História Forever. - Capítulo 17


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Categorias David Luiz
Personagens David Luiz, Personagens Originais
Tags David Luiz, Fanfic, London, Londres, Personagens Originais, Psg, Romance, Tragedia
Exibições 41
Palavras 5.185
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Olá amorecos!
Mais um capítulo saindo do forno para vocês, espero que gostem.
Boa leitura! <3

Capítulo 17 - A proposta.


Fanfic / Fanfiction Forever. - Capítulo 17 - A proposta.

 

Nossos enganos poderemos resgatá-los hoje, amanhã ou mais tarde, sempre é tempo de fazê-lo.”

Divaldo Franco.

 

Eu não estava conseguindo assimilar tudo o que estava acontecendo. Do dia para a noite, minha vida resolveu virar de cabeça para baixo e todo o meu mundo cômodo estava prestes a desmoronar. O mundinho que eu construí depois de muito esforço e estudo, de muito trabalho árduo.

Não estava mal apenas por perder meu emprego, mas por perder a única coisa que realmente era importante para mim, já que durante toda a minha vida eu foquei na vida profissional. Essa era a minha prioridade, nada mais. E agora, nem isso eu tinha.

Enquanto estava no elevador, fiquei pensando sobre o que eu tinha conseguido conquistar durante todos esses anos e a resposta foi: nada. Eu não tinha conquistado absolutamente nada, apenas histórias para contar. Mas aí eu percebi uma coisa muito importante: eu não tinha para quem contar essas histórias. Qualquer mulher normal em meu lugar pensaria “ah, um dia contarei todas essas histórias para meus filhos e netos” mas a minha realidade era diferente. Eu não tinha perspectivas de vida, não tinha esperanças de encontrar alguém para me casar e constituir uma família. Todas as minhas histórias se perderiam ao vento no momento em que eu desse meu último suspiro.

No final de tudo, acabei percebendo que me agarrei tanto assim ao trabalho, por não ter o que a maioria das pessoas sonha: amor.

As únicas pessoas que eu tinha ao meu lado eram meus pais, Rose e Isaac. Mas um dia, meus pais morrerão, Rose irá se casar e Isaac, certamente desistirá de esperar por mim e encontrará uma pessoa que o ame, e então todos terão suas famílias. Mas e eu? Onde eu me encaixo nisso tudo? A dolorida verdade é que eu não me encaixo em lugar nenhum, por isso amava a sensação de viajar, de nunca ficar parada em um mesmo lugar.

Senti meus olhos marejarem mas eu não poderia chorar. Não ali dentro, do lugar que outrora tinha sido minha válvula de escape. Então decidi ir ao lugar para o qual eu sempre fugi para pensar: Green Park. Caminhei, calmamente, até o parque.

Me sentei em um dos bancos e fiquei olhando para o nada. Completamente sem rumo. Tentei me acalmei e me concentrei apenas em minha respiração e no cheiro da grama

recém-regada pela garoa de Londres. Fechei os olhos e tentei pensar em um novo rumo para minha vida, em uma saída para meus problemas. Mas, em vez de pensar em algo novo, eu me recordei. Me lembrei de um sonho estranho que tive, enquanto eu estava desacordada. Tinha um homem, ele tinha cabelos longos e claros e estava vestindo uma espécie de túnica branca. Seu nome era Rafael e ele me dizia que era meu mentor e que eu precisava consertar as coisas. Senti um arrepio seguido de uma tonteira, que fez com que minha cabeça praticamente explodisse ao ouvir o barulho das pessoas conversando ao meu redor. Eu precisava sair dali.

Me levantei e vi todo o parque girando ao meu redor. Ainda parada, respirei fundo tentando me recompor e caminhei até a entrada do parque para pegar um táxi. Eu não estava em condições de caminhar, não mesmo.

Assim que cheguei em casa, tirei o agasalho e corri para a cozinha. Preparei um chá de camomila para tentar me acalmar um pouco.

Ainda estava no meio da tarde e eu estava sozinha em casa. Apesar de não estar me sentindo bem, eu não incomodaria Isaac com meus problemas internos e inexplicáveis e também não ligaria para Rose, já que ela estava trabalhando. Para meus pais, muito menos, já que, se eu ligasse, minha mãe viria correndo para cá e tentaria me convencer de que eu ainda não estou bem para ficar sozinha em casa e que eu deveria ficar uns tempos com eles, mas isso não era uma opção. Eu precisava me restabelecer e acima de tudo, conseguir um novo emprego.

Resolvi então assistir a um filme. Todos os meus filmes de infância favoritos ficaram na casa dos meus pais. Não fiz questão de levar comigo, primeiramente porque eram todos em VHS e também porque eu não tinha tempo para assistir filmes. Mas, provavelmente, agora eu teria tempo de sobra. Fui até o quarto de Rose e abri o armário no qual ela guardava seus livros, CD’s e DVD’s. Tinha uma infinidade de opções, mas nenhuma me agradava. Títulos como “Um amor para recordar”, “Diário de uma paixão”, “Querido John”, “Cartas para Julieta”.

“Mas que droga, Rose. Será que você não tem nenhum filme que não fale sobre amor?” pensei, enquanto continuava revirando o armário em busca de um título atraente para mim. Até que me deparei com “Orgulho e preconceito”, a versão mais recente dele, com a Keira Knightley. Apesar de também se tratar de um filme romântico, eu não resistia a uma história de Jane Austen.

Eu não adoro Jane Austen apenas pelo fato dela ser uma grande visionária para sua época, em que mulheres não podiam ser escritores. Mas talvez, porque eu me identifique com ela. Com seus valores, opiniões. Pelo pouco que sei de sua vida, ela também terminou sozinha, mesmo sendo autora de um dos romances mais lindos de todos os séculos, o amor não existiu para ela, apenas em um mundo fictício criado por sua mente fértil, e essa era sua válvula de escape.

Alguns afirmam que ela chegou a viver um grande amor, e que graças a esse amor, ela teve inspiração para escrever “Orgulho e Preconceito”, mas nunca comprovaram de fato o envolvimento dela com esse homem. Acredito que, para escrever um romance tão profundo, uma pessoa deve ter sentido isso, em algum momento de sua existência. Essa é a diferença entre eu e Jane Austen: ela conhece o amor, eu não.

Voltei para a sala e coloquei o DVD para rodar. Enquanto assistia ao filme, sentada no sofá, agarrada com três almofadas, eu me identifiquei com a protagonista diversas vezes, mas a principal delas, foi quando Elizabeth Bennet, enquanto trocava confidências com a irmã, ainda no início do filme diz:

Apenas o amor mais profundo irá me persuadir ao matrimônio, e é por isso que eu vou acabar como uma solteirona.

Havia tanta verdade naquela frase que eu cheguei a pausar o DVD apenas para refletir sobre ela. Essa frase simplesmente me definia. Não é que eu não quisesse me casar um dia, mas quisesse me casar apenas quando eu tivesse a certeza de que era o cara certo. Quando eu tivesse a certeza de sentir um amor tão profundo que seria capaz de sobreviver à morte. O problema é que estamos falando de século XXI, onde as pessoas estão se importando mais com poder do que com sentimentos. Encontrar alguém que pensa da mesma forma que eu seria um milagre, quase impossível.

Estava quase no fim do filme, quando Rose abriu a porta.

— Assistindo Orgulho e Preconceito? Quem é você e o que fez com minha amiga? - ela zombou.

— Estava muito entediada. E não fique tão surpresa, você sabe que eu sou uma grande admiradora de Jane Austen.

— Pensei que você odiasse romances.

— Para toda regra, há uma exceção.

— O talvez o seu coração de pedra esteja finalmente amolecendo.

— Vai sonhando…

— E então, como foi seu dia? Foi na agência?

Não consegui responder, apenas pausei o filme e a observei jogar a bolsa na cadeira do lado do sofá e ir para a cozinha. Ela pegou uma maçã na geladeira e só então percebeu que eu não havia respondido:

— Por que o silêncio? - ela indagou.

— Ah Rose… - eu suspirei antes de encostar a cabeça no sofá.

— O que aconteceu? - perguntou, andando em minha direção e logo após, se sentou do meu lado no sofá.

— Adivinha só, eu fui demitida.

— O quê?

— Isso mesmo que você ouviu. Estou desempregada.

— Mas eles não podem fazer isso, é contra a lei, você ficou fora porque estava internada correndo risco de vida.

— Eles já fizeram, Rose. Já mandaram alguém para a Índia no meu lugar.

— Ah, Liz, eu sinto tanto… - ela me abraçou.

Em vez de responder, eu comecei a chorar.

— Calma Liz, tudo ficará bem… - ela disse, passando a mão em meus cabelos.

— Não vai, Rose. Eu perdi tudo. - disse, me afastando para encará-la.

— Não exagera, Elizabeth. Você só perdeu seu trabalho e está assim devastada porque é o primeiro emprego que você perdeu…

— Não Rose, você não entendeu. O meu trabalho era o meu tudo.

— Talvez assim você aprenda a não se dedicar apenas ao trabalho. Você precisa de uma vida, Liz!

— A minha maior meta de vida era conquistar esse trabalho, quando eu finalmente alcancei meu objetivo, a vida me toma tudo o que mais sonhei.

— Elizabeth, entenda uma coisa: para tudo nessa vida há um propósito. Você está fazendo uma tempestade em copo d’água por conta de uma demissão. Existem diversas outras agências ao redor do mundo, você vai conseguir um novo emprego. Mas a verdade é que você não deveria estar se preocupando com isso e sim com sua recuperação.

— Eu perdi minha fonte de renda e felicidade e você acha que estou fazendo drama?

— Se a fonte de renda é a preocupação, você está sendo uma verdadeira idiota. Seus pais nunca te deixariam na mão e você se esquece que sua companheira de apartamento é sua melhor amiga, ou seja, eu nunca te cobraria algo nesse momento.

— E você acha que eu me sinto bem ficando nas costas dos outros? Já basta ter ficado de cama, dependendo das pessoas…

— Sabe qual é o seu problema? O orgulho. Você é exatamente igual ao personagem do Mr Darcy do seu queridíssimo romance épico “Orgulho e Preconceito”.

— Rose… - tentei falar, mas ela me interrompeu.

— Não, me escuta. Você precisa parar de ser assim. Deixa esse teu orgulho de lado, faz uma terapia, sei lá. Você sempre arruma um jeito de afastar as pessoas. Sempre arruma um jeito de fugir de relacionamentos. Sempre arruma um jeito de se encontrar sozinha, sem perceber que você tem ao seu lado pessoas que realmente te amam. Você só pensa no seu orgulho bobo e na sua autossuficiência, mas deixa eu te contar uma coisa: não é legal ser independente sempre. Você precisa de um meio-termo. Todos precisam de um. Nada que é demais, é bom. Nem sempre a independência é uma qualidade, no seu caso, por exemplo, é um terrível defeito, já que graças a ela, você não deixa ninguém entrar na tua vida.

— Eu não sou assim. Você está criando uma imagem muito perversa de mim. Eu só me protejo…

— Se protege de quem, Elizabeth? De nós? Sua família? Pessoas que te amam verdadeiramente, se preocupam com seu bem-estar? Do Isaac? Um cara que é completamente apaixonado por você.

— Não coloca o Isaac no meio da nossa conversa!

— Coloco sim. Algum dia teríamos que ter essa conversa. Não é certo o que você faz com ele. Você não pode prendê-lo a você a vida inteira. Ele te ama, Liz. Você precisa deixar claro que não tem intenção nenhuma de assumir um relacionamento com ele.

— Olha só, eu realmente não quero falar sobre isso… - eu disse, enquanto me levantava do sofá.

— Tá vendo como você é… - ela disse, se levantando e indo atrás de mim – você não dá a mínima para as pessoas que realmente sentem algo por você. Só se importa com a droga de um emprego que nem é mais seu. Você precisa parar, Elizabeth, antes que termine em uma casa sozinha e com 15 gatos.

— Eu já aceitei que mais cedo ou mais tarde eu vou ficar sozinha, talvez seja esse o meu destino. Teria sido melhor eu ter me trancado num convento, assim eu não teria que aguentar tudo isso. E sobre os 15 gatos, eu adoraria, já que animais são seres sinceros e que só ficam do seu lado se realmente te amarem. Agora, se você me dá licença, eu preciso arrumar meu quarto, está cheio de poeira porque eu fiquei muito tempo fora. - eu disse, enfurecida e tomada pela raiva, e em seguida, fechei a porta do meu quarto e a tranquei.

— O que você quer dizer com isso? Que eu não te amo de verdade? - Rose gritou, batendo na porta do meu quarto.

Permaneci em silêncio.

— Quer saber? Por quê você não compra um gato, já que eles te amam de verdade? Aproveita e divide o apartamento com ele também, porque eu acabo de desistir. - ela disse antes de bater pela última vez na porta do meu quarto. Logo depois, escutei passos se afastando.

Que ótimo. Sem emprego e sem melhor amiga. O que mais eu perderei?

Assim que eu me joguei na cama, meu celular começou a tocar. Era Isaac e eu realmente não sei se eu estava com cabeça para conversar com qualquer pessoa, não depois dessa briga horrível com Rose. Depois de chamar por uma última vez, recebi uma mensagem.

Tá tudo bem?” - ele perguntou.

Hesitei em responder, mas resolvi digitar:

Nada bem. Pra ser bem sincera, tô péssima.

Depois de alguns minutos, o celular tremeu novamente:

Por que não atende o celular e conversamos um pouco?

Não estou com cabeça para isso. Preciso pensar.” respondi.

O que houve, afinal?” ele respondeu, quase que imediatamente.

Fui demitida.” digitei e cliquei em enviar. Após isso, desliguei o celular e me virei parar dormir. Eu definitivamente não queria mais pensar e muito menos falar sobre isso.

Acordei, horas depois, com batidas na porta do meu quarto.

— Liz? Você tá aí? - Rose estava quase sussurrando, a voz parecia mais calma, diferente do tom que ela usou em nossa discussão.

Dei um suspiro e me levantei, abri a porta e fiquei a encarando, em silêncio.

— Podemos conversar?

Apenas balancei a cabeça, confirmando.

Ela entrou em meu quarto e sentou na minha cama.

— Me desculpa por hoje cedo, mas é que eu realmente me preocupo com o fato de você achar que não tem nada além do trabalho. Eu queria te fazer perceber que você tem a mim e que pode contar comigo para o que for, mas acabei passando a imagem errada… Eu sinto muito.

Esbocei um sorriso de canto e respondi:

— Tá tudo bem.

— Não, não está. Somos melhores amigas desde sempre e nunca tínhamos tido uma briga desse nível. O máximo que já aconteceu foi discutirmos por qual filme assistir no cinema, ou qual tom de batom fica melhor com alguma roupa.

— Tá tudo bem, sério. Isso acontece nas melhores famílias…

— Ainda somos uma família?

— É claro que somos! - eu disse e em seguida, quase fui esmagada pelo abraço apertado que ela me deu.

Ainda estávamos abraçadas quando a campainha tocou.

— Você convidou alguém? - perguntei, me afastando de Rose.

— Não…

— Então quem será?

— Deixa que eu abro. Não deve ser ninguém importante, só pessoas preocupadas com você querendo saber se você está bem. Fique aí deitada e eu já volto. Temos muita coisa para conversar.

Eu sorri e disse:

— Com certeza temos!

E então ela se retirou do quarto.

Alguns minutos depois, três batidinhas me tiraram de meus pensamentos.

— Posso entrar? - era a voz de Isaac.

Senti meu corpo gelar.

— Isaac? Hm… entra. - eu respondi, um pouco sem jeito.

Ele entrou e parecia um pouco desconfortável, principalmente ao encarar os bichinhos de pelúcia que eu tinha em cima da minha cama. Se sentou na ponta do colchão e perguntou:

— Está um pouco melhor?

— Você está se referindo ao acidente ou ao fato de eu ter perdido meu emprego?

— Os dois!

— Ah, do acidente eu estou praticamente recuperada. Agora vai levar um tempo até a ferida do desemprego cicatrizar…

— Eu sabia que você iria se sentir assim, por isso tomei a liberdade de mexer uns pauzinhos para tentar te ajudar.

— Você falou com o RH da agência? - perguntei, cheia de esperança.

— Na verdade, não. Não conheço ninguém dentro da Magnum. Mas…

— Mas…

— Tenho uma proposta para você.

Engoli a seco, mas disse:

— Prossiga…

— Eu já estou há um tempo morando em Paris, já fiz grandes amizades e me estabeleci na cidade…

— Isaac… - eu disse, a voz saiu um pouco mais apreensiva do que eu estava esperando.

— Calma, Elizabeth, não estou te pedindo em casamento ou para que more comigo em Paris. - sua voz ficou um pouco irônica e sarcástica.

Fiquei um pouco constrangida e não consegui responder. Quando ele percebeu tal constrangimento, continuou:

— Você, por acaso, já ouviu falar na agência Gamma?

— Sinceramente? Não. Conheço muito pouco de Paris…

Ele sorriu e prosseguiu:

— É uma agência bastante conceituada. Alguns dos melhores fotógrafos do mundo passaram por lá, entre eles, Sebastião Salgado, uma das maiores referências do fotojornalismo brasileiro.

— Eu conheço Sebastião. Mas o que tem essa agência?

— Tenho grandes amigos lá dentro e consegui uma oportunidade para você.

— O quê – quase gritei.

— Isso mesmo. Se você aceitar a proposta, você se muda para Paris com emprego garantido. É bastante tentador, não acha?

— Eu… eu… nem sei o que falar. - respondi, não podendo conter o sorriso bobo em meus lábios.

— E então, o que me diz? - ele perguntou, animado.

— Eu posso pensar nisso?

— Claro que pode, não é uma decisão fácil de se tomar, e eu sei bem disso. Também tive que deixar amigos e família para trás. Mas pense com carinho. Estamos falando de Paris, a cidade-luz, a cidade do amor. E também de uma das agências mais conceituadas do mundo.

— Sim, é… um sonho.

— Exatamente. Um sonho que pode se transformar em realidade a partir do momento que você disser “sim, eu aceito”.

— Mas tão fácil assim, sem uma entrevista, uma seleção?

— Eu sou Isaac Williams, né. Eu consigo tudo.

— Convencido. - eu disse, o empurrando.

— Brincadeira. Quando eu disse que seu último emprego havia sido na agência Magnum, eles nem hesitaram. Conhecem o trabalho da Magnum de Paris e é esplêndido.

— Mas ainda assim, parece ser bom demais para ser verdade.

— Eu sei, me senti exatamente assim quando recebi a proposta de trabalhar em Paris. Parece algo tão distante de nossa realidade, não é?

— Sim… Nunca havia passado pela minha cabeça morar em Paris.

— Então acho bom você pensar bem na minha proposta. Não vou te incomodar mais, marquei de assistir a um jogo com uns amigos e não quero chegar atrasado. Se cuida, viu? - ele disse e em seguida, depositou um beijo em minha testa.

— Pode deixar, vou me cuidar.

— E eu ficarei aguardando sua resposta. - ele disse, e então, se retirou do quarto.

Fiquei alguns minutos sentada na cama, abraçando meu travesseiro, pensando em tudo aquilo que Isaac havia acabado de me propor.

Ate que meu silêncio foi interrompido por Rose:

— E então, sobre o que os pombinhos conversaram?

— Pombinhos? Nem vem com essa, Rose. Você sabe que apesar de tudo, Isaac sempre foi apenas um caso.

— Amiga, você deixou cair uma coisa…

— O quê? - indaguei, olhando para o chão.

— A sua dignidade!

— Rose!

— Que foi? Só tô falando uma verdade…

— Não é indigno uma mulher ficar com um homem apenas por ficar, até porque os homens agem assim sempre.

— Mas é um pouco indigno quando o homem ama a mulher. Mas não vamos entrar nesse assunto novamente… Sobre o que foi a conversa? - ela perguntou antes de se jogar na minha cama e esperar pela resposta.

— Tá mesmo preparada para ouvir?

— Sempre estou, queridinha.

— Ele me fez uma proposta de emprego.

— Proposta de emprego? Explica isso direito que eu tô confusa.

— Ele conseguiu um emprego para mim…

— Ah, isso é maravilhoso! Eu te disse que você estava fazendo tempestade em copo d’água…

— Mas o emprego é em Paris.

Rose se calou e ficou boquiaberta. Eu não aguentei e comecei a gargalhar.

— Você aceitou, né? - ela perguntou, depois de alguns segundos.

— Disse que eu ia pensar.

— Qual é o problema com você, garota?

— Olha aqui, eu também adorei a ideia de morar na cidade mais luxuosa do mundo. Mas…

— Mas o quê, Liz? É o sonho de qualquer pessoa!

— Mas você mesma me disse que eu deveria valorizar mais as pessoas que se importam comigo. Morar em Paris significa deixar você e meus pais para trás. Eu ficaria sozinha em uma cidade desconhecida.

— Mas você teria ao Isaac…

— Apenas ele. E isso não me parece muito justo.

— Liz, escuta, eu tenho certeza que seus pais concordarão comigo: está na hora de você abrir suas asas e voar.

— Definitivamente minha mãe não concordará contigo. Ela era contra eu simplesmente viajar, quanto mais morar em um lugar distante dela.

— Não é tão distante assim. Duas horas de trem e voilà…

— Ela nunca ficaria satisfeita com isso, Rose.

— Ela não ficava satisfeita com tuas viagens loucas para lugares inusitados, mas se ela soubesse que você se estabeleceu em algum lugar, ficará feliz.

— Eu não sei…

— Só existe uma maneira de saber a opinião deles. - ela disse, se levantando da minha cama.

— O que você vai fazer?

— Vamos, se arrume!

— Quê?

— Vamos fazer uma visitinha aos seus pais.

Ela disse e nem ao menos me deu um direito de escolhe, simplesmente me deixou sozinha no meu quarto e foi para o dela se vestir. Ou eu colocava uma roupa, ou ela provavelmente iria me arrastar pelos cabelos, e de pijama.

Me vesti e em poucos minutos, Rose apareceu e me arrastou para o carro. Percebi, durante o caminho, que eu estava me sentindo como uma adolescente que vai contar para os pais que está namorando. Minhas mãos estavam suando, mesmo com o frio terrível que estava congelando toda Londres.

Ficamos paradas alguns minutos no trânsito, sem conseguir atravessar a London Bridge. Quando finalmente chegamos na frente do prédio dos meus pais, senti meu coração acelerar.

— Será que eles irão me apoiar? - perguntei a Rose.

— Eles te amam, tenho certeza que vão! - ela respondeu e em seguida, tocou o interfone.

Quando subimos, minha mãe abriu a porta um pouco assustada:

— Aconteceu algo, querida? Está se sentindo mal?

— Não mamãe, é que… preciso contar algo para vocês.

Entrei no apartamento tão familiar para mim, abracei meu pai e ele depositou um beijo na minha testa. Depois que cumprimentaram Rose, nós quatro nos sentamos na mesa e um silêncio constrangedor nos consumiu. Até que eu tomei coragem e comecei:

— Fui demitida. Descobri hoje.

— Ah querida… - minha mãe disse, estendendo a mão para alcançar a minha.

— Você precisará passar um tempo conosco? - meu pai perguntou, animado com a ideia.

— Não papai, eu agradeço, mas não será necessário.

— Claro que não será, tenho certeza que Lizzie encontrará um novo emprego logo. - mamãe disse.

— Então mamãe, é sobre isso que eu gostaria de conversar com vocês. Eu já arrumei um novo emprego.

— Isso é maravilhoso!

— Mas ele fica em Paris… - soltei a bomba e fechei os olhos, esperando que ela gritasse ou que meu pai simplesmente surtasse e começasse a dizer que eu era nova demais para morar em outro país. Mas eles não fizeram nada disso.

— E por quê exatamente você veio até aqui, meu amor? - meu pai indagou.

— Bem, vim perguntar o que vocês acham de tudo isso.

Papai sorriu e em seguida segurou minhas duas mãos:

— Para mim, não importa a sua idade, você sempre será a menininha do papai. Mas na realidade, você já tem 24 anos, não precisa de nossa autorização para nada.

— Se você acha que esse é o melhor caminho, vá, querida… - minha mãe acrescentou.

— Como assim? Vocês não vão ficar bravos? Ou preocupados?

— Preocupados nós sempre ficaremos, afinal, somos seus pais. - meu pai respondeu.

— E você não está indo morar em um dos países que vivem em guerra, como os que você costumava visitar. Você está indo para a França, não é tão distante assim.

Lancei um olhar para Rose, que estava sentada do meu lado, e ela começou a rir e sussurrou em meu ouvido:

— eu te disse.

— Então vocês simplesmente me deixam livre para ir?

— Claro! - meus pais disseram juntos.

— Eu tô sonhando?

— Mas é claro que você terá que pedir uma autorização ao médico, afinal de contas, você acabou de sair do hospital. - minha mãe disse.

— Ah mãe…

— É claro que vai, Liz. Eu, como sua melhor amiga e enfermeira, não vou deixar que você saia dessa cidade sem uma autorização por escrito do seu médico.

— Eu por acaso taquei pedra na cruz para merecer duas mandonas na minha vida?

— Só fazemos isso porque te amamos, querida. - mamãe me disse, sorrindo.

— Vocês prometem que irão me visitar em Paris?

— Claro que sim, ou você acha que deixaremos nossa única filha abandonada em uma cidade estranha? - papai disse e em seguida, se levantou da cadeira e me fez levantar também, para me envolver em um apertado abraço.

Quando saí da casa dos meus pais, eu estava decidida: eu iria para Paris.

Antes de dormir, eu enviei uma mensagem para Isaac dizendo:

“Me ajuda a arrumar um apartamento em Paris?”.

O celular vibrou imediatamente:

Isso é um sim?

Eu te convidaria para morar comigo alguns tempos, mas tenho certeza que você não aceitaria, então sim, eu ajudo…”

Sorri ao ler a mensagem e então digitei:

É bom saber que terei ao menos um amigo na cidade.”

Antes que ele pudesse responder, desliguei novamente o celular e tentei ter uma noite tranquila de sono, mas um sonho confuso me fez acordar no meio da madrugada.

Eu me via vestida de noiva, escutava o barulho de um disparo de uma arma e também via um homem morto bem na minha frente. Acordei assustada e por muito pouco eu não bati à porta de Rose pedindo ajuda, mas resolvi enfrentar meus próprios medos e voltar a dormir.

Na manhã do dia seguinte, comecei a encaixotar minhas coisas. Roupas, itens pessoais, lembranças. Encontrei fotografias da minha infância, como por exemplo, a do meu aniversário de quatro anos no qual minha mãe me obrigou a me vestir de Cinderella, sendo que eu nunca gostei da personagem. De todos os contos de fada, acho o menos interessante. Sempre preferi heroínas como a Bella de “A bela e a fera” ou até mesmo Mulan.

Encontrei também minha primeira prova de redação, assim que eu entrei no ginásio. A primeira fotografia que fiz quando ganhei minha primeira câmera digital, que era um retrato de meus pais sentados no sofá de nossa casa. Lembranças de uma infância e adolescência que passaram rápido demais.

Passei as próximas duas semanas arrumando minha mudança. Isaac já havia voltado para seu emprego, mas viria me buscar no fim de semana. Eu só precisava cumprir mais uma etapa antes de deixar a cidade: conseguir a autorização do médico, apenas para deixar minha mãe mais tranquila.

— E então, como se sente? - o médico me perguntou, assim que eu entrei em seu consultório, um dia antes da viagem para Paris.

— Melhor impossível, doutor.

— É bom te ver assim, Elizabeth. Mas e então, me conte tudo. Seguiu minhas indicações direitinho?

— Sim, senhor.

— E a fisioterapia?

— Também, inclusive, ainda estou fazendo.

— Então o que te traz aqui?

— Então, estou me mudando para Paris, serei contratada por uma nova agência e prometi a minha mãe que viria conversar com o senhor antes de partir.

— Sua mãe me contou sobre seu trabalho, Elizabeth. Acho admirável, mas preciso te dizer que depois de tudo que lhe aconteceu, você não deveria trabalhar nesse ramo.

— Como assim?

— Sua mãe contou sobre suas viagens, os perigos que você corria. Você deve saber, antes de mais nada, que nenhum médico em sã consciência te liberaria para voltar pra esse tipo de trabalho. Você teve 3 costelas fraturadas e certamente sabe que terá que ficar usando a cinta por mais uns 2 meses, no mínimo, para que elas se recuperem. E além disso, você teve uma fratura na cervical, não poderá mais correr de bombas e tudo mais…

— Mas…

— Eu sei o quanto você ama o que faz, mas agora você deve escolher entre o trabalho e a sua vida.

— Mas e se eu ficasse apenas dentro da cidade?

— Aí não teriam problemas. Você só não pode é fazer muito esforço.

— Então está certo. Sem problemas. Eu aceito minha nova condição. O senhor poderia, por favor, fazer uma autorização por escrito para que eu possa entregar para minha mãe?

— Claro! - ele me respondeu e rapidamente pegou caneta e papel, enquanto eu fiquei pensando em como eu iria me sentir estando presa a apenas uma cidade, sem poder sentir a adrenalina de viver de um lado para o outro, correndo perigos.

Não comentei sobre o que o médico havia me dito. Guardei apenas para mim. Até porque, no fundo do meu coração, eu sabia que ele estava certo. Eu ainda sentia algumas dores ao me deitar e provavelmente, eu sentiria algum tipo de dor, mesmo que em menor escala, pelo resto da minha vida. Afinal, 3 costelas e a cervical fraturadas.

Não sabia afirmar se estava psicologicamente preparada para abrir mão de minhas viagens, mas eu precisava tentar. Paris seria um recomeço, uma nova chance que a vida havia me dado para tentar construir minha vida de um jeito diferente.

Então, as horas pareceram voar e finalmente, havia chegado o momento. Meu voo estava marcado para as 17h, mas eu precisava chegar com no mínimo, duas horas de antecedência.

Às 14:40 eu cheguei no aeroporto, despachei minhas malas e encontrei com meus pais, Rose e Isaac, que havia vindo me buscar. Ficamos conversando, fingindo que estava tudo bem até que começaram a chamar o nosso voo e eu precisava ir para a sala de embarque.

Isaac pegou minha bagagem de mão e ficou um pouco afastado, nos observando. Ele, provavelmente, não gostaria de atrapalhar um momento tão pessoal como esse.

Minha mãe não aguentou e começou a chorar, me abraçou forte e sussurrou em meu ouvido:

— Que Paris te traga toda a sorte e felicidade que existe nesse mundo!

— Obrigada mamãe! - eu disse e em seguida, depositei um beijo em seu rosto.

— Muito juízo, foco e força. Se comporte. Iremos te visitar todos os feriados! - meu pai disse, me envolvendo em um abraço. - Cuide dela por mim, tá bem? - ele disse para Isaac, o que foi algo completamente desnecessário.

E então chegou a vez dela, Rose:

— Liz, que você finalmente descubra o quão maravilhosa a vida pode ser, afinal, você estará na cidade do amor. Estaremos distantes fisicamente, mas sempre conectadas por um elo muito mais forte. - disse, me abraçando.

— Sei disso, Rose. Você é muito mais que uma amiga, é uma irmã. Faz parte de quem eu sou. Obrigada por tudo! - eu disse, segurando as lágrimas e então me afastei.

Caminhei em direção a sala de embarque, acompanhada por Isaac, e antes de entrar e seguir meu rumo, olhei para trás e disse:

— Eu amo vocês!

Era difícil lidar com a sensação de deixar as pessoas mais importantes da minha vida para trás. Mas era chegada a hora de crescer, de mudar, de recomeçar.

Paris, estou chegando.


Notas Finais


P.S: A Agência Magnum realmente existe, em vários locais do mundo. Assim como a agência Gamma, que fica em Paris. Descobri a existência dessas duas agências, graças ao Sebastião Salgado, uma das maiores referências de fotografia/fotojornalismo, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Achei interessante compartilhar essa curiosidade com vocês.
Para quem quiser saber um pouco mais sobre o Sebastião: http://www.prismapalestras.com/imprimir-palestrante.asp?id=213.
Beijinhos... Obrigada por gastarem o tempo de vocês lendo minha fic! ♥


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