História Freaking for you. - Capítulo 39


Escrita por: ~

Postado
Categorias Gavião Arqueiro, Os Vingadores (The Avengers)
Personagens Clint Barton, Dr. Bruce Banner (Hulk)
Tags Clintxbruce, Hulkeye
Exibições 92
Palavras 7.946
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, Ficção, Lemon, Luta, Romance e Novela, Super Power, Violência, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


H-hey...?
Faz um tempinho, né? Ugh.
Bem. Boa leitura?

Capítulo 39 - Somente palavras.


"Hey, grandão—" Tony disse, sorrindo. "Acorde e brilhe. Café?"

E sem ter tempo de dar qualquer resposta, Bruce se viu com um caneca cheia de café nas mãos. Ele a fitou e suspirou, colando-a sobre a mesa, o ruido da porcelana contra o tampo de vidro soando como um tiro no silencio — às vezes era especialmente difícil não perder a paciência. Ou talvez o que ele perdeu mesmo foi o jeito para coisa, como dizem por aí; se você não treina, acaba esquecendo como faz. É, provavelmente era isso; ele perdera o jeito para essa coisa de não ligar para o que lhe irritava. 

"Você sabe que não tomo café, Tony." 

Ah, sim, claro que sabia. Mas esse tipo de informação, para pessoas como Tony, tem tanta importância quanto bicicletas tem para peixes. Era Bruce quem não devia dar a minima. E daí se alguém não sabia do que ele podia ou não tomar? Que importância isso deveria ter, afinal? Oh, droga, ele estava mesmo mal acostumado. Não que alguém pudesse culpá-lo; passar tanto tempo com Clint, que parecia saber cada pequeno detalhe sobre o que Bruce gostava ou não, não poderia levar a um resultado diferente.

"Ceeerto." Tony respondeu, com um dar de ombros. Em seguida, pegou a caneca em cima da mesa e entornou o conteúdo na dele, que já estava vazia. "Mas isso é realmente idiota, sabe. Fiz os cálculos e chá pode ser ainda pior do que café para o seu—"

"Não bebo chá com cafeina também; não se preocupe." Bruce respondeu, cansado. "Tenho certeza de que já tivemos essa conversa, à proposito."

Ah, sim, claro que já tiveram. Umas quatro vezes, só naquela semana. Bruce suspirou novamente ao pensar que, assim como não fora a primeira, aquela não seria a ultima. Talvez Clint não o tivesse deixado só mal acostumado, mas também, de algum modo, tivesse passado a tendencia dele para ideias ruins. Porque do que mais poderia ser chamado aquela semana gasta na Torre? Bem, se você for um romântico, chamaria de gesto de amizade. Se não for, chamaria de ideia ruim mesmo. Ou talvez simplesmente de uma grande idiotice.

Fosse o que fosse, convêm saber que Bruce não tivera muitas opções, para começar; Tony tinha requerido a sua ajuda, em especifico, para um novo projeto de armadura, e não existem muitos modos de recusar um pedido desses quando quem o faz te segura dramaticamente pelos ombros, enquanto diz eu preciso da sua ajuda, cara, é CIÊNCIA. E querendo ou não, Tony era um — irritante, imprudente, insuportável — amigo; uma das poucas pessoas que não se importavam de passar um dia inteiro com Bruce Banner. Sabendo disso, não é preciso nem mencionar como, quando algo lhe interessava, Bruce podia ser muito pior do que Tony no quesito determinação. 

Então, não houvera horários para dormir ou comer. Não houvera dormir ou comer, no geral. Os últimos quatro dias, em especial, tinham sido os piores, onde as ideias surgiam tão súbitas como balas de maquina de tiro, e botá-las para fora antes que sumissem só era possível através de rabiscos incompreensíveis em folhas de papel. As mesas ao redor estavam cobertas delas agora, incontáveis folhas de papel cheias de ideias e cálculos em caneta preta, que logo precisariam ser separados no que era realmente útil, no que poderia ser útil se uma tradução fosse feita e no que era só lixo escrito por gente com privação de sono. 

Em suma: mais trabalho para mais uma semana. 

Oh, Deus. 

Que ideia ruim fora aquela.

Bruce tirou seus novos óculos e os colocou de lado. Em seguida, coçou os olhos com as mãos por vários segundos. Ele tinha dormido ali mesmo, usando os braços como apoio para cabeça, por no máximo três horas. Eram quase nove da manhã e a claridade que entrava pelas janelas caia sobre pilhas vacilantes de papeis, nas canecas sujas de café ou chá, nos moveis retos e impessoais. Ele pousou as mãos nas coxas com um bufar e olhou para tudo isso, sentindo um aperto indistinto no peito... quase uma tristeza, misturada a uma vontade de se encolher contra algo e dormir o resto do dia. 

Contra alguém, na verdade.

"Então, quer comer alguma coisa antes de recomeçar?" Tony perguntou, alegre; bastardo cafeinado. "Você parece precisar comer alguma coisa, sabe — você é todo ossos, Bruce." 

Ah, sim, claro que era todo ossos. Bruce ainda não conseguira recuperar o peso que perdera com as pesquisas de Ross, talvez porque não tivera muito peso mesmo antes disso. E, assim como sabia que Tony não guardava nenhuma informação que não fosse importante para ele próprio, também sabia que você é todo ossos era o único jeito que ele conhecia de expressar preocupação. Essa era só mais uma coisa que não devia chateá-lo... mas a pontada verde e afiada da irritação estava lá, no fundo de sua mente, de qualquer maneira. 

"Estou bem." Bruce resmungou. E em uma ideia de ultima hora até para si mesmo, adicionou; "Vou comer em casa." 

Foi difícil não se surpreender em como a frase soou simples, natural. Em casa. Bruce sentiu seu peito se apertar um pouco mais. Estava com saudades de casa. Estava com saudades de Clint. O que era meio bobo, levando em conta como fora somente uma semana, mas não havia muito que pudesse ser feito sobre o assunto. Com um suspiro, ele ergueu o olhar, só para ver que Tony o encarava com o cenho franzido.

"Você já vai voltar para Bed-Stuy?" ele disse, soando frustado. "Bruce, Brucie, querido; nós não terminamos!"

"Preciso de uma pausa, Tony." Bruce respondeu, tirando o celular do bolso da calça. "E você também."

Bruce olhou para tela brilhante, apreciando a foto de Lucky babando como papel de parede. Tinha sido coisa de Clint; tanto o celular quanto a foto. Com a lentidão da falta de habito, Bruce foi até Mensagens e em seguida, Nova mensagem. 

Estou de volta ao meio-dia, ele mandou para Clint, pode ser? 

"Certo, você quer uma pausa? Tenha uma pausa." Tony insistiu. "Basta ir para o seu andar, que tal? Posso deixá-lo sozinho por vinte e quatro horas antes de—" 

Bruce bufou, "Não, Tony. Obrigado. Vou para casa."

E em sua mão, o celular vibrou. A tela acendeu outra vez, agora com uma pequena foto de Clint — com um olho roxo, um nariz quebrado e um largo sorriso, por alguma razão — e embaixo uma resposta;

otimo

Então, em poucos segundos, vibrou novamente. 

to no ginasio com a katie. posso passar ai e te pegar

Mais alguns segundos e então: 

tipo, se vc quiser cara
             a menos que tenha algo pra fazer ainda ou sla
             alguma coisa
             sem pressa, é o que quero dizer
             katie diz qeu eu devia parar de escrever agora
             que*

"Ugh!" Tony gemeu, muito alto. "Quer parar com isso? Vou vomitar!" 

Bruce o fitou, arqueando as sobrancelhas. "Parar com o quê?"

"Você está sorrindo daquele jeito esquisito dos filmes românticos! Me dá arrepios!" Tony fez um careta. "Deus, o que há com você e com o Barton?" 

Muito deliberadamente para parecer natural, Bruce pousou o celular sobre a mesa, a tela vidrada para baixo. Em seguida, pegou seus óculos e se pôs a limpar as lentes na camisa. Ele sabia que aquela deveria ter sido uma pergunta retoria, mas ainda sim... 

"Não tenho certeza sobre o que você está falando." Bruce disse, por fim colocando os óculos no rosto. 

Tony revirou os olhos. 

"Okay, certo, então talvez Barton não seja tão ruim, quero dizer, sobre aparência eu daria um 8 de 10, mas..." Tony gesticulou com a mãos no ar. Teria sido cômico, se Bruce não se sentisse tão cansado. "Quem sabe até um 9, e olha, não quer dizer que estou chamando ele de burro nem nada, porque ele não é, mas— vocês meio que não tem exatamente nada em comum. Eu não sei, é só... o que há para falar com ele?!" 

Bruce o encarou. Oh, Deus. Que ideia ruim fora aquela! "Não vejo como isso possa ser da sua conta." 

"Oh, qual é." Tony resmungou, deixando as mãos caírem. "Só estou curioso. Quero dizer, Barton não pode ser bom para sua pressão. Deus sabe que ele dá nos nervos na metade do tempo. Um verdadeiro pé no saco e— o quê? O que foi?!"

Bruce o encarou. Na verdade, estivera encarando Tony pelo ultimo meio minuto com que dificilmente poderia ser chamado de uma expressão neutra. Então, bruscamente, ele se levantou — tivera o suficiente. Mais um pouco, e ele provavelmente não seria só Bruce Banner.

"Estou indo para casa." 

"Mas—" Tony começou, parecendo surpreso. "Olha, eu tenho chá aqui em algum lugar, se você quiser e..." 

Bruce já estava na porta quando o ouviu Tony perguntar; 

"Eu te chateei? É isso, cara?" 

E não se deu ao trabalho de responder.

`☢

Lentamente, Bruce inspirou o ar frio do lado de fora. Em seguida, fechou o zíper de seu casaco, sentindo falta da espessura quente de sua antiga jaqueta de couro. De todas as coisas que Ross lhe fizera, tomar a jaqueta que Clint lhe dera parecia estranhamente a mais dolorosa. Com um suspiro cansado — que se condensou em uma nuvem branca —, ele olhou para os dois lados da rua. E estremeceu, é claro, quando o vento forte gelou até seus ossos. 

Às vezes, para Bruce, era como se o começo do verão tivesse sido na semana passada. As memorias de voltar ao apartamento quente e bagunçado de Clint ainda frescas em sua mente. Desde então, tudo fora tão calmo, tão perfeito em cada minusculo detalhe, como nem mesmo o melhor de seus sonhos jamais fora. Sim, sim, dias cheios de coisas novas das quais nunca experimentara ou de coisas velhas das quais se esquecera da existência. Nade demais, é claro, apenas a simplicidade domestica e banal, as situações que a maioria das pessoas no mundo não se dá conta da sorte que tem em vivenciar. 

Mas Bruce, como alguém que já perdera tudo isso por muitos anos, sabia da sorte que tinha e aproveitou tudo com a avidez de quem sai de um deserto; o fechamento da temporada de verão com um grande churrasco no telhado, comemorando o Dia do Trabalho e a abertura da nova temporada de futebol americano. Se os Jets perderem esse ano, dissera Clint, com um orgulho raro na voz, como a porra do meu arco, caras. 

Em seguida, o surgimento quase tímido dos enfeites de Halloween no meio de outubro, as tipicas aboboras carrancudas, morcegos de papel negro e fantasmas de tecido branco por todo o prédio. Bruce se surpreendeu — mas não muito, para ser sincero —, ao ver Clint distribuir doces as crianças da vizinhança, devidamente trajado para a ocasião; ele escolhera uma fantasia de Caça Fantasmas. 'Cê não vai escapar no ano que vem, Bruce, dissera ele, como se estarem juntos no ano que vem fosse somente o natural, o esperado, melhor nem ter esperanças. 

E então, pouco dias antes de Bruce passar sua sórdida semana na Torre, Clint praticamente o arrastara para assistir a Parada do Dia de Ação de Graças da Macys, a multidão caótica de New York como a água infindável de um oceano ao redor de ambos. Mas não parou aí, claro que não; o jantar do dia seguinte, no apartamento de Simone, fora o primeiro jantar real de Ação de Graças para Bruce em anos, com todo peru, batatas e torta de abobora que alguém poderia ser capaz de comer e continuar respirando. Agora o Natal já estava na porta outra vez, as luzes coloridas, bolas de vidro e arvores se acumulando nas vitrines da Fifth Ave., embora dezembro mal tivesse começado. Bruce se sentia surpreso em como o tempo parecia voar com Clint por perto — mas bem, quando tudo está tão perfeito quanto jamais estivera, seis meses passam rápido mesmo. 

E é por isso que ouvir toda aquela besteira de Tony o deixara tão irritado.

Descendo as escadas que levavam a entrada da Torre, Bruce começou a andar para longe. Todos ao seu redor usavam casacos pesados, cachecóis, luvas. Ele enfiou as mãos nos bolsos, o vento soprando fazendo-o tremer. Mas tudo bem; andar os próximos cinco quarteirões no frio seria um calmante eficaz, ao menos dessa vez. Clint normalmente treinava no ginásio pequeno em Bed-Stuy, mas Bruce sabia que esse treinamento não era o sério; estava mais para um modo de se manter em forma. Quando Clint estava com Kate, a coisa era sempre sobre arqueirismo, então eles iam juntos ao ginásio na mansão Avenger. 

Quando chegou em frente ao edifício, Bruce parou um minuto para olhar os carros parados na rua. O de Clint estava lá, estacionado um pouco mais a frente; um novo velho carro comprado por volta de setembro. Era um Landau, a cor — trombetas, por favor —, roxa se destacando em meio ao cinza da cidade. Ele franziu o cenho, se recordando sem razão de algo. Oh, sim, o calor quase sufocante de dentro do carro, que não vinha especialmente do aquecedor; o ruido baixo da lataria antiga se mexendo suavemente, junto ao som de respirações descompassadas e gemidos abafados no fundo da garganta; a sensação firme e solida por baixo de suas coxas, que não era o banco coisa nenhuma, mas Clint. Quando fora isso mesmo? Ah, certo, daquela vez em que foram ao Champlain Lake; na volta, Clint parara o carro no acostamento. Às vezes, dissera ele, sorrindo de lado, simplesmente não dá 'pra esperar. 

Bruce sorriu um pouco para si mesmo. Estava congelado sim, o ar frios escavando seu pulmão como facas, mas se sentia um pouco melhor. Com mais uma olhadela rápida ao redor, ele se virou e entrou na mansão. Lá dentro estava quente e ele ficou ainda mais satisfeito ao fechar a porta atrás de si. Não foi difícil achar o caminho até o ginásio; depois de a antiga mansão ser praticamente destruída, Tony resolvera instalar uma versão de Jarvis em todos os lugares relacionados aos Avengers — Bruce só precisou perguntar. 

E no entanto, a hesitação ainda o fez parar na entrada do ginásio. Bruce ouviu o barulho de vozes do outro lado da porta, assim como um TAK que agora já lhe era muito familiar; o som seco que uma flecha faz ao atingir o alvo. Pensou em tirar o casaco, mas um tremor súbito deixou claro que essa não era uma boa ideia. Engolindo em seco, ele entrou sem fazer qualquer ruido, os olhos já perscrutando ao redor. O lugar parecia vazio e—

 "'Kay!" Clint gritou, a voz ecoando contra as paredes. "Vamos fazer isso de novo!" 

Bruce sentiu sua cabeça virar quase por conta própria na direção de onde viera a voz. Clint estava descalço, a barra da calça preta tocando o chão quando andava. Ele parecia um pouco cansado, embora o suor já manchasse a regata branca dele e fizesse seus braços cintilarem com as luzes do teto. Haviam protetores nos pulsos dele, pedaços de tecido escuro que se estendiam até virarem luvas estranhas que não cobriam as pontas dos dedos. Na mão esquerda, ele segurava o novo arco hi-tech que Tony desenvolvera, uma coisa excêntrica com peças apontando para todos os lados; estabilizadores, roldanas, viseiras à laser — uma merdinha de primeira, nas palavras de Clint.

Ainda meio hipnotizado, Bruce franziu o cenho, confuso. Sabia o suficiente sobre Clint para notar que ele estava usando a mão errada para segurar o arco — ele  não era canhoto... não realmente. De qualquer maneira, não seria mais fácil usar uma aljava em vez de segurar tantas flechas na mão direita? Em despeito disso, Clint posicionou as flechas no arco e, sem parar um segundo completo para mirar, as soltou. Elas voaram para longe, quatro riscos roxos cortando o ar. Só então os olhos de Bruce pareceram dispostos a se desviar para a outra extremidade do ginásio, onde Kate lançava bolas de plastico coloridas para o alto. Em poucos segundos, cada flecha acertou uma das bolas, que caíram no chão com um ruido alto e ecoante. 

Bruce achou que aquele tinha sido uma flechada perfeita. Obviamente. 

Ainda sim, Clint fez uma careta, fitando as flechas cravadas nas bolas.

"Muito lento!" ele gritou para Kate. Em seguida, no mesmo volume, completou: "De novo!" 

Então Clint repetiu todo o processo, adicionando uma quinta flecha. O resultado foi quase o mesmo, exceto que a ultima flecha pareceu se embolar na corda, caindo no chão muito antes de acertar qualquer bola — Bruce continuou achando que aquela também fora uma flechada muito boa. 

"Mas que merda." Clint resmungou, frustado. E então, mais alto, quase um novo grito; "Vou tentar com o recurvo; 'pera um segundo!" 

Clint se virou... e pareceu quase tropeçar nos próprios pés ao ver Bruce parado na porta, um gesto meio inesperado vindo de alguém que tinha tanto equilíbrio. Ele o olhou por mais alguns segundos, como se processando o que via. Então, honestamente, o rosto frustado dele se iluminou com um sorriso simples e alegre, muito como o Sol após uma tempestade. E ainda sorrindo largo, ele se aproximou e exclamou; "Bruce!" 

De repente, Bruce não teve certeza de como pudera só ficar parado ali, esperando por todo aquele tempo. O fato de que não vira Clint por uma semana inteira o atingiu com força total, como uma pancada no estomago. Desde que voltara em Junho, era como se ambos fossem um perfeito sistema de estrelas binárias, orbitando suavemente perto um do outro, sem jamais se separar demais. Oh, certo, talvez isso explicasse porque agora, com só uma mera semana de separação, tudo o que Bruce queria era chegar mais perto. 

"Hey, cara." Clint murmurou, colocando o arco estranho no chão. Então ele parou no meio do caminho, o rosto como o de quem se lembra de algo na ultima hora. "'Pera, 'tô todo suado e—"

Bruce o silenciou com um beijo, ouvindo o fim da frase se tornar em um ruido de surpresa contra seus lábios. Ele envolveu o pescoço de Clint em um abraço apertado, sentindo o nó em seu peito se desfazer, sentindo a irritação restante evaporar. Houve um longo segundo de quietude, antes de Clint passar os braços ao redor de sua cintura, o trazendo para perto, até seus corpos estarem praticamente colados um ao outro.

"Caramba—" Clint começou a murmurar, em meio a mais beijos rápidos; ele só parou tempo suficiente para tirar os óculos de Bruce do caminho. "—'cê 'tá congelando." 

"Mesmo?" Bruce perguntou e sorriu ao sentir Clint apertá-lo mais contra o peito dele. Sem pensar duas vezes, ele deslizou os braços para baixo, enfiando ambas as mãos sob a regata de Clint, sentindo a pele quente dele nas pontas de seus dedos e em suas palmas frias. Também sentiu a umidade grudenta do suor, mas não era como se aquela fosse uma sensação nova, então para que se importar?

"Caramba—" Clint repetiu, em um guincho baixo. Mas não se afastou nem um pouco. "'Cê precisa de umas luvas! E um cachecol. E uma jaqueta decente, cara. Não é como se a gente não pudesse pagar. Já te disse que sou insanamente rico, né?"

Bruce não conseguia parar de sorrir. "Só de passagem." 

"Então, a gente devia..." Clint começou, a voz dele logo se tornando um murmurio. E de repente, ele pareceu muito alarmado, enquanto tentava dar um passo para trás, em direção a um banco onde a bolsa dele estava largada; "'Pera— oh, merda, já é meio-dia?! Merda, merda, tenho certeza que coloquei um alarme e—" 

"Não é nem dez." Bruce se apressou em dizer, o puxando de volta. 

"Ah— sério? 'Kay, kay, menos mal." Clint murmurou, o alivio evidente em sua voz. Ele encostou a testa contra a de Bruce e, por alguns segundos, só o encarou nos olhos, o sorriso desabrochando nos labios dele outra vez. Antes que Bruce pudesse ceder a tentação de voltar a beijá-lo, Clint franziu a testa, o sorriso desaparecendo lentamente nas pontas; "Alguma coisa, , aconteceu lá com Tony?"

Bruce abriu a boca. A fechou. De súbito, sua garganta ficou apertada. Esse tipo de coisa... por Deus, Bruce sempre achara que esse tipo de coisa não era reservada a ele. Que não era reservada a ninguém, para ser sincero, porque nem sequer existia. E, no entanto, Clint só precisara olhar para ele para saber que havia algo errado. À bem da verdade, quase tudo entre eles não parecia ter deslizado enviesadamente desde as paginas de uma historia de amor água-com-açúcar? Ah, sim, parecia sim. E Bruce, que costumava achar que os autores de tais historias eram baitas mentirosos cheios de imaginação, não podia evitar de derreter com cada toque terno, ou olhares preocupados, ou palavras doces.

Bruce olhou para baixo, para o ponto onde o volume de suas mãos surgiam por baixo da camisa de Clint. Podia sentia a pulsação ritmada dele contra sua pele, algo que às vezes podia ser um calmante bem mais eficaz do que o frio. Ele engoliu em seco e tentou de novo; "Não, bem, não realmente. Eu só—"

"Foi fabricar o recurvo, chefe?" Kate gritou, a voz soando divertida, mesmo enquanto ecoava. Erguendo o rosto, Bruce viu, por cima do ombro de Clint, ela acenar exageradamente, parecendo tão feliz quanto uma criança na manhã de Natal; "Oi, Dr. Banner!" 

"Não liga 'pra ela." Clint resmungou. Ele encostou os labios na testa de Bruce e repetiu; "Que aconteceu?" 

"Nada. Foi tudo bem." Bruce se ouviu murmurar. É, não importava mais; se sentia muito melhor agora. Ele sorriu um pouco e deslizou as mãos para fora da camisa de Clint, recuando um passo. "Não quero interromper o treino de vocês." 

"Posso fazer isso outra hora." dessa vez foi Clint quem o puxou de volta. "Não vou te fazer sentar e esperar, cara."

"Eu adoraria sentar e assistir." E era verdade. Só não havia muita garantia de que não cairia no sono. "Posso esperar algumas horas; não me importo." 

"Tem certeza?" Clint inclinou um pouco a cabeça, para fitá-lo nos olhos. "Porque não precisa, se não quiser."

Bruce teve que sorrir. De novo. Como alguém assim poderia dar nos nervos? "Tenho certeza, Clint." 

"Uh, 'kay, 'kay, certo..." Clint assentiu, embora parecesse ainda em duvida. Ele soltou Bruce — não sem antes lhe dar mais um beijo —, e apontou por cima do ombro; "Então eu vou só..." 

"Certo. Tudo bem." 

Clint assentiu de novo, sorrindo. Então ele se virou e andou em direção ao banco. Bruce o viu pegar outro arco, muita mais simples; só um longo pedaço de madeira com um corda. No minuto seguinte, ele estava correndo para longe, gritando para Kate; "Vá pegar seu recurvo." 

Kate atravessou o ginásio em direção a Bruce, passando por Clint com uma careta. Ela parou em um banco próximo e pegou um arco recostado nele. Mas não voltou para o ponto onde estivera antes. Em vez disso, ela realmente andou até Bruce, sorrindo e estendendo a mão. 

"Oi, Doutor." ela repetiu, dessa vez sem gritar. "Como está?" 

"Bem." Bruce apertou a mão dela. "Obrigado."

Kate sorriu. Estranho como, naquela mesma época do ano anterior, Bruce teria se sentindo nervoso ao ver alguém sorrindo daquele jeito para ele, como se houvesse alguma piada que não entendera... ou como se ele fosse a piada. Agora, porém, não se importava — Kate era assim, o tipo de pessoa que não perdia tempo escondendo a própria satisfação, seja lá pelo que fosse.

"E aí, como foi sua semana de férias?" 

Bruce sorriu, hesitante. "Eu não chamaria de férias..."

"É, acho que não." Kate riu um pouco, de um modo conspiratório. "Sinceramente, se tivesse que escolher entre passar uma semana com Tony ou uma no inferno, teria que me sentar 'pra pensar."

Bruce riu também, um pouco surpreso; esse era mais o tipo de coisa que ele esperava ouvir de Clint. Mas então logo se lembrou de que Kate era — insanamente — rica, e que chamar Tony pelo primeiro nome, ou nem mesmo mostrar um pingo de respeito por alguém mais velho, devia ser um direito inerente dela. 

"De qualquer forma, é bom que tenha voltado." ela prosseguiu. "Clint fica impaciente sem você por perto — graças a Deus ele tinha aquele maldito vídeo 'pra se distrair." 

"Que vídeo?" Bruce perguntou, sorrindo um pouco. A ideia de que Clint também sentira sua falta não devia ser tão surpreendente ou agradável, mas era — muito agradável. 

"Um cara desenterrou umas técnicas de tico com arco e postou no Youtube. Bem," ela fez uma careta, como se essa tivesse sido a pior ideia do século. "Mais como técnicas de tipo com arco não ocidentais  que ainda são utilizados hoje em dia em outros países... 'cê sabe o que quero dizer. Enfim, a gente resolveu testar 'pra ver como é, e embora tudo 'teja ficando cada vez mais estranho, até que os resultados são bons." 

Bruce abriu a boca para responder, mais foi logo interrompido por Clint gritando: 

"Agora 'cê que foi fabricar o arco, Katie-Kate?" 

Kate rolou os olhos e sorriu mais uma vez, "Te disse, não? Tão impaciente!

Então se virou e voltou correndo para o meio do ginásio, deixando Bruce com uma sensação quente no peito.

`☢

Claro, Bruce não sabia muito sobre tiro com arco, mesmo um novato o superaria facilmente, mas ninguém precisaria ser um especialista para entender porque Kate dissera que tudo estava ficando cade vez mais estranho — também era fácil entender porque Clint estava tão suado; em vez de ficar parado em um único ponto, ele estava correndo de um lado para o outro, trocando o arco de mão entre cada flechada, sua postura em nada lembrando a rigidez e concentração habitual.

E ainda sim, ele não errou nenhuma vez. 

Depois de alguns minutos, o foco do treinamento mudou: Clint e Kate começaram a tirar na direção um do outro, as flechas nunca atingindo seus alvos humanos porque simplesmente se chocavam e caim no chão; como alvos moveis atingidos em pleno ar. Uma dessas flechas caiu perto o suficiente para que Bruce pudesse ver como as cabeças das flechas estavam enganchadas, as hastes cortadas até a metade pela força da colisão. Eles não estavam brincando. E sim, certo, eles certamente sabia o que estavam fazendo, eram profissionais com anos de experiencia, mas a visão das flechas retorcidas ainda fez com Bruce precisasse respirar fundo varias vezes, em uma tentativa de manter seu coração quieto. A macha verdade que Hulk era no fundo de sua mente foi crescendo gradativamente, tomando mais e mais forma, como um liquido derramado sobre uma superfície plana, deslizando e deslizando, até que todos os seus pensamentos estivessem cobertos e manchados por uma camada verde de Clint está em perigo, em perigo, eM PERIGO—

Bruce se levantou do banco em um salto. Seus pés o levaram ao lado de fora antes que seu cérebro sequer tivesse essa ideia. Ele respirou fundo outra vez, o ar frio congelando seu pulmões. Então se sentou nos degraus, apoiando a cabeça nas mãos e fechando os olhos. Estava tudo bem e ninguém estava em perigo, mas é difícil assimilar algo tão simples quando você está sempre ligeiramente apavorado de perder algo importante — ou alguém. 

Bruce ficou assim por alguns minutos, respirando devagar, os olhos fechados para o mundo a sua volta e talvez tenha caído no sono, sim, talvez tenha sim, porque a unica coisa que chamou sua atenção foi uma batidinha em seu ombro. Ele piscou e olhou para cima, confuso ao ver Clint parado lá, olhando para baixo, um sorriso incerto nos labios. Ele tinha a alça da mochila pendurada em um dos ombros e vestia roupas mais quentes. O cabelo dele estava molhado e modo como caia sobre a testa fez Bruce pensar distraidamente que o preferia assim; era mais fácil de segurar. 

Mas de qualquer maneira, já era meio-dia?  

"Bruce—" Clint murmurou, se inclinando um pouco para fitá-lo, "Tudo bem?" 

"Uh— sim. Só precisava de um pouco de ar fresco." Bruce sorriu, se colocando de pé. Sentia-se embaraçado por ter entrado em panico daquele jeito. "Onde está Kate?" 

"Já foi 'pra casa." Clint respondeu, subitamente amargo.

Bruce sorriu um pouco mais, reconhecendo o tom. "Billy Kaplan veio buscá-la?"

Poucas coisas deixavam Clint tão mau-humorado quanto a simples menção de Billy Kaplan — o não-exatamente-mas-quase namorado de Kate ( palavras dela. ) E você pode pensar que Bruce tinha motivos para se preocupar com este fato, mas ele logo viera a saber que Clint era não-exatamente-mas-quase um pai para Kate ( também palavras dela. )

"Yeah." 

"Ele é bom garoto, Clint."

E eles já tiveram essa conversa; Bruce já sabia o final.

"Bons garotos cumprem celibato— Billy Kaplan é só um sacana." Clint resmungou, antes de abertamente mudar de assunto; "Quer ir 'pra casa?" 

Bruce assentiu, sentindo que não havia nada que quisesse mais no momento. Eles desceram os degraus juntos em direção a calçada e Clint não demorou a passar um dos braços ao redor do ombro de Bruce, puxando para perto em um abraço apertado e quente — só então Bruce se deu conta do quanto estava tremendo pelo frio. 

"Droga, Bruce, quanto tempo 'cê ficou aqui?" Clint murmurou, preocupado. "Poque não esperou no carro em vez de congelar aqui fora?"

"Estou be—" 

"Não 'tá, não." Clint o cortou, antes de abria a porta do carona e praticamente enfiá-lo dentro do carro. 

Bruce se sentou e fechou a porta, observando Clint dar a volta e entra pelo lado do motorista. Ele deu a partida no motor, mas não fez menção de começar a manobrar. Em vez disso, ele se virou e segurou as mãos de Bruce entre as suas; embora o aquecedor já tivesse começado a trabalhar, lançando lufadas de ar quente entre os bancos, isso não impediu Clint de puxar as mãos de Bruce para debaixo de sua camisa outra vez. 

Bruce erguer o olhar, o fitando.

"Sério, o que 'tá errado?" Clint perguntou em um murmurio. "Porque 'cê 'tava lá fora?"

"Eu-e-eu só..." De repente, Bruce sabia o que queria dizer, mas as palavras pareciam grandes demais para passarem por sua garganta. No fim, ele apenas conseguiu responder a pergunta; "Eu só... fiquei um pouco nervoso. Com você sendo o alvo e— foi só isso." 

"Ah—" Clint disse, e a expressão no rosto dele dizia que essa ideia jamais o ocorrera. Ele lambeu os labios, talvez pensando no que dizer e Bruce sentiu as mãos dele se fechando um pouco mais entorno das suas, as pontas dos dedos fazendo em uma lenta caricia em suas palmas frias. "Foi mal? Mas é seguro, prometo. Quero dizer, não é seguro-seguro, mas— a gente sabe o quê 'tá fazendo." 

"E-eu sei." Bruce se apressou em dizer. Clint era tão quente contra sua pele, tão firme e real e bom — e isso estava distraindo-o. Ele precisou respirar fundo antes de continuar; "Kate disse algo sobre... uh, técnicas não ocidentais?" 

Clint deu de ombros. "Coisa de arqueiro, sabe como é." 

"Não, eu não sei." Bruce disse, sorrindo um pouco. "Só tentei arqueirismo uma vez e foi com você. Como é?"

"Bem, é uma bobagem, mas..." Clint murmurou, parecendo quase apologético. "Eu meio que aprendi o que sei com filmes de Hollywood e acontece que eles não são lá muito precisos — o que eu devia ter descoberto antes, é claro, sendo um Avenger — mas enfim, acho que só 'tô tentando algo... diferente." 

"Diferente como?" 

Clint o fitou, um pouco confuso.

Na verdade, muito confuso. 

Tão confuso que Bruce teve que perguntar; "O quê?" 

"Nada. É só que—" ele deu de ombros, parecendo inseguro do que dizer. "Quer mesmo saber sobre isso? Não 'tô... Bem, não 'tô construindo nenhum foguete aqui ou coisa do tipo— não é muito... cientifico." 

Bruce sorriu mais abertamente. "Já tive o suficiente de cientifico para essa semana." 

"Ah—" Clint repetiu, segurando o volante, pronto para começar a dirigir. "Kay. Uh... Bem, 'cê conhece os Mongóis, certo?" 

"Sim." 

"Então..."

E mesmo que o carro já estivesse confortavelmente quente, Bruce não tirou suas mãos de baixo da camisa de Clint.

`☢

Clint ainda estava falando animadamente quando chegaram em casa. Ele segurou uma das mãos de Bruce no curto caminho do carro até o apartamento, como o habitual, levando-a de um lado para o outro em suas gesticulações alegres de arco e flechas imaginarias — Bruce sentiu por uma ou duas vezes que suas mão seria verdadeiramente arrancada do punho, mas soltar Clint nem passou por sua mente.

"...—e isso pode ser realmente útil em campo, sabe? Quero dizer, já 'tô pulando e correndo por todo o lugar quando não consigo manter terreno, e já uso a mão esquerda 'pra atirar, mas isso é diferente do que me ensinaram, cara, muito diferente — não que eu nunca tenha tentado usar flechas como distração, mas nunca pensei em uma propositalmente 'pra isso e eu deveria totalmente fazer uma viagem 'pro Japão. Sem conta toda aquela técnica de usar as duas mãos ao menos mesmo, uma puxando a corda para trás e outra o arco para frente, impulsionar a flecha com toda a força dos braços, cara! Isso fortalece o tiro de um jeito que 'cê nem  vai acreditar, e é um pouco mais difícil de mirar porque a tração faz minhas mãos tremerem, mas acho que saquei bem a coisa, só preciso tentar um pouco mais e — droga, acho que não vai rolar com os arcos hi-tech do Tony, pelo menos não até que eu tenha uma ideia melhor de como a coisa toda funciona sabe; os arco que ele criou até agora são muito rígidos e não dá certo, quero dizer, por isso tô usando o recurvo ultimamente, mas quero tentar com o arco longo, não quero nem imaginar o que vai acontecer, arcos longo são fodidamente fortes, okay? Eles furam armaduras por si só, sério, foi assim que os franceses foram derrotados em Agincourt lá em 1415 — ou acho que foi 1415? Olhei num livro; enfim, todos pensaram que era o fim dos cavalos no campo de batalha, mas quando 'cê considera o sucesso de tiro com arco à cavalo dos Mongóis e como os eles conquistaram grande par— oh, merda, 'pera, só um segundo..." 

Clint escavou os bolsos atrás de suas chaves por alguns segundos, soltando a mão de Bruce. As chaves saíram com um tintilar e ele abriu a porta, deixando a mochila cair no chão da entrada. 

"'Tá com fome? Tem pizza," ele disse, acendendo as luzes. "Acho que foi só o que comi essa semana. Queria dizer que é culpa do Lucky, mas ele 'tá com a Kate agora." 

O apartamento ainda era exatamente o mesmo que Bruce conhecera no primeiro dia em que batera na porta de Clint — muito roxo, muito bagunçado e muito... quente. Bruce sentiu seu peito se apertar pelo que talvez fosse a decima vez só naquele dia, mas não podia evitar — finalmente estava em seu lar; uma sensação tão nova em sua vida bagunçada. Claro, ele tivera outras casas antes, mesmo durante seu tempo errante, mas elas eram só isso; casas. Na verdade, nenhuma tinha sido dele, não mesmo. Nenhuma tinha sido um lar. Quando se vive em uma casa que tudo o que se quer levar ao partir cabe em uma mochila, ela de fato não tinha sido sua, para começar. Só que ali, naquele apartamento no meio de Bed-Stuy — um lugar que, convêm saber, tem o intrépido lema de só doido vai —, Bruce sentia algo que jamais sentira antes; aquele era seu lar.

E tudo graças à uma unica pessoa.

Bruce fitou Clint, observando-o tirar os sapatos e andar até o balcão, e sua voz pareceu se amaranhar em suas cordas vocais outra vez. Havia tanto coisa que queria dizer, tudo convergindo docemente em tão poucas palavras, em uma simples frase, mas ainda sim parecia tão difícil. Alheio a tudo isso, Clint abriu a geladeira. Com a graça de um habito, ele tirou uma seringa de Supressor Gama da prateleira mais alta e injetou no ombro direito, antes de se virar e perguntar. "Quer chá?" 

Bruce engoliu em seco. "Uh, sim." 

Em seguida, deixou seus olhos vagarem para sala. Sobre a mesa de café havia uma pilha de livros e Bruce tentou se distrair lendo os títulos nas lombadas; O Tiro Ao Arco Pela Tradição Japonesa, Os Arqueiros E Cavaleiros Mongóis, Armas Do Antigo Egito, Os Primórdios Do Tiro Ao Arco. Todos tinham pelo menos umas quinhentas paginas de espessura e as pontas dos marcadores feitos de pedaços de jornal pendurados para fora mostravam que alguém estava realmente empenhado em lê-los. 

"Uh, foi mal pela bagunça?" Clint murmurou e Bruce ergueu o olhar para fitá-lo. "Acho que 'tô meio obcecado. Até fui 'pra biblioteca — dá 'pra acreditar?"

"Sim." Bruce disse, calmamente.  

Clint abriu a boca para responder, mas o ping do forno elétrico o cortou. Ele se virou e tirou a pizza, o cheiro de queijo e tomate se espalhando como uma nevoa; só então Bruce notou que estava faminto, que estivera parado como um bobo em frente a porta e que não tirara nem seus sapatos ou seu casaco. Desajeitadamente, ele os tirou e os colocou em seu devido lugar no armário da entrada, levando as coisas de Clint também. Em seguida se apressou em pegar os pratos e em sentar-se junto ao balcão — a simplicidade doméstica disso tudo o deixou quase tonto e o fato de ser tão difícil parar de olhar para Clint não ajudava muito. 

"Então..." Bruce murmurou, ao invés o queria realmente dizer. "Você estava dizendo sobre tiro com arco à cavalo..."

Clint pareceu um pouco surpreso ao puxar uma banqueta para se sentar. 

"Hã, eu..." ele deu uma pequena pausa, como se esperasse que Bruce fosse mudar de ideia, antes de prosseguir; "Não... não é como se eu quisesse trazer cavalos ou coisa assim pra campo, obviamente. Mas quando se trata de tiro ao arco—"

`☢ 

"—e isso é tão divertido!" Clint concluiu com um largo sorriso, as mãos enfiadas até os punhos na água cheia de sabão da pia, os pratos e copos tintilando uns contra os outros com a agitação. "Faz muito tempo que não me divirto tanto assim e Katie 'tá tão empolgada com tudo e Deus, eu só — eu amo flechas, sabe?" 

Bruce não pode deixar de rir com isso.

"'Tá, 'kay—" Clint murmurou, meio embaraçado. "Sei que isso soa meio idio—" 

"Não estou rindo de você." Bruce disse. Ele não conseguir parar de sorrir. "Eu só— eu só te amo. Muito." 

Clint o fitou, o rosto com o tipo de expressão perplexa que as pessoas tem quando esperam que você note o que disse de errado e se corrija. Ou que negue. Ou que diga que é uma piada. E em outras ocasiões, teria sido uma expressão até engraçada; os olhos meio arregalados, a boca ligeiramente aberta, as sobrancelhas arqueadas — mas tudo que Bruce sentiu foi uma pontada surpreendentemente aguda no peito, que lhe tirou o folego por um segundo.

Com um passo, Bruce chegou mais perto, antes de perguntar: "Você não sabia?"

"Eu—" Clint engoliu em seco. Então ele sorriu de lado. Mas ah, aquele não era o sorriso fácil e simples de sempre; o sorriso jovial que parecia ter sido feito especialmente para o rosto dele. Bruce já o vira sorrir o suficiente para saber que aquele era só um repuxar de labios planejado, um pouco tremulo nas bordas; o sorriso de eu tenho que sorrir agora, não? "Claro que sabia. Quero dizer, quem não saberia?" 

Mas independentemente de suas palavras, Clint estava se afastando, se afastando até dar com as costas no balcão. Ele olhou para trás um segundo, como jamais tivesse visto tamanho pedaço de madeira, antes de voltar o rosto para frente. Ele parecia... parecia quase nervoso. O que talvez significasse que era hora de parar; ficar nervoso ao ouvir que alguém te ama provavelmente não é lá um bom sinal. Em vez disso, Bruce se aproximou um pouco mais, até estar tão perto que podia sentir o calor confortável emanando de Clint. Bruce inclinou o rosto para cima e pousou seus labios sobre os de Clint, sentindo seus dedos se fechando lentamento no tecido fino da camisa dele.

"Eu te amo," Bruce repetiu ao se afastar; não houve nenhum esforço consciente para que sua voz saísse tão calma, tão gentil. "Você é corajoso e doce e bom, e eu te amo."

Clint pareceu completamente perdido por um segundo, os olhos azuis deslocando-se de lado para o outro nas orbitas. Como se procurasse algo no rosto de Bruce; como se ele não pudesse se permitir acreditar no que ouvira. Bruce sentiu uma onda de raiva emergir em seu peito, raive de todas as pessoas que fizeram Clint sentir que não valia a pena, que não era digno do tempo delas, e que precisaria lutar com unhas e dentes para merecer ter um pouco de atenção.

Mas aquela não era uma situação em que a raiva tivesse espaço, então Bruce não a deixou durar. Ele se inclinou para cima outra vez e beijou Clint, um beijo longo e intenso, até sentiu seu peito doer por ar. E a raiva pareceu derreter lentamente, sendo substituída por amor intenso e implacável. E completamente novo. Então Bruce beijou Clint de novo. E de novo. E de novo, cade vez se tornando mais difícil de resistir a tentação de sua língua deslizar contra os labios de dele. 

Eu amo você, Bruce tentou repetir em cada beijo, eu amo tanto você. 

E ele só parou porque Clint se fastou um pouco, para fitá-lo nos olhos.

"E-eu também te amo. E eu sei que parece uma loucura que saiu do nada e que a gente mal se conhecia antes e—" Clint parou com os murmúrios — tão baixos que pareciam quase assustados — e engoliu em seco outra vez. Ele fechou os olhos, encostando a testa contra a de Bruce. Quando continuou, sorria um pouco; "Eu também te amo— 'cê não sabe o quanto." 

Eu sei, Bruce pensou, o coração acelerado como já estivera repetidas vezes, leve e alegre como nunca, Eu sei. Você é o único que não sabe o quanto eu amo você. Mas saberia, eventualmente. Eles teriam tempo agora; nada seria capaz de fazer Bruce ir embora de novo. Ele ficaria com Clint até que Clint não o quisesse mais; e mesmo então sempre haveria em si uma parte ( uma parte? Talvez um todo fosse mais correto ) que cuidaria secretamente dele. 

Até lá, Bruce deixaria seus sentimentos bem claros. 

E com esse pensamento em mente, ele passou os braços envolta do pescoço de Clint, abrancaçando-o apertado; e foi instantaneamente correspondido com braços fortes contornando sua cintura e puxando-o para perto. Bruce enterrou o rosto na curva da nuca de Clint, sentindo a pele quente contra a sua; até a barba dele pinicando ligeiramente era uma sensação maravilhosa. Barton não pode ser bom para sua pressão, Tony disse no fundo de sua mente, despertando uma nova onda de raiva tão forte que só o cheiro familiar de Clint impediu que as coisas ficassem meio verdes, Deus sabe que ele dá nos nervos na metade do tempo. Um verdadeiro pé no saco. Mas Tony simplesmente não sabia nada. Ninguém sabia. Por alguma razão insondável — que talvez pudesse ser chamado de milagre —, Clint foi feito apenas para Bruce ver e entender. 

"Essa semana inteira," Bruce começou, sua voz em murmurio abafado contra a garganta de Clint. Ele o beijou ali também, rapidamente — e ainda sim foi fácil senti-lo tremer um pouco enquanto o abraçava com mais força. "Eu estava esperando para voltar. Para você."

Aqueles meses todos, ele completou mentalmente, eu só queria voltar para você. Enquanto tremia em porões gelados e escuros; enquanto fitava o olhar vago e vazio de Betty; enquanto ouvia Ross mentir, não pela primeira vez, e dizer você vai poder comer logo, logo. Mas ele quisera voltar principalmente enquanto olhava seu reflexo magro no espelho, o reflexo que encarava de volta com olhos desesperados que pareciam perguntar porque você achou que ir embora era uma boa ideia? 

Até que de repente um desses espelhos se rachou e explodiu e Clint estava lá, milagrosamente estava lá para buscá-lo. 

Como supostamente Bruce não deveria amar alguém que fizera tanto por ele? 

"Eu também." Clint murmurou, pousando uma das mãos no cabelo de Bruce, acariciando lentamente. "Senti muito sua falta." 

Bruce se afastou um pouco e segurou o rosto de Clint entre as mãos, sentindo-o beijar as pontas de seus dedos quando as pressionou sobre os labios dele. Por um momento, Bruce só o fitou nos olhos, aquele tom de azul que parecia uma mistura perfeita do mar e do céu. Então Clint se inclinou e o beijou, a língua dele pedindo por passagem. Bruce entreabriu os labios, sentindo como se seu coração fosse derreter para fora do peito e não demorou muito para se ver pedido nos braços de Clint, no modo como ele explorava sua boca lentamente, em como ele o apertava contra o proprio corpo.

Bruce gemeu no fundo da garganta com a sensação inebriante das mãos de Clint serpenteando debaixo de sua camisa, tocando seu estomago e sua cintura, antes de descer um pouco mais e agarrar sua bunda — o que lhe arrancou facilmente mais um gemido, dessa vez de surpresa. Clint riu alegre, o som abafado por outro beijo aviado. E isso era só mais combustível para o amor que Bruce sentia; o modo como Clint realmente o queria. Seja lá qual fosse a razão, Clint realmente o queria, o queria por inteiro, e não fazia disso um segredo, nem tentava esconder ou fingir que o desejo não era tão forte. O que era um alivio, porque Bruce tinha certeza de que não conseguira esconder ou fingir que não queria Clint queimando por ele, o desejando e o amando, tanto quanto ele por Clint.

Tanto verdade isso era que, quando Clint tentou se afastar um pouco, Bruce teve que se esforçar para conter a vontade de morder o lábio dele só para mante-lo perto.

"Desculpa." Clint murmurou, sem folego.

Bruce franziu o cenho; era difícil se concentrar para entender, ou para formular uma simples frase, mas depois de alguns segundos, ele conseguiu: "Pelo quê?"

Clint sorriu; aquele sorriso de lado que despertava uma onda de amor em Bruce... juntamente com algo não tão puro. "Te encharquei com a água da pia." 

Bruce o fitou. Tudo tinha sido tão quente e tão bom, bagunçando qualquer fio de coerência... mas agora que prestava atenção... 

Ele estava mesmo todo molhado.

"Clint!"

"Juro que não é uma desculpa 'pra te arrastar 'pro chuveiro, sério, cara, mas 'cê acabou de dizer que me ama, então—" Clint o beijou rapidamente. "— 'cê meio que não pode me dizer não." 

"Não faça eu me arrepender de ter dito isso." 

"Não vou—" Outro beijo. "— mas 'cê ainda não pode me dizer não; pegaria mal."

Bruce não pode evitar de rir um pouco. "Certo, você venceu." 

Clint sorriu largou, seu rosto irradiando uma felicidade pura e simples. Bruce pensou rapidamente em todas as coisas que já lhe aconteceram, desde a morte de sua mãe, a explosão de raios gamas, Betty lhe deixando, o Hulk espalhando o caos, aquele seis meses que pareceram um pesadelo sem fim, e pensou principalmente em como tudo magicamente desencadeava ali, naquele momento terno e perfeito, em que Clint sorria para ele e o puxava para um banho que não seria só um banho — como tudo magicamente desencadeava não só para sua própria felicidade, mas para a oportunidade de fazer alguém feliz com sua presença.

E Bruce soube que tudo tinha valido a pena, afinal.


Notas Finais


Opa, blz? 'cabou aqui mesmo, foi mal ~ ( ͡° ʖ̯ ͡° )
Na boa, lemon não é pra mim, sorry; USE SUA ~IMAGINATION~
- desculpe pelos erros. Eu sei que tem um MONTE deles, mas eles se escondem de mim & nunca os vejo ~cries

ENFIM, senta que lá vem historia. ( Na verdade, nem tanto. )
Sobre a minha incrível-mas-nada-maneira demora: foi mal. Sério. Eu nem tenho uma desculpa além de 'não 'tava conseguindo escrever' ( o que realmente acontece; quem escreve pode confirmar meu álibi aqui ), então todos esses meses passaram e eu fiquei OMG EU AINDA NÃO POSTEI NADA COMO ASSIM?????? Foi bem isso que aconteceu. Com lagrimas. Sorry. Sinceramente.

Então, é, eu decidi que vou continuar essa historia porque amo ela demais omg!!!111!!
MAS!!! as postagens serão mais esparsas; pensei em talvez uma vez por mês? Pode parecer tempo demais, mas convém levar em consideração que os capítulos aqui são longos ( 7/8 mil palavras ) o que no fim das contas daria o mesmo de postar um capitulo semanal com 2,5/3 mil palavras ( que ainda é mais do que a média da galera do barulho aqui, hein ); um caso clássico de trocar seis por meia duzia :^)

Sobre Tied Within.... Well. Eu tinha muitas expectativas pra ela, mas... acho que ficou dramático demais? E sinto que o pessoal não 'tá curtindo muito. Mas minha mente imaginou dramático e o que minha mente imagina, permanece.
O que basicamente significa que talvez ( TALVEZ!!!! ) eu a coloque em hiatus???? Não sei ainda. Veremos.

EMFIM ( disse ela, outra vez, novamente. )
MUUUUUITO OBRIGADA POR... FICAREM... AQUI???? OBRIGADA MESMO
Eu ganhei novos leitores & mensagens legais & woowowowo VOCÊS SÃO ADORÁVEIS ♡♡♡♡
Sério, 'cês são show de bolice pura ( como diria o grande mestre Po Ping. )
Muito obrigada mesmo!!!
& até o próximo capitulo!!!


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