História Frankfurt 83 - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Originais
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Palavras 1.910
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, Romance e Novela, Slash, Violência, Yaoi
Avisos: Álcool, Drogas, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Oi :3

Então

Eu NÃO apoio o uso de nenhum tipo de droga, não siga o exemplo dos personagens, você vai morrer :v. Isso é ficção, brother
Algumas palavras e expressões vão ser explicadas nas notas finais :3
Enjoy <3

Capítulo 1 - Capítulo Único


Dirk apertava o guidão da Virago preta com as mãos trêmulas, trincando o maxilar na tentativa de não bater os dentes de frio. Estreitava os olhos para enxergar as curvas das ruas mal iluminadas e cheias de poças d'água. Nunca choveu tanto em Frankfurt como naquela madrugada. Os cabelos que havia arrepiado com gel colavam na testa, a jaqueta de couro pesava o dobro e resmungava por não chegar rápido ao lugar.

Ainda estava perto de casa, Dirk poderia ter dado meia volta e se manter aquecido na pensão, mas era realmente necessário estar no Schwarze Witwe naquela noite. Desceu da moto e observou a construção decadente de três andares. Tábuas cobertas de símbolos anárquicos cobriam as janelas e a porta de madeira podre já não tinha dobradiças. O que deveria ser um jardim agradável, virou apenas um antro de garrafas vazias e restos de cigarros.

Dirk olhou em volta, não havia uma pessoa sequer na rua, nem ao menos um mendigo bêbado pedindo moedas. Ouvia apenas o punk rock que vinha de dentro da casa e as correntes de sua calça se chocando. Quem não estava oculto na escuridão absoluta dos becos, festejava no Schwarze Witwe, o casarão abandonado no final da rua. Entrou, abrindo espaço na multidão que pulava e berrava as letras do Die Toten Hosen.

Tomou um copo das mãos de um desconhecido, bebendo o que parecia ser uma mistura de cerveja com outra bebida alcoólica. Sentiu todo seu interior se aquecer e sorriu. Atravessou o aglomerado de punks e subiu as escadas até o último andar, deixando marcas de lama da sola do sapato em cada degrau. Chegou ao topo da escada, sacudindo os braços e bagunçando os cabelos loiros, espalhando água por todos os lados.

Passou pelo corredor, pensando no quão rica e excêntrica a família proprietária deveria ter sido. Tapetes persas empoeirados, vasos orientais agora em cacos e quadros caros com suas pinturas viradas para as paredes. Além dos trabalhos artísticos nas paredes, que iam de desenhos fálicos a símbolos nazistas. Havia um espelho quebrado no final do corredor. Se viu pálido e com os olhos vermelhos, como um gato albino. Sorriu mostrando os dentes amarelados, dando uma aparência macabra ao reflexo.

Última porta do corredor, à direita. Lembrou-se mentalmente das coordenadas, mesmo sendo quase impossível esquecê-las. Era um frequentador assíduo daquele quarto. Uma garota asiática de cabelos raspados que chamavam de Kimi saiu do cômodo, esbarrando com Dirk no ato. Ela acenou timidamente, sussurrando um 'olá' discreto e o garoto revirou os olhos. Não gostava nem um pouco da chinesa.

Viu um par de coturnos sujos de lama no chão e estalou a língua, lembrando de quem gostava de amarrar os cadarços de seus sapatos até quando não os calçava. Parou em frente a porta, analisando o estado do quarto. Parecia um quarto de criança, com carrinhos e bonecos espalhados pelo chão. Caixas antigas abertas e reviradas, um abajur quebrado, lençóis rasgados e a persiana com algumas lâminas quebradas. Encostou-se ao batente da porta e bufou. Correu os olhos por toda aquela desordem e parou no garoto jogado na cama. Era Franz.

Os cabelos molhados, recentemente tingidos de preto. Pendia a cabeça para o lado com os olhos semi-abertos, quase que inconsciente. O cinto de couro amarrado no braço acima do cotovelo e a seringa penetrando a veia. Aquela imagem já tinha deixado de ser chocante há meses. Suas pupilas estavam contraídas e seus olhos nunca estiveram tão cinzas e sem vida antes. Franz tremia violentamente, sentindo um frio inexplicável. Heroína. A moda do momento era aquela, que viciava tão rápido quanto matava. Dirk tirou a caixa de cigarros do bolso da calça, completamente ensopada. Murmurou um palavrão e roubou um cigarro do bolso do casaco do amigo, acendendo-o em seguida.

— Ei, bastardo — Dirk disse alto o suficiente para alguém do andar de baixo ouvir. Franz apenas tombou a cabeça para o outro lado — Tch, schwuler.

— Hmm... — o outro respondeu meio aturdido, sem ter noção exatamente de quem estava lhe dirigindo a palavra.

— Vamos sair — afirmou imponente, coçando a sobrancelha e se apoiando com o ombro do outro lado da porta.

Franz dava total atenção à sua viagem e Dirk se sentiu ridículo por estar sendo ignorado. Jogou a camisa artesanal da banda que tocava no térreo para Franz e colocou o casaco felpudo preto do amigo sobre os ombros.

— Veste essa merda. Vamos sair.

Franz se levantou com muita dificuldade, desafivelando o cinto do braço e vestindo a camisa vagarosamente. Dirk revirou os olhos e desceu as escadas, sendo seguido segundos depois pelo amigo ainda meio lento. Segurou a mão de Franz, que estava absurdamente fria, e o guiou até a calçada.

Olhou uma última vez para o casarão, sem saber que era a última vez que o veria. Um cigarro mal apagado acabaria com os sonhos de muita gente naquela noite. A chuva não dava trégua, mas pouco importava a saúde física e mental do moreno no momento. Jogou o casaco para o mesmo, subiu na moto e Franz o imitou, dando um passo em falso e quase caindo. Segurou a cintura do loiro com as mãos trêmulas e apoiou a cabeça em seu ombro. Dirk deu partida na moto, sem dar a mínima para o estado do outro. Quase não reparava no impacto dos pingos de chuva em seu rosto com Franz tão colado ao seu corpo. Era formidável.

Quando chegaram ao local, a chuva havia se reduzido a uma garoa quase imperceptível. A ferrovia abandonada parecia a mesma desde a última vez que vieram. O lugar estava tomado por ratos e escuridão. Os trilhos continuavam quebrados, irregulares. O mesmo ar fantasmagórico de sempre, com pilastras tortas e partes do piso cedendo. Há quem diga que ouve gemidos e sussurros quando passa por perto da linha férrea.

Havia um trem de carga inativo no fim da estação. Quase todos os vagões estavam em ruínas e plantas cresciam entre os mesmos. Correram entre os pequenos galhos no chão e subiram em um vagão com as laterais abertas. Dirk prendeu a calça em algo, e ganhou mais um jeans rasgado para a coleção. Os dois se deitaram, e Franz se encolheu no casaco felpudo, que foi comprado em um brechó dos anos 60. Acendeu um cigarro e suspirou. Passaram a observar o céu, e só ouviam grilos e cachorros uivando ao longe.

Dirk olhou para Franz, com o cigarro entre os dedos trêmulos. Estava bonito. Nunca esteve tão bonito daquele jeito. Nem quando se conheceram há três anos em um show do Led Zeppelin, quando Franz o beijou e ganhou um nariz quebrado e uma lata de refrigerante como pedido de desculpas. Nem quando Franz chorou vendo Bowie cantar ao vivo pela primeira vez. Era diferente.

— Tenho que te dizer algo — falou depois de respirar fundo, se sentindo mais tranquilo quando o moreno passou o cigarro para si — Tô indo embora.

— Já? Acabamos de chegar — respondeu, fingindo não ter entendido o que o amigo falou.

— Não é isso... É que — deu um trago no cigarro e soprou a fumaça para cima — Estou saindo da Alemanha.

Dirk parecia muito decidido, enquanto Franz estava completamente sem chão. O amigo estava sempre ali para lhe dar suporte, cuidar de si. Os dois sabiam que se amavam, mesmo que nunca houvessem dito um para o outro. Era um segredo compartilhado entre eles e o trem todas as noites.

— Tô cansado dessa merda toda. Não quero te ver morrer drogado, e ainda por cima jovem.

Franz engoliu em seco, sem saber exatamente o que dizer. Abraçou as próprias pernas e apoiou o queixo nos joelhos. Não tinha como contestar Dirk, ele sempre conseguia o que queria. Sempre teve o que queria. Sempre teve Franz.

— Pra onde você vai? — perguntou tímido, olhando para um ponto vazio na floresta mais adiante.

— Não sei. Vegas, New York, Londres. Qualquer lugar, Franz. Meus sonhos são grandes demais até mesmo pra Berlim — olhou para o outro que parecia querer chorar, se sentiu horrível — Nós somos apenas delinquentes, não temos nem casa, quanto mais um futuro. Quero ter um rumo, uma meta. Não sente que tem uma vida vazia?

Negou com a cabeça. Ele tinha Dirk, não precisava de mais nada.

— Olha essas feridas nos seus braços, Franz. Nem morreu e já tá apodrecendo — riu nasalado, voltando a olhar para o céu.

O rosto de Franz ficou vermelho, e seu coração começou a bater rápido dentro do peito. Dirk lhe causava reações mais estranhas do que as drogas que usava e não sabia ao menos o nome. Talvez fosse aquilo que estivesse o deixando doente. O amor. E o deixava em completo estado de pânico. Avançou no loiro e lhe deu um soco no rosto, não parou até que Dirk sentisse o gosto metálico do próprio sangue e que os nós de seus dedos ficassem vermelhos. Se condenou mentalmente por isso.

— Droga, você sempre tem que estragar tudo! Para de pensar demais, não vê que tem muito a viver aqui?! Comigo?! — gritava, ouvindo o próprio eco e os gemidos de dor de Dirk.

Lágrimas brotaram nos olhos do loiro. Franz, que segurava a gola de sua camisa, soltou a mesma com força e continuou a encará-lo. Dirk apagou o cigarro, limpou os olhos e sorriu. Não iria voltar atrás.

— Sabe qual é a verdade, Franz? Você que me deixa doente.

Chocaram os lábios, iniciando um beijo desesperado. Precisavam um do outro de uma forma nunca jamais sentida. Franz puxou o outro pela nuca, tornando o contato cada vez mais íntimo. O frio finalmente havia passado. Dirk tirou o casaco, jogando-o longe e Franz fez o mesmo. O moreno olhou nos olhos verdes, vivos e brilhantes como esmeraldas. Não conseguia se imaginar em uma vida sem ver aqueles olhos todos os dias.

— Me faça seu uma última vez, Franz. E vamos esquecer esse clichê romântico triste.

Encarou Dirk, que tinha a respiração entrecortada e os lábios inchados e vermelhos. Era isso que ele queria. Não existia uma válvula de escape melhor do que o loiro. Nenhuma droga conseguia lhe tirar da realidade daquele jeito. Estava em êxtase.

Franz segurou o cós da calça do outro e puxou a mesma com agressividade. Em um movimento rápido pôs Dirk contra o chão, segurando seu cabelo com violência. Sentiu o gosto de sangue e o cheiro de ferrugem, mas aquilo era o que menos lhe importava no momento. Franz desabotoou a calça e se posicionou em Dirk. Seus braços doíam, as feridas iriam abrir. Não dava a mínima. Penetrou o loiro sem hesitar, ouvindo um gemido sôfrego. Apoiou a testa na nuca do outro, dando início a movimentos rápidos e imprecisos.

— Eu te amo — Franz sussurrou entre gemidos, como um último apelo para que ficasse. Mas não obteve resposta.

Dirk estava totalmente imerso em pensamentos aleatórios, todos relacionados à Franz. Sentiu vontade de chorar, e assim o fez. O subconsciente dizia eu também. Seu orgasmo veio primeiro, sendo seguido por Franz minutos depois. Dirk se recompôs, ouvindo a própria respiração entrecortada.

Franz voltou a tremer, estava sem Dirk agora. Era como um irmão, sua única família, e iria deixar tudo para trás para tentar a sorte em uma cidade rica. O desespero era gritante. Patético. Achava tudo isso tão ridículo que se limitou a rir sem humor e olhar de soslaio para o amigo. Voltou a deitar-se no chão, acendeu outro cigarro e voltou a observar a lua.

— ...Foda-se. Nós vamos sair de Frankfurt essa noite.


Notas Finais


Não sei se existem ferrovias abandonadas em Frankfurt ahushuhs
Schwarze Witwe - viúva negra
Die Toten Hosen - uma banda alemã de punk rock que nasceu em 82
Schwuler - viadinho (bem grotesco aushush)

Gostou? Se não for muito incômodo, seu feedback seria muito importante kapskpsk
Até <3


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