. O cabelo estava maior, negro como a noite, da cor de seus olhos, que no momento ela era incapaz de ver.

— Não sairei até que acorde. — Disse olhando para seu rosto.

Ela ouviu um barulho escapar dos lábios de Rian.

— Droga. — Sua voz estava rouca e fraca. — É apenas mais um sonho.

Erina encostou sua mão em seu rosto, o coração disparando enquanto sentia as lágrimas voltarem rapidamente.

— Não, não é. Abra os olhos Rian, é real.

Lentamente ele abriu os olhos, foi difícil adaptar-se àquela claridade, mas foram os olhos de Erina que ele viu. Duas esferas verdes o olhando de volta, como em quase todos os seus sonhos. Ela repetia “Eu estou aqui” e “É real” tantas vezes que seria loucura até mesmo para ele não acreditar.

— Erina...

Ela sorriu, e a tormenta que tempestuava em seu coração foi arrastada para fora dele. Ela sorriu e foi como finalmente acordar de um pesadelo cheio de monstros, ele estava liberto da caixa de chuva que o manteve durante tantos dias e só então percebeu, quando ela sorriu.

— Está seguro agora, eu estou aqui e nunca mais vou te deixar ir. Nunca mais vou deixar, está me ouvindo? Então não vá. Não vá nunca mais, não me deixe assim nunca mais.

Ele segurou sua mão com força, tentando passar-lhe alguma segurança, ou calmaria, mas ainda era difícil para ele ter que entender o que estava acontecendo.

— Nunca mais. — Prometeu.

Só então Erina respirou fundo e quebrou o espaço que havia entre os dois, ela o beijou com ternura, a boca dele ainda era tão quente quanto ela se lembrava. Os dois trocaram um sorriso cúmplice e em seguida aninhou-se em seu peito e fechou os olhos, finalmente calma, finalmente.

Eles estavam sentados na cama, encostados na parede enquanto comiam uvas verdes. Erina gostaria de leva-lo para o jardim, assim podiam olhar as estrelas juntos, mas ele estava fraco demais para andar, por isso contentaram-se em apenas ficar juntos pelo resto da noite. Uma batida na porta veio antes dela se abrir e Soria entrou no quarto esboçando um sorriso tristonho.

— Então você soube! — Erina olhou para a amiga sorrindo como nunca antes sorrira, Soria entristecia-se por ter de pôr um fim em sua alegria.

— Fui eu quem o trouxe. — Respondeu.

Erina olhou para Rian, mas seus olhos não se encontraram. Ao invés disso ele pareceu fazer o possível para não olhá-la, encarava as mãos e apertava a mandíbula numa forte pressão.

Soria suspirou enquanto caminhava pelo aposento.

— Eu achei que você contaria. — Ela falou parando de frente para os dois.

— Contar o quê?

— Você realmente não achou nem um pouco estranho o fato do Rian ter aparecido aqui tão de repente?

— Bem, sim, mas eu não vou reclamar.

Soria sorriu com ironia. Por que ela está tão chateada?

— É o Castin, Erina.

Automaticamente os olhos de Erina caíram sobre a flor de inverno deixada sobre um cômodo ao lado da cama. Mas seus olhos voltaram em seguida para os de Soria.

— Ele foi com Lenore Gover para que Rian voltasse. Entendeu?

O que Erina tinha acabado de ouvir era tão absurdo que ela quase rio. Não fosse pelo olhar lascivo de Soria e o depressivo de Rian, ela teria mesmo chegado a tal ponto.

— O que está dizendo? Isso não é verdade, Castin jamais iria para o lado do Damiwon...

— Por conta própria. — Soria interrompeu — Tem razão, jamais iria por ele, porque é o que ele acredita e toda essa besteira. Ele não iria. Mas para proteger alguém que ama, para apenas acreditar na sua felicidade sem qualquer prova de sua existência, apenas para saber que você está feliz ele fez isso. E faria de novo, se quer saber.

De repente Erina sentiu-se tonta e segurou a flor em sua mão.

Não era verdade. Ele venceu o desafio, levará a Esfera para seu bloco, todos em Siriólia o chamam de herói e em toda Casmir ele é o Mago Evirus que venceu o desafio dos Blocos. Ele não faria isso, não faria por ela, não depois de tudo que aconteceu nos últimos dias. Depois do beijo, depois dos desentendimentos, de sua vitória, das últimas revelações. Ele não faria isso por ela.

— Me diga que é mentira.

De repente, mais uma vez naquele dia ela achou que morreria, o ar tinha-lhe escapado. O que o trecho daquele livro dizia mesmo? Suas mãos estavam geladas, a falta de ar era aterrorizante, ela devia estar doente ou algo parecido. Quis correr, correr para longe dali, correr para respirar. Era como se estivesse afundando e quanto mais lutava para respirar, mais era arrastada para o fundo.

Dói. Dói tanto. Por quê?

Então ela correu ouvindo seu nome ser chamado atrás de si. Ela correu para fora, passando pelos Guardiões, passando por Hamo Quoto e Azzu. Ela correu até encontrar-se nos braços de alguém, do lado de fora da casa, como tinha chegado ali tão rápido? Sentiu que fosse cair, mas os braços a mantiveram de pé.

— Ei! — Sairus Lacoste a balançou com força. — O que deu em você?

Não, não, não. Ela não queria dar explicações sobre coisas que nem ela mesma sabia. Não queria ter de ouvir o que eles tinham para dizer, o que Soria tinha para dizer enquanto jogava-lhe a culpa, ou Hamo Quoto tinha para dizer enquanto a absorvia de qualquer culpa. Ou o que os Guardiões tinham para dizer enquanto a proibiam de sentir-se como estava se sentindo porque não era assim que um Guardião deveria se sentir.

— Por que isso tudo acontece com as pessoas ao meu redor e eu não posso fazer nada para impedir? Eu nunca tive qualquer chance de tentar argumentar, eu estava impotente e fui tão inútil! Ele simplesmente foi e fui a última a saber. — Ela gritava enquanto segurava a flor com força. Estaria matando-a?

— Ninguém o obrigou a ir.

Mas o que estava fazendo? Não cabia a Sairus ouvir seu desabafo ou consolá-la.

Vulcano aterrissou ao seu lado, levantando poeira com suas asas negras. Erina correu para o Pégaso e montou-o com rapidez.

— Me leve para longe. — Murmurou e em seguida pôde sentir o vento frio da noite em seu rosto e finalmente respirou fundo.

 

Os fugitivos conhecidos como Sombras estavam reunidos em um salão grande cheio de estátuas estranhas e móveis antigos, na Gunfa havia um vulcão de pedra negra adormecido há trezentos anos. Há menos de dois metros dele, uma pequena escada levava para um subsolo onde as Sombras se escondiam há uma quinzena. Lenore Gover não disse muito desde que Castin a seguiu da floresta em que deixou Rian. O caminho foi em silêncio, mas ele preferiu assim, não era com ela que queria conversar.

E lá estava Damiwon, em um dos cantos do salão conversando com um dos fugitivos, o homem alto chamado Facea que fazia movimentos estranhos e frenéticos com a mão.

Damiwon levantou os olhos apenas quando eles já estavam bem próximos, o Mago de Equala sorriu e se aproximou com rapidez.

— Espero que tenham feito uma boa viagem. — Ele disse levantando os braços para tocar o ombro de Castin. — Sirun estará em boas mãos quando despertar de seu sonho. E quanto ao seu filho? — Dirigiu-se a Lenore Gover.

— Tinha razão, — Facea aproximou-se — o pirralho se saiu bem como moeda de troca. Eu sinto o cheiro desse, é mais forte que o cheiro do outro, esse não tem medo de nós, pelo contrário, não me surpreenderia se ele arrancasse sua varinha e a usasse contra nós agora.

— Ele não fará isso. — Lenore Gover riu como se contasse uma piada. — Porque não tem uma varinha!

— Então já sabia sobre a minha oferta. — Castin apenas olhava para Damiwon.

O mago sorriu para ele, ou dele, já não importava.

— Acompanhe-nos, essa é a parte mais quente do salão. O vulcão está adormecido, mas sua lava corre quente por essas paredes.

Damiwon sentou numa cadeira sobre um batente enquanto Lenore descansava na escada, apoiando-se em suas mãos abertas sobre chão. Enquanto isso, era em Castin que a outra Sombra parecia se interessar. Ronan Facea pôs-se a cheirá-lo.

— Esse tem cheiro de Evirus.

— O que faremos com ele? — Lenore perguntou interessada. — Posso fazê-lo sangrar? Usaremos seu sangue de mago para contatar Sirun, este é mais forte.

— Podemos mata-lo e arrancar seus olhos. — Disse Surei Doreo quando aproximou-se animada para o espetáculo, seu irmão caminhava ao seu lado.

— Seu corpo não foi feito para nós, — Lenore respondeu com desprezo. — foi feito para Sirun.

Por mais que as Sombras discutissem ao seu redor, Castin não desviava os olhos de Damiwon, nenhum músculo se movia e seus lábios estavam selados. No entanto, o burburinho ao seu redor apenas aumentava. Cada um daqueles fugitivos discutiam seu destino, mas o único que colocaria um ponto final em qualquer que seja a decisão era Jolve Damiwon, o mago sentado à sua frente.

— Quem é este? — Perguntou o irmão Doreo.

— Não vê? — Surei respondeu. — Apenas preste atenção, o cabelo, os olhos, o rosto e essa pele estranhamente pálida. Olhe bem, Cluzio, onde já viu alguém assim?

— Um Evirus! — Foer pulou assustado e correu para trás da cadeira de Damiwon, escondendo todo seu corpo e uma vez ou outra levantando a cabeça para olhá-lo.

— O maldito Evirus? Não se parece como da última vez.

— Veja as cicatrizes, está pensando no Evirus errado. Este é mais jovem, mas também é um mago.

— Estamos todos mortos, mestre! — Foer batia o pé no chão atrás da cadeira, parecia choramingar.

— Não vamos morrer, Foer maldito! Mato esse filhote de gelo antes que ele pense em levantar o mindinho. — Castin não gostava de Cluzio Doreo. O homem caminhou decidido e parou na frente dele, encarando-o e cortando o seu olhar. — Vamos, Damiwon, deixe-me testar minha força matando-o.

— Não é você quem vai mata-lo! Combinamos que eu mataria o próximo maldito do Desafio dos Blocos que cruzasse nosso caminho, lembra irmão?

— Diga alguma coisa, Sisi! — Foer gritou em seu lugar.

— Não me chame assim.

Lenore Gover já estava farta, revirou os olhos e bufou entediada.

— Será usado para contatar Sirun, não é para testar a força de dois frangos Crispilentos.

— Mate-o! Apenas mate-o e arranque seus olhos! — As mãos de Facea ainda se moviam freneticamente, parecia estranhamente animado enquanto Foer gritava atrás da cadeira assustado.

— Ei, maldito, diga alguma coisa!

— Não estou aqui para ser uma cobaia — Ele olhou para Lenore, em seguida para Facea. — Você jamais conseguiria me tocar, não chegaria nem perto dos meus olhos. — Então encarou Cluzio Doreo na sua frente. — E nenhum dos irmãos malditos são fortes o suficiente para me matar. Continuem treinando.

Castin notou o rosto de Cluzio ficando ainda mais vermelho que antes, uma enorme fúria gritava em seus olhos escuros e fechou as mãos em punho com força. Ronan Facea começou a soltar uma série de palavrões enquanto Foer corria para mais longe dele gritando como uma criança medrosa e Lenore Gover insistia para Damiwon que ele devia ser usado para Sirun. Surei mordia os lábios seus olhos desejando sangue e Silasi, permanecia tão calado como uma sombra, observando-os em um canto escuro.

— Não. — Jolve respondeu escondendo um sorriso atrás dos dedos largos. — Ele é um mago do clã Evirus da antiga Uclari, me diga quantos de vocês possui este sangue? O que são, um bando de idiotas? Diga-nos Castin, quando se tornou uma Sombra?

— Esta manhã.

— E quantas vezes treinou para se tornar uma?

Castin ficou confuso, mas não demonstrou.

— Nenhuma.

Damiwon sorriu mais uma vez.

— Lenore, quantas vezes treinou em sua cela para se tornar uma Sombra?

— Sete. — Ela respondeu chateada.

— E foi a mais rápida entre os seis. Este é o poder de Uclari, Castin se tornou uma sombra sem qualquer esforço, ele não sabia como e mesmo assim fez. Ainda acham que o deixarei nas mãos de qualquer um de vocês? Silasi, acompanhe Castin até seu aposento, ele não se importará em ficar com o mais quente. A partir de hoje ele é uma das Sombras de Sirun.

Castin seguiu Silasi para fora do salão. O fugitivo era baixo e magro, aparentava ser jovem. Seu caminhar era decidido e apressado, fazia seu cabelo cumprido voar.

— Você é Castin Evirus. — Ele falou enquanto andavam por corredores iguais. Castin não respondeu o óbvio. — Não fala muito.

— Você também não.

— Eu falo, mas eles falam mais, fica difícil competir. — Por quantos corredores como aquele eles ainda iriam passar? — Conheci alguns Evirus. O pai do seu pai e o pai dele.

Castin espantou-se.

— Quantos anos você tem?

— Vinte e nove.

— Como pode tê-los conhecido?

— Sou médico, conheci seus corpos em decomposição e esqueletos. Tenho um fascínio pelos Evirus, a história que marcou seu clã em sua chegada a Casmir. Um feitiço tão poderoso que mesmo depois de tantas gerações ainda corre vivo por suas veias. — Silasi finalmente parou e apontou para uma porta. — Planejava estudar seu irmão, rezava para que ele morresse.

— Você não deve ser o único.

— Doreo? É apenas um garotinho, você deveria se preocupar era com os outros três. Facea, Lenore e Foer.

Foer, o maluco?

— Os magos?

Silasi riu.

— Os loucos.

Castin compreendeu e entrou em seu novo aposento olhando bem ao redor para as paredes de pedra negra queimadas pela lava do vulcão adormecido. Sentiu um arrepio atrás da nuca, mas resolveu ignorar.

— Não é um dos quartos quentes, se quer saber. O meu fica no próximo corredor e o do senhor Damiwon há três portas deste. O quarto de Sirun será no andar de cima, quando ele renascer. Você deveria descansar, por mais que tente esconder, é óbvio que está exausto.

— Obrigado.

— Não me agradeça, eu ainda quero que seja minha cobaia. Tenho várias razões que me levam a crer que posso descobrir um feitiço capaz de quebrar o de gelo que persegue sua família por tantas gerações. Se você apenas me deixar estuda-lo.

— Está fora de questão. — Silasi inclinou a cabeça ao ouvir a resposta, decepcionado.

— Então continuarei rezando para que seu irmão morra.

Ainda não será o único.


Notas Finais


AVISOS

O próximo capítulo será um extra sobre o ponto de vista de Rouren durante o Desafio dos Blocos. Vamos entender um pouco como funciona a cabeça desse rapaz misterioso e conhecer um pouco da história dele.
O capítulo será postado no sábado ou domingo da semana que vem, se acontecer algum imprevisto será postado antes, mas não depois, prometo!

Obrigada por ler, espero que tenham gostado <3
Beijooos


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