História Fora de ritmo - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jimin, Suga
Tags Jimin, Stripper!au, Yoongi, Yoonmin
Exibições 268
Palavras 4.881
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Olá!

Primeiro alguns avisos: Eu comecei a escrever essa fanfic no final do ano passado, eu acho. Eu avancei bastante no começo desse ano e, ao chegar bem perto do final, eu parei, dizendo a mim mesma que terminaria de escrevê-la enquanto postasse. Acontece que: eu esqueci que essa fanfic existia (!!!!!!). Achei-a perdida no meu drive alguns dias atrás e, como estou num momento de "vou tirar todas as coisas do baú, para preenchê-lo com coisas novas", resolvi que iria publicá-la (eu também não poderia jogar 21mil palavras fora, mds). Disso decorre que: meu estilo mudou um pouco, e lidar com meu eu-do-passado foi um pouco difícil, mas eu ainda gosto muito dessa fanfic e não queria vê-la apodrecer ;;;;;

(Vai ser ótimo revisitar um trabalho antigo pra publicar também, iei!)

ENFIM.

Hora de agradecer (vai ter nota inicial textão, sim /n): Na verdade eu vou agradecer só a uma pessoa, porque essa pessoa tá na minha vida me incentivando a escrever essas coisas e a postar e me fazendo feliz, então eu preciso mencioná-la em todas as fics que eu posto hoje em dia, sim. Meu Anjo, Y., obrigada sempre ♡

Ah, é isso. Boa leituraaa ~~~~

Capítulo 1 - De volta


 

Quando disseram que o novo conceito seria algo ao mesmo tempo sensual, provocativo e distante, quase como se houvesse um abismo intransponível entre aqueles no palco e aqueles que assistiam, automaticamente Yoongi pensou em strippers.

Não era culpa sua que os chefões estivessem falando como se o grupo de garotos fosse exatamente aquilo, embora não mencionassem expressamente aquele nome. Não ajudava o fato de que Yoongi talvez tivesse memórias bem frescas sobre a última vez em que estivera em um clube como aquele – frescas, porém embaraçosas.

Sendo um dos responsáveis pelas músicas que iriam compor o álbum a ser lançado, ele suspirou, prendendo a ponte do nariz com o indicador e o polegar, a armação grossa dos óculos apoiadas sobre seus dedos. Era desnecessário que as lentes corretivas de sua leve deficiência visual estivessem no lugar: seus olhos estavam fechados enquanto organizava seus pensamentos. Uma janela em branco do bloco de notas o encarava como se fosse uma daquelas luminárias que os policiais usavam para interrogatório nos filmes, e ele sentia como se estivesse sendo questionado sobre seus erros do passado, que ele não estava interessado em confessar, nem mesmo sob tortura.

Deveria ser uma grande brincadeira do destino o que estava lhe acontecendo.

Ele não sabia como o setor criativo chegou à conclusão de que aquele conceito seria uma boa ideia. Ele sequer tinha ideia de como um conceito como aquele foi capaz de passar de setor em setor dentro do sistema da companhia de entretenimento, sem que ninguém ousasse questionar. Não apareceu ninguém que dissesse: “Ei, vocês já pensaram que é mais legal se os meninos representassem demônios?”. Demônio parecia um conceito tão mais interessante para Yoongi: era menos perigoso e divertido. Quem em sã consciência não iria gostar de um conceito saído direto de um livro fantasia?!

Claramente havia um motivo para Yoongi não trabalhar com a criação de conceitos, embora sua criatividade para letras e arranjos fosse notável.

Além disso, ele não estava em posição de reclamar, não quando ele tinha trabalho a fazer e era apenas mais uma peça na escala de produção do novo comeback daquele grupo de garotos que a cada dia que passava se tornava mais popular.

E Yoongi não precisava de suas lembranças. Não precisava sequer passar ao lado daquele clube para saber como a ideia apresentada pelos figurões da companhia funcionava. Empatia era a chave que garantia que suas letras fossem verossímeis, profundas, e não mais um emaranhado de palavras sem nexo entre si ou com a realidade. Era também a empatia que garantia que Yoongi iria se manter longe de problemas, como procurar por coisas que ele não podia ter ou tocar. Como voltar naquele lugar onde sua dignidade provavelmente morreu um pouco, ficando para trás quando ele anunciou que iria voltar para casa, prometendo a si mesmo que nunca mais pisaria ali.

 

 

 

(Era despedida de solteiro de uma das amigas da irmã de Yoongi, e ele fora arrastado a pretexto de ser o motorista da vez, tendo em vista que todas queriam beber e não ter que pagar um táxi para voltar para casa. Alternativamente, sua irmã, Yoonhye, havia ameaçado espalhar seus podres do passado para os pais, causando assim sua ruína: ele certamente seria deserdado e seu relacionamento com seus genitores, que já era frágil devido a todas as divergências de opiniões do passado, seria reduzido a pó.

Assim, Yoongi se viu sentado no canto mais afastado do palco, onde suas passageiras se divertiam. Bebia água e coquetéis não alcóolicos, resmungando baixinho imprecações que não diria na frente do pai e da mãe e que ajudavam a aliviar todo o sentimento de raiva e frustração que sentia, afinal, ele poderia estar fazendo qualquer coisa em vez de estar perdendo seu precioso tempo ali.

O barman o olhava com um olhar complacente, como se soubesse pelo que ele estava passando, e Yoongi se perguntou quantas pessoas na mesma situação estiveram naquele mesmo lugar.

Havia muitas mulheres no clube, alguns homens também, embora não lhe parecesse um acontecimento incomum ali, uma vez que todos se comportavam com naturalidade diante daquele fato – não era comum, no entanto, na maioria das casas noturnas de que Yoongi tinha conhecimento. Talvez fosse um desses locais dispostos a promover a diversidade. Não surpreendia que estivesse localizado em Itaewon, onde diziam ser comum a existência de estabelecimentos voltados para o público LGBT em Seul.

O pensamento de que talvez ele não estivesse em um local que de alguma forma condenava a sua existência a princípio fora reconfortante. Mas só até que ele percebesse que não precisava que as pessoas soubessem – que não precisava que sua irmã ou as amigas dela soubessem. Sempre mantivera sua intimidade longe de qualquer ouvido curioso, preservando-se de qualquer problema que ele não teria paciência para resolver como deveria.

Depois de pensar por mais algum tempo, concluiu que ele só precisava continuar onde estava, bebendo água e esperando o tempo passar enquanto mexia nos aplicativos do celular. Nada iria perturbá-lo ali, então ele estava a salvo, embora considerasse vez ou outra que poderia morrer de irritação e ansiedade.

A falha no plano apareceu eventualmente, é claro. Porque tão logo Yoongi sedimentou seus pensamentos naquela conclusão, ele apareceu.)

 

 

 

Não era a primeira vez que Yoongi o via no palco, mas o rapaz à sua frente, rebolando ao ritmo da música enquanto seduzia a plateia, não cansava de deixá-lo hipnotizado.

Yoongi nunca fora de sair à noite, nunca gostara de festas, mas desde a fatídica despedida de solteiro para a qual sua irmã o arrastara meses antes, sem ter o direito de protestar, ele tinha que admitir que havia algo de viciante naquele lugar.

Se alguém perguntasse, ele negaria veementemente. Mas o que o fazia sair de casa, de forma quase automática àquela altura, era seu pequeno prazer culpado e secreto de ver Jay dançar – não que ele o fizesse com frequência, havia sido apenas algumas poucas vezes, ele não estava tão viciado assim.

Mas havia algo na forma como ele se movia, na forma como sorria e piscava para as pessoas que o assistiam, que fazia Yoongi admirá-lo. Como se a vida fosse fácil, Jay oferecia alegria e luxúria enquanto dançava, permitindo que, durante sua apresentação, a qual durava apenas alguns minutos, as pessoas fossem envoltas em uma bolha de hedonismo que as fazia aproveitar o momento, admirando-o por sua beleza, por sua habilidade, por sua paixão.

Era assim que Yoongi se sentia, pelo menos.

Sentado a uma distância que ele consideraria segura, apesar de vez ou outra ter a impressão de que o olhar de Jay estava voltado em sua direção, Yoongi se deixava observar cada um daqueles movimentos que ele fazia, desde o primeiro mover do ombro e da perna, a forma como ele retirava a gravata do uniforme colegial e desabotoava os primeiros botões da camisa branca que usava por baixo, a mão que bagunçava os cabelos, até a retirada lenta da última peça da roupa – a calça, que ficava entreaberta em seu quadril a maior parte do tempo, dando apenas um vislumbre do que estava por vir, provocando gritos, curiosidade e excitação.

Yoongi tentava não deixar transparecer em seu rosto o quanto a performance dele o agradava, mas ele sempre ficava tão distraído com Jay e seus lábios cheios e rosados, seus olhos castanhos cobertos por uma maquiagem esfumaçada, que era impossível dizer com certeza que ele conseguira que os músculos de seu rosto ficassem imóveis – ele nunca lembrava se havia conseguido e sempre se sentia inquieto, achando que alguém iria descobrir seu pequeno segredo um dia.

E aquela sequer era a única preocupação na mente de Yoongi quando ele não estava distraído com o que via no palco.

Então Jay terminaria sua apresentação com um passo forte, fazendo uma pose sensual ao final, recebendo dos expectadores gritos, assobios e aplausos, sorrindo, ofegante, enquanto agradecia. Talvez a parte preferida de Yoongi: quando ele sorria e ia embora, porque significava que ele estava livre do encanto que o prendia ao moreno.

Estava particularmente cansado naquela noite em que Jay se vestira de colegial. Ainda estava remoendo suas ideias para o novo trabalho, ainda irritado e indisposto com a ideia de voltar para casa, motivo por que resolveu ficar ali mais um pouco, beber quem sabe.

Não teria que acordar cedo no outro dia, não faria mal quando ele estava começando a sentir os músculos do ombro doendo sem que ele sequer encostasse no local.

Era também uma desculpa para não ser perseguido pelo fantasma de alguém que ele apenas tinha visto em algumas noites, dançando em um palco com a iluminação deixando as feições do rosto bonito gravadas em sua retina. Era aquele maldito fantasma que o caçava em madrugadas insones enquanto ele tentava pegar no sono.

Sua distração com a bebida e com seus pensamentos, contra os quais ele travava uma batalha épica, não permitiu que ele visse alguém se aproximando, abraçando-o por trás e o assustando a ponto de quase fazê-lo cair do banco ao pé do balcão no bar.

“Mas o que dia-“, tentou perguntar com a voz falha, desafinada, enquanto sentia o ar faltando em seus pulmões devido à surpresa. Braços masculinos envolviam sua cintura, e Yoongi tinha certeza de que não conhecia ninguém ali que pudesse tocá-lo com tanta intimidade.

“Isso é estranho, mas, por favor, por favor, por favor”, a pessoa implorou, parecendo desesperado. Não era difícil escutá-lo uma vez que a música estava baixa o suficiente para permitir conversas durante o intervalo entre as apresentações dos dançarinos do lugar, então não era nenhuma surpresa poder distinguir os sentimentos transmitidos por aquela voz. ”Não me bata, eu só preciso te abraçar por alguns segundos e fingir que eu te conheço enquanto você faz o mesmo”, a pessoa continuou falando, como se fosse simples e fácil, mas também como se fosse a única coisa capaz de mantê-lo vivo, enquanto Yoongi continuava tentando entender o que estava acontecendo.

Tudo acontecera tão rápido, o abraço, as palavras, o silêncio que se seguiu e que deveria ser preenchido por uma resposta – uma resposta importante, e, céus, como ele estava confuso, talvez não devesse ter exagerado na vodka. Tudo o que Yoongi entendeu se referiam à “não me bata” e “fingir que te conheço”.

“Por favor”, o outro repetiu. O choramingo fez Yoongi desistir e se render, relaxando o corpo tanto quanto era possível naquela situação. A voz parecia pertencer a alguém jovem, mais novo que ele, e, pelo que Yoongi podia sentir, alguém forte também.

“Tudo bem, mas me solta”, ele disse depois de respirar fundo, esforçando-se para parecer calmo, para que suas palavras não saíssem como se ele estivesse assustado, como seria de se esperar ao se lidar com um bichinho que estava com medo e que poderia arranhar toda a sua cara. “Agora”, reforçou a ideia de que ele deveria ser solto, sentindo os braços que o envolviam afrouxando o aperto ao redor de seu corpo, mas sem soltá-lo de verdade.

“Okay, eu vou soltar você, mas, por favor...”, ouviu a voz insistir, como se tivesse medo de que Yoongi não seguisse suas instruções. Ele já havia entendido em algum momento depois da primeira vez, não precisava ter que ouvir mais de duas vezes, mas aquilo o fazia questionar que tipo de pavor a outra pessoa estava sentindo para se comportar daquela forma.

“Fugindo de uma má companhia por acaso?”, Yoongi perguntou com um tom sarcástico. Era um palpite, mas que outro motivo teria alguém para apresentar aquele tipo de comportamento naquele lugar?

“Sim, infelizmente”.

“Certo, você já pode me soltar, nós vamos conseguir lidar com isso, certo?”, Yoongi disse, tentando olhar por cima do ombro para ter um vislumbre da pessoa que o atacara tão repentinamente. Depois do susto, conseguira que sua voz saísse com mais naturalidade e confiança, em contraste com a voz triste que lhe respondera.

Para sua sorte, os braços logo o libertaram e então Jay se sentou ao seu lado, com um sorriso triste no rosto, fazendo Yoongi encará-lo com uma expressão aturdida, incapaz de acreditar no que estava vendo.

“Oi”, Jay o cumprimentou timidamente, sem saber como agir naquela situação – Yoongi não o culpava, ele estaria tão ou mais sem jeito, com o rosto pintado de vermelho como um tomate. Jay, ao contrário, parecia tão real e tão perto de seu alcance, como ele nunca pensou que o veria.

“Oi”, Yoongi murmurou de volta, notando o quão rude ele estava sendo por não responder ao outro.

“Bom te ver aqui, senti sua falta”, ele disse, pegando Yoongi de surpresa mais uma vez, que, com o choque de ver o rapaz na sua frente, mal conseguira lembrar o que havia acabado de prometer para um completo estranho que o abraçara no bar.

“Acho que posso dizer o mesmo”, tentou entrar no clima que Jay criara, de familiaridade e conforto, embora aquelas palavras não fossem uma mentira como o que o outro dissera certamente o eram.

“Veio me ver?”, Jay segurou sua mão, acariciando-a com as suas. Seu toque não era tão suave quanto sua pele parecia no geral, mas Yoongi não estava em condições de reclamar. Ele com certeza não devia ter exagerado na quantidade de vodcas que pedira ao barman mais cedo.

“Claro, eu... Queria muito te ver”, sorriu, mesmo que sentisse vontade de se estapear por soar como um idiota quando ele deveria parecer pelo menos alguém normal – alguém que conseguia se manter inalterado diante do stripper em quem ele havia pensado durante muitas horas desde a primeira vez que pusera seus olhos nele. Observou como suas mãos pareciam ser seguradas com carinho, o mesmo tipo de sentimento que Yoongi via nos olhos de Jay, e pensou em como ele era um bom ator ao mesmo tempo em que notava o quão seca estava sua garganta.

“Isso me deixa muito feliz.” Ele murmurou, inclinando o corpo para falar algo em seu ouvido. “Eu nem sei como agradecer.”

“O que aconteceu?” Yoongi murmurou de volta e ouviu Jay rir baixinho, perto do seu ouvido ainda. Mas a risada era destituída de qualquer bom humor, o que se explicava pelas palavras seguintes do rapaz.

“Ex maluco que não aceitou o fim.”

“E por que eu?”, questionou antes que pudesse se conter, pensar em como ele poderia abrir um a brecha para que o ex do outro se aproximasse caso notasse que algo não estava certo ali.

“E por que não?”, ele encolheu os ombros, soltando a mão de Yoongi enquanto continuava sorrindo – ainda aquele sorriso triste que Yoongi começava a odiar por substituir aquele que ele via no palco. Talvez o abismo entre a ilusão e a realidade fosse maior que o inicialmente calculado. “Eu já vi você por aqui antes, você estava sozinho e estava por perto...” ele continuou, mordendo o lábio inferior, como se estivesse pensando se deveria ou não dizer o que tinha em mente. “Eu teria pedido a Seokjin-hyung se ele estivesse por aqui, mas ele não está, então- Eu- Você é um anjo que caiu do céu pra me ajudar”. Ao dizer isso, o sorriso se transformou, parecendo verdadeiro daquela vez, como se estivesse feliz por ter tido ajuda afinal, mesmo que não como havia planejado.

O coração de Yoongi fez algo engraçado em seu peito.

Estava feliz que ele não tivesse mencionado o incidente da primeira vez em que estivera naquele lugar, embora não tivesse certeza de que ele se lembrava – não deveria ser fácil de esquecer, mas Yoongi queria acreditar que tudo conspirava a seu favor.

“O ex maluco ainda está por aqui?”, perguntou para mudar de assunto. Felizmente Jay não pareceu notar seu desconforto.

“Infelizmente ainda olhando pra cá”.

“Talvez você deva fugir do campo de visão dele?”, sugeriu mais para não ter mais que permanecer tão perto do outro enquanto ele ficava sem saber o que fazer.

“Pode funcionar”, Jay concordou e segurou a mão de Yoongi entre as suas de novo, de um jeito que fez Yoongi questionar a própria sanidade – mas talvez fosse só impressão sua o fato de que o sorriso e os olhos de Jay tinham assumido um quê de travessura.

“Vem comigo”, ele disse, levantando-se e entrelaçando seus dedos aos de Yoongi.

Talvez não fosse só impressão.

 

 

 

“Qual o seu nome?”, Jay perguntou quando eles já estavam do lado de fora do estabelecimento, longe da vista de quem quer que o estivesse perseguindo.

A temperatura estava agradável – um pouco frio, é verdade, e o vento ajudava Yoongi a se sentir cada vez mais sóbrio, embora nada conseguisse afastar a sensação de que ele estava vivendo uma obra ficcional naquele exato instante. Quais eram as chances de que os eventos de minutos antes acontecessem na vida real?

Bem pequenas, Yoongi tinha certeza.

A pergunta era esperada, uma vez que eles sequer puderam se conhecer de verdade dentro do clube, não com olhos alheios os observando, olhos que Yoongi sequer sabia onde estavam, mas sentia como se estivessem em todos os lados. No entanto, o que ele não podia esperar de Jay era que estivesse realmente interessado em saber a resposta. Eles andavam lado a lado, mas dava para ver que ele lançava olhares de esguelha vez ou outra, como se mal pudesse conter a expectativa.

Yoongi tinha que admitir que também havia imaginado que ele diria algo como ‘obrigado por me ajudar, boa noite e até nunca mais’, mas isso não parecia ser mais uma opção àquela altura.

“Min Yoongi”, respondeu, colocando as duas mãos no bolso da calça, enquanto eles continuavam seguindo em frente, depois de optarem por uma direção qualquer uns dez passos antes. “Seu nome não é Jay, é?”

Jay riu. Sob as luzes da rua, o rosto dele parecia ainda mais jovem, menos como o Jay que ele conhecia das noites que passara sentado no mesmo banco do bar, sendo convenientemente deixado em paz pelo barman.

“Não, não”, ele respondeu enquanto algumas notas da risada contaminavam sua voz. “Park Jimin, na verdade”. Park Jimin, Yoongi repetiu em pensamento para não esquecer. “Você é mais velho que eu? Eu deveria chamar de hyung, será?”

“Quantos anos você tem?”, disfarçou o interesse e a curiosidade pelo sentimento que a ideia de respeito normalmente evocava nas pessoas, mas Yoongi não poderia se importar menos com o tratamento que os mais novos deveriam dar aos mais velhos.

“Vinte e três”, ele respondeu, orgulhoso de si mesmo, fazendo Yoongi questionar se ele tinha noção de como parecia ter bem menos que vinte e três – exceto quando estava em cena, é claro, mas isso era assunto para uma outra conversa, se eles chegarem a se tornar mais próximos com o tempo.

Por algum motivo, Yoongi não quis que aquela noite acabasse.

“Vinte e nove”, respondeu afinal, pondo fim à espera e ao suspense que seu silêncio ocasionara.

“Não acredito que você tem quase trinta!”, Jimin parecia genuinamente surpreso, mas logo se recompôs, vendo que Yoongi não tinha uma expressão de quem estava mentindo. “Yoongi-hyung então”, falou com um sorriso, enquanto Yoongi tentava não pensar no quanto havia gostado de como seu nome soara naquela voz doce, principalmente acompanhado do tratamento.

Não havia muito o que ser dito além das poucas palavras trocadas. Yoongi não sabia o suficiente sobre o outro, tampouco sabia como ser sociável. Conversar com as pessoas com quem trabalhava havia se tornado mais fácil com o tempo, mas, ao se encontrar em uma situação inteiramente nova, ele perdia a noção do que deveria ou não fazer. O silêncio, no entanto, não costumava incomodá-lo nem parecia incomodar Jimin, que avançava na mesma velocidade com que Yoongi andava, mas nenhum dos dois havia estabelecido uma rota a ser seguida, percebeu.

“Aonde nós estamos indo mesmo?”, Yoongi finalmente perguntou, sem parar de andar. Sua intenção, a princípio, era pegar um táxi para voltar para casa, mas não pretendia deixar Jimin sozinho, quando a ameaça de um ex-namorado ainda pairava sobre ele, não importava que, a cada passo dado, ficasse mais e mais distante.

“Eu não sei... Eu estava acompanhando você”, ele riu. Não surpreendia Yoongi: era uma resposta de certo modo esperada.

“Bom saber, assim eu não levo um estranho para casa”, pelo menos não o levaria fisicamente, já que às vezes Yoongi era acompanhado pelo pensamento que permanecia algum tempo em sua cabeça, mesmo depois de terem se passado horas desde que deixara o clube.

“Mas eu não sou um completo estranho, não é?”, ele estava sorrindo maliciosamente, com certeza se lembrando de noites anteriores – ou de uma noite anterior em especial. O pensamento provocou um calafrio em Yoongi, que em nada estava relacionado com a temperatura.

“Não?”, fez-se de desentendido, olhando para frente mesmo se isso significava ter que lutar contra a sensação de estar sendo observado atentamente desafiando-o a encarar o mais novo.

“Como eu disse, eu já vi você por aqui antes, hyung”, falou devagar, garantindo que Yoongi iria ouvir cada uma daquelas palavras – e também as palavras não ditas, que ficaram subentendidas na afirmação.

“Pode ter sido um sósia meu...”, tentou uma última vez, sabendo ser inútil.

“Mas eu também estou tentando pensar em uma forma de agradecer”, Jimin comentou para alívio do mais velho. Ele provavelmente havia sentido que estava tentando ultrapassar um limite e que seria melhor não forçar para além dali.

“Você não precisa...”, protestou, ainda surpreso pela mudança repentina de assunto, pela mudança de humor, que, de repente, se tornara mais sério, embora ainda houvesse o resquício de um curvar de lábios na boca rosada do mais novo

“Eu estou com fome, quer comer alguma coisa?”, ignorou que Yoongi acabara de liberá-lo de qualquer obrigação que ele achasse existir.

“Você não vai me fazer pagar, vai?”, questionou apenas para provocá-lo. Também imaginava que poderia dissuadi-lo se continuasse a apontar as falhas de sua ideia, mas o resultado foi exatamente o oposto.

“Mesmo você sendo o mais velho, não, eu... realmente quero agradecer, você me tirou de um problema dos grandes lá dentro...”

Jimin não estava sorrindo como antes. Ele parecia ainda mais sério, em vez disso, transformando os pensamentos de Yoongi em uma confusão de indagações. O quão importante havia sido que ele concordasse com o plano? E o que teria acontecido se ele não tivesse participado da encenação?

“Certo. Tudo bem.”, concordou, afastando-se da direção que seus pensamentos o estavam levando.

No fim das contas, havia uma lanchonete em um quarteirão próximo, onde normalmente as pessoas que saíam das casas noturnas das proximidades se reuniam para comer alguma coisa, uma vez que era difícil conseguir algo dentro das boates.

Yoongi percebeu que Ja- Jimin era ainda mais bonito quando apreciado com alguma luz, ainda que soubesse que parte do que via era graças à maquiagem que lhe adornava a face. A pele dele praticamente brilhava, os olhos estavam delineados com lápis preto, o sorriso era moldado por lábios que também brilhavam. Era quase como se ele estivesse em frente a um daqueles cantores de grupos pop.

Infelizmente, Yoongi também percebeu, Jimin era tão inalcançável quanto um.

“Eu sei o que deve estar pensando”, ele afirmou, analisando o cardápio que pegou em uma das mesas e sentando-se em uma cadeira, chamando a atenção de Yoongi.

“O quê?” O rapaz perguntou alarmado, sentando-se de frente para o outro, esperando que ele concluísse o que havia dito. Esperava que ele estivesse errado – quais eram as chances de ele estar certo, afinal?

“Que foi uma ideia idiota me ajudar. Desculpa, hyung, eu fui egoísta e te tirei de lá sem nem perguntar se você realmente queria sair agora e-“

“Ei, ei, relaxa!”, apressou-se em  dizer a fim de acalmá-lo. “Eu estava quase indo embora, já tinha visto o que queria ver”, confessou, olhando para o cardápio nas mãos do outro, em busca de uma distração. “Você terminou com isso aí?”

Enquanto comiam, Yoongi descobriu que Jimin trabalhava como stripper, porque em parte era o que ele podia fazer, em parte porque um amigo o indicara e foi o que ele conseguiu. Ele normalmente trabalhava até mais tarde, mas, naquela noite, ele tinha pedido para sair mais cedo para estudar para uma prova da faculdade. Falava como se devesse uma explicação a Yoongi. Deveria ser difícil lidar com as críticas das pessoas com relação ao que ele fazia sempre que mencionava o que fazia.

“Você é bom no que faz, pelo menos”, franziu o cenho, enquanto pensava. Poderia parecer um trabalho ruim, ser praticamente colocado no palco como um produto em exposição, mas Jimin o executava muito bem.

O mais novo não pareceu entender seu comentário como um elogio, unindo as sobrancelhas também enquanto encarava Yoongi parecendo meio perdido, como se tentando lê-lo, descobrir todas as interpretações possíveis para seu comentário – e, repassando o que dissera mentalmente, Yoongi notou que havia dito algo estranho sem perceber.

“Quer dizer, você é bom e parece não desgostar do trabalho. Deve ganhar o suficiente também, então está tudo bem, certo?”, explicou.

“Você gosta de me ver dançar?”, Jimin perguntou, parecendo animado, com o sorriso de seus lábios transparecendo também por seus olhos, e Yoongi não teve coragem de negar, acenando discretamente com a cabeça enquanto dava mais uma mordida em seu sanduíche. Contudo havia chamado a atenção do mais velho que, de todas as coisas que ele dissera, a única coisa que parecera importar fora o fato de que ele poderia ou não ter admitido indiretamente que gostava de vê-lo dançar. “Eu devia dançar para você qualquer dia, então”.

Ao ouvir aquele comentário, o mais velho quase engasgou com a comida que mastigava, fazendo Jimin rir ainda mais alto do que rira até então – alto o suficiente para ecoar por boa parte da lanchonete e para irritar Yoongi se as circunstâncias fossem outras, porque ele gostava do som da risada do mais novo, então estava tudo bem.

“Eu não tenho o trabalho dos sonhos”, afirmou em uma tentativa de desviar o foco da conversa e pigarreou um pouco para garantir que ele não iria sufocar com um pouco de comida no buraco errado. “Mas dá para ir levando, é isso. Você está indo bem no seu, não- Eu não sei mais o que ‘tô falando, desculpe”.

“Tudo bem”, Jimin afirmou, esticando a mão até que estivesse tocando a mão de Yoongi, em um gesto de conforto, mas o resultado foi exatamente o oposto.

Sorte sua que Jimin logo estava pondo um fim ao contato, sem parecer notar seu desconforto.

Depois disso, ele comentou sobre o relacionamento com Jinwoon. Yoongi não precisava ouvir a história se ele não quisesse contar, mas, antes de interrompê-lo, deixou que ele continuasse. Talvez o rapaz só precisasse colocar para fora todos os sentimentos que por ventura ainda guardava.

Ele contou que havia sido um erro desde o início, mas ele estava apaixonado e cego na ocasião. Era compreensível que quisesse que tudo desse certo, mesmo com as demonstrações exageradas de ciúme, de paranoia. Segundo ele, tentou relevar tudo aquilo quando notou que não era saudável, tentou dar uma chance, e outra, e outra. Havia se acomodado com a situação, sem conseguir enxergar que ele não precisava fazer tanto esforço quando a outra parte não estava disposta a fazer o mesmo tipo de sacrifício, o mesmo tipo de concessão.

Quando Jimin finalmente percebeu que precisava sair daquele relacionamento, que nunca fora saudável, as coisas acabaram ruins.

“Agora que paro para pensar, tudo parece bem ridículo”, comentou, colocando uma batata frita na boca.

“Não é ridículo, é normal”, Yoongi, que até então permanecera praticamente calado, resolveu intervir. Sabia como as coisas aconteciam quando se estava apaixonado, tivera sua dose de decisões idiotas em sua vida. “Quando você gosta de alguém, vê as coisas de outro modo. Importante é não deixar que se repita...”

“Acho que você tem razão”.

Depois disso, Jimin permaneceu calado. Era um pouco estranho, já que Yoongi havia escutado a voz dele sem parar por muito tempo. Deixava um vazio no ambiente que não poderia ser preenchido pelos barulhos do local onde estavam.

Os olhos do mais novo permaneceram abaixados, parecendo um pouco triste, o sorriso há muito perdido, juntamente com suas palavras. Mas havia algo de gratificante em vê-lo comer, e Yoongi repetiu a si mesmo que era apenas porque Jimin não o devia nada que ele resolveu pagar pelos dois sanduíches, refrigerantes e batatas fritas.

“Mas, hyung, assim a minha dívida vai continuar existindo!”, Jimin reclamou, exasperado, dentre muitas outras reclamações que Yoongi não fez questão de guardar na memória.

“Você me paga outro dia”, prometeu. “Agora eu preciso ir, preciso acordar daqui a pouco”, explicou enquanto andavam até a saída do lugar.

“Mas-”, Jimin tentou argumentar, parando do lado de fora do estabelecimento.

“Vai ser pior para você se eu demorar a dormir, pirralho”, não conteve o tom afetuoso de suas palavras e torcia para que tivesse passado despercebido.

“Tudo bem...”, ele uniu os lábios em um bico rosado que Yoongi tentou não encarar. “E eu não sou tão novo assim, como eu sou um pirralho?!”

“Até depois, garoto”, Yoongi ignorou a pergunta e sorriu, mesmo que tentasse evitar que o sorriso se destacasse em seu rosto. Ele sentiu vontade de bagunçar o cabelo do mais novo e colocou as mãos nos bolsos da calça novamente, para evitar fazer qualquer coisa estúpida da qual ele se arrependeria depois.

Enquanto ele se afastava, ouviu Jimin suspirar audivelmente e riu baixinho.

 


Notas Finais


Gente, é isso. Essa primeira parte começou com 2,6k e acabou com o quê? 4,8k? Acho que é isso. Tô com medo do que vai ser das próximas 18mil palavras q

MUITO OBRIGADA POR LER!! ♡♡♡♡♡


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